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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Dos dias em que o vento nos afasta do mar - 10º sopro: São Thomé das Letras, ligue-se, sintonize-se...

Olá!


Como eu já disse tantas vezes, gosto de viajar sem destino certo. Instalado em determinado posto, rodeio por toda a região a procura de lugares e pessoas interessantes, sendo que elas mesmas são os referenciais de minhas próximas capturas, especialmente por conhecerem recantos mais discretos, fora dos circuitos normais. Estando em Caxambu e seguindo esse script, havia uma recomendação óbvia e quase unânime: “Vá a São Thomé das Letras”, a terra de adoção do Ventania, roqueiro minimalista e cidadão psicodélico do mundo. Ordem dada, ordem cumprida.


Mas havia qualquer coisa de errado. Por mais que eu variasse a pesquisa, o resultado era sempre o mesmo: de Caxambu a São Thomé das Letras, cerca de 50 Km e 1h30 de viagem. Ora, com esse tempo, dá para comer muito mais asfalto. Tanto é verdade que o mesmo Google Maps previa 50 minutos para chegar a Cruzília, 40 quilômetros distante. Coisas do universo GPS, pensei eu. Não. É que a maior parte da estrada é de terra.


Boa estrada de terra, na verdade. Vermelha de ponta a ponta, dada à seca na ocasião. Os caminhões que ali transitam trataram de socar bem o barro, de forma a seu tráfego não ser um desafio infactível ao pobre Bedelho. Só ficou mais difícil já na chegada ao núcleo urbano de São Thomé das Letras, quando o excesso de poeira tornou os aclives escorregadios. Mas, antes disso, começa a rota das cachoeiras, sendo que passei pela Eubiose e Flávio, que estavam apinhadas de gente vindas de excursões e motos.


A cidade é algo realmente incomum, tanto na parte rural quanto em sua estranha fauna urbana. São Thomé das Letras tem tudo a ver com a gruta que deu origem à povoação do local. Há duas lendas que tentam lhe contar a história: uma fala em um escravo fugitivo, outra de um padre jesuíta, que teriam a utilizado como morada, vivendo anacoreticamente.


De qualquer forma, um fazendeiro, chegando ao local para tomar posse das terras, deparou-se com a gruta vazia, contendo apenas uma imagem de São Tomé, aquele que só acredita vendo, em seu interior. Adaptar a história do escravo ou do padre é critério de cada um.


O que parece favorecer a hipótese do eremita cristão é a explicação para o designativo “das Letras”. No alto da gruta, existiam algumas inscrições que lembrariam letras, e os índios Cataguazes contam que teriam sido feitas por Sumé (síncope de São Tomé?), um homem branco que lhes ensinou técnicas agrícolas e regras morais. Hoje, o local se presta como ponto de venda de artesanatos.


De toda forma, a gruta, afora seu valor histórico, é ponto de intensa religiosidade, cheia de artigos votivos, como velas, rosários e fitinhas. É um espaço bem apertado e escuro, um desafio para pançudos como eu, quase como uma quitinete do Glicério.


O tal fazendeiro, João Francisco Junqueira (aqui o terreno das hipóteses fica menos movediço), diante daquilo que encontrou, tomou-se de sentimento religioso, e mandou construir uma ermida ao lado da gruta, para onde transferiu a imagem de São Tomé lá encontrada, dando origem ao que hoje é a igreja matriz.


Na gruta, vamos começar a perceber que não é só o misticismo que cerca a cidade, mas também sua constituição geológica, que tanto lhe dá característica. São quartzitos foliados, que se apresentam em camadas, como se fossem um pavê.


E a extração dessas rochas se tornou a principal atividade econômica da terra, porque se presta à fabricação de tijolos e de base para sustentação de produtos siderúrgicos, dada a sua alta capacidade refratária. Do alto de um dos mirantes, pode-se ver uma das pedreiras ainda ativas e seu efeito modificador da paisagem.


Os resíduos da produção serviram para formar uma das marcas registradas da cidade, as inúmeras construções de pedra. Um de seus usos mais notáveis é o calçamento. Normalmente, teríamos a aplicação de macadames sequenciados, mas aqui são utilizados inúmeros fragmentos irregulares, assentados criteriosamente um a um.


Um edifício de pedra digno de nota é a igreja de Nossa Senhora do Rosário, mais conhecida como (oh!) Igreja de Pedra, feita para que os escravos pudessem celebrar em lugar diverso ao dos seus senhores, e que foi, obviamente, erigida em material mais ordinário para os padrões da época. Hoje, faz parte do mesmo patrimônio histórico e cultural da matriz (talvez seja até mais relevante).


Como a imagem do santo padroeiro reside na igreja matriz (em tempo: a imagem original foi roubada há muito tempo), uma pequena capela de pedra foi erguida para abrigar uma reprodução.


A técnica de utilização das pedras é bastante curiosa, porque dispensa o uso de argamassa para ligá-las entre si, como se fossem tijolos. Para quem não conhece dos paranauês, como eu, parece que podem tombar a qualquer assoprão.


O grande segredo está no encaixe. Como a cidade tem amplo sortimento de pedras de todas as formas e tamanhos, o principal material necessário é paciência. Um ajuste correto e o próprio peso do material ajudam a construir espaços de grandes dimensões.


O resultado final é exótico e bonito, bastante diferente do que estamos acostumados a ver nas grandes cidades. A aridez inicial sempre pode ser amenizada ou usada como pano de fundo para elementos de decoração, como a réplica do ancião do quarto álbum do Led Zeppelin (o mais famoso de todos, que tem Black Dog e Stairway to Heaven).


Na parte mais alta de São Thomé das Letras, no entanto, é que podemos observar as paisagens mais insólitas do município. Lá está localizado o Parque Antonio Rosa, que, ao contrário do que poderia se supor, não é composto por colinas verdejantes e arvoredos frondosos, mas por um panorama meio que lunar, composto por tablados ascendentes de camadas e mais camadas de quartzito, rocha sedimentar obtida pela pressão dos minerais entre si.


Um de seus atrativos é a chamada Pedra da Bruxa, que, vista pelo ângulo correto e com um pouco de boa vontade, realmente se assemelha ao perfil de uma feiticeira dando sua tenebrosa gargalhada. A foto que eu tirei dela é absolutamente infeliz, mas ao vivo a coisa é bem melhor. Sugiro que os prezados leitores pesquisem imagens na internet.


Do lado oposto do mesmo parque, temos aquele que é provavelmente o símbolo maior de São Thomé das Letras: a Casa da Pirâmide, uma construção de pedra com teto piramidal, construído sabe-se lá por quem, apontando diretamente para a constelação do Escorpião.


É um local que tem vista para o horizonte nos quatro pontos cardeais, e que, por isso mesmo, permite ao interessado assistir tanto ao nascer quanto ao por do sol. Uma rampa colocada por detrás da casa leva diretamente ao teto da pirâmide.


Ao seu redor, temos um cruzeiro, um símbolo da paz (onde se diz que pousam naves alienígenas) e um jardim de pedras, onde se devem empilhar pirâmides para distribuir bons fluidos pelo mundo. A coisa funciona assim: derruba-se uma das pirâmides preexistentes, com o pensamento concentrado no bem de seu anônimo construtor anterior; em seguida, constrói-se a própria, e fica-se aguardando que um novo “piramidista” venha fazer o mesmo, em um ciclo perpétuo de bons fluidos.


As redondezas da casa ficam rodeadas de hippies e artesãos, e é lá onde se concentra outro hábito bem letrense: o consumo de ervas “medicinais”. Vou contar uma história curiosa que aconteceu comigo e com a patroa. Entre filtros dos sonhos, mensageiros dos ventos e outros artigos da mesma cepa, a Mimi achou um pingente de pedra que lhe agradou.


O artesão era um peruano que fez um pequeno rito para instalar o adereço na patroa. Umas rezas, umas bênçãos e um nó no pescoço, com a promessa de proteção pelo tempo em que a consorte cuidar com carinho do objeto. Tudo certo e bonito, fui pagar: uma nota de 50 golpistas para descontar os 15 do conjunto adorno-cerimônia. Não havia troco. Lamentei e ofereci de volta o artefato, mas o hippie inca disse que não podia, que a pedra já estava consagrada e ademanes. Ele mesmo propôs que eu trouxesse o dinheiro mais tarde, no que perguntei até que horas poderia encontrá-lo. “Hasta el sol se por”, disse em bom portunhol. Acontece que eu não demorei nadinha. Na descida do parque, há um quiosque onde tentei a sorte e consegui trocar o dinheiro. Lá voltando, o peruano não estava. Perguntei aos dois hippies seus colegas onde ele havia ido. A menina me disse: “Ele foi até a pirâmide dar uma sossegada”. Isso para mim é português suficiente. Dei um pulo até uma das janelas e encontrei-o marolando. Paguei-o e ele agradeceu respondendo “gracias... é servido?”. O resto é história.


Sim, tem muito disso em São Thomé das Letras, especialmente naquele recanto. A cidade guarda muito misticismo, e o uso de substâncias psicoativas tem a reputação de auxiliar no desvio das rotas da percepção. O comércio local costuma vender vários artigos desse tipo específico de tabacaria, ainda que legalmente disfarçados para usos legais. Há as sedas, por exemplo, que, em tese, servem para sustentar o fumo e que possibilita queimá-lo. Nos meus tempos de rapaz, era comum se utilizar a embalagem interna dos maços de cigarro, que davam uma medida boa para o baseado.


Também há vários narguilés e bongs (esse é o nome correto. Boing é onomatopeia para mola), que funcionam de maneira mais ou menos correlata: a erva é colocada numa pipa para ser queimada e inalada, passando antes por um vaso vaporizador que contém água, onde é tornada mais fresca que em um cigarro. A diferença entre ambos é que a erva no bong precisa ser acendida com um isqueiro, enquanto no narguilé isso é feito com carvão. Tem gente que gosta de vaporizar com bebida alcoólica destilada ao invés de água, o que é PERIGOSO. Uísque, vodka ou cachaça inflamam facilmente, e um acidente é muito possível, quebrando todo o barato.


Também encontrei várias maricas, esse cachimbinho especialista. Atenção: eles NÃO SERVEM PARA CRACK. Quer dizer, até servem, mas os cracudos detestam cachimbos de madeira ou durepox, porque estes impossibilitam a reutilização da resina produzida pela queima, o que é possível fazer com as cânulas de metal feitas antenas quebradas, tão típicas da Luz e da Santa Ifigênia. E cracudo aproveita até a alma da pedra para tentar dar um tirinho extra. A grande vantagem de se usar marica está no fato de que o baseado fica muito quente quando se aproxima do fim, o que não acontece com esta peça, e permite aproveitar toda a erva disponível. E ela também serve para dar um tapa na pantera final nas pontas que sobram dos fininhos e charuletas.


Desta forma, São Thomé das Letras é um local tomado pelo misticismo, não sei exatamente porque. Talvez o fato de ter sido erguida sobre pedra pura, o que fez fracassar a agricultura, e que lhe tornou uma ilha de natureza com aberturas de grandes clareiras pétreas, tenha colaborado para lhe tornar um lugar único e recoberto de lendas, principalmente relacionadas ao contato com alienígenas e elementais, como fadas, duendes e gnomos. Só que não é todo mundo que chega aqui e entra em êxtase, e há a opinião corrente que, às vezes, é necessária uma “forcinha” para impulsioná-lo, e o uso de mantras, meditações e substâncias psicoativas podem fazer o serviço. Como alteram o nível de percepção da realidade, especialmente os alucinógenos (como os cogumelos azuis), ou causam relaxamento (como a cannabis), seu consumo é bastante intenso entre os entusiastas do esoterismo (ou do embalo mesmo). É importante notar que drogas estimulantes, que deixam o usuário “bichão”, como o crack e a cocaína, não fazem parte da vibe do lugar, também pelo fato de serem sintéticas.

Já falei sobre drogas neste espaço. É inevitável que se faça. O tema da drogadição é recorrente todas as vezes que falamos em mazelas sociais, e continuo com a mesma opinião que eu tinha: entre ter de cuidar para que as pessoas não caiam na desgraça do vício e desfazer um espaço por onde a criminalidade grassa, é preferível que seu consumo seja liberado; sob forte regulamentação, é bem verdade. Vejam: o álcool é uma droga de livre consumo? Não. Há restrições na publicidade, na faixa etária, nos locais de uso, na direção e operação de máquinas, tudo isso sem que se proíba a bebida, que, posso garantir a vocês, adultera muito mais a consciência do que a maconha, e.g. Aliás, a liberação regulamentada desta última vem sendo encaminhada, mas não resolve o problema. O mesmo deve ser feito com outras drogas, porque só assim a longa cadeia infracional se quebrará, e isso leva tempo. Há um nicho de mercado a ser explorado e ele continuará a sê-lo, queiramos ou não, porque essa é a lógica do capitalismo: onde houver gente disposta a comprar, haverá quem queira vender. A diferença é que hoje um drogado é um doente e uma engrenagem da máquina do crime. Esta última condição seria extinta com a mudança da lei. E a venda legítima das substâncias acaba com uma imensa cadeia de criminalidade, que inclui corrupção de agentes públicos, delinquência de crianças e jovens e muitos mortos. Mais mortos na manutenção da organização criminosa do que no consumo. E muito mais caro, sendo certo que é mais barato tocar campanhas que evitem que os jovens entrem nas drogas. Uma boa parte da má impressão que a drogadição traz é fruto de sua associação com a criminalidade, e repito o que disse sobre o alcoolismo: um bêbado pode ser vinculado a uma condição clínica, mas não aos ciclos de delinquência. Mas isso tudo eu já falei antes. Haverá ainda mais algum motivo para vislumbrar algum futuro benéfico na utilização de substâncias psicoativas? Essa é uma pergunta que vem ecoando desde a década de 60, com as experimentações do psicólogo norte-americano Timothy Leary.

É estranho que se aborde um personagem tão polêmico neste espaço? De forma nenhuma. Leary é um dos maiores outsiders dos nossos tempos, que desafiou os paradigmas vigentes e cujo pensamento reflete na questão até os dias de hoje, por mais que discordemos de suas abordagens. Não é esse um dos caminhos para fazer boa Filosofia? Só o fato de um cara como Richard Nixon considerá-lo “o homem mais perigoso da América” já me faz olhá-lo com enorme simpatia.

Mas o que propunha Leary? Bem, ele não era exatamente um cara convencional. Em uma viagem que fez ao México, experimentou uma espécie de cogumelo rico em psilocibina, uma molécula com características alucinógenas, e que era utilizada a séculos pelas comunidades indígenas em seus rituais para se comunicar com suas divindades. Leary ficou tão impressionado com os efeitos que resolveu estudar a fundo a sua ação no cérebro. Com uma versão sintetizada do princípio ativo, conduziu uma pesquisa junto a detentos do presídio de Concord. Seu objetivo era aferir os percentuais de reincidência em pacientes tratados com psilocibina em relação a um grupo controle. Evidentemente o uso da droga não era isolado, sendo associado com psicoterapia e tratamento de rehab convencionais. O medicamento deveria ser um coadjuvante que despertasse perspectivas diferenciadas com relação aos padrões mentais impostos socialmente. O resultado final agradou muito Leary, muito embora tenha sido vivamente contestado por uma série de outros pesquisadores.

Daí por diante, segue por uma vida de porra-louquice que o fez virar um mito da contracultura. Leary e seus associados fundaram um instituto destinado a ampliar suas pesquisas dentro da universidade de Harvard, mas aqui seus problemas começam de verdade. Discordando dos métodos dos pesquisadores, que forneciam psilocibina e LSD aos alunos (adendo: essas drogas não eram proibidas ainda), a direção da universidade cancela o programa e deixa Leary a pé. No entanto, suas pesquisas interessaram à milionária família Hitchcock, que lhe disponibilizou uma mansão em Millbrook para desenvolver suas atividades. Esse trabalho atraiu muitos artistas da cena beatnik, como Allen Ginsberg e William Burroughs. Participou do festival Human Be-In em 1967, que reuniu mais de 30.000 hippies em San Francisco. É lá onde lapidou sua frase-lema: Turn on, tune in, drop out, da qual falarei mais tarde. Tentou concorrer ao governo da Califórnia, com uma plataforma que lhe favorece suas teses, mas foi impedido de continuar na disputa por porte de maconha. Combateu duramente a proposta do Senado norte-americano para proibição de drogas alucinógenas, onde foi vencido. Foi condenado à prisão por dez anos, mas o grupo de extrema esquerda norte-americano Weathermen, que combatia o envio de tropas ao Vietnã, tratou de ajudá-lo a escapar, indo para a Argélia, de onde começou um périplo pela Suiça, Áustria, Líbano e Afeganistão. Lá, foi preso por agentes da CIA e ficou preso por seis anos. Nesse meio tempo, desenvolveu sua teoria dos oito circuitos da consciência, uma espécie de divisão cerebral por especializações. Isso o habilitou a escrever livros e organizar palestras que viraram seu ganha-pão daí para a frente.

Algo muito importante a se falar é que Timothy Leary não era um mero maluco beleza tentando justificar o uso de substâncias alucinógenas para seu gáudio e bel-prazer. Ele era um PHD em psicologia e neurociências cujas ideias carregavam muito da psicanálise de Freud e da epistemologia de Kant. Ele acreditava no conceito de Túnel de Realidade, que se explica pela visão particular que cada um de nós tem do mundo. Os sentidos são os sistemas que intermedeiam a realidade e o reconhecimento mental. A interpretação que o cérebro faz leva o indivíduo a crer que aquilo que há diante de si é a realidade em si mesma, bem acabada e bem conceituada. A interiorização feita pelos sentidos, no entanto, não pode ser perfeita, porque os sentidos não são perfeitos e nunca são iguais de pessoa para pessoa. Basta que se pense nas diferenças que temos entre nossas percepções e opiniões interpessoais. Eu experimento um pão de alho e adoro; a esposa detesta. Por que a diferença? Não é o mesmo objeto que é experimentado? Se o pão de alho é uma fonte de prazer para mim, para a Mimi é o exato oposto. Desta forma, ela tem uma realidade, e eu tenho outra. Cada uma dessas interpretações mentais é uma hipótese do que é a realidade, uma cópia feita de impulsos neuronais advindos do trabalho da percepção que varia, ainda que minimamente, em cada indivíduo. Cada uma destas hipóteses é um túnel de realidade, que é tão válido, tão único e tão limitado quanto qualquer outro.

Mas há paradigmas, e estes são dados pelas convenções da sociedade. Ainda que as realidades sejam inatingíveis, existe uma ordem estabelecida em que as percepções dos sentidos procuram se acomodar. Isso acontece, segundo Leary, porque a consciência é dividida em oito circuitos, sendo que quatro deles são mais elementares e se constroem antes dos quatro últimos, mais extensos, tendo precedência sobre eles. O circuito que lida com o convívio social e com as relações interpessoais funciona antes de circuitos mais sofisticados, que sobem a níveis neurais e, por isso mesmo, são levados mais facilmente em conta. Portanto, as convenções sociais exercem uma grande pressão para limitar a ação de níveis de consciência mais elevados. Esse é um dos mecanismos que fazem com que o inconsciente não aflore, que seja inacessível em condições normais. Atingir um novo nível de consciência, por conseguinte, é, antes de mais nada, um ato de transgressão.

É aí que entra sua frase estandarte, que pode ser traduzida livremente por “Ligue-se, sintonize-se e dê o fora”.  Tido pelo pensamento conservador como uma declaração de irresponsabilidade, na verdade é a síntese de um roteiro elaborado por Leary para criar uma mudança cultural que retirasse o horror das pessoas aos experimentos de expansão mental. “Ligar-se” seria realizar a ativação dos circuitos mentais que são inibidos pelos circuitos mais primitivos. Não são só os psicotrópicos que podem fazê-lo. Meditação, mantras, altos contrastes, sons hipnóticos, essências inebriantes e outros reforçadores de sentidos também ajudam a levar a uma situação extática. Mas, em suma, significa se dispor a fugir das convenções através de uma nova visão de mundo. “Sintonizar-se” significa colocar em prática as novas perspectivas obtidas a partir dessa visão, ou seja, tirar essas novas sensações de dentro e harmonizá-las com o mundo ao nosso redor, e “cair fora” responde pela autossuficiência para se desenvolver como indivíduo autônomo e independente dos pactos sociais vigentes, livrar-se da visão que forma os estereótipos que amarram os nossos pés.

É exatamente por esse mesmo sistema de amarras que nos é imposto socialmente que tendemos a reconhecer Timothy Leary como um artista adoecido pelo alto consumo de drogas, mas, antes de tudo, é preciso notar que as pesquisas que ele lançou, ainda que seja possível reconhecer excessos e erros metodológicos, apontaram um caminho que é perseguido até hoje, como comprovam as pesquisas que buscam soluções para diminuir problemas com alcoolismo e comportamento prisional (vejam aqui e aqui). Não parece que o círculo vive dando suas voltas?

Vá a São Thomé das Letras despido de preconceitos. Ligue-se, sintonize-se e sossegue, do modo que melhor lhe convir.

Recomendações:

O livro abaixo é uma espécie de autobiografia dada em forma de entrevista, contendo o suprassumo das ideias de Leary. Vejam como o caboclo era contraposto ao establishment.

LEARY, Timothy. Flashbacks. Surfando no Caos. São Paulo: Beca, 1999.

E, para não dizer que eu não falei dos cogumelos, segue a recomendação do álbum de estreia de seu cidadão mais ilustre, o mítico Ventania, a quem me reportei por ocasião de uma de minhas viagens a São Luiz do Paraitinga.


VENTANIA. Só para Loucos. CD. São Thomé das Letras: Edição do Autor, 2000. 52 min.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Dos dias em que o vento nos afasta do mar - 9º sopro: Caxambu e a dúvida sobre se temos o que merecemos

Olá!


Após voltar de São Lourenço e Carmo de Minas (com passagem rápida por Jesuânia), ainda ficamos mais um dia em Lambari, para depois disso pegar o vento que nos batia do lado esquerdo do rosto e rumar na direção leste. Como de costume, saímos cedo e meio incertos, mas já com a ideia de palmilhar as redondezas de Caxambu.


Há uma grande incerteza quanto à origem etimológica deste topônimo. Encontrei ao menos três, sem que nenhuma seja definitiva. Uma delas é africana, e designaria os tambores com os quais os escravos da região acompanhariam suas canções (cacha-mumbu). Outra explicação possível adviria do tupi-guarani caa-cha-umbu, que significaria algo como “vista que se tem da mata para o riacho”, e, finalmente, há uma terceira tradução plausível, oriunda do dialeto dos Cataguases, cata-umbu, que seria traduzida por “água borbulhante”. De qualquer forma, há uma forte ligação entre as águas de Caxambu e as propriedades medicinais que lhe são atribuídas, refletindo no seu brasão.


Sendo tão importante para a municipalidade, era de se esperar que sua principal atração estivesse vinculada ao solvente universal, e isto é traduzido em seu majestoso Parque de Águas, que, à moda de São Lourenço e Cambuquira, concentra a emissão de fontes em diversos quiosques espalhados pela área.


Um dos pontos de interesse do parque são trabalhos do artista português Chico Cascateiro, os quais já havia podido apreciar em minha passagem por Carmo de Minas. Sua intenção é reproduzir em cimento objetos que se assemelham a outros materiais, como a suposta madeira deste aquário.


As temáticas aquáticas vistas em outras cidades se repetem aqui, como as referências mitológicas refletidas nas ninfas das fontes. Achei a ninfa do parque de Caxambu mais representativa da pureza, e as de São Lourenço, da sensualidade. É um bom exercício compará-las, até porque ambos os modelos são belos.


As atividades crenoterápicas são concentradas no belíssimo prédio do balneário, que fica no pé do morro do cruzeiro e defronte à engarrafadora de água, ambas dentro do parque. Esta última está em reforma, e permite que os visitantes acompanhem os processos de trabalho de envase.


As semelhanças entre os parques de águas prosseguem. Também em Caxambu, embora em menor monta, há referências à religiosidade de seus habitantes, como na pequena capelinha dedicada à quase onipresente Nhá Chica, onde os fieis gostam de depositar seus ex-votos e orações.


Temos ainda, no miolo do parque, um grande lago, que disponibiliza as atividades costumeiras, com pequenas embarcações. Algo que me chamou a atenção é que seus aparentemente inofensivos pedalinhos em forma de cisnes são mais velozes do que o costumeiro, o que confesso que gostei, apesar da aparência meio pueril.


Ainda há o teleférico que pode ser acessado tanto por dentro quanto por fora do parque, atravessando o seu lago e subindo ao mirante adjacente pelo meio do mato. Aquela no banco da frente é a patroa.


É um teleférico de nível fácil, com trajeto cumprido em dez minutos no máximo, que passa a pouca altitude do solo e da água. Não consigo calcular com precisão, mas acho que a altura média não passa dos vinte metros.


Apesar disso, a descida dá um pouco de frio na barriga, sim. Em especial para quem já trava ao subir no terceiro degrau de uma escadinha. Convenhamos: sem isso, um teleférico não tem graça. E o que compensa é a vista ampla que se tem do parque e da parte urbana da cidade, fora o mar de morros ao fundo.


O grande diferencial que há no Parque de Águas de Caxambu é o cuidado no acabamento de suas fontes, que tem um aspecto mais “histórico” que nos demais lugares mencionados no périplo.


Percebam que há um estilo um pouco mais uniforme, que remete às épocas aristocráticas e imperiais, ricas em arabescos e com ênfase nos detalhes. Assim, há mais destaque na beleza das construções do que em sua funcionalidade.


Mas, para ser honesto, não há prejuízo em seu acesso, até mesmo pelo contrário. Em uma de suas fontes mais famosas, a Mayrink, para mencionar um exemplo, foi preparado um nicho específico para que as pessoas que a procuram possam lavar os olhos e fazer bochechos, com uma pia mais alta, permitindo um pouco mais de discrição.


Além disso, é uma casinha que possui três fontes distintas, que desembocam em bicas que permitem as combinações necessárias entre as águas carbogasosas, ácidas e radioativas.


Uma das curiosidades do parque é o seu gêiser, que entra em erupção na parte da manhã, todos os dias, pelo que me consta. O formato de cogumelo é meio sugestivo de São Thomé das Letras, mas ainda não havia trafegado para lá neste momento. Emana uma água de temperatura constante, ligeiramente fria, e com muitos sais dissolvidos, o que a torna mais apropriada para banhos do que para ingestão.


A vida do parque não se limita ao interior do seu perímetro. Do lado de fora, há uma grande quantidade de lojinhas vendendo artesanato, em especial os cestos de palha para carregar garrafas de água mineral. Só sugiro que as garrafas sejam melhor lavadas. Há também uma fileira de charretes, que propõem passeios para todos os pontos turísticos da cidade.


Hospedamo-nos em um hotelzinho com uma pequena e oportuna piscina, que fica na mesma rua da igreja matriz, dedicada a Nossa Senhora dos Remédios. Quando procurei referências sobre ela, houve um chato que veio dizer que o verde não é uma cor honrada para uma igreja séria... Sem comentários.


Não é de se estranhar que houvesse também aqui uma homenagem aos beatos destas freguesias: o padre Vitor...


... e novamente a Nhá Chica, que, além da costumeira estátua, tinha uma série de santinhos, em que é inserida uma relíquia: um pedaço de linho que encostou no seu corpo já falecido.


Do hotel, onde conhecemos a Regina, que nos deu algumas dicas da cidade, é possível perceber os aclives e declives que cercam o riacho central. Do outro lado do vale, há uma outra igreja, menor que a matriz, mas que conta algumas histórias interessantes. Para começo de conversa, há uma grande escadaria a lhe guarnecer, daquelas que o pessoal costuma subir de joelhos, para pagar as contas de seus desesperos.


A igreja em si é pequena, mas muito bonita em seu estilo gótico. É dedicada a Santa Isabel de Hungria, uma princesa franciscana de quem se diz que cuidava de uma tonelada de pobres. É uma igreja que abre poucas horas por semana, e dei sorte: a irmãzinha que faz sentinela na casa tinha acabado de abri-la. Nos fundos da pequena paróquia, fica localizado um hospital dedicado a São Vicente de Paulo.


É uma igreja muito antiga, cuja pedra fundamental foi lançada em 1868, por ordem da Princesa Isabel, a quem o povo de Caxambu passou a ter uma reverência quase sacrossanta. O motivo da sua construção se deu por uma suposta graça alcançada pela princesa. Seu adro, feito em local bem alto, tem também uma gruta dedicada a Nossa Senhora de Lourdes.


Mas por que tanta devoção? É que a Princesa Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon d'Orléans era forte admiradora de sua xará dos altares, seja pela coincidência no nome, seja pela coincidência na condição aristocrática. Ela chegou a Caxambu pela boa fama da água local e pela sua dificuldade em engravidar. Como a visita lhe gerou um rebento, atribuiu à graça divina a água ingerida como fármaco, e, em retribuição, mandou erguer a tal capela. Agradecida, a população lhe construiu um busto ao lado da escadaria.


Não tenho informações muito precisas sobre a biografia da princesa. O seu fato mais notável dá conta da assinatura da Lei Áurea, a famosa abolição da escravatura no Brasil. A uma visão mais descuidada, dá a aparência de que se trata de um ato de espontânea vontade da princesa, que achou por bem tornar livres todos os homens que ainda permaneciam escravos. Sabemos que não se tratou de uma ação isolada, porque várias outras leis, como a do Sexagenário, a do Ventre Livre e a proibição do tráfico negreiro já vinham cerceando a escravidão; também sabemos que a assinatura da Lei Áurea foi a sanção de uma lei proposta no senado, e que depois foi referendada pelo Congresso, não sendo iniciativa direta da princesa. Mas a ideia imediata é a que a princesa era uma mulher benemerente, dada a virtudes e caridades. Não vou julgar nada, até porque pode ser que ela fosse de fato o que se lhe atribui, e a distinção tem motivos firmes para acontecer, ainda mais se levarmos em conta que, se Caxambu é hoje uma cidade pequena, de pouco mais de 20 mil habitantes, quanto mais não seria no meio do século XIX... E receber uma visita imperial era motivo de regozijo, em época sem internet, telefone, televisão ou mesmo rádio. Ver um membro da alta nobreza era a mesma coisa que ver um santo.

Mas a Princesa Isabel não foi para Caxambu por causa de suas broinhas de milho e calorosa acolhida, e sim por conta de sua água taumaturga. Como eu disse anteriormente, a nobre senhora tinha dificuldades de engravidar, e, casada que era com o francês Conde D’Eu (o que gerou uma série de controvérsias que ajudaram a antecipar a república brasileira), guardava para si sério busílis. Hoje pode parecer estranho, nestes tempos de poucos filhos, mas uma mulher sem a capacidade de gravidez era quase como uma garrafa sem fundo – uma inutilidade. Fazia-se chás de “pega-barriga”, posições semelhantes a ioga, fases da lua, orações e simpatias, coisas análogas às que ainda hoje se fazem para tentar curar o câncer, com qualquer mezinha servindo de tentativa desesperada: cartilagem de tubarão, sangue de carpa, uísque com babosa, fosfoetanolamina

Mas, no caso específico, há uma explicação razoável. Uma das fontes mais célebres de Caxambu é a ferruginosa, que contém, como se pode deduzir, alta concentração de ferro dissolvida em si, gerando um líquido pouco saboroso, mas pleno do mineral. Se a causa da infertilidade da princesa se dava por uma anemia, é bastante óbvio que sua cura se deveu às propriedades químicas da água, e não às miraculosas. Mas é normal que isso se coloque em segundo plano, especialmente por conta de uma tendência em se acreditar que há por trás do mundo uma cadeia de causas e consequências previamente ordenada, que faz com que pessoas boas colham bons frutos e pessoas más tenham exatamente o contrário.

Essa correlação mental entre virtudes realizadas e benesses recebidas é uma tendência dos seres humanos? Para o psicólogo social norte-americano Melvin Lerner, sim. Vamos tentar dissecar rapidamente.

O homem é o animal que sabe que sabe. E o que ele mais sabe é que vai morrer um dia. O que vai acontecer depois da morte ninguém sabe, mas temos uma hipótese mais provável que é muito dolorosa – aqui morreu, aqui acabou. Outras intercorrências na vida seguem o mesmo princípio da incerteza. Por exemplo, podemos sonhar com a menina mais bonita, mais esperta, mais inteligente, mais tudo; é sonho. O que teremos é uma pessoa imperfeita como nós somos imperfeitos. Tem mais: o centroavante que pegou a bola na orelha, o goleiro que tomou uma bola no meio das pernas, o técnico que substituiu um meia por um zagueiro e levou a virada, um bandeirinha que não viu um impedimento, um árbitro que deu um cartão vermelho abusivo – justo para o craque do time. Isso tudo conspira contra os títulos do seu clube, por mais bem arquitetadas que sejam suas táticas e mais empenhados que sejam seus jogadores. O mundo e tudo o que tem nele se movimenta em meio ao caos. Há uma dissonância muito grande entre aquilo que enxergamos como perfeito e aquilo que temos à nossa frente. Pior ainda: o mundo é randômico. Hoje o árbitro erra para o meu time, amanhã justamente para o pior rival. A não ser que você torça para a Portuguesa, verá que há uma alternância em tempo longo que distribui os benefícios e os prejuízos dos juízes para os times de maneira mais ou menos equânime, cinco por cento para cá, sete por cento para lá. E isso não é indicativo de uniformidade, mas justamente o contrário: o erro não tem preferência, e, por isso, respinga em quem estiver por perto. Um bloco de cimento que desaba do viaduto pode cair na cabeça do mendigo ou do magistrado, sem nenhum tipo de discriminação.

Isso tudo significa que podemos fazer muito pouca coisa diante deste grande sistema não linear chamado vida. E esse é o típico pensamento que causa imenso desconforto. De fato, saber-se exposto às intempéries do acaso causa uma sensação muito forte de desamparo e incerteza. E isso nos leva a ser impelidos a tentar enxergar algum tipo de lógica nessa trama, uma lógica que nos permita, de alguma forma, direcionar a realidade e dar algum rumo aos nossos destinos, modificando psiquicamente as atribuições das razões pelas quais o mundo se põe diante de nossa consciência. Em suma, a tragédia não pode recair em nós se não fizemos nada para provocá-la.

O primeiro mecanismo para permitir isso vem das religiões. Segundo elas ensinam (em sua maioria), por trás de tudo há uma teleologia, ou seja, um propósito. Cada homem e cada flor e cada bicho e cada pedra e cada alma e cada mundo é criado por uma divindade para atender um determinado desígnio. Essa espécie de ordem estabelecida por uma deidade faz pressupor a existência de uma dimensão que transcende a realidade tangível e o cosmos visível, de modo a ser possível supor que a morte não é um fim, mas um muro que se precisa saltar para atingir os quintais metafísicos da transcendência. Uma divindade que imaginamos bondosa e misericordiosa plasma nas suas criaturas os mesmos crivos para determinar o destino de cada um: em troca de uma vida caritativa e virtuosa, há um reino dos céus para lhe apascentar o espírito, enquanto o contrário traz um horizonte punitivo. Portanto, a causa chamada vida é seguida por uma consequência chamada eternidade que será determinada pelo fator chamado merecimento.

Esse é o mecanismo de grande escala temporal (para a vida humana). Mas a cada ato é possível replicar esse mesmo paradigma, de causa e consequência intermediados pelo mérito, e não pela aleatoriedade. Se uma pessoa pratica atos bons, então coisas boas acontecerão para ela; vice-versa, se seus atos forem ruins. Essa é a psicologia da hipótese do mundo justo levantada por Lerner. É uma maneira que a psique de uma pessoa encontra para reordenar o caos que o universo lhe apresenta. Já pude falar sobre outras maneiras como o cérebro faz isso, algumas vezes de maneira imediata, como na pareidolia; ou múltipla, como na heurística. Mas a reconstrução de um mundo em que podemos determinar causa e consequência através do merecimento é irrealista. E tem problemas, que, aliás, são graves.

Em primeiro lugar, é óbvio que há uma relação entre causas e efeitos. Fure uma bola e ela murchará, não há dúvida. E as pessoas em geral te verão bem se você for alguém agradável, de maneira a ser mais fácil um convívio mais aprazível. O problema do mundo justo é que as consequências não estão ligadas a causas que lhe dão origem de fato, como descrevi na falácia da falsa correlação. Estão mais na base do “você colhe o que planta”, de modo a se inverter o julgamento. Por exemplo: se eu vejo uma pessoa fumando, posso supor que a consequência será um belo pigarro a curto prazo e um belo câncer a longo, mas não posso fechar o veredito se o que dá causa a uma pessoa com câncer no pulmão é o tabagismo. Pode ser tanta coisa... Predisposição genética, inalação de poluentes, fumante passivo, doenças carcinogênicas, e até mesmo o próprio tabagismo, ora pois. Mas estou tentando aplicar uma origem que pode não ter verdadeira, embora faça sentido.

E é aqui que abrimos duas grandes complicações: essa atitude é um poço de preconceitos e nos dá o conforto de virar as costas para o problema sem pesos na consciência. Quando vemos um miserável, observamos um efeito de uma longa cadeia de eventos que não nos damos conta, mas tendemos a achar que ele mesmo, o miserável, é o responsável pelo seu estado de coisas. Isso nubla a visão sobre o que pode tê-lo levado à situação, porque temos a convicção de que nada do que lhe tenha ocorrido tenha decorrido de injustiças. E isso se alastra a uma dimensão social amplamente abrangente, dividindo as sociedades entre párias e eleitos.

Além disso, passamos a culpar não só os próprios indivíduos por situações duradouras ou permanentes, mas por toda sorte de mal que venham a sofrer. Um dos exemplos mais escancarados que encontrei é a recente polêmica sobre a culpa das vítimas pelos estupros que sofrem: usam roupas provocantes, andam em horários e locais impróprios, se embebedam e se drogam, e se sujeitam a ser polos passivos nestes crimes. Mas essa é só uma ponta aparente. 

A lógica do mundo justo nos alivia de encarar o mal social como partícipes desta mesma sociedade. De novo: as coisas ruins acontecem para pessoas ruins ou que tomam atitudes ruins, independentemente do que tenhamos feito sem olhar para o próprio umbigo, e pessoas com comportamentos louváveis (e preestabelecidos) estão isentas de infortúnios.

Até que o bloco de cimento caia em seus colos. Aí, o que faremos com essa lógica?

Recomendação de leitura:

Melvin Lerner foi um pesquisador profícuo, e um grande entusiasta das questões psicológicas envolvendo a justiça social. Infelizmente, não há bibliografia em português, e precisei me arranjar em inglês mesmo.


LERNER, Melvin. Belief in a just world. A fundamental delusion. Nova Iorque: Plenum, 1980.