Marcadores

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – 5ª estação: Delfim Moreira e as trilhas tão significativas quanto os cumes

Olá!


Eu faço força para acreditar na meteorologia, mas ela não me ajuda. Pouco antes de viajar, fui consultar um site de previsão do tempo, que me garantia clima firme para os primeiros dias da minha folga, e chuva intensa a partir do momento que passo a relatar agora. O resultado foi exatamente o inverso: muita chuva nos três primeiras dias, e, embora o céu se mantivesse com o cenho carregado, parecia estar mais estável hoje. Ora, direis, você só presta atenção quando a previsão é furada. Quantas e quantas vezes os esforçados meteorologistas acertaram seus vaticínios e você fez vista grossa? Eu sei, eu sei... O nome disso é viés de confirmação e é um efeito extremamente comum no psicológico humano. Já prometi falar sobre isso mais de uma vez, mas também não será agora. Vou me limitar a reconhecer que o trabalho de previsão climática é importante e mais acerta do que erra, mas há um velho ditado que preconiza: se faz sol, leve o guarda-chuva; se chove, faça como melhor lhe convir. Imbuído neste espírito, deixei o guarda-chuva no porta-malas e me mandei para Delfim Moreira.


Quando fui para Marmelópolis, já havia passado por aqui, onde cheguei a aventar a hipótese de me hospedar. Acabei optando por Itajubá por uma questão de praticidade (e preço), mas gostei bastante do lugar. O nome da cidade remete a um dos presidentes da Primeira República, e que nasceu na região (mais precisamente na já relatada cidade de Cristina). É um dos políticos que fez parte da alternância entre paulistas e mineiros no poder central do Brasil, como já narrei em meu texto sobre Passa Quatro. O nome original do local era Descoberto do Itagybá, nome dado pelos bandeirantes que desbravaram aquele território, muito maior do que o atual. A esta porção é que reservaram o nome de Delfim Moreira, registrado em sua antiga estação de trem.


Assim como em Marmelópolis, o negócio de processamento de frutas era próspero por aqui. Isso levou grandes indústrias para a região, todas desativadas hoje, dadas as dificuldades de transporte e a desvalorização do preço dos marmelos e goiabas. A antiga fábrica da CICA é a mais bem conservada delas, e abriga equipamentos culturais, bem ao lado da prefeitura. Lembro de seu slogan: “se é CICA, bons produtos indica”.


Outro grande empreendimento era a indústria Peixe, da qual nada localizei. O que há, em razoável estado de conservação, é a Colombo (“a qualidade de sempre”), famosa por sua geleia de mocotó. Um bom tapinha a deixaria em ordem. Dos doces, só restaram as receitas caseiras e a produção artesanal.


A cidade é toda em desnível, dada sua posição em área montanhosa. A própria igreja matriz, dedicada a Nossa Senhora da Soledade, fica a meio caminho entre o alto de um monte e o fundo do vale, e, ao contrário do que costuma ocorrer, fica em posição longitudinal em relação à via principal.


Mais incomum ainda é sua torre, muito alta e destacada do corpo principal da igreja. Gostaria de ter entrado nela para conhecê-la, mas estava tudo fechado. À frente, e complementando o conjunto, o indefectível coreto.


Talvez a explicação para o fechamento estivesse no outro lado da cidade, onde fica uma igreja cuja padroeira é Nossa Senhora Aparecida. Bem na véspera do feriado, os preparativos para a festa estavam fervendo, com montagem de barracas e equipamentos de fazer comida.


Ao contrário do que havíamos feito no dia anterior, achamos melhor não estorvar ninguém com papos furados e fomos explorar outro nicho da cidade, bem mais recente: a cerveja artesanal. Na rua da estação, existe a cervejaria Hop, de visual moderninho, e que só abre nos finais de semana.


E bem perto da última igreja há a cervejaria mais famosa de Delfim Moreira, a Kraemerfass. A casa é construída toda sob temática alemã, com sua arquitetura típica, e a microfábrica fica lá mesmo, em um dos predinhos erguidos em tijolinhos.


A cerveja é realmente boa, principalmente a dunkel, mais escura. Aqui, estamos degustando uma tipo Viena. Ingenuamente, perguntei para a mocinha que nos atendeu porque eles não fazem cerveja do tipo IPA, tão saborosa e na moda. A resposta foi simples: IPA é uma cerveja inglesa, e a casa é de inspiração alemã. Toma, burro.


Estou me perdendo cronologicamente. A história da cerveja foi à noite, mas antes disso, durante o dia, fomos aproveitar o estio para andar pela parte campestre. Para quem vem de Itajubá, bem antes do núcleo urbano, há a cachoeira do Ninho da Águia, pedrogosa e cercada de mata densa.


Fica inscrita em uma propriedade que se trata de um clube de campo, construído às margens  do rio Santo Antônio, próximo ao distrito de Água Limpa, onde também se pode encontrar piscinas, quiosques, espreguiçadeiras e um grande restaurante.


Espelhando o relevo da região, o curso d’água se move por grandes desníveis, o que gera uma grande quantidade de saltos e quedas. É bonito de ver e perigoso de entrar, embora haja alguns remansos possíveis, como este abaixo.


O lugar mistura ambientações naturais e construídas. Há trilhas que levam ao topo da cachoeira, entrecruzando flora nativa. Estando lá, dá para perceber o formato circular que acaba por inspirar o nome dado ao local.


O rio Santo Antônio tem uma série de ilhotas ligadas por pinguelas, o que permite observar as várias bromélias que estão lá plantadas, em simbiose com as árvores hospedeiras, que abrigam borboletas às dúzias.


Eu e a patroa ficamos bem uma hora sentados admirando o belo lugar, e aproveitamos para pegar umas dicas. Bem mais próxima do centro, fica a cachoeira do Itagybá, mais rústica e embutida em meio natural. É bem verdade que se trata de propriedade particular, mas o acesso é franqueado livremente através de trilha.


O caminho até a cachoeira, apesar de não ser longo, é lindo. Está crivado de bichos de toda espécie, em especial por grilos e gafanhotos, em uma mata que vai se adensando à medida que se aproxima da margem da queda d’água.


A cachoeira é suprida pelas águas do ribeirão do Taboão. Aqui, finalmente, foi possível gelar as costas, e ficamos um bom tempo observando a água que corre e o cantar dos passarinhos.


Tudo muito romântico, mas o pessoal da cidade nos cantou a bola: se você quer ver como o Itagybá é bonito, precisa pegar as trilhas e vê-lo do alto, o que fiz. Para tanto, há um conjunto de trilhas que se chama Cruz das Almas. Credo! É um caminho que tem trechos de mata bem fechada, com algumas ladeiras um bocado íngremes.


Não sei exatamente porque o monte tem esse nome. Devo supor que é por causa do cemitério que fica nas imediações, mas não dá para ter certeza, porque não fica tão perto assim. De qualquer forma, há várias cruzes dispostas pelo caminho, meio no estilão Vila Formosa. Credo2!


Quando me disseram da existência de uma gruta a meio caminho do topo, imaginei uma caverna ou uma escavação na pedra, alla São Thomé das Letras, por isso fiquei procurando a tal. Na verdade, é uma construção em pedras, onde se encontra uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes (a mesma de Maria da Fé).


No ponto culminante, depois de uns dois quilômetros de caminhada (acho), temos aquilo que é o maior distintivo desta mata: um grande cruzeiro fabricado em ferro, ornado internamente com várias cruzes menores. Em tese, deveria ser visível ao longe, mas a selva mais cerrada não permite essa facilidade.


Pois é daqui, depois de passar pelo buraco de uma cerca de arame farpado, que é possível vislumbrar a cachoeira do Itagybá por cima, dando uma ideia muito mais precisa de sua dimensão. Realmente, o conjunto de quedas visto de perto não dá dimensão exata de real tamanho.


Ainda andamos pelos lados dos bairros de São Bernardo e do Barreirinho, mas a garoa que voltou a me perturbar pode não ter sido suficiente para me impedir de amassar barro, mas achei pouco salutar para minha máquina ficar sendo molhada a esmo. Mas a formiga filosófica veio me fazer coceiras na consciência. Muitas das trilhas prometem te levar para algum lugar em que você espera confirmar o que pensa encontrar. Outras, você encontra algo oposto, inesperado, regozijante ou decepcionante. Outras ainda te levam nem se sabe bem para onde. Essas sendas por vezes tortuosas, por vezes nebulosas, por vezes circulares, por vezes objetivas e por vezes ilusórias são a melhor metáfora que consigo encontrar para os caminhos do conhecimento. E, na medida em que chegamos ao seu fim, percebemos que há sempre mais e mais caminho. É possível haver limite? É possível a totalidade do conhecimento?

A resposta é: não sei. Mas estou longe de ser o primeiro a afirmar isso. Há mais de 2000 anos os sofistas já faziam da impossibilidade de conhecer um instrumento para se voltar os olhos à retórica e ao seu proveito para a vida política, pouco ligando para um verdadeiro valor absoluto da realidade. Mas é um pouco depois, no período do Helenismo, que o ceticismo foi elevado a categoria ética, através do pensamento do grego Pirro, da cidade de Élida.

Não se sabe muita coisa sobre sua formação, mas Pirro era um homem de cultura em sua terra. Em um determinado momento, tomou parte da expedição de Alexandre Magno para o Oriente. Por lá, conheceu civilizações tão consolidadas quanto a grega, como os persas, os afegães e os indianos. Todos estes povos possuíam seus sábios e sistemas de conhecimento, o que logo fez com que Pirro e companheiros confrontassem tudo aquilo que sabiam com esses novos saberes. Estando bem longe de um espírito dogmático, Pirro percebeu que, mesmo com premissas e conclusões bastante diversas do que obtinham os gregos, os sistemas de pensamento orientais eram igualmente válidos. Sua conclusão era a mesma dos sofistas – é impossível conhecer, não existe essa coisa da plena certeza. Sua novidade está na transposição da categoria epistemológica para abordar a predisposição ética. Vamos vê-la.

É inegável que os seres possuem uma natureza e que essa natureza possua em si mesmo uma verdade. Afinal de contas, as coisas estão aí, para que possamos percebê-las. Mas quais são as nossas condições de atingir essa verdade? Como vejo as estrelas e posso assegurar o que elas são de fato? Como designo seguramente o que é um ser humano, além de um bípede implume? Para que fosse possível chegar a qualquer conclusão indisputável, seria necessário que a ferramenta humana que dispomos, a razão, estivesse livre de qualquer tipo de filtro ou interferência, como os dogmas que aprendemos ou as opiniões que adquirimos. O problema é que tal pureza do intelecto é inatingível. Cada um de nós possui um tal conjunto de perspectivas que nos tornam únicos, e uma minúscula fração de divergência nos juízos é suficiente para que a ambiguidade se estabeleça. Pirro não deixou nada escrito, mas outro cético, Enesidemo, sintetizou em dez pontos o que torna instável a razão. O rolo é que também não temos registros dos saberes de Enesidemo, então nos resta aquilo que foi coligido por outros céticos, como Sexto Empírico, que registrou esses tropos. A premissa básica é movida pela percepção que vem dos sentidos.

1. Os homens não são diferentes dos animais na questão da percepção. No entanto, os sentidos são muito distintos quando pensamos em sua acurácia. O cão tem olfato privilegiado, assim como o morcego tem audição insuperável e a águia, uma visão muito aguçada. Isso faz com que cada espécie viva adquira o cosmos de modo diferente da outra;

2. Cada homem é constitucionalmente diferente do outro. Uns são mais altos, outros mais baixos; uns são mais gordos, outros mais magros; uns mais ossudos, outros mais débeis. Esses pares dicotômicos podem ser levados à exaustão e combinados entre si, de modo infinito;

3. Cada órgão do sentido tem características próprias. É de se supor que a visão e a audição consigam captar sensações à distância, enquanto o tato e o paladar necessitam de contato para obtê-las. Além disso, é de se imaginar que há órgãos mais desenvolvidos que outros em diferentes pessoas, o que faz com que percebam melhor;

4. A disposição de um indivíduo muda a forma como ele apreende os objetos. Uma pessoa sonolenta não vê as coisas do mesmo modo que alguém bem desperto. Um medicamento pode turvar a vista da pessoa, e sua apreensão é outra com relação a um momento saudável;

5. A posição do objeto influencia na perspectiva que temos sobre ele. É diferente ver algo de perto ou à distância, centralizado ou lateralmente, no mesmo plano ou acima dele (lembram dos pontos de vista da cachoeira do Itagybá?);

6. Os objetos nunca são apresentados puros diante de nós, exigindo um esforço fenomenológico para isolá-los. No entanto, é sempre árduo de fazê-lo. Um simples iogurte, por exemplo, pode estar em uma mesa, uma gôndola ou uma geladeira, só ou com outros alimentos; pode ser provado antes ou após o almoço, ou em jejum; pode ser colhido com uma colher de plástico ou de metal, ou bebido direto no copo. Ou seja, a sensação é sempre uma mistura ou uma combinação de sensações;

7. A quantidade e a forma com as quais um determinado objeto se apresenta a nós interfere diretamente na maneira com a qual o apreendemos. De fato, é bem simples imaginar as diferenças entre vapor, gelo e água líquida. Tudo é água, mas apresentada em diferentes estados, com diferentes maneiras de serem percebidas pelos sentidos;

8. Há uma relação entre o objeto que é estudado e o sujeito que o pesquisa. É mais possível conseguir neutralidade quando algo não me diz tanto respeito, mas isso afeta o meu interesse, que se torna menor. A recíproca é verdadeira. Imagine que estou pesquisando sobre o meu todo-poderoso Timão. Enviezadamente, vou pesquisar tudo o que estiver ao meu alcance, até o fundilho do baú. Se a tarefa for analisar o XV de Itapipoca, talvez eu consiga fazer um bom trabalho, mas haverá o limite do seu cumprimento, e pronto;

9. A frequência com que ocorrem os fenômenos também interferem na maneira como os absorvemos. Uma novidade pode aumentar muito o meu interesse, mas sei pouco sobre ela, e talvez demore muito para que se obtenha uma nova experiência;

10. Finalmente e mais importante. Os homens são persuadidos em suas idiossincrasias por seus costumes e opiniões. Achamos estranhas a poligamia e a poliandria? Há povos que não pensam assim. Tem costumes que derivam de crenças e vertem para leis motivados por suas próprias histórias e razões, alheias a nós, e assim nascem aparatos dogmáticos como as Religiões, que ditam regras imutáveis e discricionárias.

O que temos é a acatalepsia, termo grego usado pelos pirrônicos para indicar a impossibilidade de se chegar a verdade. No entender dos céticos, qualquer argumento pode ser contraposto por outro, com igual peso e validade. Não há, por conseguinte, uma hierarquia possível entre definições de verdade, porque sempre haverá a influência dos dez tropos citados acima. Quando postos diante de todas estas encruzilhadas, o cético conclui que só resta a suspensão do juízo, a epoché. Este é o único caminho para uma tranquilidade que sustente a paz de espírito.

Se a vida boa é uma procura constante pela verdade, ela se torna igualmente impossível. Mas, se a verdade é inatingível, isso não significa que o caminho não exista. Ele é trilhado através de uma “arte” desinteressada por um objetivo escravizante, um constante duvidar que representa, no fundo, uma liberdade de escolha quando nos vemos diante das opções. Se a nossa preocupação não é com o objetivo final, o prazer passa a residir no próprio meio em que o buscamos, como a trilha que se percorre sem a necessidade de se ter um porquê. A beleza está no próprio caminho, assim como nas veredas de Delfim Moreira.

Recomendação de leitura:

Como se pode deduzir do que eu mencionei acima, é muito raro encontrar escritos de uma época tão distante. Pirro não nos legou escritos, mas Sexto Empírico sintetizou o pensamento da escola cética de modo a termos um retrato consistente daquilo que eles podem nos ensinar.

EMPÍRICO, Sexto. Contra os Retóricos. São Paulo: Unesp, 2013.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – 3ª estação: Marmelópolis e as influências da cabeça no nosso linguajar

Olá!


Quando retornei da cidade de Cristina, após tomar uma overdose de café, e ainda melecado de barro até os joelhos, tinha a esperança de que a chuva arrefecesse um pouco. Não que eu não goste de água na cabeça, sei que é um problemão quando há seca, mas o diabo são os impedimentos que a mesma impõe, como já mencionei no precitado texto. Como o desejo não move nada, a não ser nossa depressão, tivemos mais uma madrugada encharcando tudo. Não sou mais criança para achar que há alguma conspiração metafísica contra minha pessoa, e sei que as frustrações são mais fáceis de serem lembradas do que quando o planejamento é bem cumprido. O nome disso é juízo retrospectivo, e sobre ele falarei em melhor momento. O ponto era a sinuca de bico em que eu me encontrava. Onde encontrar algum lugar mais urbano em meio tão caracterizado pelo domínio rural? Mais ainda: em uma boa parte de área protegida? Bom... Segui o princípio geral de que não somente o ambiente nos rege, mas também as relações que temos com as pessoas e parti para a pequenina Marmelópolis.


Meu objetivo ao mirar esta cidade era atacar o pico do Marinzinho, uma formação rochosa a 2432 metros de altitude, bem na divisa com o estado de São Paulo. Até tentei invadir um pedaço da estrada de terra que leva ao seu sopé, mas o lamaçal que se formou era um impeditivo inapelável. Acabei achando melhor diminuir o tamanho do passo e ir atrás de uma trilha mais tranquila. Esse era o aspecto do pico no momento de maior proximidade dele.


Como o que restava essencialmente era a paisagem para ser observada, pude contemplar um grande número de araucárias, um pinheiro muito mais típico da região Sul do Brasil, em um bioma conhecido como Mata de (oh!) Araucárias. Não sou um botânico de renome, mas é uma árvore muito sui generis, alta e de copa pouco encorpada. Fazem um contraste bastante interessante com a tapeçaria verde mais intocada dos seus montes.


O morro onde fica este cruzeiro dá uma boa dimensão da presença destas árvores, além de denunciar o quanto são íngremes as terras desta freguesia. Subimos a pé para tirar umas boas fotos da redondeza. Incompetentemente, a máquina ficou esquecida no carro e não tive pernas para voltar a amassar todo o barro necessário.


Marmelópolis é cortada pelo rio Lourenço Velho, que serpenteia a serra com água extremamente gelada. É possível observar suas margens por todo o trecho urbano e por boa parte da grande zona rural.


Aliás, temos aqui uma rara ocorrência de município onde a população rural se equilibra com a citadina. Essa divisão proporciona a apreciação de coisas que não são mais tão fáceis de se encontrar, como o registro do transporte de cargas por muares (e a indefectível companhia de caninos), algo muito comum na história tropeira destas plagas. De fato, aqui cabe o jargão de que o tempo passa mais devagar.


Estávamos na semana em que se comemora o dia de Nossa Senhora Aparecida, escolhida pelos membros do clero como padroeira do Brasil. Há diversos municípios que a escolheram como protetora local também, exatamente o caso de Marmelópolis. Numa circunstância dessas, era óbvio que a matriz seria dedicada à santa em questão. A igreja nem é tão grande, mas estava bastante agitada com os preparativos para a festa que viria poucos dias depois. Sentamos um pouco na pracinha para observar o agito, e acabamos puxando papo com algumas mulheres que lá estavam trabalhando, com seus jeitos peculiares de falar e de narrar os fatos.


Não quis ficar perturbando muito, já basta o mister de cada uma, para ainda ter que dar atenção a visitante chato, o que elas fazem com maestria. Fui dar uma espiada por dentro da tal igreja, muito simples de fato, mas que tem uma característica digna de nota: um tabernáculo* escavado dentro de um tronco. Normalmente, este objeto fica encravado na parede ou embutido em um altar, o que dá uma ideia da originalidade de quem o bolou.


A fome apertou bastante, e fomos caçar comida, devidamente encontrada em um restaurante que fornecia aquelas coisas bem típicas de região, como carne de porco e muita coisa cozida na banha. A natureza é uma grande fanfarrona: as coisas mais saborosas são as que mais fazem mal. Mas havia também outra especialidade destas terras altas, muito frequente em São Francisco Xavier, no interior de São Paulo – as trutas.


O dono do estabelecimento é o Silvio, que é um sujeito paradigmático do homem do interior. Conversas longas sobre os tempos de menino, da partida para a cidade grande e do retorno à tranquilidade após as agruras e aposentadoria. Nesta casa, mais duas tipicidades que só encontrei aqui: a cachaça com marmelo...


... e o suco de marmelo, feito a partir de um purê processado da fruta, já que a mesma, in natura, é impossível de comer, dura, fibrosa, amargosa, apesar de seu parentesco com a maçã e a pera, bem mais amigáveis. Não era época, não tinha marmelo.


O nome da cidade é curioso e óbvio. O antigo distrito de Queimada, pertencente ao município de Delfim Moreira, começou a se especializar no cultivo do marmelo, planta oriunda da Ásia Menor, e que se adaptava muito bem às condições climáticas daquela área. Até a década de 80, o negócio da marmelada era bastante próspero na região, e a fruta virou uma espécie de mascote, como pode ser vista no Marmelus Club e em todo o comércio.


A pujança do negócio de marmelo levou fábricas grandes para o município. Na praça em frente à matriz, onde hoje permanecem um coreto e um quiosque de artesanato, estava situada a CICA, uma das maiores empresas de produtos alimentícios da época, conhecida em todo o Brasil e uma grande exportadora. O elefante Jotalhão, por exemplo, era utilizado em suas embalagens para fazer propaganda. Todo mundo acima dos trinta lembra da marca, que foi absorvida por outra gigante do ramo em meados da década de 90.


Mas os tempos não seriam generosos para todo o sempre. O marmeleiro é uma árvore enjoada, difícil de cuidar, e, com o país economicamente em frangalhos, os produtores rurais foram mudando as culturas que produziam. Por toda a cidade, encontramos fábricas abandonadas.


A diminuição da taxação de importações foi uma pá de cal nessa atividade econômica. Ficava muito mais barato para os grandes fabricantes importar as frutas diretamente da Ásia do que manter as plantações no Brasil.


Neste caso, perdia o sentido manter pequenas fábricas em rincões mais longínquos, não servidos de transporte eficiente. Ferrovia por aqui foi apenas um projeto. Hoje em dia, apenas há o testemunho de construções já deterioradas, quase inexistentes, como é o caso desta chaminé próxima ao rio.


Nos tempos atuais, a produção de marmelo na cidade somente permite a existência de uma última fábrica, bem acanhada, pertencente ao Moisés e sua família. Fomos até lá para ver como é feita a coisa, e se poderíamos conseguir alguns de seus produtos.


O doce é feito a partir de uma pasta bruta armazenada em latas, a mesma utilizada para fazer o suco que tomamos no almoço, que é cozida e mexida até pegar o ponto de corte, para depois ser moldada em seu formato próprio. Além disso, é produzida na cidade uma geleia que mistura marmelo com laranja.


Como nós, diabéticos, somos colocados em um plano meio que esquecido no mercado, não havia marmelada diet. E é um doce que eu simplesmente adoro. A solução foi conseguir uns três quilos de pasta bruta na fabriquinha. Corremos até uma loja no centrinho e compramos um pote com tampa, que preenchemos à plenitude com tal produto, para depois ser preparado com frutose, menos proibitiva à espécime de sangue doce.


Bom... Durante esta breve estada, constatei um fenômeno interessante. Eu confesso que sou altamente influenciável no quesito sotaque. Se eu conviver com alguém que puxe um “S” com som de “X”, lá vou eu puxar um “S” com som de “X”; se eu ficar uns dias no Paraná, já chamo todo mundo de piá, e leite quente dá dor de dente na gente. Idem nos meus rolês pelo interior, como neste de agora. Mas, em geral, o efeito se sente ao cabo de alguns dias, especialmente quando confrontado ao retorno de minha paulistana realidade. Só que dessa vez, a coisa foi sentida logo.

Imediatamente após o almoço, quando ficamos mais de uma hora papeando com o precitado Silvio, fomos dar uma volta, para fazer o resto do quilo e procurar o tal pote para guardar a pasta de marmelo. Nos diálogos do caminho, a constatação da esposa: “Percebeu que a gente já tá falando igual mineiro?”. De pronto, lembrei da mocinha da padaria de Jesuânia, e sua enciclopédia de mineirês. Mas, no nosso caso, a coisa estava mais para a melodia entrecortada de desistências silábicas do que propriamente no linguajar, coisa de sotaque mesmo. Que coisa... Por que será que isso acontece? E por que cada vez mais rápido?

Vou me escorar na Psicologia Social do polonês Robert Zajonc para tentar entender. Mas, para isso, vou ter que passear por uma das principais correntes psicológicas de todos os tempos, o behaviorismo (ou comportamentalismo).

Grosso modo, os comportamentalistas não estão interessados no funcionamento mais profundo da mente, como fazem os adeptos da psicanálise, mas em quais são os aspectos práticos do que faz com que indivíduos se comportam de maneira X ou Y. Por exemplo, passo pelo corredor de bolachas de um determinado mercado. Meu comportamento padrão é passar batidos pelas doces, sendo eu gordo e diabético, e caçar alguma coisa inocente pelas salgadas. Todavia, algo pode modificá-lo: há novas bolachas diet, ou novos sabores, ou seus preços baixaram. Isso me estimula a comprar mais bolachas, mas o inverso também é verdadeiro. Um preço que sobe, uma marca que some, uma consciência de excesso de peso, tudo isso me reprime o ato da compra. O primeiro é um estímulo positivo; o segundo, negativo. Esses reforços são utilizados largamente em educação, até mesmo quando estamos em casa, tentando estimular nossos filhos a fazer a chatíssima lição de casa. Algumas vezes isso é feito de forma ética, elogiando as boas notas; em outras, tenta-se comprar o fedelho, oferecendo-se algum mimo pelo bom desempenho. De uma forma ou de outra, o objetivo é reforçar o comportamento, através de uma recompensa. Ou, ao contrário, desestimulá-lo, com a aplicação de castigos.

Pois bem. O comportamento, assim colocado, fica obviamente movido por estímulos, aos quais damos algum tipo de resposta. Mas isso nem sempre está tão na cara, como nos exemplos acima. A mente humana é capaz de perceber estímulos muito mais sutis, e, às vezes, involuntários. É aí que entra o objeto da pesquisa de Zajonc, chamado de mera exposição.

Nosso psicólogo queria pesquisar porque temos situações em que nos sentimos mais confortáveis do que em outras, sem que haja um motivo explícito para tanto. É claro que um forte estimulante, seja positivo ou negativo, vai produzir efeitos imediatos e evidentes. Eu, por exemplo, sinto-me incomodado em qualquer ambiente onde haja música (ou algo assim chamado) em volume que me impeça de conversar, a não ser que eu me proponha a ir a um show. Mas isso tudo está no campo da racionalidade. Acontece que há lugares extremamente agradáveis sem que percebamos logo de cara o porquê. Zajonc apostou em uma familiaridade inconsciente. E, a julgar pelo resultado de suas pesquisas, acertou.

Os experimentos de Zajonc eram extremamente simples. Em um deles, era exibida a um grupo de voluntários uma sequência rápida de imagens geométricas, de modo que não fosse possível fixar-se demoradamente sobre nenhuma delas. Ao final, eram exibidas em um quadro todas as imagens que fizeram parte da sequência, sem, no entanto, aparecerem repetidas. A pergunta era: Qual destas imagens lhe é mais agradável? A imensa maioria dos pesquisados apontava para as figuras que haviam sido repetidas mais vezes. Junto com outras investigações do mesmo tipo, Zajonc concluiu que a simples exposição de algum objeto com maior frequência, por si só, era capaz de produzir um efeito de familiaridade, sem que tal objeto tivesse algum destaque extraordinário sobre os demais. Em cima desta constatação, uma série de especulações passou a ser feita.

Algumas delas: a afetividade não é racional, muito pelo contrário. Passamos a gostar cada vez mais de um objeto qualquer à medida em que aumenta nossa exposição a ele pelo fato de que esse acréscimo nos dá uma sensação de estabilidade. Sabe aquele minúsculo quadrinho no corredor, que foi repassado de sua avó para a sua mãe? Pois é. O dia em que ele for retirado da parede, seu subconsciente vai captar e te provocar uma sensação estranha, mesmo que você nem se desse conta da sua existência. É que o quadrinho, pela sua constância, é uma sensação estável, de que tudo está no seu lugar, algo que lhe indica a segurança de seu lar. E, atavicamente, temos um certo conservadorismo, porque essa é a vida que está dando certo. Afinal de contas, estamos vivos, não é mesmo? Sim, esse é o tipo de percepção que vem lá do fundinho. Novidades, nesse sentido, não são bem-vindas, até que o efeito da mera exposição opere mais uma vez e também elas se tornem estáveis. Isso pode ser visto em inúmeras espécies, que ficam tremendamente ariscas perante algo desconhecido.

Zajonc produz teses que se assemelham bastante ao voluntarismo de Arthur Schopenhauer (leiam mais aqui). Este último dizia que os pensadores se enganavam quando diziam ser o homem um ser racional. A primazia ficava pela vontade informe e eterna, insaciável e perturbadora, algo que atuava no nível irracional. Muito antes de pensar, o ser humano deseja, e isso lhe move. Para Zajonc, por sua vez, temos uma anterioridade dos afetos com relação ao raciocínio. Nosso cérebro precisa muitas vezes de respostas rápidas, e, para tanto, lança mão do que está mais prático. A própria heurística usa esse mesmo dispositivo (já falei aqui sobre este tema), mas o fato é que temos muito mais coisas ao nosso redor do que podemos processar racionalmente. Por isso, as coisas que nos reconfortam e acomodam são percebidas primeiramente neste nível, para somente depois serem ponderadas.

Para demonstrar bem as assertivas acima, basta que pensemos que qualquer coisa que percebamos sempre é acompanhada por um julgamento do âmbito afetivo. Olho para uma pessoa e sempre colo a ela um conceito de beleza ou feiura, simpatia ou arrogância, cara de bobo ou de malandro. Como estas percepções não são objetivas, e variam de pessoa para pessoa, são claramente movidas por nossos afetos. E não adianta: eu passo do lado de uma praça mal cuidada, lá vou eu ter a sensação de desagrado, automaticamente.

Essa moção do afeto em precedência à cognição explica porque a quantidade de vezes a que somos meramente expostos a uma coisa qualquer faz com que tenhamos essa tendência maior a uma conformidade gradualmente maior. E isso nos faz migrar da Psicologia Cognitiva, que estuda como apreendemos o mundo ao nosso redor, para a Psicologia Social, que tenta entender como a cabeça influencia em nosso convívio com o outro. Quem usa muitíssimo bem essa característica é a publicidade. Esse é um dos motivos pelos quais as marcas se tornaram cada vez mais expostas e mais movidas pela imagem em si do que pela escolha racional (como eu já escrevi neste post). Só que isso não está adstrito aos limites ambientais, mas na própria relação interpessoal. Temos uma propensão natural em desenvolver amizades com pessoas que vemos com mais regularidade. Ora, direis, é óbvio, né? Se eu tenho mais contato com uma pessoa, eu terei mais facilidade de falar com ela, pelo próprio contato visual. Mas não é essa a questão. Se você estiver perdido e encontrar na rua duas pessoas, sendo uma que você nunca viu mais gordo, e outra que você vê todo dia, ainda que nunca tenha conversado com ela, terá uma inclinação a confiar mais na segunda. Você não sabe absolutamente nada sobre ela, além do fato de que a vê sempre. Independentemente de racionalizações, isso já é uma informação subconsciente: essa pessoa pertence ao seu universo, e você ainda subsiste no seu universo, mesmo com todos os seus problemas.

Não seria o efeito da mera exposição uma explicação para a facilidade com que mudo o meu modo de falar? Percebem como tendemos a aproximar nossas atitudes e gestuais dos membros de nossa família? Outro dia, estava assistindo o programa Linha de Passe, da ESPN, e, participando da mesa redonda estava o jornalista André Kfouri, filho de Juca Kfouri. Em um determinado momento, dei-me conta de que a semelhança das expressões faciais de ambos é ainda mais marcante do que as semelhanças físicas, coisa esperada entre pai e filho. Duvido que Juca tenha ensinado ao André “faça a cara assim e assim”. É algo que é absorvido pelo contato e pela habitualidade, irracionalmente, exatamente como preconiza a tese da mera exposição. Um ser gregário mimetiza aqueles que o rodeiam, especialmente quando se sente em posição confortável. Por isso, não seria estranho pensar que, à proporção que viajo para regiões com aspectos semelhantes, que me agradam bastante, que ocorrem em momentos de descontração e relaxamento, alguns dos efeitos psicológicos aqui descritos sejam disparados, e eu comece a engolir vogais, puxar erres, trocar “O” fechado por “U” e assim sucessivamente.

Tudo isso eu percebi em Marmelópolis. Caramba! Bons ventos a todos...

Recomendação de leitura:

Um livro bem antigo, normalmente encontrado somente em sebos ou em bibliotecas de universidades.

ZAJONC, Robert. Psicologia Social. São Paulo: Herder, 1969

* No Catolicismo, é uma caixa onde se guardam as hóstias já consagradas, ou, conforme sua doutrina, o pão já transubstanciado no corpo de Cristo. É possível saber se o tabernáculo (ou sacrário) está sendo usado ou não, através de uma luminária chamada de lâmpada do santíssimo. Se está acesa, tem hóstia. Na foto, está no canto alto do lado esquerdo. Normalmente fica mais próxima do próprio tabernáculo, mas acho que não há uma regra muito rígida para a sua colocação.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Em demanda dos trilhos perdidos – 2ª estação: Cristina e os velhos laços com a monarquia

Olá!


Chovia. Após minha estada por Maria da Fé, só vi chuva, de madrugada e depois pela manhã, e isso fazia pensar no pobre Bedelho, cognome do carro que me leva para cima e para baixo. Ele não é um 4x4 potente, com pneus largos e boa distância para o piso. Não. É um sedanzinho 1.4, já meio velho, ordinário como outro carro qualquer, que nasceu para comer asfalto, e não terra. Ou, pior ainda, se lambuzar de lama. Quase fiquei atolado em Santo Antonio do Pinhal, quando desafiei uma tormenta para ficar embaixo de uma cachoeira. Na hora de ir embora, os inúmeros poceiros mostraram que o bichinho é valente, mas meu banco ficou todo furado, por conta da compressão dos esfíncteres, meu e da patroa. Além disso, não consegui subir de carro até onde era possível na serra do Picu, em Itamonte, o que me obrigou a andar um bom trecho a mais a pé (o que não foi ruim, no final das contas). Por isso, tenho sido mais conservador nessas coisas de me enfiar no barro estando motorizado. Se o próximo presidente confirmar suas promessas e o Brasil se tornar grande, pretendo trocar o vetusto pangaré por uma macchina mais valente. Por ora, vamos amassar barro com os pés mesmo.

Ainda assim, não seria eu que ficaria sentado no trono de um quartinho de hotel com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar. E, por isso mesmo, segui adiante na direção norte, mais próxima da região do Circuito das Águas Mineiro, em uma pequena cidade chamada pelo singelo nome de Cristina.



Já no caminho, uma grande quantidade de cafezais. Estamos em uma das regiões de Minas Gerais onde o café é consagrado como um dos melhores do mundo. Digo mais. É daqui o café mais bem cotado do planetinha, vencedor do prêmio Cup of Excellence, uma espécie de Oscar da rubiácea. Quem vê, imagina que são grandes fazendeiros com imensas quantidades de terras, mas não. A maioria dos produtores são pequenos. É um café naturalmente doce, como bem pude provar na área urbana da cidade.



Esta última é marcada por um pequeno núcleo, em cuja entrada encontra-se o que resta do antigo conjunto ferroviário da antiga linha de Sapucaí, o mesmo de Maria de Fé, e que hoje se encontra praticamente toda desativada, com esparsos usos turísticos, como em São Lourenço ou Passa Quatro. Na foto abaixo, podemos ver os fundos da lateral da estação à esquerda e o museu ferroviário à direita.



A estação tem a mesma carinha típica das demais, um galpão razoavelmente bem preservado, merecendo apenas uma pintura e uma reforma nas esquadrias, que hoje serve como rodoviária da cidade.



Já o museu tem à sua disposição um exemplar de trem que circulava por aquela linha, mais especificamente a composição de número 423. É um conjunto de locomotiva e vagão para carga do carvão, o combustível competente para a tarefa.



O trem é de fabricação norte-americana, um Baldwin de 1911, como se pode observar na placa lateral de sua caldeira; mais que centenário, portanto. O veículo praticamente é só um casco, já que muitas peças de seus mecanismos estão ausentes. Claro que não sou especialista nas artes ferroviárias, mas eu tenho boca e vou a Roma Cristina.



É informação que obtive na parte interna do museu, onde se encontram vários objetos doados, especialmente pela população local. Algumas das estantes possuem objetos que não são propriamente ferroviários, mas que ajudam a contextualizar a época. Em outras, há artigos mais específicos, como peças, ferramentas, uniformes e até um dos antigos avisos de sinalização que ficavam dispostos aos maquinistas ao longo da linha.



Há também algumas maquetes que reproduzem os antigos trens, como as máquinas a óleo e elétricas que vieram substituir os atávicos aparelhos a vapor que, no entanto, não deixaram de ser retratados. Abaixo, uma miniatura do trem exposto no pátio ao lado, mais completo, com seu vagão de passageiros.



Outro item ligado à ferrovia é uma caixa d’água, muito semelhante à que vi em Maria da Fé. Como se pode perceber pela foto, é um local que atualmente se presta à socialização pós almoço dos munícipes. Em outras palavras, uma boa sombra para o bate-papo e fazer digestão.



Mas Cristina não é só baixio. É morro, e como tem morro nessa terra. À medida que subimos, mais e mais casas antigas podem ser observadas, em especial na longa praça Santo Antonio, quarteirão muito bonito e com várias coisas interessantes para se ver. Percebam o quão íngreme são suas ladeiras, o que fez me lembrar bastante de Queluz.



Há diversas obras de arte espalhadas pela praça. Uma delas é um leão cuja autoria é desconhecida, mas o escultor de seus aparatos é personagem célebre destas cercanias. Trata-se de Chico Cascateiro, cujas obras de concreto imitam madeira e outros elementos, e de quem já vi outras pela redondeza, em especial na praça central de Carmo de Minas.



Outra delas, um pouco mais acima, é do mesmo artista, e é uma fonte que mistura um monte de elementos e referências, contendo inclusive um Manequinho, o moleque pelado tão caro à torcida do Botafogo.



Já no alto da praça Santo Antonio, temos o coreto e um quiosque de informações turísticas/badulaques gerais. Lá, tive a infeliz informação que a maioria das trilhas, incluindo aquelas da grande Mata da Prefeitura, que garantem mais de três horas de caminhada, estavam fechadas em decorrência das chuvas. Nhé.



Quase no topo do eixo urbano de Cristina, temos o antiquíssimo chafariz público, obra que possibilitou a existência de água na parte mais alta da cidade. É o marco arquitetônico mais antigo do Arraial de Espírito Santo do Cumquibus, seu nome anterior. Apesar da aparência indígena, esse nome é uma expressão latina (cum quibus), que significa “com os quais”. Não entendi o sentido, mas deixa para lá.



Deste ponto, é possível ter noção do contraste entre o meio urbano e os morros ao fundo da paisagem, mostrando o quando o lugar é alto. Em um segundo plano, o quanto o casario é bem preservado também. A se notar que não se trata de arquitetura tããããããão antiga quanto São Luiz do Paraitinga, por exemplo.



Estando no chafariz, basta se olhar para cima para se ver a igreja do Divino Espírito Santo. Esta matriz não é a igreja original, que seria centenária. Foi uma reconstrução da década de 50, mantendo a originalidade apenas do seu frontão eclético e do arrimo de pedras que pode ser visto ao lado.



É uma igreja que tem um interior bem menos festivo do que costuma acontecer com igrejas barrocas, mas, mesmo assim, podemos destacar a feitura de seu altar e a presença do túmulo do Cônego Artêmio Schiavon, um dos seus mais destacados párocos.



Apesar do barro, fomos ainda dar um pulo na Cachoeira da Gruta, que, na verdade, é um conjunto de saltos que fica onde originalmente existia uma pequena usina hidrelétrica que servia para abastecer a cidade.



É um rio de corredeira, repleto de pedras e com água muito barrenta. Como não tem poços profundos, é sossegado para tomar um banho, embora não haja garantia de que você sairá límpido e brilhante. Sua parte alta, acessível por uma trilha, tem um poço um pouco mais ousado, com uma altura que dá um tombo dos bons. Paisagisticamente, tem o aspecto abaixo.



Não achei onde fica a tal da gruta, talvez se refira a uma das suas reentrâncias, mas o curso se chama Rio do Bode. Próximo à ponte que lhe atravessa, há uma fonte de água mineral. Praticamente não precisamos colher água de lá. No momento em que fomos encher nossas garrafinhas, a chuva voltou a despencar com força, e nada nos restou a não ser tomar café, ora.



Bom, quem é a tal Cristina que nomina estas paragens e que substituiu a sua antiga denominação? Trata-se de nada mais, nada menos que a imperatriz do Brasil por ocasião do reinado de Dom Pedro II, Dona Teresa Cristina. De nascimento, era italiana, e pertencia à casa dos Bourbon. Essas uniões entre famílias reais eram comuns e convenientes por essa época, para manter as boas relações exteriores em dia. Seu nome completo era Teresa Cristina Maria Josefa Gaspar Baltasar Melchior Januária Rosália Lúcia Francisca de Assis Isabel Francisca de Pádua Donata Bonosa Andréia de Avelino Rita Liutgarda Gertrude Venância Tadea Spiridione Roca Matilde de Bourbon e Bragança, um verdadeiro catálogo de cartório. Foi dado pela deferência da sua filha, a famosa Princesa Isabel, que se encantou pela viagem que fez a Lambari e a Caxambu, onde tratava-se com as águas medicinais tidas como milagrosas. A referência régia é um orgulho para a cidade, que se autoproclama “Cidade Imperatriz”.

Hoje em dia, após anos na claudicante república tupiniquim, é um pouco estranho que ainda façamos remissões à monarquia com tanta deferência. Se perguntarmos um a um, veremos que são poucos os malucos que optariam por um novo reinado, ainda mais se levarmos em conta o perfil absolutista que este regime teve no país tropical. Basta se lembrar do plebiscito de 1993, quando era possível optar entre monarquia e república, em mais uma dessas jabuticabas constitucionais da Ilha de Vera Cruz. Apenas 7,58% do eleitorado total disse preferir ter um rei, ainda que se leve em conta se tratar de uma monarquia constitucional, onde o monarca não exerce o poder governamental, que fica a cargo do congresso. Se fosse um imperador absoluto, provavelmente teríamos menos de 1% dos votos. Não sei.

Mas o fato é que a figura real povoa o imaginário das pessoas. Um exemplo bem simples, vindo da religião: os deuses são representados como reis, e não como presidentes. Já vi retratados senhores com coroas, sentados em tronos e de cetros nas mãos, nunca com uma faixa verde-amarela a tiracolo, sentado em uma escrivaninha com luminária. Poder-se-ia dizer que é apenas uma tradição, mas uma ousadia da representação mais moderna poderia causar imenso desconforto, ainda que não fosse desrespeitosa, de modo algum. Portanto, o buraco é mais embaixo.

As monarquias eram predominantes na política mundial da Idade Moderna, e assim se mantiveram até a Revolução Francesa, ocorrida em 1789. Não que os reinados não existissem antes, mas o mundo antigo testemunhava grandes prevalências de determinados impérios, como o Romano, enquanto na época medieval os reinos eram fragmentados nos feudos, onde cada senhor era uma espécie de rei do seu próprio castelo. O advento das grandes navegações e a decorrente expansão comercial fez com que o poder se concentrasse muito fortemente na mão de poucas pessoas. Os palácios e seus frequentadores eram cercados de grande aparato e riqueza, cujos recursos saíam da mão da grande massa de agricultores, artesãos e, principalmente, dos burgueses, uma classe emergente de mercadores que tinha muito dinheiro e pouco poderio decisório. A base da manutenção de tal sistema se dava pela doutrina do direito divino. Deus seria um rei maior, que rege todo o universo, e que legava a alguns escolhidos a prerrogativa da administração de seus sacramentos e do exercício do poder temporal. Aos primeiros, damos o nome de clero; aos outros, de nobreza.

Acontece que florescia na Europa, impulsionado pelo avanço científico e tecnológico, o movimento conhecido como Iluminismo, cuja principal base era a substituição de um pensamento metafísico e religioso (como era o caso do direito divino) por um espírito crítico, baseado na comprovação de muitos fenômenos como derivações naturais, em relação de causa e efeito, e não pelas predisposições de uma divindade. Se o mundo girava por conta própria, por exemplo, porque o mandato régio deveria ser explicado por legado divino? O que dava direito a monarcas de se apartarem da imensa maioria de destinos humanos?

Nesse ambiente pontuam as ideias de inúmeros intelectuais, mas vamos falar aqui mais especificamente de François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire. Muitas vezes apontado como um dos grandes precursores da Revolução Francesa, a verdade é que a oposição dele à monarquia não era tão empedernida assim. O princípio que o leva a essa posição mais moderada tem um nome: tolerância. Essa é a grande chave do seu pensamento.

É verdade que ele era um crítico mordaz dos reis, imperadores e clérigos, mas justamente pela posição reacionária dos mesmos. A semente de toda a intolerância reside no fato destes quererem ser deuses em ponto pequeno – possuidores de onisciência. Mas o imperador é um humano como outro qualquer, limitado em seu conhecimento. A questão é epistemológica: se toda a Ciência, que conta com o acúmulo de experiências e saberes, com observações e com instrumentações, ainda assim produz resultados sujeitos a erro, como alguém como indivíduo, pelo simples fato de possuir uma origem nobre, pode se arrogar o direito de deter toda a sabedoria?

A tolerância está na base dos direitos humanos, e esses pertencem a todos, independentemente de condição estamental. Tem direito à vida e a condições minimamente aceitáveis todo aquele que vive, independentemente de crenças e preferências. O cerne deste pensamento é o exato oposto do que aquele que mata por crer em algo que o outro não crê, como no caso das religiões institucionalizadas, contra quem Voltaire era extremamente ácido, um motivo absolutamente torpe.

Voltaire tinha a tolerância tão arraigada nos fundamentos de sua filosofia que, por esse motivo e apesar de sua virulência, era menos favorável à República do que outros precursores da Revolução Francesa. A ele, bastaria que o soberano soubesse agir com indulgência e tolerância com o seu povo, naquilo que ficou conhecido mais tarde por despotismo esclarecido. Isso porque, para ele, a monarquia se adapta melhor ao cérebro humano e sua busca por estabilidade. É muito difícil para os homens tratar da transitoriedade das coisas, mesmo que elas possam, nesse regime, ser melhores do que são. Bastaria que o monarca agisse guiado pela razão, e não pela ideia de direito perene e de “última batata do pacote”, alguém colocado à parte. Nesse sentido, Voltaire não poderia ser chamado de revolucionário, mas reformista. Uma unificação simbólica do poder em uma pessoa que soubesse dosar sua sede de poder seria mais conveniente que a disputa de diferentes elementos pelo mesmo encargo, seja pelo alcance dado a novos pretensos déspotas, seja pela dificuldade em ampliar as instâncias participativas de uma população mais ampla. Desta forma, Voltaire não deseja derrubar os reis, mas impor-lhes limites, exatamente na medida em que os direitos naturais deveriam se espraiar para todos os membros da sociedade.

Esse encantamento pela monarquia, por conseguinte, e já voltando para o caso de Cristina, é normal. Há uma aura nos reis que vão além da pompa e da circunstância, que, por si só, já possuem muita força simbólica, mas que afetam o psicológico no sentido de caráter permanente da condição real, e na reprodução do âmbito divino que se espalha pelo lugar onde o monarca rege, o que lhe dá uma certa dimensão sagrada. Cristina se orgulha de seu nome por causa da sensação de ser inigualável que isso lhe traz, uma cidade real, uma cidade imperatriz.

É isso por enquanto. Vamos logo mais às próximas estações. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

A obra de Voltaire é muito extensa. Demorei muito para citá-lo neste espaço, e não devo perder outras oportunidades. Por ora, recomendo o livro abaixo, que é muito útil para compreender o sentido geral de seu pensamento.

VOLTAIRE. Dicionário filosófico. São Paulo: Martin Claret, 2006.

As autoridades de Cristina têm procurado expandir as atividades culturais do município. Tem um festival literário e uma festa musical, que ainda estão fixando tradição. Gostaria de recomendar um livro que adquiri em uma casa de artesanato da cidade, para que mais e mais pessoas tomem conhecimento da cultura praticada no interior deste meu Brasil.

TEIXEIRA, Luiz Gonzaga. Cristina. História. Belo Horizonte: Edição do autor, 2013.