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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Efemérides e as duzentas vezes em que estive aqui - quem influencia meu "traço"

Olá!

Nunca consegui formar uma compreensão muito clara sobre os motivos que levam as pessoas a se preocupar com efemérides. Para quem não sabe, este termo significa algo breve, e há até mesmo um inseto que leva esse nome por viver parcas 12 horas em seu estágio adulto. Para o presente assunto, interessa saber que, tempos atrás, havia uma pequena sessão nos jornais destinadas a dar breves notas sobre aniversários e outras datas importantes, semelhantemente ao que o Facebook faz com seus amigos hoje em dia. Aqueles que ganhavam um pouco mais de relevo eram os aniversários “redondos”: 100 anos de fundação da Gazeta de Piraputanga, 50 anos do casamento de seo Ernesto e dona Etelvina, 300 anos da Revolução das Mexericas e coisa que o valha. Os preferidos são os centenários e derivados, por conta do duplo zero. Além disso, outras “redondezas” também chamam a atenção, como o milésimo gol de um determinado craque, o centésimo número de uma revista, as cidades com mais de cem mil habitantes e assim por diante.

Por que a diferença? Daqui a pouco completarei 50 anos e será um dia como outro qualquer, talvez chuvoso, talvez haja uma greve, uma consulta no otorrino, talvez haja uma vitória do meu time, talvez não. E, mesmo no meu caso particular, não existiria meus 50 anos se não houvessem os 49, os 48, os 47 e cosi via. As efemérides são assim: vazias de significado, e que só ganham vida por conta da nossa habitualidade de reparar em coisas inúteis.

Tanto é verdade que estou aqui, comemorando meu ducentésimo post. Por 200 vezes sentei na frente de meu computador para digitar um texto redigido em lugares tão diversos quanto uma mesa de café, um sofá de consultório e mesmo no apoio de um carrinho de compras. Minha mulher já me disse mais de uma vez que eu deveria escrever um livro. Se eu levar em conta que minhas linhas tortas preenchem em média quatro laudas, meu blog inteiro daria umas oitocentas páginas, o que já poderia ser qualificado de calhamaço. Só que com um defeito irremediável: dada sua fragmentação, não seria uma obra que primaria pela uniformidade e lógica encadeada, como ocorre com os grandes tratados; por outro lado, são textos longos demais para serem reduzidos à forma de aforismos, que possuem um poder de síntese formidável, a exemplo de Nietzsche e Bacon. Sendo assim, mantenho o formato blog e pronto. Se alguém achar justo e resolver um dia coligi-lo em livro, fique a vontade, sempre lembrando dos créditos autorais e bancários, por gentileza.



Já registrei, na forma de postagem, duas outras efemérides neste espaço: o centésimo texto, a quem chamei de metapost, e o quinto aniversário das Aporias Plurais. Em ambos, tratei da Metafilosofia, o ramo da Filosofia que trata a si própria como objeto de estudo, ou seja, se existe uma Filosofia para tratar da Ciência, da Educação, da Religião, da Mente, do Conhecimento, do Tempo e de outras áreas, existe também uma Filosofia da Filosofia, que cuida de compreender o que há por trás do pensamento filosófico, incluindo métodos de trabalho e caminhos a seguir. Resolvi, já que tenho feito isso despropositadamente, dar a minha própria metafilosofia sempre que ocorrer uma efeméride, retratando algum aspecto das reduções de minhas ideias a escritos.

Desta vez, vou falar do aspecto literário com que escrevo. Por “literário”, não entendam aqui nenhuma arrogância, nem pretensão a artista. Boa ou má, uma escrita é literatura – percebam que o termo vem do latim litteris, que significa, mui meramente, letras. Sendo assim, vamos ao que interessa.

Quem influencia minha escrita? Não se trata de um exercício fácil. Em primeiro lugar, temos a vaidade de querermos ser originais, e nem sempre conseguimos admitir que há uma espécie de “mão invisível” que guia nossos mal traçados caracteres. Às vezes, a miscelânea é tão grande que se gera um estilo novo, por vezes muito bom, por vezes nem tanto. Já falei em algum canto sobre a oposição entre músicos e escritores no reconhecimento de influências. Os primeiros alardeiam pelos quatro cantos que “pegaram um ritmo afro e aplicaram-no em melodias de vertente arábica, com instrumentação típica das culturas aborígines canadenses e densidade nipônica”. Além disso, declaram publicamente que um determinado fraseado de guitarra é inspirado em tal músico, e que baixo-bateria seguram a peteca como faz tal banda. Músicos dão nomes aos bois.

Escritores detestam fazer isso, não sei bem por quê. Por mais que existam escolas literárias mais ou menos uniformes, como Romantismo e Realismo, é raro (eu nunca vi) alguém dizer que, por admirar o “traço” do outro, faça uso de técnicas semelhantes. A mim, parece que a músicos a originalidade está na mescla bem sacada, enquanto que a escritores está na inovação propriamente dita, na peculiaridade do estilo.

Como não sou nem músico profissional, nem escritor da mesma estirpe, posso me dar ao luxo e à liberdade de tentar reconhecer o que influencia minha escrita. Só que há armadilhas.

Um ponto a ser observado é não confundir escritores que gostamos com escritores que guiam nossa mão. Para dar um exemplo, posso dizer que adoro Gabriel Garcia Marquez ou Clarice Lispector, mas, se eu colocar um texto de ambos ao lado do meu, não há nenhum ponto de contato. Enfim, não há sinonímia entre apreciar e influenciar, ao menos em questão de estilo.

Mais um aspecto é a diferença entre dar modelo a escrita ou ao pensamento. Alguns literatos escrevem muito bem, sem que eu concorde com uma única letra que o gajo escreve. O vice-versa também vale: há conceitos magníficos, que podem estar extremamente enredados em uma malha de frases construídas com complexidade hermética, ou estar pura e simplesmente mal redigidos. Uma coisa não tem a ver com outra necessariamente. Há a questão da forma e da substância, coisas distintas.

Outra coisa é que temos fases. Não escrevemos da mesma forma a vida inteira, e nem sobre os mesmos temas. Uma influência pode ser mais facilmente reconhecível quando se trata de um determinado assunto que outro, especialmente quando seja mais correlato à área de atuação do influenciador, ou pode ser reconhecível na juventude, mas não na maturidade. A vida é um labirinto.

Dito tudo isso, consegui detectar três influências constantes e duas mais pontuais. Influências difusas são irreconhecíveis, lamento muito. E, claro, filtrei rigorosamente a questão com a concordância das ideias. Portanto, as influências que trato aqui são formais, e não ideológicas. Aliás, os autores que citarei estão em polos ideológicos opostos, diga-se de passagem. Repetirei essa cantilena algumas vezes no correr da pena, porque, nessas coisas de política, as pessoas andam mais intransigentes que em matéria de futebol, e não reconhecem mais um bom texto que lhes oponha à sua própria cabeça.

O primeiro deles é o jornalista Flávio Gomes. É, para mim, o definidor do formato blog que adotei. Dele, trago a linguagem que trafega do técnico para o coloquial, variando no que entendo ser o momento exato. E dele também percebi a oralidade tão necessária para esse modelo de comunicação, onde se busca estabelecer uma espécie de quase-interlocução com seu público. Isso é feito utilizando-se a linguagem como ferramenta de expressão intensa das ideias, incluindo onomatopeias e palavrões, que carregam algo como uma fala embutida, e não como acontecem com os manuais e artigos em geral, frios, técnicos.

É óbvio que os blogs em geral adotam essa mesma estratégia, mas Flávio Gomes escreve MUITO bem, na minha modesta. Em uma determinada ocasião, enquanto ocorria o despejo do bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos, pediram-me que escrevesse a respeito. Já estava com a tarefa em andamento, mas quando li o que nosso escriba teceu, joguei meus rabiscos fora e limitei-me a recomendar sua fala. Não tinha absolutamente nada que eu pudesse acrescentar de bom ou útil. O mesmo se aplica a este texto sobre a relação entre Rubinho Barrichello e a rede Globo, irrepreensível. Reitero: ele tem uma posição política muito bem marcada, e não é isso que discuto nesse momento. Estou me atendo ao aspecto técnico. E digo mais: o mote principal do seu blog é esporte a motor, não esperem encontrar comentários políticos em profusão.

A segunda influência que tenho a observar vem da Itália. É o escritor Giovanni Guareschi, a quem li com abundância quando tentava aprender italiano. Ora, direis, com Petrarca, Alighieri, Maquiavel, Pirandello, Moravia, Calvino, Fo, Gadda e Tabucchi à disposição, você foi se agarrar a um escrevinhador secundário como Guareschi? Não é um pouco de falta de ambição?

Não, não é. Reconheço que Guareschi não praticou alta literatura nem fundou escolas, mas ninguém como ele retratou os conflitos do pós-guerra na Itália pelo ponto de vista de quem mais foi impactado – o povo. E o fez pela melhor chave possível, a do humor. Trouxe-me tanta informação que eu não conhecia que meu TCC foi exatamente sobre sua ótica nos conflitos entre religião e política daquela época. Dele, além de algumas expressões e barbarismos que eu ouvia da boca de meus avós, vem um gosto por certos detalhamentos que, se por um lado causam uma quebra no fluxo da leitura, por outro trazem mais clareza a quem lê, sempre pensando que o leitor não é, obrigatoriamente, um conhecedor do cenário que se busca retratar. Além disso, mesmo tendo uma posição política bem delineada, Guareschi não costuma evitar críticas a nenhum dos lados, o que, quando estabeleço uma dialética, tento também fazer, vide meus textos que contrapõe Ciência e Religião.

O terceiro é o cronista carioca Sérgio Porto, o mesmíssimo Stanislaw Ponte Preta que nos deu a tia Zulmira, o primo Altamirando, Rosamundo e outros personagens que davam suporte às suas bem-humoradas crônicas. Um observador da minúcia carioca e um comentarista mordaz do lado patético da ditadura, em uma época em que não era muito saudável fazê-lo. Trouxe para mim duas coisas: a utilização profícua de eufemismos e a introdução de termos castiços em falas mais voltadas para o informal, produzindo uma certa sensação de necessidade de um dicionário matreiro pelas imediações, além da legitimação do uso do denotativo no coloquial  e do conotativo no formal.

Outro que me influencia é Fernando Pessoa. Mas quem não foi influenciado por ele e seus heterônimos? O poeta português dispensa grandes detalhamentos, mas preciso explicar porque ele está aqui. Pessoa transita melhor do que ninguém entre o físico e o metafísico, entre o raciocínio e o enlevo, entre a concretude e o devaneio. O melhor exemplo está no poema “Tabacaria”, recomendado abaixo. Para mim, o supra-sumo da poesia. Transpareço essa mesma sensação de mundo caindo sobre minha cabeça pontualmente, como, por exemplo, neste texto. É a marcação de duas coisas: a dificuldade de distinguir real de onírico e o rompimento repentino deste mesmo laço.

Por fim, outra influência pontual: Anton Tchekhov. Este escritor russo tem como característica um pinçar de situações em que não há muita importância onde as mesmas começam ou terminam, fixando seu foco apenas onde lhe importa. Sinto que eventualmente acabo fazendo isso também, embora de maneira menos abrupta. Essa técnica me favorece pelo seguinte: muitas vezes extraio Filosofia do dia-a-dia, mas há momentos em que faço o movimento contrário – de uma ideia ou corrente filosófica, caço uma situação quotidiana (talvez fale melhor sobre isso na próxima efeméride). Se atar todos os nós que “convergiram para” ou “derivaram de”, o texto vira novela e o efeito é escapar do que interessa. Por isso, apesar das pontas soltas, algumas vezes deixo de lado grandes introduções e epílogos para me centrar em um instante específico, no que o literato russo é mestre. Exemplos aqui e aqui.

Bom, essas são as influências que consegui detectar. É óbvio que há muitas outras, e, quanto menos conscientes, mais complicado de reconhecer. No entanto, é uma experiência interessante tentar entender onde há alguns paradigmas para nossa escrita sem que isso represente uma pura e simples comparação. Mais uma vez, vejam que não me detive em influências ideológicas. Eu as tenho, mas não é sobre isso que falo agora. Percebam como aproveito, sem servidão, de estilos de escribas que se declaram socialistas, como Gomes, e democratas-cristãos (de origem monarquista) como Guareschi. Meu intento, repito uma vez mais, é meramente apontar tendências formais.

E, para finalizar, volto atrás na minha questão do vazio da efeméride. Utilizamos estes mecanismos porque sempre estamos à busca de referências. Para que saibamos se algo existe a muito ou pouco tempo, é necessário que exista um referencial. Coisas como “novo” ou “velho”, o são em relação a alguma coisa. Um cachorro de 20 anos é um ancião, praticamente uma múmia; já um homem, é um recém adulto. Idem a um conceito de “alto” ou “baixo” – uma mulher de 1,80 é alta, um homem da mesma medida é mediano. Muitos outros exemplos seriam possíveis. E porque nossas referências se traduzem em números “redondos”? Porque estamos viciados na base 10, o sistema derivado dos dez dedos, tanto que a palavra dígito vem do latim digitus, que significa dedo (ora vejam). Se nossa base de contagem não fosse essa, tão intuitiva, nossas efemérides provavelmente seriam outras. Fosse hexadecimal, provavelmente contaríamos a repetição de caracteres. Olhem que bacana: “A cidade de Pororó da Serra está em festa! Comemora-se FF anos de sua fundação!”.

FF em hexadecimal representa o número 255 em nosso consuetudinário sistema decimal. Nada redondo, por conseguinte.

Recomendações de leitura:

Vamos lá que são várias. O melhor que tenho a indicar do jornalista Flavio Gomes é seu blog. O carro-chefe é automobilismo, mas há muitas seções fixas com referências a suas preferências, como os carros da antiga Europa Oriental, os postos de combustíveis incomuns, as velhas Kombis e outras coisas mais. Também escreveu um livro chamado “O Boto do Reno”, mas eu não o li ainda.

http://flaviogomes.grandepremio.uol.com.br/


Giovanni Guareschi, como eu disse, é um escritor e jornalista que teve seu auge no imediato pós-guerra. Seu personagem mais clássico é Dom Camillo, um padre que tem mais ocupação com a política do que com seu rebanho. Como já recomendei sua principal obra por aqui, vou me ater ao seu livro de despedida, em um formato até então inédito para ele, com histórias mais longas e coesas entre si. O nome adotado no Brasil é horroroso. No original, significa Dom Camillo e os Jovens de Hoje.

GUARESCHI, Giovanni. Dom Camilo e os Cabeludos. Rio de Janeiro: Record, 1978.


Sérgio Porto é cronista muito conhecido no Brasil, muito dedicado à análise de costumes, mas com boa preocupação política, tanto que lançou dois volumes de Febeapá’s, os Festivais de Besteiras que Assolam o País, onde traz incontáveis burrices cometidas por nossos já infames governantes.

PONTE PRETA, Stanislaw. Febeapá 1. 1º Festival de Besteiras que Assola o País. São Paulo: Círculo do Livro, s.d.


Fernando Pessoa... Não preciso ficar falando de Fernando Pessoa. Segue o link de A Tabacaria...


... e um dos livros onde a mesma pode ser encontrada:

PESSOA, Fernando. Tabacaria. The Tobacco Shop. Ed. Bilíngue. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2015.


Finalmente Tchekhov, de quem também não há muito o que falar. Um rei do conto. Segue um bom livro deles.

TCHEKHOV, Anton. A dama do cachorrinho e outras histórias. Porto Alegre: L&PM, 2009.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Para proteger o Homem-Cueca

Olá!

Embora eu nunca tenha pedido aos meus pais, nem tomado iniciativa própria após casado, o fato é são poucos dias na minha vida em que eu não tenha convivido com algum bicho de estimação, bem poucos mesmo. Explica-se: morei por muitos e muitos anos com parentes, e os animais dos parentes faziam parte do meu convívio, ora pois. Além disso, muitos dos bichos que apareciam no quintal eram prontamente adotados, como foi o caso dos três pássaros-pretos que apareceram sucessivamente, todos amarrotados: Godofredo, Felizberto e Nicanor. Eram da minha mãe, e cantavam que era uma beleza. Tínhamos cachorros, gatos, peixes e outros pássaros, alguns que me trariam problemas legais hoje em dia. Também havia o caso dos cachorros coletivos, criados por todos na rua, sem uma casa específica. Ora comia-se aqui, ora dormia-se acolá, ora reproduzia-se no meio da vila mesmo. O mais célebre deles foi um tal de Mosquito, que morava na rua da minha avó. Durou um tempão: acho que até mesmo minha esposa chegou a conhecê-lo, contrariando o dito popular que associa o desamparo ao “cão sem dono”.

Esses cachorros públicos eram alvo constante de uma instituição hoje conhecida como Centro de Controle de Zoonoses, mas que levava a malfazeja alcunha de “carrocinha”. Para quem é bem jovem, tratava-se de um veículo onde eram recolhidos os cães vagabundos largados nas ruas, para evitar a proliferação de doenças, em especial a temida hidrofobia, mais conhecida como raiva. A atitude era compreensível em tempos nos quais a doença não tinha cura, e a coisa funcionava mais ou menos assim: os laçadores (pessoas mais odiadas que árbitros de futebol) percorriam os bairros procurando cachorros soltos, sob demanda ou por ronda ostensiva. Uma vez capturado o pobre mendigo, era encaminhado ao canil da prefeitura, onde esperava pela sua sorte por três dias. Caso alguém se dispusesse a buscá-lo, fazia-se a liberação. Do contrário, o bicho era sacrificado na câmara de despressurização ou gás, e seu cadáver era incinerado. A historinha de que eram encaminhados à fábrica de sabão é uma daquelas lendas urbanas, a la loira do banheiro.

Hoje em dia a prática é proibida, o que é uma evidente solução e um óbvio problema: que destinação pode se dar aos cães e gatos que não criaram do nada o pudor de não se reproduzir?

A solução óbvia é substituir a cova pelo facão, ou seja, não matar o infeliz, mas castrá-lo. Com isso, dá-se sobrevida aos desejáveis e elimina-se a possibilidade de que os feios, sujos, cagados, nojentos, indesejáveis deixem o legado de sua miséria para uma prole igualmente feia, suja, cagada, nojenta e indesejável. Só que eles ainda viverão, e, se ninguém os quer, não por que sejam feios, porque feiura é uma questão de moda; não por que sejam sujos, porque um banho resolve; não por que sejam cagados, porque a sorte muda; não por que sejam nojentos, porque feridas se curam; mas por que são indesejados, porque não se enquadram em um determinado padrão, quem será por estes pagãos? É aí que surge, nos últimos anos, o papel dos protetores.

Mas vamos voltar um pouco mais ao meu caso particular. Hoje em dia, tenho um viveiro com quinze passarinhos, entre canários, diamantes, manons, mandarins e duas codornas. Mais de uma pessoa me perguntou se não considero cruel manter preso um ser apenas para meu prazer estético. É uma questão interessante, mas parto do princípio que há diferentes comportamentos animais. Um pardal ou um bem-te-vi se matam dentro de uma gaiola. Prezam mais sua liberdade que a segurança e a comida certa preferidas pelo canário; não me dá nenhuma impressão de que sofram, e talvez tenhamos uma visão muito idealizada da natureza para julgar a liberdade melhor que o cativeiro, no caso específico. É claro que isso não vale para a cabeça humana, cheia de abstrações, mas para o bicho, podemos tentar compreender o que lhe vale mais pelo jeito com o qual reage. Além disso, o viveiro é bastante espaçoso, há comida em abundância e variedade, ausência de predadores, cuidados veterinários quando necessário, e há machos e fêmeas, garantindo o lazer.

Há também um aquário, desocupado no momento. Alguma praga carregou todos os meus kinguios para a caixa-prego, todos de uma vez, e estamos aguardando alguém ficar suficientemente disposto para higienizar adequadamente o ambiente.

E há o Homem-cueca.


Já o mencionei brevemente aqui e aqui. É um cachorro vira-lata como outro qualquer, preto retinto e filho do medo da noite, como Macunaíma. Em comparação ao seu antecessor, não é especialmente brilhante – costuma latir para a própria sombra, para dar uma ideia. Mas já conseguiu aprender uma série de truques, sempre em troca de petiscarias. O cachorro anterior da casa, Coronel, era bem mais inteligente, para os padrões humanos. Conseguia sacar quando algo ia mal, e escondia-se silente em seu canto. Sabia se conter com um simples levantar de dedos, e parecia reconhecer expressões faciais, tanto que nem era preciso aplicar-lhe carraspanas. Só que era sério demais, parecia um filósofo kierkegaardiano, preso em suas aporias existenciais (puro exagero, ele só não era dado a brincar). Já o Cuecão é puro hedonismo, fugindo um pouco do controle quando vê comida, e sendo absolutamente impossível levá-lo à rua sem os músculos em dia.

Há uma diferença decisiva entre nosso personagem e os demais cachorros com os quais convivi. Enquanto todos os outros eram mendigos que recolhemos das ruas, o Homem-cueca era habitante de um abrigo, algo como um órfão. Portanto, já era castrado, vacinado e vermifugado, e também já tinha um nome oficial: Quick – rápido, em inglês. Achamos o nome meio sem graça, e ficamos dias debatendo qual seria o mais adequado, até não chegarmos a consenso nenhum, e deixarmos Quick mesmo, como sua identidade oficial. O insólito apelido vem das brincadeiras oriundas deste nome: quick, quack, caíque, cueca. E daí para lembrar do personagem do chuchu beleza foi um passo. Ambos periféricos, ambos negros, ambos pobres, o herói dos cem reais mais o dinheiro do busão doou mais esse ponto de contato ao nosso coabitante – uma identificação comunitária.

O Homem-cueca, portanto, é filho do trabalho dos protetores, um papel social relativamente recente, que veio na esteira de uma nova relação entre humanidade e animais, mais próxima do que em outros tempos. Para proteger o Homem-cueca, foi necessário que a sociedade mudasse. Em outras épocas, não teria vivido seus dois anos em um abrigo. Já estaria espalhado pelas cinzas desse mundão.

Mas é óbvio que isso não aconteceu de supetão. Imaginem o quanto mudou a maneira com a qual os seres humanos se relacionam e interagem nesses mais de 200 mil anos de aventura no planetinha. Os nossos sistemas sociais e políticos vivem em uma constante evolução, sempre dirigidos pelo conhecimento sedimentado, pelos ventos de cada tempo e pelas circunstâncias ambientais. Até pelo menos os anos 70, por exemplo, a relação do homem com a natureza era de mera exploração. Os recursos pareciam infinitos e o pouco cuidado que tínhamos produziu problemas que acabaram por semear novas formas de relacionamento, muito mais preocupadas com a manutenção da própria existência. As pessoas passaram a se preocupar mais com o meio-ambiente e com fatores antes pouco considerados, pelo seu baixo valor intrínseco na lógica preexistente, exemplificados pelos animais como sujeitos de direitos. Esse acréscimo e essas alterações na maneira como as pessoas se relacionam entre si e o meio com que vivem formam o conceito de capital social, explorado pelo cientista político Robert Putnam.

Vamos aqui fazer a diferenciação e a aproximação entre dois significados para o termo em epígrafe. Ele vem da Contabilidade, e representa o montante investido pelos sócios em um determinado negócio. O capital é mutável: pode ser incrementado pelos lucros e por novos aportes, ou diminuído por perdas e retiradas, mas possui uma pretensão de crescimento, por certo, porque todo empreendimento visa sucesso. O capital social, no sentido de Putnam, tem o mesmo mecanismo, mas com outro objeto – o que aumenta ou diminui não é algo tangível, como o vil metal, mas as “substâncias” que criam e mantém o elo social, como a confiança interpessoal, a cultura, o aperfeiçoamento das identidades coletivas e outras coisas. A chave para a compreensão do capital social é a noção de reciprocidade: por exemplo, quando as pessoas de um grupo participam efetivamente da composição dos valores e das normas, aumenta sua confiança no poder de que tais regramentos representem o que há de melhor possível para conduzir aquele grupo, o que fortalece o nó que o ata. Já é fácil aqui perceber que falamos de democracia.

Mas nem sempre o caminho do capital social é aglutinador. Espelhando o que acontece nas finanças, há momentos de perdas, que são os esgarçamentos do tecido social. Muitos são os fatores que podem levar ao distanciamento interpessoal, como a concentração de renda, a estigmatização de uma classe, o empobrecimento generalizado, et cetera. No entanto, um estranho fenômeno levou Putnam a constatar o caminho de exacerbação do capitalismo: o individualismo. Putnam percebeu que uma tradição ianque permanecia intacta em sua prática: o jogo de boliche. No entanto, o local das partidas migrou dos clubes para os shopping centers (mais conhecidos nos EUA por malls). De fato, há uma diferença vital entre ambos os lugares. Nos clubes, as disputas de boliche se dão por equipes. Basta que se lembre do desenho animado dos Flintstones – as partidas não eram de Fred ou de Barney; eram de seu time, os Búfalos d’Água, se não me engano. Já nos shoppings, a disputa é individual. Já não temos a formação de times como ocorria nos clubes de boliche. Não é necessária uma espécie de “adesivo social” para que se pratique um esporte tão característico da cultura estadunidense.

Pensem bem se não é a mesma coisa que vemos no Brasil. Há duas décadas, as pessoas se inscreviam em clubes para as mais diversas práticas desportivas, como piscinas e aparelhos de ginástica. Ao lado disso, havia a possibilidade de práticas coletivas, como basquete e remo, exempli gratia. Hoje os clubes vivem na penúria e as academias povoam os bairros, onde os pretendentes a atletas malham sozinhos em suas esteiras, com um I-Pod conectado ao ouvido para disfarçar o tédio e dar lenitivo à solidão. As escolhas são feitas tão sob medida que o universo de opções fica radicalmente reduzido.

De uma constatação tão singela, Putnam conseguiu disparar uma série de observações sobre a sociedade norte-americana, e percebeu que os índices de participações em ações coletivas despencaram, como conselhos de bairros, reuniões de pais e professores, institutos voluntários e sindicatos, sendo a mais significativa de todas a participação eleitoral. O absenteísmo, por exemplo, foi a marca da eleição que levou Donald Trump à presidência. O voto nos EUA é facultativo, e essa é uma indicação segura de que o norte-americano, como um todo, não tem mais o mesmo interesse que tinha anos atrás na vida comum. Na medida em que os indivíduos se reconhecem cada vez mais como tais, menos a sociedade se dá os braços.

Ok. Vivemos hoje mais presos a celulares e feicebuques do que aos membros físicos de nossas comunidades, mas ainda vivemos, não é verdade? E aquela nossa velha necessidade atávica de companhia, de nos aquecermos em conjunto, de dividirmos um belo lombo de bisão (tudo bem, tudo bem, um churrasquinho já basta)? Como a suprimos hoje, ainda mais levando em conta a diminuição do tamanho das famílias e sua tentacularização? Uma das rotas utilizadas para supri-la é a adoção de animais, e um capital social acaba sendo substituído por outro, mais adequado à nova circunstância.

Vejam vocês. Os cães, desde seu ancestral longínquo, o tomarctus, são tão sociais quanto o homem. A princípio arredios, algumas espécies devem ter percebido que havia vantagem biológica em se aproximar das aldeias humanas, onde conseguiam restos de alimentos e um certo aumento do nível de proteção. A interação entre as espécies tornou-se significativa já nesses tempos. E foi se transformando na medida em que a vida se transformava como um todo.
Nas minhas épocas de criança, como já deixei entrever, os cães eram criados soltos nos quintais, geralmente com livre acesso à rua. Quando se queria prender um cachorro, coleira nele; o acesso ao interior das casas era vetado. Quem morava em apartamento nem sonhava com cachorro. Hoje em dia, tudo isso parece impensável. O dócil e fiel cão veio substituir a companhia física dos filhos que não nascem mais e dos amigos que só trocam seus afetos via WhatsApp e congêneres. Com vantagem: reclamam pouco, alegram-se com facilidade, não demandam agrados muito elaborados, são fiéis à sua pequena tribo e, principalmente, são sinceros. Com desvantagens: duram pouco, sujam muito, expressam-se limitada e dubiamente e, principalmente, aqui também são sinceros. No balanço, adaptam-se melhor que qualquer outro bicho ao modus vivendi individualista do ocidente contemporâneo, porque oferecem companhia sem reclamar da novela em relação ao jogo.

Não pintemos o pavão com cores que ele não tem, no entanto. Se o humano tem dificuldades de encarar seu companheiro de espécie como seu igual, que fará com o cachorro que não se enquadra a um ideal de beleza? É o caso do Homem-cueca, que demorou dois anos para que alguém o quisesse.

Para proteger o Homem-cueca, e a outros como ele, os protetores dedicam seu tempo e suas sempre parcas verbas. Eles fogem da lógica do individualismo e investem na da solidariedade, criando outra modalidade de capital social, em reversão à perda da coletividade. Seus cães lotam seus quintais e lhes tomam quase todo o tempo. Eles, os cães, não são bonitos socialmente. Se fossem, certamente estariam acolhidos, não importa se em uma mansão ou com moradores de rua; o que importa é estarem vivendo honradamente. Mas há bichos que são abandonados, doentes. São os cagados e cuspidos que citei no começo, aqueles que ninguém quer. No paroxismo do cúmulo da comparação, o Homem-cueca veio da favela. Ele é tão legal quanto seria se tivesse certificado e pedigree. Ele veio da favela como vem milhões de pessoas, e algumas delas, verdadeiramente de boa vontade, ainda acham recursos para cuidar de bichos tão desvalidos quanto eles próprios. Nos pet shops da vida, sempre há alguns cuidadores que apelam para a caridade alheia, fazendo todo o farol possível para conseguir algum reforço nos estoques.


Por isso, eu respeito e admiro os protetores. Fazem coisas que eu não faria e ajudam a manter ainda um pouco aderentes os contatos comunitários.

Para proteger o Homem-cueca precisaríamos, por fim, protegermo-nos, nós mesmos, de nossa sanha, de nosso egoísmo, lembrando do que nos afasta e capitalizando socialmente aquilo que nos aproxima e faz dar verdadeiro sentido à palavra “humanamente”.

Recomendação de leitura:

Cientista político e sociólogo controverso, Robert Putnam ainda está plenamente ativo. Segue o livro que dá base às observações deste texto:


PUTNAM, Robert. Jogando boliche sozinho. Colapso e ressurgimento da coletividade americana. Curitiba: Atuação, 2015.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Navegar é preciso viver - Epílogo

Olá!


Malas feitas, vamos pedir a conta. Este é o quarto conjunto de relatos de viagens que faço no meu blog, e espero que todos tenham gostado. Só para rememorar, a minha proposta é acrescentar viagens filosóficas em minhas viagens turísticas. Essa é a minha cabeça, fazer o quê? Lembro muito bem do meu compadre Plínio. Quando criança, ele não se preocupava em ganhar brinquedos para brincar, mas para entender como eles funcionavam por dentro. E isso fazia com que os carrinhos e robozinhos fossem desmontados todos em menos de uma semana de uso. Terminou seus dias como mecânico e eletrônico, como que a confirmar sua vocação. Acho que algo semelhante acontece comigo. Olho para uma construção e não me admiro simplesmente com sua beleza. Fico me perguntando por que foi feita daquele jeito, e não de outro, ou o que significa a busca pela beleza. Vejo uma paisagem e me dedico a pensar quais são as possibilidades de interação desta com seu maior predador, o homem. Enfim, não desmonto brinquedos. Desmonto causalidades.

Estes epílogos servem, em tese, para costurar a boca do saco das viagens que realizo e dar uma certa unicidade e noção de conjunto aos que elas têm em comum. No diário de bordo de uma nau sem rumo, por exemplo, comentei sobre a força dos relatos e do diálogo que podemos construir com as pessoas; nas cartas náuticas para marinheiros de terra firme, falei sobre a crise hídrica generalizada, pela pouca água que encontrei em locais onde ela deveria ser abundante. Menos mal que a chuva tem sido pouco miguelenta nos anos posteriores, mas uma estiagem igual pode acontecer a qualquer momento. E no cesto da gávea de onde observo o mundo... Bem, desse eu sei que ainda devo o epílogo, mas com motivos que estão explicados no último texto da série: primeiro vou visitar o Núcleo Santa Virgínia, depois eu fecho aquele pacote.

E com relação a esta última viagem? Em tese, eu correria dois riscos: o de desenhar panegíricos que falam muito pouco sobre as localidades que busquei retratar, e o de falar mais do mesmo. Mas tenho dois assuntos relevantes a abordar, distintos mas correlatos, que aguçaram minha percepção no decorrer da viagem, além de me arriscar a ser vítima. Trata-se das imprudências dos motoristas nas estradas e do binômio bebida-direção. Aliás, o assunto não é um só porque agressividade no volante e motoristas bêbados não possuem correlação necessária, embora comum.

As estradas do estado de São Paulo, como um todo, são boas no quesito revestimento, e as rodovias principais possuem infraestrutura suficiente para realizar viagens tranquilas, como telefones a cada quilômetro, acostamentos, baias de emergência, iluminação em áreas críticas, encostas contidas, veículos de atendimento e outras benesses. É bem verdade que os pedágios têm espaçamento abaixo da crítica e preços proibitivos, mas fazemos parte do Brasil e estamos acostumados a tomar no lombo em silêncio. Mas entre estradas baratas e perigosas ou caras e seguras, é melhor ficar com a segunda opção.
No entanto, a maior parte da malha é constituída de estradas secundárias, daquelas que acompanham os contornos naturais do terreno sobre o qual avança. Evidentemente, o nível de investimento aqui é outro.


Nas regiões serranas, o problema é agravado pelo fato de que as trilhas naturais que deram origem às estradas vicinais são compostas por elevações que se alternam com vales. Mamãe natureza as fez assim, e isso torna as estradas que as serpenteiam bastante sinuosas, além de detentoras de desníveis significativos, gerando abismos perigosos. Como mirante, é bonito; mas como via de transporte, é inspiradora de cuidados.


A intensidade do fluxo, por vezes, justifica o alto investimento para construir rodovias que rompem as barreiras naturais, como acontece com a Floriano Rodrigues Pinheiro e, principalmente, com a via Imigrantes, que leva e traz da Baixada Santista. Para quem não a conhece, foi construída na parte mais escarpada da Serra do Mar, de modo a emular uma daquelas modorrentas estradas de planície: reta e com vistas ao infinito. Lembro-me de como, quando criança, meus familiares enchiam até a tampa a Kombi do meu tio para descermos a tal serra pela estrada velha de Santos, que hoje só se percorre a pé e de bicicleta. Sem cinto, sem faróis e com crianças no chiqueirinho do porta-malas, dançando pelas curvas fechadas, com muito movimento e nenhum juízo. Eram outros tempos, de muitos acidentes. A falta de estatísticas não permite a comparação, dificultada também pelo aumento inacreditável da quantidade de veículos no Brasil (lembro que, em 1978 ou 1979, o governo militar arrotava a vitória que representava a construção de 1.000.000 de carros. Hoje, esse número é semestral), mas o fato é que, decepando morros, furando montanhas com túneis, plantando pilastras copadas com viadutos e emergindo pontes do mangue, a via Imigrantes, um colosso da engenharia e da tecnologia, tornou o Caminho de Santos um verdadeiro troglodita, e, com certeza, poupou muitas vidas.

Só que não dá para fazer isso com qualquer estradinha que ligue São José de Baixo a São José de Cima. São vias necessárias à vida local, mas que têm fluxos de dez, doze, quinze carros por hora. Por isso mesmo, muitas vezes essas estradas nem mesmo são asfaltadas, já que não pagam a pena do investimento. A boa terra batida é relativamente tranquila para andar em tempo seco.


Óbvio que, em termos de proteção, as estradas de chão são ainda mais desprotegidas que aquelas asfaltadas. Em geral, é a rua e o precipício, raras vezes guarnecidos por uma cerca de arame farpado que não tem o intuito de segurar nenhum carro, apenas demarcar territórios.


O problema maior é nos tempos de chuva. Tenho um carro com DNA asfáltico, um sedã de quatro portas com motor pouco potente, pneus estreitos, propulsão e tração dianteira, com as rodas traseiras servindo de mero apoio à carroceria. Um carro de cidade, em suma, pago em infindas prestações. Ainda assim, com muito cuidado e contando com um bom protetor de cárter, atrevo-me em inúmeras estradinhas de terra, munido de atenção e paciência. É claro que não me atreveria a me enfiar na terra em plena chuva; o guaio é quando você já está enfiado quando começa a precipitação. Nesses casos, as “boas maneiras” mandam achar um lugar seguro e lá permanecer, mas é evidente que nem sempre isso é possível, e o cuidado redobra: evitar os baixios e atoleiros, procurar as faixas de pedregulhos, não travar as rodas, essas coisas.


Dadas todas essas condições, seria verdadeiramente desejável que todos os motoristas que trafegam por vias secundárias se confederassem em uma espécie de irmandade pela segurança de todos. Mas não.

As rodovias de alto fluxo possuem limites de velocidade que variam de 100 a 120 Km/h. Nas estradas de serra aqui na Mantiqueira esse limite é bem abaixo: 50 Km/h em média. Só que muitos motoristas parecem não perceber a diferença, e querem aplicar velocidades de autobahn em picadas com mania de grandeza.

Cinquenta por hora é pouco? Para mim, sim; e até admito que burlei esse limite muitas e muitas vezes. O problema é quando você, já acima dessa velocidade, percebe que há um contribuinte colado em seu porta-malas, com farol alto ligado e tenteando de um lado e de outro. E, o que é pior, muitas vezes seguidos por uma fila, comprovando que a prática é comum. Se eu posso, coloco-me na faixa do acostamento e espero toda a manada passar, retomando o ritmo tranquilo de minha viagem. Mas isso pressupõe a existência do acostamento, o que nem sempre é real.


Neste caso, escolho o melhor lugar possível, longe de curvas cegas, e diminuo ainda mais minha velocidade, permitindo ao afoito diabinho fazer sua bobagem da maneira menos arriscada possível. Houve até mesmo momentos em que optei por adentrar o acesso de um sítio qualquer para aplacar a ira de algum motorista especialmente feroz. Acham-se autênticos Villeneuves; pesquisem no YouTube para ver como Villeneuve acabou.

Não há garantia de que os carros estejam em perfeitas condições. Quem verifica a calibragem dos pneus, alinhamento dos faróis, espessura das pastilhas todas as vezes que vai para a estrada? A coisa se torna especialmente dramática em condições adversas: noite, neblina, chuva.


Há sempre algum engraçadinho para dizer e tentar provar que é tão habilidoso em qualquer tipo de piso. Não é. As estradas não são sempre iguais, os veículos não são sempre iguais, as pessoas não são sempre iguais. Há imprevistos: óleo na pista, pneu que fura, deslizamento de encostas. A velocidade máxima de uma rodovia é pensada justamente para haver uma margem de reação dos motoristas a estas situações imponderáveis. Transpor essa barreira não é só temerário, é irracional. E, se somos animais ditos racionais, por que fazemos isso?

Vejamos os vários fatores. O mais simples faz supor uma pressa. Eu, em minhas viagens, estou passeando. Se eu chegar dez minutos antes ou dez minutos depois ao meu destino não fará diferença alguma. Isso não é verdade para todo mundo; há gente que precisa marcar ponto, comparecer a reuniões, n motivos. O problema continua não sendo meu, mas passo eu também a correr riscos. As pessoas justificam seus atrasos com intrincadíssimos enredos, mas o fato é que a questão é só de falta de responsabilidade com horários. E tenta-se descontar a perda na estrada, o que não é bom.

Mas creio que essa justificativa é insuficiente. Há alguns casos em que temos uma questão de autoafirmação, ou, como diria meu amigo Bubu, “síndrome do pinto pequeno”. Ele dizia que todas as vezes que você ouvir algum filho da puta feliz proprietário com aquelas bazucas sonoras instaladas em seus carros (e que nunca tocam Beethoven), pode abrir a braguilha que lá estará a lastimável minhoca. E o excesso na ostentação seria uma espécie de substituição afetiva à exiguidade dimensional do membro. Quem tem pinto grande mostra o pinto grande e se dá por satisfeito. Não sei como o Bubu obteve dados para corroborar suas teses, e mesmo sabendo que não é o tamanho, mas a dureza que faz a diferença para o prazer do parceiro, aceitá-las-ei como razoáveis. Bubu explica.

Tudo isso para dizer que é extremamente raro ver abusados do volante no seu carro a fazer merda sozinhos. É gozado. Entendo que isso seria mais comum em jovens, mas não é muito difícil de ver barbados e carecas no meu retrovisor. O que é difícil é não ver alguma companhia, especialmente feminina.
Mas o mistério ainda se mantém quando vemos gente que normalmente é ponderada tomando esse tipo de atitude. Gente tranquila, sem atraso, bem resolvida com suas limitações e tamanho do pênis (ou da vagina – mulheres também são aptas a fazer merda) apronta das suas às vezes. O que tira dessas pessoas a noção de linha que não deve ser saltada? A resposta vem de um aditivo químico extremamente comum: o álcool.


Sim, meus caros. A lei seca, apesar de um bom começo, tornou-se um retumbante fracasso. Não só aqui, mas especialmente nestas terras altas, a galera gosta de dar um tapa no beiço, notadamente os turistas, pelos mais variados motivos. Há o romantismo dos vinhos que acompanham os fondues. Há a imensa variedade de cervejas artesanais produzidas em quase todas essas cidades. Há o fato de estarmos pegados ao sul de Minas e termos tradição em cachaças. Há um frio à espera de um bom conhaque. E há doces que só um licor bem forte consegue dar guarida.


Esses exemplos que dei acima, presenciei todos. E em todos, absolutamente todos, havia gente que enchia a lata para, logo em seguida, tomar o comando de seus automóveis e brincar de ser piloto. Gente que, como eu disse, não ofereceria nenhum tipo de risco estando sóbria, e que, mesmo bêbada, não causaria problema fora da estrada.

Não sou um purista. Eu gosto de tomar minhas biritas, como já falei tantas vezes neste espaço (aqui temos um exemplo), e também às vezes passo do ponto, mas, como já comentei neste texto, seja por medo da lei, seja por uma disposição ética, após a lei seca não mais dirigi, por mais que me sinta em condições de fazê-lo. Nunca dá para saber quando aquela fina linha é saltada. 

Todo mundo que dirige bêbado se acha em condições de consegui-lo. E a lei não tem condições de avaliar qual é o ponto em que uma pessoa começará a ter os sentidos obnubilados. Por isso, ela está certa em não permitir tolerância. Mas as pessoas tendem, cada vez mais, a perceber seu relaxamento e a burlá-la.
Soluções são difíceis. O ideal seria o salto ético, mas os exemplos que vem de cima, aqueles que realmente são candidatos a se transformar em paradigma são ruins. Enquanto isso, que se aperte novamente a fiscalização. Se beber, não dirija, ou aguarde a metabolização do álcool pelo seu organismo. São cidades lindas, que tem muitos atrativos que podem ser visitados a pé. Uma cervejinha na hora do almoço não atrapalhará seu retorno ao cair da tarde.

Por fim, dois arremates rápidos. O fenômeno do abuso na direção e do álcool não é exclusividade desta região. Quer ficar verdadeiramente horrorizado? Vá a São Roque.

E, como neste epílogo falei só de problemas, pode dar a impressão de que eles preponderaram na viagem. Não é verdade. São todas bonitas e acolhedoras, com histórias interessantes contadas por pessoas interessantes, o que se torna ainda melhor quando você tem alguém interessante ao seu lado.


Não é verdade?

Recomendação de leitura:

Vou recomendar fortemente a leitura de uma lei: o Código de Trânsito Brasileiro. Nesses tempos de abrir o coração para os riscos enfrentados, é possível perceber que o brasileiro médio não o conhece muito bem. Antes de reclamar das multas, é bom saber o que pode ocasioná-las.

BRASIL. Código de Trânsito Brasileiro. São Paulo: Edipro, 2004. Disponível em www.planalto.gov.br/ccvil_03/leis/L9503.htm. Acesso em 15.07.2017.

Recomendações de visita:
Recomendarei também, como de hábito, a visitação de cada uma das localidades por onde passei nesta jornada. As distâncias e rotas sempre dizem respeito à cidade de São Paulo.

Monteiro Lobato – 132 Km – Via Dutra até a saída 152 seguir até a Rodovia Monteiro Lobato

São Francisco Xavier (distrito de São José dos Campos) – 152 Km – Via Dutra até a saída 152 seguir até a Rodovia Monteiro Lobato. No centro de Monteiro Lobato, acessar a Estrada Vereador Pedro David.

São Bento do Sapucaí – 194 Km – Via Dutra até a saída da Rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro (SP-123). Seguir até a SP-046 (Rodovia Osvaldo Barbosa Guisardi), em Santo Antonio do Pinhal. Entrar na SP-050 (Rodovia Vereador Júlio da Silva), atravessar a Divisa SP/MG em Sapucaí-Mirim e a Divisa MG/SP até São Bento do Sapucaí

Sapucaí-Mirim – 180 Km – Via Dutra até a saída da Rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro (SP-123). Seguir até a SP-046 (Rodovia Osvaldo Barbosa Guisardi), em Santo Antonio do Pinhal. Entrar na SP-050 (Rodovia Vereador Júlio da Silva), atravessar a Divisa SP/MG

Campos do Jordão – 175 Km – Via Dutra até a saída da Rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro (SP-123).


Santo Antonio do Pinhal – 173 Km – Via Dutra até a saída da Rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro (SP-123). Seguir até a SP-046 (Rodovia Osvaldo Barbosa Guisardi), em Santo Antonio do Pinhal.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Navegar é preciso viver - 6ª ancoragem: Santo Antonio do Pinhal e a solidão de quem observa o frio

Olá!


Como já falei nos outros textos desta epopeia, tivemos em Santo Antonio do Pinhal um pouso seguro. Em outras viagens, procurávamos portos ao sabor do vento, mas o preço atrativo e a posição central em relação ao mapa de nossas pretensões fizeram com que fechássemos questão sobre hospedagem. Claro que essa atitude fez com que muitas idas e vindas se desenhassem, e não partimos para conhecer os recantos desta cidade em um único dia. Portanto, decidi deixá-la por último, mas não em último (acho que falei isso em algum lugar por aí).

Pinha, pinheiro, pinhão... Tudo isso dá um pouco de reflexo sobre o que significa o “pinhal” que guarnece o nome da cidade. Tecnicamente, é uma determinada extensão de terreno onde são abrigados numerosos pinheiros, na mesma relação laranjeira-laranjal, bananeira-bananal e outros. Seu produto é o pinhão, que tem um sem-número de utilidades culinárias, mas que tem seu preparo mais comum sendo simplesmente cozido com sal. A cidade tem intenso comércio do acepipe, como pudemos ver em ruas, estradas e estabelecimentos.


O pinhão é tão importante para a economia local que, além de ajudar-lhe a construir o nome, ajuda-lhe a construir a fama, e tivemos a oportunidade involuntária de pegar a festa do pinhão realizada na praça do Artesão, como, aliás, também ocorria na cidade de Campos do Jordão.


O mascote da festa é um simpático pinhãozinho, que deve fazer a alegria das crianças. Porém, para quem lembra do desenho South Park, há uma incômoda semelhança com um personagem chamado Soretinho. Aplicar um Google, no caso, haverá de sanar as dúvidas.


Gracinhas a parte, a festa tem comida e bebida para lamber os beiços, levando em conta os ingredientes mais usados: pinhão e truta. Além disso, as seis cervejarias locais armaram uma barraca com suas diversões etílicas. Abaixo, um cuscuz de truta acompanhado de caldo de feijão e pimenta, em combinação daquelas que nos faz ainda acreditar na humanidade.


No dia seguinte, fomos até uma estação de trem história, chamada Eugênio Lefebvre, que ainda funciona e que faz ligação turística com Campos do Jordão. Frustração: é preciso comprar passagem com antecedência de não sei quantos dias para fazer o passeio (caro). Paciência. Contentamo-nos em conhecer a gare e seus bolinhos de bacalhau.


Todo o complexo é composto por edificações centenárias, e que estão quase todas em bom estado de conservação, com a vila ferroviária e uma subestação de energia. Mesmo as que estão ruins passam por processo de restauro. Tem a tradicional lojinha de recordações e alguns jardins ao redor.


A linha passa pelo meio da mata local, serpenteando por altitudes acima de 1000 metros. É uma estrutura típica de trens movidos a energia elétrica, embora já tenham havido locomotivas e trens a óleo que operaram por aqui.


O local possui também um mirante, dedicado a Nossa Senhora Auxiliadora. Uma imagem linda para meu gosto, que reina em meio a quantidades miríficas de borboletas, apontando para o horizonte que se vê à sua frente.


Que, por sinal, é esse, de onde é possível enxergar um pouco da fauna urbana da cidade de Pindamonhangaba. O que faz de vento nesse lugar é coisa para deixar doente quem gosta de empinar pipas – não, não é, o vento é forte demais.


Novamente à noite, descobrimos uma casinha que serve sopas, o que é muito adequado para as noites frias de então, em um ambiente do tipo familiar. Tão familiar que você pode ver até mesmo as sopas e cremes sendo preparados. Abóbora, palmito, caldo verde... Tomamos de todas. Chama-se Cebola e Salsa, e recomendo (sem ganhar tostão).


No dia seguinte, fomos visitar o Ecco Parque, por recomendação da Dona Lúcia, de Monteiro Lobato (vide na 1ª ancoragem destes relatos). Tratava-se, até não muito tempo atrás, de um morro pelado, totalmente consumido pela exploração de gado. Os proprietários atuais modificaram-no para um conjunto de jardins onde se destacam os diversos ambientes temáticos.


Esta cascata de pedras, por exemplo, tem seu material trazido diretamente de São Tomé das Letras, região de Minas Gerais famosa pelo aspecto... místico. O ruído da água caindo nas pedras produz um leve cantar, como se fosse um daqueles mensageiros dos ventos das feirinhas de artesanato.


À medida que se sobe o morro, percebe-se o cuidado com que o espaço foi engendrado. Além dos jardins em si, há painéis explicativos de cada um deles e um guia (o Eduardo, no nosso caso) que vai orientando tudo, tim-tim por tim-tim. Na foto abaixo, por exemplo, temos um jardim de bolhas, técnica inspirada em modelo inglês.


Outros ambientes apostam mais no universo de cores do que na composição arquitetônica. A festa é feita por colibris, abelhas, mamangavas e borboletas, com suprimento de néctar garantido por um bom tempo.


Bem no cume da colina, um gazebo de bambus se propõe a ser um espaço de reflexão, especialmente voltada para a harmonização entre a natureza da flora e a construção humana das paisagens. Lá no alto, já bem longe da estrada e cercada de ervas aromáticas. Poderia mostrar aqui muitos outros jardins, como o japonês, o desértico, as helicônias, mas ia ficar maçante.


Outro dia, outra paisagem. Pouco antes da virada de tempo que tão tristemente relatei em outros textos desta série, visitamos a cachoeira do Lageado, situada em bairro de mesmo nome.


Imagino que o nome se deva à quantidade de pedras que fazem as vezes de platô, onde é possível tomar um bom solzinho para se secar. São quedas pequenas, que agradam a visão e a pele ansiosa por refresco.


A última queda é expressivamente maior, e, aos seus pés, há uma boa piscina natural. Estando em uma propriedade particular, cobra-se uma pequena taxa para uso, com o lado bom de se haver uma estrutura mínima para se livrar de certos aperreios.


À noite, o tempo virou e esfriou muito. O problema não é o frio, mas a contínua garoa que produziu muita limitação à visita de espaços naturais. Mas faz parte. Fomos passear pela cidade, que parece uma Campos do Jordão em ponto menor, o que tem os seus aspectos positivos. Há fontes que estão em reforma, como aquela que leva o nome do padroeiro, situada à beira de um riacho. As ruas da margem dão um certo aspecto de Targa-Florio* a este canto da cidade.


Também visitamos as igrejas da cidade, para não perder o costume. Sempre se pode extrair dados históricos e arquitetônicos interessantes. Em uma das pontas da região urbana, temos a igreja de São Benedito. Aproveitando do relevo típico da região, dá para ter uma boa vista dos arredores.


O mesmo se aplica ao morro do Cruzeiro, que possui a cruz magna do município. Fizeram uma interessante arquitetura de praça, apesar de estar bem no alto...


... como se pode observar pela vista da praça do Artesão, a mesma de onde falei que se dava a Festa do Pinhão.


E também tem a igreja matriz, dedicada a (oh!) Santo Antonio. Além dos habituais anteparos de igrejas do interior (adro com praça, mastro do divino, etc.), temos aqui também uma fonte luminosa, que fica festejando os fins de semana e outros dias de folga e de guarda.


No último dia de viagem, uma rápida passagem pela Bodega, um dos lugares mais famosos de Santo Antonio do Pinhal. Trata-se de um pequeno complexo que inclui vendas de roupas, artesanatos, plantas, algumas lagoinhas e bancos para descanso...


... além de muita, mas muita cachaça, como era de se esperar. São mais de quarenta tipos, incluindo as purinhas, misturas com frutas, macerações com ervas e até mesmo com pimenta, devidamente advertidas para uso como tempero. A patroa saiu zonza de lá; eu, motorista, não.


Na última noite antes do nosso regresso, tive um momento de epifania. Minha esposa foi tomar um banho antes de dormir, como é seu hábito. De saco cheio da televisão, e sem muita gana de navegar pela internet com o celular (coisa que detesto), fui curtir um pouco do frio na varandinha do apartamento que ocupávamos. A foto abaixo é dele, só que tirada durante o dia.


No silêncio da madrugada que se aproximava, e com o frio que ameaçava rachar meu rosto, achei que deveria fechar tudo e esperar deitado. Mas um véu de melancolia estranho me tomou antes que eu o fizesse, ao avistar a iluminação distante do morro em frente a mim. Como se fosse possível naquele pequeno lapso temporal, senti uma espécie de fuga da minha percepção e me senti na mais bem-acabada sensação de solidão. Eu sentia-me absolutamente isolado do mundo, como se apenas eu e a aragem gelada estivessem presentes.

Não sei muito bem dizer o que foi isso. Já falei anteriormente sobre a solidão como doença da linguagem, mas sob outro viés. Desta vez, a coisa é mais metafísica, quase mística. Meio que lembrei de tanta coisa que perdi nos últimos tempos: minha mãe, meus padrinhos, meu compadre. Lembro dos amigos que não cuidei bem, e que sumiram do meu contato. Lembro dos meus afilhados, como cresceram e como cada um se enveredou pela vida, todos ao seu modo. Lembro também de quando minhas crianças ainda eram pequenas, e eu tinha fôlego suficiente para correr atrás de uma bola, ensinar a andar de bicicleta, jogar maçaneta, pular sela. Aos poucos tudo isso foi indo parar na arca de minhas memórias. Algumas dessas coisas, evidentemente, nunca mais sairão de lá; outras, não tenho dimensão exata como e se poderão ser revividas. A memória é isso mesmo: um grande baú de ossos, já diria Pedro Nava.

Na verdade, acho que tive um breve encontro com a minha existência, e, como costuma ocorrer com tanta gente, não consegui compreender muito bem o sentido de tudo isso. O homem vive um grande drama, como já postulava o psicólogo humanista norte-americano Rollo May: o de ser sujeito e objeto ao mesmo tempo. Isso é um papel da autoconsciência, a capacidade humana de se enxergar a partir de fora – algo como uma alma que sai do corpo para observá-lo. Só que isso não é uma predisposição espiritual. É um trabalho de decifrar a si mesmo, constantemente. E não é possível decifrar a própria existência sem que se tenha a noção de que há um mundo que nos rodeia, no qual temos um papel. Sim, somos sujeitos, porque é a partir de nossa visão que conseguimos compreender o mundo; sim, somos objetos, porque NOSSO mundo só é mundo porque fazemos parte dele.

Teimamos muito em nos reconhecer unicamente como sujeitos todas as vezes em que projetamos o nosso futuro. É o que os educadores modernos costumam chamar pelo pomposo nome de protagonismo. Mas quando as coisas não dão certo como queríamos, temos a tendência de nos sentirmos objetos: do azar, das maldições, da má vontade universal contra nós. De titeriteiros, passamos a marionetes, como se não estivéssemos inseridos na mesma relação. Só que não é nada disso – não há conspirações, apenas somos fadados a determinado destino, sem que se necessite atribuir isso a uma divindade, mas apenas às contingências das quais fazemos parte.

Pensando com a cabeça existencialista, temos a necessidade de ser livres. Isso implica em fazer escolhas por si mesmos até quando não queremos fazê-lo. Com um agravante: somos responsáveis por nossas escolhas, pelo que trazem para nós mesmos e para o que isso terá de reflexos para a família, a comunidade, o país, para o universo inteiro. A personalidade que se conscientiza disso tem a dimensão chocante da importância de cada um de nossos atos. E isso é uma máquina de fabricar angústia. Só que isso não é uma coisa de visionário, maluco ou neurótico. É coisa que atinge a todos.

Ter angústia é, dessa forma, próprio do ser humano. E o conforto que May nos traz é que não há porque se sentir menores quando sofremos. O sofrimento faz parte do pacote que “compramos” quando nascemos, e, se apesar de todas as dores ainda queremos viver, é preciso entender que não há nenhuma contiguidade entre doença e fracasso. A doença é uma perturbação, uma desordem, uma limitação em uma normalidade. Se dissabores são encarados como algo normal, da qual todos somos passíveis, não podem ser equiparados a moléstias. Nada se perde quando encaramos um problema, e muitas vezes é só no aparente vazio do insulamento que podemos fazer um reconhecimento das coisas que nos afligem e como podemos ser resilientes a elas. Ou mesmo reconhecer a nossa incapacidade de continuar a buscar significado para um universo que não é mais o nosso.

Ao final, pode-se perder a fé em Deus, a esperança na humanidade e o amor ao próximo, e se chegar a uma completa e repleta solidão, onde só estamos nós e nós mesmos. Uma oportunidade de reflexão como nunca existiu, mas sempre ladeada pela companhia pouco visível de uma depressãozinha marota, daquelas que tira o restante de significado da vida. Não deixa de ser uma espécie de preparação para a morte, um tipo de autodefesa que vai nos afastando da vida, de maneira contraditória... A própria angústia pela vida que se esvai aos poucos é uma maneira de não encarar o fim com desespero, apenas tristeza.

Parei de escutar o ruído do chuveiro. Fechei a janela e fui preparar um chá para tomar com a patroa, acho que dessa vez de camomila.

Recomendações:

Rollo May é um dos principais profetas da psicologia humanista-existencialista, abordagem que enfrentou o mecanicismo dos behavioristas e o imperativo do inconsciente dos psicanalistas. Desta forma, é uma escola que costuma dar muita voz ao próprio sujeito da análise, e, como o próprio May dizia, o sofrimento não é doença, o que tira o aspecto patológico da análise. Recomendo a obra abaixo:

MAY, Rollo. O homem a procura de si mesmo. São Paulo: Vozes, 2002.

Também tem um vídeo. É um vídeo institucional. Portanto, só espere ver belezas e guloseimas. Mas chamou-me atenção pela beleza e singeleza da música que lhe faz fundo. Vale a pena fazer uma pequena audição.