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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A sociedade e os estrangeiros em sua própria terra

Olá!

Já deu o que falar o meu último texto, em que versei sobre a polêmica envolvendo a vlogueira e atriz Kefera Buchmann, onde tentei elucidar um pouco melhor o conceito sociológico de lugar de fala. Mas preciso demarcar melhor o real alcance do que estou falando, porque dá a impressão que estou nos trending topics com muita gente discutindo onde acerto e onde erro nas minhas proposições sobre feminismo e congêneres. Nada disso. Na verdade, meus mais fieis seguidores são mesmo os meus amigos, a quem fico aporrinhando para ler meus textos, e a discussão principal não se deu em termos sócio-filosóficos, como eu gostaria, mas por conta essencialmente desta frase:

“É louvável que sua temática amadureça, que saia do mero entretenimento e é muito bom sua adesão à causa feminista, porque sua notoriedade carrega toda uma visibilidade de um público que lhe acompanhava de perto até então e que lhe ouve, além de lhe tirar uma certa impressão de futilidade (o que não é um mal em si)”.

Em suma, eu falei sobre amadurecimento, dificuldade de conceituação, empatia, alteridade, teia social, minorias, representatividade e o pessoal está me pondo na parede porque eu não afirmei com todas as letras, pontos e acentos que o ideário da moça em epígrafe é frívolo como ela própria, ou, melhor dizendo, por quais motivos eu me ocupo de coisas tão banais. Ai, ai...

Vamos lá, ínclitos confrades. Em primeiro lugar, não existe tema banal em Filosofia. Tudo, absolutamente tudo é passível de análise e pensamento, desde temas da mais alta abstração, como designadores rígidos e estruturas lógico-linguísticas, até concretudes fúteis do nossos quotidiano, como novelas, futebol, vlogueiras de sucesso. É através desta máscara que o cosmos apresenta a nós que temos o contato primal com assuntos que se tornarão muito mais profundos, ora essa. A teoria da gravidade nasce com a queda de uma maçã, não é verdade?*

Mas é preciso pensar um pouco sobre a imagem que fica sedimentada sobre cada um de nós. Como eu gosto de escrever sobre Filosofia e circunvizinhos, o pessoal tende a achar que tudo o que leio são artigos acadêmicos ou alta literatura. Não, eu leio gibis também. Acham que tudo o que eu assisto são mesas-redondas sobre temas da mais erudita especificidade, mas eu gosto mesmo é de desenhos animados. Aliás, o pessoal acha que meu passatempo favorito é jogar xadrez, mas eu curto de verdade é estar em uma arquibancada, xingando a senhora progenitora do juiz. Quem me lê, pode achar que eu só me sinto motivado a ver filmes de arte europeus, daqueles em que o cineasta fixa dez minutos de película em uma fumaça de cigarro que se perde no espaço, mas não. Eu me divirto com besteirol, não preciso estar o tempo todo com as engrenagens cerebrais em funcionamento. Tudo o que eu quero, por vezes, é dar risada. Isso acontece em tudo, inclusive com vídeos do YouTube.

Eu vou dar aqui bons exemplos de canais que sou inscrito, para que vocês entendam melhor. Algum tanto do que escrevo aqui tem inspiração em vídeos, e procuro-os várias vezes para conhecer mais sobre temas dos quais quero me aprofundar, em especial aqueles que tem o magnífico hábito de fornecer fontes.

Foi fazendo pesquisas sobre homoafetividade que eu cheguei a gente excelente, como o Mutilo Araújo do canal Muro Pequeno, que fala sobre a difícil tarefa de conciliar causa LGBT e Cristianismo, ou ao canal Quebrando o Tabu, que expande seus temas para a afirmação racial e propostas eleitorais, ou ainda o Põe na Roda, canal do Pedro HMC, que trata de cultura pop concernente à temática. Há também o canal Guardei no Armário, do Samuel Gomes, que recolhe muitos depoimentos sobre o difícil momento de se assumir, ou até mesmo o Para Tudo, da drag queen Lorelay Fox, alter ego do publicitário Danilo Dabague, que, apesar da temática muitas vezes ligada à “montagem” do personagem, traz vídeos relacionados ao seu modo de ver e viver o mundo, com as confusões tão típicas entre pessoa e persona. E foi assim que eu cheguei ao canal Diva Depressão, eminentemente de humor LGBT. Confesso peremptoriamente: eu ME CAGO de rir daqueles dois, especialmente quando fazem suas inextricáveis, herméticas e viscerais investigações sobre... looks de famosos.

Desculpe se eu decepciono alguém, mas duvido muito que haja quem se fixe unicamente nos eruditos. Existe um negócio chamado lazer, que serve justamente para dar um alívio nas coisas mais sérias da vida. Pergunte para qualquer pessoa sobre o que ela pretende fazer após a aposentadoria. Invariavelmente se falará sobre coisas prazenteiras, mesmo que seja trabalho, como cuidar de uma hortinha sem a necessidade de tirar dela seu sustento. Pouca gente tira férias para arrumar coisas da casa. Se ocorrer, seu semblante será de um sofrimento semelhante à perda de um parente (já fiz isso para consertar o telhado). Por isso, lazer é essencial, e por vezes tem que ser frívolo mesmo. Dia fútil, dia útil, já dizia um reclame da rádio Cultura.
Mas esta casca de insignificância oculta algo que vale ouro, e que vai muito além da mera proposta de diversão, o que, como eu já disse, se justifica por si só. Acompanhem meu raciocínio, apoiado por um dos mais consideráveis sociólogos alemães, Georg Simmel.

Vivemos em sociedade e blá-blá-blá. Mas o que é essa tal de sociedade? É um somatório de pessoas e nada mais? Não, claro. Para Simmel, a sociedade é o agrupamento de indivíduos que interagem entre si. Esta é uma definição mais aperfeiçoada do que tínhamos correntemente em sua época de atuação, o começo do século XX. Até então, dizia-se que sociedade era o conjunto de cidadãos de um determinado espaço físico. Mas não havia sentido em se dizer que viver junto era sinônimo de sociedade, porque para que cada um seja reconhecido como ator, é preciso que tenha um papel a desempenhar, que este seja bem conhecido e que tenham entre si algum nível de interdependência.

Uma importante diferença a ser estabelecida entre interação e socialização: a primeira é um contato onde duas ou mais partes percebem e são percebidas. É como quando perguntamos para alguém onde fica determinada rua. Há uma aproximação feita pela fala, como um bom-dia, por exemplo, a chamada de atenção, a pergunta, a resposta e o agradecimento, e nada mais. Já a socialização traz consigo toda uma carga cultural e de expressão de valores, que fazem com que as pessoas sigam uma norma na sua convivência. No mesmo exemplo da rua, o fato de se falar o bom-dia no início e o obrigado no final da pergunta já denotam um costume, um hábito que é sedimentado socialmente e tido como bom pelo meio onde se vive. Desta forma, a socialização se dá através da interação, mas não se limita a ela. A interação, para ser considerada um objeto de socialização, precisa carregar consigo a intenção de influenciar o meio onde se vive, com o rebote de também ser influenciado em troca. Esse vai-e-vem de interações é exatamente o que chamamos de sociedade, e Simmel dá o nome de sociação a esta interação recheada de propósitos.

A interação social, portanto, não se dá sem uma intencionalidade. Todo aquele que interage o faz motivado por alguma necessidade ou dependência, nem que seja uma mera conversa em um fim de tarde de domingo. Essa sociação tem um conteúdo, que corresponde ao elemento motivador da relação social. Esse conteúdo é exatamente o aspecto individual da interação, aquilo que leva alguém a cometer qualquer ato social. Se tenho raiva, se tenho ternura, se tenho necessidade física, o conteúdo é o elemento subjetivo impulsionador da sociação, e que se traduz naquilo que Simmel chama de forma, a maneira física com a qual ela se torna manifesta. O xingo é uma das formas do conteúdo raiva; a entrega da flor, do conteúdo ternura, e o pedido de esmola, do conteúdo necessidade física.

E se um grupo está presente, mas não existe grandes processos de socialização com os restantes? Existe uma parte específica dos estudos de Simmel que fala sobre a curiosa situação do estrangeiro, e que é muito boa para entender como presença física não insere automaticamente no meio social, como pareciam pretender outros pensadores sociológicos. Vamos começar do começo.

Quando os homens viviam em meio rural, era frequente que as interações entre todos os habitantes da cidade fossem intensas. Em suma, todo mundo conhecia todo mundo, e sabiam bem o que todos faziam de suas vidas. Com o advento da Revolução Industrial e da consequente urbanização, cada vez mais os indivíduos entraram em um processo de especialização. Quando viviam no campo eram obrigados a fazer tudo, desde cultivar até construir a casa onde habitavam, passando por tecer, rachar lenha, alimentar os filhos e os animais, prever o tempo, reparar as ferramentas de trabalho. Já a vida nas cidades era diferente. O cidadão não precisava saber fazer tudo, mas o que ele sabia fazer precisava ser levado à perfeição, com uma velocidade extremamente desvinculada do tempo natural (para ler mais sobre esse fenômeno, acesse este outro texto do meu blog). Isso o leva a um estado psicológico de retração, primeiro porque é impossível conhecer todas as pessoas que moram em seu mesmo espaço físico, e segundo porque não há mais interesse em se saber de tudo um pouco. Essa impossibilidade de alcançar o meio social por completo faz com que o indivíduo desenvolva aquilo que Simmel chamou de atitude blasée. Este termo francês significa aquele sentimento de tédio que temos nos fins das aulas de sexta-feira, quando não aguentamos mais os professores de cálculo falar sobre derivadas e integrais**. Ou seja, a atitude blasée é uma manifestação de indiferença com aquilo que está acontecendo ao nosso redor. Somos mais impessoais.

É por isso que a vida nas cidades parece menos integrada interpessoalmente que a do meio rural. As pessoas passam nas ruas e dificilmente se cumprimentam, lidam entre si de maneira bastante formal e via discorrendo. Mas esta é a parte mais externa da coisa. A atitude blasée denuncia uma indiferença não só com as pessoas que estão nas nossas proximidades, mas com nacos inteiros da vida social. Há uma espécie de hierarquia de importância nos nossos contatos sociais, onde aqueles mais estranhos ao meio são aqueles que receberão a carga maior de indiferença.

Simmel volta sua análise para os judeus da Europa. São grupos que eram compostos por estrangeiros com alto grau de endogenia, ou seja, suas relações se davam majoritariamente dentro de seu próprio grupo. Eles têm a proximidade necessária para se fazer parte de uma determinada sociedade, mas se colocam distantes justamente pela falta de interação. Essa atitude não parte unicamente de dentro para fora, já que os judeus eram mal recebidos em muitas partes onde tentavam se estabelecer: eram tidos como deicidas, como negociantes natos, enfim, não eram lá muito bem quistos por aí. O estrangeiro, nesse sentido, parece estar sempre em situação precária, sempre de passagem. Os laços de pertencimento são frágeis, ou mesmo inexistentes. O estrangeiro compartilha o espaço com outras comunidades, mas não está integrado a ela.
Se percebermos que SImmel está se referindo a uma comunidade cuja principal característica é seu laço religioso, e não sua nacionalidade em si, podemos deduzir que é possível estender sua análise a outros grupos que vivam sobre outro tipo de elo, de modo que possam ser considerados estrangeiros em sua própria terra, e que tenha dificuldades em se integrar à sociedade da qual deveria fazer parte. Em síntese, mesmo que estejam organicamente inseridos em um espaço físico, são considerados como “os de fora”, e para eles a sociedade em geral volta sua atitude blasée.


Ok. E o que isso tudo tem a ver com o canal Diva Depressão? Tem a ver o seguinte: todo grupo que é estranho a um determinado meio social não o faz porque quer, via de regra. E é difícil que este tipo de situação se mantenha sem que se esperneie de alguma forma. Imagine-se corintiano em uma rua de palmeirenses. Ninguém vai se preocupar se as eventuais comemorações de título lhe incomodam, muito pelo contrário. Você, minoria, será objeto de chacota a todo instante, de violência, de desprezo. Os palmeirenses quererão que você vá embora, purificando a rua de toda mácula alvinegra. Você, vestido em sua dignidade, resistirá, lutando pelo seu direito de ser como é, corintiano dos quatro costados. Tentarão em vão convertê-lo, mas não é possível, vai contra sua natureza e sua cultura. A sua resistência incomodará até o ponto em que alguns dos palmeirenses comecem a vê-lo com simpatia. “Esse corintiano é porreta”, dirão. Não se incomodarão mais em dar folga ao corintiano, passando até mesmo a conviver com ele. Verão que ele é uma pessoa comum, como eles mesmos. Perceberão que o que define um corintiano é torcer para o Corinthians, e nada mais. Maloqueiro, sofredor, analfabeto, desdentado, tudo isso é bobagem, como é bobagem dizer que palmeirenses são porcos, sujos, mafiosos, brincadeiras que lhes colaram na testa e que não desgrudam mais. Aos poucos, alguns deles confessarão que, na verdade, não são de fato palmeirenses, mas torcedores de outros times que tinham medo de se declarar, face a violência e o menosprezo devotado ao grupo minoritário. A reação inicial é ruim, mas é preciso mostrar a todos que a convivência com o corintiano não é nada demais, que ninguém pode obrigar um palmeirense a se manter ou deixar de ser o que é. Esse processo é coisa para anos a fio. Os dois escretes citados são exemplos. Troque por qualquer um de sua preferência, o efeito é o mesmo. O importante é perceber que a atitude de indiferença precisa ser chacoalhada.

Todo mundo já deve ter percebido que eu quis traçar uma metáfora. Os pontos de interseção são a exclusão e a vontade de silenciamento do grupo não integrado. Canais engajados, como os que citei, tem o papel de soltar o grito de propor o enfrentamento com as armas da racionalidade. Em resumo, são aqueles que metem o dedo na ferida. Eles são necessários e cumprem um papel primordial, cujo mesmo não dá para viver sem. Mas o diabo é que a militância sempre traz consigo o substrato do confronto, o que nunca é confortável, por mais que a reivindicação seja justa. Ninguém gosta de ser chamado de opressor, mesmo que seja. Quem milita afirma: “podemos viver em paz”. Mas o que é esse viver em paz com aquele que mete o dedo na minha cara? O que inserir o outro harmonicamente em meu convívio?

Essa é a pedra de toque de canais como o do Filipe e do Eduardo. Eles demonstram o que poderia ser a vida se a camada LGBT pudesse se manifestar livremente, já com o pressuposto da desnecessidade da militância. É assim que podemos evocar um mundo futuro, sentir seu sabor e ver que ele não tem nada de errado. Assistindo o seu canal, vemos que são pessoas divertidas, espertas, sórdidas por vezes, mas que, essencialmente, são convivas ótimos. Não é necessário que exista uma barreira entre as camadas populacionais, porque eles trazem aquilo que os canais de militância têm dificuldade em fazer: uma aura de normalidade nas relações. Eles não são bichos papões que vão ensinar seu filho a ser gay, a esterilizar a população, a impedir que casais hétero se desvirtuem em promiscuidade. São o que são, não precisam ser tratados como estrangeiros em sua própria terra.

Taí, a importância de ser fútil. Quer dizer, de viver de forma comum.

Recomendações:

Simmel não é tão considerado como deveria, mas recentemente sua obra tem recebido uma maior atenção por parte dos meios acadêmicos. O livrinho abaixo dá uma boa ideia de seus pensamentos.

SIMMEL, Georg. Questões Fundamentais da Sociologia. Indivíduo e Sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

Abaixo, os endereços de todos os canais que citei neste texto:







* Não, não é verdade. Ou, ao menos, não se sabe. Essa fábula sobre a maçã que caiu na cabeça de Newton deve ter nascido de algum exemplo e funciona muito bem como ilustração, mas não há nenhum relato deixado por ele sobre esse fato. Vejam um artigo interessante sobre essa assunto em http://www.ghtc.usp.br/server/pdf/RAM-livro-Cibelle-Newton.pdf.

** Perdão aos colegas de Matemática. Reconheço 100% do valor das coisas que vocês ensinam, mas é uma questão de vocação mesmo. As coisas que não entendemos nos chateiam de verdade. Entendam isso tudo como uma limitação de minha parte, e não uma crítica.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Sobre as confusões entre lugar de fala e representatividade, e os tropeços na transição de uma youtuber rumo ao engajamento (Pequeno guia das grandes falácias - 41º tomo: o Bulverismo)

Olá!


Vou surfar na hype? Vou surfar na hype. Este espaço está cada dia menos frequentado, embora minha média de produção venha se mantendo a mesma ao longo dos anos, e vou aproveitar um pouco deste expediente tão utilizado pela rede afora. Pensando bem, não há problema nenhum nisso, porque falar sobre fatos notórios e pessoas famosas faz parte do nosso quotidiano. O diferencial está em tentar extrair um sumo proveitoso de uma fruta que é puro escolho. De mais a mais, era um tema sobre o qual eu estava mesmo querendo falar, já há um bom tempo. Deixemos de vã filosofia e vamos ao que importa, até mesmo porque já estou bem atrasadinho.

No finalzinho do ano recém encerrado, uma polêmica acendeu os ânimos nesta já conturbada Ilha de Vera Cruz. Não vou detalhar muito, todo mundo já viu (mas aqui tem um vídeo com o ocorrido), bastando dizer que, em um matinal na TV, a youtuber Kefera Buchmann reagiu com um algum grau de agressividade a um audiente da plateia, que contrapunha certos argumentos ao feminismo que se discutia na ocasião. Nada muito UFC, mas o fato é que uma imensa discussão se iniciou a partir do evento, com tropas de defesa e ataque à garota, em especial nas redes sociais, lodaçal de onde brotam muitos monstros.
Kefera falou em mansplaining, manterrupting e lugar de fala, com o argumento de que um homem não é parte legítima para se pronunciar sobre feminismo, um assunto que não lhe diz respeito. Bom... Para poder entender se este argumento é válido, precisamos delinear bem o que é esse termo da moda, tão mal compreendido e utilizado, e, para tanto, precisamos começar do começo, sendo essencial saber o que é espaço público. Façamos isso agora.



Sempre que falamos genericamente em espaço público, vem à nossa mente alguma coisa como uma imensa praça. Por uma questão de familiaridade, penso na praça Clóvis, onde centenas de pessoas andam para lá e para cá, buscando o Poupatempo ou as essências da Silveira Martins. Algumas crianças correm aleatoriamente, espantando os pombos que uma senhora em vão tenta alimentar. Há um pipoqueiro e um vendedor de bexigas, enquanto uma boa vintena de mendigos filosofa sobre o momento mais adequado para se embebedar, e subempregados apregoam as fotografias 2x2-3x4-5x7, imprescindíveis para documentos, tudo isso vigiado pelos policiais que protegem transeuntes e meninas vendedoras das lojas de perfumes, a quem buscam impressionar. Eventualmente há algum violeiro que tenta cachês com seu chapéu deitado ao solo, ou um pastor que berra imprecações contra aqueles do mundo. Tudo isso parece passível de pintura e emolduramento, mas não é a expressão do conceito sociológico de espaço público. É, no máximo, um dos meios físicos onde este subsiste.

Vamos pensar no seguinte. Há um local onde todos somos os senhores do castelo. Dentro da minha casa, e nos limites da legalidade, eu faço o que bem entendo: fico pelado, tiro ouro do nariz, como bife com as mãos, trepo em cima do guarda-roupa, dentro do guarda-roupa, COM o guarda-roupa. O espaço privado é o espaço do indivíduo, compactuado, no máximo, com os familiares e com o outro consentido. Para isso, há fundamentações constitucionais e princípios éticos bem aceitos. Ocorre que existimos em sociedade e o viver coletivo é muito maior do que a soma das individualidades. Há inúmeros lugares onde o povo exerce esse sentido comunitário e estabelece seu convívio. Aqui, há uma série de limites que são estabelecidos de maneira coercitiva, seja através da lei, seja através dos costumes que aquele meio social adota. Não se pode pisar fora da faixa, e, se houver quem o faça, há punição em alguma forma. Ao contrário da casa, já não temos, no espaço compartilhado, a mesma liberdade. Não se anda pelado, porque é contra a lei; não se tira ouro do nariz, porque é mau costume. É a nossa cultura, em síntese, que dirá o que pode e o que não pode. E isso não ocorre apenas nas praças e nas ruas, mas por toda a cadeia de meios por onde as pessoas são alcançadas em sentido comunitário. Em um panfleto, em um programa de rádio, em um comício, nos grafites das paredes ou nas redes sociais a noção de espaço público também está presente, porque a sociedade não se limita à presença física, mas à disseminação de ideias e ao exercício de direitos, principalmente quando falamos nos elementos que constituem nossa cultura e nas ferramentas que fazem o próprio espaço público continuar a existir, como a liberdade de expressão, o respeito às escolhas e os direitos individuais. Portanto, a cada vez que um cidadão é tolhido em seu papel social, é o próprio espaço público que é agredido. Não há democracia sem o respeito ao espaço público. Não há sociedade sem espaço público.

Pois bem. O espaço público não é uma coisa uniforme, bonitinha como um arabesco, porque ele é composto de um espaço físico e conceitual que é ocupado por pessoas, com seus anseios e expectativas. Estas pessoas tendem a se agrupar de acordo com certas afinidades, que vem de dentro, e de certas classificações, impostas de fora. No primeiro caso, podemos enquadrar as tribos urbanas, os estudantes de uma determinada área ou a torcida de um time qualquer. Passo pela Liberdade nos domingos e ela está repleta de otakus. Ao que me consta, nenhum deles está lá porque é obrigado, mas porque lhes é agradável se vestir de desenho animado e ocupar a praça com suas fantasias e palavrões. Por outro lado, há grupos que são enquadrados em uma determinada categoria por força de uma disposição cultural dominante. Sabemos da pluralidade social, mas sabemos também que há uma espécie de padrão universal, uma cultura hegemônica, onde um grupo ideal se encaixa melhor que os outros, e cria-se uma noção de “lado de fora”. São assim as minorias, como negros, gays, indígenas, portadores de necessidades especiais e tantos outros, incluindo mulheres – que não são poucas, mas sucumbem na normatividade. Essa diferenciação visa delinear bem quem tem a régua na mão para medir e quem está sobre a mesa para ser medido. É por isso que eu disse que o espaço público não é um quadro elegante na parede, mas uma cena em constante tensão, até mesmo porque ele não é estático, e seu grande movimento se dá pelas manifestações, que, em ambiente democrático, são os designadores de existência dos grupos que o compõe. É nesse sentido que chamamos essas manifestações de falas, o meio primordial da nossa linguagem, tão característica do ser humano. Estas falas não partem uniformemente, mas de acordo com a maneira como os diferentes grupos são formatados, eles mesmos um lugar neste espaço público que mescla área física e virtualidade. Daí, o tal lugar de fala, quase um sinônimo de ponto de vista de um grupo.

Há inúmeros lugares de fala em uma sociedade, tantos quantos houverem nichos em que se possa enquadrar um determinado fragmento de população, e cada um deles tem um discurso específico sobre o espaço público como um todo, sobre o modo como cada aspecto da vida comum transita nele e sobre os demais lugares de fala. A cultura dominante, por exemplo, tende a ter uma fala mais conservadora, evidentemente porque não quer que as relações mudem, com grande gradatividade nas eventuais transformações. Obviamente, o espaço público já é moldado de forma a lhes favorecer. Já agrupamentos destacados do padrão tem lugar de fala mais contundente, mais urgente. Um negro, uma mulher, um gay, um ateu, todos eles, que são externos à normatividade do consenso geral, a partir do seu lugar de fala, também se manifestam da maneira com a qual seu papel na teia social lhe provoca maior ou menor sofrimento, que não pode esperar a vida inteira e mais seis meses para ser ao menos atenuado. Vejam que o lugar de fala tem seus delimitadores muito borrados, especialmente porque acabam se interseccionando: uma mulher negra, para dar um exemplo, pode ter sua visão pontuada a partir de três ângulos – o do gênero feminino, o da população negra e aquele que é a mistura dos dois, que tem algum grau de especificidade com relação aos demais.

Vou engendrar um exemplo meio simplista para tentar deixar um pouco mais evidente a coisa, misturando realidade e ficção pedagógica. Eu moro no 5º e último andar de um daqueles predinhos antigos do centro de São Paulo, o que, obviamente, não constitui uma cobertura, mas um andar como os outros. Apesar disso, com relação aos apartamentos de outros andares, tenho certos privilégios. Por exemplo, há a laje superior onde posso estender minhas roupas, algo que somente eu e mais três unidades podemos fazer. Os demais apartamentos têm apenas seus pequenos cubículos apelidados de lavanderia para fazê-lo. O elevador sempre demanda maior esforço para me transportar, porque é para o meu andar que ele percorre a distância mais longa. O mesmo se aplica ao recolhimento do lixo pelo zelador. Mas é pela varanda que dá vista para a região do Parque Dom Pedro que a regalia é mais notável. Do meu balcão, vejo uma boa parte da Várzea do Carmo, dos viadutos da Rangel Pestana, do magnífico edifício da Escola Fazendária, de todo o conjunto de sobradões da Rua do Carmo e mesmo de uma fatia do Brás. Os apartamentos do quarto andar ainda conseguem enxergar os sobradões e a escola, mas já a partir da janela da dona Madalena, no terceiro, tudo o que se vê é o paredão cinza de uma quadra de futsal. A família de peruanos do primeiro andar tem o agravante da barulheira matinal da padaria do térreo, e suas paredes externas são todas pichadas, o que indica também o risco do roubo. Consequentemente, a vista do meu apartamento é boa, mas ofusca um item fundamental: a dificuldade que tenho em ver os demais apartamentos do próprio prédio. Se eu debruçar perigosamente na mureta, verei apenas a varanda de uma unidade do quarto andar, e mais nada. Os demais andares também não me veem, mas me sentem – a poeira dos meus tapetes, a água de limpeza dos meus vitrôs, o salto alto da patroa e o frenético sapateado do Homem-Cueca, fenômenos causados por mim, mas que não são absorvidos por mim. Os outros andares sabem que eu existo, o que só fico sabendo quando os mesmos reclamam. Quando cada um de nós se manifesta acerca do horizonte, o faz a partir de um determinado lugar. Eu diria que é belo, ou ao menos interessante, que há construções antigas, que há noção de progresso, que está bom, enfim. A dona Madalena dirá que é sem graça, um grande muro cinza e nada mais. Já os peruanos dirão que é feio, todo rabiscado e ruidoso. Imaginemos o prédio visto de frente e vamos cognominá-lo de tecido social. Cada um dos andares é um lugar de fala, influenciado diretamente pelas condições materiais dos habitantes de cada um deles.

O lugar de fala de um grupo inclui aquilo que é manifestado a respeito dos demais grupos. Não se trata de uma mera opinião, mas de um ponto de vista que precisa ser conhecido, até mesmo para que os diferentes nichos sociais se compreendam mutuamente. Isso é o diálogo, pressuposto básico da democracia. Por isso, não existe essa coisa de dizer que determinado assunto não é o lugar de fala de uma pessoa pelo simples fato dela não pertencer ao grupo. Como bem notou a filósofa Djamila Ribeiro, há uma confusão muito frequente entre lugar de fala e representatividade. Eu, como homem, hetero, branco e gordo, não posso me considerar um representante do grupo feminino, homo ou negro, apenas dos gordos, e como gordo falar daquilo que me aflige como indivíduo: catracas mínimas, bancos espremidos, roupas raras e caras. Mas o fato de eu não ser mulher não tira meu ponto de vista sobre o feminismo. Do meu lugar de fala, há uma visão sobre mulheres, gays e negros, que podem e devem ser debatidos. Voltando ao prédio, meu lugar de fala é o quinto andar, mas minha opinião sobre os peruanos e dona Madalena pode passar pela empatia e reconhecer as suas aflições com o muro, ou simplesmente pode ser um “foda-se”. Saber disso é proveitoso para, pelo menos, que se saiba com quem se está lidando, já que o lugar de fala é, antes de qualquer coisa, uma predisposição ética. Lugar de fala não é lugar de silêncio. Lugar de silêncio é nas ditaduras.

Esse é o grande engano de Kefera. A partir do meu lugar de fala, eu tenho uma ideia formada que pode ou não coadunar com os representantes de outros lugares de fala, mas não há sentido em impor um limite que não existe. Apesar disso, não podemos simplesmente atacá-la, como muita gente tem feito. É preciso entender um pouquinho da sua carreira. Ela foi uma das primeiras pessoas a sacar o funcionamento do YouTube, plataforma de vídeos que remunera os produtores de conteúdo de acordo com a publicidade gerada por suas visualizações. Com um conteúdo voltado para o público jovem, dando opiniões e comentando sobre sua vida pessoal, arrebanhou uma multidão de fãs interessados em seu jeito despojado e, por vezes, controverso. Com isso, tornou-se uma das mais seguidas personalidades da internet. Veio diversificando cada vez mais suas atividades, com o lançamento de livros, atuação em novelas, filmes e peças teatrais, descolando-se de sua origem. Em busca de uma mudança da visão que se tem sobre ela, engajou-se na luta feminista, o que derivou no convite a um programa de televisão, onde rolou todo o fuzuê. É louvável que sua temática amadureça, que saia do mero entretenimento e é muito bom sua adesão à causa feminista, porque sua notoriedade carrega toda uma visibilidade de um público que lhe acompanhava de perto até então e que lhe ouve, além de lhe tirar uma certa impressão de futilidade (o que não é um mal em si). Só que parte de qualquer processo de maturação é feito de tropeços. Todos nós passamos por isso. A impressão que tive é aquela que acontece quando começamos um novo namoro, ou compramos um carro bacana, ou, como no caso, adquirimos um novo conhecimento. Queremos mostrá-los a todo mundo, repetir os conceitos como se pertencentes a uma seita hermética, da qual somos agora iniciados, em palavras que têm o efeito de um sortilégio, assim como fazemos com veículos e consortes. Chegará o tempo em que haverá uma compreensão melhor de como os conceitos traduzem ideias, que tem uma sequência lógica, e que são essas que importam, não valendo a pena despejá-los sobre nossos interlocutores apenas para dar uma pretensa impressão de que sabemos muito sobre o que estamos falando. Vejam vocês: uma das críticas mais contundentes que tenho visto a todo esse caso diz respeito exatamente às contradições de sua manifestação – menciona o manterrupting interrompendo a outra parte, e cita o lugar de fala esquecendo que ela mesma é bem sucedida, pertencente a um padrão estético bem aceito e muito bonita, um lugar de fala com vários privilégios. Sua opinião sobre outras lutas que não sejam o feminismo seria ilegítima? Ela fala pelas mulheres negras? Pelas mulheres trans? É preciso lembrar que, de seu lugar de fala, um sociólogo homem pode não só falar com propriedade de feminismo, bem como pagar um preço pela sua defesa a esses mesmos ideais. Afinal de contas, os preconceitos não são lançados só sobre um “público-alvo”, mas também a quem se engaja a eles. Sim, ele nunca será uma mulher, ele não REPRESENTA a mulher e não “sente na pele” o que significa sofrer pelo simples fato de ser mulher, mas ele pode, do lado de fora da representatividade, perceber coisas que a própria representante não enxerga. Eu não represento nem o primeiro, nem o terceiro andares, mas os peruanos e a dona Madalena talvez nem tenham ideia de como é ter a vista panorâmica do quinto andar, e justamente eu, sabedor de suas aflições, posso lutar pela queda do muro. Uma dominação carrega consigo sempre uma boa dose de alienação, e muitas vezes uma mulher concorda com atitudes que são contrárias a ela, reputando-as como naturais. Como funcionaria o lugar de fala impeditivo em uma circunstância desta? Toda fala é legítima quando se propõe a também ouvir. É o diálogo. É a democracia.

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Subsidiariamente, podemos também dar uma enriquecida no Pequeno Guia das Grandes Falácias, que, para quem não sabe, é uma coletânea de argumentos defeituosos que eu lancei neste recanto, alguns com foco direto, outros derivando de um tema principal, como é este caso. Quando Kefera introduz a temática do mansplaining e do manterrupting, ela já prejulga o seu interlocutor sem fazer qualquer análise do seu argumento. A impressão geral é a de que o rapaz em questão está errado antes mesmo de se avaliar seus argumentos. O mansplaining, por exemplo, se baseia no fato de que a sociedade aceita melhor as explicações de um homem sobre o feminismo do que as das próprias mulheres. Só que, para se detectar um mansplaining, é preciso que ele esteja constituído e que seja demonstrado por a mais b. Não é qualquer argumento sobre feminismo emitido por um homem que é mansplaining, e por este motivo é preciso interpretar o argumento antes de imputar erro. Esse tipo de falácia de dispersão chama-se bulverismo, derivado de um nome criado pelo professor e escritor norte-irlandês Clive Staples Lewis, mais conhecido como C. S. Lewis.

Como se pode perceber, o bulverismo é uma espécie de argumentum ad hominem circunstancial, na medida em que se deixa de analisar a proposição do argumentador para atacar o próprio argumentador, afirmando peremptoriamente seu erro em decorrência de sua condição. No caso, o fato de ser homem inviabiliza a correção daquilo que se diz, o que, evidentemente, não é boa técnica argumentativa, mas que gera engajamento.

Mas o que seria esse curioso nome? É que Lewis, em seu artigo denominado “Bulverismo ou os Fundamentos do pensamento do século XX” cria uma personagem fictícia, chamada Ezekiel Bulver, que tem uma espécie de epifania aos cinco anos de idade, quando ouve sua mãe refutar seu pai pelo gênero em uma questão de matemática. Essa técnica sofística, segundo Lewis, se espalha como praga por qualquer lugar em que se queira levantar uma discussão. Nesse sentido, ele tem razão. Nestes tempos difíceis, o bulverismo é prática comum mesmo em meios menos raivosos, porque é menos agressivo que um ataque pessoal, mas faz os mesmos estragos e com os mesmos mecanismos – a desqualificação do antagonista e o desvio do argumento principal. Se eu digo que sou contra a liberação das armas e alguém diz que sou covarde, isso é um ataque pessoal; se diz que socialistas não tem nada a dizer na liberação de armamentos, porque são contra liberdades individuais, é um bulverismo. Percebam que, em nenhum dos casos, há importância nas minhas razões. Em qualquer uma delas, as causas e os motivos antecipam as razões, que nem são analisadas, e que se prestam independentemente de quais forem essas últimas. Vejam o fenômeno:

Afirmação 1: Sou contra a venda de armas porque é perigoso para quem tem crianças pequenas em casa.
Ataque pessoal: Você é contra porque é covarde.
Bulverismo: Você é contra por ser socialista, que não tem nada a dizer por ser contra liberdades individuais.

Afirmação 2: Sou contra a venda de armas porque é o fator surpresa sempre está a favor de quem ataca, e não de quem se defende.
Ataque pessoal: Você é contra porque é covarde.
Bulverismo: Você é contra por ser socialista, que não tem nada a dizer por ser contra liberdades individuais.

Afirmação 3: Sou contra a venda de armas porque ela retroalimenta a violência.
Ataque pessoal: Você é contra porque é covarde.
Bulverismo: Você é contra por ser socialista, que não tem nada a dizer por ser contra liberdades individuais.

Afirmação 4: Sou contra a venda de armas porque favorece um lobby muito restrito de fabricantes.
Ataque pessoal: Você é contra porque é covarde.
Bulverismo: Você é contra por ser socialista, que não tem nada a dizer por ser contra liberdades individuais.

Notaram como a estrutura da resposta é sempre possível? Como a simplificação sempre se antecipa ao argumento a ser combatido? É desse jeito que ambos funcionam. E funcionam bem.

Recomendações:

Djamila Ribeiro é uma jovem ativista negra, polêmica porque lida com temas polêmicos. Sendo de esquerda, vai, a partir deste ano, para uma nova minoria. Mas sua obra citada abaixo é essencial para estabelecer bem o que é lugar de fala. Livro simples e de leitura rápida. Não deixem de lê-lo se quiserem se imiscuir em causas sociais.

RIBEIRO, Djamila. O que é Lugar de Fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.

O artigo de C. S. Lewis que fala sobre bulverismo está disponível na internet. É autor cujas ideias não estão entre as minhas favoritas, mas é célebre (principalmente por conta d’As Crônicas de Nárnia) e teve essa sacada argumentativa. Portanto, segue um endereço onde seu texto pode ser lido em português:

LEWIS, Clive S. Bulverismo, ou os Fundamentos do Pensamento do Século XX
Disponível em: http://ultimato.com.br/sites/cslewis/2014/05/30/bulverismo-ou-os-fundamentos-do-pensamento-do-seculo-xx/

E (por que não?), o canal no Youtube de Kefera Buchmann. Não sou inscrito em seu canal e não acompanho sua carreira artística, mas não posso cometer a injustiça de citá-la e não lhe dar crédito algum:

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – Epílogo

Olá!


Em todas as séries de viagens que desenvolvi neste espaço, sempre procurei intitulá-las com metáforas marítimas. Para quem gostou destes trilhos perdidos, convido a lê-las, porque tem basicamente o mesmo formato:


Claro que isso tudo se dá porque o oceano traz uma figuração sobre viagem, mas também nos lembra do mistério do desconhecido, das incertezas da partida, de uma certa melancolia de quem ruma sem saber exatamente por que e para que. Desta vez, no entanto, sem fugir de uma retórica que remeta às jornadas, variei de nomenclatura. Fui buscar uma temática ferroviária, que também tem seu encanto, já que os trilhos e o trem que some no horizonte são ferramentas poéticas que nos lembram de como nossos destinos são inevitáveis. Eu já fui jovem, sonhei como qualquer um e escrevi letras de música, achando que poderia impressionar as pessoas. Como eu digo na música Largo da Misericórdia...

“Ao léu, o trem que nunca vem
Sem ele, nada me arrasta
E, se não me arrasta, não tenho porque crer no destino
Só que eu estou aqui, no largo e ao largo
Esperando o trem chegar
Prá sempre de partida”

... com algo que vai entre o desencanto e o rancor. É claro que eu jogo com contradições, um instrumento lírico para dizer que a vida é um negócio louco e transitório. Não creio no destino, mas estou entregue a ele, coisas assim. Então é legal pensar no trem, que custa a chegar, que nem se sabe se vai chegar, se a estação vai acabar antes que ele chegue, que vem como uma miúda fumaça no horizonte, que passa por cima de qualquer coisa que cair em seus trilhos, que ao descarrilar sempre representa desgraça e que desaparece entre as montanhas, deixando para trás apenas o silêncio.

Apenas o silêncio? Não, deixa também a memória. E isso vai ajudar a explicar a inspiração para o nome da série. Estamos em uma região das Gerais repletas de recordações do universo ferroviário, no mais das vezes constituídas por antigas estações, ou o que restou delas, sem nenhum sinal de seus antigos trilhos. De fato, algumas destas estão bem preservadas e ganharam outra destinação, enquanto outras viraram apenas lembranças, especialmente naqueles que, de uma forma ou de outra, tiveram suas vidas ligadas à atividade. Para estes, os trilhos se perderam. Eu quero achá-los.


Eu mesmo não tenho grandes memórias ligadas às linhas férreas. Na cidade grande, o fundo da paisagem é composto por prédios, e não por trilhos que cortam vales. Pior ainda no metrô, um imenso tatu que cruza o subsolo de um lado para o outro, sem nenhum tipo de romantismo. Tirando a burla dos muros da linha para chegar à casa do falecido tio Chico, todas as minhas ligações com o trem são utilitárias: ir e voltar do serviço. Houve uma época em que eu saía de São Caetano do Sul, onde eu trabalhava, para ir até a Vila Prudente, onde eu estudava. Era possível fazer o percurso de ônibus, mas demorava a triplo do tempo que o trem levava para cumprir as duas estações necessárias. Então eu encarava a máquina de ferro no fundo do vale de sua existência. A década de 80 foi um período em que o trem da Santos-Jundiaí vivia sujo, roto, quebrado, barulhento. O consumo de drogas ainda era muito reprimido, mas os vagões era uma espécie de zona franca, um território livre para festinhas, e recendiam a bafo de pantera. Eu mesmo costumava acender meu inocente Marlboro, para deixar claro que meu cigarro era de baixos teores. Desse jeito, o máximo que poderia acontecer era ser tocado do vagão. Mas nunca aconteceu.

Ah, sim, lembrei de duas coisas bacanas relacionadas ao trem. Uma delas eu já contei aqui, que era quando meu avô me levava ao campo do Nacional, time cuja origem está intimamente ligada à ferrovia que lhe costeia. Hoje a linha é chamada de Rubi ou Diamante, nunca sei bem. Para nós, era simplesmente a linha da Lapa, e descíamos na estação Água Branca. Dali, eram cinco minutos até a Comendador Souza. A outra é muitíssimo remota e são só nuvenzinhas na minha cabeça. Trata-se da única vez que fui com meus pais para o norte do Paraná de trem. Se eu não me engano, a composição partia da Capital com destino a Ourinhos, na divisa. De lá, era preciso baldear para outro trem, da linha federal. Depois, em Londrina ou Maringá, o restante do trajeto era cumprido de ônibus.

Lembrei de mais uma. Quando eu era criança de uns sete ou oito anos, ganhei de Natal aquele que foi um dos presentes mais caros da minha vida: um Hit Train, antecessor do Ferrorama, caro para os padrões do operariado em geral, mas eu devo ter me comportado bem e meus pais acharam que deveriam gastar um pouco mais naquele ano. Era um brinquedo lindo, composto por um trenzinho que simulava uma máquina elétrica com seus respectivos vagões. O aparelhinho era a pilha, e deslizava por uma série de trilhos plásticos, com alavancas para desvio e reversão do movimento do trem. Eu costumava montá-lo por sobre minhas caixinhas de futebol de botão, para dar a sensação de via elevada. Também fazia as curvas passar pela beirada da mesa, de modo a dar sensação de perigo com o tombamento do trem. Numa dessas, a queda fez com que o compartimento das pilhas saltasse, e eu comecei a compreender que os remendos dos trens originais também eram reprodutíveis no mundo imaginário dos atrevidos petizes. Putz, era um brinquedo muito legal... Deveria tê-lo mantido até hoje.

Contei tudo isso para tentar responder à pergunta que tantos fazem: por que as ferrovias praticamente acabaram no Brasil? E por que elas trazem tantas boas lembranças para quem as vivenciou de perto?


É impressionante, mas é só o Brasil sendo o Brasil. Não tem certos absurdos que parecem acontecer só por aqui? Pois é, este é mais um. Em um país de dimensões continentais, é de se esperar que fossem construídos diversos ramais que, em certo momento, se interligassem. Acontece que as linhas foram construídas autonomamente, sem nenhum tipo de planejamento, e cada uma tinhas seus parâmetros próprios de construção. Em alguns casos, as plataformas das estações precisavam ser mais altas, dependendo do modelo de vagões adotados. Isso explica porque há estações com altura tão variável. É óbvio que a região em que estamos tem um certo padrão, porque estamos falando somente da RMV – Rede Mineira de Viação. Mas este não é o grande busílis.


A dor de cabeça maior diz respeito à questão das bitolas. Eu já falei sobre o caso em meu texto sobre Bananal, mas vou retomar rapidamente. Bitola é a largura entre as rodas de um trem, o que determina a distância do paralelismo entre os trilhos de uma linha. Digamos que uma máquina tenha bitola de um metro. Isso significa que os trilhos deverão obrigatoriamente estar separados nesta medida. Não é simples? Ocorre que nossos ímpares administradores costumam se preocupar muito com o universo que orbita seus umbigos e esquecem de por a cabeça para fora da toca, e nunca se planejou uma bitola padrão para as nossas linhas férreas. Já ouviu falar de um cara “bitolado”? Isso indica uma pessoa que pensa sempre da mesma maneira, por mais que se mostre que as coisas são diferentes. Os trens também são bitolados, só andam em trilhos com aquela largurinha específica que cismaram, por um motivo muito prosaico – são engenhos sólidos, construídos para serem como são. Não dá para alargá-los ou encolhê-los ao bel prazer do ínclito governante.


Isso quer dizer que um trem não pode passar de uma linha para outra, ficando escravo dos trilhos adequados ao seu tamanho. Isso fazia a atuação de uma composição ficar restrita ao seu próprio ramal, e, para atingir novos destinos, só com transferências: baldeação para passageiros, transbordo para cargas. Isso aumentava um bocado o tempo das viagens e multiplicava seus custos. Pensem, por exemplo, no pessoal e no espaço necessário para tirar todas as toneladas de grãos de uma composição e colocá-las em outra.



Não foi esse o único fator que levou à substituição no modelo de transporte, no entanto. Uma desgraça nunca vem sozinha e uma coisa puxa a outra. O principal motivo para a construção de ferrovias foi o transporte de produtos agrícolas, notadamente o café, tão dominante na primeira metade do século XX. Só que as coisas vêm e vão, e os cafeicultores experimentaram um grave declínio, refletindo na falta de atualização tecnológica das linhas. Com a chegada de Juscelino Kubitschek ao poder, e com a implantação de uma política desenvolvimentista baseada especialmente na chegada da indústria automobilística ao país, mudou-se a matriz de transportes tupiniquim. Afinal de contas, o princípio geral que norteava o governo era que não bastava crescer, era preciso crescer depressa, os tais “cinquenta anos em cinco”. Substituir ferrovias por estradas de rodagem tinha duas grandes vantagens para esse modelo. Por um lado, era muito mais rápido nivelar e asfaltar um terreno do que enchê-lo de dormentes e trilhos. Por outro, dava-se um incentivo e tanto às recém-chegadas montadoras, que venderam caminhões aos borbotões para substituir os antigos trens. Estava aberto o sepulcro da linha férrea.


Pensou-se a longo prazo? Não, né... Mas na Ilha de Vera Cruz costuma ser assim mesmo. Os trens eram realmente lentos, e uma viagem de longo curso era um suplício. Nesse sentido, os ônibus são ágeis, menos barulhentos e possuem mais flexibilidade, podendo mudar de trajeto ao sabor das circunstâncias. O mesmo se aplica aos caminhões para o transporte de cargas. E para se ter uma malha decente precisaríamos substituir quase tudo, padronizando bitolas, reerguendo estações obsoletas, modernizando o maquinário, atualizando os funcionários... As vantagens não apareceriam da noite para o dia, mas, na ponta do lápis, elas seriam grandes. Um trem carrega muito mais do que os maiores caminhões, com risco ínfimo de acidentes e perda de cargas, além do menor potencial poluente. Além disso, bons equipamentos garantem velocidade muito superior à das poéticas, porém ineficientes marias-fumaça. Peço desculpas aos amantes do velho vapor, mas o seu lugar é o museu. E as velhas estações merecem uma nova destinação, mesmo que não esteja relacionada ao seu antigo uso.


Na verdade, o que é mais digno de notar é como esse tipo de reminiscência nos toca a memória afetiva. Embora não tenhamos o costume da resistência, o fato é que há coisas que nos cutucam o fundo da alma, e deixamos elas ir embora. Resta apenas o que lembramos, e por isso estes artefatos são tão importantes. Só que a tal memória afetiva é marota. Vamos ver isso rapidinho.

Endel Tulving é um psicólogo canadense de origem estoniana que se especializou no estudo da memória. Antes da publicação de sua original abordagem, já se dizia de uma tipificação da memória, sendo uma de curto prazo e outra de longo. Na primeira, estariam os dados que usamos no nosso dia-a-dia e que logo são descartados, assim que perdem sua utilidade. Por exemplo, quando pegamos um jornal, damos uma passada rápida pelas manchetes. Aquelas notícias que não nos chamam a atenção são brevemente esquecidas, e damos atenção àquelas mais importantes. Isso acontece porque não nenhum proveito em reter as informações descartáveis, mas elas passam pela nossa memória, até mesmo porque são a porta de entrada para a memória de longo prazo, aquela que fica retida em nosso cérebro, e que são recordadas na medida em que se fazem necessárias, e estão intimamente ligadas à aprendizagem.

Para Tulving, essa divisão era insuficiente para explicar adequadamente o fenômeno mnemônico. No longo prazo, parecemos ter uma memória intimamente ligada ao conhecimento, e outra aos acontecimentos. Senão vejamos.


Eu posso pedir para vocês enumerarem quantas classes gramaticais conhecem. A lista começará – substantivo, pronome, verbo, artigo, etc. Pode ser que alguém lembre de todas, pode ser que se lembre de uma ou duas. Pode acontecer ainda que não se lembre de nenhuma, mas, a partir de uma dica, todas as classes venham enfileiradas. É um tipo de memória que é dividido internamente em categorias: diga uma cor, diga uma fruta, diga um nome. Essas memórias, portanto, tem uma carga de significados que permite traduzir conhecimento. Por este motivo, é chamada de memória semântica.

Mas, e se agora eu perguntar QUANDO ou ONDE vocês aprenderam o que são as classes gramaticais? Pode ter sido na escola, em casa, na biblioteca. Pode ter sido com professores, com os pais ou com os livros. O fato é que dificilmente alguém se recordará disso. Com perdão aos professores (ou a quem tiver ensinado), os itens da memória semântica não fazem distinção habitual do meio com o qual são absorvidos. Aprender uma classe gramatical não é um acontecimento, apenas um ato cognitivo.

Mas não lembramos de um monte de fatos que acontecem em nossas vidas? Sim, claro. E isso é função de outro tipo de memória, muito mais pessoal que a semântica. É a parte emotiva de nossas lembranças, onde o contexto geral dos acontecimentos é imprescindível para a sua compreensão. É o que se chama de memória episódica, ligada aos eventos de nossas vidas. E como é feito o resgate dessas informações pela memória?

Parece que possuímos uma espécie de indexador que ajuda a consciência a recuperar a informação armazenada na memória de longo prazo. Mas enquanto o indexador da memória semântica é a categoria temática onde encaixamos o conhecimento, e que funciona por semelhança, na memória episódica o índice é composto pelo tempo. Quando recordamos de um evento qualquer, todo um conjunto de circunstâncias é carregado junto, para que se possa remontar o contexto com o qual ocorreram. Dessa forma, é possível que se desça a um nível de detalhe muito maior na memória episódica do que na semântica. Pense no primeiro beijo: talvez você lembre até a roupa que você vestia, o que certamente não ocorrerá se você tentar resgatar o que lhe rodeava quando você aprendeu o que é advérbio. Então o índice “primeiro beijo” vai te levar de volta no tempo, fazendo com que você reviva mentalmente o evento.


É exatamente o que acontece com a memória afetiva do pessoal que viveu sob a sombra das estações ferroviárias e das fumaças das locomotivas, que, nos casos das cidades pequenas, acabam por se tornar mais relevantes. Esses objetos são índices que lhe trazem um conjunto completo de recordações, como a partida de um filho para a cidade grande, um pedido de casamento feito em um de seus vagões, o apito que parecia mais triste no dia em que a avó morreu, ou o simples ruído da descarga do primeiro trem que partia no dia, um pouco mais tarde do galo cantar e que acompanhava o cheirinho de café coado na hora. Dessa forma, a memória afetiva, aquela que nos toca, é consequência da memória episódica.


E por que a memória afetiva é matreira? É que, embora a memória episódica traga uma informação de contexto muito mais detalhada que a semântica, nem todos os seus componentes são resgatados em um mesmo nível. Em outras palavras, as informações não são todas disponibilizadas para a consciência com a mesma vivacidade. Isso significa que a memória afetiva tende a ser distorcida, com ênfase em seus componentes centrais e desvanecimento dos elementos periféricos. Exemplificando, posso pensar que o cheiro do café da minha infância era o melhor do mundo, porque estava acompanhado de um monte de outras coisas que me felicitavam, de eventos positivos. Se eu tomar o café hoje em dia, poderei ter duas reações: decepção em perceber o quanto ele é igual aos outros, ou entrar em um processo de negação, exatamente aquele que diz como as coisas eram boas “naqueles tempos”, e que hoje não valem nada.

Não é verdade. Lembramos com carinho do tempo das marias-fumaça, mas não há sentido em achar que elas eram melhores que os atuais metrôs, mais rápidos, mais seguros, menos poluentes. E mesmo que a usássemos hoje, sentiríamos desconforto em lembrar o quanto eram barulhentas, pesadonas, incômodas. Não que isso seja um mal, mas tudo tem seu tempo certo, e o lugar das memórias e lá mesmo: nas memórias. Por isso, é preciso tomar um pouco de cuidado para não deixar que um saudosismo nos absorva, especialmente quando a nossa vida se encaminha mais para a memória do que para a vivência. Eu, por minha parte, sei de um monte de coisas que não são exatamente como as recordo, e procuro meter o pé na pedra e na lama, vivendo o hoje da melhor maneira possível, porque lembro de tanta coisa que eu sei que não vai voltar, e que, se voltasse, não seria como antes. Bons ventos a todos e até a próxima romaria!!!


Recomendação diversas:

Só em inglês ou nos compêndios de Psicologia. Este aqui está disponível no Google Books:

TULVING, Endel. Elements of Episodic Memory. Gloucestershire: Clarendon, 1983.

Uma belíssima pedida é o site mantido pelo Ralph Mennucci Giesbrecht, que vem pesquisando a tempos sobre as linhas férreas deste Brasilzão de meu Deus, incluindo muita coisa que já desapareceu quase que por completo dos anais de nossa história. Ele tem livros disponíveis para vender, que, assim que o parco orçamento permitir, pretendo comprar. Segue o endereço:


E, claro, todas as cidades deste pléripo, todas a distância razoavelmente pouca da Terra da Garoa. Recomendo fortemente para todos aqueles que gostam de um cheiro do mato sem se descolar da história. A quilometragem corresponde ao melhor trajeto de carro possível, na minha humílima opinião.

Maria da Fé – 288 Km
Cristina – 299 Km
Marmelópolis – 255 Km
Delfim Moreira – 234 Km
Piranguinho – 257 Km
Brazópolis – 242 Km
Wenceslau Braz – 249 Km
Itajubá – 262 Km

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – 8ª estação: Itajubá e os riscos de que a pós-verdade nos leve a verdade nenhuma

Olá!


Desde 2014 tenho feito relatos de viagens onde conto o que tive de inspiração filosófica em cada lugar por onde passei. Este é exatamente o espírito que permeia este espaço: concatenar dia-a-dia e filosofia, conforme grito de guerra que consta no banner de entrada. No entanto, pela primeira vez fiquei hospedado em uma cidade que eu não pretendia visitar. A razão foi estratégica. Itajubá fica no centro geográfico da área que tencionava alcançar, uma espécie de núcleo de uma rosa dos ventos, a partir do qual me despachei ao norte (Maria da Fé e Cristina), ao leste (Delfim Moreira e Marmelópolis), ao sul (Wenceslau Braz) e a oeste (Piranguinho e Brazópolis), grosso modo. Se não chovesse tanto, teria ido também a outros lugares, como Pedralva e Conceição dos Ouros, mas vai ficar para uma próxima, faz parte. Então achei por bem incluir Itajubá no próprio epílogo da série, sem um texto próprio que lhe contemplasse. No final das contas, repensei e resolvi não proceder assim, por dois motivos fundamentais: pela própria instabilidade climática, não usei Itajubá só como dormitório, e fui conhecer bastante coisa; e, por fim e por isso, soltei por lá minha coruja de Minerva. Então taí, vamos falar sobre Itajubá, a cidade cujo nome significa algo como “cascata” em tupi.


Como eu bem já disse, os primeiros dias desta aventura foram intensamente chuvosos, com poucos momentos de estio. Poderemos observar como o tempo mantinha o seu cenho carregado mesmo durante essas oportunidades. Em uma delas, fui conhecer o Santuário de Nossa Senhora da Agonia, curiosa igreja modernista, que tem um ligeiro aspecto de cápsula espacial.


Do alto do morro de onde o santuário pontua, que já fica quase escapando da zona urbana, é possível observar uma boa parte da região norte, e se ter a exata noção do quanto é maior que as outras cidades do pedaço. A neblina do momento dava uma bela recobrida nos outros montes ao redor.


Trata-se de uma igreja nova, da década de 1990. Adotou esse nome por exigência do doador do imenso terreno, um português que, inclusive, mandou esculpir a imagem que guarnece seu interior, com seu respectivo oratório.


O preponderante azul remete à tradição que atribui essa cor ao manto de sua padroeira. Há uma passagem no Apocalipse, livro bíblico que prevê o fim dos tempos, que menciona um grande sinal no céu – uma mulher revestida pelo sol e com a lua aos seus pés e doze estrelas ao seu redor, algo assim. Esse azul remete exatamente à cor do céu onde essa mulher está investida, e que seria Maria, a mãe de Jesus.


Apesar da aura contemporânea, todo o mobiliário possui um contrastante estilo rebuscado, cheio de chanfros, volutas e baixos-relevos, como é costumeiro acontecer na movelaria e na decoração das igrejas barrocas. Não consegui me informar se estes artigos foram transferidos de outro templo ou se foram preparados especialmente para cá. Talvez seja mesmo intencional.


O que há de mais impressionante neste santuário é o seu teto translúcido, de onde pende um enorme crucifixo, que, desta forma, se desloca de sua habitual posição próxima ao altar e vai para o centro da nave. O domo central, visto de dentro, tem o notável aspecto de um olho azul (se é mais um elemento para lembrar a tradição mencionada ou se é um eurocentrismo, não sei dizer).


No aspecto espiritual, a cidade não fica limitada aos traços inovadores do santuário. De construção bem mais antiga, a igreja matriz é dedicada a Nossa Senhora da Soledade. Foi reconstruída diversas vezes, a cada uma delas dando alguma alterada no seu aspecto. É bem mais central e construída toda em arcos para sustentar seus domos.


Itajubá, assim como tantas outras cidades que faziam parte da rota ou estavam próximas à Estrada Real, era terra de tropeiros, o que faz pressupor a existência de um mercado. Ele existe e fica bem próximo ao rio que atravessa o município, o Sapucaí. Apesar do aspecto meio largado, tem bastante coisa dentro e em suas redondezas.


Como sói acontecer, estes mercados municipais distribuem a granel produtos que são adquiridos por atacado diretamente dos produtores, o que lhes costuma enriquecer a variedade. Comprados a retalho, principalmente grãos, geralmente não são caros, o que atrai muita gente para sua aquisição.


Porém, como também acontece com seu xará paulistano, há um processo de gourmetização que encarece um bom tanto os produtos, apesar do aspecto mais refinado e menos de feira livre, o caos que dá charme. No entanto, há que se considerar o bom nível da mercadoria oferecida, como no caso dos queijos e cachaças.


Nem só de feijão e pinga o homem viverá, mas de toda junk food que provém das fritadeiras de Deus. Encontrei muita coisa boa de se comer na noite itajubense, algumas com um toque mineiro, outras absolutamente cosmopolitas, como este imponente hambúrguer de costela guarnecido de batatas rústicas...


... ou este inesperado coxinhaburguer, uma novidade da qual já havia ouvido falar, mas nunca tinha testemunhado. Haja chá de boldo. Não há monetização, minhas recomendações ficam por conta da excelência das guloseimas.


A noite em Itajubá, aliás, foi o instante em que pudemos apreciar um pouco das construções mais antigas do centro. Durante o dia, a cidade é tão agitada quanto se pode esperar de um local com quase cem mil habitantes, e o torvelinho maluco de gentes e carros não nos permite olhar os prédios com a merecida acurácia. Temos, por exemplo, a casa de Wenceslau Braz.


O emérito e já extenuantemente mencionado presidente mais uma vez é homenageado, não só pela manutenção do casarão, mas outrossim pelo busto erguido na praça que toma emprestado o seu nome.


A praça não é praça na acepção da palavra, mas, de fato, um alargamento do calçamento à frente da outrora residência do distinto ex-presidente. Por esta razão, ainda podemos tomar a fresca em um chafariz que foi construído no mesmo polígono.


O polo gastronômico desta terra fica na Praça Theodomiro Carneiro Santiago, um lugarzinho muito agradável, que tem chafariz com fachos de luzes coloridas e uma espécie de parlatório. No mesmo trecho, está a sede do clube Itajubense, onde vi algumas crianças que acorriam pressurosas para a aula de alguma arte marcial, já paramentadas por seus quimonos. O referenciado da vez foi um filho ilustre local, político e advogado.


Também aqui, maior cidade das cercanias, o trem passava. A antiga estação de trem tem um duplo uso atualmente: ladeia a rodoviária e acomoda uma biblioteca, além de servir informalmente como chaveirinho de Cracolândia, porque este tipo de modernidade também chegou a estas paragens. Para quem é vizinho da rival paulistana, nada que cause susto.


O que eu achei de mais curioso é o antigo postinho de gasolina da Sociedade de Motoristas de Itajubá. Muito diferente dos atuais estabelecimentos grandiloquentes, era uma pequena cabine com uma única bomba, pelo que deduzi, e ficava no próprio leito carroçável da via. Outras épocas, outros usos. O minúsculo imóvel é tombado pelo patrimônio histórico municipal e eu adoraria vê-lo em pleno funcionamento.


O que não pode deixar de ser dito sobre Itajubá é a quantidade de universidades lá instaladas, o que faz dela um dos mais importantes centros universitários do Brasil, uma autêntica terra de estudantes. Aqui existem instituições como a FEPI, a Universitas, a Escola de Enfermagem Wenceslau Braz (ele de novo), a Faculdade de Medicina de Itajubá, a FACESM e, especialmente, a UNIFEI – Universidade Federal de Itajubá, que reúne alunos oriundos de todas as partes do país. A grande musa desta última é a Engenharia.


Há um prédio tombado pelo patrimônio histórico no centro da cidade, perto da matriz, todo com iluminação saindo do chão, e um campus enorme perto da igreja da Agonia, sem contar uma usina hidrelétrica que lhe serve para pesquisa e aula. São cerca de 80 laboratórios disponibilizados para seus mais de 6000 alunos.


Passando ao lado dessa entrada da foto acima, tive um insight triste e devo ter feito cara de Gabriel Jesus. Reduzi a velocidade para ver melhor e a patroa me olhou desconfiada. Acabei falando: “Que pena que este tipo de instituição esteja tão desprezado nos dias de hoje”, algo assim. Ela me redarguiu, recordando velhacamente de minhas próprias observações: “Mas não foi você mesmo que disse que hoje todo mundo só quer dar emprego mediante apresentação de diplomas, mesmo para cargos com pouca exigência?”. Sim, eu disse isso, mais de uma vez. Mas o “diplomismo” ao qual eu me referia, na verdade, é um sintoma da doença do desprezo. Embora já tenha tocado no assunto neste post, eu preciso voltar ao assunto. É muito preocupante a falta de compreensão do papel de uma universidade no Brasil. Vou insistir no tema, até morrer (eu ou minha paciência para martelar).

Olhando aquela imensidão de universidade, dou uma rápida repassada na vida e me angustio de não ter ingressado na vida acadêmica mais jovem. Afinal de contas, é uma questão de tempo. Por mais que eu me dedique a partir deste exato momento ao estudo e à produção de conhecimento, o fato é que muita água já escoou por este ralo. “Ora, foda-se”, é minha tendência em me auto-responder. Isso é só uma idealização, há um mundo concreto ao qual todos nós somos submetidos. Respiro fundo e concluo que meu interlocutor imaginário tem razão e sigo minha rota sem depressão, pensando mais na janta do que naquilo que poderia ter sido e não foi, sem tangos argentinos (Bandeira mode on).

Não entrei na faculdade uma vez só. Quando eu tinha meus 18 anos, aproveitando a conveniência do emprego exercido, pus-me a estudar para o vestibular de Ciências Contábeis. Eram outras épocas, e mesmo para ingressar em uma faculdade particular o funil era estreito. Sim, jovens de hoje, a oferta de vagas era pouca até mesmo para quem se propunha a pagar. Eu trabalhava, e o que ganhava era suficiente para bancar escola e livros, ainda que na base do aperreio. O curso tinha duas partes realmente bastante distintas: uma eminentemente técnica, que explicava a mecânica dos movimentos contábeis, o método das partidas dobradas (base do sistema criado pelo frade Luca Pacioli), as montagens das demonstrações financeiras e os controles patrimoniais. A outra era aquela mais voltada para o analítico: o que as contabilizações representavam para cada uma das áreas de atividades, a estruturação e análise dos balanços, as perícias, auditorias e controladorias, as estratégias e planejamentos extraídos do estudo das contas. Foi nesse âmbito que me defrontei pela primeira vez com um conceito que persegue todos os estudantes: as fontes. Não basta dizer que a contabilidade é isso ou aquilo, mas referenciar quem o disse. Se a declaração for de sua lavra, já aí é preciso fornecer todos os elementos que lhe fizeram chegar a tal conclusão.

A segunda vez que eu fui à faculdade também se deu na esfera do pragmatismo. Fui retomar a carreira de informata em um curso de Processamento de Dados. Como era uma cadeira de Tecnologia, o desenvolvimento era flagrantemente prático, como tem que ser mesmo. Neste caso, dificilmente você fugirá da técnica. Não vai formar opiniões, mas aprender a utilizar ferramentas e desenvolver artefatos. A questão da origem das informações estará um pouco mais distante e terá menos relevância. Percebam a sutileza: não há produção de conhecimentos, mas uso de técnicas. ESTA é a visão predominante sobre a função de uma universidade no Brasil, como se o grande propósito desta instituição fosse formar trabalhadores. Mas sigamos.

Ainda mais uma vez ingressei no ensino superior e, desta vez, atendendo critérios outros que não a utilidade de me aprofundar na área de trabalho, mas no gosto. É quando fui cursar Filosofia. Aqui, os métodos de produção de conhecimentos se afloraram com todo o vigor. Cada passo tinha a necessidade de se dar reporte à fonte que lhe deu origem, artigo a artigo. A expressão mais bem acabada se deu no meu TCC. Quando apresentei o projeto, foi recebido com as aprovações de estilo, o que era animador, e me foi nomeado um orientador, que ficou no aguardo da primeira entrega. Em cumprimento ao cronograma, entreguei o primeiro esboço cerca de uns quatro meses depois. A resposta parecia um autêntico varal de cortiço: observações de todos os tipos, tamanhos e cores. Se fosse só a questão das formatações da ABNT, tudo bem. É chato, mas é “só” uma formalidade facilmente sanável. O desespero se dava nas cobranças de fontes e exigências de melhores esclarecimentos. Um autêntico pandemônio que me levou à completa desolação. Na minha cabeça, eu nunca iria conseguir dar de comer ao tubarão que vivia na alma de meu malvado orientador. Explique melhor. Junte mais evidências. Dê o contexto histórico. Demonstre porque fulano e não sicrano. De onde você tirou isso? Cadê a fonte? Cadê a fonte? Cadê a fonte?

Juntei o que me restava de ânimo e entrei em contato com meu algoz. Ele me recebeu afável, dizendo que minha proposta era realmente instigante, e que a chance de ver meu trabalho publicado era batata. Mas, meu Deus, com tantas observações, tem certeza de que estamos falando o mesmo português? Ele me assegurou que meu trabalho estava muito bem estruturado, mas que existe uma diferença fundamental entre a dignidade de uma publicação e uma mera aprovação: a apreciação pelos pares. Pares... isso significa que eu era “um deles”, “igual a eles”. Eles quem? Dos entendidos, daqueles que compreendem a matéria que você trata.

Levantei os olhos e fiquei pensativo por infinitos dez segundos. Olhei novamente para o orientador e perguntei uma última vez: “É fato que meu trabalho está bem avançado? Você acha que eu consigo fechar algo decente?”. Sua resposta me deu uma bela injeção de ânimo: “Na maioria das vezes, esta primeira entrega é um mero rabisco. Você já passou um trabalho completo e delineado, que só precisa de alguns arremates. Se são muitos, é porque você já fez muito”. Com o ego insuflado até a ionosfera, mergulhei de cabeça pelos próximos vinte finais de semana, creio eu, até suprimir todos os defeitos encontrados pelo mestre. Inclui mapas e bandeiras, pesquisei em língua pátria e estrangeira, aprofundei vários detalhes que levaram a outros detalhes que pediam novos aprofundamentos, e a cada entrega o varal foi diminuindo, diminuindo, diminuindo... As últimas cuecas eram as meras formalidades que iam ficando para trás – capa, índices, abstracts, agradecimentos, um beijo pro papai, outro pra mamãe. No fim das contas, uma monografia impecável, um painel e uma banca bem superados e a oferta para a publicação. Estava suado, mas satisfeito.

É exatamente ESTA chatice toda que garante a qualidade de um trabalho de fôlego, digno de ser chamado de acadêmico. Milhares e milhares de estudantes e pesquisadores colocam seus trabalhos à prova não somente para cumprir suas obrigações formais, mas para registrar conhecimento submissível a refutações, com a obrigação de declarar seus métodos e de demonstrar, tim-tim por tim-tim, como foram realizados seus experimentos e pesquisas, para que possam ser reproduzidos a bel-prazer de quem queira avaliá-lo. Toda produção que utilize metodologia científica é trabalhosa, e visa aproximar-se o máximo possível de uma verdade objetiva, criando um mecanismo de fiscalização externo, que é composto pela revisão dos pares e pela reprodutibilidade das experiências.

Mas aí chega alguém que se diz mais sábio do que os outros e afirma que vacinas fazem mal, que as teorias heliocêntricas são fraudes, que o nazismo é de esquerda, que o aquecimento global é de araque, e tantas outras assertivas que não se baseiam na contraposição das teses acadêmicas e no combate com as mesmas armas, mas em teorias conspiratórias que trazem sempre os mesmos elementos: os cientistas mentem, os historiadores têm interesses, os acadêmicos querem ocultar a verdade. Por que será que isso acontece? Por que o ambiente de pesquisa é reduzido a um bando de malucos que olham para o céu que tentam adivinhar o que vai além dos sentidos? Essa é a desvalorização do ambiente universitário à qual eu me referia.

Nietszche nos oferece uma resposta, ainda que parcial, com a sua vontade de verdade, um impulso atribuído aos filósofos em conceder à verdade um valor absoluto. No entanto, o grande erro destes estaria em procurar esse valor de verdade em uma instância metafísica, como fazia Platão com seu Mundo das Ideias, e não na própria atividade criadora da humanidade. O propósito seria estabelecer uma verdade que hierarquizasse os princípios morais, como se estes não fossem criações humanas. Dessa forma, a verdade absoluta é uma invenção dos homens, e não uma possibilidade real.

A pós-verdade, termo em voga nestes dias, é uma versão extremada da limitação nietzschiana. A revolução representada pelo advento dos meios digitais e das redes sociais, disponibilizou tal quantidade de informações que se tornou absolutamente indiscernível quais são as boas e quais não são. Antes tínhamos as donas Xepas nas janelas a especular as atitudes das filhas danadinhas de suas vizinhas; hoje, há Facebook para descobrir seus gostos, Instagram para ver seus rolês e centenas de usuários de Whatsapp para multiplicar a fofoca. O princípio geral de dona Xepa era dizer maldades para dar um pouco de tempero à sua vida sem sal e sem banha, sem alho e sem óleo. Dentre os “amigos” das vizinhas, há muito mais propósitos, muito menos sondáveis, que podem atrapalhar, magoar, detonar reputações. A verdade ficou difícil por excesso de versões. O que temos, portanto, é uma imposição de formadores de opinião, que oferecem uma verdade pronta e facilita a vida de nossos preguiçosos cérebros. Só que, se a verdade não é possível, ela tem uma... digamos... qualidade.

O fato é que, por mais que concordemos com a precariedade da verdade, há riscos em não assumir um lado. Exemplificando, se colocarmos na balança e vermos que tem o mesmo peso o que um cientista e um astrólogo leigo fala sobre aquecimento global, podemos cair em um ponto sem volta no desequilíbrio ambiental. Não dá para achar que, sendo impossível cravar quem tem razão, achemos que está tudo bem. É preciso chamar a responsabilidade para si e levantar algumas bandeiras.

Então onde depositar a confiança? Eu parto de uma premissa básica. Pode ser que, um dia, eu tente fazer pão. Não tenho nem ideia de como começar, mas pode ser que, na base do “eu acho”, acerte uma receita magistral. Qual é a chance real de que meu pão seja melhor que o de um padeiro? Pouca, né? Por isso mesmo, tenho a tendência a acreditar mais em um cientista em matéria de Ciência ou em um historiador em matéria de História do que em um palpiteiro, que pode até estar certo, e os especialistas errados, mas o próprio filtro crítico dos métodos me apontará para o caminho oposto. Não perguntarei ao açougueiro sobre planetas, mas sobre facas, assim como não perguntarei sobre maminhas ao astrônomo, mas sobre telescópios. Simples assim.

Mas essa minha conduta não é padrão, pelo que tenho observado. E a culpa, no final das contas, vem em parte da própria Filosofia. Afinal de contas, é ela, desde a inatingibilidade do noumeno kantiano, que assegura ser a verdade algo relativo. Percebam que toda abordagem fenomenológica é feita a partir de uma consciência, ou seja, por menor que seja a diferença, sempre há uma alteração pela variação de quem adquire o fenômeno.

Mas há o senso comum, e como nos diz Nietzsche, o vulgo opera com certezas enquanto o filósofo produz questões e mais questões. Percebam bem. Seja através dos mais rigorosos meios científicos, seja pelo mais prosaico papo de boteco, o fato é que as ideias e os pensamentos fluirão para o mesmo destino: a linguagem. É sempre ela que é o meio e o destino final que as apreensões que fazemos do universo vão transitar dos nossos sentidos para as nossas manifestações. A Ciência (aqui compreendida todas as suas correntes – naturais, humanas, exatas) busca compreender os seres em sua profundidade, enquanto o senso comum busca apenas aquilo que é tangível. Uma bola, por exemplo, é um objeto esférico fabricada em material flexível, oco, que adquire essa forma por uma distribuição de pressão similar em seu interior, através da compressão dos gases que forçam as paredes dotadas de uma certa elasticidade levadas a um determinado limite que lhe fornece a dureza ideal, nem tão mole que lhe esmaeça os saltos, nem tão dura que fira seus usuários, que é utilizada de modo lúdico para entreter crianças e adultos com o proveito de ser essencialmente barato, e de agregar uma boa quantidade de gente, o que lhe dá dois estatutos: objeto de culto e catalisador social, além de ser um distintivo inequívoco de cultura. Isso tudo para os diversos aspectos científicos; ou é aquilo que chutamos para fazer um gol, de acordo com o conhecimento vulgar. Qual dessas descrições será compreendida por um número maior de pessoas? A da Ciência ou a do senso comum?

É por isso que as fake news, o grande estandarte da pós-verdade, funcionam tão bem. A cada vez que uma afirmação científica é contestada, os pesquisadores voltam a dar suas explicações complexas, enquanto o senso comum opera com a apreensão imediata: olhe para o horizonte e perceba como a terra é plana.  Isso vale principalmente para objetivos pragmáticos. Se eu estou insatisfeito com um político qualquer, espalhar uma notícia falsa sobre ele é eficiente, porque eu simplesmente reforço a crença de quem a lê. Verificar é muito mais difícil do que acreditar. E o senso comum acaba vencendo o senso crítico. Isso é perigoso: faz manés se passarem por gênios, faz com que amigos fraternos se tornem inimigos capitais, faz presidentes da república. Que medo...

É isto que esperamos que cidades como Itajubá ajudem a evitar, que o espírito universitário se mantenha como um propósito para os moços, que ainda creiam que podemos ir além do senso comum e que a “fé” no conhecimento cresça pela sua própria humildade em se reconhecer permanentemente incompleto. O contrário disso é o dogmatismo que temos assistido. (O que resta de) Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Como já falei aqui e ali, a obra de Nietzsche é uma verdadeira colcha de retalhos, e podemos ver em mais de um lugar suas considerações sobre a verdade. É no livro abaixo, no entanto, que nosso caro alemão aborda o tema com mais contundência. Vale ler.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005.