(O que é a Escola de Kyoto, principal centro intelectual do Japão?)
“Alguns homens nunca tinham ouvido falar dos escritos asiáticos, e outros jamais se convenceram de que havia algo de valor neles. A todos convém desculpar ou encobrir nossa ignorância, e raras vezes estamos dispostos a permitir alguma excelência além dos nossos próprios limites, semelhantemente aos selvagens que imaginaram que o Sol subia e se punha apenas para eles, e não podiam imaginar que as ondas que rodeavam suas ilhas deixavam corais e pérolas em qualquer outra praia”.
William Jones
Olá!
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Não preciso perguntar se já aconteceu de você, eventual
leitor, acordar atrasado para compromissos do quotidiano. Isso deve ter
acontecido com certa frequência, neste mundo que não gira, antes capota,
especialmente nas nossas metrópoles travadas e longínquas em termos de
trânsito. E isso faz com que todo o seu planejado saia do eixo e tudo vire de
ponta-cabeça. O reajuste das ações exclui preparos longos e mobiliza a adoção
de atalhos. Com isso, aquele cafezinho feito com critério e detalhe precisa ser
acelerado, para a infelicidade geral da nação.
Só que dá uma pena desgraçada de queimar vela boa em cima de
defunto ruim, ou, melhor dizendo, café de primeira com processo açodado. Então,
ao invés de se fazer um despejo único, como se fosse um balde, é possível usar
um acessório que torna essa tarefa minimamente mais racional: um gotejador de
acrílico que faz o fluxo de água ser feito de maneira contínua, sem a
necessidade de se ficar debruçado sobre a tarefa.
A mecânica é simples. O gotejador possui um recipiente onde
pode ser colocada água suficiente para uma extração de duas xícaras. Então
basta colocá-lo por sobre um método compatível e despejar a água toda da
operação.
Como os furos da base do gotejador são diminutos, o fluxo é
controlado para que não haja um despejo imenso de uma vez só, o que costuma
extrair menos do que um café pode te oferecer.
São combinadas, portanto, uma velocidade compatível para a
decência do café e a necessidade de mãos livres para passar manteiga no pão,
dentre outras tarefas, do tipo calçar meias e contar o dinheiro do ônibus.
Nome do utensílio: Gotejador acrílico
Tipo de técnica: Retenção de água para gotejamento lento
Dificuldade: Baixa
Espessura do pó: Não se aplica
Dinâmica: Coloca-se o gotejador sobre um método compatível com o café já devidamente alojado. Despeja-se toda a água necessária para a percolação no depósito e aguarda-se o escoamento total.
Resíduos: Não se aplica, dependendo do método a ser utilizado
Temperatura de saída: Não se aplica, mas, sendo um estágio a mais, tende a torna a temperatura mais baixa
Nível de ritual: Baixo
Estamos diante de um objeto sobre o qual podemos lançar uma dupla visão. Por um lado, no nosso corrido dia-a-dia, é bastante interessante a possibilidade de manter algum controle sobre o sagrado café enquanto saímos correndo atrás de brincos e gravatas. Por outro, é uma espécie de reconhecimento de que não conseguimos dar conta de nossos rituais, lançando mão de expedientes fundeados pragmaticamente, e não no seu autêntico propósito: eu já falei aqui, inúmeras vezes, que o café deve ser feito com cuidado e atenção, e com isso ganhar um novo significado. Tire o café e coloque o que quiser no lugar. A partir do momento em que ele passa a ser um problema a ser resolvido, metade de seu sentido se perde.
É preciso perceber que o mundo é assim mesmo, que ganha
velocidade na mesma medida em que se globaliza, ao mesmo tempo em que o
trânsito metropolitano aumenta seu travamento a cada dia que se passa, e
optamos pelo caminho de abrir mão da serenidade em nome da oportunidade. E é
isso que esses fabricantes orientais percebem ao mirar o consumismo ocidental.
Não se trata de pensar somente em coisas ruins. Apenas somos
mais agressivos em nosso consumismo e, por isso, somos bons para fazer
negócios. Um belo dia, o lado direito do mapa-mundi olhou para nós com menos
ojeriza, e viu que aqui havia o que ser absorvido, de modo a até mesmo
influenciar em suas filosofias, a ponto de fundar escolas específicas de
pensamento.
Escolas filosóficas não são fenômenos raros. Sempre temos
uma tendência que capitaneia linhas de pensamento, da mesma forma que é
possível observar desenhos táticos prevalentes em determinadas épocas no campo
do futebol. Um futebol mais malemolente, apoiado no drible e na improvisação é
característico da escola sul-americana. Uma organização tática rígida e muita
força física está mais no contexto da escola alemã, assim como o esforço físico
levado até a extenuação é a cara da escola italiana, e a escola inglesa se
baseia em jogadores altos e inúmeros chuveirinhos. Ora, direis, isso tudo se
aplicava ao passado, hoje as coisas estão quase que invertidas. É verdade, e
isso demonstra como essa questão de escolas é variável no decorrer do tempo.
Hoje os times sul-americanos têm mais que se defender do que os europeus, que
lhes toma os melhores jogadores quase no berço. Mas, passons, o mundo
gira e a lusitana roda, sem que possamos ter tanto controle assim.
Mas eu dei essa volta para dizer que há diversas escolas
filosóficas, que vão desde de divisões dicotômicas, como os racionalistas e os
empiristas, até divisões que se dão mais por geografia que por temática. Temos
a Escola de Frankfurt, especializada na interpretação moderna do marxismo, o
Círculo de Viena e seu positivismo lógico, a École des Annales e a nova
historiografia francesa. E já que estamos nos referindo a um produto fabricado
no leste do globo, temos aquela que é a primeira escola fundada no Oriente que
obteve reconhecimento do mundo ocidental: a Escola de Kyoto.
Kyoto é uma cidade que forma, junto a Kobe e Osaka, a
segunda maior região metropolitana do Japão, atrás apenas de Tóquio e
adjacências. É uma região que guarda um pouco mais das tradições locais em
relação à capital, mas que possui um dos maiores centros educativos do país, a
Universidade de Kyoto, cujo principal diferencial está nos estudos das ciências
humanas. Também é a terra onde se assinou o célebre protocolo de proteção ao
meio ambiente, onde os países da ONU se comprometem, fundamentalmente, a baixar
os níveis de emissão de carbono. Embora não tenha sido adotado por quem mais
precisava, deixou um importante legado ao ser pela primeira vez colocada a
hipótese de compras de créditos de carbono, uma maneira de compensar excessos
de emissões e de tentar resolver o problema pela via do bolso, já que pela
consciência está difícil.
O aspecto humanista verificado aqui tem a ver com a
quantidade de templos da região. Compreende-se que Kyoto se manteve mais fiel
do que Tóquio com relação às tradições milenares, e, levando em consideração
que grande parte da filosofia praticada no Japão tem fundo religioso, até mesmo
porque a religião nipônica tem correlação mais estreita com princípios
filosóficos que a matriz abraâmica ocidental (vide),
faz sentido que lá se desse o germe da imbricação intelectual com o ocidente.
A Universidade de Kyoto é célebre pela liberdade de
pensamento, o que garantiu, desde seus primeiros anos no século XIX, que
diversas correntes intelectuais se desenvolvessem concomitantemente. Pouco após
sua fundação, seu corpo diretivo já era escolhido por consenso do corpo
docente, ao invés de receber indicações do Ministério da Educação do governo
central. E é dele que partiu a iniciativa de traduzir para o japonês moderno
mais de 30 mil títulos da literatura ocidental, além de fazer o envio dos primeiros
jovens estudantes para intercâmbio cultural na Europa. O próximo passo veio na
forma de convite a professores de filosofia europeus para ministrarem aulas em
solo japonês, o que foi, aos poucos, ampliando cada vez mais a interpenetração
entre ambas as culturas acadêmicas.
Isso fez de Kyoto uma espécie de Sorbonne do Extremo
Oriente. E, junto ao seu nome, criou-se a abstração que leva o nome de escola,
no sentido de estabelecer uma corrente de pensamento que possui algumas
características em comum. E a maior delas é a absorção de conteúdo ocidental e
sua mescla com as ideias fundamentalmente nascidas do zen budismo.
É preciso, antes de mais nada, situar-se minimamente no
tempo e no espaço. O Japão até hoje é ponto de referência quando queremos ter
um exemplo de distância, mesmo em tempos de voos intercontinentais com aviões
turbinados. E isso se dá há coisa de 100 anos, quando os primeiros aviões
conseguiram autonomia suficiente para chegar em um ponto do Oceano Pacífico nem
tão próximo da massa continental asiática. Portanto, o contato com o Japão era
coisa muito precária até bem pouco tempo atrás. Some-se a isso uma diferença
abissal da cosmovisão clássica oriental e as posições ocidentais: mesmo que não
façamos juízos de valor, as diferenças de estrutura familiar, de acepção
religiosa, de sistemas políticos e sociais e qualquer outra coisa que se possa
pensar são tão opostos quanto os pontos de localização no globo.
A evolução dos transportes e das comunicações fizeram com
que o contato entre as duas metades do mundo se tornasse mais intenso. E isso
resultou em um novo modo de se olhar a maneira de pensar do ocidente. Antes de
se tornar um desvirtuamento do pensamento nipônico, os estudiosos de Kyoto
perceberam que eles eram complementares.
Embora a escola tenha gerado um número expressivo de
pensadores e trabalhos filosóficos, podemos dizer que a tradição que foi criada
a partir de seu nascimento possui um tripé composto por pensadores que vieram
em sucessão: Kitaro Nishida, Hajime
Tanabe e Kenji
Nishitani. Cada um à sua forma, todos trilharam mais ou menos o mesmo
caminho. A partir de uma matriz budista, fazer a releitura dos fundamentos
ocidentais, sem que se tire valor deles por uma questão nacional.
A metafilosofia por trás do pensamento de Kyoto era a
universalidade do pensamento. A aproximação ao ocidente se justifica pelo valor
dado aos processos cognitivos e pela lógica em qualquer lugar do mundo, que
para ter os atributos de universalidade e necessidade, precisavam valer em
qualquer tempo e em qualquer lugar. Isso inclui Japão e Alemanha, o principal
ponto de contato na Europa para os discentes de Kyoto. Esse posicionamento
trouxe críticas de fundo político ao movimento. Por um lado, os nacionalistas
afirmavam que, ao se render ao pensamento ocidental, os pensadores de Kyoto
perdiam a pureza de uma intelectualidade puramente nipônica. Por outro, a
adesão entre ambas as tendências filosóficas (o racionalismo ocidental e a
religiosidade oriental) remove as liberdades da primeira, já que, mesmo diante
de uma transcendência mais racional, ainda aqui temos posições dogmáticas.
Eu já mencionei aproximações de pensadores europeus ao
budismo, e o que a escola de Kyoto fez foi exatamente o mesmo procedimento,
porém do lado de lá. Objetivamente, foram mirados os pensadores alemães,
exatamente aqueles que fundamentaram toda a filosofia contemporânea: Kant,
Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger. Notem que são autores que tratam de
temas absolutamente universais, ou de pensadores que já tinham um olhar sobre a
filosofia oriental, o que, evidentemente, facilita tanto a compreensão, quanto
o interesse. São momentos em que se pode perceber uma vontade em se desvincular
daquela ideia de que há um conhecimento base do qual outras vertentes, de
outros povos, deverão derivar.
Certamente um dos principais ganhos da Escola de Kyoto foi a
criação de um contraponto dialético ao pensamento ocidental, mas não na forma
de antítese, e sim de complementaridade. Os ocidentais se preocuparam, via de
regra, com o Ser, com a substância e sua maneira de se integrar ao universo. Já
os pensadores de Kyoto trabalharam com o reverso da medalha, também considerado
pelos ocidentais, mas sem o nível de profundidade que o tema merecia: o Nada.
Para mencionar um exemplo, enquanto os existencialistas enxergam o vazio como
ausência de sentido para a vida e daí como o grande motivador da angústia, os
nipônicos não o veem nessa clave negativa, mas justamente no espaço onde a vida
ocorre. Sem o Nada, não há o Ser, porque ele não teria onde subsistir.
Também o fenômeno da consciência tem lugar nos alfarrábios
de Kyoto. A experiência é, para eles, tudo aquilo que está além da divisão
entre sujeito e objeto, que se dá pela percepção imediata e irreflexiva diante
de um fenômeno qualquer. É dessa forma que eles propõem uma solução para o
problema da epoché
fenomenológica proposta por Husserl: se extraída antes do processamento
racional, a experiência ainda não sofrerá todos os efeitos da imersão cultural
própria de um indivíduo, e poderá se apresentar mais purificada.
Ainda outro conceito caro à filosofia ocidental, o niilismo,
encontra acolhida e aperfeiçoamento pelos nossos bravos estudiosos da Terra do
Sol Nascente. O problema diz respeito à negação dos valores que se dá pela
perda de sentido dos seus sustentáculos originais na cultura geral da
humanidade. Enquanto Nietzsche propõe a supressão da subversão dos valores
através da explosão da vontade de potência, os filósofos desta escola defendem
o princípio budista da impermanência para o reconhecimento da transitoriedade
universal, inclusive nesses mesmos valores que se perderam pela transformação
em andamento do universo inteiro, inclusive dos seus valores.
Esses são alguns dos temas que são abordados por Kyoto, que
eu já trouxe por aqui e pretendo fazê-lo mais, na medida em que der encaixe e
eu me aprofunde um pouco mais em seus autores. Talvez aconteça como naquele dia
em que o despertador falhou, ou como em um tranquilo de silêncio e paz, como em
uma inspiração espiritual, nunca se sabe. Bons ventos a todos!
Recomendação de leitura:
Para se aprofundar mais nesta interessante escola de
pensamento, existe um livro muito completo, que indico logo abaixo.
FLORENTINO NETO, Antonio; GIACOIA JR., Oswaldo. O Nada
Absoluto e a Superação do Niilismo. Os Fundamentos Filosóficos da Escola de
Kyoto. Campinas: Phi, 2013.



