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terça-feira, 25 de agosto de 2026

As fronteiras entre a sensibilidade e a intelecção no mundo de Platão – parte 2 (o Demiurgo)

(Bem... existe um Mundo das Ideias. Mas como ele se transforma naquilo que vemos e tocamos?)

“O Demiurgo põe os olhos no que é imutável e que utiliza como arquétipo, quando dá a forma e as propriedades ao que cria”

Platão

Olá!

Meu filho mais velho tem uma cachorra, cujo nome é Nala. Ocorre que, tendo o shape de um dachshund, todos chamam ela de Guiça, aférese para a palavra linguiça, iguaria com formato aproximado da referida raça. Ela, de fato e de direito, é uma vira-lata, dada a falta de documentações de origem, e veio para casa do primogênito em um esquema de adoção, mas ela não seria a primeira figura em que pensaríamos ao nos referirmos aos simpáticos SRDs. Isso fica para os caramelos e filhos-do-medo-da-noite, como o recém falecido Homem-Cueca.

Só que, atavicamente, ela contém genes dessa espécie que é dada a espreitar cantos e buracos em busca de pequenos animais, e acaba por encontrar algumas coisas inusitadas. No último final de semana, ela apareceu logo cedo com uma prótese dentária na boca, daquelas de ferrinho, na burlesca situação de ter dentes entre os dentes. Para além do inesperado e da consequente galhofa, veio junto o mistério. De onde essa cachorra trouxe a cremilda?

Bom, eu uso prótese, mas a minha está na boca, já que a percorri com a língua para confirmar. Além disso, a minha é só de resina. Então só restam meus sogros, hospedados no escritório/estúdio. Mas eles estão fechados, e por mais que a cachorra Guiça seja esguia e surpreendente, ela não é fantasma para atravessar sólidos. Como a resposta ainda demoraria até eles levantarem, fomos levantando especulações, cada uma mais estapafúrdia que a outra. Estariam os velhinhos tão doidos que deram a dentadura para a Guiça brincar? Teria a nefanda cachorra algum pacto com um duende zombeteiro? Estaria o saci agindo nesta cidade do interior? Seria ela esperta a ponto de conseguir abrir uma caixa de próteses?

A resposta correta foi de quem disse que meu sogro achou uma boa ideia deixar o objeto na bancada do banheiro. Desacostumado com a casa, alguém incerto e não sabido (provavelmente ele mesmo) esbarrou lá e o dente foi para no chão. Daí, em dois minutos de pesquisa a pequena cachorra achou o diferente acepipe. Blergh! Lavada e deixada de molho, recuperou seu antigo uso.

Conto essas narrativas todas para trazer um exemplo de como os mistérios são lidados e processados por nossas cabecinhas. Só que eles só são mistérios enquanto não são resolvidos, ficando até meio sem graça quando elucidados. Essa é uma regra? Absolutamente não. Às vezes os desenvolvimentos de ideias são tão complexos, que, mesmo chegando a uma conclusão, ficamos tão confusos quanto no início.

Esse é um dos motivos pelos quais quebrei o presente texto em dois. Trata-se da intrincada teoria das formas de Platão, e é necessário que se faça a leitura da parte 1 para uma melhor compreensão do que vai se seguir. Perca seus quinze minutos lá, por favor. O outro motivo é mais por comodidade. Iria ficar muito longo para ser lido de uma vez só, penso eu.

A coisa parou em um questionamento: como o Mundo das Ideias é plasmado para a esfera do universo sensível? E também tínhamos um questionamento sobre as oposições entre ser e não-ser. A assertiva maior de Parmênides era de que “o ser é e não pode não-ser”. Como funciona esse negócio em Platão? Aqui, vamos sair um pouco do plano puramente racional e tangenciar com aspectos mais místicos. Ninguém é de ferro.

Começamos identificando um ponto em comum entre a filosofia de Platão e a de Parmênides: o Ser é algo eterno e imutável. Só que neste último o Ser é algo que, além dessas características, identificado com a realidade última, traz um problema para o Mundo das Ideias de Platão: ele é único. Se no Hiperurânio temos uma multiplicidade infindável de ideias, como seria possível a ideia de um não-ser?

Parmênides identifica o Ser com a realidade. Isso é o bastante para dizer que o Ser é imutável porque não existe uma dualidade concreta entre o real e o ilusório. O real é o que existe, e as ilusões apenas estão em uma abstração eivada de erros, especialmente pelos enganos oriundos dos sentidos. O não-ser, nesse sentido, é nada. Ele é tudo o que é mutável, inconstante e, in extremis, indizível. É contraditório querer falar sobre algo que não é, ou seja, que não existe. Portanto, é ilógico que se diga um não-ser, porque ele não é a pura oposição ao Ser (aquilo que existe), mas é o nada absoluto, que nem a linguagem alcança.

Com Platão, a concepção de não-ser muda. Como o Mundo das Ideias é povoado por objetos ideais que representam tudo o que existe, é inconcebível que o Ser seja pensado como um objeto único, já que cada forma carrega consigo uma realidade adjacente. Sendo assim, cada uma das ideias é um Ser, enquanto todas as outras são o seu não-ser específico. Por exemplo: a forma de uma bola é o Ser da bola, e é o não-ser da trave, da chuteira, do jogador, do estádio e de tudo o mais. Em resumo, toda ideia, para ser ela mesma, deve não ser todas as demais. 

Mas o que faz com que as ideias se moldem e o que explica essa multiplicidade de ideias? Afinal de contas, se pensarmos em formas perfeitas, não seria de se supor que elas se mantivessem sempre iguais a si mesmas?

Aqui, nós vamos chegar, em boa parte, nas doutrinas não escritas de Platão, e que chegaram aos nossos dias pela via de seus discípulos, incluindo Aristóteles. Segundo o que pensava o mestre ateniense, havia dois princípios originários para todas as formas, o Uno e as Díades. A ideia base é que, da mesma forma que por trás de tudo o que perceptível no âmbito sensível há uma forma que lhe define, também para as próprias formas há um fundamento ainda anterior. Recebe este nome justamente por representar a unidade que todas as formas compartilham: a existência. O Uno seria então o princípio primeiro, que ordena, que limita, e que define a forma. Por outro lado, as Díades (cuja remissão ao número dois representa exatamente a dualidade e indeterminação) trazem o oposto: oferecer espaço para a indefinição, ou seja, um substrato para que as emanações do Uno sejam moldadas e gerem uma multiplicidade. A tensão gerada entre esses dois princípios, bastante semelhante à doutrina taoísta do yin e yang, gera as formas que habitam o Hiperurânio pela sua constituição matemática e geométrica, agora definitivamente imutável.

A próxima pergunta a ser respondida diz respeito à transição entre a forma inteligível e o objeto sensível, ou seja, qual é a maneira que uma forma se materializa?

O primeiro ponto a ser pensado é que Platão identifica o Uno fundamental com o Bem. Essa identificação se dá por um motivo muito simples: sendo o Uno o princípio de toda a perfeição, a mais perfeita de todas as virtudes, o Bem, só poderia ser identificada com ele. Sendo assim, ambos são uma mesma e única coisa.

Agora, de que vale o Bem se ele não é plasmado para o universo sensível? Se ele é o mais aperfeiçoado de todos os valores, como pode ser prescindido da existência sensível? Para dar materialidade à ideia de Bem, surge o Demiurgo, o responsável pela tarefa de transformar o inteligível em sensível. Quem?

O Demiurgo é, em Platão, uma divindade intermediária que se encarrega de obter matéria do caos primitivo e transformá-la em objetos sensíveis. Vamos trocar isso em miúdos.

Na formação das ideias que povoam o Hiperurânio, a interação entre o Uno e as Díades se dá livremente no âmbito inteligível, por intermédio da oposição de forças entre ambas, o que torna desnecessária qualquer forma de mediação. Ocorre que na materialização do mundo sensível já é preciso que haja interação com um substrato concreto, que sustente a perceptibilidade através das sensações, dadas as limitações desta última, e isso não pode acontecer espontaneamente.

A substância material de que são feitas as coisas no mundo sensível é a ananché, diferente de todos os elementos visíveis e caracterizada por ser amorfa e invisível, movida pela necessidade, ou seja, um princípio cego que é causa errante. De um modo bem grosseiro, é como se fosse um cimentão indefinido e caótico, e que o trabalho do pedreiro fosse dar ordem nessa meleca informe. E esse pedreiro existe: é o tal do Demiurgo. Além disso, há uma espacialidade por onde esse princípio material é formatado pelo princípio inteligível, denominada por Platão de chora (pronuncia-se córa). E, ok, mantendo a má metáfora, é o terreno por onde o pedreiro-demiurgo assenta os objetos moldados. Ninguém disse que é fácil de entender.

O Demiurgo é um deus que foge ao conceito abraâmico, que possui todos aqueles atributos já tão decantados de infalibilidade, onisciência e blá-blá-blá. O Demiurgo é um artífice (a tradução de seu nome seria algo como “trabalhador público” – no sentido de levar os objetos à sensibilidade universal) que se propõe a transformar o Bem que representa o Uno em realidade sensível, dando-lhe plena existência, tanto inteligível, quanto sensível. Sem essa completude, o Bem não seria o Bem, porque lhe faltaria um atributo essencial: a existência.

Então o Demiurgo toma o modelo ideal de um objeto qualquer do Hiperurânio, e molda a massa informe fisicamente, tornando-a perceptível aos sentidos. Mas não é tão simples assim, de ir pegando ideias, a massinha e a chora e sair moldando a realidade sensível. A primeira coisa que o demiurgo fez foi plasmar o próprio mundo. Lembrando que originariamente a intenção do artífice é ordenar algo que se encontra em desordem, dotou todo o cosmos de uma espécie de inteligência compartilhada, a quem foi dado o nome de anima mundi (vide). Dessa forma, existe uma espécie de alma compartilhada em tudo o que existe no universo, que são seus princípios inteligíveis. Tudo carrega uma porção de eternidade, pela sua methexis (participação) com formas ideias imperecíveis e inamovíveis. Notem que o mundo inteligível, sendo eterno, não tem passado, nem futuro, porque está desencaixado da dimensão do tempo. Daí que Platão nomina o tempo e encaixa o mundo sensível como a face móvel da eternidade, que é gerada e caminha para a transformação. O tempo nasce com a anima mundi e com a materialidade do cosmos, porque ele inexiste no campo do inteligível.

As coisas sensíveis, entretanto, não são perfeitas como são perfeitas as formas do mundo inteligível. Isso porque a espacialidade da chora e a matéria que lhe compõe é amorfa e moldável, e, exatamente por tomar qualquer modelo, não é perfeita em si mesmo, representando, por si só, um limite para a ação do Demiurgo. Lembremos que este não é um deus ao modo abraâmico e, portanto, sujeito às limitações físicas que o universo lhe impõe. Dessa forma, ele plasma o mundo inteligível da melhor maneira possível, e não de maneira absolutamente perfeita. E isso explica a falta de confiabilidade dos sentidos.

Neste final, podemos perceber como Platão, ainda que tentando se manter fixado a alguma lógica, acaba descambando para explicações míticas. Como eu afirmei em outros textos (alegoria da caverna e mito de Er), Platão realmente usava esses expedientes para trazer didática aos seus ensinamentos, mas é um pouco mais difícil de dissociar a doutrina do Demiurgo de especificidades da crença. E, até mesmo por isso, Santo Agostinho pode utilizar o platonismo como base para sua patrística. Quer saber? Vou falar sobre isso também, mas não agora, para não fazer exatamente o que procurei evitar: alongar demais o post.

Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

O livro abaixo é aquele em que Platão fala mais amiudadamente sobre o demiurgo e suas façanhas:

PLATÃO. Timeu. In: Timeu/Crítias. Lisboa: Instituto de Estudos Filosóficos, 2023. Disponível em: https://www.academia.edu/111656254/Plata_o_Timeu_Cri_tias. Acesso em: 21.08.2026.



quarta-feira, 12 de agosto de 2026

As fronteiras entre a sensibilidade e a intelecção no mundo de Platão – parte 1 (a segunda navegação)

 (O Mundo das Ideias é tão central na filosofia de Platão que é inevitável tratar dele com mais cuidado)

“O que me parece é que se existe algo belo além do belo em si, só poderá ser belo por participar do belo em si”

Platão

Olá!

Não é de propósito (quase nunca). Embora tenhamos uma invasão de anglicismos em Patropi para qualquer assunto que tratemos, na área de Informática a questão é inerente, já que vem da gringa as ferramentas de produção desse tipo de produto, o que se torna ainda pior quando a coisa aporta nas quinquilharias técnicas. Então é muito fácil de escorregar para jargões que fazem os circunstantes nos olharem como quem vê uma mulher barbada num desses circos da velha guarda.

Explico: recentemente, veio uma reclamação do meu cliente “favorito”. Onde está o relatório X que eu pedi para desenvolver? Era mais uma daquelas baboseiras que alguém de alta patente quer, e mais ninguém. O problema é que essas coisas vão caindo no esquecimento até que alguém lembra da história, e a cobrança vem a cavalo, ou seja, na forma de coice. Vamos lá para o e-mail.

Expliquei que a tal funcionalidade tinha ficado em um branch apartado, e que seria preciso fazer um novo merge para que fosse possível fazer um deploy praticável, e colocar para homologar de novo. Se você entendeu, é porque é coleguinha. Já o figurão não entendeu nada, achou que eu estava o enrolando e queria esclarecimentos em português. Vamos lá para a reunião.

Expliquei calmamente. Em desenvolvimento de sistemas, fazemos uma cópia do módulo que temos em uso para um ambiente onde não haverá problemas em ser mexido, e, uma vez validado, pode substituir a versão disponível para todo mundo. A dita cuja estava em um desses ramais para ser testada (branch). Como o tempo passou e ninguém homologou, outras versões foram sendo sobrepostas, de modo que não era mais possível simplesmente colocar essa versão em uso, porque todos os outros desenvolvimentos posteriores seriam perdidos. Era necessário então juntar a parte do código com a velha funcionalidade em outra versão (merge), para disponibilizar a aplicação em um ambiente (deploy) testar tudo de novo e, desta vez sem colocar na gaveta, botar para uso. Nem é tão complicado assim. Só que EU sei disso, mas o cliente não.

O grande busílis é que estamos tão habituados com nosso próprio linguajar que acabamos esquecendo que, fora de nossa toca, as pessoas não são obrigadas a saber do que estamos falando, e nos colocam na conta de arrogantes, iniciáticos e, pior ainda, enrolões. Não é diferente na Filosofia.

Por esta razão, é costumeiro que eu tagarele sobre vários termos como se estivesse em plena Grécia antiga, e todo mundo estivesse entendendo com perfeição minha chiacchera. Só que, para estes, eu estou falando literalmente em grego. Em um esforço de contextualização e pesquisa, é possível compreender o que quero dizer, mas vamos combinar que eu preciso de um esteio para indicar onde falei melhor sobre determinados temas. Já senti a mesma necessidade quando falava inúmeras vezes sobre a arché, e, para deixar todos sem dúvidas, fiz uma espécie de ensaio-glossário que eu indico sempre que vou tratar do assunto (este). O mesmo se repete com o Mundo das Ideias platônico, que me referencio à exaustão, e ficar fazendo retomadas, ainda que breves, torna-se cansativo. Então achei dever de ofício dar uma boa explicação sobre o conceito e fazer as devidas remissões quando necessário. Vamos içar as velas, partir para a segunda navegação.

Antes da virada ética ocorrida no pensamento grego ocorrida a partir dos sofistas, sabemos que o principal motor da especulação filosófica estava na tentativa de detectar um substrato comum a toda a realidade. Platão vai partir da premissa de que os raciocínios dos filósofos da physis foram insuficientes para carregar conclusões sobre as essências. Mas o que procuravam estes? Eles buscavam no próprio universo as causas para explicar a realidade, com as explicações mais diversas possíveis, em um elemento a quem deram o nome de arché. Não se trata de um empreendimento despido de valor, já que foi a primeira vez em que se buscou pesquisar a realidade sem a interveniência de entidades ad hoc, mas através de encadeamentos lógicos, que conduzissem a uma resposta mais consistente. A própria diversidade dessas proposituras comprova a aspereza da tarefa, e a atuação dos naturalistas mais se aproximou de uma Ciência natural do que propriamente de uma filosofia.

Embora Platão não exatamente menospreze os experimentos mentais dos filósofos da natureza, o fato é que ele considerava suas propostas ineficazes. Segundo o que ele dizia, os pré-socráticos tentavam explicar o físico pelo físico, o natural pelo natural, entrando em um ciclo vicioso que sempre redundava em se imobilizar, como se fosse uma nau no meio de um oceano sem ventos porque, no entender do mestre, o universo tem dois planos, e os naturalistas somente conseguiam apreciar a totalidade das aparências, deixando para trás a totalidade da realidade. Quando isso acontece, é preciso ir além e recorrer aos remos, iniciando a belíssima metáfora da segunda navegação, que ele se entendia responsável por trilhar.

E qual seriam os remos dessa segunda navegação? Partindo da premissa de que o móbile do conhecimento até então eram os sentidos que percebiam o universo, era preciso colocar uma premissa fundamental: os sentidos não são garantia de conhecimento, haja vista às abundantes distorções que os mesmos sofrem. E essas são, de fato, incontáveis. Portanto, a saída é reconhecer que, se há uma verdade, ela está no campo do racional, do inteligível.

Os exemplos que Platão dá são bastante ilustrativos. Um deles diz respeito à prisão de Sócrates. Por que Sócrates se encontra preso? Se olharmos pelo plano puramente material, é porque ele está, resumidamente, com seus músculos e ossos contritos em um espaço cercado. Percebam que qualquer disposição moral ou substrato eidético está excluído dessa resposta, demonstrando sua insuficiência. A resposta que esperamos está além da mera disposição física: Sócrates está preso porque foi condenado pelos atenienses e lá ele próprio se mantém porque entende ser importante permanecer fiel ao compromisso com a justiça. E tudo isso não é perceptível pelo uso dos sentidos, tais justificativas operam a nível intelectual. Ou seja, as causas reais vão além das causas físicas, e isso não funciona sem passar pela racionalidade. Essa materialidade não seria a realidade em si mesma, mas as ferramentas que constituem seu aspecto concrescível.

Ok, até aqui, beleza. Mas o que seriam essas “coisas” que transcendem a materialidade? Onde podemos encontrar esse conjunto de conceitos e valores que dão mais caracterização ao universo do que sua própria existência sensível? No pensamento de Platão, justificar o sensível pelo sensível significa se manter em uma perspectiva de engano, porque a sensibilidade é extremamente variável e enganosa. Para se chegar a um lugar onde os erros dos sentidos podem ser superados, é preciso observar a própria racionalidade pura, ou seja, o pensamento no seu mais elevado grau. É por aí que é possível enxergar as coisas em sua estrutura mais fundamental, inalcançável unicamente pelo plano do sensível. Platão sintetiza o termo Eidos, que pode ser traduzido por Ideia, mas com um sentido mais aproximado de Forma. Trata-se daquilo que o intelecto pensa quando despido de qualquer aspecto material. Para captarmos o que ele quer dizer, vamos tentar pensar em uma pessoa muito bonita, mas que, por ter passado pelos percalços da vida, já não é mais bela, independentemente do motivo. Nós sabemos que essa pessoa era bonita, e também sabemos que não é mais bonita, porque temos, intelectualmente, o conhecimento do que é a beleza em si mesma. Essa beleza-em-si não se perde com o tempo, nem com os azares da vida, porque ela não pertence unicamente à pessoa que era bela e deixou de ser, mas à ideia de beleza. Essa ideia, embora seja sujeita a mudanças no tempo, indica que temos a capacidade mental de possuir uma ideia de belo, seja ela qual for. Ainda que hoje tenhamos que corpos marombados sejam o belo, isso é só uma contingência, ligada à sensibilidade. O que há de absoluto é que há o belo, que captamos o belo. A maneira com a qual enxergamos coisas belas pode mudar hoje e amanhã, mas sempre enxergaremos coisas belas.

Para simplificar ainda mais as coisas, pense em uma bola. Materialmente, ela é feita de que? Ordinariamente, de couro. Mas o couro resume a bola? Se sim, então ele resume a vaca, a jaqueta, o banco do carro, o sofá, o cinto, o sapato. Ou seja: não, não é materialmente que você define qualquer coisa. Por outro lado, você pode ver uma bola desenhada, uma bola esculpida, uma bola imaginada e, ora vejam, uma bola real, e você sabe que tem uma bola diante de si. Portanto, segundo Platão, o que define uma essência é a sua forma, o seu eidos. E ele vai além do sensível, ele reside no seu intelecto.

Ok. Então vamos agora pensar nesse Mundo das Ideias, a quem Platão dá o nome de Hiperurânio. Puxando unicamente pela etimologia, temos aqui dois termos em grego. O primeiro, bastante comum em nosso dia-a-dia, significa algo que está acima, que vai além. Um hipermercado, por exemplo, é um estabelecimento comercial que está acima do que convencionamos a entender por mercado, porque, além dos produtos típicos, há praça de alimentação, posto de combustível, amplo estacionamento, serviços diversos como chaveiros e caixas eletrônicos. Portanto, algo que ultrapassa um conceito inicialmente dado. Já o termo urânio faz remissão ao Deus Urano, o mesmo que nomeia o planeta gasoso lá nos confins do sistema solar, e que era o regente dos céus, pensados aqui como firmamento. Então todos os fenômenos celestes, como estrelas, cometas e asteroides são regidos por essa divindade, no entender dos gregos. Só que o sentido que Platão dá aqui não é exatamente de “acima dos céus” como algo que está fisicamente para além da abóbada celeste, mas de ponto mais distante que pode ser percebido pelos sentidos. Esse é o limite do que alcança nossa visão, ou seja, o mundo dos sentidos, e o intelecto tem a capacidade de perceber o que está além destes. O Hiperurânio não é um lugar efetivamente material, mas aquilo que o suprassumo da alma, a inteligência, consegue captar como efetiva realidade dos seres, já devidamente desvinculados dos entes, suas porções materializadas.

Nós reconhecemos nos objetos concretos do mundo sensível um ponto de contato com as suas ideias essenciais em um processo que Platão dava o nome de methexis, que pode ser traduzido por “participação”. De um certo modo, a ideia do objeto é mais geral do que o objeto concreto, porque carrega o cerne da forma, mas tem suas características peculiares, típicas da captação dos sentidos: cores, configuração, peso e etc. Essa participação, portanto, é a porção de forma ideal que um objeto concreto carrega e que pode ser percebido nos demais entes do mesmo ser.

Pensando em algo mais abstrato, relembro de uma ocasião em que eu estava no Parque Tingui, em Curitiba. A cena era a seguinte: é comum sentar-se na beira do lago que fica na parte baixa do parque, e muita gente faz isso para comer alguma coisa, onde eu estava também, certa feita. A uns cinquenta metros de distância, um casal prepara-se para tirar seu cachorro da coleira. Instantaneamente, o bicho pega um impulso e se atira na água como se fosse um salva-vidas no desespero do cumprimento de sua missão. Um salto elegante e um tchipum final. Ele saiu do lago pulando nas quatro patas pulando como um carneiro, quase como se estivesse gargalhando, numa expressão de alegria pura. Pensando em termos platônicos, esta não é a alegria em si mesma, porque ainda precisamos de um veículo para materializá-la, mas é uma de suas concreções possíveis, porque a alegria do cachorro, esta sim, participa da alegria ideal, hiperurânica.

Podemos então começar a pensar na simetria entre Platão e os principais pensadores ontológicos da fase naturalista. O mundo sensível, sujeito a mudanças no decorrer do tempo, tem correspondência ao fluxo de Heráclito, porque corresponde ao universo das imperfeições e da impermanência, enquanto o Mundo das Ideias tem ligação com o Ser de Parmênides, muito mais próximo das essências das coisas. Platão traz a síntese de todo o pensamento naturalista e vai além dele. O universo do devir é um verdadeiro turbilhão que oferece aos sentidos toda forma de apresentação dos mais diferentes fenômenos, que, por sua vez, continuam guardando em si uma ideia do que ele é em si mesmo, independentemente da materialidade que ele assume. Esta é a porção permanente e imutável de tudo o que há no universo.

No Hiperurânio, portanto, estão todas as ideias de todas as coisas existentes no universo, em sua forma perfeita. É de se compreender que haja uma multiplicidade bastante grande dessas ideias por lá, haja vista a imensa quantidade de objetos que percebemos no universo sensível, incluindo aí aqueles abstratos, porque as ideias não são só de objetos físicos, mas de princípios morais, de valores estéticos, de propriedades matemáticas e assim sucessivamente. Essas ideias não se deterioram como os entes, são eternas e incorruptíveis. Mas há um problema a resolver que é a do não-ser. De fato, o problema proposto pela filosofia de Parmênides é a famosa frase enigmático: o Ser é e não pode não-ser; o não-ser não é e não pode ser. Sendo assim, como poderíamos afirmar que uma Ideia é e não pode não-ser, sendo que existem inúmeras no Hiperurânio?

Outra pergunta bastante inquietante é sobre a transição entre o intelectual e o sensível. Como aquilo que está no Mundo das Ideias é plasmado para o universo sensível?

Aqui, vamos descer aos subníveis verdadeiramente complexos dessa filosofia das formas, mas não vou fazê-lo agora, porque vai ficar muito longo. Deixo para fazê-lo em breve, para que eu chegue no meu objetivo. Fiquem de olho no blog para complementar a segunda navegação. Bons ventos a todos!

 Recomendação de leitura:

Esta é a obra onde Platão fala de suas segunda navegação:

PLATÃO. Fédon. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.