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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Dos dias em que o vento nos afasta do mar – 1º sopro: Pouso Alto e os eixos históricos da Estrada Real

Olá!

Não foram exatamente férias. Férias duram 30 dias. Foi mais uma quebra de rotina. Como eu tenho um banco de horas bem rechonchudo, pude queimar algumas delas em uma esticada entre dois finais de semana, vitaminados por um enforcamento de segunda-feira, todos eles devidamente descontados do meu patrimônio, porque não existe almoço grátis, como se diz por aí.

Como em outras vezes (Diário de bordo de uma nau sem rumo, Cartas náuticas para marinheiros de terra firme, O cesto da gávea de ondeobservo o mundo e Navegar é preciso viver) cometi um easy rider Nutella©, isto é, embarquei minha mochila no porta-malas do simbólico navio em forma de carro e saí sem destino certo, aproveitando o fato de que setembro não é mês de temporada.

Velas erguidas, e induzido por viagens anteriores, os ventos me afastaram da região litorânea e me levaram a uma região de Minas Gerais conhecida por Terras Altas da Mantiqueira, que se intersecciona com o Circuito das Águas Mineiro exatamente onde me encontro inicialmente. Este é o perímetro que decido palmilhar, começando pela cidade de Pouso Alto.



Sendo uma região próxima ao Parque do Itatiaia, onde impera o Pico das Agulhas Negras (ponto culminante do Sudeste), é natural que a cidade seja cercada de morros, colinas, outeiros e elevações outras. Em uma destas, ergueu-se a sede de um município bastante antigo para os padrões brasileiros, encabeçados por uma igreja em seu topo, hoje dedicada a Nossa Senhora da Conceição, formando uma paisagem cenográfica.



Um dos edifícios que se encontram no cenário é um antigo casarão colonial que, até onde consegui apurar, pertence ao judiciário local, e que se encontra em reforma, para o bem do patrimônio histórico.



Para além deste horizonte, e como eu já deixei subentendido, estamos em região pródiga em água mineral, e o município está em um miolo que é cercado por estâncias hidrominerais, sendo ele próprio agraciado por essa benesse natural. Além dos valores místicos atribuídos à água (há uma igreja cujo altar foi construído sobre a nascente de uma fonte), também é dado uso comercial para a mesma. A engarrafadora se encarrega de fornecer uma bica para habitantes e transeuntes coletar suas porções.



O comércio local, evidentemente, procura dar ênfase às coisas mineiras, tão bem conhecidas em todo o país. Uma delas é a cachaça, e um dos estabelecimentos à beira da estrada lançou mão de divertidos bonecos de bêbados para compor sua decoração exterior, alguns, enormes, o que torna impossível não ser perceptível sua presença.



Outro produto oferecido aos borbotões é o queijo, como jamais poderia deixar de ser. Queijos curados e frescos, de vários tipos, com destaque aos típicos da terra, que levam o nome do estado, já com a novidade dos temperados. Sou um pouco fresco purista nesse quesito. Prefiro-os puros, e, caso opte pelo tempero, faço-o eu mesmo.



Uma das novidades que encontrei por estas plagas, e não só aqui, é o tal de óleo de sucupira, que é apresentado como solução para problemas de artrose, diabetes e câncer. Como dão a ele o status de milagroso, já abro gigantescos parênteses automáticos em seus benefícios, já que produtos realmente eficientes não precisam de grandes panegíricos, bastando seus efeitos para lhes dar credibilidade. E há toda a questão do apelo à emoção que já cuidei neste texto. Leiam lá.



À parte disso tudo, Pouso Alto tem belezas naturais e aspectos históricos relevantes, sendo um dos locais por onde a nobreza imperial fazia estadia em suas viagens de e para o interior mais profundo de Minas Gerais. Não era, portanto, um mero lugar de parada para tropeiros, mas uma espécie de local mais bem estruturado para os viajores da Estrada Real.



Como já passei por várias cidades atravessadas por essa via em outras viagens, e como por agora também fui a várias outras na mesma condição, sempre me referindo a esse caminho histórico de modo superficial, é importante que eu contextualize minimamente seu surgimento, o que ela é e o que ela não é. Vamos lá, é o que farei agora.

Que o Brasil era colônia de Portugal todo mundo já sabe, e, nesse sentido, é explícito que, entre ambos, existisse uma relação de exploração. No entanto, a parte mais acessível do território brasileiro tinha recursos bastante limitados. O litoral rapidamente viu escassear o pau-brasil e se oferecia à produção de açúcar, que tinha rentabilidade insuficiente aos anseios da coroa portuguesa. A situação se agrava pelos dispêndios de guerra e da logística necessária à manutenção das colônias, o que faz com que o reinado incentive a interiorização da captação de riquezas tupiniquins. São organizadas as entradas, expedições constituídas pelo poder real para prospectar minerais preciosos em regiões longínquas da costa; e também são formadas as bandeiras, que tinham organização militar e patrocínio privado, que estabeleciam uma relação de troca com o governo real, de modo a cada um ficar com parte das riquezas eventualmente encontradas. A questão dos bandeirantes é muito significativa para ser tratada de passagem, e voltarei ao assunto com maior nível de detalhes em outro momento, bastando saber agora que sua maior contribuição foi no sentido de desenhar os caminhos do interior do Brasil, e que, no final das contas, conseguiu achar ouro e diamantes no que hoje é o estado de Minas Gerais, já lhe consignando explicação pelo nome.

Acontece que muitos dos minérios obtidos acabavam por não ser auferidos pelo poder público, “muqueados” que eram pelos espertos garimpeiros, e as quantidade declaradas eram ínfimas parcelas do que realmente era extraído, naquelas de “toma esse tanto para não me encher o saco”. Obviamente, o rei português não gostava nada, nada desse tipo de relacionamento, e estabeleceu uma série de medidas para facilitar a fiscalização dos produtos a serem tributados, como a obrigatoriedade de fundição do ouro em lingotes, sendo que qualquer quantidade circulante em forma bruta era imediatamente confiscada.

Mas a medida que nos interessa aqui foi a estipulação das rotas específicas que mercadorias e riquezas deveriam seguir. Todo minério extraído das minas somente poderia seguir aos portos de Paraty e Rio de Janeiro pelas estradas e caminhos onde pudesse ser monitorado pelas entidades fiscalizadoras. Todo esse caminho era demarcado por marcos de distância que possuíam o brasão do reino, e é exatamente ele que ficou conhecido como Estrada Real, que, mais tarde, foi aumentando sua extensão, seja para abarcar novas regiões auríferas, seja para dinamizar o fluxo advindo de outros locais.



Em suas margens, surgiram várias cidades nos hoje estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, quase todas com o mesmo propósito: dar pouso às tropas que traziam mercadorias do litoral e lhes levavam minérios preciosos, criando núcleos de povoação baseados no comércio e na produção agropecuários necessários ao seu sustento. Problema solucionado para a coroa portuguesa? Nem tanto. Apesar de dar ao governo metropolitano o direito de arrestar todo produto localizado fora das vias oficiais, o fato é que o negócio paralelo de ouro e diamantes nunca deixou de existir. Rotas menos conhecidas eram utilizadas, lançando mão da experiência dos índios, e plasmando a mesma lógica da Estrada Real, mas em ponto menor. Quando se vê algum lugarejo meio que perdido por essas mesmas redondezas, pode-se ter certeza que ele tinha a mesma função dos pousos de tropeiros “oficiais”, com a evidente discrição requerida. É por essa época que se cria o crime de descaminho, existente até hoje e facilmente confundido com o contrabando*, justamente pelo uso de caminhos alternativos aos oficiais.

Pois muito bem. Tudo isso posto, podemos colocar na mesa todo o glamour que foi atribuído à Estrada Real de uns tempos para cá. O seu distintivo virou uma espécie de selo heráldico que consigna as vantagens de se hospedar em algumas de suas magníficas fazendas, onde o visitante sentirá de perto o modus vivendi dos antigos proprietários de terras, cercado de uma aura de pureza e aventura somente alcançável no meio rural. Uma autêntica aproximação com o legítimo homem da terra e seus usos e costumes. Pelo menos é o que nos cantam as cigarras das agências de turismo.

Vamos fazer algumas enumerações. Pensem em luz elétrica e todas as suas derivações – TV, ar condicionado, ventilador, água quente, geladeira, carga de celular. Falando nisso, pensem no wi-fi. Pensem na água encanada, nos vasos sanitários e nos chuveiros. Pensem na dedetização, nos repelentes, nos anti-inflamatórios, nos aromatizadores e no fogão a gás. Pensem em todos os outros confortos disponíveis nas casas de fazenda coloniais e, se quiser fazer uma experiência legítima de resgate da vida do homem do campo na época dos reis e desbravadores, tire-os do caminho. Pode até parecer chatice, mas não. Vocês não terão nenhum tipo de aproximação com um ambiente sem luz, repleto de insetos e ameaças piores, como cobras e aranhas, quando não havia vacina para a febre amarela que deixou de ser um espectro, tudo como ocorria naqueles “bons” tempos. Talvez um rolê de cavalo, levando em conta que era o melhor transporte disponível à época.

Esse tipo de coisa é o que chamamos em Filosofia da História de anacronismo, e é um erro muito mais comum do que podemos supor, principalmente quando lembramos que a História é o estudo dos acontecimentos no decorrer dos tempos. Vamos tentar entender melhor esse conceito.

A palavra anacronismo vem do grego e, traduzida livremente, quer dizer “fora do tempo”. Seu uso mais comum indica que algo do passado é mantido em uso num tempo futuro. É o caso de alguém que insiste em utilizar um equipamento muito antigo, como um telefone de discar, ao invés de um aparelho sem fio; ou uma garota que uma meia lurex, típica dos anos 80.


Mas em História a coisa é um pouco diferente. Anacronismo significa utilizar termos e valores de uma época em outra, independentemente se no passado ou no futuro, fazendo existir um descompasso que prejudica uma correta análise dos fatos, já que os momentos dos fatos e os respectivos parâmetros da análise ficam em tempos não conformes.

O historiador francês Lucien Fébvre é uma das principais vozes que denunciou seu uso indevido até mesmo por outros historiadores. Fundador ao lado de Marc Bloch do movimento conhecido como Escola dos Annales (nome derivado da revista Annales d’Histoire Économique et Sociale), Fébvre lança mão de conceitos da linguística de Ferdinand Saussure (vejam aqui) para fundamentar sua teoria da História. Ele defende que a análise historiográfica não pode seguir os esquemas eminentemente práticos do Positivismo, que meramente descrevia os acontecimentos históricos como uma coletânea cronológica. Afinal, a História é formada por uma dicotomia composta de contexto e transformação, que precisam se articular em seus aspectos estáticos e dinâmicos.

Quando vamos analisar um determinado acontecimento passado, é preciso estabelecer o que precisamos colocar como elementos de compreensão. Quando o foco é no contexto, é necessário levar para a época dos fatos não somente o desenrolar em si, mas todo o conjunto circunstancial que o cerca. Nesse sentido, é de vital relevância que se estude todo o bojo cultural do povo que se busca retratar, afastando o quanto for possível os próprios conjuntos de valores, em uma lição aprendida da Antropologia, assim como características geográficas do palco dos eventos e seu desenvolvimento social. Esse eixo estático é chamado de sincronia, ou seja, os fatos que ocorrem ao mesmo tempo, e que concorrem para que tal coisa seja como ela é. Em uma palavra: contexto.

O outro plano onde se analisa a História é dinâmico, ou seja, opera na transformação. Aqui, observa-se como os fatos se sucedem e como uns dão causa aos outros. Aqui, a cronologia é bastante relevante, porque a linearidade é necessária para que se observe de onde uma situação partiu e para onde ela caminhou.  Isso é o que se conhece por diacronia, aquilo que se move no tempo. Mais uma vez, em uma palavra: transformação.

Só que é aí que vem a chave de ouro da História vista como disciplina verdadeiramente epistemológica. No prisma da diacronia, da mesma forma que no eixo sincrônico, também aqui o analista precisa trazer todo o patrimônio circunstante, com a diferença que também este deve girar, no mesmo compasso em que se estuda o foco principal, nem mais rápido, nem mais devagar. Esse estudo obriga o historiador a trabalhar em um tempo histórico mais longo do que aquele exigido pelo método mais pontual do Positivismo. Quando esses dois eixos não são corretamente respeitados, teremos a deficiência metodológica conhecida por anacronismo. Esse é o tal. Mas só com exemplos para entender bem o que é isso, ainda que de forma superficial. Vamos.

Uma das melhores maneiras de se desmerecer um adversário no debate é fazer um apelo à ridicularização (que será esmiuçado dentro do PequenoGuia das Grandes Falácias). Sabemos que os livros religiosos, bastante antigos, possuem muitos escorregões, sendo que, ao se falar especificamente do antigo testamento bíblico, vemos frequentemente a utilização do seguinte trecho, extraído do Levítico 11, 13-19:

“Entre as aves, eis as que tereis abominação e de cuja carne não comereis, porque é uma abominação: a águia, o falcão e o abutre, o milhafre e toda variedade de falcões, toda espécie de corvo, a avestruz, a andorinha, a gaivota e toda espécie de gavião, o mocho, a coruja e o íbis, o cisne, o pelicano, o alcatraz e a cegonha, toda variedade de garça, a poupa e o morcego[grifo meu].

Aí está. A última ave descrita é o morcego, que sabemos se tratar de um mamífero xenartro, cuja única coincidência que tem com uma ave é o fato de voar. Qual o erro do texto bíblico no caso? No contexto histórico, nenhum! O erro está no anacronismo de nossa interpretação. Nos tempos em que o autor redigiu esses vetos alimentares, a definição de “ave” era muito diferente da que temos hodiernamente. A classificação sistemática moderna dos seres vivos veio com a taxonomia de Carlos Lineu, que somente ocorreu no século XVIII, e que procurou aproximar os grupos e famílias por conjuntos de características. O fato de o morcego ter uma morfologia, base alimentar e embriologia distinta das aves o colocou no grupo dos mamíferos. A “classificação” bíblica, intuitiva e assistemática, faz a distinção baseada no fato de que o morcego voa. Bicho que voa é ave, portanto o morcego é ave, ainda que não tenha bico, ossos aerados, penas. De qualquer forma, não se pode aplicar a classificação moderna de seres vivos a um texto de mais de 3000 anos. O conhecimento era outro, as classificações possíveis eram outras, muito mais rudimentares. Gozar da cara de quem acredita na Bíblia por conta deste tipo de discrepância com o conhecimento atual é um exemplo de anacronismo.

Isso isenta textos antigos de inconvenientes históricos, que podem ser relativizados a qualquer julgamento sob o escudo do anacronismo? É claro que não. Se pegarmos do mesmo antigo testamento o trecho de 1º Samuel 15, 2-8...

"Assim fala o Senhor dos exércitos: Vou pedir contas a Amalec do que ele fez a Israel, opondo-se-lhe no caminho, quando saiu do Egito. Vai, pois, fere Amalec e vota ao interdito tudo o que lhe pertence, sem nada poupar: matarás homens e mulheres, crianças e meninos de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos. Saul comunicou isso ao povo e fez o seu recenseamento em Telaim: havia duzentos mil homens de Israel e dez mil de Judá. Saul avançou até a cidade de Amalec e pôs-se de emboscada no vale. Disse aos cineus: Retirai-vos, separai-vos dos amalecitas, não suceda que eu vos envolva com eles (no massacre), porque tratastes bem os israelitas quando saíram do Egito. E os cineus separaram-se dos amalecitas. Saul bateu os amalecitas desde Hévila até Sur, que está ao oriente do Egito. Tomou vivo Agag, rei de Amalec, e votou todo o povo ao interdito, passando-o ao fio da espada." – N. do A.: votar ao interdito significa, neste caso, eliminar, condenar à morte.

... veremos que se trata de um genocídio, sem tirar nem por. Mas como aplicar o termo “genocídio”, surgido apenas no século XX, por ocasião do holocausto judeu da Segunda Guerra Mundial, sem incorrer em um anacronismo? Pelo simples fato que tal conceito não está condicionado ao tempo. A ideia que o termo genocídio representa está ligada ao extermínio de toda uma etnia, todo um povo, como os amalecitas do exemplo, e isso não muda em decorrência da data do conceito; seu significado é aplicável sempre. Seria incabível colocar esta palavra na boca de um dos personagens da cena, mas não dizer que ali tenha ocorrido um genocídio, mesmo que não haja historicidade definitiva no relato. 

Veja como a coisa muda de figura quando analisamos o seguinte trecho, ainda bíblico para manter a coerência (extraído de Atos dos Apóstolos 2, 44-47):

"Os que receberam a sua palavra foram batizados. E naquele dia elevou-se a mais ou menos três mil o número dos adeptos. Perseveravam eles na doutrina dos apóstolos, na reunião em comum, na fração do pão e nas orações. De todos eles se apoderou o temor, pois pelos apóstolos foram feitos também muitos prodígios e milagres em Jerusalém e o temor estava em todos os corações. Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. Unidos de coração frequentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a caminho da salvação." 

Sempre haverá alguém que afirme que se tratar este trecho de um exemplo de marxismo existente no texto bíblico. Isso não é possível. O conceito “marxismo”, para ser aplicável, depende de que que seu uso seja feito a partir das ideais do filósofo e economista Karl Marx, o que somente é possível a partir de um eixo minimamente sincrônico, ou seja, do momento em que o polêmico alemão materializou suas ideias. Antes disso, não dá para dizer que ninguém era marxista porque o marxismo simplesmente não existia. Ele depende de sua posição no tempo, ao contrário do que ocorre com o termo genocídio. O máximo que se pode fazer é uma comparação, de modo a deixar claro que o marxismo contém elementos dos relatos sobre as comunidades cristãs originais, e não que as comunidades cristãs originais continham elementos do marxismo. Compreenderam?

É isso. Quem quiser conhecer a Estrada Real, incluindo a pequena municipalidade de Pouso Alto, tem que ter uma dimensão mais próxima do que ela foi na realidade. Sua beleza está no próprio testemunho que guarda de nossa história, sem necessidade de romanceamentos, filtros e máscaras. Ela é muito mais importante historicamente do que como um local de puro lazer, muito embora eu não tenha nada contra quem queira se divertir desabastecidamente de conhecimento. Mas esse sou eu, não consigo e nem quero me desvencilhar disso. Por estas trilhas não passaram só heróis, príncipes e bravos desbravadores. Pelo contrário – trafegar pela Estrada Real era, antes de tudo, um trabalho árduo, realizado por gente pobre e por índios e negros escravizados, sedes de crimes que iam além do aspecto fiscal e assassinatos, e às suas margens etnias indígenas inteiras foram dizimadas em nome do vil metal. Além disso, é preciso ressaltar que muito do que hoje conhecemos como “jeitinho brasileiro” era aplicado naquele tempo e naquele contexto, com as tentativas constantes de dar aplique nos regramentos então vigentes. Isso tudo é tão relevante de saber quanto as trilhas, as cachoeiras e as pousadas. 

Passar um fim de semana comendo broa com queijo no café da manhã é uma delícia, só não tem correspondência com a realidade passada, e é bom saber disso.

Recomendação de leitura:

Não é fácil encontrar livros de Fébvre fora das bibliotecas acadêmicas. Mesmo assim, todos que se interessam pelo assunto precisam conhecer a École des Annales e seus principais próceres. Com toda certeza voltarei a mencioná-los.

FÉBVRE, Lucien. Combates pela História. Queluz de Baixo: Presença, 1977


Mapa da Estrada Real disponível em: http://www.institutoestradareal.com.br/assets/materiais/mapa-ilustrativo-da-estrada-real.jpg


Trechos da Bíblia extraídos de:
https://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/

* Esta disciplina é regida pelo Artigo 334 do Código Penal. O descaminho ocorre quando é trazida do exterior mercadoria sem os devidos recolhimentos tributários. Já o contrabando acontece quando as mercadorias trazidas são proibidas no território nacional ou lesivas à saúde pública. Se são proibidas, evidentemente não são tributadas, já que nem mesmo deveriam estar no país. Em suma, somente temos contrabando no caso de armas ou drogas, por exemplo. Sim, é isso mesmo. O isqueirinho paraguaio que você comprou da sacoleira é objeto de descaminho, e não de contrabando. E receptá-lo é crime também, só para constar.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A Portuguesa e a tragédia grega posta em prática - Até quando há de brilhar a cruz dos teus brasões?

Olá!

Domingo passado, mais uma vez dei um pulinho no Canindé para acompanhar o calvário da Portuguesa, a mesmíssima Lusa que, apesar dos poucos títulos, tem a simpatia de ser uma espécie de Robin Hood dos paulistanos, sempre empedernindo as coisas para os grandes para depois tropeçar nos pequenos. Isso era nos bons tempos. Mas hoje, ora pois, convive com a segunda divisão do Campeonato Paulista e está fora das disputas nacionais, pela primeira vez em sua história. Quotidianamente, a sua vida é um abismo eterno, cujo fim parece sempre mais fundo.


Neste exato momento, a Portuguesa joga a Copa Paulista, espécie de campeonato tampão que serve para ocupar os times paulistas no segundo semestre, enquanto aguardam o desenrolar dos torneios nacionais. Serve mais para negócios do que propriamente para disputa: o prêmio do campeão é uma vaga na série D do Campeonato Brasileiro e a honra dúbia de um título considerado de segunda linha. Exceção feita ao Juventus, que lota seu pequeno estádio aos domingos pela manhã, é um festival exibido a poucas moscas, esta que vos fala inclusa. O que me leva? Já expliquei no texto acima citado, além do fato de que, com o preço do ingresso de um jogo do Corinthians, dá para assistir quase toda a tal Copa Paulista.

Dá dó de ver a fossa que a Portuguesa se enfiou. Ela está disputando esse desmerecido campeonato pela primeira vez em sua história, atrás da vaga perdida nas divisões nacionais. Sem demérito de ninguém, as semifinais da quarta divisão do Brasileiro foram disputadas por Operário/PR, Atlético/AC, Globo/RN e Juazeirense/BA, clubes que, somados, não tem um décimo da tradição rubro-verde. O clube está todo largado, embora o estádio em si mantenha sua dignidade à moda antiga. Lugar bom de ver jogo, daqueles escadões em que não há restrições nem para quem quer assistir compenetradamente a partida (como eu), nem para quem prefere ficar de pé, pulando e cantando. Um memorial, em suma.

Resolvi redigir este texto com dois propósitos: o de demonstrar a afinação entre Futebol e Filosofia, especialmente no plano estético; e tentar entender se esse destino é justo.

O que há para discutir de estético na atual situação da Portuguesa? Ora, ora, é óbvio... Nietzsche só usou o exemplo da tragédia grega porque não chegou a conhecer o clube do Canindé, por um lapso de meros vinte anos. Teria diante de si uma espécie de materialização da sua visão sem a necessidade de recorrer aos Apolos e Dionísios da vida, que deixaram de ser moda a mais de 2000 anos. E é esse o grande defeito que o bigodão mais famoso da Filosofia encontra no projeto socrático que seguiu ao modelo mitológico. Com o primado da razão, perdeu-se o vínculo com a própria vida. Vamos entender melhor essa coisa toda.

Diferentemente do que a cultura judaico-cristã preconiza com seu monoteísmo, os gregos antigos subordinavam todos os aspectos de sua realidade a diferentes divindades, cada uma delas com seus poderes e idiossincrasias próprios. Havia deuses para tudo: para a morte, para o amor, para os mares, para o comércio, para a justiça. Dois deles, Apolo e Dionísio, regiam princípios que influenciavam não somente a produção artística, mas, por reflexo, o modus vivendi de seus humílimos súditos. Apolo era o deus da harmonia, da forma, das medidas perfeitas, daquele que se sujeita a ficar horas e horas burilando um detalhezinho de uma escultura ou de um traço. Ele se afasta de seu objeto de criação para poder apreciá-lo de modo desapaixonado, sendo crítico de seu próprio trabalho. Tem liberdade para criar, mas sempre dentro de um escopo que lhe estabelece um determinado limite: a dimensão do quadro, o volume da pedra, a área do palco. É, por isso, melhor representado pela pintura, pela escultura e pelas artes cênicas. Já Dionísio é, em boa parte, o oposto de tudo isso. Ele não aceita os limites impostos por uma circunscrição, sendo, portanto, o deus da música, a arte que reconhece o improviso e que não tem um espaço para lhe fechar, já que transcende a própria orquestra – seu som se espalha pelo ambiente todo. Seu afastamento não se dá com relação ao objeto, mas de si próprio. Dionísio se projeta para além de si mesmo, é o deus da embriaguez, do derramamento e do delírio. Ao contrário de Apolo, ele não idealiza o mundo como em um sonho; prefere se atirar nele, viver a vida com tudo o que ela tem de bom e de ruim, já que o belo e a forma perfeita não lhe dizem respeito. Não há projeto para Dionísio. Não lhe faz sentido tê-lo. A vida é vida agora, e só agora.

A síntese possível entre ambos está na tragédia (leiam meus apontamentos já realizados sobre o tema neste texto), que reunia a arte cênica do teatro com a arte musical do coro. Para Nietzsche, a antiga filosofia de vida dos gregos plasmava os princípios apolíneos e dionisíacos da tragédia – eles idealizavam e realizavam, sonhavam e viviam, equilibravam a visão que tinham de si mesmos e do mundo que os rodeavam. Ao contrário do que nos habituamos – que a arte esteja circunscrita a locais próprios – a tragédia, para os gregos, é vivida na própria vida, ou seja, a arte está nos movimentos do dia-a-dia. Não temos em nossa cultura uma ideia de vida como obra de arte, muito embora eu me lembre muito bem das teatralizações dos diálogos de minha já morta mãe com a ainda viva dona Madalena, bem mais velha. Ao saírmos das reuniões mensais do Conseg* Liberdade, para reclamarmos da pouca segurança em nossas maltratadas ruas, a cena se repetia idêntica. Caminhávamos todos juntos, até mesmo para minimizar o risco da precitada segurança exígua, até que o tom de voz de ambas ia aumentando. De repente, lá estavam as duas para trás, gesticulando paradas contra o descaso do poder público, irritadíssimas. Esqueciam dos riscos ao redor e nem se tocavam de que já estavam afastadas do grupo principal, uns trinta passos atrás (cabe aqui um rápido aparte. As reuniões do Conseg ocorriam na última quarta-feira do mês, terminando às 21:30, aproximadamente. Quarta-feira é dia de futebol, o que aumentava minha pressa de chegar em casa, derrubando a tese que eu mesmo propalava de que era necessário ser rápido para evitar o ladrão). Podiam continuar andando e falando as mesmíssimas coisas, mas é o espírito dionisíaco florescente que fazia-as ficar cegadas. Não haveria um quinto da dimensão expressiva pretendida se não parassem para praguejar contra a falta de segurança que elas mesmas contribuíam, com aquela representação, a alimentar. Mas isso era uma eventualidade. Para o grego, que precisava ser artístico até na retórica que aplicava na ágora, o voto que damos aos políticos é uma espécie de mortalha do élan criativo.

Isso porque, com a ascensão de Sócrates e sua ponderação racional, o princípio dionisíaco foi sufocado. A vida do grego deixou de ser um derramamento no turbilhão dos acontecimentos para que se perguntasse passo a passo o que motivava suas ações, tudo muito bem pensado e baseado em um cuidado excessivo com o futuro, tornando algo como uma mera espera pela morte, sem dor, porém. Tudo isso foi reforçado mais tarde com o advento do Cristianismo e seu espírito apostólico, que levou à Grécia e ao mundo todo a doutrina do prêmio post mortem da vida eterna. Os percalços da existência terrena passaram a ser fardos a serem suportados, e não contingências que reescrevem histórias, e, com isso, Dionísio morreu definitivamente. O homem meramente apolíneo se caracteriza pela imposição de limites, que não consegue mais afastar-se de si mesmo para ir além de si mesmo, e fica plantado em sua cadeira de balanço e tricotando, enquanto conta os minutos para a chegada do fim.

De forma que, com relação à Portuguesa, a ideia de tragédia grega revive. Aqueles torcedores que formam o coro ao redor do campo não têm propriamente consciência disso, mas o eixo da tragédia da Lusa não está no fato de que, para frente, haja dias melhores, mas que haja dias. Então nada resta a não ser viver o hoje, a torcer hoje. O torcedor da Portuguesa xinga mais do que o normal por causa disso, porque sofre mais, porque tem o destino mais incerto, porque o juiz rouba mais, porque os dirigentes são ainda mais incompetentes, porque não há dinheiro e daqui a pouco não há mais estádio... É preciso vomitar o que te faz mal exatamente no momento da ânsia, porque ele é o único que seguramente ainda há.

Os times menores já se conformam com seu papel e, nos poucos torcedores sinceros, já repousa cristalizada a consciência de que seu lugar é aquele. Para os grandes, há a certeza de que, passe um ou dez anos, os títulos virão, e virão em abundância. O luso não tem certeza nenhuma, e, por isso mesmo, se entrega ao fluxo da vida, àquilo que ocorrer dentro do campo, o teatro apolíneo daquilo que ele se constitui em coro dionisíaco. Vivem a vida na tragédia do próprio time. Nietzsche se orgulharia dos verde-encarnados.

Agora, se tudo isso é justo ou injusto... Aí é mais difícil de estabelecer. Ou melhor, não é, não. Aproveitando o menosprezo nietzschiano pela racionalidade pura, digo que a torcida não merece o que está acontecendo naquele largado clube da várzea do rio Tietê. Nem vou entrar na esparrela barata e sentimental de dizer que o clube é dos torcedores. Não é. O clube é dos sócios, que podem sobreviver à existência do futebol, como aconteceu com o Atlético Ypiranga e o Guapira, que fecharam seus departamentos de futebol profissional e vão seguindo suas vidas. Mas o time sim, este existe não somente em função dos sócios, que, de resto, elegem os conselheiros que provocaram a derrocada, mas principalmente de seus torcedores. E, ao contrário do Juventus, que é o segundo time de muita gente, quem vai ao Canindé tem a Lusa como time de coração, ainda que sejam poucos. Há exceções, como eu, mas a imensa maioria dos que lá estão tem bandeirinhas penduradas na janela, tem chaveiros no bolso, tem o envelhecido retrato do dúbio título de 73 na parede, além de caçar infindamente roupinhas para seus bebês (tão fáceis de achar para outros times), todos eles com a cruz verde emoldurada pelo escudo vermelho, os mais jovens ladeados pelo leãozinho, os mais velhos pela saudosa Severa, a dançarina de vira que a representava (eu resgataria este símbolo imediatamente). São pessoas que amam o time a valer, sem ter um cartel extenso de títulos para esfregar na cara de ninguém. É a síntese do amor puro e desprovido de racionalidade. Já aqui encerro o debate, e tudo o mais que eu falar é irrelevante.

Mas o fato é que essa tragédia toda não surgiu do nada. Não vou repassar a história quase centenária do clube, bastando relembrar o fatídico Campeonato Brasileiro de 2013. Portuguesa, Flamengo e Fluminense chegam à última rodada do Brasileirão precisando cada um de seus determinados resultados para escapar do rebaixamento à série B. A Lusa depende só de si mesma, e obtém um suficiente empate com o Grêmio, e se safa, restando ao tricolor carioca o indigesto percalço.

Mas um fato novo foi detectado. Perto dos 30 minutos do segundo tempo do embate retro, o jogador Héverton foi mandado a campo pelo treinador rubro-verde. Este jogador, como foi dito depois, estava suspenso por duas partidas e não poderia jogar. Discutiu-se muito o aspecto da validade da comunicação feita pela CBF por e-mail, na sexta-feira anterior ao jogo, à noite, para o advogado luso; o aspecto esportivo dos resultados obtidos em campo e da pouca relevância que representou a entrada do jogador para os placares; os precedentes em que outras equipes tiveram as penalidades convertidas em multa; o histórico do beneficiado Fluminense que, mais de uma vez, teve seus rebaixamentos revertidos; mas a irregularidade estava cometida e o tribunal desportivo usou a letra dura da lei, abiscoitando quatro pontos da Fabulosa, um obtido pelo empate na partida e três de castigo, o suficiente para safar o Flu e arremessar a pobre Portuguesa ao inferno da segundona. Desde então, sem o dinheiro da televisão e bons contratos de patrocínio, a queda foi vertical. Em quatro anos, os lusitanos saíram da elite do futebol nacional para a periferia dos desesperados, que vendem o almoço para barganhar a janta.

Já disse que a torcida não merece o desgosto que vive. O clube em si também não, como instituição. A Portuguesa revelou uma infinidade de craques para o futebol tupiniquim (vejam este texto) e até mesmo já foi considerada um dos clássicos do estado. Sim, meninos e meninas fãs do esporte bretão. Portuguesa versus Corinthians-São Paulo-Santos-Palmeiras já foram jogos de cachorro grande, que valiam esse rótulo. Sem contar o clássico lusitano, na peleja contra o carioca Vasco da Gama. Sempre disputou as principais competições do Brasil e tinha jogadores indicados ao escrete canarinho, como provam Djalma Santos, Jair da Costa e Zé Maria, campeões mundiais jogando pela Portuguesa. É, por isso, relevante para o futebol.

Tentar entender a própria Portuguesa como culpada por seu amargo destino é esquecer que, como instituição, ela é neutra. É bem verdade que certas entidades são más em si mesmas, bastando pensar em associações racistas como a Ku Klux Klan ou órgãos terroristas, mas há gente que confunde uma instituição com as pessoas que as dirigem. Um bom exemplo é a recente onda de demonização do Estado, mas também ele é uma instituição neutra, sendo bom ou ruim dependendo do que se fizer dele. É claro que na ótica brasileira, com governos inchados e corruptos, as opiniões ficam obnubiladas, e essa galera aponta Estados de pouca interferência como exemplos de eficiência administrativa. Se vivêssemos na Escandinávia, talvez nossa visão sobre tamanho do Estado fosse outra. A Portuguesa, nesse sentido, é uma instituição quase neutra. Alíás, é uma entidade que tem um propósito bom. Seu nome completo, Associação Portuguesa de Desportos, denuncia que um grupo de pessoas de uma determinada colônia resolveu se reunir para praticar esportes. Só isso. O clube em si é só mais uma vítima.

Portanto, e mais uma vez, e obviamente, o problema está nas pessoas, que

  1. usam os regulamentos da forma que melhor convém a quem mais interessa;
  2. comandam outros clubes que poderiam se alinhar à causa da Lusinha. Pensem em Brasileirão sem os clubes paulistas;
  3. gerem iniquamente recursos que não lhe pertencem;
  4. estão cagando para quem não tem culpa, justamente os precitados clube e torcida.
Isso porque os dirigentes, sabendo (mas não aprendendo) o quanto a Portuguesa é feita sob medida para ser prejudicada, nunca a prepararam adequadamente para viver sua própria realidade com autonomia. Permitem que se vilipendie o clube, quando não o fazem eles próprios, e não se preocupam com uma dignidade mínima para o seu nome, com um lugar mínimo, que não deveria ser o atual, definitivamente. Mas que é onde se chegou. Por isso, mais do que uma estrutura injusta, que sempre vai privilegiar os clubes maiores, a culpa maior está no próprio corpo diretivo, que, no mínimo dos mínimos, sempre trabalhou com um horizonte irreal.

Vai bem a Lusinha na Copa Paulista. Ontem o jogo foi meio desinteressado, já que a mesma está classificada antecipadamente para a próxima fase, quando o torniquete será naturalmente apertado, e o adversário Taubaté já está matematicamente eliminado. Mas o time vai pegando coesão e entrosamento, mesmo com a repetição de certos erros, como a troca incessante de técnicos e jogadores, e a falta de um meia de ligação. O craque do time, Marcelinho Paraíba, tem 42 anos e nunca jogou nessa função. Seu futebol está visivelmente melhor do que no sonolento empate com o Nacional, no comecinho da competição. Principia lentamente a aparecer um esmaecidíssimo brilho naquilo que hoje vemos como sombras, uma vontade de potência que Nietzsche enxergou em todos os organismos vivos, mesmo que seja para dar o último respiro.

Recomendação de leitura:

Mais do que recomendável, o livro abaixo é uma das essências para compreender o pensamento nietzschiano, onde é explorada a composição dualística da cultura grega.

NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


* Os CONSEG’s – Conselhos de Segurança são agrupamentos comunitários em que são discutidas questões relacionadas à (oh!) segurança dos bairros. O ápice é a reunião mensal, onde são levadas as reivindicações aos diferentes órgãos afetados. Além das óbvias polícias, costumam estar presentes representantes da prefeitura, dos órgãos de trânsito, da guarda municipal, eventualmente dos bombeiros e outras entidades municipais e estaduais.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Sobre a bifurcação que leva ou que afasta da cientificidade [Pequeno guia das grande falácias – 37º tomo: o apelo à ignorância (argumentum ad ignorantiam)]

Olá!


Estava lá. Um pedaço de fita isolante na manopla do carrinho de feira, já se desprendendo e deixando os vãos dos dedos grudentos. Inicialmente, pensou-se em algum reparo à brasileira, o tal jeitinho – uma ferpa que machucasse, um parafuso meio solto, um material escorregadio, sei lá. O fato é que, uma vez extraída, todas essas teses foram derrubadas. A fita não deixou nenhum vestígio de seu propósito, a não ser mais e mais adesivo gosmento.

É incrível, mas isso gerou debate quente em casa. O mistério sherlockiano: quem colocou a fita no carrinho e para quê? Consenso geral: “eu não”. Passa-se a especular alternativas. Eu sugeri alguma molecagem do Saci. Reputaram-se outras hipóteses, como alienígenas, maldições ou milagres. Vai-se saber os desígnios de Deus... No final das contas, não se chegou a conclusão alguma, restando apenas uma aura de desconfiança entre todos na casa.


Será este um episódio que demonstra nossa sanha em achar um culpado para tudo? De certa forma sim, muito embora o motivo real deva ser uma besteira qualquer, e que não causou maiores danos. Mas a verdade é que somos, antes de tudo, seres curiosos. Sempre prontos a tentar dar explicações para tudo, não nos conformamos quando há algum buraco em nosso conhecimento, e facilmente preenchemo-lo com alguma explicação colhida do nada. É o princípio geral do Deus das Lacunas, falácia informal que já abordei nesta casa.

Só que nem toda tentativa de explicar fenômenos que não compreendemos bem pode cair nessa pecha. Toda hipótese científica nasce de uma especulação, que vai ganhando força na medida em que seus rumos vão obtendo comprovações.
Mas vamos com cuidado. Enquanto o Deus das Lacunas procura uma explicação de qualquer natureza para os lapsos do conhecimento, em especial de ordem divina ou mágica, outros métodos procuram a racionalização das questões, e, normalmente, este é o caminho que a Ciência segue. Como as metodologias de investigação científica são muito rigorosas, há uma tendência em se dar um bom nível de credibilidade aos seus corolários. Mas, como eu disse aqui, antes de ser Ciência, uma hipótese é Filosofia, ou seja, nasce da especulação amarrada pela lógica. Em outras palavras, um novo conhecimento nasce de uma ideia que alguém teve, antes de ser comprovado. É óbvio que, do meio de tantas investigações, brotem conclusões inesperadas, como o clássico caso do pesquisador de micro-ondas que descobriu, largando seu sanduíche em lugar errado, que estas servem para aquecer alimentos, mas mesmo aqui foi necessário pesquisa para descobrir o porquê e retirar o fato do campo claudicante dos milagres.

Aqui, temos um ponto de bifurcação perigoso. Podemos ir para o lado do método, que desenvolve uma hipótese até o ponto onde ela pode ser testada com os mecanismos atuais, e, daí para frente, restando aguardar meios para prosseguir com a pesquisa, até que se fixe como teoria ou seja descartada. Ou podemos caminhar até um momento em que a hipótese não tenha como ser testada, não pelo fato de não haver ainda tecnologia disponível para fazê-lo, mas por se recorrer a instâncias não materiais para dar lógica à mesma. O primeiro caminho é a protociência; o segundo, a pseudociência*. E nem sempre são fáceis de distinguir.

Para estabelecer bem a distinção entre ambas, vou dar um exemplo de cada, já tendo em mente o princípio da falseabilidade, de quem já produzi meus pitacos. Comecemos pela protociência, usando, para tanto, a teoria das cordas, de maneira extremamente sucinta.

Desde Lêucipo e Demócrito (vejam informações neste texto), o homem indaga pelas estruturas fundamentais que compõem os corpos – os átomos. Grosso modo, neste momento tínhamos unicamente o palpite de que tudo era feito por partículas mínimas, baseados na observação de que um objeto qualquer podia ser pulverizado em partes cada vez menores. A partir de Dalton, o átomo foi retomado e estudado cada vez com mais acuidade. Daí, descobriu-se que o átomo tinha carga elétrica, através dos desvios produzidos pelas placas eletricamente carregadas em tubos de raios catódicos; que tinha partículas subabtômicas, que não era um contínuo maciço, e que tinha um núcleo e uma eletrosfera, por experiências de radiação através de folhas de ouro; que tinha partículas neutras, sem as quais não seria possível haver estabilidade em núcleos de carga positiva; que mesmo essas partículas subatômicas eram compostas por outras ainda menores, como os quarks. A descoberta mais recente de todas é o bóson de Higgs, apelidada carinhosamente de “partícula de Deus”, e que foi obtida a partir de um enorme e sofisticadíssimo aparelho chamado de colisor, que visa acelerar partículas a velocidades próximas à da luz, até que as mesmas se choquem e liberem enormes quantidades de energia.

Tudo isso vem sendo demonstrado experimentalmente, mas um próximo passo vem sendo tentado, e é muito ousado, já que unificaria a teoria atômica com a teoria das forças**, e, em um limite mais extremo, unir relatividade e mecânica quântica. Segundo a hipótese das cordas, as partículas elementares do átomo não seriam uma espécie de “pedrinhas” fundamentais, ou seja, uma forma de matéria extremamente reduzida, mas sim um filamento de energia que vibraria incessantemente em qualquer direção, e que assumiria também qualquer formato, como se fosse um elástico daqueles de enfeixar dinheiro. Desta forma, toda matéria que existe é, na verdade, energia. Tudo é energia. Se essa hipótese for comprovada, não só serão resolvidos problemas da teoria atômica, como a dupla natureza onda-partícula da luz, mas também as energias gravitacional, eletromagnética e nuclear serão definitivamente reconhecidas como uma só, diferindo unicamente em seus aspectos. Sensacional!

Só que a teoria das cordas ainda não a é de fato no sentido formal da palavra. Recebe este nome mais por uma questão de absorção do público geral do que por haver se consolidado de vez. E ela não se tornará uma teoria definitiva enquanto não puder ser demonstrada experimentalmente ou, melhor ainda, não puder ser falseada, ainda que tenha bom suporte de modelos matemáticos e coerência na sua construção. Será uma hipótese e comporá uma protociência até conseguir atingir os requisitos necessários à sua subida de degrau. A academia científica costuma ser muito rigorosa com essas coisas.

Agora vamos para a outra vertente. Poderia usar como exemplo a homeopatia, a astrologia, a frenologia ou o biorritmo, mas vou partir para um caso em que tive um testemunho pessoal: a radiestesia, e mais especificamente a rabdomancia, técnica para localizar pontos exatos para perfurar poços. Senta, que lá vem história...

Nos anos 90, trabalhei em uma fábrica de suturas. Para quem não sabe, certas suturas precisam ser absorvidas pelo organismo, e, para tanto, são fabricadas com material orgânico. O mais comum deles é a serosa de tripa de boi, conhecida por categute, que precisa ser lavada e relavada para ficar adequada à manufatura, para extração do sal que a conserva e das sujeiras óbvias que lhe acompanham, além da aplicação de outros banhos químicos para amaciamento, colagenação, cromação e outros processos. Cheira mal, viu?

Isso tudo gera uma enorme demanda de água, que, extraída da torneira da Sabesp, custa uma nota preta. Acontece que a empresa tinha os fundos de seu terreno desocupados, e ocorreu de algum filósofo pronunciar da porta de um botequim que deveria haver água naquele subsolo. Como não parecia má ideia, contrataram uma empresa de prospecção para fazer as pesquisas necessárias.

O caso caiu no meu esquecimento até que, dia desses, vi meu colega Bira observando os tais fundos do terreno, mãos para trás e leve sorriso de ironia. Percebendo minha passagem, fez um sinal para que me aproximasse. Disse em tom sarcástico: “Vem ver o levantamento do terreno que estão fazendo para o poço”.

O Bira não era exatamente chegado a uma gracinha. Seu trabalho consistia em cobrar devedores insolventes, o que incluía hospitais e santas-casas em petição de miséria, além de pilantras abundantes na área em questão. Era, por isso, um cara meio soturno, e sua feição jocosa no momento denunciava algo entre o insólito e o burlesco no fenômeno à sua frente. Fiquei ao seu lado e mirei na mesma direção, também de mãos às costas.

Da parte alta do morro, víamos um senhor que realizava uma espécie de ritual: dois passos para frente, um passo para trás, com um certo molejo no corpo que fazia lembrar aqueles estranhos cerimoniais aborígines, e, dessa forma, ia perscrutando todo o terreno. De tempos em tempos, ficava imóvel, e logo em seguida se agachava, ato em que aproveitava para cravar uma estaca no gramado, para logo em seguida retomar seu balancê. Não resisti à tentação de me adiantar uns dez ou quinze passos, para observar melhor o aparelho que ele carregava nas mãos. Em um dos meneios, o explorador virou de frente para mim e pude verificar com clareza. Não era uma sonda, um ultrassom, um raio X, um laser ou alguma outra modernidade. Na verdade, era algo bem mais antigo: uma forquilha!

Voltei-me boquiaberto para o Bira, que adensou o incomum sorriso. Dei mais uma olhada para a prospecção-rito e regressei silente ao lado de meu colega, ainda mais uma vez com as mãos atrás do abdômen, e lá ficamos por mais algum tempo, até um olhar para a cara do outro e achar se tratar de brincadeira ou sacanagem. Eu sabia que era hábito rural e vetusto esse sistema, mas não imaginava seu uso por empresas com CNPJ e registro no Conselho de Engenheiros.

O velho, logo em seguida, cessou a parte coreografada do trabalho e começou a cruzar barbantes de uma estaca a outra, sem uma lógica perceptível. Pouco tempo depois, acenou para nós dois descermos até o emaranhado, onde estava o fruto final do desempenho de seu inabitual mister: no ponto de maior incidência de seus barbantes, fincou uma estaca mais grossa, cilíndrica, oca, metálica, com um logotipo da firma pintado em azul: “É aqui. Podem liberar para o pessoal da broca. Avisem que é fundo”.

Não tínhamos nada com o assunto, mas não nos furtamos de comunicar aos interessados. O resultado final é que brotou água, e que era funda de fato. Penso que, em razão de estarmos a menos de 50 metros do córrego do Ipiranga, aquele das margens plácidas, não fosse difícil haver água no subsolo. Some-se a altura do morro em que nos encontrávamos e temos explicada a profundidade. Apesar de tudo isso, que lógica pode haver na indicação de água subterrânea por um pauzinho?

As explicações geralmente estão relacionadas a mistérios. No caso, a “teoria” geral da radiestesia diz que os corpos têm a capacidade de mútua atração, o que é real e reconhecido pela Ciência, bem como a emissão de radiações que seriam captáveis. O que é difícil de explicar é porque funcionaria com um pedaço de madeira e não com um pedaço de plástico. Aí surgem histórias: o plástico é industrializado e distanciado de seu estado natural, o plástico é privado de água no seu interior, o plástico não tem certos princípios ativos que existem na madeira, essas bossas. Outra coisa: por que uma forquilha de angico (digamos) funciona melhor que uma de nogueira? Mais uma: por que o “equipamento” funciona bem em certas mãos e não em outras?

São estes os pontos de falseabilidade que não existem na pseudociência. Ao se afirmar que a forquilha somente funciona em determinadas mãos ou que captam energia indetectável por instrumentos, temos à nossa frente apenas evidências anedóticas, os depoimentos que não dependem de comprovações concretas, e que se apoiam na crença. E é justamente por causa da crença que as pessoas têm na eficiência da Ciência em produzir resultados confiáveis, que os defensores de pseudociências gostam de se revestir de uma aura científica real, buscando depoimentos de autoridades acadêmicas e generalizando os resultados de pesquisas, de modo a acomodá-los às suas necessidades. 

Só para deixar bem claro. O que dá estatuto de pseudociência a uma determinada prática não é o fato dela funcionar ou não. A acupuntura, por exemplo, tem bons indicativos de causar verdadeiros alívios à dor, em uma proporção que suplanta o placebo. Mas a Ciência acadêmica ainda não conseguiu fechar um veredito sobre sua causação. A pseudociência está na conversa sobre centros energéticos, concentrações de miasmas e outras justificativas que surgem metafisicamente. Sempre há um componente indetectável nesse tipo de fenômeno, e, portanto, algum ponto que não pode ser falseado. Repito: a discussão aqui não é sobre a eficácia, mas sobre a cientificidade da coisa. A Ciência não é tudo no universo – se existe algo metafísico por trás de fenômenos que funcionem, que assim seja. Só que está fora do escopo científico.

Eu já mencionei o confronto entre Ciência e pseudociência neste espaço várias vezes, mas voltei ao assunto porque eu queria fixar bem a questão do surgimento do conhecimento novo. Ele nasce como uma ainda-não-ciência e é confirmado ou não. Se confirmado, vai para a academia dar arcabouço para novas pesquisas, novas protociências e novos devaneios metafísicos, que novamente alimentarão o ciclo, ad infinitum. Se é refutado, então o jeito é descartá-lo e voltar ao passo anterior, talvez até mesmo à estaca zero. Mas esse é um bom momento para surgir a pseudociência: quando alguém se agarra à hipótese moribunda e imputa o descarte a teorias da conspiração. Podem perceber como toda pseudociência tem por trás de si uma tese conspiratória – os cientistas não querem admitir... a Nasa oculta da população... seriam muitas perdas para a indústria... o conhecimento tradicional é menosprezado... blá-blá-blá... blá-blá-blá...

Um dos mecanismos para justificar a validade das pseudociências é o apelo à ignorância, também conhecido por argumentum ad ignorantiam, falácia informal de dispersão e relevância que se baseia na seguinte lógica: eu tenho um argumento qualquer sobre um tema em que não há conhecimento suficiente, portanto, ele é verdadeiro.

Não, não é. O fato de se ter uma hipótese sobre um buraco no conhecimento não a torna válida automaticamente. Se de fato as forquilhas apontam para águas profundas, a resposta para o porquê é um clamoroso e sonoro “não sei”. Mas é exatamente aí que o argumento da ignorância funciona. Como temos a tendência infantil de dar crédito a qualquer coisa que preencham os vazios do nosso conhecimento, achamos essas bazófias fiáveis. É tudo muito parecido com o Deus das Lacunas, com a diferença de que não enfiamos uma divindade na explicação, mas um argumento que não encontra contraposição no outro lado do debate. E também se assemelha à falsa dicotomia, na medida em que, para que sua lógica opere, apenas dois caminhos sejam possíveis: se o argumento contrário não pode ser corroborado, então o favorável somente pode ser verdadeiro.

É aquela velha história... Propõe-se um sistema de governo diferente, como a atual moda do anarcocapitalismo. Em um determinado ponto, há um questionamento em que não há resposta possível – como lidar com conflitos de fronteira com outros países, por exemplo. Será lícito a um proprietário particular declarar guerra a um país vizinho? Como não há experiências anteriores e existiram desencontros de interesses, a resposta será a dúvida. E o apelo à ignorância decretará que o anarcocapitalismo é um devaneio, o melhor é o liberalismo clássico.

Duas coisas nesse caso. Mesmo que eu ache de verdade o ancap uma barca furada, isso não se deve ao fato de que ele não tenha respostas prontas para tudo. Isso é retórica de político. Sempre haverá uma situação imprevisível, que mesmo o mais bem engendrado dos sistemas não saberá lidar. E, além disso, o anarcocapitalismo ser ruim não quer dizer que a melhor via possível seja o liberalismo clássico (no exemplo específico). Outras vertentes políticas e econômicas podem ser cotejadas, como os estados de bem-estar social, o socialismo e mesmo um capitalismo de estado, como o fascismo – sempre haverá quem ache que estes modelos de condução de governo melhores, e terão lá suas razões. Deste exemplo, podemos notar o caráter dicotômico e desviante que tal falácia possui. Cuidado com ela.

E, por fim, há possibilidade de apelo à ignorância não falacioso? Apesar da malícia com que geralmente é usado, é preciso que se siga as mesmas regras da falsa dicotomia. Isso significa que, sabendo existir duas e apenas duas hipóteses possíveis, ter a consciência de uma das hipóteses já descarta automaticamente a outra. Exemplo boçal: se chego em casa e não vejo ninguém, ainda que eu ignore onde, sei que todo mundo saiu para dar um rolê. Ignorar onde o povo está não faz com que eles estejam em casa. Portanto, se eles não estão em casa, eu sei que estão fora. Entendeu ou ficou confuso?

Recomendação de leitura:

Nunca é simples falar sobre coisas não simples, como é o caso da teoria das cordas. O livro abaixo é apropriado para isso, de modo a ser possível acompanhar de maneira razoável o desenvolvimento desse conjunto de ideias. Mas, mesmo com todo o cuidado, sempre haverá escorregões para que não é da área, como eu.

GREENE, Brian. O universo elegante. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

* Proto, em grego, significa “primeiro”. No sentido aplicado, quer dizer aquilo que vem antes, aquilo que dá início, como em protótipo, um modelo que pretende dar origem a uma série. Já pseudo significa falso, o que não demanda maiores explicações


** As leis da Física levaram, até o presente, à descoberta de quatro tipos de energia que intermedeiam as interações entre os corpos: a força gravitacional, a força eletromagnética, a força nuclear forte e a força nuclear fraca. Há a forte suspeita de que o princípio geral que as rege seja um só, mas ainda não existe uma teoria consolidada para fundamentá-la.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Impressões sobre o que move o combate à ideologia nas escolas

Olá!

Muitas e muitas vezes eu quis falar sobre determinados assuntos neste blog, mas acabei me enrolando e os tais acabaram ficando para trás. Por exemplo, bem nos primórdios, queria ter falado sobre a então novidade dos vlogueiros, que transpunham para o vídeo os relatos diários e opiniões que eram feitos por escrito nos blogs. Para quem não lembra, na origem, este modelo de site era destinado a ser um “meu querido diário” virtual, o que foi subvertido depois, para o bem da humanidade. O tempo passou, o tema não é mais novidade, existem vlogueiros aos borbotões e perdi o propósito do texto. É o que chamam de timing, o momento exato de se fazer alguma coisa. Como eu sempre procuro estabelecer um nível mínimo de detalhes e estabelecer vínculos com pensadores, sempre tenho que fazer alguma pesquisa, sob pena de produzir mera opinião, o que raras vezes desejo. E às vezes é preguiça mesmo. Se me atrapalho um pouco que seja, perco o tal do timing, o que é relativamente frequente. Por isso mesmo, ainda não tratei de certos temas, como o terrorismo, a cultura do estupro e outros mais. Paciência. Há de chegar o momento certo. E de mais a mais não é sobre tudo que tenho opinião formada e/ou aporte suficiente de conhecimento.

Mas há um assunto em voga que não posso cometer o erro de deixar passar batido. Está na pauta de várias instâncias governamentais alguns projetos que visam produzir mudanças na educação, o que seria muito bom, em tese. Como já pude explanar neste e neste texto, a questão educacional e tão relevante para que possamos sonhar com um país melhor, que condiciono meu voto para candidatos que explicitem de maneira absolutamente clara suas propostas para essa área, sem as evasivas e generalizações habituais. Mas, pelo que vi até agora, as medidas que estão sendo propostas provocam calafrios. Vou começar por um projeto que representa uma tendência, que reflete várias iniciativas que vêm se espalhando pelo país, algumas delas já consideradas inconstitucionais. Trata-se do projeto de lei do Senado 193/16, de autoria do senador Magno Malta, do PR do Espírito Santo, mais conhecido como “Escola sem partido”. Já li muito a respeito, assisti a várias reportagens e debates e conversei com colegas. Li e ouvi muita coisa interessante e muita bobagem também. Por isso, vou dizer o que penso a respeito.

Em primeiro lugar, é preciso entender que há sempre duas faces no estabelecimento de regras em geral. Mais diretamente, há primeiras e segundas intenções. Vocês que são pais, pensem no seguinte: quando vocês decretam em seu apartamento que seus filhos devem fazer silêncio, há uma intenção explícita – evitar a reclamação dos vizinhos e a multa do condomínio. Mas há também uma segunda intenção, colocada nas entrelinhas, que pode ser sua vontade de ler o jornal em paz. É isso o que precisamos tentar detectar nessa lei: tudo aquilo que está movido por intenções tácitas (ou nem tanto).

Então vamos. É preciso, antes de tudo, interpretar quais são os atores que serão afetados pela proposta e entender sua participação social. Os alunos, pelo que se dá a entender, são os principais afetados. Estão no polo mais vulnerável da relação, porque são passivos, no sentido de serem eles a receber os conhecimentos difundidos por um professor. Este sim, de acordo com o propósito da lei, é o instrumento que pode desvirtuar o caminho da educação, ao aplicar como pano de fundo de suas aulas uma ideologia qualquer. O que é mais comum de se afirmar é uma tendência de se abordar teses marxistas com mais carinho do que as demais. Além disso, há uma tal de “ideologia de gênero” desviando os princípios morais da família do educando. Ai, ai, ai...

Vejamos bem a quem é dirigida a lei. Os professores, via de regra, estão situados na metade de baixo da pirâmide social. Bons salários são pagos somente em algumas poucas universidades. Mérito de quem está lá? Sim, mas esqueçam dessa bobagem de meritocracia – não há lugar para todos os que merecem. A grande massa está mesmo na rede pública de ensino, que dá péssimas condições de trabalho, e na rede privada, que paga muito mal. Ou seja: os professores são parte do proletariado, estão nas classes menos privilegiadas da sociedade. Quanto a isso, creio que não há muita discussão.
Por mais que se queira negar, é óbvio que existe um recorte social que isola certas categorias de acordo com seu potencial econômico. Como se constata isso de forma pessoal? É simples. Basta que você tenha tido uma experiência em que tenha se sentido “do lado de fora”. Se isso nunca lhe aconteceu, das duas uma: ou você está do lado de dentro, ou você é um completo alienado. Vamos ao exemplo:

Sou filho de pai operário e mãe costureira. Morávamos na redondeza da Vila Ema e Vila Diva, bairros paulistanos tipicamente habitados por trabalhadores braçais, pequenos comerciantes e funcionários públicos miúdos. Comecei a trabalhar bem cedo, e meu primeiro emprego com carteira assinada foi em uma grande rede de magazines, onde eu era arquivista. Antes disso, só pequenos bicos em mercados e oficinas. Quando chegava o fim do ano, esta empresa distribuía aos seus parceiros cestas de natal de cair o queixo, enormes, nada semelhantes à cidra-e-panetone-e-bolacha-Maria que beeeeeem às vezes meu pai recebia (com estrépito e celebração, diga-se de passagem). Era uma grande cesta de vime contendo acepipes de nome enrolado, com garrafas nunca vistas dantes por este escriba, incluindo uísque e licor, frutas secas, tâmaras, figo-passa, panetone e chocotone (então uma novidade) de 1 Kg, uma carta toda escrita em redondilhas menores cantando as loas da parceria comercial. Em um canto discreto da cesta, o símbolo maior da opulência: caviar. Tudo bem que era em conserva, mas era caviar. Nem sei se existe caviar que não seja em conserva. Nada mal, em suma.

Bem, é evidente que nas proximidades das festas de fim de ano todo o pessoal de entregas se encontrava muito ocupado, dada as vendas avolumadas, e para destinar os pacotes de benesses era preciso recorrer a voluntários que se dispusessem a fazê-lo. De olho nas polpudas gorjetas que certamente seriam ofertadas, disponibilizei-me álacre e faceiro.

Saímos logo cedo, eu e um mal-humorado motorista, em uma Kombi locupletada por dez ou doze dessas retro mencionadas cestas da alegria. Foi-nos destinada uma área nas cercanias do Ibirapuera, que incluía endereços em Moema, Vila Nova Conceição, Indianópolis e Alto da Boa Vista, por onde principiamos o périplo. Para quem conhece São Paulo, sabe tratar-se de região abastada. Partimos; eu, servindo de entregador e navegador, guia de ruas à mão; o motorista servindo de motorista e nada mais. Casa por casa, o mesmo padrão se repetindo. Um interfone, uma identificação prévia, uma empregada para receber a caixa e se assustar com o peso e tamanho. Entrega feita, protocolo assinado e passar bem.

Zero. Esse foi o saldo da minha incursão. Nem um mísero cruzeiro, moeda da época (acho). É claro. Eu, burro, não me toquei que as entregas não seriam feitas diretamente aos seus destinatários. A empregada não ia tirar do próprio bolso uma gorjeta por um serviço que não era prestado para ela. Ao contrário do que acontecia quando eu arrumava pacotes no mercado ou fazia pequenas compras para as senhoras da minha rua, que tanto conheciam nossas dificuldades (e que eram as mesmas delas) e não deixavam de dar algum trocado, não há condolências em se repelir esse hábito tão brasileiro quando você não está cara-a-cara com o caboclo. Afinal, quem nega o estipêndio não é o recebedor do privilégio, mas o seu subalterno, alguém tão pobre quanto eu na ocasião. Nem minha cor branca, minha cara de judeuzinho e minha lábia de turquinho derrubaram o muro. Era a minha primeira experiência clara de distinção de classe.

É com base nesse tipo de ocorrência que se desenrola a vida de um professor. Na rede privada, há o clássico “é meu pai que paga seu salário”. Quer discurso de distinção mais claro do que esse? Já na rede pública, basta um professor aparecer com um poizé sendo pago em xn prestações para se ouvir: “Tá reclamando do que? Tem até carro”. Tem até carro... Como se um professor não precisasse se preparar tanto quanto um advogado, se atualizar tanto quanto um médico, ser tão responsável quanto um engenheiro. Como se o professor tivesse que se conformar com a pobreza. Como se a profissão não fosse tão digna quanto outra. O discurso da melhoria de condições do profissional de educação não só não é colocado em prática, como nem mesmo é encarado com bons olhos.

Pois bem. É exatamente para essa categoria profissional que é dirigida a Escola sem Partido. Para uma categoria que perde valor desde o tempo das reformas educacionais da ditadura militar, e que os governos posteriores têm tido dificuldade em lidar, porque os grandes talentos lhe escapam. Conheço muita gente, mas muita gente que optou por um cargo público burocrático que pague melhor, preferindo deixar o umbigo levantar a mesa de tão gordo a exercer a profissão que escolheu. Uma profissão árdua, uma das mais difíceis em se evitar a penetração na vida pessoal e no tempo livre. Um professor vê filmes para auxiliar em suas aulas, lê livros e já pensa em seus alunos, abre mão de muita coisa para reelaborar uma aula malsucedida. O professor convive diariamente com o dilema que há entre suavizar sua pauta para não ser empecilho na vida dos seus alunos ou manter o rigor de formar cidadãos bem municiados. O professor se policia e tenta se conhecer diariamente para fazer o peso e a medida corretos e justos. Precisa aprender na medida em que ensina – há professor que desanima e liga o piloto automático, o que é um fracasso, por si só. O professor tem que julgar sem ser juiz, compreender sem ser psicólogo, ter paciência sem ser monge. Como eu acabei de dizer, tem que renovar seus conhecimentos como qualquer bom profissional, como um advogado, um engenheiro ou um médico, mas ganhando uma risível parcela do que estes ganham. Parece um sacerdócio, e muitos dizem que é assim mesmo, mas isso é uma decantada balela, o magistério NÃO É UM SACERDÓCIO. Professores tem os mesmos anseios e perspectivas que tem uma pessoa que passou anos e anos se preparando para exercer seu mister.

Daí se pode perceber que o inciso V do artigo 2º, que versa sobre a vulnerabilidade do aluno na relação de aprendizado, não deixa entrever quem está sendo colocado tacitamente no polo mais frágil da relação social em nosso atual momento histórico: justamente o professor. Uma das provas maiores disso é a garantia de anonimato, o que dá um cheiro insuportável de macarthismo à medida. A sensação que fica é a de que o professor pode ser acusado por qualquer motivo além do ideológico, sem defesa. A lei não prevê punição alguma a acusações de cunho pessoal ou eivada de irresponsabilidade.

Se é verdade que o bom profissional deve ser capaz de distinguir suas convicções das disciplinas que ensina, também é verdade que jamais se adota a solução real para o problema: pagar bons salários. Essa seria a solução do problema ideológico: fazer com que o professor mude de classe social. Ganhando bem, a sanha interior por reformas seria arrefecida, e, com isso, o alegado discurso partidário também acabaria. Não é simples? Dê um salário de R$ 20.000,00 para o professor, insira-o em uma real classe média e cale-o. Mas, como não se tem essa intenção, cria-se a mordaça. Coloca-se a espada sobre a cabeça do profissional e deixa-se-lha lá, pendurada, à espera que algum deslize se cometa.


Então temos a falácia da vulnerabilidade do aluno e a criminalização da opinião do professor. Qual é a verdadeira intenção da lei, além de ser um “fora-esquerda”? Por que se busca resolver algo que seria da competência do diretor de uma escola com uma traulitada jurídica nos países baixos docentes? Para entender melhor, é preciso sair da letra fria da lei e ler atentamente as justificativas do egrégio senador da república.

Insistentemente se afirma que há muitos professores que são enviesados ideologicamente (não está expresso nos termos do artigo, mas esse viés é evidentemente marxista, como já virou senso comum), e que sua doutrinação afeta a liberdade de aprendizado dos vulneráveis alunos. Falta informar de onde esses dados foram retirados, o que deveria ser facílimo, dado o assombro que busca retratar. Estatísticas, relatórios, indicadores, depoimentos, artigos, cadê? A única coisa que, de resto, consta do projeto, é a indicação de que se baseia no movimento Escola sem Partido, que visa substituir uma ideologia por outra, nada mais. Sim, porque, ainda que creiamos em boas intenções, o próprio fito de que o estudante não seja exposto a conteúdo político já é, de per si, uma ideologia. Em resumo, trata-se de um tremendo raciocínio circular. Quem vai estabelecer o que não é ideologia já é prenhe de ideologia.

Se eu reclamo que o emérito legislador não apresenta os dados que dão fundamento ao seu projeto, de onde tiro os meus? Eu não tenho referências seguras fora da própria realidade em que vivi, mas o ônus da prova não me cabe. Não tenho números, não tenho pesquisas. Tenho os livros e cadernos de meus filhos e afilhados, tenho as escolas em que desempenhei minhas tarefas, tenho o colégio e as faculdades em que estudei, e posso afirmar, peremptoriamente, que apenas no período da ditadura militar eu vi professores ideologicamente enviesados, pelo menos de forma contumaz e flagrante. Senta, que lá vem história.

Quando eu estava na 7ª ou 8ª série, não lembro bem, a minha professora de Geografia era uma japonesa apelidada de Cebola, dado o aspecto de réstia que ela adquiria com sua habitual trança. Na época, a Geografia que era ensinada era basicamente uma cartografia, com mapas e mais mapas, vitaminados com aspectos físicos como relevo, clima e vegetação. Estudava-se muito pouco os aspectos sociais. Em um ano, estudávamos a geografia do Brasil e da América do Sul, e no outro a geografia mundial, com destaque para os principais países-atores da geopolítica de então. O programa previa Europa, Canadá, EUA, URSS, Japão e fragmentos esparsos afro-asiáticos-oceânicos. Seguimos normalmente a sequência didática proposta, até chegarmos ao capítulo dedicado à extinta União Soviética, uma megapotência de então. Surpresa: a professora Cebola saltou o capítulo, indo direto para o seguinte. Mais realista que o rei, dizia ser um tema insignificante. Não sei exatamente por quais influências, protestei. Eram tempos de guerra fria, e a URSS estava diariamente nos noticiários, com seus milhares de megatons apontados para o ocidente e ameaçando a humanidade (assim faziam os Estados Unidos para o lado oposto). Como esse tema podia ser considerado insignificante? Sua resposta foi que qualquer regime que prive a liberdade de seus cidadãos dá premissa básica para sua invalidade, no que retruquei afirmando que morávamos no Brasil, e que a mesma lógica não foi aplicada para que a mesma professora desprezasse um ano inteiro de matéria. A conversa acabou com mais um ponto negativo em meu currículo. Não havia projeto Escola sem Partido nessa época.

Isso tudo significa que não exista nenhuma doutrinação ideológica nos dias de hoje? Claro que há. Mas, como eu já disse, será que os diretores das escolas não são autoridade adequada e suficiente para coibir os excessos? É preciso praticamente criminalizar a atividade docente?

Mas tudo isso, até aqui, é mera chorumela que oculta o eixo central da proposta, que, no meu entender, está bem definida e acabada no item 15 das justificativas:

15 - Finalmente, um Estado que se define como laico – e que, portanto, deve ser neutro em relação a todas as religiões – não pode usar o sistema de ensino para promover uma determinada moralidade, já que a moral é em regra inseparável da religião;” (grifo meu).

Está aí. O eixo em que a proposta gira não visa livrar a escola das ideologias, mas garantir que os conteúdos não tirem das religiões a tarefa de estabelecer o que é moral ou não. Moral não é coisa para o banco das escolas, segundo o nobre legislador, já que a mesma é indissociável da Religião. Ai, cacete... Quem foi que disse isso?

Princípios morais são princípios humanos, e não religiosos. Tudo bem que as diferentes religiões se apoiem neles, e não há problema algum nisso, mas isso não significa que lhes sejam exclusivos. Sendo assim, o próprio princípio de laicidade do Estado estaria afetado por alguma religião, o que é absurdo. Não se pode afirmar, por exemplo, que um ateu não tenha princípios morais, e que estes sejam melhores ou piores que os de qualquer religioso: basta que se pesquise a distribuição das religiões na cadeia para perceber que ela praticamente plasma a sociedade como um todo. E isso acontece por outro motivo diferente daquele estabelecido por uma religião. O religioso não mata por medo do castigo divino; o ateu não o faz por medo da lei, por respeito ao contrato social, por preocupação com vinganças. Respeitam-se as mesmas leis por motivos diferentes, e está excelente. A Religião não pode ser fonte do Direito, já basta que o costume o seja.

Não é papel da escola ministrar educação religiosa, como quer o artigo 2º, parágrafo VII. Isso é papel das igrejas. Pode parecer incoerência de minha parte, já que eu mesmo afirmei neste texto que é essencial conhecer as religiões nos nossos estudos. Mas observem bem: eu estou dizendo que não se entende o movimento de uma sociedade sem compreender como funcionam seus elementos constitutivos, e a Religião é indissociável da formação de um modelo de pensamento, tal como o vento e a água moldam a pedra. A escola DEVE abordar o tema, mas, aí sim, sem viés ideológico e sem pretender ensinar Religião, mas sob um prisma sociológico, antropológico e histórico. Aliás, mais de uma religião.

No final das contas, o projeto é tremendamente contraditório, na medida em que pretende remover a ideologia política e implantar uma ideologia religiosa. Essa é a sua escrita das entrelinhas. Não será de estranhar professores de Biologia com dificuldades para explicar a evolução, de Física para dar aulas sobre o Big Bang, de Geografia para formular o Pangea, afrontando uma doutrina onde uma divindade já entrega o mundo pronto e acabado. Os professores de Filosofia teriam que descartar os gregos clássicos politeístas, os iluministas deístas, os herméticos panteístas, os modernos e contemporâneo ateus. Nietzsche, Marx, Schopenhauer, Spinoza, Voltaire, Sartre, Sócrates, Platão, Aristóteles, Maimônides, Foucalt, Freud, todos estes podem ser objeto de contestação... Pior ainda se houver uma abordagem sobre sexualidade.

Mas não é só. Outro ponto que tem me dado azia é o tal do “novo ensino médio”, que passarei de passagem neste texto, empurrado goela abaixo pelo governo federal, através de medida provisória, fazendo com que o aluno tenha que optar por disciplinas correlatas à carreira que deseja seguir. Esta escolha é angustiante na maioria das vezes e já tratei especificamente deste tema aqui. Levando em conta que eu pensava em ingresso na faculdade, a medida do governo torna o problema mais grave em dois aspectos: a decisão do aluno necessita ser tomada ainda antes, e seu preparo psicológico é ainda menor. O pior de tudo é que, da forma como se propõe, o aluno jamais terá contato com conteúdos que poderiam fazer a diferença na detecção de suas aptidões. Ora, ora... nunca saberei se gosto de legumes se não experimentar legumes, não é verdade? Pois é isso o que vai acontecer. O propósito ÓBVIO, na minha humilde, é diminuir o corpo docente, mas o governo nunca vai admitir isso.

Se eu estiver correto, há na página do Senado uma consulta pública sobre o tema, onde é questionada a adesão à aprovação popular da Medida Provisória. Vejam o resultado:


Tenho a impressão de que tal estatística não foi muito levada em consideração, dado que a MP foi aprovada e convertida em lei, e só não manifestou seus efeitos explicitamente porque ainda é necessário que sejam aprovadas as novas bases curriculares. Estas não devem ser ampliadas, muito pelo contrário.

É...

Recomendação de leitura:


Como estou aqui em um texto opinativo, o melhor que tenho a fazer é recomendar a leitura da proposta, e, em especial, da sua justificativa. Neste exato momento, está em teóricas boas mãos, o senador Christovam Buarque. Talvez não passe, talvez seja mudado a ponto de se tornar inócuo, mas dá a dimensão dos riscos que corremos.

Para ler o projeto:

Para acompanhar o andamento: