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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Navegar é preciso viver - 1ª ancoragem: Monteiro Lobato (cidade) e as discussões sobre a obra de Monteiro Lobato (autor)

Olá!


Desta vez, a coisa estava beirando o insustentável. Não me refiro a irritabilidade, mau humor constante e outras casmurrices, mas a afecções físicas mesmo: uma enxaqueca insuportável, de dias, acompanhada de palpitações, além da já usual azia daqueles que abusam do café. Chego à conclusão camoniana de que é preciso navegar, é preciso viver, ou não é preciso nem navegar, nem viver... tudo junto e misturado. Antes da explosão, aproveito do fechar de olhos que a precede e peço o penico das férias por uma semana, tempo suficiente para cultuar uma prática dantes tão frequente e ora quase olvidada: a arte de dormir. É o que faço logo de estalo. Em contraposição a uma média diária de seis horas, ofereço a Morfeu o sacrifício do reconforto que se inicia às 21:00 de um dia para sair de seus domínios às 10:00 da manhã seguinte, sem nem ao menos as diabéticas interrupções para alívio, causando espanto na patroa. Devia fazer mais de 20 anos que eu não fazia uma puxada dessas.

Há quase dez anos que moro em um apartamento, o que me é experiência inédita. Sempre morei em casa, várias delas; pequenas que fossem, tinham quintais e jardins. Sinto falta disso, não só pela ausência de espaço vital, mas também pela imensa seletividade de horas de sol, restritíssimas no centro de São Paulo. Depois da maratona onírica, achei por bem ficar mais perto do astro-rei, e resolvi subir a Serra da Mantiqueira mais uma vez, o que fiz da mesma maneira incerta que relatei em outras oportunidades. Curiosamente, quanto mais se achega às proximidades do Sol, mais frio se faz. Sim, a Ciência explica isso, mas não deixa de existir um lado metafórico, algo como “quanto mais perto, mais longe”.

O importante é que tudo se inicie, e desta vez a coisa se deu pelo pequeno município de Monteiro Lobato, nome adotado para homenagear o famoso escritor, possuidor de terras na então cidade de Buquira, seu antigo nome.


Como é de se esperar, a cidade tem lojas de artesanato que se espalham por todos os lados, tematizadas pelos personagens do célebre Sítio do Picapau Amarelo. Logo na entrada da área urbana, já encontramos a loja da Gisele, que, apesar da grande quantidade de bonecos “globais”, faz questão de explicar que as ilustrações originais dos personagens são bastante diferentes.


Para melhor ilustrar, fui caçar em meus livros uma dessas imagens mais antigas, o que demonstra o fato: a boneca Emília, para dar um exemplo, tem cabelos curtos e escuros.


Mesmo lojas com comércio diversificado também procuram vender seus artesanatos e basear suas decorações em motivos “sitio-do-picapau-amarelenses”, como podemos ver na loja que tem lan house anexa...


... e nos anúncios dos cursos de artesanato. Cucas, sacis, marqueses de Rabicó, viscondes de Sabugosa e Emílias. Emílias e mais Emílias, de todas as formas e tamanhos.


Também o comércio central tem seus nomes afetados pelo consagrado literato. Percebam, no exemplo abaixo, que não só a decoração, mas os próprios nomes dos estabelecimentos utilizam referências à sua obra. Tem o mercadinho Visconde, a doceria Urupês, a pastelaria da Cuca, e o restaurante Tia Nastácia, dentre outros. Cria clima, sem dúvida.


A praça central da cidade fica em um baixio, desvinculada da igrejona típica, e congrega o grosso do comércio miúdo local, incluindo os bons restaurantes de pratos típicos e o inevitável coreto.


Já que falei da igrejona, ela fica no alto de um outeiro, e é dedicada a Nossa Senhora do Bom Sucesso, padroeira local.


A religiosidade não fica circunscrita unicamente às igrejas. Ao lado do estádio municipal, bem próximo à entrada da cidade, temos um conjunto elaborado pelo santeiro Francisco Ferreira, que é composto por uma gruta que abriga uma fonte, um minúsculo apiário (não sei se proposital) e uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes encerrada em uma capelinha de vidro.


A gruta é cercada por uma pequena e bem arranjada pracinha, onde adejam muitas, mas muitas borboletas. Trouxe um exemplo para vocês observarem.


Uma particularidade do local são os Pereirões, enormes bonecos com o feitio daqueles tão famosos de Olinda. Uma vez por mês, é tradição que uma série deles saiam pelas ruas para correr atrás das crianças, que se espalham por toda parte em desabalada carreira. No Carnaval, a farra é diária. Tivemos sorte de passar ao lado de um bar onde estava sendo feita a manutenção de alguns deles.


Por fim, o Sítio do Picapau Amarelo. A proprietária do imóvel garante ser o original, tendo em vista que aqui Monteiro Lobato tomou inspiração para escrever seus livros. Fica à beira da assim chamada Rodovia do Livro, que nasce na entrada urbana da cidade e desemboca em um lugarejo de Caçapava. A sua entrada é identificada pela célebre figura do Jeca Tatu, integrante do primeiro livro de contos do autor.


A proprietária é a dona Lúcia. Lúcia como era Lúcia o nome da menina do narizinho arrebitado, que empresta seu apelido à primeira obra infantil de Lobato. Seu avô adquiriu as terras do avô de Monteiro Lobato, segundo suas informações. Há uma caricatura sua em uma das paredes da cozinha.


É uma senhora que luta para desvencilhar o sítio da imagem global que mencionei logo atrás. Sua intenção não é recriar o ambiente das filmagens do seriado, mas restabelecer o lugar que circundava Monteiro Lobato e as referências que utilizou para inserir em sua obra. Assim como o sítio de Dona Benta, também aqui temos o casarão com alpendre na entrada...


... com vários cômodos, alguns grandes para acolher as reuniões de família ou acolher visitantes ilustres, lembrando se tratar de membros da casta de sangue azul tupiniquim...


... e com os cômodos menores, onde repousam os visitantes, e, no caso abaixo, é rememorado seu habitante mais célebre.


Há também o gigantesco quintal, equipado com o pomar, como sói acontecer nessas propriedades. Nas obras de Monteiro, a jabuticabeira era praticamente um personagem. Hoje, há também um tanque de pedras para onde flui uma fonte, e para onde quase fui instado a fugir, perseguido que fui por uma caterva de gansos.


E há, em especial, o Reino das Águas Claras. Trata-se de um riacho situado nos fundos do sítio, onde são admitidos banhos. É aqui onde muitas das histórias do Sítio do Picapau Amarelo tiveram pano de fundo, começando desde a primeira obra: o lugar onde se encontravam os “peixinhos de olhos arregalados”, e onde a pequena Narizinho contraiu casamento com o seu príncipe Escamado.


Neste mesmo rio, uma cachoeirinha repleta de pedras faz encosto para molhar as costas. Realmente, uma breve nostalgia bate na consciência da gente, mas a patroa estava quase aos prantos, emocionada com o ambiente tão propalado na infância.


Dona Lúcia tem uma tarefa hercúlea. Há duas perguntas que não cessam: onde estão os personagens do Sítio? É aqui que foram feitas as filmagens? Dona Lúcia, sem muita paciência, explica que o propósito não é fazer um parque temático, mas relembrar o ambiente original da obra de Lobato, e que as filmagens foram feitas no Rio de Janeiro, uma boa centena de quilômetros mais para frente. Se há algum personagem legítimo, que existiu de fato, foi só Tia Nastácia, como pode ser visto nesta foto:


Ela conversou conosco por horas, e, no meio tempo, pudemos observar o fenômeno acontecendo: as pessoas chegam no sítio e ficam decepcionadas, buscando no imaginário os feitios globais, que não existem. O antídoto, para dona Lúcia, está na estante de livros que fica logo na entrada da casa – uma biblioteca onde praticamente toda obra lobatiana está representada. Se as pessoas parassem por um pouco de tempo e as lessem – à sombra de uma das inúmeras árvores ou esticado nas poltronas abundantes da casa – poderiam absorver as histórias por si mesmas, e não pelo olhar pré-fabricado de uma emissora de tevê. Por isso mesmo, ela inseriu no verso da placa de entrada do Sítio os seguintes dizeres:


É inevitável que este texto verse sobre o Monteiro Lobato que dá nome à cidade. Parei um pouco para pensar se já é possível contestar se o seu Zé Bento é ainda o mais conhecido escritor de histórias infantis do Brasil, mas creio que não. Se fizermos uma enquete do tipo “primeira marca que vem à cabeça”, deve ocorrer uma certa goleada a favor do patrono destas plagas e, embora os resistentes da cidade possam fazer beicinho, isso se deve em boa parte às produções da rede Globo.

A César o que é de César. Do ponto de vista estritamente técnico, tudo o que essa emissora faz é de primeira linha. E não é diferente com relação às suas versões do Sítio. Acompanhei um pouco mais de perto a versão da década de 70, por motivos óbvios, sendo que a mais recente, que revelou a atriz Isabelle Drummond para o mundo, conheci só de propagandas. Posso dizer que as histórias foram razoavelmente bem conduzidas e interpretadas, e, apesar da quantidade de enxertos, entendo que tratavam as crianças com respeito. Basta que se veja o naipe da galera que consta do elenco musical: Dori e Dorival Caymmi, Radamés Gnatalli, Ivan Lins, Chico Buarque, Gilberto Gil, Jards Macalé e tantos outros. A consequência natural foi a criação de derivados comerciais – roupas, discos, histórias em quadrinhos e bonecas, muitas e muitas bonecas. É neste ponto que uma contestação é válida, porque a ideia de Sítio do Picapau Amarelo se desvincula de Monteiro Lobato e vai parar nas mãos dos roteiristas e publicitários da poderosa vênus platinada. O simulacro de Sítio passa a ser o Sítio de verdade, o da Emília multicolorida; o Sítio originário, da boneca de trapo e do sabugo escavocado, fica revestido de anacronismo, parecendo ele mesmo a cópia malfeita, como já nos ensinava Baudrillard, como eu mesmo esmiucei há pouco tempo. Leiam que vocês vão entender direitinho.

Mas não é exatamente sobre isso que eu queria falar. Nos tempos em que meus filhos eram crianças, eu gostava de lhes contar histórias. Não se tratava daquela cena clássica da mãe lendo um livro à beira da cama para a criança dormir, mas de uma leitura interpretada, para ser ouvida e vista bem acordado. Então eu reunia a prole na cozinha de estar* e começava minha pantomima. Em um desses momentos, resolvi fazer uma série Monteiro Lobato. Fui à biblioteca do bairro e peguei o primeiro livro: Reinações de Narizinho. E assim foi se sucedendo. Não fiz a bibliografia completa, mas abrangi uma boa parte da mesma. E os rebentos se interessavam, riam, perguntavam o que significavam aquelas palavras estranhas, o que eram aqueles objetos desconhecidos, do tipo monjolo, gamela, cocho, tal e coisa. No final das contas, era bastante didático, as crianças se divertiam e eu também.

Só que, nos últimos tempos, essas leituras têm sido contestadas com certa veemência. O eixo: Monteiro Lobato seria racista. Vamos com calma nessa hora porque há muitas placas tectônicas em rota de colisão sob a paisagem.
Em primeiro lugar, é preciso ser justo. Monteiro Lobato não está nos altares da literatura nacional por suas posições políticas, mas por seu talento. Portanto, precisamos começar estabelecendo o que é uma posição legitimamente ética: só nos interessa a conduta pública de um ator social ou também é preciso compreender suas posições privadas? Tudo depende de quem o observa.

Vamos no exemplo mais clássico possível: o do semáforo vermelho. Em âmbito público, não importa se o faço por prazer em cumprir a lei, se o faço furioso, enfadado, impaciente, se eu xingo, se eu rosno. O que importa é que eu pare no semáforo fechado. A lei não existe para ser simpática a indivíduos, mas para regular o mecanismo social. Tanto que nenhum guarda lhe multará se você estiver com cara de bunda no semáforo, nem há radar que detecte palavrões; a multa só virá se você avançar no farol vermelho.

No alcance privado, a coisa muda, e muito. Suponha que você tenha filhos e que eles estejam no carro no momento de seus esgares e vociferações. Aqui, não estamos falando de atendimentos às limitações sociais, mas de formação de personalidades. Ao expor, ainda que no âmbito privado, nosso desagrado com os ditames da lei, temos a responsabilidade de incitar valores nos pequenos. Eles podem se tornar igualmente reclamões, ou, o que é pior, ultrapassar esse limite socialmente aceitável para transgredi-lo. É muito complicado fazê-lo deliberadamente.

O segundo ponto é o seguinte: como nos situamos diante de uma circunstância discriminatória? É um exercício de alteridade dos mais difíceis, porque por mais que tenhamos capacidade para nos colocar no lugar do outro, nunca teremos a exata dimensão do seu sofrimento. O racismo tem sido combatido já há um bom tempo, mas ele persiste, ainda que cada vez mais no mesmíssimo campo privado que mencionei no exemplo do semáforo. Aqueles que como eu são descendentes de europeus e outras etnias brancas temos dificuldade de sentir na pele o que é ser barrado na portaria de todos os prédios em que formos entrar, e só termos o acesso franqueado após perguntas e apresentações de documentos. Sabemos que cada vez mais temos que cadastrar nossos nomes e fotos, além de portar crachás provisórios, mas também sabemos muito bem que isso não acontece por nossa causa. Não fazemos parte da camada barrada, e aceitamos essas imposições única e exclusivamente porque desejamos que certas pessoas tenham a cancela fechada, por generalização.

Talvez seja possível (ainda que insuficiente) traçar analogias. Seja um ateu, por exemplo. As portas vão estar mais enferrujadas para abrir se você declarar essa opção. Ateus até hoje carregam a pecha de não ter limites morais, o que, em tese, só seria possível pela subordinação a uma divindade qualquer. Eles podem declarar o respeito à lei como sua base moral, ou aos costumes socialmente edificados, mas há aquele velho pé atrás. Pronto. Idem para os negros, para os gays, para quem quer que tenha uma vírgula a arrastar atrás de si.

Digo tudo isso porque, se por um lado podemos relativizar a questão racial em Monteiro Lobato, por outro temos que tentar compreender a quem essa mesma questão afeta. O escritor em questão é indefensavelmente racista no plano pessoal, como era escancaradamente racista toda a sociedade da época, recém saída do escravagismo oitocentista. Lobato mantinha estreita comunicação com eméritos eugenistas como Renato Kehl e Arthur Neiva, e era ele próprio membro da Sociedade Eugênica de São Paulo, e a recente descoberta de uma correspondência na qual elogia a Ku-Klux-Klan arrepia os cabelos do mais leal dos defensores.

Tudo isso está na esfera privada de sua vida. Será que o mesmo transparece em sua obra? Há três estratos, dentre tantos que eu poderia trazer, que quero trazer para enriquecer o debate:

1. No livro Caçadas de Pedrinho, bem como em outros da série, a personagem Tia Nastácia é tratada, no mais das vezes pela boquirrota Emília, de “macaca de carvão” ou “negra beiçuda”. São tratamentos desrespeitosos, sem dúvida, mas prontamente condenados pelos outros habitantes do Sítio. Além disso, no mesmo livro, o episódio final nos mostra os membros todos montados a cavalo no rinoceronte Quindim, inclusive Tia Nastácia, que responde à estupefação de Dona Benta que “nego também é gente”.

2. O conto Negrinha tem sido bastante contestado pelo fato de mostrar um tratamento muito desumano à protagonista da história. Não compreendo, sinceramente, a crítica. A personagem, no decorrer do conto, toma consciência de sua humanidade, o que é negado à toda a comunidade negra no período em que foi escrito, de forma praticamente explícita.

3. Ao personagem Jeca Tatu, do conto Urupês (do livro homônimo) cabe uma crítica extremamente corrosiva. Caboclo, é tido como indolente e “parasita da terra”, desabituado ao trabalho e conformado com a condição de miserável, e fica nas entrelinhas a impressão de que estas características são fruto de sua miscigenação. Anos mais tarde, Monteiro Lobato revê sua posição, em especial por conta das constatações de que a debilidade do trabalhador rural se deve às más condições sanitárias em que vive. A partir daí passa a adotar uma posição de denúncia do descaso governamental com a questão do saneamento básico e assistência médica.

Percebam, portanto, como flutua o Lobato, e como em sua postura pública podemos imbricar uma série de paradoxos, de ambiguidades, de contradições, de antagonismos, de ambivalências, de rotas de colisão, de desencontros e, especialmente, de transitoriedade. Monteiro Lobato parece dar espelho a uma sociedade que se transforma e que ainda se choca com a mudança em sua estrutura. Devemos lembrar que a abolição tirou o negro da senzala (onde era cativo, mas tutelado) para colocá-lo na favela (onde é livre, mas desassistido), e que a imagem da elite não mudou um trisco sequer, como se fosse um milagre. Se até hoje discutimos sobre quotas, sobre apropriação cultural e outros que-tais, é sinal que a questão ainda hoje não está bem acomodada. Quando eu era jovem, para dar um exemplo, havia poucos atores negros no Brasil; galãs, nenhum. Hoje, encontramos principalmente atrizes negras protagonizando histórias, como Taís Araújo, Isabel Fillardis e Sheron Menezes, o que parece bom, mas que esconde outro viés, o sexista – são protagonistas porque não faz mais diferença a cor ou por que atendem a um padrão feminino de beleza? A porta que se abre tem a ver com a cor mesmo ou com a sensualidade? Por que, ao contrário das atrizes, os atores negros não são ainda os galãs das novelas? O mesmo se observa no padrão nipônico: Sabrina Sato, Giovanna Tominaga e Daniele Suzuki também atendem a um padrão de beleza que exclui os atores de origem asiática. Tem algum japinha ator do mainstream no Brasil? Eu não conheço, sério.

É nisso que eu retorno ao segundo ponto. Não tenho o parâmetro exato, eu, branco retinto, do que ofende os negros; por isso mesmo, defender-me-ei da tendência hodierna de considerar tudo o que é contestação como um mero mi-mi-mi. E com isso preciso colocar minha opinião à prova, porque haverá quem ache que estou defendendo o autor, portanto sou racista; haverá quem ache que eu estou contestando o autor, portanto sou censor; e haverá quem ache que estou sobre o muro, portanto sou isentão. Mas o fato é que entendo que, se escrita hoje, a obra teria pontos a serem guerreados, mas que não há como avaliá-la com a mínima coerência pegando-a como texto puro, sem colocá-la em contexto, o que seria a grande pedra de toque para ainda mantê-la válida. Em primeiro lugar, para demonstrar a diferença entre a vida pública e privada. Em segundo, para que se compreenda como os processos sociais não se movimentam de imediato. Em terceiro, para que entendamos como se deu a passagem do imediato pós-abolição aos dias de hoje. Em quarto, para que entendamos que a discriminação continua a se arrastar mesmo que não percebamos, e como ela se articula em diferentes mecanismos, como é a dicotomia racismo-sexismo que citei acima. E, finalmente, para que não se desperdicem obras de talento por conta de escorregadas do autor sob uma ótica extemporânea. É até mesmo didático nas mãos de um professor talentoso.

Recomendações de leitura:

Ler é a melhor maneira de identificar tudo aquilo que se fala sobre Monteiro Lobato. Vou recomendar três obras para formar esse arcabouço.

O primeiro é o mais citado, por estar disponível na rede pública de ensino.

LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho. São Paulo: Brasiliense, 1980.

Já no segundo, o interesse está na maneira com a qual a personagem Tia Nastácia é tratada de maneira diametralmente oposta aos despeitos que a boneca Emília comete.

--------. A Reforma da Natureza. São Paulo: Brasiliense, 1977.

Finalmente, foi lançada há poucos anos uma coletânea completa dos contos de Monteiro Lobato, incluindo os citados Urupês e Negrinha.

--------. Contos Completos. São Paulo: Azul, 2014.


* Explico o termo. A casa em que morávamos era pequena. Na verdade, seu projeto inicial era o de um sobrado, aí sim amplo, com três quartos e banheiro na parte de cima, enquanto o andar de baixo era equanimemente dividido entre sala e cozinha, devidamente assessorados por despensa e outro banheiro. Como o orçamento era medíocre, mandamos construir a parte de baixo e mudamos assim mesmo, arrastando uma dívida que levou anos a fio para ser paga, e que tem suas consequências psicológicas até hoje. Inicialmente, dividimos a sala com um tabique para fazer as vezes de quarto, que, com o crescimento das crianças, revelou-se insuficiente. O que restava ainda de sala virou outro quarto, com sofá e TV sendo acomodados em um quadrante da cozinha, que era italianamente grande, criando um ambiente à parte, mas integrado, dada a ausência de paredes. Deu certo, mas não adiantava tocar as crianças da cozinha para a sala – elas permaneciam na cozinha.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Considerações sobre consciência e corpo que nos vinculam à realidade (Sobre alpercatas e quepes confederados)

Basta a garoa começar
Que eu já percebo a enxurrada
E morro acima sobe o fardo

E da ladeira vi restar
As minhas velhas alpercatas
E meu quepe confederado

Já não sei mais o que lembrar
Na pedra não tem pegadas
Nem remissão se não há pecado

E vejo tarde enevoar
As minhas velhas alpercatas
E meu quepe confederado

Saí de lá, saí de lá
Eu vim a pé, saí de lá
Enquanto ainda via rolar os dados

E a memória da ladeira
Saí de lá mas vim de lá
E o tempo foge sem deixar recado

Mas há uma culpa a pagar
De cada memória apagada
Um pouco prá trás é deixado

No horizonte vão distar
As minhas velhas alpercatas
E meu quepe confederado

Pelo arredor eu vou olhar
Prá encontrar somente nada
Nem mais real, nem mais sonhado

Já não há mais o que acreditar
Nem minhas velhas alpercatas
Nem meu quepe confederado

Refrão


Olá!

Estes versinhos não são de nenhum poeta obscuro. Ou melhor, na verdade são. São meus. É uma música chamada Ladeira da Memória. Contarei melhor essa história em oportunidade mais adequada, mas, apenas para constar, também eu fui jovem um dia, dia este cada vez mais distante, e também eu quis gritar aos quatro cantos minhas dores e minhas revoltas, bem como causar admiração em algumas menininhas. Sabendo rudimentos de contrabaixo, passei por algumas bandas, o que fez vicejar minha verve poética. Os versos acima não chegaram a ser ensaiados em nenhuma delas, mas é daquelas que eu gosto, que ainda hoje faço questão de assinar embaixo (ao contrário de tantas outras, das quais morro de vergonha).

Explicar uma poesia é tão sem graça quanto explicar uma piada e tão frustrante quanto dançar com a irmã, mas este espaço tenta elucidar algumas coisas, e não as piorar. Sendo assim, vou cometer o desatino de fazê-lo, para o bem da temática que pretendo abordar.

A ladeira é uma óbvia referência à vida, que vai ficando cada vez mais complicada de viver à medida em que envelhecemos, e a memória vai ficando cada vez mais para trás, significando cada vez menos (eu tinha algo entre 18 e 20 anos à época). Reiteradas vezes falo de velhas alpercatas e boné confederado. Eles existiram de fato, e, por vezes, eram as últimas coisas que eu tirava antes de dormir, antes de penetrar no domínio do onírico. A alpercata era, na verdade, um velho chinelão, usado até ficar podre, porque é nesse momento que ele fica mais confortável, como este abaixo:


Já o chapéu confederado era um chapéu confederado, ora bolas! A aba recurvada, a frente amassada, o distintivo de rifles, a cor azul:


Tem gente que critica o uso destes elementos (a bandeira confederada também é muito conhecida), porque os confederados eram escravistas, tal e coisa. Garanto a vocês que eu o usava por um único motivo: achava esteticamente legal, como acho até hoje, e ponto.

Bem... Sendo os últimos objetos que eu contactava antes de dormir, eram também meu vínculo último com a realidade. Acontece que, na letra, há uma progressiva perda da noção exata se mesmo eles são reais, até o completo desprendimento entre concreto e simbólico. O eu-lírico já não consegue distinguir o que o prende ao mundo. Já não tem nada que afiance algum tipo de enraizamento ou de laço. Não é legal?

O vínculo exato entre nossa consciência e a realidade é algo bem complexo, principalmente quando levamos em conta que o domínio do simbólico é inerente à espécie. Já nascemos fazendo entrelaçamentos entre concreto e simbólico, e sua principal expressão é a linguagem, que faz uso tão farto de codificações que, às vezes, dá a clara impressão de uma existência autônoma. E eis que, fazendo uma determinada pesquisa para outro tema, dou de cara com um tópico conhecido como desrealização, e sua prima-irmã, a despersonalização. Leio assustado que, de todos os transtornos de natureza psíquica, é o que mais causa sofrimento ao desgraçado que o porta, uma espécie de cólica renal na mente. Ao ler sua descrição, as gavetas da minha memória são jogadas ladeira abaixo e relembro imediatamente de minha velha e angustiada canção, apesar da batida animada. E percebo que fica difícil por vezes diferenciar o que é um mero estro poético de uma patologia.

Mas o que é a tal desrealização? Há algumas associações que o termo nos permite fazer de imediato, intuitivamente. Há sempre muitas coisas que queremos, maldito desejo! E sempre poucas coisas que conseguimos. Nós idealizamos demais a vida, este é o problema. Quando planejamos uma viagem, pensamos nas paisagens, nos passeios, no conforto e na aventura; não ficamos remoendo pneus furados, febres, tempo chuvoso, deslizamento de barreiras. Mas pneus furam, febres vêm, chuva cai e barreiras deslizam. Achamo-nos perseguidos pelo destino, e que a realidade é muito diferente das expectativas. Só que pode parar: isso é frustração, não é desrealização.

Outra coisa. Às vezes somos compelidos a participar de palestras chatas, reuniões intermináveis, escrituração de livros contábeis, aulas de Cálculo (perdoem-me os professores de matemática). É estranho. Nós estamos em qualquer outro mundo, em sensação de intensa narcolepsia, mas há gente atenta, fazendo perguntas, dando risadas. Você é o peixe fora do aquário. Mas isso é desinteresse, não é desrealização.

Ainda outra coisa. Há certos casos em que temos uma distorção da realidade. Os prédios estão tortos, as paredes desfiguradas, cheias de bichos. As cores das coisas estão trocadas, os sons mudaram, o que é pacífico se torna amedrontador. Seres míticos e fabulescos parecem estar diante de nós e, por vezes, nos sentimos apavorados, como se vivêssemos em um filme do expressionismo alemão. Mas isso é alucinação. Desrealização é outra coisa.

Mais uma. Às vezes dizemos: “sinto-me realizado”. Isso acontece quando atingimos objetivos, quando nos formamos, quando completamos a construção da casa, quando trocamos de carro, ou até mesmo quando levamos à cabo uma vingança, por que não? O contrário disso é sentir-se desrealizado? Absolutamente não.

A desrealização, na verdade, é uma perda do elo que nos prende ao mundo, pelo estranhamento e distanciamento da realidade ao nosso redor. É como se vivêssemos no interior de um quadro, onde toda a realidade é produção de nossa mente, mas sem que a própria realidade seja alterada. O intenso sofrimento vem do fato de se perder a confiança naquilo que é captado pelos próprios sentidos. Por esse viés, a despersonalização é tão ruim quanto, porque produz a sensação de “estranho no espelho”. Aqui, já não é o objeto que se perde, mas o próprio sujeito. Em ambas, a mesma sensação: observamos a realidade, mas não nos percebemos como partícipes dela. Estamos em um limbo e de lá vemos a vida passar, inclusive a nossa, mas sem crer nesse transcurso.

Para termos uma leve, mas mui leve ideia do que são esses transtornos dissociativos, podemos pensar naquelas mortes de pessoas muito caras a nós. Nos seus velórios, ouvimos: “parece mentira, parece mentira”... É isso. Parece mentira mesmo. E, com isso, temos uma superficialíssima amostra do que sente o desrealizado, só que com uma constância e permanência perturbadoras.

Notem bem a sutileza dessas síndromes. Elas não dão uma percepção distorcida da realidade, como é o caso da precitada alucinação, nem produz estados imaginários como ocorre com a esquizofrenia. A percepção está absolutamente intacta. O problema está no vínculo, está na associação da imagem percebida como real. Eu percebo o boné confederado, mas no giro da minha consciência não consigo diferenciá-lo do campo imaginativo, como se eu não diferenciasse o sonho do real tangível. Se o objeto de dissociação é o mundo percebido, temos a desrealização; se é o indivíduo que percebe, temos a despersonalização.

Clinicamente, é importante conhecer as causas destes distúrbios porque seu diagnóstico é obtido a partir da exclusão de outras etiologias. Podem ser derivadas de outras síndromes, como o transtorno do pânico e estresse agudo, ou pode estar associado ao consumo de drogas, bem como a patologias neurológicas físicas. Nestes casos, não há o enquadramento da moléstia, cabendo a ela o enquadramento como sintoma. Também não são consideradas patológicas as ocorrências episódicas, principalmente quando ocorrem logo após eventos traumáticos (a sensação de “parece mentira” estendida à realidade como um todo). Portanto, só temos a desrealização quando, tudo isso posto à parte, ainda resta o alheamento.

Tudo bem. Podemos sempre buscar causas físicas ou analisar a psique de alguém para justificar transtornos tão dolorosos quanto a desrealização e a despersonalização, mas onde fica a raiz filosófica de tudo isso? Por que algo que não fura, que não arde, que não sangra, que não lateja pode causar tanto sofrimento? Vou tentar buscar respostas na fenomenologia e no existencialismo, especialmente do francês Maurice Merleau-Ponty.

A fenomenologia entra em voga com muita força na academia filosófica a partir do início do século XX (já falei sobre esta metodologia neste texto). É uma época em que mais e mais teorias no campo psicológico vão sendo desenvolvidas, de modo a se concluir que a mente não é um mero atributo de uma suposta alma, e que exerce sua função de processar as captações dos sentidos para formar uma consciência. Husserl, criador da metodologia, percebe que não existe algo como uma consciência em repouso. Toda consciência tem um objeto, seja ele real ou imaginário, e é influenciada por n fatores. É mais ou menos como afirmar que é impossível pensar sem existir um objeto para o qual o pensamento se volte. É impossível “pensar em nada”. A consciência sempre se volta para alguma coisa, por isso ela possui o que se chama de intencionalidade.

Este termo pode causar certa confusão, porque dá a impressão de que a consciência somente funciona para os objetos que ela quer, o que empiricamente notamos não ser verdade. É que a palavra se origina do termo latino intendere, que significa tender a, voltar-se para. Dessa forma, a palavra intencionalidade, na fenomenologia, não tem o significado de querer fazer, mas de sempre estar voltada para algo.

A Filosofia do século XX passou a lidar com as ciências dos processos mentais, que dá explicações neurológicas e psicológicas que suprimem, cada vez mais, o dualismo corpo-alma, tão caro até então. No entanto, a elaboração da consciência passa a noção de um fenômeno tão subjetivo e tão etéreo que faz parecer que a dicotomia ainda permanece, com a consciência e seus conteúdos de um lado, a ser a sede do verdadeiro eu, e o corpo do outro, como um mero invólucro onde esses decursos psíquicos encontrariam meios para se propagar. É contra essa forma de “espiritualização” que renova a função da alma que Merleau-Ponty se insurge.

Como pensa nosso caro francês, a percepção foi relegada a um segundo plano porque ela, apesar de ser nosso contato imediato com o mundo, possui a característica de ser facilmente ludibriada. Não é preciso ir longe – ilusões de ótica e de audição são tremendamente comuns. O escopo final da busca pelo conhecimento é obtê-lo com perfeição, sem deixar margem para contestações, e os “furos” sensoriais constituem o que há de mais danoso para isso. É preciso, portanto, que a intelectualização retire tudo o que há de sujeira nas imagens que apreendemos dos objetos. Este é um dos grandes motores da fenomenologia: como se o objeto do conhecimento fosse uma grande cebola, é preciso remover todas as ramas, gavinhas e cascas para chegar em seu âmago. Só assim se chega à verdadeira cebola, a cebola que importa, que arde na boca e nos olhos.

Só que há um grande problema nisso tudo. O racionalismo exacerbado tende a aperfeiçoar tanto a verdade que acaba por fugir dela. A verdade, assim como as percepções, é imperfeita. Segundo Ponty, o corpo – elemento que percebe – não pode ser excluído da relação de conhecimento. Todo o corpo é sujeito, conjuntamente com a consciência. É um corpo “vivido”, em suas próprias palavras. O homem não é pura cognição. A consciência habita um corpo, um corpo que sente, um corpo que percebe e se situa. Este corpo é partícipe da consciência. Afinal, não há existência sem corpo. E mais. Cada um vê o mundo através de seu prisma, então o referencial da realidade não está nos outros, mas no modo como cada um colige experiências. E isso é obtido através dos sentidos do corpo, em suma.

Daí que nasce a fenomenologia da percepção, a partir da constatação de que os fenômenos, antes de serem elaborados pelo intelecto, passam pela máquina da sensibilidade em contato com o real. Desde muito tempo, muitos filósofos aderiram à epistemologia de Kant, que estabelece certos conhecimentos apriorísticos, nos quais se inserem as noções de tempo e de espaço – ninguém precisa aprender o que são eles, já que são conhecimentos inatos. Mas, novamente, ainda que já nasçamos com as estruturas mentais que permitem ter consciência de espaço e tempo, é o corpo quem os “traz para dentro”. É o corpo que se situa no espaço e que se projeta no tempo, e a partir daí ambos penetram no fluxo de nossa consciência. Simplesmente não há como remover o corpo físico desta relação. E Ponty ensina que todo fenômeno (a manifestação de qualquer objeto à consciência) foi antes uma percepção. Não existe fenômeno sem percepção. De certa forma, é o mesmo que diziam os filósofos empiristas, ao notar que nenhum conhecimento chega à mente sem antes passar pelos sentidos.

Pois muito bem. A consciência, dessa forma, é como se fosse mais um órgão do corpo. Não no sentido de ser algo como um fígado ou um pâncreas, já que sua sede é o cérebro, mas como um processo inerente ao organismo, como a circulação e a digestão. E, da mesma forma que temos problemas circulatórios e digestivos, também nossa consciência pode apresentar problemas e sufocos vários. O próprio Ponty aponta o estranho fenômeno dos membros fantasmas. São casos de pessoas que, pelos mais diversos motivos, perderam um braço ou uma perna, e, mesmo assim, continuam a ter sensações de dor ou coceira no membro perdido. Isso acontece porque o corpo, como um todo, tem a intuição não só de uma presença física do membro, mas também de uma configuração funcional, algo semelhante ao que ocorre com os instintos, o piloto automático do cérebro.

Se o processo digestivo pode ter defeitos, e o alimento que outrora nos nutria agora pode nos causar desconforto, também o processo consciencial pode se debilitar. É corpo, e, como tal, também adoece. O que era alimento para o estômago, agora não é mais; o que era real para a consciência, agora não é mais. A consciência e o corpo são um conjunto na ideação de si próprios, e a quebra do processo onde um percebe e o outro elabora mentalmente produz uma discrepância de efeitos inimagináveis, inclusive a perda de si mesmo ou do ambiente que nos rodeia.

Recomendação de leitura:

Merleau-Ponty é importante em três frentes: fenomenologia (apesar da crítica aqui descrita), existencialismo e marxismo. Por isso, é um escritor dos mais significativos do século XX. No que abordo no presente texto, o livro abaixo é o de melhor ilustração.


MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

País do futebol: o que precisamos avaliar para saber se isso é ou não uma verdade

Olá!

Você gosta de futebol? Não há nenhum mérito se sim, nenhum constrangimento se não. E vice-versa. Corre uma lenda no senso comum de que o Brasil é o país do futebol. É bem verdade que há alguns indicadores seguros disso. São cinco títulos mundiais da seleção, um monte dos clubes, onipresença em copas do mundo, times mundialmente reverenciados como alguns dos melhores de todos os tempos e bons jogadores espalhados pelos quatro cantos do planetinha azul. Além disso, os meninos recém-nascidos têm um presente praticamente garantido: macacõezinhos com o distintivo do time de preferência do pai. E, cada vez mais, o mesmo tem acontecido com as meninas. A não ser que haja uma grave desavença entre pai e uma mamãe especialmente fã do time rival. Mas o consenso aparece quando a criança começa a andar: lá vem a bola de presente. Nesse sentido, o senso comum parece ter plena razão.

Mas a afirmação, por outro lado, é facilmente contestável. A imensa maioria dos jogos não chega a ter metade de sua ocupação, quase todos os estádios são precários (neste particular, não tenho grandes problemas, pelos motivos que se verão adiante) e não há um esquema bem fornido para a transmissão das divisões inferiores, que são, afinal de contas, os maiores empregadores e os piores pagadores do universo da bola. Além do mais, a formação de opinião se dá nos grandes centros. A situação no interior do país é de total penúria, invisíveis que são. Mas também são sonhadores; o êxodo é o objetivo de todo aquele que postula um lugar aos refletores. Um autêntico país do futebol não trataria seus filhos menores e mais carentes dessa maneira. Mas a pecha de população mais apaixonada do mundo permanece. E tento entender por que.

Bom... eu gosto de futebol e minha maneira de encarar a questão tem a ver com minha infância e juventude, e uma boa parte do meu contato com esse mundo já foi descrito aqui. Mas vou acrescer alguns detalhes.

Nasci em um momento onde ainda resistiam muitos campos de várzea. Eles não proliferavam mais, mas ainda existiam aos montes. Aquele que eu mais frequentava era próximo a quatro das casas onde cheguei a morar, peregrino do aluguel que era à época. Meu pai era zagueiro grosso e meu tio era bom goleiro no time que lá jogava, o Disparada. Como faz parte do rito, os pais levavam os filhos para assistir os rudimentos do esporte colocados em prática, e de lá, sentado em um montinho de barro, nasce não propriamente o torcedor, mas o apreciador de futebol. É óbvio que uma criança de seus cinco ou seis anos não tem a cognição necessária nem a paciência de suportar 90 minutos de caneladas ali parada, mas o ambiente de socialização é muito atraente. No campo do Disparada, por exemplo, havia a birosquinha do seo Geraldo, pequena e suja como ele próprio, fundidor que era de profissão. Lá, os pais tinham crédito livre, possibilitando-nos o empanturramento com toda sorte de porcarias, para a aflição de nossas mães. Também sempre havia uma bolinha sobrando nas laterais do campo, estimulando a reprodução da peleja em escala menor pelos alegres petizes filhos dos “craques”, eu incluso. Era o aprendizado por imitação, tão caro a Albert Bandura, de quem não deixarei de falar oportunamente.

No momento em que nossa bola ia parar no campo, a lição de hierarquia era inevitável: Não atrapalhem! Nem sempre dito de maneira tão gentil. Aliás, nem sempre dito. Ocorria por vezes de a ordem vir na forma de um chutão a mandar nossa bola para fora do perímetro do campo, inclusive para a perigosa estrada da Vila Ema. A regra de ouro diz: atrás de uma bola, sempre vem uma criança. Alguns dizem que é essa consciência nos motoristas, outros que é o anjo da guarda, mas o fato é que nunca ocorreram atropelamentos nessa circunstância naqueles eventos; só alguns sustos. Bem grandes, eu diria.

Mas a atitude do chutão dava a noção, em nossas vazias cabecinhas, da importância do que acontecia nas quatro linhas – algo que flutuava entre o rito sagrado e a prática da guerra. Afinal, se nossos pais e vizinhos nos falavam abruptamente, eles que eram tão legais, que nos pagavam doces, que nos compravam bolinhas de gude, que nos deixavam sujar suas calçadas e berrar até tarde em suas portas, não era alguma coisa frívola que era disputada naquele terreno esburacado e cheio de linhas de cal. E sentíamos necessidade de ter participação ativa nesse universo.

O clímax era o intervalo entre o primeiro e o segundo tempo. Abandonado pelos combatentes, que iam à precitada bodega refrescar a garganta e reorganizar as táticas, o terrão ficava disponível por restritíssimos quinze minutos para nós, rascunhos de pernas-de-pau. Não eram as pedras que delimitavam agora o arco imaginário; eram as próprias e imensas traves, ainda maiores em seus 7,32 x 2,44 metros para os minúsculos jogadores de pés descalços. Os meninos maiores praticamente ignoravam os pequeninos, mas é só uma questão de espera e vingança – haverá de chegar nossa vez de crescer e pregar a mesma peça nos recém-chegados. Mas sempre sobrava uma bola na medida para batermos de bico na direção do gol, com força insuficiente; mas está lá a defender a meta outro minúsculo ser, e a bola entrando dá a sensação de triunfo na final de um campeonato, justo a mim, caneludo como meu pai. A ruindade futebolística pode até não ser hereditária, mas parece. Só que, dessa forma, a várzea dava uma sensação de proximidade, de pertencimento e de emulação da glória que se arrastaria pelo restante da vida, independentemente da qualidade pessoal de passes e arremates.

Meu avô materno também viria a ter sua participação. Não tinha mais idade para ele mesmo jogar, mas era um amante da várzea, igualmente. Cansei de ir nas manhãs de domingo com ele no CMTC Clube para assistir ao Desafio ao Galo. Com esse aporte, dá para perceber porque não tenho problemas com lugares precários, mesmo concordando que muita coisa poderia melhorar. Não tenho medo de sujar a bunda de barro, em resumo, mas acho mesmo que é melhor sair com o pé um pouco mais limpo. Foi com meu avô que fui a primeira vez (e a segunda, a terceira...) a um estádio de futebol. Não, não foi... Lembrando bem, foi com o meu pai mesmo, na rua Javari para assistir um jogo do Juventus. O que meu avô fez foi me levar pela primeira vez a um jogo do meu time, o Corinthians, no mítico Pacaembu. Assistir um jogo no estádio tinha a mesma diferença com relação a um campinho de várzea que assistir um filme no cinema ou na TV; que levar uma criança, acostumada às piscinas, para ver o mar. A sensação é de assombro ou de admiração; de qualquer forma, de deslumbramento. E o que pode ser mais filosófico que o deslumbramento?

Daí por diante, ir ao estádio passou a ser um hábito, que se manteve até o final da década de 80, sem time certo, e apenas pelo prazer de ver um bom jogo, objetivo nem sempre alcançado. Sempre gostei de assistir os jogos sentado, com observação atenta. Não tenho nada, rigorosamente nada contra os torcedores que pulam e cantam – eles são a autêntica alma dos estádios – mas meu jeito de assistir um jogo é outro, fora das extintas e legítimas gerais, e não acho isso um defeito, apenas uma maneira diferente de acompanhar e apreciar legitimamente o futebol. Isso tira o estatuto de sem graça a uma partida com pouca presença de público.

De onde eu morava, o campo da Rua Javari era o mais fácil de ir, 20 ou 30 minutos de ônibus era o suficiente. O mesmo se aplica ao campo do extinto Saad, de São Caetano do Sul, que jogava no Lauro Gomes (hoje Anacleto Campanella) e também exigia só um ônibus. Outros estádios davam um pouquinho mais de trabalho para ir: Fazendinha (sim, é verdade. Até a década de 80, era comum o Corinthians mandar seus jogos menores lá, com suas arquibancadas enviesadas e sua biquinha de água mineral benta) ficava próxima, mas fora de mão. Para ir ao Canindé, precisava pegar metrô. Para a Comendador Souza, trem. O mesmo valia para o Bruno Daniel, em Santo André, acrescido de ônibus. O Pacaembu era fácil também: ônibus até o Ipiranga e de lá o Pompéia, descendo no cemitério do Araçá. Dali, era morro abaixo. Deu para perceber que não tínhamos carro, correto? O mais complicado era o Morumbi, que ficava longe, longe mesmo. Um jogo no Morumbi te tomava o dia inteiro, não dava para ver jogos lá a toda hora. E é exatamente lá que os grandes clássicos aconteciam. Além do mais, é um estádio imenso. Dependendo do lugar, é muito difícil ver o que se passa em campo. Por isso mesmo, era o estádio em que eu menos ia; em geral, só quando o Corinthians enfrentava os outros grandes. No Parque Antarctica eu nunca fui, por uma ética que hoje acho tola, e a Vila Belmiro conheci mais recentemente, apoiado pela patroa santista.

Com a explosão da violência da década de 90, deixei de ir aos estádios. Já não havia mais campos de várzea para levar meus filhos, e a corrente se quebrou, infelizmente. Mas recordei dos pequenos jogos dos igualmente pequenos clubes e voltei a frequentar os igualmente pequenos estádios. Voltei, em suma, a comparecer nos jogos dos quais nunca deveria ter me afastado: aqueles que dispensam grandes preparações e gastos vultosos das novas arenas. Aqueles jogos em que basta dar na telha e ir, com poucos problemas para encontrar ingresso, para se acomodar no primeiro lugar que se achar e assistir a partida procurando novos craques e reconhecendo antigos operários da bola que ainda resistem à aposentadoria. Se o campo fracassar, há sempre um canolo (canoli é plural, gente) ou um bolinho de bacalhau para fazer compensar a viagem. E tenho lá minhas camisas. A do Santos é da patroa.

Falta a da Lusa, que apanhou anteontem do Oeste de Itápolis
Tem gente que acha ridículo que eu vá em um sábado à tarde assistir a um Juve-Nal pela Copa Paulista. São pessoas que só vão a jogos do seu próprio time, que acham que não existe sentido em acompanhar outras agremiações, a não ser que seja para secá-las, o que pode ser feito remotamente pela TV. Respeito a posição, mas acho que quem faz isso não gosta de futebol, gosta do seu time. Mais ainda: gosta das vitórias do seu time, e acompanhar equipes que passam a maior parte de sua existência mais preocupados em sobreviver do que em conquistar títulos já é, por si só, um fracasso. É o mesmo fenômeno que afeta as viúvas do Senna; a despeito da excelência do precitado piloto, as pessoas que dizem que acabou a graça de levantar cedo no domingo para assistir uma corrida não gostam de automobilismo, gostam de brasileiros vencendo. Por isso mesmo, entendo que a galera que só se preocupa com seu próprio e único time gostam exclusivamente de seu próprio e único time; gostar de futebol é outra coisa. E quem só se ocupa de grandes jogos, gostam de grifes, não de futebol. O futebol nasce e vive nesses pequenos clubes, que não ostentam grandes etiquetas nem vendem camisas a trezentos dinheiros, mas que representam uma determinada comunidade, uma cidade do interior. Um time de futebol, antes de mais nada, é o representante de um determinado conjunto de pessoas que, não necessariamente, precisa ser o time da moda, como o Barcelona ou o Bayern. Sim, são times ótimos de se ver, mas é preciso que exista um Alavés ou um Bochum para o campeonato existir.

Por falar em grifes, há uma tendência em se transformar um jogo de futebol em eventos rodeados pelo espetáculo, e embora não tenha essencialmente nada contra em ser bem tratado, vejo um certo risco em se tirar a importância do jogo em si, além de se fazer com que o ato de se comparecer a um jogo se torne mais significativo pelo aspecto midiático do que pelo esportivo.

Sem dúvida que precisamos atentar um pouco às transformações em nosso sistema social para entender um pouco melhor a pasteurização à qual me refiro. Ou, melhor dizendo, tentar compreender como os níveis da realidade que procuro analisar ficam em consonância entre o que percebemos e o que efetivamente temos. E é aqui que precisamos entrar com os conceitos de simulação e simulacro de Jean Baudrillard, sociólogo e filósofo francês que atacou a fundo a questão da influência da mídia na maneira como as pessoas constroem suas impressões sobre as identidades do que percebemos.

Baudrillard entende que a realidade tangível é algo que ficou no passado. O modo de produção capitalista surgido a partir da Revolução Industrial tornou possível uma reprodutibilidade tão intensa que não há a menor condição de distinguir um original de suas cópias. Isso foi a mola propulsora de um processo em que o mundo físico, do aqui e agora, foi paulatinamente perdendo significado em relação à sua imagem. Esse é um processo de simulação em que a cópia se confunde com o original, mas que ainda vai se agravar, em um mundo onde o virtual substitui o real, na forma de simulacro. Esse tal de simulacro é uma transformação da realidade em idealização, que vem no lugar do real palpável e que se torna objeto de desejo.

Um exemplo para deixar as coisas bem claras: as essências com sabores de fruta. Não há nada nelas que seja oriundo das próprias frutas e, sendo bem justos, algumas delas não chegam nem a lembrar o sabor da fruta a quem pretendem substituir, a não ser pelo nome que lhe foi dado. Há até mesmo essências em que nem se intenciona criar correlação com uma fruta real, como o clássico tutti-frutti, o blue ice ou o beijinho doce, que simplesmente não correspondem a nada de concreto na realidade, mas que o pessoal resolveu lançar assim mesmo porque é gostoso. Mas mesmo aquelas que, em tese, correspondem a uma fruta, tem seu sabor aperfeiçoado de modo a se tornar um paradigma, um novo ditame a ser seguido para tudo o que se relacione a determinada fruta suposta. E a fruta real, essa foge completamente da “reprodução” da essência. Pensem no seguinte: há algo mais doce-tão-doce-mais-doce-que-o-doce-de-batata-doce do que uma bala de morango? Justo ele, uma fruta cítrica, que às vezes precisa de um pouco de açúcar e creme para ser comido com mais prazer?

E assim segue com outros exemplos: a manga real é fibrosa, o abacaxi real urtica a língua, o tamarindo real é azedo de fazer chorar (e solta o intestino que é uma beleza). Suas essências não têm nenhuma dessas desvantagens. E mais ainda: as frutas reais não tem padrão de sabor, cada uma é uma surpresa. Quem já não teve a oportunidade de pegar um melão amargoso, uma melancia aguada, uma laranja insossa? No mundo dos simulacros, isso não ocorre, e o sabor é padronizado: sempre docinho, sempre equilibrado, sempre perfeito, sempre o mesmo. Desta forma, é o simulacro que se torna real, é com ele que produzimos uma referência, e não a realidade em si mesma. Interiorizamos que o sabor real da fruta é o da essência, e achamos que a pera comprada na feira não tem gosto de pera de verdade. E só desejamos o simulacro.

O problema é que o mesmo se aplica a inúmeros outros casos, incluindo o modo de vida das pessoas, o que vai se tornando perigoso. Reality shows são um caso extremo de simulacro, mas as próprias novelas reproduzem a mesma lógica, como eu já havia escrito há algum tempo atrás. Comparado com o amor quente, eterno e perfeito das tramas, temos uma vida sem sal, com relações tediosas, rotineiras, marcadas por discordâncias. Esquecemos que a vida é assim mesmo; as pessoas – todas – têm manias, têm defeitos, têm idiossincrasias, têm preferências, têm gases. O simulacro apenas nos dá a impressão de que vivemos errado, somos culpados pela vida de merda que levamos, por não nos adaptarmos a um modus vivendi que, no final das contas, não existe.

E no que isso tem relação com a vida nos estádios? Baudrillard é absolutamente radical em suas ideias. Para ele, viver uma não-realidade não é uma perspectiva, é um fato já consumado, totalmente arraigado em nosso dia-a-dia. Se observarmos a recente construção de arenas em nosso país, podemos sentir, sim, um pouco dessa profecia se cumprindo. Quando vemos o interior de um campo como a Allianz Arena, do Bayern de Munique, vemos um mundo maravilhoso, todo bem construído, confortável e desejável. Quando saímos, esta mesma realidade continua, estende-se através de uma cidade bem organizada, com transporte público eficiente a ponto de tornar quase desnecessário o uso de carros. Além disso, a cidade preserva seus traços históricos e não renega a modernidade. Estamos falando de um país como a Alemanha, plenamente desenvolvido. Se falarmos de seu xará brasileiro, o Allianz Parque, ou de seu concorrente, a Arena de Itaquera, teremos a mesma sensação de realidade nababesca ao olhar para o seu interior. Mas, ao meter o nariz para fora, temos uma realidade que diverge integralmente do que acontece lá dentro. Um entorno sem desenvolvimento ou sem possibilidade de expansão, trânsito difícil e transporte deficitário. Não adianta simular a realidade alemã – estamos no Brasil. Essa sensação de “ilha”, produzida a partir do ingresso em uma arena, faz com que o torcedor perca uma boa parte da noção do que ele está fazendo ali. As arenas maravilhosas sempre serão uma exceção dentro da cidade de São Paulo, ao contrário do que acontece em Munique. Esse recorte entre o mundo de sonho das arenas do Palmeiras ou do Corinthians, dissonante com tudo o que vemos nos trajetos que nos levam a elas, se incute em nossa cabeça na forma de uma contradição: o registro da nossa presença na arena é mais importante do que a própria presença em si. Se eu não fizer selfies e mandar para todos os contatos dos zape-zapes da vida, é a mesma coisa de não ter ido ao jogo. É mais importante o simulacro de realidade do campo luxuoso do que o próprio jogo real. Esse é o jogo que vale a pena ver, dizem aqueles que não entendem como eu posso gostar de assistir um jogo da segunda ou terceira divisão.

Mas ainda temos algo real para ver?

Notem como, ao contar um pequeno pedaço da minha vida, perpassa-se a narrativa com elementos dos clubes pequenos, e como eles dizem coisas a respeito de mim, muito mais até mesmo que os grandes clubes. E, se os times pequenos dizem a respeito de um único contribuinte, quanto mais não farão pela história da própria cidade, homens de pouca fé? Em especial daqueles menos recordados de sempre – os operários, os suburbanos, os pretos, os pobres, as putas, apesar das exceções. Preservar a história destes clubes menores é preservar a memória de uma camada pobre da população, o que é muito raro. É de se esperar que aqueles que pouco podiam fazer em termos de lazer não teriam lá muito o que preservar de fotos e memorabilia. Mas é deles que ainda podemos extrair informações que os clubes maiores já se afastaram muito e não deixam mais transparecer.

Comecemos pelo Nacional AC, clube da tradicional Barra Funda que é o primo pobre do assim chamado “triângulo do futebol”, junto aos CT’s de Palmeiras e São Paulo. O Nacional é descendente direto do primeiro time de futebol do Brasil, o São Paulo Railway, fundado não menos do que pelo próprio Charles Muller, que trouxe da Inglaterra as regras e os materiais do esporte. É um clube que mantém até hoje sua raiz ferroviária, exemplificada no seu mascote, um personagem típico das gares, com seu quepe redondo e seu apito. É alusivo a um tempo em que as ferrovias eram muito mais significativas do que são hoje. Se olharmos para o Corinthians, não possuímos nenhuma referência, nem no nome, nem no distintivo, nem no hino, nem no mascote, que ele tem a mesmíssima origem do Nacional: os grupos de operários das estradas de ferro, aos quais se juntaram outros trabalhadores das várzeas do Tietê para fundar o clube que é o que é hoje. Quase ninguém sabe disso, nem mesmo os corinthianos. Já pensou? Sport Club Ferroviária Paulista? Rá, rá, rá... Lembrem-se que sou corinthiano, evitem me matar.

A patroinha na Comendador Souza
No caso da até a pouco tempo atrás grande Portuguesa, ainda resta o modo com os quais uma colônia se construiu e manteve sua identificação. Há no Canindé um time cujo nome já diz tudo sobre sua origem, há o bolinho de bacalhau no bar do estádio, há a dança folclórica e há a festa típica. A torcida acompanha as cobranças de falta com palmas em ritmo de vira, canta fado como grito de guerra. É, em suma, mais do que um time, é uma instituição cultural e pedagógica. É um time de uma determinada imigração constituinte da composição de São Paulo. Um clube muito maior, que também nasceu de uma colônia, que também ostentava o nome de uma imigração, como o Palmeiras, diminuiu muito os traços dessa origem. Tudo bem, seu nome foi uma mudança forçada, mas foi só o início, passando por suas cores, até chegar no próprio nome de seu estádio, outrora com o sonoríssimo nome de Palestra Itália. Os nomes dos campos agora se compram, o que os tornam insossos, como é o molho de tomate de latinha diante do da mamma. Ok, o Palmeiras transcendeu sua própria origem e virou um clube de expressão nacional. Mas é só uma identificação que faz isso? O Vasco da Gama não é igualmente grande? A Portuguesa não poderia continuar a ser?

Talvez o exemplo melhor solucionado seja o do Juventus, da minha gloriosa Mooca, cujo campo minúsculo vive infestado dos alegres grenás, que cantam a Aquarela do Brasil à moda portenha: “Ôôôôô, e dá-lhe, dá-lhe, Juventoooooooos; e dá-lhe, dá-lhe, Juventoooos”... Em todo fim de semana, seja no sábado à tarde ou no domingo de manhã, o estádio Comendador Rodolfo Crespi está cheio. A explicação vem do quase inexplicável bairrismo dos mooquenses. O Juventus não é só pequeno; ele nunca foi grande. Mas, parafraseando Fernando Pessoa na pessoa de Alberto Caeiro, o Juventus é o melhor time do mundo porque é o time do meu bairro, ao menos para os nascidos na Mooca, como eu. Não há lá ninguém que tenha o Juventus como time número 1, mas também não há ninguém para quem o Juventus não seja o time número 2, o time da minha vila, que joga no meu quintal.

Se o Juventus servisse de exemplo, com o campo colado na antiga fábrica têxtil que lhe deu origem, teríamos muita sensação de pertença e conservação da história, o que poderia reverter os efeitos pensados por Boudrillard, já que manteríamos os pés na realidade justamente por nos orgulhar dela. Se o pessoal da Barra Funda e região aderisse da mesma forma ao Nacional, um dos campos mais acolhedores para assistir jogos se tornaria mais conhecido da cidade inteira, e se saberia que é lá que nasceu o tal do país do futebol; pelo menos um dos seus filhos mais antigos. Se a Portuguesa conseguisse chamar de volta o pessoal dos bairros tipicamente portugueses, como a Vila Maria e a Vila Guilherme; se conseguisse a adesão dos moradores do Brás e adjacências; se conseguisse transmitir pertença a todas as outras colônias pelo elo que as uniu em nossa terra, a nossa língua, talvez conseguisse atrair até mesmo os novíssimos imigrantes que estão profusamente ao seu redor, e se tornasse um prazer assistir seus jogos em estádio de tão fácil acesso. E talvez fosse mais rápido desfazer o mal da rapina lograda aos seus cofres.

Mas o Brasil não é o país do futebol, essa é a conclusão. No país do futebol, uma cidade com doze milhões de habitantes não deixaria de preencher os vinte mil lugares do Canindé, no que seria uma boa fonte de renda para que um time por onde desfilaram craques como Filó, Djalma Santos, Pinga, Brandãozinho, Ivair, Julinho Botelho, Jair, Servílio, Félix, Ditão, Marinho Perez, Enéas, Leivinha, Wilsinho, Zé Maria, Basílio, Ratinho, Jorginho, Toninho, Edu Marangon, Bentinho, Dener, Tico, Zé Roberto, Rodrigo Fabri, Leandro Amaral, Capitão, Guilherme, Bruno Henrique e muitos outros. Casa cheia seria uma boa fonte de renda mesmo com os ingressos mais em conta, para que a roda de visibilidade e patrocínios começasse a girar. Apenas pela motivação histórica, no país do futebol um clube como a Portuguesa já haveria sido socorrido. Mas não. O país de futebol, para sê-lo, precisaria contar com o orgulho da população em ter um time local, e no fato deste time enfrentar os clubes das cidades próximas com o mesmo nível de apoio com que recebe um time grande. Ainda que sentados em montinhos de barro, como eu fazia quando criança, porque essa é a realidade que vivemos no país, fora das grandes arenas. Nosso país não é uma arena. É pobre. Nosso povo é pobre, infelizmente.

Recomendações:

A principal obra de Baudrillard voltada ao assunto aqui tratado é a seguinte, muito interessante:

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulações. Lisboa: Relógio d’Água, 1991.

Um canal de futebol do Youtube bastante interessante é o do Esporte Interativo. Gosto, principalmente, do quadro “Polêmicas Vazias”, conduzido pelo Bruno Formiga. Aliás, de vazias, as polêmicas não têm nada. Mesmo que não concorde com todas as suas opiniões, aprecio muito a maneira como ele as coloca, principalmente pelo científico fato de que ele procura embasá-las, evitando meros achismos. Segue um exemplo de vídeo bem interessante: