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terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Os verdes mares de onde não há mar – 7ª parada: Bueno Brandão e a (in)cômoda sensação de não ter escolhas

(Fazemos tudo de nosso gosto e vontade ou temos uma mão que nos guia passo-a-passo?)

Olá!

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Depois da noite dos queijos e morangos colhidos frescos, o tempo deu uma boa firmada. É estranho. Neste ano da graça de 2022 (momento dos acontecimentos da viagem, não do texto), temos tido temperatura mais baixa do que o convencional, com bastante chuva. Os tontos que negam o aquecimento global se locupletam quando isso acontece: "tá vendo? Onde tá o aquecimento?". Mas hoje não. Sol a pino e mais de trinta graus, mesmo na altitude. É a senha para procurar água fresca. Vamos a Bueno Brandão.


Estamos aqui em uma cidade com média de altitude um tanto elevada, mesmo para os padrões serranos que vivemos nesses dias, sendo que a praça central está a 1300 metros.


Nesta mesma praça, as bicas fornecem água mineral bastante útil para um dia especialmente quente.

Em um outeiro que a torna mais um pouco elevada, fica a paróquia de Bom Jesus, com sua arquitetura meio maneirista e escadaria cercada por jardins.


Bem aos seus pés, encontramos o Centro de Apoio ao Turista, onde conseguimos um ótimo mapa da cidade. Além do receptivo, é um local onde também há muito artesanato e uma biblioteca, sem contar que é um belo edifício.

Antes de pegar o rumo para as cachoeiras, demos um pulo à Vinícola Fidêncio, onde fomos bater um papo com o próprio, além de bebericar os muitos produtos que lá existem. Não é um bom lugar para motoristas responsáveis.

Já no caminho para a Cachoeira dos Machados, uma curiosidade: um castelo medieval em plena estrada. Causa estranhamento, sabendo que o Brasil, na época dos castelos, tinha no máximo as ocas dos índios. Disseram-nos pertencer a um médico de nome Bispo de Sá e que o aluga para casamentos e outros eventos.

Mas vamos ao principal. No curso do Rio das Antas, encontramos a Cachoeira dos Machados 1. Dada a chuvarada dos últimos dias, estava bastante barrenta, mas, mesmo assim, é bastante bonita de ver. Fica dentro de um sítio de hospedagem, o que garante uma estrutura bem legal para o visitante.

Depois do almoço, fomos procurar outra cachoeira para passar a tarde. Chegamos a uma das principais, a Cachoeira dos Félix, com água de nascente cristalina.

Seu acesso exige uma bela descida a pé, onde os proprietários utilizaram mais de seiscentos pneus para construir seus trezentos e tantos degraus. O problema é a volta.

Além do tradicional poço e da água geladíssima, o lugar possui uma trilha ao longo do curso d'água formado.

Reclino em uma pedra para me secar, fico observando o espetáculo da natureza construído na minha frente. E é aqui que me dá a sanha de filosofar. Deveria estar pensando na beleza que vejo à frente, ou no almoço, ou na morte da bezerra, mas os pensamentos me vêm à cabeça, sem que eu possa evitar. Por que será que é assim? Olho para a cachoeira e há o impulso de pensar em uma mão que montou tudo aquilo, mas logo eu fixo o foco na cabeleira líquida que fica na crista da água que cai e vejo as pequenas gotas que se destacam.

Se houvesse um construtor, a natureza não teria tantas imperfeições, penso eu. Entretanto, um fato se descortina inexorável: aquela gota que eu miro está exatamente lá onde eu a vejo agora.

A pergunta que me brota é: essa gota está aí por um acaso? Ela não poderia, sei lá, estar sendo bebida por um bicho, enchendo as ruas de uma cidade, sendo processada por algum corpo, refrigerando algum motor, parada num vaso criando mosquitos, no canto dos olhos de uma menina triste, ou ela tinha que estar exatamente aí, caindo com aceleração de 9,8 m/s de uma altura de 40 metros, para contemplação de um gordo barbudo, mas sem bigode, que também não controla o fato de estar fazendo exatamente estes questionamentos? Vivemos em aleatoriedade ilusória? Nossos passos são predeterminados?


Uma das regras mais características da Ciência é a capacidade de fazer previsões. Se eu dispuser de algumas informações fundamentais, conseguirei estabelecer com precisão como um fenômeno se desenrolará. Por exemplo: se eu der um chute em uma bola com força tal, direção tal, atrito do campo tal e força do vento tal, é inevitável que ela vá para um local perfeitamente calculável. Se não foi, faltou algum fator, e não uma mãozinha metafísica marota.

Isso encantou o físico Piérre-Simon Laplace, que, ante todas as descobertas realizadas por Isaac Newton et caterva, verificou a possibilidade de que absolutamente tudo no universo era previsível. De fato, em uma cabeça matemática como a de nosso herói, toda a natureza podia ser reduzida a fórmulas, como acontece com a gravidade, a gravitação, as forças magnéticas e todas as outras. Em um contexto onde todos os fenômenos naturais estivessem sistematizados nas formulações, seria possível prever qualquer acontecimento, vaticinando o futuro de qualquer molécula.

Ocorre que Laplace viveu em uma época onde ainda não se conhecia a mecânica quântica. Se houvesse vivido, veria que as coisas não são assim "simples". Não que seja impossível de se fazer previsões nessa área da Física, mas há dificuldades inerentes ao princípio da incerteza de Heisenberg, cientista alemão que cuidou da mensurabilidade de partículas subatômicas. Segundo este princípio, quanto mais sabemos sobre a velocidade de uma partícula, menos sabemos sobre sua posição, porque não se consegue manter o par de referenciais. Para que eu saiba com precisão onde uma partícula estará daqui a um intervalo de tempo, eu preciso conhecer ambas as variáveis, e se eu não tenho a certeza do dado presente, também não tenho do dado futuro. Dessa forma, o funcionamento universal é caótico, e não organizado, como adoraria Laplace, e o que teríamos são probabilidades, e não determinações. Não vou me aprofundar na questão, porque não manjo dos paranauês e já é o suficiente para o que quero propor aqui.

Embora seja lícito supor que nosso pobre Laplace provavelmente se sentiria decepcionado com seu palpite furado, não podemos descartar a possibilidade de, um dia, o princípio da incerteza ser resolvido e que sua profecia volte a fazer sentido. Se pensarmos muito radicalmente, lembraremos que tudo é feito de átomos, inclusive o sistema nervoso por onde trafega os pulsos elétricos que nos fazem perceber o mundo. Se há chance de se prever todo o movimento cósmico, podemos talvez pensar que mesmo nossos pensamentos são predeterminados, como a gota da cachoeira.

Será que isso faz sentido? É uma discussão longa, que se arrasta há tempos. O velho Santo Agostinho, por exemplo, já dizia que, se não somos livres para escolher, não há sentido em falar de racionalidade. Um ser racional é aquele que possui predisposição para fazer opções, inclusive aquelas que redundam no mal. Se assim não fosse, não existiria sentido no pecado: quem não pode escolher, não pode ter culpas pelos atos e escolhas. O livre-arbítrio, nesse caso, é um dom divino que dá ao homem capacidade de guiar sua própria vida, ainda que seja pelo mal. Já na Reforma Protestante, Lutero prefere dar mais ênfase à graça divina, colocando para o homem a fé como meio salvífico, e não suas escolhas. Calvino vai mais fundo ainda, reabilitando a predestinação (vide), tendo como fundamento as afirmações bíblicas de onipotência divina. O homem recebe sinais de sua graça, mas nada pode fazer em relação à sua sina, apenas viver de acordo com as regras que lhe são dadas. Volta e meia vejo algum floreio dizendo que há escolhas dentro da predestinação, mas, infelizmente, são argumentos cheios de contradições lógicas.

Com o advento do Positivismo, a escola filosófica que festejou a ciência como solução para todos os problemas e que só colocava como conhecimento válido aquele redutível a fórmulas, a hipótese do determinismo foi elevada aos altares, principalmente com Hippolyte Taine. Já aqui, tínhamos que todo o aspecto ambiental e genético influenciava na maneira como um ser humano pensa, inclusive colocando muito na conta o fator racial. 

Embora o Positivismo de Comte e o Determinismo de Taine tenham sofrido duras derrotas com a tecnologia de guerra, que demonstrou que o aperfeiçoamento humano tinha mais a nos por medo do que esperança, o fato é que, por outras vias, a ideia de um universo ordenado inclusive a nível da pessoa ganhou força a partir do século XX. O próprio marxismo se encarrega de demonstrar parcialmente como a ideologia e as superestruturas delineiam um mundo pelo qual os pensamentos são movimentados dentro de limites. As relações estruturais de uma sociedade são construídas de acordo com a proposição da manutenção dos status quo, especialmente na questão econômica. A partir disso, todo o conjunto político, judiciário, religioso e, no limite, interrelacional é construído, de forma a escrever o trajeto por onde os componentes da sociedade pensam.

No entanto, é com a corrente do Estruturalismo que a ideia de um determinismo social passa a ganhar mais corpo. Grosso modo, o Estruturalismo entende que todos os aspectos humanos derivam de relações com um sistema estabelecido, e é sobre essa estrutura que toda a realidade se assenta. Por exemplo, nós gostamos de futebol porque estruturalmente esse esporte está inserido tanto na nossa cultura, quanto em nossas relações econômicas, já que ele movimenta vários recursos. Nativos da ilha de Tonga não têm futebol na sua lista de preferências porque ele não faz sentido lá, não pertence às suas estruturas. O Estruturalismo, mais que uma corrente filosófica, é uma maneira de pensar o mundo, e tem seus braços na Linguística, na Antropologia, na Psicologia, na Sociologia e assim por diante.

Um estruturalista diria que as pessoas se adaptam à estrutura social à qual pertencem, e isso guiaria sua maneira de pensar. Notaram que sabor forte de causalidade que isso tem? Algo é assim porque anteriormente tais condições eram assado, de forma a moldar o presente. Isso, por exemplo, ajudaria a explicar porque estou na cachoeira nesse momento. Se eu for recuando no tempo, verei que estou aqui porque tirei um descanso, porque trabalhei por um determinado período, porque entrei em um determinado emprego, porque estudei para um determinado trabalho, porque me senti atraído por uma determinada carreira e assim para trás. Cada um dos pontos de inflexão já estaria descrito na própria relação de causa e efeito: como eu recebi uma educação específica, tive uma história específica, ouvi opiniões específicas e fui formado em uma cultura específica de uma casa específica, cada escolha que fiz na vida não poderia ser diferente do que foi, e a escolha, na verdade, é uma mera ilusão.

Mas o meio é tão engessante que torna absolutamente inviável a escolha do indivíduo? Não é o que pensam os existencialistas, por exemplo. Para eles, não faz sentido entender o ser humano como se fosse qualquer outro objeto no universo. Uma pedra, uma bola, um aspirador de pó ou uma agulha de costura, sejam naturais ou manufaturados, não possui o elemento volitivo que nos caracteriza. No limite, nem mesmo um animal, porque a ele cabe seguir seus instintos e cumprir suas necessidades imediatas. Dono de abstração e capacidade de escolha, não há como estabelecer um plano predeterminado que dirá o que uma pessoa será. Ela, no final das contas, sempre trará consigo uma consciência e uma liberdade para fazer suas escolhas, mesmo que não seja nenhuma. Os existencialistas entendem que um determinismo, seja ele qual for, nada mais faria do que ocupar um lugar de divindade, que preestabelece cada lugar para cada coisa no universo, o que é um erro, reputam eles. Por muitas vezes, nossas precondições sociais e históricas estabelecem limites da mesma forma que as religiões fazem, ao impor coações no que podemos ser, e, aí sim, temos um destino desenhado.

É evidente, no entanto, que o meio gera a rede de influências inegável nas escolhas do contribuinte. Uma pessoa que more em uma cidade com um time vitorioso terá uma bela motivação para torcer para ele, mas isso não pode ser imposto como regra. Portanto, a partir do Existencialismo, temos um direcionamento para o mesmo universo probabilístico da mecânica quântica, incerto por nossa capacidade de escolha, mas com algum grau de previsibilidade, dado o ambiente que nos cerca e baliza limites.

E de repente eu já nem estou mais olhando para a gota que se perde no restante da água, com a visão perdida de quem pensou e se perdeu, já passando para a próxima questão, escolhendo (ou não) o que fazer logo em seguida. Eis uma das grandes desvantagens em não se seguir uma religião: os fieis já tem tudo isso pronto, tudo isso dado, seja para estabelecer a necessidade de se fazer escolhas, seja para deixar tudo na mão de seu deus. Tudo deve ser pesado e sopesado, e a incerteza é sempre o resultado final.

Desvantagem? Não sei. Também disso não tenho certeza. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Vai para o ótimo Santo Agostinho. Discorde de tudo o que ele diz, mas saboreie a construção de argumentos com lógica impecável.

SANTO AGOSTINHO. Sobre o Livre-arbítrio. São Paulo: Vozes, 2021.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Os verdes mares de onde não há mar – 6ª parada: Bom Repouso, com morangos e estátuas que não sabemos quanto durarão

(O que vem depois que a chave da religião no Brasil virar?) 

"Pregam a doutrina humana os que dizem que assim que a moeda tilintar na caixa, a alma voará para fora do purgatório" - Lutero 

Olá!

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Quando estávamos saindo da pequena Tocos do Moji, observamos uma coisa estranha nos morros. Uma série de cabaninhas semicirculares ocupavam grandes extensões da parte rural, o que notoriamente constituíam estufas. Mas o que seria tão delicado e estaria sendo cultivado sob elas? A resposta veio rápido, na forma de pórtico de entrada da cidade de Bom Repouso.

É que Bom Repouso é a principal produtora de morangos do estado de Minas Gerais. É tipo assim: Bom Repouso está para Minas como Atibaia

está para São Paulo.

O resultado é uma curiosa cobertura de estufas pela região rural, em um sistema que promete proteger as delicadas frutas das intempéries e dos gulosos pássaros.

Como você está na "boca da botija", pode escolher frutas de acordo com seu gosto, incluindo chulapas deste tamanho.


Os preços são bem baixos, algo como um quarto do que você paga na feira, com o frescor de quem acabou de colher a fruta. Eu aproveitei algumas caixinhas para fazer um jantarzinho com a patroa, juntando com queijo e a indefectível cerveja.


A cidade meio que vive em função do morango, com vários armazéns dedicados à sua venda ao longo da estrada. Além disso, há o aspecto religioso, e bastante marcante é a matriz, dedicada aos santos Sebastião e Roque.

Da mesma praça dessa igreja, vê-se a grande (grande mesmo) atração turística da cidade: o santuário de Nossa Senhora das Graças, com sua enorme estátua.


Trata-se da imagem mais alta da América Latina dedicada à santa, tendo mais de vinte metros de altura.


O simbolismo contido nesta imagem vem da comparação de Maria com a nova Eva, que veste um manto da cor do céu e pisoteia a cobra que representa o mal.


O tamanho da imagem impressiona, especialmente quando comparada à pequena igreja que lhe ladeia, pouco maior que uma capela.


Não menos impressionante é o quanto a subida do morro é íngreme. Como eu entrei com pouco embalo, achei em determinado momento que precisaria completar a subida a pé.


Vencida a pirambeira, entretanto, tem-se uma vista panorâmica muito bonita da cidade, tanto da área urbana…


… quanto das plantações de morango que já ficam bastante próximas.


Isso reflete que a fé dos católicos ainda é muito presente nas cidades menores do interior, e o quanto seus habitantes ainda são tocados pelas antigas tradições do Brasil colonial. Mas há mudanças em ritmo acelerado que ainda chegarão por aqui, e não tarda muito.

Uma das possibilidades da diminuição das paisagens compostas por signos de matriz católica seria uma aplicação mais rigorosa dos conceitos de laicidade do Estado, tema que abordei neste texto link da série "o que ele é e o que ele não é". Em tese, a partir da promulgação da Constituição, não deveríamos ter dinheiro público aplicado em prol de uma religião, mesmo que ela seja majoritária. É claro que essa regra não deve ser absoluta, nem universal. Há muito patrimônio histórico que está coligado à questão religiosa, e, neste caso, a manutenção é da história, e não da religião. Dessa forma, faz sentido que se aplique verbas públicas em entidades religiosas. Outra discussão diz respeito ao turismo. Embora nesse caso eu não tenha tanta convicção da natureza dos gastos, é fato que cidades como Aparecida, Trindade e Nova Trento vivem em função da religião, e investimentos públicos podem se justificar pelo retorno financeiro à cidade. Fora dessas circunstâncias, a regra do Estado laico deveria se aplicar com mais critério. Mas a ameaça ao primado católico está muito longe da laicidade. É muito mais provável que a questão se agrave com o crescimento exponencial do Protestantismo no país, especialmente na forma do neopentecostalismo.

Embora a miríade de denominações tenda ao infinito, há algumas características comuns nelas que confrontam diretamente o Catolicismo de forma mais ou menos comum, o que pode ser um problema e tanto dentro de poucos anos. Vamos entender um pouco melhor.

O Protestantismo possui um fato histórico inicial bastante bem marcado, que constitui as 95 Teses sobre as Indulgências de Martinho Lutero. Ele foi um monge agostiniano que viveu entre os séculos XV e XVI, ou seja, em plena Idade Média. Como estava em desacordo com a doutrina das indulgências da Igreja Católica, resolveu expor seus ideais publicamente na porta do castelo de Wittenberg. As indulgências ou endoenças constituíam a remissão total ou parcial dos pecados cometidos por uma pessoa arrependida. O sacramento da confissão era suficiente para que um fiel se visse livre da pena espiritual pelos seus pecados. Entretanto, na doutrina católica, era preciso pagar pelo dano material causado pelo pecado, e acreditava-se que havia a pena temporal a ser remida, o que deveria ser cumprido no purgatório, uma espécie de mistura entre colônia penal e escola, onde as almas já desencarnadas sofreriam "correções físicas" com o objetivo de remover os males causados a outrem. As indulgências serviriam para que o tempo de permanência da alma no purgatório fosse diminuído ou mesmo extinto. O grande problema que Lutero via nas indulgências era menos de natureza teológica (embora também existisse) do que pela prática de simonia, a venda de objetos sagrados e sacramentais. Essa era uma prática corriqueira da Igreja Católica na época em que Lutero expôs seu ideário, e justificava-se pela necessidade de dar manutenção à grande estrutura de templos católicos.

Fundamentalmente, as teses diziam que os certificados de indulgência esvaziavam o arrependimento do fiel, pelo fato de que se desfazia a necessidade da busca pela contrição sincera e de se evitar o pecado, bem como colocava em segundo plano outras possibilidades de remissão, como as obras de caridade e os atos de misericórdia, que possuíam um efeito prático muito mais visível que a aquisição de indulgências.

A princípio, Lutero tomou um certo cuidado em não se colocar em confronto direto com o papado, mas, uma vez recusando-se à retratação, foi considerado herege e se colocou a desenvolver sua nova igreja. Embora o Luteranismo tenha mantido mais pontos de contato com a prática católica do que parece qualquer culto evangélico de hoje em dia, de lá já brotaram algumas das principais diferenças que foram adotadas pelas mesmas e se mantém até os dias de hoje.

Basilarmente, as diferenças fundamentais entre católicos e protestantes são as seguintes:

Primado da Bíblia: é indiscutível que a Bíblia seja o primado doutrinário e teológico tanto para católicos quanto para protestantes. Entretanto, os protestantes reputam unicamente a Bíblia como fonte válida de textos para serem interpretados com relação a sua fé, em uma doutrina conhecida como sola scriptura. Entendo que há algo de contraditório nessa maneira de pensar a Bíblia. Basta se pensar que qualquer interpretação sobre a Bíblia está fora da Bíblia, e caímos desta forma em um daqueles paradoxos circulares. Já o Catolicismo entende como fontes doutrinárias válidas a tradição e o magistério da igreja. A primeira diz respeito aos costumes adotados pelos primeiros cristãos que vieram preencher certos vazios teológicos que a leitura direta da Bíblia, especialmente dos Evangelhos, produziu na formação dos rudimentos do Cristianismo. Já a segunda é referente a autoridade que a igreja tem para se autoorganizar e fornecer respostas e formação de dogmas que escapam a leitura direta da Bíblia. Também possui suas contradições, uma vez que as diferentes decisões são tomadas ao longo de tempos distintos que envolvem realidades muito divergentes, seja de caráter geográfico, seja de caráter histórico.

Papado e sacerdócio: a Igreja Católica possui uma estrutura hierárquica bastante rígida, e que é traduzida por uma escalada na carreira de acordo com a evolução do sacerdote. Acredita que o legado da igreja foi deixado diretamente de Jesus para São Pedro, e que esse episódio estabeleceu aquilo que ficou conhecido por papado. Como São Pedro foi martirizado na cidade de Roma enquanto exercia seu sacerdócio, ficou estabelecido que era essa a cidade em que ele exercia seu episcopado, e desde então o bispo da cidade de Roma é considerado o Papa, líder da Igreja Católica em todo o mundo. A partir deste ponto mais alto da pirâmide sacerdotal, a carreira eclesiástica se divide entre os bispos (incluindo aqueles com funções especiais, como os monsenhores, os cônegos e os cardeais) os presbíteros (que comumente chamamos de padres) e os diáconos, que possuem a função de serem ministros da palavra. Antes disso, há funções pré-eclesiásticas, como o acolitato e o leitorado, traduzindo um longo tempo de preparo para o exercício das funções sacerdotais. Os protestantes não reconhecem a transmissão direta da autoridade de Jesus a Pedro e menos ainda o valor do papado. Sua estrutura é muito mais maleável (com a notável exceção do Anglicanismo, onde o rei da Inglaterra é considerado o líder máximo), possuindo estruturas muito mais locais e pulverizadas. A formação de um pastor é extraordinariamente mais rápida que a de um padre, o que, se por um lado prenuncia um preparo menor, por outro desfavorece a existência de uma casta sacerdotal.

Sacramentos: são rituais que expressam sinais divinos da presença do deus cristão. No Catolicismo, eles são sete e percorrem toda a vida do fiel: batismo (introdução da criança na igreja), eucaristia (renovação do ato sacrifical de Jesus), crisma (confirmação pública da fé adotada no batismo), matrimônio (opção pela vida conjunta para a formação familiar), ordenação (opção pela vida sacerdotal), confissão (para absolvição dos pecados) e unção dos enfermos (para preparação dos moribundos à morte). Nas igrejas evangélicas, esses sacramentos, via de regra, são apenas dois: batismo e eucaristia, com diferenças significativas. O batismo de crianças não é admitido, porque somente a partir da idade da razão uma pessoa pode tomar uma decisão de fé consciente, e a eucaristia, apesar do caráter sacramental, é antes um memorial da última ceia do que propriamente uma transubstanciação do pão e do vinho em corpo e sangue de Cristo, como creem os católicos. Os protestantes, especialmente os mais recentes, possuem ritos bastante semelhantes aos católicos, como os "óleos ungidos" (sic), e os matrimônios, embora existentes, não têm caráter sacramental, sendo considerados mais uma apresentação do compromisso dos noivos à comunidade.

Celibato: embora não seja uma condição histórica, a igreja católica adotou o celibato para uma entrega total do sacerdote à sua comunidade e, subsidiariamente, para não existirem transtornos no sustento de famílias pela igreja. Já os pastores, em sua maioria, não abrem mão de sua vida fora da igreja, o que significa que podem manter suas atividades financeiras e sua vida social, incluindo aí o casamento. São, inclusive, fortemente estimulados a isso.

Veneração dos santos: para os católicos, os santos são pessoas que se destacaram das demais por sua vida cristã vívida e modelar. Por esta razão, seriam dignos de ser elevados aos altares, mas na condição de veneráveis, já que a adoração seria reservada somente a Deus. Os protestantes entendem que essa interpretação é um macete para a idolatria, condenada veementemente pelo Velho Testamento. As igrejas mais tradicionais, inclusive, se negam mesmo a utilizar imagens impessoais, como é o exemplo da cruz.

É aqui que a porca torce o rabo, especialmente pela predileção dos católicos à figura de Nossa Senhora. Realmente a coisa é polêmica, se observada a olho vivo e faro fino. Se é aceitável a alegação da força modelar dos santos, é bem verdade que é evidente que a veneração extra concedida a Santa Maria transcende em muito ao que pode ser depreendido dos Evangelhos. Com exceção de São Lucas, as referências a ela são esparsas e a colocam mais como uma via útil e fornecedora de aspecto humano à divindade neonata. Toda a reverência adicional, como a virgindade perpétua, a assunção aos céus, a concepção sem pecado original e outros dogmas são oriundos da tradição e do magistério, justamente as fontes que os protestantes não aceitam. Por esse motivo, a estátua daquele tamanho deve arder nos olhos evangélicos como se tivessem levado um borrifo de fumaça na cara.

Hoje ainda não temos grandes ocorrências, até porque os católicos ainda são muitos e os alvos das santas metralhadoras ainda são religiões de influência africana, com toda dose de racismo contida no ato, mas as estatísticas demonstram que o arco está se movendo, com um agravante: as novas denominações pentecostais aproximam-se mais e mais do poder. A nova bancada evangélica chega a 20% dos deputados, o que representa a maior bancada temática do Congresso. Como a população evangélica se aproxima hoje de 30% do total, é provável que essa representação continue aumentando. Chegará um momento em que poderão ser invocados princípios do Estado laico (vejam vocês) para que não se permitam mais a construção de imagens públicas, principalmente dessa magnitude. Já pararam para pensar nisso?

Eu, na minha posição atual, tenho pouco a lamentar. Mas, com um pedido de perdão a quem pensa diferente, entendo que a troca de guarda tem um aspecto triste. É que a liturgia católica é belíssima, indo além do seu significado para os fiéis para uma dimensão cultural muito profunda. Ela tem uma complexidade que se estende por todos os seus tempos, com estrutura específica para cada um deles, sendo que vários dos seus elementos se repetem, enquanto vários ganham novos sentidos no decorrer do ano.  Não é simples de se acompanhar a liturgia católica. Trabalhei anos a fio nos meus tempos de fé e era preciso, para seguir com critério, uma boa antecedência para preparar tudo. O encaixe das músicas que se adequem à liturgia da celebração é bastante exigente para o músico. Nada em uma celebração é vazio de significado, e isso traz uma carga cultural enorme, talvez maior do que a igreja se digne a esclarecer aos seus fiéis, e isso é um enorme problema: quando você não compreende o que está fazendo, tende a se enfastiar. Enquanto isso, nos protestantes mais modernos, a cerimônia é extremamente simples, com o molde leitura-pregação-louvor se repetindo quase sempre. Dessa simplicidade, brota uma compreensão fácil, mais próxima das pessoas.

Mesmo estando fora da religião, entendo que há um valor intrinsecamente cultural e artístico que se perde na substituição de um modelo por outro. Mas aí é uma mera opinião. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

As teses de Lutero são muito fáceis de achar na internet. Segue um endereço que as contém:

LUTERO, Martinho. 95 teses sobre as indulgências. Disponível em https://www.luteranos.com.br/lutero/95_teses.html. Acesso em 31.12.2022.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Interrompendo a viagem: o adeus a Pelé

(Tem coisas que nos caem mal de verdade)

Olá!

De repente, a realidade cai como uma pedra na nossa cabeça.


Eu estava realizando os relatos de minha última viagem, que podem ser vistos e acompanhados a partir deste endereço. Não tinha nenhuma intenção de interrompê-la, porque quebra o fluxo que há no substrato dos pensamentos, além de deixar os textos pulverizados pelo blog, o que se provou ruim em outros momentos, mas não tem como evitar de fazê-lo desta vez.

No meu último texto, eu falava sobre mitos, e citei Pelé. Mencionei como foi construído o mito ao redor do seu nome, e como é difícil confrontar os mitos. Eu escrevia em dois momentos marcantes: o rei já estava no leito de morte, desenganado de um câncer que lhe consumiu nos últimos tempos, e eu estava enfrentando minha segunda covid (sobre a primeira, leia mais aqui). Eu queria sair digitando, como fiz na morte de Maradona, mas a febre e a diligência da patroa me impediram de prosseguir com a tarefa. Mas agora estou melhor, e vou levar minhas rápidas observações a cabo: a dor pela perda do ídolo.

Da maneira que descrevi as distorções da esfera mítica, este texto será uma dialética com cara de contradição. E é mesmo, filosofia é exatamente isso.

A morte de Pelé foi mais uma que me caiu mal. Outras aconteceram, e eu vou falar um pouco sobre elas. A morte de Garrincha, em 1983, ocorreu quando eu tinha 13 anos, e estava em viagem na terra dos meus parentes de Maringá. Ele morreu derrotado pelo consumo excessivo de álcool, o que me trouxe uma série de lembranças de parentes que vinham para São Paulo, tratar-se inutilmente de cirrose, uma família de bêbados. Acho que foi meu primeiro gatilho, porque passei a viagem toda da volta meio calado, pensando nos limites do corpo e da vida.

Outra foi pouco tempo depois, quando eu já tenteava uma carreira musical, a do baixista do Thin Lizzy, o irlandês Phil Lynnot. Um baixista que cantava, como eu. Sua morte me deixou meio que desencantado com o show biz pela primeira vez, pelo quanto que os excessos nos trazem prejuízos.

Outra, mais recente e muito semelhante, foi de Lee Kerslake, que, mais uma vez como eu, era um baterista que cantava, e cantava muito. Já aqui me coube uma aflição por aqueles projetos que temos para a aposentadoria, mas que na maioria das vezes não dão em nada.

Não são só os famosos que me trouxeram mais do que a inspiração filosófica ou o gatilho psicológico, uma espécie de véu de tristeza difusa. No meu piccolo mondo, talvez a maior tragédia que acompanhei foi do filho de um colega de trabalho, com quem, inclusive, não tinha muito contato. Ele tinha um filho com a mesma idade do meu, por volta de quinze anos, quando veio a papeleta do RH pedindo doadores de plaquetas. O sobrenome denunciou a filiação, e fui me inteirar um pouco melhor. Ele tinha uma doença sanguínea muito parecida com leucemia, que destruía por completo suas plaquetas e lhe sujeitava a sintomas horríveis, que nem tenho ânimo de digitar aqui. Fui buscar informações sobre como poderia ajudar, mas diabéticos são inúteis para esse tipo de coisa. Algum tempo depois veio a notícia da morte, e eu fiquei bem mal. Queria dar um abraço de solidariedade no colega, mas não consegui reunir coragem, limitando-me a deixar um bilhete sobre sua mesa.

Agora eu estou aqui, tentando controlar a febre da covid (juro que continuo me cuidando) e concertar os pensamentos sobre a perda para o país, para os admiradores e para mim mesmo. Não canso de falar sobre a necessidade de racionalidade, mas há momentos em que ela não consegue superar as emoções. Principalmente neste espaço, onde eu tanto falo sobre futebol quando preciso formar um exemplo ou estudo de caso, não posso deixar de expressar rápidas palavras sobre o fato.

Eu já conheci Pelé dentro da esfera mítica. Quando ele parou de jogar, eu tinha 7 anos de idade, e era muito raro que suas atuações pelo Cosmos fossem transmitidas no Brasil. Pensando bem, é uma bela alegoria: Pelé viro mito pelo Santos, cuja etimologia já denuncia seu ser apartado dos demais, e terminou sua carreira no Cosmos, no universo inteiro, e de lá se eternizou. Mas eu já o recebi com o filtro de Rei do Futebol, uma condição de herói de um país que, como sempre, vivia tempos difíceis e com poucos elementos para se orgulhar. No entanto, como valorizo os depoimentos como saborizadores da vida, relembro do que contavam os velhos corintianos, meu pai, meus tios, meus avós, presos nos longos jejuns de títulos e de vitórias sobre o Peixe, que contavam o sentimento de aflição ao verem subir a campo aquele time alvinegro no Pacaembu, tendo à frente Dorval, Mengálvio, Coutinho e Pepe, ladeando ele, o Rei, o ataque mais temido de todos os tempos. Foram onze anos fracassando contra o time da Vila, assistindo atuações que não foram gravadas pelas câmeras de TV, mas a reverência superava o ódio, porque, segundo eles, era impossível não reconhecer a maestria, o futebol elevado à condição de arte, semelhante ao balé na execução e à arquitetura na construção. E, sim, à pintura na conclusão a gol.

O que faz com que uma pessoa se entregue para sofrer? Por que meus ascendentes se enfiavam nos ônibus lotados para ter uma garantia de que teriam de voltar desolados? Morávamos um bocado longe do Pacaembu, a casa mais habitual para os clássicos, e lá se iam os velhos perder o domingo, a quarta-feira. Mas o fato é que havia uma esperança e uma garantia: a de que o suplício acabaria e a de que se veria mais um espetáculo. Qualquer resultado seria enaltecedor, hoje eu compreendo.

Pois bem. Aquele tempo acabou, aquele time acabou e agora o homem que usava a coroa também acabou. Como é difícil ficar órfão, mesmo sabendo que o homem é finito, mas a obra não. Restarão as filmagens, as fotografias, os relatos, as reportagens, os troféus, as memórias, essas formas de nós manterem vivos pela eternidade. Mas não é possível negar um sentimento de impotência perante à morte.

Tantos e tantos filósofos falaram sobre ela, cada um de sua forma, mas nenhum com a resposta definitiva. Por mais que tentemos, não conseguimos naturalizá-la, seja pela incerteza do que vem depois, seja pela certeza de que não virá nada depois. Dessa forma, temos a eterna impressão de obra incompleta, de que poderíamos ter feito mais e melhor, e a morte do mito, aquele que se colocava diante de nós como uma resposta à eternidade, faz-nos nos reconhecer novamente como seres finitos, contingentes, acidentais, incompletos, completamente sem as rédeas do destino ou o timão do próprio tempo.

Isso explica boa parte do fenômeno religioso. O mito faz acreditar que há um lugar melhor, onde só a perfeição tem lugar, e que não é possível de existir em mundo tão cheio de defeitos. Ele não pode ser da própria vida, cheia de dores e desventuras, mas os heróis fazem pressentir uma dimensão onde isso tudo é possível. Eu chamo isso de talento, alguma mais palpável e realista, que nos faz sentir glorificados em nossa própria humanidade, que somos capazes de realizar por nós mesmos, como espécie.

O talento fica, e há uma montanha de gente que diz que quem morreu foi o homem, e não o herói, o mito, a lenda. Certo: a obra persiste ao artista, mas a obra não surgiria sem o artista. E é impossível não se sentir atingido como ser humano quando sabemos que, embora haja horas e horas de filmagens de seus feitos, toneladas de fotos, narrações e narrativas, não vamos mais ouvir da própria boca do homem o que é o feito do mito, como ele chegou à proeza, o que ele sentia quando fazia seu mister, e o consagrava como sendo o que é. A morte do Rei do Futebol já estava decantada e esperada, desde o momento em que foi tornada pública sua condição clínica. Mas a dissociação entre o homem e sua obra causa uma dor maior que a de um parto, porque inevitavelmente nos coloca diante da nossa fragilidade e finitude.

A morte do Pelé me pegou mal mais uma vez. Talvez a febre esteja me deixando um pouco menos criterioso, e a maldita rouquidão faz com que eu fale pouco, mas dessas dores nós nos livramos diariamente. O que me faz sentir fraco hoje não é o vírus chato que me afastou dos filhos na virada do ano, mas a consciência de que os mais poderosos símbolos da humanidade não são mais do que isso, símbolos. O que é coisa para caramba, mas que tem limite.

A morte do Pelé é morte da humanidade inteira.

Sem mais. Bons ventos a todos.

Recomendação de documentário:

Há vários materiais sobre o Rei espalhado por toda a parte, mas um dos mais bem produzidos é, sem dúvidas, aquele que recomendo abaixo:

MASSAINI NETO, Aníbal. Pelé Eterno. Filme. Brasil: United Artists, 2004. Cor e P&B. 120 min.

Os verdes mares de onde não há mar – 5ª parada: Tocos do Moji gerando pastéis míticos e discussões sobre o tema

(A esfera mítica está no nosso dia-a-dia, nas pessoas que admiramos. Mas muitas vezes polarizam interiormente nossa capacidade de absorver o mundo divergente).

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Não sou muito chegado em compras, apesar de morar a menos de um quilômetro da 25 de Março, rua de quinquilharias de São Paulo conhecida em todo o Brasil. Principalmente quando a compra é inespecífica, aquela coisa de andar para um lado e para o outro procurando promoções, pechinchas e descontos. Nestes casos, costumo procurar ser ainda mais objetivo do que se fosse a passeio, e fico de bode quando forçosamente acompanho a patroa nesses empreendimentos. No entanto, se a busca é gastronômica, a coisa muda de figura.

Disse tudo isso porque minha parada anterior, em Borda da Mata, teve muito da barganha precitada, e achei por bem dar uma sequência mais enfiada na ruralidade, sem tantas "oportunidades" e, para isso, Tocos do Moji é uma belíssima pedida.


Tocos do Moji tem esse curioso nome com origem incerta, mas a verdade parece estar no mais óbvio: os pedaços de troncos de araucária que se depositavam nos fundos do Rio Moji-Guaçu, o que providenciava algumas passagens naturais pela água. É pequenininha de tudo, quase limitada ao que é possível ver do morro da igreja matriz.


Aliás, mesmo pequena, tem muita religiosidade espalhada pela cidade de 4000 habitantes, começando pela Igreja Nossa Senhora Aparecida, que fica no cimo do morro de onde tirei a foto anterior. Nos degraus da escadaria central, há uma oração semelhante a um rosário, conhecida como Terço da Alegria de Nossa Senhora.


Uma grande imagem da padroeira do Brasil pontua no lado da entrada da paróquia, como se estivesse na mesma posição que eu tomo ao tirar minha foto.


Logo na entrada da cidade, outra marca cristã está na igreja dedicada a Santa Luzia, tida como protetora da visão, dada a narrativa do seu martírio, onde os romanos, bonzinhos, arrancaram seus olhos para forçá-la à apostasia.


Pela área rural, tem uma porção de capelinhas, algumas delas muito bem cuidadas.


E, no alto do morro que faz caminho para Bom Repouso, tem um Cristo Redentor, um dos raros que está pintado em cores variadas.

Passamos pela área rural, em busca de cachoeiras para dar uma molhada nas costas. A primeira foi a cachoeira do Zé Rita, que, na verdade, é um salto no rio Moji Guaçu.


Depois, mais adiante, um pulinho na Cachoeira das Pedras.


No pequeno centrinho, quase como um daqueles botecos perdidos em qualquer cidadezinha que visitemos, tem uma portinha que esconde um grande tesouro: a pastelaria do Zé Bastião.


Neste minúsculo estabelecimento, produz-se uma iguaria que virou um símbolo de Tocos do Moji. Um pastel de angu, daqueles que é feito tradicionalmente em toda a região da Mantiqueira, dos quais já comi vários, alguns muito bons, como o do Mercadão de Paraibuna e os das porções do Mai Será o Binidito, de São Luiz do Paraitinga. Mas sabe aqueles casos em que há um não-sei-o-que que diferencia algo de tudo o mais parecido? É o caso que temos à nossa frente.

O patriarca, infelizmente, não vive mais. Morreu com outros familiares em um acidente automobilístico, mas deixou essa receita que virou patrimônio cultural da cidade.


Geralmente, um pastel de angu é mais macio do que um de feira. A diferença você vê no banco em que você se senta para comer, incólume no primeiro caso, pleno de migalhas no segundo. Por padrão, mesmo que esteja bem sequinho, o pastel de angu, dada sua porosidade, retém mais óleo do que seu congênere feirante. O milagre do Zé Bastião está no fato de que ele conseguiu manter a crocância de seu pastel sem multiplicar as casquinhas que se desprendem, chegando a uma espécie de mundo ideal da massa, que vem recheada na medida certa. Por isso ganhou o estatuto de mito nesta pequena região.

Por falar nisso, nos últimos tempos, as respostas rápidas que as redes sociais ofereceram fez nascer o termo "mitada", que consiste em dar contrarrespostas incisivas ou humilhantes a supostos interlocutores. Admiradores do presidente recém-saído desgastaram o termo ao máximo, porque qualquer respostinha atravessada que o cidadão dava, lá vinha sua camarilha: "mito, mito, mito". Mas há algo que faz sentido filosófico no termo, especialmente antes de sua corrosão.

Eu já falei sobre mitologia neste blog por várias vezes, especialmente neste aqui, e meu objetivo aqui não será repisá-lo, mas tentar entender como se dá o processo de mitificação, ou seja, de retirar um ser humano normal de seu lugar e colocá-lo em um campo sacralizado, e como de lá ele gera adeptos inamovíveis. Mas é impossível não passar pela origem do termo.

Mito, apesar de parecer estar relacionado a mentira, na verdade indica uma história contada. Os primeiros homens já criaram suas mitologias quando faziam sua busca por respostas às questões menos explícitas da natureza que os cercava. O surgimento do universo, a criação da vida, as aparições dos ciclos, o irrompimento dos fenômenos, tudo isso não tinha explicação clara e evidente como o nascimento de uma criança específica tem, por exemplo. Para esse caso, pode-se claramente descrever o passo-a-passo geracional de um parto, ainda que certas sutilezas não sejam conhecidas. No entanto, quanto eu mais recuar no tempo, menos elementos eu terei para explicar aquelas coisas mais distantes. Como sou humano e quero explicações, passo a fazer suposições, e delas nascerão narrativas que demandarão novas narrativas e assim por diante, formando um corpus que poderá ser coligido em um conjunto que forma uma mitologia.

Muitas das narrativas mitológicas incluem um componente heroico, e é simples de entender isso. Como os mitos incluem fenômenos que influenciam a vida de toda uma comunidade, podendo se estender à humanidade toda, é suposto que derivem de feitos extraordinários. Não é da ação prosaica de uma pessoa qualquer que brotará um acontecimento digno de ser repassado às gerações, mas de algum feito a que poucos é dada a capacidade de fazer. O ato heroico põe seu protagonista em risco, ou chegando em locais inimagináveis, ou ainda em números inconcebíveis, e o coloca em distinção aos demais homens.

Os mitos, nesse sentido, expressam o desejo do ser humano de ser algo mais sublime do que sua vida ordinária faz entrever. Como não é dado a qualquer um sair do círculo vicioso da vida quotidiana, os homens que realizam algum tipo de ato heroico representam o sonho de alcance da comunidade como um todo. Quando um herói realiza seu feito, este é de toda a sua comunidade, e não somente de si. Por outro lado, como ele tem todo o poder do símbolo desse conglomerado de pessoas, acaba se tornando um totem: seu valor simbólico acaba se tornando maior que o concreto.

Quando dizemos que um artista, esportista, religioso ou até mesmo político é um herói, colocamo-lo na condição de mito. As histórias dos seus feitos suplantarão, em muito, sua história geral, de modo a lhe colocar em pedestais que, aos olhos de seus admiradores, fazem com que sejam extraídos da humanidade comum. A esfera da racionalidade vai aos poucos sendo abandonada, com o nascedouro de contradições, como o abandono de sua condição humana. O mito é posto em lugar santificado, sacralizado. E aí acontece o estranho fenômeno do retrocesso à realidade: o de que os mitos também morrem, e, por extensão, não deixaram de ser humanos. E isso pode fazer a narrativa mítica se multiplicar ainda mais. Vou mencionar alguns exemplos.

O primeiro é Ayrton Senna. Eu já falei sobre ele sobre uma perspectiva bastante filosófica (aqui), mas não custa mencionar esse exemplo maior dos brasileiros. Senna é, fácil, um dos melhores pilotos de todos os tempos. Sua aura mítica se deve à colocação como herói nacional, já que trazia um orgulho ao brasileiro por desfilar ostensivamente com a bandeira a cada vitória. Em tempos difíceis, era a grande esperança concreta que empunhava o símbolo do brasileiro vitorioso, tão raro desde sempre. Dessa forma, tornou-se uns dos grandes totens do imaginário tupiniquim, tão significativo que não pode ser contestado, já equivalendo esse ato a uma ofensa. Se alguém coloca em dúvida a sua posição de melhor piloto de todos os tempos, ainda que o faça com números e dados sólidos, não é bem-visto. Isso ocorre sem dúvida porque afeta diretamente as convicções pessoais e indiretamente as identidades comunitárias.

Continuemos, agora falando do Pelé. Ele está à baila, por dois motivos: sua condição de saúde terminal* (pelo menos no momento em que digito este texto) e o final recente da Copa do Mundo, onde o conjunto de atuações do argentino Lionel Messi coroou sua vitoriosa carreira. Eu, pessoalmente, só vi o Pelé jogando pelas reprises da televisão. Isso traz dois problemas: o primeiro é que tanto meus avós, quanto meu pai em particular sempre me disseram que as verdadeiramente grandes atuações do Rei foram pelo Santos, que não estão registradas em sua totalidade. O segundo é que as coletas televisivas sempre se resumem aos melhores momentos, e o que temos é um estrato que desconsidera atuações apagadas e jogos ruins. Eles existiram, existem na vida de qualquer jogador. Mas suas atuações foram tão extraordinárias para sua época que ergueu o mito, especialmente no Brasil. Eu não posso dizer que vi o Pelé jogando futebol e, entre os que vi, Messi é o melhor. Ponto. Se alguém coloca o reinado do Pelé em questão, mesmo que o faça respeitosamente e com critérios os mais objetivos possíveis, vai levar pedrada. Porque a mitificação inclui esse elemento religioso: o fanatismo.

Mais um exemplinho, fora do âmbito esportivo: Michael Jackson. Ele foi, de fato, um sucesso estrondoso na década de 80. Efetivamente talentoso, transformou o modo como se faziam videoclipes, trazendo uma produção super apurada e enfatizando o duplo talento de cantar e dançar, ambos com a mesma importância. O transcurso de sua carreira, entretanto, foi permeado de polêmicas, a ponto de sua produção musical ficar obscurecida e deixada em segundo plano. Os movimentos negros acusavam-no de embranquecimento, no que eram respondidos evasivamente e com um mal explicado acometimento de vitiligo. Sobraram acusações de tentar se tornar uma eterna criança e, pior ainda, de crimes de pedofilia. Suas aparições passaram a ser cada vez mais bissextas, envolvendo sua vida com uma aura de mistério e, de certa forma, de esquecimento. No entanto, sua morte repentina reacendeu todos os seus atributos e sepultaram as polêmicas, alçando-o à condição de mito como nunca aconteceu antes. O título "rei do pop" foi para a crista da onda como nunca havia acontecido, e mesmo gente que não tinha idade para reverenciá-lo como tal passou a ser "testemunha ocular" de seu sucesso. Dizer que outros artistas na mesma época se aproximaram de seu patamar virou uma ofensa para fãs e neo-fãs, mas eles existiram, como a Madonna. Só que como ela nunca se afastou dos palcos e, principalmente, ainda está viva, a aura mítica não lhe é tão forte.

É até um pouco difícil de deduzir porque isso acontece. Chamar um fã de idiota não é uma boa resposta, porque há gente verdadeiramente inteligente que entra na defesa irracional do mito.

A resposta passa pela Psicologia, certamente. Parece existir alguma barreira que impeça a cognição de dados concretos e de informações conflitantes com nosso conteúdo conviccional. Não se trata de pura dissonância cognitiva, porque não é uma questão de coerência de informações. As contraposições aos mitos podem ser muito boas, e, mesmo assim, não serem aceitas. O caso parece mais o que o velho pensador alemão Johann Herbart chamava de estado de tendência.

O estado de tendência foi um conceito que, a partir de Freud, foi substituído pelo inconsciente, tendo ficado ainda válido no campo da Filosofia. Segundo Herbart, a apreensão de conteúdos na mente funciona pela experiência e contínuas associações, que criam representações de valor cognitivo. Essas associações funcionariam com um esquema de forças semelhantes ao magnetismo. Quando uma nova ideia é obtida no mundo exterior, penetra em nossa mente com uma determinada energia. Essa energia, como se fosse um ímã, possui uma polaridade, que pode ser positiva ou negativa. Quando é positiva, ela se une às ideias preexistentes e aumenta seu potencial energético, tornando o conjunto cognitivo mais forte. Por outro lado, se a polaridade da cognição nova é inversa em relação à anterior, ocorrerá uma mútua repulsa. Esse processo fará com que a ideia mais energética repila a menos potente, e seu destino é ser expulso da consciência. Seja a ideia nova ou a velha, no entanto, não será meramente esquecida, porque Herbart dizia que as ideias não podem ser destruídas. Ela ficará reclusa em um segundo plano, uma espécie de depósito mental. De lá, ela poderá ser resgatada em algum momento da vida, a não ser que esteja lá a tanto tempo que se torne esmaecida, mas reavivada por algum fator que a leve de volta a nível consciente. Esse é o estado de tendência.

Este parece ser o confronto que o pensamento mítico tem quando se vê confrontado com ideias que o desafiam. Sua polaridade e energia mental são muito fortes para simplesmente ser substituído pela nova proposta. É potente, especialmente, pela significação que adquire no imaginário pessoal e coletivo.

É algo que acontece em algum nível com todos. Ninguém vai jamais me convencer que o Corinthians não é o melhor time do mundo, porque é como Fernando Pessoa se referia ao rio de sua aldeia: é o mais belo do mundo porque é o rio de minha aldeia, mesmo que o Tejo seja maior e mais deslumbrante. O mesmo se aplica ao pastel do Zé Bastião, mito dos tocos-mojienses. Até porque eles podem ter razão. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

A tradução da obra de Herbart em português é somente voltada para a pedagogia. É preciso buscar em outras línguas para pesquisar sobre sua filosofia.

HERBART, Johann. Manuale di Psicologia. Roma: Armando Editore, 1982.

*Antes de publicar este texto, a morte do Pelé ocorreu. Resolvi manter a íntegra para dar ideia de continuidade, porque publiquei um texto sobre o assunto logo em seguida.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Os verdes mares de onde não há mar – 4ª parada: Borda da Mata e as discussões sobre o erotismo

(O erotismo é uma semvergonhice ou uma inerência humana?)

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Depois de um dia mais enfiado no meio do mato, na sequência dessa viagem pelas Serras Verdes do Sul de Minas fomos à ponta de um outro circuito, o das malhas. É um lugar onde se concentram várias especialidades têxteis, sendo que já estive aqui em outros tempos, mais especificamente na terra do tricô, Monte Sião (aqui e aqui). Desta vez, a passagem é por Borda da Mata, que gosta de malhas e lingeries.


A cidade com autonomia não é muito antiga, mas é povoada desde o século XVIII. Está na mesma linha de cidades como Itajubá, Piranguinho e Brazópolis, o que significa que o trem passava por aqui. Sua estação de trem hoje é uma bela casa de artesanato.


No centro da cidade, pontua uma bonita igreja, a Basílica de Nossa Senhora do Carmo. Originalmente uma capela, foi crescendo cada vez mais à medida que o arraial ao qual pertencia foi também se expandindo, especialmente após seu desmembramento da cidade de ouro fino.


À sua frente, a praça que ocupa a área original do arraial, em um tempo onde nem se sonhava na atual ocupação comercial.

É com o Monsenhor Pedro Cintra que a igreja chegou à sua condição atual. Durante os 38 anos de seu vicariato, chega a sua arquitetura definitiva e ganha a condição de basílica.


No campo comercial é que Borda da Mata fez sua fama. Com pequenas confecções espalhada por toda a cidade, podemos dividir os artigos em três áreas principais. Os pijamas…


… as tapeçarias…


… e, em grande número, as lingeries.

São diversas lojas que se propõe a realizar um comércio semelhante ao que se vê no Brás ou na José Paulino: um preço para a venda a retalho, outro para o atacado. De toda forma, ambos são convidativos o suficiente para fazer uma sacolagem.

As lojas desta especialidade já fazem publicidade em cartazes logo ao longo da rodovia, explorando a sensualidade de suas modelos.


Embora haja também cuecas e ceroulas para os moçoilos, o fato é que a maior parte dos produtos e a totalidade da publicidade se faz com as fotos sensuais das meninas. Eu poderia falar sobre objetificação feminina e outras coisas, mas é tema para ser tratado com cuidado, e o farei em outro momento. No mesmo sentido, poderia falar da moralização tão decantada da família tradicional brasileira, com seus amantes e puladas de cerca, mas, nesse caso, não estou com paciência, porque se trata de hipocrisia, mais que qualquer outra coisa. Corpos são belos, e ponto. O paradigma dessa beleza é cultural, mas somos constituídos da capacidade de apreciar a beleza, seja discutível como for o modelo. Isso tudo fica para depois. No momento, quero discutir o erotismo e o papel da sensualidade.

Está fora de dúvidas que a publicidade lança mão de artifícios mais ligados à emoção do que à razão para realizar o seu trabalho. Em tese, caveat emptor*, e que cada um cuide de não se sentir seduzido. Sedução… esse é o material de trabalho dos cartazes e letreiros. Embora palavras e músicas carreguem uma boa dose dela, é com os corpos que ela chega ao seu paroxismo.

Certamente você já se perguntou porque se compram roupas pré-rasgadas nos dias de hoje, pelo mesmo preço que se pagaria em uma peça íntegra. Claro que a moda explica muita coisa, mas não se pode descartar um certo sabor de sedução no seu uso. Uma roupa, primordialmente, serve para esconder. Se a princípio era para esconder do frio, dizem as religiões e a moral que as mesmas impõem que é para "esconder as vergonhas", seja lá o que isso quer dizer (reprimir a sexualidade, é isso o que quer dizer. A grande pergunta é: para quê?). A calça rasgada abre uma pequena janela que permite entrever um pequeno pedaço do que está lá por dentro, e isso já é ferramenta para atiçar a libido.

Já a lingerie esconde o mínimo, deixa ver tudo, menos a quintessência da sexualidade, e esse é, na verdade, o clímax do jogo. É como se fosse a casamata de um rei que se oculta do ataque inimigo que já transpôs todas as barreiras possíveis, com a diferença que esse rei sorri ao ser atacado. Essa contradição só é possível por conta do erotismo.

Eros é o deus grego do amor. Aqui no Brasil, como figura mitológica, é mais conhecido por Cupido, representado por aquele anjo gordinho de arco e flecha, mas que nada tem de angelical. Filho de Ares, o deus da guerra, com Afrodite, deusa do amor, Eros é a representação do amor erótico, das paixões e do desejo. Junta a permanente combatividade de seu pai com a força dos sentidos de sua mãe para reger o amor inconsequente, aquele que tem por principal objetivo a satisfação orgânica dos corpos, mas que nunca se sacia. Deu nome, dessa forma, àquela modalidade de amor mais carnal, de toque e estímulos físicos, que expus com mais detalhe neste texto. No que essa porção atrativa se imiscui em nossa espécie?

Não vou aqui me descuidar e tentar opinar sobre o papel dos hormônios ou das conexões sinápticas no fenômeno erótico, mas me ater ao meu mundo, o da Filosofia, exatamente como fez o controverso literato e filósofo francês Georges Bataille, uma espécie de pensador do corpo de nossa era contemporânea, no sentido filosofal, sem se preocupar com verdades científicas. Sua polêmica gira em torno de seus livros repletos de sexualidade desabrida, um Marquês de Sade do século XX. Mas suas observações intelectuais sobre o tema são interessantes, vez que completamente desvinculadas de uma visão moralizante.

Bataille vai buscar suas ideias na psicanálise freudiana, mais pontualmente nas pulsões de vida e morte, o Eros e o Tânatos. Mais remotamente (até porque, mesmo que sem declarar, Freud também o faz), resgata de Nietzsche os fundamentos da vontade de potência e os aplica nas suas hipóteses do erotismo.

Flertando com o Existencialismo, nosso intelectual coloca a imanência do corpo como princípio do Ser. Embora possamos pensar coletivamente na humanidade, é no indivíduo que a mesma se realiza, se concretiza, se transforma em existência. Sendo assim, entre um ser humano e outro existe um abismo que o torna eternamente solitário. A própria existência do outro já é a marca de uma individualidade, e de uma separação, e de um abismo, e de uma solidão.

A solidão é oriunda do próprio surgimento da vida, que se propagou por meio das divisões celulares. Quando ela provém de um ser assexuado, a sua reprodução resulta na morte do organismo originário, que se autodestrói para que a vida se eternize em novos seres. No humano, sexuado, também a destruição se dá, só que agora na fusão das células que dão origem ao zigoto. A morte está lá em profusão: milhões de espermatozoides rumam para o fim em busca de um único óvulo que os vá acolher. O único que se safa também não se mantém - doa sua substância para o surgimento da nova vida, o que também ocorre com o óvulo. Para o surgimento de um, dois se sacrificam. A vida é banhada de mortes, e é sua própria natureza.

Daí, o que temos é uma contínua descontinuidade, o que caracteriza a eterna solidão. Um Ser nunca é completo por si só. Acontece que o ser humano tem o impulso da totalidade, uma espécie de nostalgia pela continuidade que tinha em sua unicidade celular, e esse impulso é materializado e constituído pela mesma unificação que se dá na cadeia reprodutiva, ou seja, no sexo. E eis que nós vamos em busca de reintegração, ainda que provisória. Ela vai acontecer no ato sexual, que reconstrói a fusão originária do óvulo e do espermatozoide, agora na forma de amantes, e é exatamente aí que nós nos diferenciamos dos demais animais. Estes são seres que exercem sua sexualidade de maneira orgânica, puramente carnal. Ou seja, satisfazem uma necessidade como outra qualquer. Já nós possuímos o tal do erotismo.

O que difere o erotismo da pura sexualidade é que o primeiro não é meramente carnal como o segundo, mas está relacionado a processos mentais. Todo o circuito erótico faz girar a roda da fabulação, representando todo um contexto do qual o ato em si é só um dos componentes, a sua apoteose. No erotismo, a sexualidade é toda uma história contada, que inclui um pré-ato, um ato imaginário, um ato que é disparado por sutilezas, como um olhar, um gesto, uma cruzada de pernas, um movimento suave, uma palavra lubrica, uma peça de roupa que deixa entrever a pele, que deixa delinear o corpo, que oculta apenas o essencial, uma lingerie.

Sendo assim, podemos reconhecer em nós mesmos a imaginação agindo, quando temos ativados nossos dispositivos eróticos. A fantasia leva a libido para antes da necessidade carnal, e não depois. Sim, é perfeitamente possível que a libido venha pela visão do corpo nu, já preparado para o ato, mas o erotismo torna possível que tudo isso aconteça mesmo na ausência de um parceiro.

O erotismo é fundamentalmente transgressivo, porque o retorno à totalidade que ele almeja foge daquilo que nos é natural: a pré-mencionada solidão. Isso explica porque ele é excessivo, por vezes violento, por vezes exótico, permanentemente em luta com o que a razão conduz. Ele se choca com tabus e vetos, e se alimenta deles, sacralizando o objeto do desejo ao qual se interpõem tantos obstáculos. Por conta disso, o erotismo chega a transcender o mero ato sexual (até mesmo porque o precede). Dentro da religião, existe uma condição chamada de êxtase místico, e que foi descrita por vários religiosos, sendo provavelmente a mais famosa de todas Santa Teresa de Ávila. Segundo suas descrições, Gianlorenzo Bernini esculpiu uma estátua magistral, cujo semblante faz entrever toda a carga erótica contida na experiência extática:


É preciso lembrar que tal escultura foi aprovada pela Igreja Católica. Ela exprime toda a corporeidade do êxtase místico, que é absolutamente semelhante à expressão do clímax sexual, uma espécie de desfalecimento posterior ao orgasmo, a pequena morte mencionada pelos poetas. Mesmo o êxtase místico é uma expressão corpórea. Bataille tenta demonstrar que o erotismo vem de qualquer experiência de integração, e não somente da relação sexual. A religião é um dos mecanismos em que uma pessoa busca se unificar a um todo, no caso, à totalidade divina. Poderia acontecer com o uso de drogas, ou com as catarses gregas. O importante é perceber que é uma experiência transgressora porque, como já dito, a continuidade representa destruição - dois seres unidos já não são mais dois, mas um só. Parece coisa de casamento. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Bataille é um autor muito polêmico, porque escreveu desabridamente sobre sexo e sexualidade, e tem gente que não gosta disso. Como o princípio básico da Filosofia é tratar de qualquer assunto, não tenho essas amarras. Segue a indicação de seu principal livro sobre o tema:

BATAILLE, Georges. O Erotismo. Belo Horizonte: autêntica, 2020.

* Caveat emptor, traduzido por “cuidado, comprador”, significa que a prerrogativa do cuidado na atividade comercial está em quem compra, não em quem vende. Legislações como o Código de Defesa do Consumidor vem dar proteção à esta lei meio desigual do mercado.