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terça-feira, 22 de maio de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (08 - Ética)

Olá!


No próximo passo do nosso itinerário, vamos sair do meandro da Teoria do Conhecimento para penetrar nas sendas nebulosas da área filosófica que é mais discutida nos dias de hoje: a Ética.


Logo de início, é preciso estabelecer semelhanças e divergências entre Ética e Moral. Localizei duas correntes mais ou menos equivalentes em tamanho: aqueles que consideram os dois termos sinônimos e aqueles que os distinguem. No primeiro caso, temos a questão etimológica, já que os termos ethos (grego) e mores (latino) significam a mesma coisa: costumes ou hábitos de um grupo humano. Usar um ou outro, neste caso, teria diferença apenas no “sabor” da palavra. Quando usamos léxicos como comum e ordinário, ou mediano e medíocre, temos pares de sinônimos, mas os segundos ganham conotação negativa, apesar de não a terem, etimologicamente falando. É como se ordinário e medíocre indicassem coisas reles, vis, sem nada de especial, e, portanto, desprezíveis, enquanto comum e mediano fossem mais neutros, sem embutir nenhum juízo. Nesse sentido, Moral já carrega consigo uma ideia de normatividade, como se indicasse em si o que é certo e errado, e Ética tem um viés mais imparcial, de análise mesmo, com menos valores atribuídos e pré-julgamentos.

Outras correntes fazem uma distinção mais clara entre ambos, dando-lhes diferentes sentidos. A Moral, para estes pensadores, são os modos de conduta de uma determinada comunidade permeados por sua cultura, o que dá valor de certo ou errado para cada uma de suas ações, baseados em tradição e habitualidade. Já a Ética procura compreender as causas e os motivos pelos quais essas mesmas ações são cometidas, apoiados, portanto, na racionalidade. Em um exemplo, vou buscar mais uma historinha da minha vida.

Nunca passei propriamente fome, mas, como todos, passei por momentos de perrengue bravo. Bem no comecinho da década de 80, uma crise daquelas deixou a indústria muito combalida, o que refletiu em amplo desemprego. Em uma família de operários, os reflexos eram óbvios: dos nove moradores da casa, apenas um tinha emprego, o meu pai. Havia ainda as costuras da minha mãe e os bordados da minha madrinha, mas elas passavam mais tempo cuidando do meu avô doente terminal e da minha tia nonagenária do que pegando encomendas. Meu padrinho e meu primo mais velho corriam atrás de emprego e de bicos, com pouco sucesso. Eu e minha prima éramos crianças, mas, já sendo mais taludinhos, íamos tentar alguns níqueis por aí, com ela crochetando toalhinhas e eu carregando pacotes no mercado e na feira. Isso hoje é impensável, mas muito comum à época. O dilema que eu quero propor é o seguinte: com um torneiro mecânico para dar de comer a nove, não é de se estranhar que os pratos estivessem mais vazios – muito ovo e pouca carne. Aliás, carne nenhuma. A pouca que havia era destinada ao meu pai, para sustentá-lo melhor. Do ponto de vista moral, podemos ver a decisão como acerto ou erro. É justo o patriarca receber a melhor quota, para ter energia na manutenção do emprego? Se sim, esse é o lado positivo, o bem. A privação para o restante é ruim, mas é justa. Esse é o olhar moral sobre a causa em tela, e busca detectar as melhores atitudes possíveis. Já no contexto ético, o foco não está propriamente no valor que as ações recebem, mas na estrutura em que se desenrolam. Quais são os pontos em que escolhas devem ser feitas, que critérios adotamos para sopesar custos e benefícios, se os ganhos e perdas devem ser mais individuais ou coletivos, qual o nível de liberdade que uma situação de aperto nos proporciona; no nosso caso, observamos que diante da necessidade torna-se imprescindível a tomada de um rumo, seja ele qual for; estas são as perguntas éticas. É aquilo que falei sobre neutralidade: a Moral já carrega consigo um “sim” e um “não”, um “certo” e um “errado”, um “bom” e um “mau”, ou seja, um valor fixo, e é mais dirigido e cultural. Já a Ética se importa menos com o valor e mais com a estrutura, sendo mais imparcial e filosófica. Do ponto de vista axiológico*, portanto, a Moral quantifica e hierarquiza o valor, enquanto a Ética detecta um ponto onde é aplicado o valor.

Tendo a aderir a essa segunda corrente, que, no frigir dos ovos, entendo que explicita o quanto o termo “ética” é hoje banalizado. Os códigos de ética não têm nada de ético, por exemplo. São normas de conduta, dispositivos coercitivos que tem seu propósito válido, o de manter ordem em uma instituição, ou dar padrão a procedimentos profissionais, mas não são éticos, porque privam daquilo que de mais ético existe: a escolha.

Sim, a Ética baseia-se na compreensão das escolhas. O motorzinho que toca nossas opções é sempre a busca da felicidade, a tal da eudaimonia da qual Aristóteles tanto falava, o fim último do ser humano. Se pensarmos bem, todos nós queremos isso: ser felizes. Os gregos do período socrático vinculavam diretamente a felicidade ao bem, ou seja, qualquer ação má ou prejudicial trazia no máximo a ilusão de felicidade. Pensemos em um roubo. Ao contentamento inicial propiciado pela posse desvigiada da res furtiva, sucederá o temor pela descoberta do ilícito, a preocupação com a vingança ou com a punição, a desconfiança de que também ele pode ser roubado, o arrependimento pelo mal realizado. Isso vale para tudo o que de mal se faz, mesmo que uma pequena maledicência. Sempre haverá um peso a carregar, do que o aderente ao bem está livre. Dessa forma, a eudaimonia está sempre ancorada à areté, a virtude. Porque, na essência, felicidade não se faz sem paz de espírito. É o que move Sócrates em seu diálogo com Críton, ao assumir a morte como bem. Sua fuga representaria a assunção do mal e o afastamento da virtude, mesmo que com uma condenação injusta, porque desvirtuaria aquilo que foi estabelecido como bom pela sociedade de sua época.

Só que ser feliz não é simples, e, especialmente na filosofia helênica**, temos uma grande discussão ética de como viver da melhor forma possível tendo a felicidade como objeto inalcançável. O estoicismo de Zenon prega a resiliência à dor, o famoso “ligar o foda-se” como medida para sanear a distância do prazer; o epicurismo visa encontrar contentamento nas pequenas coisas, ter prazer em cada ato simples como se fosse um grande acontecimento; o cinismo de Diógenes prega um virar as costas à cultura e uma reaproximação à natureza, bastando as funções vitais ao homem para ter o que precisa, coincidindo necessidade e desejo; e o ceticismo de Pirro resolve o problema suspendendo seu juízo sobre o que é possível conhecer, incluindo as fórmulas que explicam o que significa ser feliz. Entendam que tudo isso não se faz por roteamento automático. Todas são escolhas ativas, modos de proceder derivados da opção do indivíduo. A Filosofia helênica é majoritária e essencialmente ética.

Tenho dúvidas com relação a um termo como “antiético”, por todo o exposto acima. De fato, se é válida a diferenciação entre Ética e Moral, não faz muito sentido dar oposição a uma disciplina neutra. Quando chamamos algo de antiético, na verdade queremos dizer que esse algo é imoral. Boa ou má, o cidadão fez uma escolha, o que é característico das disposições éticas. Se atribuirmos valor ao ato, saímos do campo ético e vamos para a Moral. Mas por que a questão das escolhas é tão vital na Ética?

A resposta a essa questão está em um diferenciador do ser humano como distinto dos demais animais. É através das escolhas que o homem exerce a sua liberdade, embora esse não seja um ponto pacífico. Isso porque é essencial que se decida a aporia do livre-arbítrio, a possibilidade de autodeterminação dos caminhos que alguém possa seguir. Somos verdadeiramente responsáveis por nossas escolhas?

Certas escolas filosóficas, como o Determinismo, pensam que não. Afirmam que o homem é condicionado pelo ambiente em que vive, por sua formação, até por sua genética, de tal modo que sua posição perante qualquer bifurcação independe de uma posição pessoal: ainda que não perceba, tudo já está devidamente formatado em seu subconsciente. Outra vertente que retira a responsabilidade pelas escolhas é o Fatalismo. São as doutrinas que decantam um destino já escrito e irrevogável, guiado por um certo ordenamento universal de pleno equilíbrio e imperceptível pelos indivíduos. Como nas correntes deterministas, também aqui as escolhas são ilusórias, apenas uma consequência sem intervenção do próprio ser optante. Nestes casos, a liberdade está tolhida e há pouco a se falar em responsabilidade do ponto de vista filosófico, o que reduz muito o valor das questões éticas.

Já as correntes filosóficas que abraçam o livre-arbítrio têm muito mais sensibilidade com relação à Ética, porque aqui temos as escolhas tomadas conscientemente, e há medida entre causa e consequência. Em tese, a maioria das religiões é aderente ao livre-arbítrio, porque é preciso que faça sentido a atitude do fiel perante o ordenamento divino. Só que é óbvio que essa liberdade, na maioria de suas concepções, é um artefato meramente ideológico. De fato, há uma incongruência entre onisciência divina e possibilidade de escolha humana. Se uma divindade conhece tudo, inclusive instâncias futuras, então o destino está traçado, e o caboclo-súdito está fadado àquilo que lhe é determinado; suas decisões são de araque, e temos um Fatalismo mal-disfarçado. O que temos, neste caso, é uma predestinação, e ponto final. E há ainda o problema da coerção: a divindade que exige crença sob pena de um castigo eterno não fornece livre-arbítrio para sua criatura, a não ser que esta tenha comido cocô quente e saído no sereno. Quem escolheria livremente um inferno, ou um limbo, ou uma redução à animalidade? Mas há correntes de liberdade que, ainda que reconhecendo uma impossibilidade plena de inexistirem elementos que manipulem as decisões, colocam naquele que faz opções a responsabilidade pelas mesmas. É o que fazem os existencialistas, por exemplo. Para eles, a liberdade não é só um atributo humano, mas uma sucumbência que tem o peso de uma condenação. As escolhas são livres, menos justamente a de fazer escolhas, naquilo que conhecemos como paradoxo da liberdade. Frente à dor, à injustiça, à miséria humana, opta-se por nada fazer, e deixar-se tudo à deriva. Essa não é, por si só, uma escolha, ainda que adotada por livre vontade? Dessa forma, a liberdade é mais um peso do que uma benesse, uma usina geradora de angústia.

Outras escolas de livre escolha importantíssimas são a Deontologia Kantiana e o Utilitarismo de Jeremy Bentham. Na primeira, não há sentido ético em atos morais exercidos sem liberdade, e somente tem valor ético a escolha que é feita por dever (significado do termo grego deon). Decisões que atendam vontades fogem desse campo, porque o indivíduo não tem a pressão de produzir o imperativo categórico, ou seja, decidir como se sua ação pudesse ser adotada como uma lei universal. Melhor dizendo: a cada vez em que eu estiver diante de uma situação que me obrigue a tomar uma decisão inevitável, deverei pensar como se eu estivesse estabelecendo normas para serem seguidas por toda a humanidade. Uma ação que não objetive o cumprimento de um dever, ainda que tenha caráter altruísta, é escapadiça à ética kantiana, justamente por não estar embutida em caráter deontológico. Os critérios para ações beneficentes, apesar de bons, não se fecham em leis se não há a intenção de se cumprir uma obrigação, porque só estas guardam uma relação com leis. É como se eu pensasse na Física – solto uma pedra e ela cai, seja no Brasil, no Japão ou no continente perdido de Atlântida. A pedra é obrigada a cair, é assim que as forças gravitacionais agem sobre elas, e este é o uso que a razão pura deve fazer das ações morais.

Já o Utilitarismo entende que a vontade livre deve ter um objetivo bem marcado. Como toda ação humana redunda em uma dicotomia entre prazer e sofrimento, é preciso que as escolhas se pautem pela perseguição ao primeiro. Se pensarmos de maneira egoísta, traremos para o campo do individual a mensuração dessas escolhas, mas o Utilitarismo pensa de modo mais coletivo, e esse prazer, traduzido em felicidade, precisa ser propiciado racionalmente para a maior quantidade possível de pessoas. É uma retomada, de certa forma, da felicidade objetiva aristotélica, que possibilita a comunidades inteiras expressar elementos concretos de prazer, mas que possui uma varinha mágica para acontecer: a ação ética precisa ser adotada, essencialmente, não pelo que ela tem de bom, de justo, de certo, mas pelo que ela tem de útil. É com esse foco que uma decisão aparentemente ruim pode derivar para um resultado bom, ao trazer utilidade para muitos, e não unicamente para o indivíduo que a toma. Sem liberdade, estes resultados são ocos de conteúdo ético.

Então é isso. Como eu disse lá no começo, a Ética é um dos temas mais controversos e mais explorados na Filosofia hodierna, principalmente por ser um tema muito colado à cultura, que tem por característica uma intensa variação no decorrer dos tempos, e, mais ainda, estar associada a valores, que não são confortavelmente adaptados de um espaço para outro, de um tempo para outro, de um modo de pensar para outro. Por isso, ao contrário do que ocorre com outras áreas filosóficas, é tema que nunca sai de moda, e sempre é polêmico.

Recomendação de Leitura:

Normalmente, eu indicaria Ética a Nicômaco, de Aristóteles, como bom livro para saber mais sobre Ética. Mas, como já o fiz anteriormente, vou mencionar o diálogo platônico que mencionei neste texto. Recomendo também que os meus diletos leitores explorem os links que montei neste texto, pois há mais recomendações em cada um deles. Boa leitura.

PLATÃO. Críton. In: Diálogos. São Paulo: Cultrix, 1972.

* Axiologia é uma tentativa de se estabelecer o estudo de valores humanos, que nasce da Economia e que se espraia para outras áreas das Ciências Humanas. É muito discutível se existe a necessidade de se apartar da Ética algo que é inerente a ela mesma. Afinal de contas, conceitos de bem e de justiça, por exemplo, estão na medula desta última. Entendo que o estabelecimento de um campo a parte somente traria confusão. Vamos ver como os seus defensores podem nos convencer do contrário. Mas o termo “axiológico” é plenamente válido quando queremos nos reportar à questão de como os valores devem ser interpretados.

** O Helenismo é uma fase histórica da máxima expansão grega, obtida com o império de Alexandre Magno. Muito embora carregasse forte fundamento dos pensadores clássicos, a filosofia desta época se caracterizou pelas novas informações obtidas pelas conquistas gregas, ajuntando influências de pensadores do universo árabe, norte-africano, persa e até mesmo indo-chinês, aprofundando o traço ético de suas bases.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (07 – Lógica)

Olá!


Tratei da questão do conhecimento nos últimos três textos desta série (Teoria do Conhecimento, Gnosiologia e Epistemologia), e neles deixei bem claro que a racionalidade que o absorve não o faz a esmo, como se fosse um punhado de feijão numa caixa de sapatos. Ao contrário, os dados que recebemos do mundo exterior são admitidos, classificados e combinados com o conteúdo preexistente nas misteriosas câmaras ocultas de nossa massa cinzenta, de forma a fazer sentidos novos, ressignificar antigos e rejeitar incongruentes. É por isso que estranhamos truques de mágica, que fogem à organização clássica a que nossa mente está acostumada. Não esperamos que a moça que é serrada ao meio saia ilesa de sua aventura, embora o final seja feliz. O descompasso entre conhecimento e realidade às vezes é tão grande que não o aceitamos pacificamente, em um processo de dissonância cognitiva. Isso tudo porque temos uma ferramenta psíquica que é praticamente sinônimo de razão, e que será o tema doravante abordado: a Lógica.


A palavra “lógica” vem do termo grego logos, que possui uma multiplicidade de significados. Quer dizer estudo, como nas diferentes disciplinas médicas (endocrinologia – estudo das glândulas); pode significar discurso, como em termos linguísticos (diálogo – por meio do discurso) ou, o que mais nos interessa aqui, indica razão. Vocês verão, no jargão filosófico, o uso profuso deste termo em seu original grego, em alguns momentos até como sinônimo de divindade, o saber supremo e purificado das paixões humanas.

Sempre o ser humano aplicou a lógica como um procedimento natural do pensamento. A não ser que se tenha problemas cognitivos sérios ou não haja outra saída, não se tentará enfrentar um brutamontes com as mãos peladas. Não faz sentido apanhar à toa. Esse é um pensamento meramente informal, intuitivo, que já reside em nossas conexões sinápticas atavicamente. Mas, como disciplina formal, como pensamento ordenado, como conjunto de regras de raciocínio, nasce com Aristóteles, que achava que a dialética platônica não era sempre eficiente como ferramenta. Isso porque Platão exigia que se colocassem dois polos em contradição de uma mesma questão para deles extrair pontos de consenso e chegar a uma verdade comum. Seu principal propósito com isso era detectar fluxos de aparência, sendo que o caminho dialético transitava entre o Ser e o não-Ser, detectando suas transformações, mas mantendo os rastros de suas essências, de modo a atingir o cume do mundo das ideias. Aristóteles entendia que a contradição não era condição necessária. Um bom exemplo é o da água: o vapor que se condensa e resfria até se tornar gelo não é contrário a si mesmo – só as temperaturas são contrárias. O elemento essencialmente continua o mesmo, em qualquer estado que se encontre, não se transforma em não-Ser. Por isso, embora reconheça a mutabilidade dos fenômenos, a Filosofia aristotélica objetiva uma estrutura comum ao raciocínio, e é a isso que damos o nome de Lógica.

Sempre é bom começar com um exemplo, muito embora já tenha tratado do tema neste texto. Temos uma apreensão qualquer em nossas redondezas. Digamos que olho por sobre o cinzento horizonte de prédios e vejo um urubu, por lá voejando. Quando eu faço isso, busco informações em minha memória, como o animal de que se trata, o fundo no qual transita, a luminosidade, a direção da paisagem. Concomitantemente, tudo é processado de forma a construir uma situação interpretável. Isso é um juízo, mas percebam que está ainda isolado em nossos neurônios. Para se tornar manifesto, é preciso que o juízo seja codificado pela linguagem, e desta forma ele se transformará em proposição, um desenvolvimento simbólico que pode ganhar um valor de verdade (verdadeiro ou falso). No caso, a tradução do juízo feito pode ser assim: “Observei um urubu voando sobre os prédios”. Isso pode ou não ser verdade – pode ser outra ave, uma nuvem no seu formato, um OVNI, a besta-fera do Apocalipse; posso ainda ter sonhado ou simplesmente estar mentindo. O que importa na proposição é dizer se ela é verdadeira ou falsa. A linguagem tem outros recursos, como as perguntas, as interjeições, as funções fáticas, ou o modo imperativo, que abrange ordens, pedidos e sugestões. Nestes casos, não há como atribuir valor de verdade à expressão, e não se tratam de proposições, que, como nos faz pensar a sua etimologia, é uma proposta sobre um juízo que envolve um sujeito e um predicado.

Um juízo pode ser visto isoladamente, mas a concatenação entre vários deles é aquilo que chamamos de raciocínio. Começamos aqui a especular sobre desvios e alternativas, como é o caso que ocorre quando perguntamos o porquê do nosso caro lixeiro natural estar adejando pelas redondezas. Pensamos: “quando um urubu plana em círculos, há carniça na região. Como nosso amigo está voando reto, não deve ser o caso”. Vejam como, a partir de agora, há uma conexão entre vários juízos traduzidos em proposições, que permite chegar a uma conclusão ulterior, o que Aristóteles chamou de silogismo. Este é o princípio geral da dedução, uma análise que se utiliza de premissas válidas (ainda que verdadeiras ou falsas) para chegar a uma conclusão igualmente válida. Precisamos tomar cuidado com os conceitos de validade e de verdade. Um raciocínio pode ser válido, porém falso. É isso o que garante a mecânica do silogismo: em um raciocínio válido, premissas verdadeiras garantem conclusão verdadeira.

Além disso, a construção adequada do silogismo garante o atendimento dos três princípios lógicos fundamentais: o princípio da identidade assegura que o objeto seja representado em si mesmo, e que não se confunda com nenhum outro; o princípio da não-contradição reza que uma sentença não pode ser verdadeira e falsa na mesma relação, somente uma delas; e o princípio do terceiro excluído tem o escopo de garantir que uma declaração seja verdadeira ou falsa, sem meia-verdade, nem mentirinha branca.

O silogismo, entretanto, apresenta dois problemas sérios. O primeiro é sua pouca utilidade no âmbito científico, que discutirei mais detalhadamente no tópico desta série destinado à Filosofia da Ciência; e o segundo são as armadilhas da linguagem. De fato, esta é um negócio dúbio, e a existência das falácias é prova disso (vejam aqui a lista do Pequeno Guia das Grandes Falácias). Uma coisa pode ser designada por muitas palavras diferentes, como é o caso do diabo, que pode ser nominado como cramunhão, satanás, demônio, capiroto, pero botelho, danado, tinhoso, peludo, lúcifer, encourado, cão, coisa-ruim e tantos outros. Por outro lado, uma mesma palavra pode ter vários significados (polissemia), como é o caso de alto, que pode significar alguém de muita estatura, local elevado, pessoa levemente ébria, ordem de parada militar, objeto erguido, condição de cargo importante, mercadoria de preço salgado, som muito intenso, mar distante da costa e outros. Além do mais, apesar da riqueza das línguas latinas, elas têm limites em expressar corretamente suas funções sintáticas dentro de uma frase. Quando eu falo “estudo”, isso pode significar tanto o ato de aprimoramento da cognição (um substantivo) ou a afirmação da ação de estudar da primeira pessoa do singular no presente do indicativo, ou seja, um verbo. Por isso, há muitas contradições que são inerentes à linguagem. No entanto, ela é imprescindível para representar as inferências dos raciocínios. Como seria possível reduzir os possíveis danos causados à coerência das proposições e dar correção ao raciocínio? É para isso que filósofos como Leibniz, Frege, Boole e Russell, apenas para dar alguns nomes, se dedicaram à tentativa de aproximar a Lógica da Matemática, através não só da descoberta das articulações entre as expressões, mas de sua codificação. É o que chamamos de Lógica Simbólica, uma evolução da Lógica Formal aristotélica.

Não vou me aprofundar muito, porque já pincelei o tema aqui e porque senão a coisa vai muito longe. A ideia básica é transformar os itens de uma proposição em símbolos, de modo que eles substituam as sentenças, exatamente como funciona uma função matemática. Se a fórmula resultante for bem formada, poderemos aplicar essa estrutura a diversas condições de raciocínio, sempre sabendo adequar cada conjunto de informações a uma combinação adequada com seus respectivos conectores. Estes últimos são aqueles que dão uma noção de nexo entre sentenças, e como a validade de uma tem que se articular com a validade da outra para produzir um resultado geral. Tá meio confuso, vamos trocar em miúdos.

O primeiro passo é atomizar cada uma das sentenças de uma proposição. Continuando com o exemplo de nossa soturna ave, podemos imaginar a seguinte declaração: “Um urubu está voando em círculos”. Como é uma sentença declarativa, pode receber um valor de verdade. Habitualmente, ela será substituída na lógica simbólica por uma letra do alfabeto, em geral começando por p.

p = um urubu está voando em círculos

Daí para frente, começamos a medir as consequências da verdade ou da falsidade da declaração. Para tanto, utilizamos uma tabela-verdade, extremamente frequente em cursos de iniciação na nobre arte do desenvolvimento de sistemas computacionais, como o que fiz em minha já longínqua juventude. Para preenchê-la, devemos abrir tantas colunas quantas forem as sentenças existentes, somadas às conexões a serem resolvidas. Neste caso, não há conexões, porque a frase é unitária. Sua tabela-verdade, portanto, limita-se a medir sua verdade individual.


O que temos acima? A indicação de que a sentença p pode ser verdadeira ou falsa, e nada mais do que isso. Isso dá atendimento aos três princípios lógicos aristotélicos: o princípio da identidade é satisfeito pela nominação que fazemos da expressão p, o princípio da não-contradição é atendido pelo fato de que a expressão não poderá ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo e na mesma relação e o princípio do terceiro excluído é cumprido pela razão de que a expressão somente poderá ser verdadeira ou falsa, sem uma terceira hipótese. 

Daí, a tabela-verdade acima atende aos requisitos da boa lógica e permite calcular corretamente seus resultados. Só que ela é simples demais, por representar só uma proposição singular. Para ter graça precisamos ir complicando-a passo a passo. O primeiro deles é lembrar que uma declaração não é obrigatoriamente afirmativa. A assertiva “um urubu NÃO está voando em círculos” é tão proposicional quanto a primeira forma. Sendo assim, é possível trabalhar com negações também, e há um operador que permite isso, invertendo o valor lógico de uma sentença. É chamado de negação, tem o nome operacional de NÃO e é simbolizado por ¬. Note-se que a tabela-verdade já ganhou uma coluna, ainda que não tenha crescido o número de operandos (ainda temos somente p), mas já temos uma operação. A tabela verdade ficaria da seguinte forma:

¬p


Consideremos agora a seguinte frase: “um urubu está voando em círculos e está se aproximando do chão”. Aqui, temos uma pequena armadilha. Aparentemente, a proposição é unitária, mas o fato é que há dois pontos que podem receber valor de verdade. Isso fica fácil de notar se desdobrarmos a frase:

Um urubu está voando em círculos
e
Um urubu está se aproximando do chão

Sendo assim, não nos bastará utilizar apenas um identificador p, mas dois. O segundo operando receberá o nome de q, e teremos a seguinte situação:

Um urubu está voando em círculos = p
Um urubu está se aproximando do chão=q

Também podemos perceber que, mesmo estando ambas as frases imiscuídas entre si, há um pequeno detalhe a ligá-las, uma palavrinha minúscula, de uma letra só, o E. Reescrevendo a proposição, ela ficará deste jeito:

Um urubu está voando em círculos E um urubu está se aproximando do chão

Em lógica, o uso deste conectivo significa uma conjunção, tem o nome operacional de E e é simbolizado por ˄. Nesse tipo de proposição, é preciso analisar se ambas as sentenças são verdadeiras para que o resultado final também o seja. Empiricamente, é preciso que ambas as condições sejam satisfeitas para que o que está sendo dito em uma conjunção seja verdadeiro. Se o urubu do exemplo não estiver cumprindo o voo em círculos ou se não estiver perto do pouso, haverá falsidade. Aqui, precisaremos aumentar uma coluna na tabela-verdade; nas duas primeiras colunas, teremos a valoração de cada uma das hipóteses possíveis, e na última demonstraremos o resultado de cada uma das linhas:

p ˄ q


Agora vamos mudar apenas de conectivo e observar como o cálculo será todo modificado. O valor de p e de q será idêntico ao exemplo anterior, com a diferença de que utilizaremos o conector OU. O resultado será:

Um urubu está voando em círculos OU um urubu está se aproximando do chão

Neste caso, basta que apenas uma das sentenças seja verdadeira para que toda a proposição seja verdadeira. Mas também há a hipótese de que ambas sejam verdadeiras, como no conector E. Também aqui temos o valor de verdade, porque é perfeitamente possível que nosso penoso herói esteja voando em círculos e ao mesmo tempo baixando altura. Somente haverá falsidade quando nenhuma das expressões for verdadeira. Este conectivo chama-se disjunção, tem o nome operacional de OU e é simbolizado por ˅. A tabela-verdade da disjunção é a seguinte:

p ˅ q


Há uma outra modalidade de disjunção em que há uma discreta diferença. Sabemos que existem situações em que somente uma das alternativas poderá ocorrer, ou seja, caso uma aconteça, a outra seguramente não acontecerá. Ou é uma, ou é outra. Neste caso, só teremos valor de verdade quando as premissas forem díspares entre si, como no caso abaixo:

OU um urubu está voando em círculos, OU um urubu está voando reto.

No ou... ou, somente é possível que o incansável urubu esteja presentemente voando de uma forma, por isso esse conectivo é exclusivo, não permitindo dualidades. Este conectivo chama-se disjunção exclusiva, tem o nome operacional de XOR e é simbolizado por ˅. A tabela-verdade da disjunção exclusiva é a seguinte:

p ˅ q


Agora vamos tratar das proposições condicionais e, para tanto, precisamos pegar um pouco da noção de necessidade e suficiência. Uma condição é necessária quando, sem ela, um determinado fato nem tem como ocorrer, e é suficiente quando basta que ela ocorra para que consideremos um fato como efetivo. É importante notar que toda condição necessária é, por si só, suficiente. A recíproca não é verdadeira. Vamos ao urubu:

Se um urubu está voando em círculos, então há carniça na redondeza

Um urubu está voando em círculos = p
Há carniça na redondeza = q

Neste caso, podemos interpretar a frase da seguinte forma: um dos motivos para um urubu voar em círculos é a existência de carniça, mas isso não é obrigatório. Ele pode estar fazendo esse tipo de voo por conta das correntes de ar ou porque aguarda momento adequado para pousar. Voar em círculos, portanto é uma condição suficiente. Porém, todas as vezes em que ele avista carniça, inicia seu voo circular, para pousar suavemente. Sendo assim, é uma condição necessária. Esse tipo de condição é chamado de implicação, tem o nome operacional de SE e é simbolizado por →. A tabela-verdade da implicação é a seguinte:

p → q


Finalmente, há a hipótese de que ambas as condições guardem entre si uma relação de necessidade. É o caso em que, para que uma aconteça, obrigatoriamente a outra também deverá acontecer, numa implicação recíproca. Vamos convocar pela última vez nosso já cansado urubu.

Se um urubu voando em círculos pousa, é porque tem fome

Um urubu voando em círculos pousa = p
Um urubu tem fome = q

Para matar sua fome, obrigatoriamente ele precisará pousar, porque a carniça não é voadora. Da mesma forma, o urubu voa em círculos somente quando avista carniça. Assim, ambas as ações são obrigatórias: o pouso e a fome. O urubu pousará se e somente se estiver com fome. Essa condicional é chamada de equivalência, tem o nome operacional de SSE e é simbolizado por ↔. A tabela-verdade da equivalência é a seguinte:


Mais uma coisinha: as proposições lógicas podem ter infindos termos, como é o caso daquela expressa na imagem da corujinha da abertura do texto, e a utilização de parênteses serve para mudar a prioridade na resolução de trechos, exatamente como em uma expressão matemática. Aquele exemplo é chamado de silogismo disjuntivo, e, como cada pedacinho precisa compor a tabela verdade, teremos um quadro muito mais extenso:


Há ainda outros tipos de operações, mas vou reservá-las para quando o tema trouxer interesse. Já basta para saber que a redução das proposições a símbolos “limpa” muita baboseira da linguagem e torna o raciocínio lógico mais evidente. Uma expressão como p ˅ ¬p sempre será verdadeira, o que se chama de tautologia, como na frase “o urubu está pousado ou não pousado”. Se invertermos o conectivo, teremos p ˄ ¬p, o que será sempre falso, e é uma contradição, porque o urubu não pode estar pousado e não pousado ao mesmo tempo. Asserções como essas não tem qualquer valor lógico.

O tema é aparentemente árido, como a Matemática também aparenta ser a um primeiro olhar, porque livrar a linguagem de todo o seu ouropel também tira toda a sua graça, mas podemos olhar pelo lado intrínseco da coisa, e perceber como ele também é belo, como há regras em locais que nem percebemos, como a palavra nossa de cada dia. É importante compreender como funcionam as regras de raciocínio para depurar um pouco melhor como nossas cabeças funcionam.

Recomendação de leitura:

O livro abaixo não é exatamente novo, mas é poderoso. O autor desmembra os sistemas lógicos com bastante rigor e didatismo, já que o mesmo nasceu para ser um livro-classe, e eu já o usava ainda em meus tempos de colégio, por recomendação do professor de Lógica de Programação.

COPI, Irving. Introdução à Lógica. São Paulo: Mestre Jou, 1978.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (06 – Epistemologia)

Olá!


Até o momento, falamos sobre o conhecimento de um modo geral e de como se processa a aquisição cognitiva. Mas há ainda uma pergunta muito importante a ser respondida. Sabemos que o mundo à nossa volta é repleto de informações que nos são disponibilizadas a todo momento. Nesse torvelinho incessante, há muita coisa que nossa apreensão imediata é capaz de dar conta, e é suficiente para sobrevivermos muito bem, obrigado. Mas muito do que vemos, ouvimos, cheiramos é ilusório. Nesse exato instante, por exemplo, vejo uma pessoa que se parece demais com uma determinada subcelebridade. A princípio e a distância me parece, de fato, a dita cuja, mas eu não sou muito dado a acompanhar reality shows, então não posso ter certeza. Para isso, teria que investigar um pouco melhor (o que não farei). O que minha visão me permite captar pode ou não estar de acordo com o que sei, ou, mais do que isso, com o que é real. É sobre essa possibilidade de dar valor de verdade ao conhecimento que trata a Epistemologia.


Episthéme em grego tem o mesmo significado da palavra latina scientia, e ambas são sinônimos de conhecimento. Mas, como já bem estabelecemos no vulgo, é aquele conhecimento menos genérico e mais perquirido. Quando digo que conheço a tal subcelebridade, é um conhecimento en passant: nunca vi a moça ao vivo, podemos ter uma sósia à nossa frente, uma irmã gêmea ou coisa que o valha. Conhecer, no sentido epistemológico, é outra coisa. Para isso, precisaria de uma identidade, de uma comparação por fotos, da certificação de outras pessoas, ou seja, de elementos que calcem de maneira mais sólida minha impressão.

Serei mais claro. Esse mundo que nos cerca, já citado acima, se manifesta a consciências, e estas, por sua vez, captam-no através dos sentidos. Isso posto, já podemos definir dois grandes imbróglios: consciências dependem de conhecimento anterior, de capacidade lógica, de usos habituais, de aptidões, e isso é variável de indivíduo para indivíduo. E os sentidos enganam, como já é sobejamente sabido, além de também serem exclusivos de cada ser. A conclusão rápida é que, de nossa apreensão imediata, não podemos extrair uma certeza absoluta, mas uma opinião. É claro que não temos isso na cabeça permanentemente, até porque há muita coisa a ser resolvida rapidamente, e passamos a assumir essas opiniões como verdades sem muito critério. Afinal, se a bandeirosa e retro citada sub é mesmo ou não a sub, pouco importa, nada mudará na mecânica cosmológica nem no campeonato brasileiro. Isso fará parte da minha crença.

Crer significa dar crédito, atribuir valor. Em nossas crenças, estão atribuídas as opiniões acerca de tudo. Por exemplo: eu creio que o Corinthians é o melhor time do mundo, e, por isso, torço para tal agremiação. Como futebol é tema típico do campo opinativo, é impossível responder se isso corresponde à verdade, mas está no meu conjunto de crenças, é verdade para mim, e que podem ser falhos quando comparados com outros critérios igualmente subjetivos. Mas há coisas objetivas e indubitáveis sobre o Corinthians: seus títulos, sua tradição, sua grande torcida, capaz de promover os maiores deslocamentos humanos em tempos de paz do pobre planetinha: o recorde absoluto de 1976 para o Rio de Janeiro, e o intercontinental, para o Japão em 2012. Isso são dados que podem ou não fazer diferença em uma opinião, mas que são inescapáveis, são reais. Tudo isso para dizer que, no arcabouço de nossa intelectividade, há uma parte da crença que corresponde a conhecimentos verdadeiros.

Mas o que é essa tal de verdade que a Epistemologia tanto persegue? Já versei anteriormente sobre tal temática, mas vou resgatá-la aqui, deixando de lado os aspectos histórico-etimológicos e reforçando os estruturais. Há três maneiras para caracterizá-la que se imiscuem: a correspondência, a coerência e o consenso. As três tem suas vantagens e fragilidades, o que, desde já, permite-me dizer que não é confortável achar uma verdade sobre a verdade. Eu diria, até mesmo, ser impossível.

Dizemos que procuramos correspondência quando queremos estabelecer um vínculo entre o objeto que observamos com seu real significado. Se observo uma cadeira, intuo rapidamente seu material, sua forma, sua utilização, seu tempo de uso. Mas a correspondência exata é algo que se vai construindo aos poucos. Eu a toco, e percebo que ela imita madeira, mas é de plástico; parece ser dobrável, mas algum marceneiro inábil a fixou com uma trava; parecer ser para sentar, mas está sendo usada como prateleira, dada a sujeira em seu assento; parece ser velha, mas lhe foi aplicada pátina artificialmente. A busca pela correspondência depura os desvios dos sentidos, na tentativa de obter a verdade sobre o objeto presente, colocado à nossa consciência nesse momento, tal como ele é.

Quando buscamos coerência, estamos tentando concatenar logicamente os fatos, de maneira que a linha do tempo conduza harmonicamente o desenrolar de uma determinada história. Quando ouvimos cantilenas contadas por crianças, por exemplo, precisamos desligar um pouco nossa crítica, porque elas sempre contarão coisas estupefacientes. Se assistirmos a um filme de aventura, precisamos suspender nossa descrença, sob pena de não aproveitarmos nada do enredo. Todo relato é, a princípio, duvidoso, mas vai ganhando credibilidade à medida que se demonstra coerente. E coerente com que? Com as evidências. É isso que pensamos quando usamos a expressão “batom na cueca”. A evidência muito forte desmonta a coerência de qualquer relato que não seja a confissão de culpa, que é a única concatenação lógica possível sem malabarismos, nesse caso. Mas é óbvio que nem sempre há um guia tão escancarado, e nos vemos envoltos em relatos discrepantes, às vezes igualmente críveis. Quando queremos reconstruir um fato histórico, é preciso juntar as peças do quebra-cabeças de forma que o encaixe seja perfeito. Se eu contar que fiquei escrevendo este texto na mesa do quarto, tudo bem, é perfeitamente possível; se essa mesa não estiver no quarto, mas em um parque (como faço agora), alguém haverá de perguntar porque esse bobo não vai deitar na grama ao invés de meditar hermeticamente, mas ainda assim o relato é coerente; se eu disser que escrevi no meio do mar, já será mais difícil de crer – posso alegar uma tinta especial e um papel impermeável, mas já é preciso provar a existência de tais artefatos; se eu disser que não o escrevi, mas que me foi entregue pronto por um gnomo, surgirá amplo descrédito. A coerência emerge do encadeamento lógico dos fatos ocorridos e de sua descrição consistente. Quanto melhor o relato, maior sua conformidade com o que ocorreu. E, em geral, é a melhor ferramenta que temos para descrever fatos já ocorridos, dos quais não temos mais disponibilidade física para estabelecer correspondência.

Finalmente, fazemos busca pelo consenso quando existe mais de uma possibilidade para expressar a verdade. É o que se tem em profusão na academia para que se defina qual é a melhor corrente que explique um determinado fenômeno. Um exemplo bem simplesinho: o que é melhor para servir de almoço no próximo fim-de-semana? Há duas ideias – polenta ou feijoada. Reconhece-se que ambas são boas opções. A polenta é barata, fácil de fazer, recebe uma infinidade de molhos. A feijoada é saborosa, serve muita gente, fica melhor ainda no dia seguinte. Há também os contras: polenta é carboidrato puro, seu ponto é fácil de errar, exige algum acompanhamento; feijoada é pesada e de digestão lenta, impede vegetarianos de acompanhar a festa, demora horas para ficar pronta. A decisão final será aquela que o grupo sopesar de suas vantagens e desvantagens, no sentido epistemológico da coisa – os conhecimentos são postos em confronto e avaliados. Bem pesado e bem medido, o consenso atingido ganha estatuto de verdade, principalmente porque não é uma decisão autocrática. Os partidários exercem sua prerrogativa de indicar bons motivos para um ou outro. É uma verdade que se baseia na expectativa do resultado, que se calça na confiança nas razões expressas. É consenso, por exemplo, que o sol surgirá no horizonte amanhã. Parece algo muito semelhante à fé, e é mesmo, mas teríamos um ceticismo absoluto se não possuíssemos um mínimo de confiança naquilo que os contextos científico, histórico e social estabelecem como real.

Falemos de dificuldades. Não é tranquilo confiar unicamente nos sentidos para absorver dados, mas não temos outra via disponível. Mesmo que concordemos que o raciocínio tem tal capacidade abstrata que permita desenvolver cálculos de cair o queixo, o fato é que há um cosmos e ele está disponível para nossos parcos recursos físicos, e não para nossa racionalidade, ao menos diretamente. Obter correspondência tem esse calcanhar de Aquiles. Com relação à coerência, a coisa é pior. Histórias muito bem inventadas por mentes brilhantes são perfeitamente críveis, e os marcos que permitem aferi-las são concretos, de modo que a coerência não pode operar sozinha. E o consenso, ora bolas, pode estar errado. Ele muda no decorrer do tempo, bastando lembrar de teses científicas e deliberações sociais que persistiram por séculos, cujo aprofundamento no conhecimento ou nas disposições éticas fizeram ir para os ares, e novos consensos fazem brotar novas verdades.

Além disso, correspondência, coerência e consenso, no final das contas, são ferramentas do discurso para representar a realidade, mas não são a realidade em si mesma. Ainda que seja possível atingir um máximo de proximidade com um mínimo de erro, a interpretação da realidade sempre passará pelo filtro da pessoa, e aí há diferenças de crivo, inevitavelmente. É por isso que a Epistemologia tem buscado tratar a verdade cada vez mais como verossimilhança, e não como certeza, assumindo que é um pouco difícil desvencilhar totalmente conhecimento e crença. Por isso mesmo, a Ciência nunca é definitiva, mas falaremos melhor sobre isso em momento próprio.

Um bom exemplo de como é cheia de nuances a questão é a divergência entre Platão e Aristóteles com relação à fonte do conhecimento. Platão entende que há um mundo das ideias onde residem as formas perfeitas, que plasmam tudo o que existe concretamente. Essas formas perfeitas seriam atingíveis unicamente pela intelecção pura, através de um gradual processo dialético. Já Aristóteles entende que o puro raciocínio não é capaz de nada sem experiências que lhe proponham conteúdo. O conhecimento está nas próprias coisas, e não em um mundo à parte.

Mas isso quer dizer que cada amostra de um objeto qualquer anula completamente outra, observada outrora? Não, e é isso que faz o raciocínio humano se tornar um diferencial. Aristóteles entende que o conhecimento é indissociável da Ontologia (veja aqui para saber mais), porque conhecer é conhecer essências. Por exemplo: a camisa do Corinthians é preta e branca. A do Palmeiras, é verde. Some-se o vermelho e teremos a da Lusa. A do Juventus é grená e temos dois tricolores na cidade, o São Paulo e o Nacional. Temos até um blaugrana tupiniquim, o Barceloninha de Capela do Socorro. Todas essas cores e a existência de escudos, bem como suas golas e punhos, não definem o que é camisa. São contingências às quais Aristóteles chamava de acidentes. Mas é deles que deduzimos as essências, os verdadeiros objetos do conhecimento, e essa é a função do puro intelecto, porque é aí que realizamos as concatenações necessárias, as classificações e organizações que permitem enxergar o que define as coisas. Uma camisa não é uma camisa por ser do Corinthians ou do Palmeiras, mas por cobrir o tórax, por ser feita de tecido amoldável ao corpo, por se limitar ao pescoço e à cintura. Esse é o cerne aristotélico da essência e da verdade.

Em suma: a Epistemologia é a parte da Teoria do Conhecimento que está mais interessada em um conhecimento racionalmente embasado do que no simples ato cognitivo, tarefa esta mais afeita à Gnosiologia, já devidamente destrinchada, e lembrando ainda que essa divisão não é exatamente consensual, muitas vezes sendo uma tomada por sinônimo da outra. Bons ventos a todos.

Recomendação de leitura:

Para ler, recomendo a fusão das obras aristotélicas sobre a interpretação das coisas no mundo e da análise do conhecimento.

ARISTÓTELES. Órganon. São Paulo: Edipro, 2016.

Obs: Na figurinha que ilustra este texto, tenho não só o mocho do Rush, mas a serpente do Whitesnake, do álbum Trouble, daqueles tempos em que Coverdale et caterva estavam mais preocupados em fazer bom rock'n'roll do que ostentar topetes gigantescos.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (05 – Gnosiologia)

Olá!


Continuando com o tema conhecimento, vamos agora falar sobre a Gnosiologia. Como já disse no texto anterior, o conhecimento começa a partir da captação direta de um objeto feita por um sujeito através dos seus sentidos. Essa espécie de contato nasce como intuição, ou seja, não há grandes processos mentais envolvidos na cena. Eu vejo uma bola, ouço uma comemoração, sinto cheiro de grama, saboreio amendoim e ralo a bunda em um degrau: pela intuição direta, já sei que estou em uma partida de futebol. Obviamente isso não se dá sem um depósito de experiências. Eu já sei o que é aquele objeto esférico, já sei que aqueles gritos não são de guerra ou de desespero (bom, às vezes são), já senti aquele cheiro outras vezes e assim por diante. Em suma, essas experiências anteriores são registradas e posteriormente reavivadas em um momento onde necessito abrir os arquivos. Essa é a função da memória, o repositório de informações que permite o raciocínio. O processo de aquisição de informações novas e o seu processamento com dados preexistentes é o que os gregos chamavam de gnosé, que deu origem ao termo ora estudado, a Gnosiologia.



Pode-se dizer que a Gnosiologia é a parte da Teoria do Conhecimento que se ocupa de investigar o conhecimento de uma forma mais geral, sem uma preocupação muito grande com o seu valor de verdade, mas de como interagimos com o meio que nos envolve e como esse intercâmbio enriquece nosso arcabouço intelectivo. O que importa aqui é o fenômeno do conhecimento, e não de seu valor intrínseco.

Uma das perguntas fundamentais da gnosiologia é: Quais são os limites do nosso conhecimento? Haverá um momento tal em que não haverá mais nada a ser aprendido? É possível existir uma enciclopédia que contenha tudo? Obviamente esta é uma daquelas perguntas utópicas, do tipo pedra filosofal ou fonte da juventude, mas que está carregada de desejo de saber até onde podemos chegar. Existem dois extremos com relação à possibilidade de conhecer. De um lado, temos a resposta que afirma ser o conhecimento plenamente possível, formado por verdades absolutas e imutáveis. Do outro, temos a consciência de que nenhum conhecimento é possível de obter com firmeza, havendo sempre a suspeita de que estejamos enganados. Traduzindo em correntes, temos o dogmatismo e o ceticismo.

Em primeiro lugar, é preciso entender o que é um dogma e o que é uma dúvida cética, já que essas palavras andam meio desgastadas pelo seu uso no vulgo. De fato, quando dizemos que alguém é dogmático, pensamos naqueles caras intransigentes em suas posições e opiniões imutáveis. Isso não se dá sem motivo, como se verá. Mas o fato é que um dogma pode ter o mesmo sentido que se dá, em Ciências, aos axiomas e postulados (vide este texto para compreender um pouco melhor a terminologia técnica).

Muita coisa se apresenta evidente à nossa observação, e, com isso, temos a tendência de achar que certas coisas são como são e ponto final. Isso é mesmo intuitivo, porque criamos uma habitualidade na contemplação dos fenômenos que se repetem à exaustão, como o nascer do sol, o pio das aves, o vento que desmancha os cabelos e demais poesias. Mas é preciso pensar que em toda absorção das informações que nos rodeiam, temos dois polos bem distintos e intrinsecamente relacionados: um sujeito cognoscente e um objeto cognoscível, ou alguém que se propõe a conhecer algo disponível a ser conhecido.

Quando o ponto de vista é dogmático, entendemos que o cerne do conhecimento está no objeto, que nos é entregue pronto e acabado para ser conhecido. Os dogmas são centrais nas religiões, que necessitam de fundamentos constituídos por pontos indisputáveis e verdades absolutas; do contrário, teriam desmanchadas as estruturas que as constituem, com divindades mutáveis e imperfeitas. As religiões professam a existência de uma verdade revelada, em que não há discussão possível – a deidade a concede, o crente a obedece. Isso significa que os dogmas religiosos estão errados? Não foi isso que eu disse, mas essa é a mecânica da coisa. E o pensamento dogmático não está obrigatoriamente ligado à Religião, mas à certeza que se tem sobre o objeto. Mesmo a Ciência, de certa forma, usa dogmas, na medida em que axiomas e postulados são tidos como evidentes em si próprios. A diferença talvez consista no fato de que axiomas não são discutidos porque já o foram anterior e devidamente consolidados.

Mas elucubremos. É-nos dada uma cebola e começamos a descascá-la, enfadonhamente. Removemos a fina casca parda, tiramos a primeira camada, a segunda, a terceira... Choramos com o gás emanado e chegamos ao miolo esverdeado, sem novidade nenhuma. Nosso vizinho faz o mesmo, mas não chora, e animadamente despela o vegetal. Ao chegar no miolo encontra uma bela lagarta (não sei se dá lagarta em cebola). Outra pessoa, que sente os olhos arder apenas, quer se livrar logo da tarefa e encontra o miolo apodrecido, escuro e mal-cheiroso. Outra ainda nem passa da casca, toda melada que se encontra sua cebola. Faz o dever de maneira indiferente, mas é tão sensível que já chora só de pegá-la.

A primeira conclusão é que analisar uma cebola não significa analisar todas as cebolas. Cada uma tem suas sutilezas, e para chegar a uma teoria geral das cebolas eu precisaria analisar todas as amarilidáceas do mundo, o que é impossível. A segunda é que cada uma das pessoas tem seu próprio conjunto de sentidos e de motivações, o que lhes causa diferentes reações físicas e psicológicas na análise. E a terceira é que cada uma delas tem um conjunto próprio de pré-concepções, que variam desde um contato inédito com o bulbo até seu uso diário. Daí, podemos perceber que o sujeito não é um polo passivo na relação do conhecimento, como quer o dogmatismo. Diferentes percepções e diferentes pontos de vista fazem com que tenhamos algo que os religiosos se arrepiem só de ouvir falar: o relativismo, que, uma vez exacerbado, leva a crer que toda correlação cognitiva está do lado do sujeito. O conhecimento seria uma doação de sentido do sujeito para o objeto, e, uma vez reconhecida sua individualidade e irrepetibilidade, conclui-se ser impossível conhecer. Essa é a posição do ceticismo.

Mas não é bom ser cético? Sim, é. Precisamos duvidar por uma mera questão de sobrevivência: o leão que hoje passa ao nosso lado saciado pode estar faminto amanhã. O problema é que o ceticismo absoluto é imobilizante e contraditório, porque quando decretamos que o conhecimento é impossível, já estamos estabelecendo uma lei. Então sabemos que não pode ser sabido. Duvidar apenas por duvidar é mera intransigência.

E por onde trafega então esse tal de conhecimento? Como não há objeto sem sujeito e vice-versa, a relação cognitiva não pode ser vista de modo desmembrado. É uma interação que não tem um lado mais importante – todos são intrínsecos à relação, como se fosse um organismo: posso pensar que o cérebro é o órgão mais importante, mas tenho uma massa muscular lisa que só se presta a bombear incessantemente, totalmente, acriticamente, quase idiotamente, mas sem a qual eu não vivo. De fato, o conhecimento é constituído por uma relação entre pensamento e realidade que se dá de forma muito complexa. Quando um fato se desenrola em nossa frente, muito do significado que é dado a ele reside em nós mesmos.

Alguns exemplos banais para entendermos melhor: uma final de Campeonato Paulista. Recentemente, Corinthians e Palmeiras se digladiaram em uma partida cheia de controvérsias, que terminou nos pênaltis. Fiz uma experiência de cunho científico – coloquei um esfigmomanômetro no pulso e pus para medir a cada penalidade cobrada. O ápice não foi no resultado final, mas na cobrança desperdiçada pelo Fagner, lateral-direito do Timão: 20 por 12. Nesse meio-tempo, uma ligação inoportuna reboa em meus tímpanos. Olho para o número no bina e lá está: minha sogra. Deixa tocar que já-já a patroa retorna. Minha reação a futebol é essa mesma. Se vejo pela TV, parece que estou no estádio; se estou no estádio, parece que estou no campo. Não sou do tipo de torcedor que xinga e grita a cada instante, mas estamos em momento extremo. É uma final, e chego a ficar de olho seco de tanto não piscar. Já a minha sogra está cagando para futebol. Chega a ser uma perturbação para ela, tanto a barulheira dos fogos, quanto o telefone que não é atendido.

Notam as inúmeras diferenças que há entre as percepções dos fatos por conta do significado que se dá a eles? Para mim, o momento das cobranças é o centro do universo, e a captação e absorção de imagens é torrencial. Sei quem cobra e quem defende, observo a coreografia de quem chuta, a movimentação do goleiro e a reação do juiz, tudo em um átimo. Sinto raiva, desespero, aflição, angústia, para desembocar na alegria final, o dia justificado, o sofrimento esquecido, e vou baixar a pressão ouvindo as resenhas de fim de jogo no rádio, um hábito antigo e comum em quem tem mais de quarenta. Para minha sogra, o jogo é só uma imagem na tela da TV, acompanhada por bombas e gritos, nesse dia específico. Para mim, é uma consagração; para ela, uma perturbação. Só que, para além desse jogo de significações, há a partida em si. O fato concreto é decepcionantemente simples: vinte e dois marmanjos correndo atrás de uma bola. Alguns de branco, outros de verde, todos tentando vasar a meta adversária, de acordo com regras nem sempre seguidas. O significado que damos ao fato não retratam o fato em si. É por esse viés que se cede sentido ao objeto e ninguém é passivo nessa relação.

Vou dar um exemplo ainda mais simples e definitivo. Vejam a figurinha abaixo:


Isso é o que chamamos de cubo de Necker. Nada mais é do que a simulação de um hexaedro transparente. Imaginemos se tratar de uma caixa, com uma única boca aberta. O cubo de Necker não nos permite determinar qual das faces representa a abertura da caixa. Se for a superior, teremos uma caixa pronta para receber carga.


Se for a de baixo, parecerá que a caixa já foi esvaziada.


Se for uma das laterais, podemos intuir que se trata de uma carga especial, tanto para entrar quanto para sair. O importante é perceber o quanto nossa visão se torna confusa à proporção que nos concentramos na figura.


De quem parte o sentido dado a este objeto? Quem determina qual é a embocadura da caixa? Parte é da perspectiva do sujeito, que “enxerga” o cubo da maneira que melhor lhe dá a perceber os seus sentidos. Parte é do objeto, que se apresenta como ele é para ser absorvido por um observador qualquer, mas que, em condições normais de temperatura e pressão, não dá informações que não tem. Ele não se mostra como uma esfera, por exemplo. E, no final das contas, não temos caixa alguma à nossa frente, mas uma porção de traços retos. Se não assumirmos, nós mesmos, que esses traços constituem a abstração de uma caixa, nada representarão na relação. Portanto, tanto um quanto o outro são partícipes inescapáveis do processo de aquisição de conhecimento.

Outra propositura gnosiológica diz respeito ao nascedouro do processo racional. É sabido que a mente humana tem a capacidade de receber informações do mundo que a rodeia e de transformá-la em conhecimento, como já exposto anteriormente. Mas o que é necessário para realizar a receita? Até o século XVIII, havia duas correntes que se opunham na resposta. Uma parte dos pensadores entendia que o equipamento intelectual humano era suficientemente bem construído para cumprir a tarefa da cognição por si só. Nessa visão, o homem já possui todos os requisitos para pensar racionalmente desde seu nascimento, e suas observações são meros ativadores de funções mentais preexistentes. É como se o homem já nascesse podendo conhecer o que conhece, bastando a existência de um contato com o mundo exterior para que uma rede de correlações internas seja disparada, e o conhecimento se produza. Esses são os inatistas, e é uma galera composta por gente do naipe de Sócrates, Platão, Santo Agostinho, Descartes e Leibniz.

A corrente antagônica entendia que a mente humana era uma grande folha em branco (uma tabula rasa, em dizer mais filosófico). Ela seria constituída por aquilo que fosse escrito nela, ou seja, unicamente pelas coisas que sua experiência, sua vivência e suas investigações conseguiram captar do universo que a cerca, através de seus sentidos e da acumulação de saberes. Por esta razão, os partidários desta ideia somente admitem como reais os raciocínios que partem da aquisição de dados sensoriais, objetos colocados como palpáveis à nossa frente. São os empiristas, que abrangem Aristóteles, Bacon, Hobbes, Locke, Hume et caterva.

Quem aplica um ippon na querela é Kant, que brilhantemente assevera o que cada uma das tendências tem de certo e de errado. Dos empiristas, afirma que acertam em cheio quando dizem que a única fonte de informações são os sentidos. Nada do que é processado pela mente chega lá sem sua intervenção. Portanto, ideias não nascem do nada, mas das apreensões que fazemos dos objetos que nos são dispostos. Mas a tese da tabula rasa também não é correta. É como se a folha de nosso intelecto não fosse meramente em branco, mas como se as experiências fossem escritas em folhas já pautadas, numeradas e com margens bem delineadas. Essa estrutura onde os dados empíricos são escritos é própria da natureza do intelecto humano, e, portanto, são seus constitutivos. Em resumo, são inatas. A estrutura da mente é inata, e seus conteúdos são empíricos. Já havia falado anteriormente sobre isso, neste texto.

Juntando todos estes elementos, podemos pensar em uma das frases mais emblemáticas de Sócrates, patrono daqueles que gostam de queimar neurônios: “Tudo o que sei é que nada sei”. Essa confissão de ignorância não é a assunção de uma parvoíce, muito pelo contrário. É evidente que Sócrates sabia de muitas coisas, mas sua principal sabedoria residia em não se iludir com relação a uma pretensa solidez permanente de seus conhecimentos. Para torná-los mais consistentes, Sócrates ia buscar o nível do conceito, muito mais profundo do que a mera aparência poderia fazer supor. Ele queria saber o que é a justiça, e não o homem justo; o que é a coragem, e não o homem corajoso. Esses últimos são concreções, são exemplos, mas de quê? Será que não achamos alguém justo ou corajoso apenas pelo que nomeia o senso comum? E é nessa busca que Sócrates exerce sua maiêutica e admite sua ignorância, apenas para se provar verdadeiro sábio, que se inquieta permanentemente, ao invés de se deitar nos louros do renome.

Vou ficando por aqui. Ainda tem mais um pouco da temática conhecimento no próximo texto. Até!

Recomendação de leitura:

Sócrates não deixou nada escrito, mas Platão não nos deixa sentir órfãos. O livro abaixo não é só uma narrativa da condenação e morte do parteiro de ideias, mas um pequeno tratado sobre o conhecimento. Recomendo.
PLATÃO. Apologia de Sócrates. Porto Alegre: L&PM, 2008.