Marcadores

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O café filosófico do quotidiano – onde está e o que é o Nada?

(O contato aprofundado com o Japão tem trazido mais do que Jaspions e Jiraiyas)

Nesse sistema, cada coisa é ela mesma em não ser ela mesma, e não é ela mesma em ser ela mesma. Seu ser é ilusão em sua verdade e verdade em sua ilusão. Isso pode soar estranho na primeira vez que se ouve, mas, na verdade, nos permite, pela primeira vez, conceber uma força em virtude da qual todas as coisas são reunidas e trazidas em relação umas com as outras, uma força que, desde os tempos antigos, tem sido chamada de ‘natureza’”.

Kenji Nishitani

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Esta história começa com um fato triste. Não se trata de nenhuma catástrofe que tenha ceifado vidas ou modificado destinos, mas de um método de extração de café transformado em cacos.

A coisa foi mais ou menos assim: Curitiba é quase tão boa quanto São Paulo no quesito cafeterias. Enquanto meu filho mais velho ainda morava lá, sempre procurávamos alguma casa diferente para provar os produtos e ganhar repertório. Em uma delas, no saguão de um hotel, pedimos nossos cafés e fomos nos sentar para esperar, até sermos sobressaltados pelo ruído de porcelana caindo no chão. E lá estava a mocinha desesperada com a meleca toda no balcão. Em um impulso, fiquei de pé e fui ajudar com o inútil recolhimento de um grande pedaço que havia saltado sobre o balcão. Quando o peguei, pensei comigo: que método é esse? Era um falecido Origami.

Trata-se de um utensílio muito semelhante ao brasileiro Koar, e segue aproximadamente o mesmo princípio geral: diminuir o contato do filtro com o porta-filtro, através da distribuição de ranhuras que permitem a livre passagem de ar. Porém, aqui as ranhuras têm arestas pontiagudas, enquanto o Koar as tem arredondadas.

Outro diferencial é um maior orifício na base, se comparado aos porta-filtros V60, da Hario. Como o objetivo do método é proporcionar uma passagem rápida da água, esta característica faz com que haja uma retenção menor. O controle deve ser feito através da moagem.

O material de confecção é nobre, sendo composto por porcelana recoberta de resina, com todo o charme que remete às dobraduras de papel tão caras aos japoneses. Há uma explicação para a aplicação da resina, além do efeito estético: a porcelana pura contém muita porosidade, o que provocaria uma retenção indevida de óleos e outros resíduos, com a dupla desvantagem de “roubar” componentes e mantê-las em oxidação, prejudicando o resultado final. 




Nome do utensílio: Origami

Tipo de técnica: percolação em porcelana resinada

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média

Dinâmica: O porta-filtro deve ser inserido em um suporte do tipo mancebo ou anel de madeira (não vem com o produto) e receber um filtro cônico. Após o habitual bloomig, realizar os despejos necessários conforme a receita escolhida. 

Resíduos: Baixos

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: Médio

O acidente foi infeliz, mas me trouxe uma série de reminiscências infantis. Eu tinha uma tia-avó chamada Antônia, espanhola de Cartagena, que tinha duas habilidades muito especiais. Ela era daquelas pessoas que contavam histórias com todo um colorido, que seduzia sua audiência, em especial as crianças. Seu sotaque fortemente marcado ajudava muito na tarefa, porque trazia uma certa aura de mistério, como uma pessoa que vinha de longe (vinha mesmo) e trazia um espírito cigano, de quem tinha visto muita coisa em seus vários anos de vida. E ela era pródiga em fazer dobraduras, que, muitas vezes, juntava às histórias que contava. Ela não apenas ensinava, mas construía todo um enredo através do ato. E não eram barquinhos ou aviõezinhos o que ela confeccionava, mas homens de ternos, cavalos que puxavam carruagens, personagens da commedia dell’arte, e com ela vinham os soturnos negociantes de metais preciosos, os cavalos que transportavam o sol e o Polichinelo falastrão espalhando segredos pela aldeia toda. Um espetáculo. É sério. Era a contação de histórias eleva a nível de bel’arte.

Muito pouco eu aprendi, tanto das histórias, quanto das dobraduras. Talvez o mais diferente sejam os barquinhos de capota, pouca coisa diversa daqueles que colocamos nas bacias de nossos bebês (ainda se usa colocar barquinho de papel nas bacias dos bebês?). Mas uma coisa é certa. O termo origami, tão caro à cultura japonesa e que hoje está no nosso léxico, era absolutamente incomum. Aliás, quando eu era criança, a cultura japonesa ainda era algo muito distante do nosso dia-a-dia. Sushis eram inexistentes fora da Liberdade. Animes e mangás eram raridades restritas aos Ultramens da vida, e muitos dos desenhos que passavam na TV nem davam noção direta de sua procedência nipônica (hentais também não eram populares, para gáudio de Carlos Zéfiro - entendedores entenderão). Tínhamos algumas ocupações mais presas a estereótipos do que a realidade permitiria deduzir: quitandas, tinturarias e “pasterarias” eram clássicas ocupações de japoneses e seus nisseis, sanseis e sucedâneos. Além, evidentemente, dos primeiros lugares em concursos e vestibulares. Mas ainda restava uma visão de colônia mais fechada, de cultura substancialmente própria, como se fosse impensável um japonês bicheiro ou cabulador.

Hoje em dia, a cultura japonesa abriu asas em terras tupiniquins, e encontramos tudo isso que falei em profusão, incluindo rodízios impensáveis outrora, bandejinhas bentô, refrigerantes que explodem na boca, lojas de quinquilharias e, claro, hentais.

O resultado é que não temos mais aquele ar exótico e fechado, embora seja ainda uma cultura inequívoca por suas características próprias. É até óbvio, já que usam língua que nem são de nosso tronco linguístico, tem religiosidade que foge do modelo abraâmico, são bem mais uniformes fenotipicamente e, com isso, não conseguimos ter a mesma proximidade que temos com os demais latino-americanos, por exemplo. Mas o mundo interligado nos permitiu ter um contato muito mais rico com seus valores e manifestações.

Mas não é só da cultura popular que encontramos cada vez mais intersecções com influências orientais, mas no próprio meio intelectual. Os japoneses têm a fama da sabedoria, muito por conta do modo reflexivo com os quais conduzem seus hábitos, religiões e doutrinas, dando um aspecto racional que nem sempre está presente nas tertúlias ocidentais, tidas como passionais e sanguíneas, menos dada a introspecção.

É a partir do século XX que veremos as duas frentes culturais se imbricando, com a abertura das ideias ocidentais penetrando no Japão, e, no caminho inverso, uma melhor compreensão dos fenômenos intelectuais japoneses cada vez mais se apresentando no dito pensamento ocidental. Esse ponto de contato se dá principalmente através da Escola de Kyoto, que funciona como uma espécie de porta de entrada para os filósofos europeus, especialmente alemães, como Kant, Hegel, Schopenhauer, Heidegger e Nietzsche.

Estava com vontade de escrever um texto mais genérico sobre essa escola, mas vou deixar para um segundo momento. Vou falar agora de um exemplo bem marcado de como ambos os modelos de pensamento se imiscuíram a partir desse momento, o que se deu com uma obra que tenho acompanhado nos últimos tempos.

O intelectual Keiji Nishitani faz uma conciliação interessante entre o conceito de niilismo e noções que atravessam a religião oriental, em especial a ideia de vacuidade do budismo.

O momento histórico de onde surgem seus pensamentos tem muito a ver com o fracasso das expectativas surgidas a partir do Iluminismo europeu. Sucessivamente, as tradições, as religiões e mesmo a razão se mostraram frustrantes para fornecer sentido à existência humana. A primeira representa a perpetuação dos estados de coisas que conduzem ao vazio, a segunda demonstrou com o tempo não trazer respostas e a terceira, ao fim e ao cabo, demonstrou que a confiança na ciência e na tecnologia levam ao seu efeito oposto: as guerras hoje podiam, pela primeira vez na história, levar todo o planeta à destruição. Nesse contexto, o niilismo floresce e se consolida: a vida é um grande absurdo em que nada faz sentido. Essa é uma afirmação muito recorrente no existencialismo, especialmente em Camus.

A condição do absurdo é desconfortável. Ninguém se agrada de não ver sentido na sua existência, de não ter qualquer tipo de suporte para sustentar suas motivações, e isso acaba tendo uma solução ilusória: o mundo moderno, fortemente baseado no individualismo, busca cada vez mais se esconder do nada, através da posse contínua e da sensação de uma vida incrível vendida pelas propagandas. O sentido da vida é a compra de passaportes contra o nada. As civilizações do hedonismo são construídas para fugir no niilismo.

Um dos exemplos mais simples está na atual incapacidade de se ver sem um celular na mão (estou digitando este texto em um celular). Com este aparelho, comunicamo-nos com o mundo todo instantaneamente, em um piscar de olhos. É um fenômeno contemporâneo? Nem tanto. Antes dele, havia a televisão, os toca-discos, os walkmen, os rádios… artifícios para desviar o pensamento de nós mesmos. Não são ruins por si mesmos, mas são ferramentas para criar uma cortina entre uma realidade no mínimo desconfortável e uma dimensão feita sob medida para nos mantermos iludidos.

Esse é o grande erro de toda uma sociedade, no parecer de Nishitani. O niilismo não é uma crise do mundo, mas a crise de um ego que busca evitar o vazio, quando, na verdade, deveria explorá-lo.

Toda a fonte de desespero que o humano enfrenta ao se deparar com suas incertezas está baseada no fato de que esse vazio não é absoluto, mas relativo: trata-se de um nada em relação com o próprio ego. As coisas não estão boas para mim, a falta de perspectiva é com relação ao meu futuro, é a minha vida que não avança. Sempre que se coloca algum tipo de problema ou dificuldade, o ponto de referência sou eu mesmo.

Ocorre que, utilizando o princípio de sunyata (vacuidade) do Budismo, Nishitani apresenta a solução ao niilismo de maneira próxima à de Nietzsche. O nada absoluto ocorre quando se consegue despir do próprio eu para se chegar à realidade em si mesma. O nada absoluto é semelhante a entrar em um espaço vazio onde tudo está por ser construído, em um autêntico despejo de criatividade para quem chega a esse estágio. O mundo vai além do ego.

O nada absoluto é uma tela vazia onde você pintará com suas próprias tintas. No dizer de Nishitani, é quando você caminha em uma estrada e perde a noção de destino e, ao olhar para trás, também já não enxerga a origem. No de Nitezsche, é quando se atira no abismo.

De uma forma ou de outra, é possível reconhecer como Nishitani acaba por se aproximar de noções dos fundamentos do próximo conhecimento. Se pensarmos na estética transcendental de Kant, lembraremos que a base mais profunda da relação cognitiva está naquilo que temos de inato: as noções de tempo e de espaço, que acabam por constituir o substrato por onde os conteúdos empíricos são colhidos do mundo. Ao se remover todo esse pacote inserido pelo mundo exterior, ainda assim continuamos a ter o fundamento, agora na forma de nada. Tempo e espaço são os elementos por onde tudo existe, não só na forma concreta, mas da possibilidade.

Portanto, Nishitani vê a vacuidade como um retorno ao inato, ao mais basilar de todos os mecanismos de apreensão do universo para que o ego daquele que se defronta com a angústia possa ter para si a realidade purificada e repleta de possibilidade de transformação. É ao se defrontar com o Ser das coisas que percebemos como elas estão interconectadas e relacionadas para formar a natureza como ela é, em cada um de seus componentes, e que somos parte desse todo, e não apenas nós mesmos. O mundo moderno, impulsionado pelo mercado, tenta nos conduzir para o lado oposto, do individualismo, mas é justo no nada que reencontramos tudo.

Este é o sentido mais autêntico de religião. Não se trata de uma necessidade de reencontro com um ser divino, porque a palavra em si significa “religar”. Mas religar com quê? Com a base que nos constitui, com o reconhecimento de que o universo transita sobre esse nada autêntico. É aqui que se constrói a vida e o sentido, inclusive nos pedaços que se partem ao chão. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Ser mais conhecido no ocidente não significa ter obras traduzidas para o português. É muito difícil achá-las, mas tem sempre um espanhol ou italiano para quebrar nosso galho.

NISHITANI, Kenji. La Religión y La Nada. Madrid: Siruela, 1999.



terça-feira, 5 de maio de 2026

Quindici anni fa: Os italianismos que colorem as coisas que escrevo nesses quinze anos de escrita

(Quinze anos não são quinze dias, mas também não são a eternidade)

“Talvez o dinheiro não compre a felicidade, mas pode comprar uma bela casinha na Toscana, e isso já me basta”.

Lois Greiman

Olá!

Há quinze anos, minha mãe era viva, meu pai também. Eu tinha outro cachorro, ainda tinha 20 passarinhos na gaiola, e meus filhos moravam comigo. Há quinze anos eu professava uma religião, eu não tinha air fryer, eu nem sonhava em trabalhar em home office. Eu tinha poucos cabelos brancos (aliás, tinha muitos cabelos), não tomava remédio para diabetes e só lia livros físicos. Por outro lado, eu já era corintiano, já fazia bons quiches, já morava no centro dessa cidade vertiginosa, embora ainda não a dividisse com Taubaté. O mundo muda e não muda em quinze anos.

Hoje, faz quinze anos que abri este boteco. Muito mudou: os temas, as abordagens, o público. Pouco mudou: o pano de fundo, o jeito de escrever, o próprio escriba. Não queria ser repetitivo, mas sempre é necessário fazer uma rápida reciclagem para quem não me acompanha há tempos. Este blog nasceu quando o formato já não era novidade, inclusive já estava na vazante da maré quando decidi iniciá-lo, como um projeto pedagógico: em pleno estágio acadêmico, eu precisava propor uma ideia que cumprisse a obrigação formativa. Não fui muito criativo, e propus o formato blog para lançar um questionamento partido do quotidiano para que meus alunos refletissem e respondessem em sala. Ora (direis), por que não usaste o próprio espaço de comentários para que os alunos fizessem seus apontamentos? Pois é, mais uma mostra de minha incompetência digital. Mas, uma vez passada a fase de projeto, continuei postando textos, um pouco mais elaborados, e virou uma espécie de repositório de pensamentos e aprendizados. Sendo um formato já ultrapassado, não sei até quando vai durar. Para mim, poderia durar para sempre, porque, nesse tipo de coisa, sou conservador – tenho dificuldade em me adaptar a novos ventos. Falaram para mim sobre o formato newsletter, onde meus textos chegariam aos leitores por e-mail e eu poderia até cobrar pelo serviço. Se ninguém lê o que escrevo de graça, por que pagariam pelo mesmo serviço? Mas não vou ficar com aquelas chorumelas de que não vou isso, não vou aquilo. No mínimo, fico aqui enquanto a plataforma deixar. Dopo, vedremo.

Mas é justamente sobre essas duas últimas palavrinhas que eu vou falar hoje. Nós temos maneiras próprias de nos expressar que nos dá alguma identidade. Uns usam longos períodos, outros repetem palavras com constância, outros ainda usam tantas referências que tornam o texto uma autêntica teia de aranha. Quem me lê com alguma constância, percebe que misturo formalidade com língua coloquial, e sou pródigo em utilizar expressões estrangeiras, não por um viralatismo explícito e assumido, mas porque, de fato, há muita coisa na filosofia que tem suas origens externas. Há os ethos gregos, as veritas latinas, os geists alemães, as durées francesas ou falsafas árabes, e é inevitável que façamos referências a origens etimológicas ou termos consagrados. Mas é evidente que não é isso que salta aos olhos, já que todos que lidam com o tema têm esses termos como matéria-prima. O que eu quero me reportar é aos inúmeros italianismos que venho usando desde o começo da empreitada.

Para começo de conversa, vivemos em um país de numerosos descendentes de italianos, em especial no Sul/Sudeste. Junte-se fatores que estimulavam o êxodo na península mais famosa do mundo, como a incerteza política, a fuga das guerras e a pobreza generalizada com a oportunidade de explorar um território imenso ainda desbravado, mas em franco crescimento, e teremos o alinhamento dos planetas que fizeram o Brasil o território com a maior quantidade de descendentes da bota do mundo. Isso está refletido nas ruas, nos negócios, na cultura e, claro, na minha vida pessoal.

Dia desses, eu estava dando aquele tapa nos documentos velhos, e encontrei um talão contendo os seguintes dizeres: E.E.P.G. Stefan Zweig – Formandos 1983. Era a minha turma do ginasial que encerrava seu ciclo naquela imensa escola da Zona Leste, cada um na busca de seu futuro. O bairro ainda era um repositório dos descendentes de europeus que já começavam a ser tocados para os cantos mais periféricos, onde iriam dividir com os descendentes de negros e indígenas as agruras de morar no que ainda era parte dos limites urbanos da cidade. Coloquei-me a folhear para ver de quais nomes eu conseguia me lembrar da pessoa, e como não dá para saber de qual Marcelo ou Sandra está se falando sem o sobrenome, comecei a compulsá-los. E veio a torrente de oriundi. Era Bartachini, Agnoletto, Beratta, Salerno, Tuzzi, Galletti, Favero, Andreazza, Buchi, Chiavegatti, Tagliatella, Colatti, Mortari, Cordoli, Boldrini, Fiorentini, Pignatti, Peretti, Gianchristofaro, Rizzon, Rompinelli, Tomazelo, Galassi, Quintale, Versutti, Zerbini, Mazziero, Cararetto, Gomeratti, Dovadoni, Giudice, Daneluci, Martinelli, Cescato, alguns já levemente aportuguesados, outros fiéis à escrita italiana, mas todos de origem inegável.

Meio admirado, resolvi fazer um exercício mais recente, puxando o nome da turma de TI do lugar onde trabalho, e lá vem o fenômeno se repetindo: Moretti, Gambarini, Belucci, Chelli, Fasolai, Ricci, Contini, Brandini, Frigoglietto, Morgantini, Breviglieri, Portela, Scarpone, Casarotti, Bertoni, Granato, Mastriani, Stroppa, Pecora, Bergamo, Azzolini, Canatto, Pieri, Girotto, Grassano, Pissolatto, Chinelato, Christianini, Venturini, Perazolo, Corcini, Cortesini, Villani, Paganini, Secco, Croce, Del Cioppo… adesso fermati! È già tanto.

Portanto, ainda que o auge da imigração italiana tenha se encerrado no começo do século passado, o fato é que ela foi tão numerosa que tem seus reflexos na cultura ainda nos dias de hoje, desde um simples ciao até trejeitos bandeirosos e voz alta.

Isso passa pela óbvia culinária: risoto, pizza, talharim e tanta comida que nem dá para se estender tanto, mas por toda a linguagem que foi construída em Terra Brasilis, que difere do português de Portugal justamente por essas influências externas, e o italiano traduz muitas dessas diferenças. São os italianismos, traços da língua italiana traspassados para nosso falar.

No português materno, por exemplo, é muito comum a aplicação de infinitivos, enquanto aqui somos mais adeptos do uso de gerúndios. Por exemplo, não dizemos comumente que estamos “a fazer” coisas, mas “fazendo”, o que é uma forma típica da Itália. Cuidado: não se trata do recente gerundismo que tomou conta dos manuais traduzidos diretamente do inglês e usados como forma de empolação ao falar. A influência italiana, no caso, é plenamente válida na norma culta do português, enquanto o gerundismo, não. Ainda não.

Outra construção típica do italiano que usamos no Brasil é a repetição enfática. Como exemplo, há um provérbio que diz que “Piano piano se va lontano”, um equivalente do nosso “devagar se vai ao longe”. Nós usamos essa repetição de palavras também, em frases do tipo “ele é bonzinho, mas é chato, chato”, “no meu salário este mês não veio nada, nada”, “consigo fácil, fácil”, como se este eco demonstrasse mais realce para a característica que se queira destacar.

Em São Paulo ainda temos o corte do designador de plural “s”, e falamos comumente “os mano” e “as mina”. Isso segue a lógica italiana de não designar plural com a letra “s”. Lá, há diferenças em fazer plural no masculino e no feminino. Assim, moço e moça se dizem ragazzo e ragazza, que no plural vão para ragazzi e ragazze. Sem o S, portanto, o que, no Brasil, vai desembarcar no seu corte puro e simples.

Também as construções do tipo “não me vai fazer errado de novo” são italianismos. Elas se devem ao uso da partícula ne, que não tem nenhum sentido em português, mas que em italiano substitui palavras como “dele” ou “disso”, assim: “Sono un tifoso del Corinthians. Non ne lasciarò mai”. Notem que a partícula não tem nenhuma função no português, mas os italianos recém-chegados acabaram a adaptando de um jeito meio arrevesado, mas que se tornou típico das Moocas da vida, a ponto de se tornar comum na cidade toda. Não me passa uma vergonha dessas, não me deixa a chave no serviço de novo.

A conclusão a que chegamos é que muito do que se pode chamar de influência italiana está imiscuído em nossa cultura, de maneira menos perceptível do que as tarantelas das festas de imigrantes podem fazer supor. Um certo gestual, um tom de voz, um sotaque cantado dos velhos da Mooca e do Bixiga fazem de fato perceber uma proximidade com o modelo de fala que se pratica até hoje na bota. Um derramamento no canto e um volume bastante elevado para outros padrões também são demonstrações inequívocas da influência.  É doloroso falar, mas dia desses, há tempos, eu estava ouvindo um progressivo italiano (I Dalton) quando minha agora defunta mãe perguntou se Bruno e Marrone tinham feito uma versão em italiano de uma de suas chorumelas. Imperdoável, ma non troppo, porque esse exagero é realmente típico dos italianos, e não tinha como evitar que ele fosse traspassado junto com tudo o mais que eles trouxeram para a cultura brasileira em geral.

Eu sou neto de italianos, e isso ficou fartamente comprovado no exame de hereditariedade que fiz há um tempo atrás. Está lá: praticamente 70% de “italianidade”, o que nem foi surpresa para mim, só confirmação. Não é motivo de orgulho, nem de vergonha, apenas a constatação daquilo que eu ouvia da tropa mais velha, aqueles termos sujos dos italianos pobres, que vinham das regiões agrárias fugindo da fome ou da guerra, como tantos daqueles que ostentam os sobrenomes sonoros que listei mais acima. Meus parentes se espalharam pelos bairros típicos de italianos, morando nos antigos cortiços ou nas casas operárias, além da quota de campesinos que fizeram parte da diáspora itálica, pelos interiores de São Paulo e Paraná.

Mas eu peguei bastante prática na língua por causa da faculdade de filosofia. Era época em que já não nos rastejávamos na internet, mas ainda havia pouco material disponível na Última Flor do Lácio. Com isso, era necessário pesquisar em língua estrangeira, o que era um desastre para um monoglota convicto como eu. Apelei para a língua da nonna e fui me aperfeiçoando, inclusive, confesso, aproveitando artigos inteiros para cumprir as obrigações acadêmicas (quem nunca?). Comecei a escavar livros inteiros nos sebos, e fui melhorando e melhorando a leitura, desvendando os mistérios e desfazendo de falsos amigos, até o ponto de fazer meu TCC baseado na maior parte da obra de Giovanni Guareschi na língua nativa, fruto dessas garimpagens e da conotação política havida na obra. Giovanni quem? Beh, Giovannino Guareschi foi um jornalista especialmente ativo na época da Segunda Guerra e, como sabemos, a Itália foi um dos grandes atores do palco de eventos. Ele não foi um autor da grande literatura, como Dante ou Ariosto, mas um cronista sem igual quando o tema é a colisão entre os costumes tradicionais religiosos e os novos tempos da esperança comunista e do aggiornamento católico. Por lá, peguei bastante do formal e do coloquial, da língua simples e do empolamento, porque há políticos e bispos na narrativa, e não apenas aldeães pobres da época da fome. Então eu fui pegando mais e mais o jeitão da coisa, a ponto de me virar muito bem quando o quesito é leitura. Para ouvir, um pouco de calma na interlocução faz maravilhas, mas tenho dificuldades quando a chiacchera pega ritmo. Agora, quando tem que sair de mim, seja falando, seja escrevendo, o buraco fica bem mais embaixo. Ainda sai aquela língua meio suja e rural dos parentes, inclusive com as sutilezas regionais. Mas eu vou tentando melhorar.

Então é por isso que uso tantos termos em italiano nos meus textos, um pouquinho pela influência da nossa linguagem mesclada, um bom tanto pela minha descendência e outro pedaço pelo pragmático uso que fiz da língua nas épocas acadêmicas. Já vi bastante gente fazendo uso de línguas estrangeiras também com outros idiomas, e acho elegante, por isso uso tanto. Não no sentido de substituir pura e simplesmente palavras existentes na língua mãe, mas de colocar um pouco de meus usos e costumes em uma escrita que procura traduzir um tanto de informalidade. Nem só dia-a-dia, nem só Filosofia, é o slogan de guerra do blog. É claro que tento me cuidar para fugir do pedantismo e, principalmente, para me fazer compreender sem perder o colorido da escrita, isso é o mais importante de tudo.

De resto, a pergunta mais comum que me fazem diz respeito à continuidade no formato, que já está bem ultrapassado. A resposta é curta e direta: não sei. Formatos como YouTube e Instagram são muito mais trabalhosos e não quero cair na armadilha de priorizar forma em detrimento do conteúdo. Talvez eu crie alguma forma de trazer remissões para este mesmo lugar, que também não durará para sempre. Não sei se virão mais quinze, sejam anos, meses ou até dias. No final das contas, o mundo gira e impulsiona nossos ciclos, e eles são impossíveis de medir. Mas não importa, porque continuaremos a tentar viver e o término é sempre o mesmo. Não nos importa começar tudo de novo, e de novo, e de novo, até porque… tutti i salmi finiscono in gloria. Buoni venti a tutti!!!

Recomendação de visita:

Vou indicar as três principais festas italianas da cidade de São Paulo, o que já dá a elas o estatuto de mais conhecidas do Brasil. Vão em ordem cronológica da época do ano em que acontecem.

Festa de São Vito Mártir 

Rua Polignano a Mare - Brás 

Ocorre entre maio e julho 

 

Festa de Nossa Senhora Achiropita

Rua Treze de Maio - Bela Vista (Bixiga)

Ocorre em agosto

 

Festa de San Gennaro

Rua San Gennaro - Mooca 

Ocorre entre setembro e outubro

domingo, 3 de maio de 2026

Consciência do corpo é prova de sua participação na racionalidade (Pequeno guia das grandes falácias – 78º tomo: a incredulidade pessoal)

(O corpo não está fora da relação de conhecimento)

Gostaria de uni-las [N. do A.: a arte e a natureza]. A arte é uma apercepção pessoal. Coloco esta apercepção na sensação e peço à inteligência transformá-la em obra”.

Cézanne apud Merleau-Ponty

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

Aconteceu. Demorou, mas aconteceu. O médico olhou, olhou e olhou os números nos meus exames e franziu o cenho. Olhava para mim e olhava para os números, para as curvas, para os mapas. Olhava para mim e para a anamnese na tela do computador, com o histórico familiar denunciando a genética desprivilegiada. Por fim, olha para mim e entrecruza os dedos sobre a escrivaninha, proclamando a sentença: você tem duas escolhas – incluir atividades físicas na sua rotina ou já fazer as encomendas típicas de um enfarte. Nem preciso dizer quais são. 


A coisa toda se deu em exames de rotina, o que já tira a agudeza de algum evento bem demarcado, como uma dor no peito ou desmaio. Diante de ultimato tão convincente, eis que eu cumpri, finalmente, uma ordem médica e um desejo antigo da patroa, e me inscrevi na academia. Não se trata de nada filosófico ou científico, como sói acontecer com admiradores de Platão, mas físico mesmo, para dar um pouco mais de sustentação na maquininha. Nada muito aeróbico no começo, porque é preciso primeiro que o coração vá se fortalecendo, então vamos de musculação e de Pilates. Dizem que este último é coisa para senhorinhas, e de fato a chiacchera come solta, reforçando o estereótipo, mas me deixa ainda mais moído que o primeiro, porque seus aparelhos de nomes malucos fazem esticar e suster o próprio peso na maioria das atividades, o que me faz ter consciência de que minha barriguinha não é só uma ode ao ócio, mas à flacidez dos músculos. Incluindo o cardíaco.

Os exercícios especificamente de Pilates são estranhos. Como é de se esperar, há poucos homens fazendo suas torções, enquanto as mulheres se desenrolam em ginásticas que se assemelham a acrobacias, com muitas piruetas nas barras e pranchas, além de técnicas que lembram yoga e balé. Com isso, há um certo ar feminino que nosso preconceito nos faz olhar de bico torto para uma atividade que nada tem a ver com o sexo e a sexualidade do contribuinte. Prometo dar uma boa estudada na história da técnica para trazer a vocês o que ela pode sustentar de filosofia.

Fato é que todos os médicos com os quais conversei após começar a treinar o corpo acudiram com beneméritos à atitude. A verdade é que nós vamos deixando nosso físico para trás à medida que os aperreios da vida nos distanciam de coisas que reputamos como secundárias. Ou, melhor dizendo, que vamos colocando na caixinha de secundárias, porque, na realidade, secundárias elas nunca foram. É claro que passei apertos que simplesmente me impediam de sonhar com o custeio de uma academia, e o tempo disponível era utilizado para trabalhar, e trabalhar, e trabalhar, sempre na esperança de receber um trocado a mais para limpar a longa lista de desafios financeiros. Com isso, veio o costume pela lei do menor esforço e o engordamento, a dificuldade cada vez maior de fazer trabalhos duros e, nessa roda-viva do círculo vicioso, as ateromatoses, as pressões altas, as palpitações e ela, sempre ela, a diabetes mellitus.

Refazer tudo o que ficou para trás é duro e, principalmente, limitado. É muito pouco provável que eu atinja um nível minimamente parecido ao que eu tinha com vinte anos, por força dos abusos e do envelhecimento, mas é preciso tentar, e é isso que eu estou fazendo agora.

Tudo é muito doloroso, até mesmo simples agachamentos, porque meu corpo é um bocado pesado, então nos primeiros dias tudo o que eu fazia era tentar levar as séries até o final. Com o decorrer do tempo e do esforço, as coisas foram melhorando um pouco, a ponto de se poder colocar atenção em outras coisas, como a exata parte do corpo que é ativada nos movimentos. Alguns dos exercícios têm me provocado reações contraditórias. Como a única atividade mínima que eu fazia era andar, esperava que as pernas me doessem menos, o exato oposto do que me ocorre, com autênticos frangalhos pós-treino. Já os braços têm se mostrado resistentes e rijos, justo onde eu esperava dores e mais dores. Por ora, algum incômodo e é só. Isso se dá porque os exercícios físicos causam microlesões e suas consequentes inflamações, que, ao regenerarem-se, acabam por causar o fortalecimento do músculo. Nos exercícios mais pesados, há ainda o acúmulo de ácido lático, que causa aquela sensação impossível de queimação, que não é agradável, mas que também é esperada.

O que eu tenho achado de mais filosófico nesses primeiros meses de treino é a consciência de corpo, de como não a temos até sentir cada uma das fibras sendo repuxadas por aparelhos e exercícios. De fato, nas pausas suadas entre um exercício e outro, repuxo as molas da parede girando os pulsos, e percebendo como cada uma das posições retesa um músculo diferente. Mão virada para baixo ativa o músculo X; virada para cima, mexe com o músculo Y e, para os lados, outro ainda. Você lentamente vai percebendo como cada puxada afeta uma parte diferente do corpo e praticamente consegue desenhá-lo mentalmente. Essa consciência também é treinada na medida em que os instrutores berram suas correções: “mantém o abdômen contraído”, “apruma a coluna”, “abre o peito”, “sinta suas escápulas, escápulas, escápulas, escápulas…” em um longo eco que parece mesclar algo de sonho com uma palavra da moda, ou como se entrássemos em uma caverna na busca da pequena ninfa Eco. No meu tempo de rapaz, dizíamos: omoplata. Numa dessas viradas de nomenclatura, a coisa virou escápula e precisei reaprender tudo isso, menos quando caí do muro empinando pipa e quebrei a dita cuja, seja omoplata ou escápula. Foram dois meses de gesso com o braço esquerdo cruzado sobre o peito. Dizem que tive sorte por não ser o direito, que me consumiria muito tempo de aula. Não sei se concordei com isso na época.

Entretanto, independentemente do meu posicionamento pessoal, o fato é que essa consciência de corpo era praticamente uma lenda tanto dentro do âmbito filosófico, quanto do científico. Se por um lado a consciência parte de um sujeito, ela precisa do caminho dúbio dos sentidos para ser trazida “para dentro”; por outro, a roupagem pessoal de cada uma das consciências deturpa o objeto analisado de como ele efetivamente é.

Estamos em um momento em que está bem estabelecida a divisão entre filosofia e ciência com relação ao quesito “homem” na relação do conhecimento. O principal fundamento da fenomenologia e sua grande novidade está no papel da consciência de quem observa os fenômenos, ou seja, as ocorrências reais que se desenrolam no universo. Sem uma consciência, nada se registra e o ato cognitivo, evidentemente, não acontece. Portanto, a primazia do conhecimento, nesse sentido, está no sujeito, na razão que processa a realidade, e esse é um parecer filosófico.

Já a ciência se baseia na oportunidade empírica de se observar os fenômenos e deles tirar conclusões sobre suas causas e suas consequências. Ao contrário do que pensa a filosofia, não há processos cognitivos sem um fenômeno a ser observado, dando a precedência ao objeto nessa relação: uma consciência nada observa se nada acontece.

Sendo assim, o corpo seria um mero suporte por onde corre a consciência, sem nenhuma função além de “segurar” a mente que capta o exterior. Ocorre que há um preconceito metafísico nessa dicotomia. Onde fica o corpo nessa história toda? Por que nos esquecemos de que a entrada de toda e qualquer sensação se dá por via dele?

É uma questão muito simples. Não há erro em atribuir importância para a razão. É efetivamente por ela que se dá sentido ao conhecimento que se adquire. Mas acontece que a mente pura não existe – ela reside em um corpo como um de seus componentes e não alguma coisa à parte. É tão influenciada por ele, quanto o influencia.

Eu já citei Merleau-Ponty por aqui e vou fazê-lo novamente, por sua abordagem original com relação à participação dos corpos na matriz do conhecimento. A principal crítica do mestre francês se dirige ao pensamento racionalista de Descartes, mas ele detecta que vem desde Platão um certo menosprezo pelo corpo, quando pensamos que é nele que residem os sentidos. O padroeiro grego dizia com todas as letras que o mundo dos sentidos, o mundo corpóreo, era eivado de erros, justamente porque eles eram facilmente enganados por toda sorte de defeito. E é exatamente sob esse signo que o fenomenólogo em tela cria um de seus grandes exemplos de importância da corporeidade.

Platão despreza a arte. Ele o faz porque, para ele, todas as coisas do mundo sensível são meras reproduções imperfeitas dos objetos existentes no racional mundo das ideias. Dessa forma, qualquer paisagem que se possa visualizar nada mais é do que a paisagem obtida através do intelecto na perfeição matemática e geométrica das formulações, e que é plasmada para as formas imperfeitas verificáveis na natureza e com os distúrbios dos sentidos. Ao se reproduzir a paisagem em tela, nada mais se faz do que aumentar o nível de discrepância entre o objeto intelectual e o objeto sensível: uma cópia da cópia. Descartes sacramenta a divisão através da dualidade res cogitans - res extensa, sendo que o corpo é colocado no âmbito da matéria como uma pedra ou um pau qualquer, jogados no caminho. E Ponty se opõe vertiginosamente a essa posição. Para ele, corpo e mente são simbiontes que têm cada um a sua função própria no processo de absorver o mundo. De fato, as reações corporais advindas de qualquer processo de interação com o ambiente são prova de que tal interação é influente no caminho cognitivo, nosso modo pessoal de dar suporte à consciência. Eu sinto raiva, e meus níveis de adrenalina e cortisol são de uma determinada maneira; sinto alegria, e os mesmos hormônios se dosam de maneira diferente. São instâncias corpóreas que influenciam decisivamente na maneira com a qual eu desenvolvo minha percepção, provando que o corpo importa, e muito. Dependendo do meu estado emocional, vejo as coisas de maneiras diferentes.

Em contraposição a Platão, Merleau-Ponty entende que a mão do artista reproduz exatamente aquilo que está na relação entre a mente e o corpo, ou seja, a realidade que a mente do pintor processa ao se defrontar com a paisagem é traduzida pelos seus dedos no trabalho na tela. A obra do pintor é a tradução da consciência que não está além do corpo, e que é traduzida por ele. Como exemplo, ele tenta criar uma relação entre a visão e a reprodução da realidade realizada por Paul Cézanne, pintor pós-impressionista francês que traz uma absoluta originalidade na sua obra.

O grande distintivo da obra de Cézanne é a distorção de perspectivas, levada a cabo pela simplificação das formas. Para um olhar mais descuidado, pode parecer uma falha de técnica, uma inabilidade no trato com os pincéis, mas a existência de obras mais convencionais desfaz essa impressão e nos trazem a pergunta: por que ele está pintando dessa forma?

A questão é a seguinte: se olhamos para um círculo obliquamente, vemos uma elipse. Sabemos se tratar de um círculo, e nossa mente se encarrega de corrigir essa percepção, mas o fato concreto, efetivo e real é que vemos uma elipse, que varia de forma dependendo do ângulo que a captamos. Vejam a obra abaixo, chamada “natureza morta: jarra e frutas em uma mesa” (disponível em https://paul-cezanne.org/Still-Life-Jug-And-Fruits-On-A-Table.html):


Notem que as formas não são precisas como se esperaria de uma reprodução fiel. Há várias referências à esfericidade das frutas, aos pontos de fuga da linha do horizonte e aos paralelismos congruentes, que são todos imprecisos, da mesma forma que é imprecisa nossa sensibilidade voltada para o mundo. O objetivo de Cézanne não é reproduzir os objetos como eles são, mas como ele os percebe.  

Cézanne tinha uma dúvida. Será que sua vocação não era uma mera falsidade, e que sua obra peculiar não era advinda de alguma moléstia visual? Será que todo o seu talento não é originado de um mero acidente da vida? 

Merleau-Ponty entende que a dúvida nada mais é que a confusão para uma ideia que vai além do mero alcance imediato. O que Cézanne faz é deixar aflorar sua percepção, e, a partir dela, traduzir o que seus sentidos apreendem da maneira mais brusca, mais pura. Não se trata de uma obra puramente racional, em que a mente se encarrega de corrigir as distorções dos sentidos, mas com os objetos sendo traduzidos da maneira exata com a qual são apreendidos, nas suas formas mais elementares. É a tradução perfeita de como o corpo, o intermédio dos sentidos, é parte integrante da relação da consciência com o mundo.

Essa questão da distorção, sendo traduzida para nossa vida presente, demonstra como a intuição inicial passa por processos de correção em nossa mente, mas ocorre de pararem no ponto da opinião, e de se ficar sem querer que haja continuidade no mecanismo racional. O problema, muitas vezes, é que nós mesmos não acreditamos muito nas recomendações mais abalizadas, por um simples motivo de… nada. Posição pessoal, em resumo. Muitas vezes influenciadas por opiniões arraigadas, fincadas em convicções apoiadas nas nuvens.

Eu mesmo tinha um exemplo de conduta. Desde 1999 foram iniciadas campanhas de vacina contra a gripe no Brasil. Quando o acesso foi franqueado para a população ampla, fui lá tomar minha dose, ofertada pela prefeitura. Eu passei muito mal, com os piores sintomas possíveis: febre alta, corpo mole, coriza e dor de cabeça. Eu pensei comigo mesmo ter tomado uma vacina PARA gripe, e não CONTRA. Desde então, parei por completo de tomar a dita cuja. Só após a crise da pandemia, convencido pelo conhecimento maior acerca das vacinas e já com a explicação médica de que eu não tinha uma espécie de restrição, mas apenas o efeito de receber uma carga viral muito alta e de cepas variadas, que eu voltei a receber as mesmas.

É aí que colidem conhecimento e opinião. Por mais que uma coincida com a outra, a última tem um estatuto de verdade ainda menor que a primeira. Como assim? Todo conhecimento é o conhecimento que temos no momento atual, podendo ser modificado na medida em que se aprofunda um estudo sobre o tema em questão. Já a opinião é composta mais por carga cultural e convicção pessoal, que, justamente por isso, são mais nossas, e as amamos mais.

Não é incomum que alguém diga que “para mim”, tal coisa é verdadeira ou falsa baseada meramente em convicções. E isso é evidentemente falacioso. A falácia da incredulidade pessoal se baseia na assertiva de que minha opinião é tão válida quanto qualquer teoria científica. Há milhões de cientistas que compõem uma academia (agora no sentido de conhecimento) que guarda tudo o que se pesquisou nos observatórios, laboratórios e nos campos, e uma opinião baseada em qualquer tipo de achismo não tem o mesmo valor. O fato de que eu não acreditei em uma teoria científica não a torna inválida, simplesmente isso. As vacinas continuam a funcionar mesmo que eu creia em algum maluco que diz que há chips sendo injetados em mim.

A incredulidade pessoal dispersa o foco do argumento porque traz um confronto entre realidade cognoscível e mensurável e opinião, uma espécie de lalalalá das crianças frente a qualquer coisa que ela não goste ou não queira ouvir, e, sendo assim infantil, é também irrelevante para um debate levado à sério. 

E entre falácias, pintores em dúvida e gordos na academia vamos entrelaçando nossas realidades com a percepção que temos dela, seja em nossos corpos, seja em nossas mentes. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

A Dúvida de Cézanne é um artigo publicado inicialmente na revista da universidade onde Merleau-Ponty lecionava, e que foi parar em diversas coletâneas. Segue uma indicação:

MERLEAU-PONTY, Maurice. A Dúvida de Cézanne. In Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980.