Marcadores

quinta-feira, 20 de abril de 2017

País do futebol: o que precisamos avaliar para saber se isso é ou não uma verdade

Olá!

Você gosta de futebol? Não há nenhum mérito se sim, nenhum constrangimento se não. E vice-versa. Corre uma lenda no senso comum de que o Brasil é o país do futebol. É bem verdade que há alguns indicadores seguros disso. São cinco títulos mundiais da seleção, um monte dos clubes, onipresença em copas do mundo, times mundialmente reverenciados como alguns dos melhores de todos os tempos e bons jogadores espalhados pelos quatro cantos do planetinha azul. Além disso, os meninos recém-nascidos têm um presente praticamente garantido: macacõezinhos com o distintivo do time de preferência do pai. E, cada vez mais, o mesmo tem acontecido com as meninas. A não ser que haja uma grave desavença entre pai e uma mamãe especialmente fã do time rival. Mas o consenso aparece quando a criança começa a andar: lá vem a bola de presente. Nesse sentido, o senso comum parece ter plena razão.

Mas a afirmação, por outro lado, é facilmente contestável. A imensa maioria dos jogos não chega a ter metade de sua ocupação, quase todos os estádios são precários (neste particular, não tenho grandes problemas, pelos motivos que se verão adiante) e não há um esquema bem fornido para a transmissão das divisões inferiores, que são, afinal de contas, os maiores empregadores e os piores pagadores do universo da bola. Além do mais, a formação de opinião se dá nos grandes centros. A situação no interior do país é de total penúria, invisíveis que são. Mas também são sonhadores; o êxodo é o objetivo de todo aquele que postula um lugar aos refletores. Um autêntico país do futebol não trataria seus filhos menores e mais carentes dessa maneira. Mas a pecha de população mais apaixonada do mundo permanece. E tento entender por que.

Bom... eu gosto de futebol e minha maneira de encarar a questão tem a ver com minha infância e juventude, e uma boa parte do meu contato com esse mundo já foi descrito aqui. Mas vou acrescer alguns detalhes.

Nasci em um momento onde ainda resistiam muitos campos de várzea. Eles não proliferavam mais, mas ainda existiam aos montes. Aquele que eu mais frequentava era próximo a quatro das casas onde cheguei a morar, peregrino do aluguel que era à época. Meu pai era zagueiro grosso e meu tio era bom goleiro no time que lá jogava, o Disparada. Como faz parte do rito, os pais levavam os filhos para assistir os rudimentos do esporte colocados em prática, e de lá, sentado em um montinho de barro, nasce não propriamente o torcedor, mas o apreciador de futebol. É óbvio que uma criança de seus cinco ou seis anos não tem a cognição necessária nem a paciência de suportar 90 minutos de caneladas ali parada, mas o ambiente de socialização é muito atraente. No campo do Disparada, por exemplo, havia a birosquinha do seo Geraldo, pequena e suja como ele próprio, fundidor que era de profissão. Lá, os pais tinham crédito livre, possibilitando-nos o empanturramento com toda sorte de porcarias, para a aflição de nossas mães. Também sempre havia uma bolinha sobrando nas laterais do campo, estimulando a reprodução da peleja em escala menor pelos alegres petizes filhos dos “craques”, eu incluso. Era o aprendizado por imitação, tão caro a Albert Bandura, de quem não deixarei de falar oportunamente.

No momento em que nossa bola ia parar no campo, a lição de hierarquia era inevitável: Não atrapalhem! Nem sempre dito de maneira tão gentil. Aliás, nem sempre dito. Ocorria por vezes de a ordem vir na forma de um chutão a mandar nossa bola para fora do perímetro do campo, inclusive para a perigosa estrada da Vila Ema. A regra de ouro diz: atrás de uma bola, sempre vem uma criança. Alguns dizem que é essa consciência nos motoristas, outros que é o anjo da guarda, mas o fato é que nunca ocorreram atropelamentos nessa circunstância naqueles eventos; só alguns sustos. Bem grandes, eu diria.

Mas a atitude do chutão dava a noção, em nossas vazias cabecinhas, da importância do que acontecia nas quatro linhas – algo que flutuava entre o rito sagrado e a prática da guerra. Afinal, se nossos pais e vizinhos nos falavam abruptamente, eles que eram tão legais, que nos pagavam doces, que nos compravam bolinhas de gude, que nos deixavam sujar suas calçadas e berrar até tarde em suas portas, não era alguma coisa frívola que era disputada naquele terreno esburacado e cheio de linhas de cal. O clímax era o intervalo entre o primeiro e o segundo tempo. Abandonado pelos combatentes, que iam à precitada bodega refrescar a garganta e reorganizar as táticas, o terrão ficava disponível por restritíssimos quinze minutos para nós, rascunhos de pernas-de-pau. Não eram as pedras que delimitavam agora o arco imaginário; eram as próprias e imensas traves, ainda maiores em seus 7,32 x 2,44 metros para os minúsculos jogadores de pés descalços. Os meninos maiores praticamente ignoravam os pequeninos, mas é só uma questão de espera e vingança – haverá de chegar nossa vez de crescer e pregar a mesma peça nos recém-chegados. Mas sempre sobrava uma bola na medida para batermos de bico na direção do gol, com força insuficiente; mas está lá a defender a meta outro minúsculo ser, e a bola entrando dá a sensação de triunfo na final de um campeonato, justo a mim, caneludo como meu pai. A ruindade futebolística pode até não ser hereditária, mas parece. Só que, dessa forma, a várzea dava uma sensação de proximidade, de pertencimento e de emulação da glória que se arrastaria pelo restante da vida, independentemente da qualidade pessoal de passes e arremates.

Meu avô materno também viria a ter sua participação. Não tinha mais idade para ele mesmo jogar, mas era um amante da várzea, igualmente. Cansei de ir nas manhãs de domingo com ele no CMTC Clube para assistir ao Desafio ao Galo. Com esse aporte, dá para perceber porque não tenho problemas com lugares precários, mesmo concordando que muita coisa poderia melhorar. Não tenho medo de sujar a bunda de barro, em resumo, mas acho mesmo que é melhor sair com o pé um pouco mais limpo. Foi com meu avô que fui a primeira vez (e a segunda, a terceira...) a um estádio de futebol. Não, não foi... Lembrando bem, foi com o meu pai mesmo, na rua Javari para assistir um jogo do Juventus. O que meu avô fez foi me levar pela primeira vez a um jogo do meu time, o Corinthians, no mítico Pacaembu. Assistir um jogo no estádio tinha a mesma diferença com relação a um campinho de várzea que assistir um filme no cinema ou na TV; que levar uma criança, acostumada às piscinas, para ver o mar. A sensação é de assombro ou de admiração; de qualquer forma, de deslumbramento. E o que pode ser mais filosófico que o deslumbramento?

Daí por diante, ir ao estádio passou a ser um hábito, que se manteve até o final da década de 80, sem time certo, e apenas pelo prazer de ver um bom jogo, objetivo nem sempre alcançado. Sempre gostei de assistir os jogos sentado, com observação atenta. Não tenha nada, rigorosamente nada contra os torcedores que pulam e cantam – eles são a autêntica alma dos estádios – mas meu jeito de assistir um jogo é diferente, e não acho isso um defeito, apenas uma maneira diferente de acompanhar e apreciar legitimamente o futebol. Isso tira o estatuto de sem graça a uma partida com pouco presença de público.

De onde eu morava, a Rua Javari era o mais fácil de ir, 20 ou 30 minutos de ônibus era o suficiente. O mesmo se aplica ao campo do extinto Saad, de São Caetano do Sul, que jogava no Lauro Gomes (hoje Anacleto Campanella) e também exigia só um ônibus. Outros estádios davam um pouquinho mais de trabalho para ir: Fazendinha (sim, é verdade. Até a década de 80, era comum o Corinthians mandar seus jogos menores lá, com suas arquibancadas enviesadas e sua biquinha de água mineral benta) ficava próxima, mas fora de mão. Para ir ao Canindé, precisava pegar metrô. Para a Comendador Souza, trem. O mesmo valia para o Bruno Daniel, em Santo André, acrescido de ônibus. O Pacaembu era fácil também: ônibus até o Ipiranga e de lá o Pompéia, descendo no cemitério do Araçá. Dali, era morro abaixo. Deu para perceber que não tínhamos carro, correto? O mais complicado era o Morumbi, que ficava longe, longe mesmo. Um jogo no Morumbi te tomava o dia inteiro, não dava para ver jogos lá a toda hora. E é exatamente lá que os grandes clássicos aconteciam. Além do mais, é um estádio imenso. Dependendo do lugar, é muito difícil ver o que se passa em campo. Por isso mesmo, era o estádio em que eu menos ia; em geral, só quando o Corinthians enfrentava os outros grandes. No Parque Antarctica eu nunca fui, por uma ética que hoje acho tola, e a Vila Belmiro conheci mais recentemente, apoiado pela patroa santista.

Com a explosão da violência da década de 90, deixei de ir aos estádios. Já não havia mais campos de várzea para levar meus filhos, e a corrente se quebrou, infelizmente. Mas recordei dos pequenos jogos dos igualmente pequenos clubes e voltei a frequentar os igualmente pequenos estádios. Voltei, em suma, a comparecer nos jogos dos quais nunca deveria ter me afastado: aqueles que dispensam grandes preparações e gastos vultosos das novas arenas. Aqueles jogos em que basta dar na telha e ir, com poucos problemas para encontrar ingresso, para se acomodar no primeiro lugar que se achar e assistir a partida procurando novos craques e reconhecendo antigos operários da bola que ainda resistem à aposentadoria. Se o campo fracassar, há sempre um canolo (canoli é plural, gente) ou um bolinho de bacalhau para fazer compensar a viagem. E tenho lá minhas camisas. A do Santos é da patroa.

Falta a da Lusa, que apanhou anteontem do Oeste de Itápolis
Tem gente que acha ridículo que eu vá em um sábado à tarde assistir a um Juve-Nal pela Copa Paulista. São pessoas que só vão a jogos do seu próprio time, que acham que não existe sentido em acompanhar outras agremiações, a não ser que seja para secá-las, o que pode ser feito remotamente pela TV. Respeito a posição, mas acho que quem faz isso não gosta de futebol, gosta do seu time. Mais ainda: gosta das vitórias do seu time, e acompanhar equipes que passam a maior parte de sua existência mais preocupados em sobreviver do que em conquistar títulos já é, por si só, um fracasso. É o mesmo fenômeno que afeta as viúvas do Senna; a despeito da excelência do precitado piloto, as pessoas que dizem que acabou a graça de levantar cedo no domingo para assistir uma corrida não gostam de automobilismo, gostam de brasileiros vencendo. Por isso mesmo, entendo que a galera que só se preocupa com seu próprio e único time gostam exclusivamente de seu próprio e único time; gostar de futebol é outra coisa. E quem só se ocupa de grandes jogos, gostam de grifes, não de futebol. O futebol nasce e vive nesses pequenos clubes, que não ostentam grandes etiquetas nem vendem camisas a trezentos dinheiros, mas que representam uma determinada comunidade, uma cidade do interior. Um time de futebol, antes de mais nada, é o representante de um determinado conjunto de pessoas que, não necessariamente, precisa ser o time da moda, como o Barcelona ou o Bayern. Sim, são times ótimos de se ver, mas é preciso que exista um Alavés ou um Bochum para o campeonato existir.

Por falar em grifes, há uma tendência em se transformar um jogo de futebol em eventos rodeados pelo espetáculo, e embora não tenha essencialmente nada contra em ser bem tratado, vejo um certo risco em se tirar a importância do jogo em si, além de se fazer com que o ato de se comparecer a um jogo se torne mais significativo pelo aspecto midiático do que pelo esportivo.

Sem dúvida que precisamos atentar um pouco às transformações em nosso sistema social para entender um pouco melhor a pasteurização à qual me refiro. Ou, melhor dizendo, tentar compreender como os níveis da realidade que procuro analisar ficam em consonância entre o que percebemos e o que efetivamente temos. E é aqui que precisamos entrar com os conceitos de simulação e simulacro de Jean Baudrillard, sociólogo e filósofo francês que atacou a fundo a questão da influência da mídia na maneira como as pessoas constroem suas impressões sobre as identidades do que percebemos.

Baudrillard entende que a realidade tangível é algo que ficou no passado. O modo de produção capitalista surgido a partir da Revolução Industrial tornou possível uma reprodutibilidade tão intensa que não há a menor condição de distinguir um original de suas cópias. Isso foi a mola propulsora de um processo em que o mundo físico, do aqui e agora, foi paulatinamente perdendo significado em relação à sua imagem. Esse é um processo de simulação em que a cópia se confunde com o original, mas que ainda vai se agravar, em um mundo onde o virtual substitui o real, na forma de simulacro. Esse tal de simulacro é uma transformação da realidade em idealização, que vem no lugar do real palpável e que se torna objeto de desejo.

Um exemplo para deixar as coisas bem claras: as essências com sabores de fruta. Não há nada nelas que seja oriundo das próprias frutas e, sendo bem justos, algumas delas não chegam nem a lembrar o sabor da fruta a quem pretendem substituir, a não ser pelo nome que lhe foi dado. Há até mesmo essências em que nem se intenciona criar correlação com uma fruta real, como o clássico tutti-frutti, o blue ice ou o beijinho doce, que simplesmente não correspondem a nada de concreto na realidade, mas que o pessoal resolveu lançar assim mesmo porque é gostoso. Mas mesmo aquelas que, em tese, correspondem a uma fruta, tem seu sabor aperfeiçoado de modo a se tornar um paradigma, um novo ditame a ser seguido para tudo o que se relacione a determinada fruta suposta. E a fruta real, essa foge completamente da “reprodução” da essência. Pensem no seguinte: há algo mais doce do que uma bala de morango? Justo ele, uma fruta cítrica, que às vezes precisa de um pouco de açúcar e creme para ser comido com mais prazer?

E assim segue com outros exemplos: a manga real é fibrosa, o abacaxi real urtica a língua, o tamarindo real é azedo de fazer chorar (e solta o intestino que é uma beleza). Suas essências não têm nenhuma dessas desvantagens. E mais ainda: as frutas reais não tem padrão de sabor, cada uma é uma surpresa. Quem já não teve a oportunidade de pegar um melão amargoso, uma melancia aguada, uma laranja insossa? No mundo dos simulacros, isso não ocorre, e o sabor é padronizado: sempre docinho, sempre equilibrado, sempre perfeito, sempre o mesmo. Desta forma, é o simulacro que se torna real, é com ele que produzimos uma referência, e não a realidade em si mesma. Interiorizamos que o sabor real da fruta é o da essência, e achamos que a pera comprada na feira não tem gosto de pera de verdade. E só desejamos o simulacro.

O problema é que o mesmo se aplica a inúmeros outros casos, incluindo o modo de vida das pessoas, o que vai se tornando perigoso. Reality shows são um caso extremo de simulacro, mas as próprias novelas reproduzem a mesma lógica, como eu já havia escrito há algum tempo atrás. Comparado com o amor quente, eterno e perfeito das tramas, temos uma vida sem sal, com relações tediosas, rotineiras, marcadas por discordâncias. Esquecemos que a vida é assim mesmo; as pessoas – todas – têm manias, têm defeitos, têm idiossincrasias, têm preferências, têm gases. O simulacro apenas nos dá a impressão de que vivemos errado, somos culpados pela vida de merda que levamos, por não nos adaptarmos a um modus vivendi que, no final das contas, não existe.

E no que isso tem relação com a vida nos estádios? Baudrillard é absolutamente radical em suas ideias. Para ele, viver uma não-realidade não é uma perspectiva, é um fato já consumado, totalmente arraigado em nosso dia-a-dia. Se observarmos a recente construção de arenas em nosso país, podemos sentir, sim, um pouco dessa profecia se cumprindo. Quando vemos o interior de um campo como a Allianz Arena, do Bayern de Munique, vemos um mundo maravilhoso, todo bem construído, confortável e desejável. Quando saímos, esta mesma realidade continua, estende-se através de uma cidade bem organizada, com transporte público eficiente a ponto de tornar quase desnecessário o uso de carros. Além disso, a cidade preserva seus traços históricos e não renega a modernidade. Estamos falando de um país como a Alemanha, plenamente desenvolvido. Se falarmos de seu xará brasileiro, o Allianz Parque, ou de seu concorrente, a Arena de Itaquera, teremos a mesma sensação de realidade nababesca ao olhar para o seu interior. Mas, ao meter o nariz para fora, temos uma realidade que diverge integralmente do que acontece lá dentro. Um entorno sem desenvolvimento ou sem possibilidade de expansão, trânsito difícil e transporte deficitário. Não adianta simular a realidade alemã – estamos no Brasil. Essa sensação de “ilha”, produzida a partir do ingresso em uma arena, faz com que o torcedor perca uma boa parte da noção do que ele está fazendo ali. As arenas maravilhosas sempre serão uma exceção dentro da cidade de São Paulo, ao contrário do que acontece em Munique. Esse recorte entre o mundo de sonho das arenas do Palmeiras ou do Corinthians, dissonante com tudo o que vemos nos trajetos que nos levam a elas, se incute em nossa cabeça na forma de uma contradição: o registro da nossa presença na arena é mais importante do que a própria presença em si. Se eu não fizer selfies e mandar para todos os contatos dos zape-zapes da vida, é a mesma coisa de não ter ido ao jogo. É mais importante o simulacro de realidade do campo luxuoso do que o próprio jogo real. Esse é o jogo que vale a pena ver, dizem aqueles que não entendem como eu posso gostar de assistir um jogo da segunda ou terceira divisão.

Mas ainda temos algo real para ver?

Notem como, ao contar um pequeno pedaço da minha vida, perpassa-se a narrativa com elementos dos clubes pequenos, e como eles dizem coisas a respeito de mim, muito mais até mesmo que os grandes clubes. E, se os times pequenos dizem a respeito de um único contribuinte, quanto mais não farão pela história da própria cidade, homens de pouca fé? Em especial daqueles menos recordados de sempre – os operários, os pobres, os suburbanos, apesar das exceções. Preservar a história destes clubes menores é preservar a memória de uma camada pobre da população, o que é muito raro. É de se esperar que aqueles que pouco podiam fazer em termos de lazer não teriam lá muito o que preservar de fotos e memorabilia. Mas é deles que ainda podemos extrair informações que os clubes maiores já se afastaram muito e não deixam mais transparecer.

Comecemos pelo Nacional AC, clube da tradicional Barra Funda que é o primo pobre do assim chamado “triângulo do futebol”, junto aos CT’s de Palmeiras e São Paulo. O Nacional é descendente direto do primeiro time de futebol do Brasil, o São Paulo Railway, fundado não menos do que pelo próprio Charles Muller, que trouxe da Inglaterra as regras e os materiais do esporte. É um clube que mantém até hoje sua raiz ferroviária, exemplificada no seu mascote, um personagem típico das gares, com seu quepe redondo e seu apito. É alusivo a um tempo em que as ferrovias eram muito mais significativas do que são hoje. Se olharmos para o Corinthians, não possuímos nenhuma referência, nem no nome, nem no distintivo, nem no hino, nem no mascote, que ele tem a mesmíssima origem do Nacional: os grupos de operários das estradas de ferro, aos quais se juntaram outros trabalhadores das várzeas do Tietê para fundar o clube que é o que é hoje. Quase ninguém sabe disso, nem mesmo os corinthianos. Já pensou? Sport Club Ferroviária Paulista? Rá, rá, rá... Lembrem-se que sou corinthiano, evitem me matar.

A patroinha na Comendador Souza
No caso da até a pouco tempo atrás grande Portuguesa, ainda resta o modo com os quais uma colônia se construiu e manteve sua identificação. Há no Canindé um time cujo nome já diz tudo sobre sua origem, há o bolinho de bacalhau no bar do estádio, há a dança folclórica e há a festa típica. A torcida acompanha as cobranças de falta com palmas em ritmo de vira, canta fado como grito de guerra. É, em suma, mais do que um time, é uma instituição cultural e pedagógica. É um time de uma determinada imigração constituinte da composição de São Paulo. Um clube muito maior, que também nasceu de uma colônia, que também ostentava o nome de uma imigração, como o Palmeiras, diminuiu muito os traços dessa origem. Tudo bem, seu nome foi uma mudança forçada, mas foi só o início, passando por suas cores, até chegar no próprio nome de seu estádio, outrora com o sonoríssimo nome de Palestra Itália. Os nomes dos campos agora se compram, o que os tornam insossos, como é o molho de tomate de latinha diante do da mamma. Ok, o Palmeiras transcendeu sua própria origem e virou um clube de expressão nacional. Mas é só uma identificação que faz isso? O Vasco da Gama não é igualmente grande? A Portuguesa não poderia continuar a ser?

Talvez o exemplo melhor solucionado seja o do Juventus, da minha gloriosa Mooca, cujo campo minúsculo vive infestado dos alegres grenás, que cantam a Aquarela do Brasil à moda portenha: “Ôôôôô, e dá-lhe, dá-lhe, Juventoooooooos; e dá-lhe, dá-lhe, Juventoooos”... Em todo fim de semana, seja no sábado à tarde ou no domingo de manhã, o estádio Comendador Rodolfo Crespi está cheio. A explicação vem do quase inexplicável bairrismo dos mooquenses. O Juventus não é só pequeno; ele nunca foi grande. Mas, parafraseando Fernando Pessoa na pessoa de Alberto Caeiro, o Juventus é o melhor time do mundo porque é o time do meu bairro, ao menos para os nascidos na Mooca, como eu. Não há lá ninguém que tenha o Juventus como time número 1, mas também não há ninguém para quem o Juventus não seja o time número 2, o time da minha vila, que joga no meu quintal.

Se o Juventus servisse de exemplo, com o campo colado na antiga fábrica têxtil que lhe deu origem, teríamos muita sensação de pertença e conservação da história, o que poderia reverter os efeitos pensados por Boudrillard, já que manteríamos os pés na realidade justamente por nos orgulhar dela. Se o pessoal da Barra Funda e região aderisse da mesma forma ao Nacional, um dos campos mais acolhedores para assistir jogos se tornaria mais conhecido da cidade inteira, e se saberia que é lá que nasceu o tal do país do futebol; pelo menos um dos seus filhos mais antigos. Se a Portuguesa conseguisse chamar de volta o pessoal dos bairros tipicamente portugueses, como a Vila Maria e a Vila Guilherme; se conseguisse a adesão dos moradores do Brás e adjacências; se conseguisse transmitir pertença a todas as outras colônias pelo elo que as uniu em nossa terra, a nossa língua, talvez conseguisse atrair até mesmo os novíssimos imigrantes que estão profusamente ao seu redor, e se tornasse um prazer assistir seus jogos em estádio de tão fácil acesso. E talvez fosse mais rápido desfazer o mal da rapina lograda aos seus cofres.

Mas o Brasil não é o país do futebol, essa é a conclusão. No país do futebol, uma cidade com doze milhões de habitantes não deixaria de preencher os vinte mil lugares do Canindé, no que seria uma boa fonte de renda para que um time por onde desfilaram craques como Filó, Djalma Santos, Pinga, Brandãozinho, Ivair, Julinho Botelho, Jair da Costa, Servílio, Félix, Ditão, Marinho Perez, Enéas, Leivinha, Wilsinho, Zé Maria, Basílio, Ratinho, Jorginho, Toninho, Edu Marangon, Bentinho, Dener, Tico, Zé Roberto, Rodrigo Fabri, Leandro Amaral, Capitão, Guilherme, Bruno Henrique e muitos outros. Casa cheia seria uma boa fonte de renda mesmo com os ingressos mais em conta, para que a roda de visibilidade e patrocínios começasse a girar. Apenas pela motivação histórica, no país do futebol um clube como a Portuguesa já haveria sido socorrido. Mas não. O país de futebol, para sê-lo, precisaria contar com o orgulho da população em ter um time local, e no fato deste time enfrentar os clubes das cidades próximas com o mesmo nível de apoio com que recebe um time grande. Ainda que sentados em montinhos de barro, como eu fazia quando criança, porque essa é a realidade que vivemos no país, fora das grandes arenas. Nosso país não é uma arena. É pobre. Nosso povo é pobre, infelizmente.

Recomendações:

A principal obra de Baudrillard voltada ao assunto aqui tratado é a seguinte, muito interessante:

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulações. Lisboa: Relógio d’Água, 1991.

Um canal de futebol do Youtube bastante interessante é o do Esporte Interativo. Gosto, principalmente, do quadro “Polêmicas Vazias”, conduzido pelo Bruno Formiga. Aliás, de vazias, as polêmicas não têm nada. Mesmo que não concorde com todas as suas opiniões, aprecio muito a maneira como ele as coloca, principalmente pelo científico fato de que ele procura embasá-las, evitando meros achismos. Segue um exemplo de vídeo bem interessante:


terça-feira, 4 de abril de 2017

Sobre tradições arraigadas e onde elas podem por pedras no caminho da modernidade [Pequeno guia das grandes falácias - 36º tomo: o apelo à tradição (argumentum ad antiquitatem)]

Olá!


Uma agulha finíssima, uma seringa plena de glicose com mais alguma substância, uma mão habilidosa e o milagre acontece: picada a picada, os pequenos vasos da patroa vão sumindo à frente dos meus olhos, substituídos temporariamente por uma leve irritação e um subsequente esparadrapo. É o tratamento chamado escleroterapia, destinado a dar fim nas telangiectasias, os pequenos vasos sanguíneos capilares que arrepiam os cabelos de nossas consortes. Um dos métodos mais comuns é este que descrevo: o angiologista (mais conhecido como “vascular”) inutiliza o vasinho já dilatado e pouco funcional, fazendo-o desaparecer, já que é o fluxo do sangue que o torna vivaz. Fechado o caminho, o sangue vai procurar outras rotas para seguir seu curso, da mesma forma que faz a vida a caminho da morte.


Líquidos que são utilizados para suprimir os fluxos de outros líquidos... Não é à toa que a Filosofia nasceu especulando que a água era o elemento primordial de tudo. Hoje, com todo o aporte científico que temos, sabemos que as coisas não são assim, mas não foi sem dor que chegamos a esse tipo de conclusão. Penso nisso porque, ainda hoje, escuto no consultório do angiologista, meio que lateralmente, alguns comentários sobre o já distante acidente fatal com a cantora Clara Nunes, que morreu em 1983 por complicações alérgicas em reação à anestesia que tomou para uma cirurgia de remoção de varizes. Sim! As pessoas têm tanto medo de morrer que desenterram uma história de mais de 30 anos, cheia de teorias da conspiração, com tecnologia anestésica totalmente superada. Pode-se morrer de choque anafilático ainda hoje? Sim, é claro. Mas essa bolachinha que você está comendo enquanto me lê pode conter uma bactéria que vai te levar para a cova. Como diz o senso comum (desta vez com sabedoria), para morrer basta estar vivo. Por isso mesmo, é bom não ficar queimando muito a chapa com esse tipo de coisa. Vai arrancar essas varizes que te fazem sofrer. Faça uma boa macarronada com elas.
Falando em bactérias e líquidos, penso em Cláudio Galeno, médico e filósofo romano do século II, brilhante em suas teorias fisiológicas, que perduraram por muitos séculos. Foi dele que as práticas de dissecação e vivissecção se voltaram para objetivos medicinais e profiláticos. Portanto, embora suas teses estejam hoje superadas, é importante que sejam conhecidas para que se compreenda como se constrói uma Ciência.


Vejamos. Quando uma pessoa ficava doente, nem sempre era possível determinar uma correlação direta com uma causa. Óbvio: comer carne podre dava uma bela diarreia (voltarei a isso), mas havia outras moléstias que pareciam surgir do nada. Acordava-se indisposto, febril, dolorido; pensava-se no que se havia feito de errado no dia anterior – um dia a mais enfileirado no caminho, sem nada de especial. O princípio do Deus das Lacunas fazia pensar na insatisfação de alguma divindade especialmente suscetível, mas as coisas permanecem incertas, mesmo assim.
Pois bem. Galeno, estudante de Hipócrates, com sua faquinha ligeira e seu espírito desbravador, gostava de dissecar macacos, animais com fisiologia bastante próxima à do ser humano. Além dos costumeiros órgãos e vísceras, o que mais via no interior dos organismos eram líquidos – sangue, linfa, secreções, sucos gástricos, urina, às vezes pus, às vezes esperma e assim sucessivamente. O indicativo era intuitivamente claro – os líquidos do corpo possuíam um equilíbrio tal que, movidos seus respectivos níveis, havia influência direta na saúde e – mais ainda - na personalidade das pessoas. E aqui já vamos deixar registrado que, ainda que as teses de Galeno já não sejam válidas, uma coisa ele sacou com precisão: disposições físicas podem determinar comportamentos psíquicos, como a moderna neurologia já detectou. Deficiências em certos neurotransmissores e hormônios são causas comuns de depressão e outros acometimentos mentais.


Mas vamos detalhar um pouquinho a teoria dos humores. De todos os fluidos do corpo, Galeno isolou quatro – o sangue, a fleuma, a bílis negra e a bílis amarela. Estes líquidos eram os componentes que se misturavam em diferentes proporções no organismo e que, além de determinar sua saúde, davam à personalidade do contribuinte algumas características.
Esses quatro termos são mais conhecidos como humores. A palavra “humor” não nasce de alguma indicação de temperamento. Essa associação será feira posteriormente justo por causa da teoria dos quatro humores (cuidado com a inversão de causa e efeito), que diz que é a quantidade de um dos humores que dá a linha de comportamento de um indivíduo. O vocábulo surge do latim humore, que significa líquido. Até hoje, há alguns líquidos do organismo que são chamados tecnicamente de humores, como é o caso dos humores vítreo e aquoso, que representam as partes gelatinosas do olho em contato direto com a retina e o que preenche as câmaras oculares, respectivamente.


Bem, o que são cada um desses líquidos? A fleuma é a substância gelatinosa que recobre a superfície das vias aéreas, o famoso muco. A bile amarela é um líquido secretado pelo fígado e que serve para emulsionar as gorduras. A bile negra seria excretada pelo baço (o que não é um fato) e o sangue... O sangue é sangue. Cada um desses líquidos seria capaz de carregar consigo um pacote de características físicas que dariam por resultado um certo comportamento. Assim, a fleuma traz a frieza; a bile amarela, a ira; a bile negra, a tristeza e o sangue, o ardor. Todos os indivíduos possuem os quatro humores, sendo que a sua combinação dá um determinado modo de ser para cada um. Assim, os indivíduos sanguíneos, com excesso de sangue, seriam afetuosos, hiperativos, fortemente emotivos. Os fleumáticos são calmos, ponderados, até mesmo indiferentes. Os coléricos (do grego kholé, bíle) são raivosos, vingativos, impacientes, e os melancólicos (de melas kholé, bíle negra) são tristes, pessimistas, dados à passividade. Os comportamentos transitórios são explicados por uma perturbação eventual do equilíbrio dos humores. Isso explicaria nossos estados de comportamento: quando estou com raiva, há uma maior proporção da bile amarela na composição dos líquidos do meu corpo. Se estou em “estado de repouso”, os humores voltam ao seu estágio natural, e aquele de maior teor dará minha característica geral, o meu humor típico.
A teoria dos humores persistiu por anos a fio, e sua base se dava nas ferramentas que se dispunham à época: observação direta, dedução e especulação. Nada mais do que isso. Só foi sendo paulatinamente derrubada por provas e mais provas de seus enganos (embora houvesse algum sentido lógico e algum acerto fisiológico, como já mencionei anteriormente), até ser totalmente superada. Mas houve tanta resistência que até hoje há quem continue atribuindo veracidade à teoria dos quatro humores, de maneira espiritualizada.


É que as tradições são difíceis de ser transformadas. Quando passamos um conhecimento de um para o outro (a origem da palavra tradição – traditio - significa a passagem de alguma coisa para outra pessoa, mas não uma coisa qualquer; é coisa de valor, importante, que queremos que seja mantida pela pessoa que a recebe) é transmitida também uma relação de confiança. Em cada valor que transmitimos temos a esperança de que esse valor seja mantido e retransmitido para todo o sempre. Pense bem: você não gostaria, de fato, de que tudo o que é importante para você seja importante para o universo inteiro, em todos os tempos? É esse o caso. As tradições nascem de coisas importantes, ainda que esse significado seja dissipado pelo tempo. O grande problema é que uma tradição tem um valor efetivo enquanto ela carrega um significado. A partir do momento em que a tradição se dissocia do seu tempo e passa a ser um mero ritual, é preciso repensá-la ou abandoná-la. Hoje em dia, retomando nosso tema, é incompreensível que se atribua uma doença ao desequilíbrio de humores. Quando a tese surgiu, não havia instrumental para saber que existiam bactérias, vírus, protozoários e outros buliçosos microorganismos. A diarreia pela carne podre se explica pelas bactérias que ela contém, e não pela ingestão pura e simples. Galeno não tinha como saber disso, então usava a lógica possível, que era engenhosa e se consagrou, mas não era correta.
Podemos dizer que a tradição é, portanto, irracional? Vamos com calma. Como a tradição exige um certo fluxo (não há tradição aferrolhada em uma única pessoa, senão não é tradição, ora bolas) ela sempre é social. Um cara que falou sobre esse tema foi Max Weber.


Maximilian Weber faz parte da tríade sagrada da Sociologia, ao lado de Émile Durkheim e Karl Marx. Porém, ao contrário de ambos, que entendiam ser a própria sociedade que moldava os seus componentes, Weber apontava seu telescópio para o indivíduo, célula social sem a qual não é possível interpretar o funcionamento de todo o organismo. Eles são os atores que encenam as ações sociais, uma de suas principais teses. E o que é essa coisa?
Ação social é qualquer atitude consciente, seja ativa ou reativa, em que é dado algum sentido a quem a executa, e em que haja outros indivíduos envolvidos. Não existe ação social que não envolva pelo menos duas pessoas. Logo de cara, devemos diferenciá-las dos comportamentos passivos, porque nestes existe uma habitualidade que faz com que se aja com o piloto automático ligado, como fazem as pessoas que se benzem inconscientemente ao passar na frente de um cemitério.


Max Weber, após seus estudos, chegou à conclusão de que quatro eram os tipos de ação social realizados pelos indivíduos, sendo dois deles instrumentalizados pela razão, e dois que prescindem do componente racional. Para tentar entendê-los, vamos nos colocar de pé no domingo pela manhã e nos encaminhar à feira mais próxima. No meu caso, é a da Baixada do Glicério.
Ir à feira é uma autêntica ação social. Tenho consciência de que cometo alguns sacrifícios, como levantar cedo em dia livre, para obter alguns benefícios, que é o de comprar frutas e legumes. Também não estarei apenas eu envolvido. Os feirantes que me venderão, patroa e filhos que consumirão, pedintes que mendigarão, todos estão envolvidos, direta ou indiretamente, na ação social “ir à feira”. Mas há diferenças nos possíveis motivos que levam a ela.


1. Posso ir à feira porque quero comprar frutas, legumes e verduras;
2. Posso ir à feira porque acho que os supermercados são grandes centros capitalistas que querem tirar as oportunidades dos pequenos vendeiros e concentrar renda, atitude da qual discordo verticalmente;


3. Posso ir à feira porque tenho muitos amigos e velhos companheiros nas bancas e nos estreitos corredores;
4. Posso ir à feira porque minha família sempre foi à feira, desde meu avô que veio da Itália, passando pelos meus pais e chegando à mim, que já me encarrego de levar meus filhos junto, para que também eles o façam a seu tempo.


Agora vamos analisar as motivações, uma a uma. No primeiro caso, minha ida à feira deriva de uma necessidade que preciso suprir. Raciocino sobre essas necessidades e concluo que devo me encaminhar à feira, pois lá encontrarei os suprimentos desejados. Percebam que a ação social, neste caso, é motivada racionalmente por um objetivo certo e bem delineado. Há uma finalidade – é o que Weber chama de ação racional relacionada a fins.
Na segunda opção, também tenho um dispositivo racional a me mover. Só que, neste caso, o que me motiva não é a finalidade em si – comprar bananas e acelgas – mas um valor. Posso achar ético que mais pessoas tenham uma oportunidade de trabalho, e por isso deixo de aproveitar os melhores preços do mercado para procurar pela distribuição de minhas parcas moedas para um maior número de pessoas. É uma ação racional relacionada a valores.


Vamos à terceira hipótese. Neste caso, não estou preocupado com frutas ou legumes, nem com o valor de uma compra para um pequeno comerciante, mas estou a fim de bater papo, rever amigos, contar um pouco de mentiras e vantagens, comer um pastel e reclamar de seu pouco recheio. O componente racional é abandonado para ser substituído por algo que me toca os sentimentos, um componente emocional. É a ação afetiva.
Por fim, na quarta hipótese não há racionalismo aplicado, nem mesmo um laço afetivo. Vou porque sempre fui, porque meu pai ia, porque meu avô ia, sem me preocupar com objetivos, valores ou afetos, sem levantar questionamentos. É um mero uso, um costume. Esta é a ação tradicional.


Isso significa que a ação social tradicional é um mal em si e que deveríamos eliminar as tradições? Não, mil vezes; não é isso que estamos falando. Em primeiro lugar, não vivemos racionalmente cem por cento do tempo, ninguém consegue fazer isso. Muito pelo contrário. Desde cedo, aprendemos a adotar séries de ações “decoradas” justamente para liberar a cabeça para pensar. Imaginem se a cada passo rumo à feira eu precisar fazer uma análise completa sobre os proveitos e deméritos do meu ato. Em segundo lugar, acostumamos a pensar nas tradições como componentes formadores de nossas próprias histórias, e que é importante mantê-las. Não há nenhuma dúvida quanto a isso, mas percebam a mancada. Quando me preocupo em conservar um tipo de música, um jeito de dançar, uma indumentária, uma certa técnica arquitetônica, em suma, em contar a história e os costumes da minha família ou da minha cidade – em preservar uma tradição – minha ação ganha um objetivo, que nasceu de uma ponderação. Nesse sentido, manter as tradições não é uma ação tradicional, mas uma ação racional voltada a fins. Entenderam a diferença?
Sinopse: a ação tradicional não é um problema em si mesmo. Ela só se torna um problema quando obstaculiza uma ação racional. Não faz sentido, por exemplo, continuar a tomar beberagens tendo medicamentos comprovadamente eficazes. Mas também é preciso pensar sobre o que nos amarra às tradições irracionalmente. Um dos motivos é o conforto, uma tendência à imobilidade. Se estamos vivos, bem ou mal adotamos uma estratégia de sobrevivência certa. É isso que nos insere nos mecanismos de evolução, animais que somos. Por isso temos a tendência a ser conservadores: mais do que manter situações de privilégio, a tendência atávica é de fugir de riscos. Mas também somos humanos, e não estamos aqui apenas para sobreviver. O mundo ao nosso redor evolui e precisamos continuar caminhando sobre ele. As tradições precisam ser continuamente reavaliadas para serem utilizadas da maneira correta – como um valor plenamente válido, como uma instância favorável de uso ou como um retrato na parede, de doce memória. O importante é que a tradição tenha sentido e que não seja um atravanco em nossas vidas.


Vamos dar um exemplo bem cabal da perda de sentido de uma tradição. Os dogmas católicos indicam que há alguns dias do ano destinados à contrição e à penitência, em especial nos períodos chamados de Quaresma e Semana Santa, tempos preparatórios para a principal solenidade desta religião, a Páscoa. Em tese, são dias em que o fiel deveria passar em recolhimento e oração, evitando abusos de prazeres mundanos. O cume deste estado seria a Sexta-feira da Paixão, que inclui a restrição de alimentos como carne vermelha, fortemente vinculada à luxúria e à vida desregrada. O peixe, ordinário, não entrava nesta conta, porque era considerado comida de pobre. A tradição persiste até hoje, e durante estes dias restritivos, onde se prega a humildade e simplicidade de atitudes, onde se é exercitado o desprendimento das coisas terrenas, onde se busca desvencilhar dos prazeres, substitui-se o pecaminoso bife por um modesto e bem comportado... bacalhau!!!
Sim, é verdade. A tradição da Sexta-feira da Paixão desembocou, aliada à tradição culinária portuguesa, na orgia consumista do caríssimo peixe, muito mais oneroso que um ostentativo filé mignon. Ocorre que, em Portugal, o bacalhau é abundante e barato, no exato contrário do que acontece em nossas plagas tropicais. O dito bacalhau é um verdadeiro devorador de cartões de crédito, porque não basta ser caro, é preciso ser muito. Que dê, ao menos, para o almoço e a janta. Imaginemos uma oração fictícia a ser realizada no prólogo da refeição de uma igualmente fictícia família na Sexta-feira Santa:


“Ó, Senhor! Tu, que passaste 40 dias no deserto em jejum para viver livre das tentações, que viveste com pouco e partilhaste com pobres e desfavorecidos de todo tipo, receba nossa oração neste dia de sua morte, onde descemos à máxima humilhação de nos mal alimentar com uma insignificante bacalhoada à Gomes de Sá, guarnecida por uma caponata com alcaparras e regada por um vinho Madeira, em celebração ao teu santo sangue, e trancamos nossas tendências ao pecado sorvendo pasteis de Santa Clara, padroeira da parcimônia. Pedimos penhoradamente que nos dê força para suportar esta privação em sua honra e glória. Amém!”.
Para onde se encaminhou o sentido da tradição da Sexta-feira Santa? Percebem como é uma tradição vazia? A ação social da bacalhoada na Sexta-feira da Paixão não é nada mais do que isso: uma ação oca de racionalidade. É um problema a ser resolvido pelos católicos: ou se arregimenta suas massas, lembrando-as dos significados da sua tradição, ou se abandona a mesma. Do jeito que está, há só cinismo.


Mas sabemos o quanto é difícil mudar hábitos arraigados. Pela própria pressão psicológica de estabilidade e conservadorismo que já citei, há uma tendência quase natural a se selecionar argumentos para justificar uma tradição. Só que nem sempre isso representa uma boa lógica. E, nestes casos, vemos brotar um tipo de falácia informal de dispersão e relevância conhecida como apelo à tradição (argumentum ad antiquitatem).
O apelo à tradição tenta nos impingir o convencimento de que algo é melhor porque é tradicional, porque é muito antigo, porque é repetido por muitos e muitos anos, e que deve preponderar sobre o novo apenas e tão somente por isso. O seu principal mote é atribuir uma espécie de crivo temporal pelo qual a tradição não teria sobrevivido se não fosse valiosa. Mais ou menos como um livro, que, por ser antigo, contenha melhores informações do que um novo.


Antigo não significa antiquado, mas é preciso ter cuidado para achar que as coisas novas não podem ser melhores por não ser tradicionais

É claro que essa linha de pensamento é inválida, como pudemos perceber pelas teses de Galeno. Do mesmo modo que algo não é bom pelo simples fato de ser moderno (vejam meu texto sobre o apelo à novidade), também a idade não é argumento suficiente para dar suporte e consistência a uma tese. Nem vou dar exemplos porque os mesmos já restam abundantes neste post.


Mas apelar à tradição nem sempre é falacioso. Como premissa básica, podemos afirmar que antigo não é sinônimo de antiquado. Por isso mesmo, um livro de um autor antigo não é, obrigatoriamente, um livro defasado por completo. É necessário, por conseguinte, que se contextualize adequadamente onde a tradição tem relevo. Galeno mesmo tem importância real na história da medicina pela sua tradição de pesquisa e filosofia, isso ninguém pode tirar dele. O que se precisa evitar é achar que trepanações e sangrias são melhores do que o uso de medicações exaustivamente testadas em laboratório. É isso o que fere a lógica.
Recomendações de leitura:


Weber é basilar na Sociologia. Qualquer um que se interessar no assunto tem que passar por ele, obrigatoriamente. O livro abaixo é aquele onde melhor se discorre sobre suas teses de ação social.
WEBER, Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Unb, 2000.


Não consegui achar nada de Galeno em português. Para quem se interessar muito, há esta edição em língua inglesa de um de seus livros mais expressivos.
GALENO, Cláudio. On the therapeutic method. Gloucestershire: Clarendon, 1991.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Sobre o medo expresso na forma de gafanhotos e o Ser que emerge da inadequação (Pequeno guia das grandes falácias – 35º tomo: a vivacidade enganosa)

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

Por mais que nos definamos como animais racionais, o fato é que muito do que somos e fazemos dizem mais respeito aos nossos sentimentos do que à nossa capacidade de raciocínio. E, evidentemente, nosso emocional surge de forma bastante espontânea, bem mais do que os intrincados caminhos do pensamento lógico podem conseguir.

Acontece que a gama de emoções é bastante grande entre nós, muitas delas opostas entre si, o que pode nos levar a pensar se não são representadas pelo mesmo sentimento com o sinal trocado – coisas como as dicotomias amor-ódio, serenidade-exasperação, alegria-tristeza, dentre outros. Essa preponderância levou à construção de teses metafísicas que, à primeira vista, pareceriam absurdas. Empédocles de Agrigento, filósofo grego que via a composição de todas as coisas construídas através da articulação dos quatro elementos (vide), tinha uma curiosa teoria sobre o modo com o qual a mecânica dos elementos fazia com que um preponderasse sobre o outro. Em resumo, todas as coisas são compostas pela mistura de terra, fogo, água e ar. Cada um desses elementos é chamado por Empédocles de raiz. Podemos notar o teor de cada uma dessas raízes pelas características físicas de cada objeto. Algo quente, por exemplo, tem um teor da raiz “fogo” elevada, e algo diáfano teria uma maior quantidade da raiz “ar”.

Porém, se todas as coisas são feitas dos mesmos elementos, e estas são diferentes entre si por conta da diversidade de teores de suas raízes, o que faz com que eles não tenham sempre as mesmas proporções e sejam sempre iguais? Ou seja, por que tudo não tem a mesma temperatura e densidade? Empédocles concluiu que havia alguma força que fazia com que as raízes se atraíssem e repelissem, forçando os objetos à nossa volta a viver em eterno movimento – tudo o que sobe, desce; tudo o que é quente, esfria e assim sucessivamente. A essas forças de atração e repulsão, Empédocles deu o nome de – vejam vocês – amor e ódio, como se as partículas das coisas se amassem e se odiassem da mesma forma que nós, humanos. Esse pensamento, simplificado da forma como agora exponho, pode parecer um tanto ridículo, mas, se pensarmos nas forças gravitacionais e de centrifugação, e na energia eletromagnética, com a repulsão entre polaridades iguais e atração nas diferentes, veremos que nosso pobre amigo não estava tão errado assim, ainda mais tendo só a dedução como ferramenta.

Voltando à questão das emoções, podemos tentar pensar qual delas faz o mundo se mover. Para mim, terminantemente é o medo. Se pensarmos que a vida é, antes de mais nada, o sucesso na sobrevivência, veremos que o medo é absolutamente central e necessário, mesmo que este pensamento pareça excessivamente angustiante. Pensando na totalidade das espécies, veremos que é o medo que impede os riscos desnecessários, que obriga a manutenção de reservas, que deixa as espécies “ligadas” nas movimentações, etc.

Mas tudo na vida tem sua justa medida, inclusive o medo. O medo na quantidade certa é obrigatório para a sobrevivência, mas seu excesso nos trava e pode fazer com que não tenhamos medo de coisas ainda mais graves, contraditoriamente. A hipocondria, por exemplo, é um medo tão grande de ficar doente que nos faz perder o medo de se entupir de remédios e, adivinhem, ficar doentes!

Esse medo excessivo dirigido a um determinado objeto ou situação é o que chamamos de fobia*. É um medo desprovido de sentido, porque a ameaça não é real. Nasce, no mais das vezes, de traumas infantis ou de imposições culturais que são interiorizadas fortemente pelas crianças, muito embora haja fobias desenvolvidas por adultos. Em geral, são inconscientes, mas há casos em que é possível rastrear sua origem facilmente.

A fobia é caracterizada por dois aspectos: ela é irracional e desproporcional. É como alguém que tem medo de ladrão mesmo estando internado no quartel da polícia. O fóbico exponencializa seu medo a ponto de achar que haverá o tal ladrão saindo mesmo de dentro da privada. Enfim, é o medo das coisas mais improváveis e infactíveis.

Todos nós temos nossos medos dirigidos e, em certa medida, também temos nossas fobias. Como eu já disse, muitas delas precisam ser exaustivamente rastreadas por especialistas para terem sua origem detectada, mas, ao contrário do que é comum, algumas são fáceis de explicar. Uma delas chama-se acridofobia, o medo patológico de gafanhotos.

Comprei estes gafanhotos de um noia...

Como pode nascer isso? Suponhamos que uma criança de quatro ou cinco anos more na casa do meu avô. Seu pai era metalúrgico e não ganhava grande coisa, então era sempre melhor economizar os caraminguás do aluguel para construir a própria casa. Imaginemos que essa casa já fosse velha e não muito grande, mas com um terreno enorme, ocupado por um jardim na sua maior parte. Gafanhoto adora mato, como denuncia seu nome em inglês, grasshopper (algo como “saltador da grama”), e mato pode ser algo que não faltava naquela casa, nem naquela rua, nem naquele bairro. Portanto, pode ser bastante comum achar gafanhotos, como também ser fácil achar piolhos-de-cobra, pirilampos e besouros vários, cada vez mais raros. A criança em questão pode nunca ter tido problemas com nenhum deles, até que um dia acontece: um gafanhoto está placidamente pousado no seu ombro, sem que se tenha dado conta. Dois amigos veem o bicho ali pousado e começam a fazer enorme estrépito e estardalhaço, em um triálogo mais ou menos assim:

Amigos – Tira isso do seu ombro! Tira! Tira!

Criança – Tira o quê?

Amigos – O gafanhoto! Tem um gafanhoto no seu ombro!

Criança – E daí? O que é que tem?

Amigos (da onça) – Esse bicho é VENENOSO!!!

Criança – Aaaaaaaaaahhhhhhhhhh!!!!!!

Piti e correria. Lembrem-se que a criança tinha 4 ou 5 anos. Ela passa a ficar apavorada todas as vezes em que via um gafanhoto. Seus pais falaram da bobagem, outros adultos também, bem como seus professores e até outros amiguinhos, mas nada adianta, e até hoje, passados tantos e tantos anos, plenamente ciente da ausência de peçonha do inocente bichinho, o agora adulto continua se sentindo incomodado se houver um monstro verde no ambiente.

Que sentido faz ter medo de gafanhotos? Apesar de serem insetos grandes, não só não possuem veneno algum, desmentindo os cascateiros amigos, como também são limpos, porque não curtem esgotos e outras melecas, como fazem as baratas; não picam para se defender, não possuem substâncias urticantes e basicamente se alimentam de plantas. Pesam 20 gramas em média, o que significa que são necessários mais de 3000 deles para chegar ao peso de um humano. Fazem parte do estreito rol de insetos comestíveis, o que é feito desde remotos tempos. Gostam de atacar lavouras, isso é verdade, mas o fazem em gigantescos bandos e uma pessoa não é uma lavoura. Racionalmente, portanto, não há motivo nenhum para ter medo de gafanhotos. Mas há gente que tem.

A presença de qualquer gafanhoto em um ambiente cresce, se transfigura, transcende seus poucos centímetros reais como se fosse uma ameaça concreta. O gafanhoto, antes de qualquer coisa, evidencia-se. E lembrei de Martin Heidegger (que não é gafanhoto e de quem dei umas referências aqui).

Esse filósofo alemão é um grande contestador dos sistemas metafísicos praticados desde sempre na Filosofia, que respondiam inadequadamente à questão sobre o Ser, essa estranha figura que representaria a essência de cada uma das coisas no universo, homens inclusos. Para ele, os filósofos clássicos se prendiam demais ao cosmos, os medievais a um deus e os modernos à linguagem. Essa diversidade no enfoque ao Ser corrobora sua principal tese: sempre que se tenta analisar o Ser, na verdade observa-se o ente, que é uma manifestação particular do Ser, mas não a própria essência.

Esta é uma visão aparentada da de Kant, para quem o Ser em si mesmo (o noumeno) não é diretamente acessível, a não ser pelos seus fenômenos, ou aquilo que nos é manifesto ao conhecimento. A coisa funciona mais ou menos assim: existe um conjunto de características e uma organização tal que estabelecem um conceito sobre determinado objeto. Mais do que uma mera descrição, é a essência do que é essa coisa o que nos faz reconhecê-la como algo distinto entre outras coisas. Por exemplo: o que está na essência de uma garrafa? Que possa conter líquidos. Mas um copo e um balde também tem essa característica. A diferença é que enquanto o copo serve para viabilizar o consumo e o balde para possibilitar o transporte, a garrafa contém o líquido para armazená-lo. Outras características são subjacentes e necessárias: que seja feita de material sólido, que seja oca, que não desmanche em contato com o ar. Isso é o que está na essência da garrafa, que a distingue de outros objetos. É a sua essência, é o seu Ser. Segundo Kant, o tal do noumeno.

Acontece que essa essência constitui uma realidade que precisa se plasmar em algo concreto para que tenha existência, e, nesse caso, reveste-se de uma série de contingências. No caso da garrafa, tem variações nos estados: pode estar cheia ou vazia, aberta ou fechada, gelada ou quente. Tem variações na forma: grande, pequena, redonda, quadrada, oval, retorcida como as curiosas garrafas de cachaça do interior de Minas. Tem variações materiais: de vidro, de plástico, incolor, esverdeada, âmbar, opaca, transparente, lisa, canelada, em bico de jaca. Essa é a garrafa que presenciamos – uma manifestação individual do noumeno garrafa, com suas características próprias, contingenciais e circunstantes, o que chamamos de fenômeno.

Qual a novidade de Heidegger? Segundo ele, nossa experiência metafísica é ôntica, ou seja, voltada para o ente, que é uma das manifestações possíveis do Ser. Tudo a ver entre ente e fenômeno? Tudo a ver, com a diferença de que, a cada vez que experienciamos um ente, também observamos seu Ser, só que não o percebemos. Em cada ente garrafa que eu olho, eu vejo também o Ser garrafa, sem se dar conta. Todo Ser é Ser de um ente, e todo ente tem um Ser que o precede.

Papo de maluco... Mas, se só temos diante de nós os entes, como podemos fazer para observar o Ser? Como poderemos transmutar a observação ôntica, voltada ao ente, em observação ontológica, voltada ao Ser, e agora legitimamente metafísica? Heidegger dá uma explicação complicadíssima, que tentarei resumir de forma bastante simplificada e lançando mão de exemplos. Ou seja, considerem minhas palavras como uma espécie de introdução à ontologia heideggeriana, e nada mais do que isso. Vamos lá.

Heidegger percebe que a realidade é observada pelas pessoas através de um substrato intelectual que lhes guia, o que faz com que as coisas e as situações tenham uma espécie de normatividade. Na era medieval, por exemplo, a régua que dava essa norma era a divindade, e tudo era dirigido pela sua vontade. Desta forma, tudo se dava no plano divino – algo ocorria porque um deus queria, para o bem ou para o mal. Cabia apenas interpretar essa vontade: se eu era punido, foi porque o desagradei; se me dei bem, justo o inverso; situações inexplicáveis ficavam por conta do mistério de seus desígnios. A partir da modernidade, é a Ciência e a Técnica que tomam esse papel. Baseadas fortemente em uma mecânica de causa e efeito, esses novos guias fazem com que a realidade seja vista de maneira pragmática e utilitária – tudo tem sua definição, seu lugar, sua função no mundo, suas origens e seu uso. É a retomada da garrafa. Ela é bem definida como objeto oco feito de vidro ou plástico, tem lugar nas prateleiras de mercado e nos armários e geladeiras, tem uma função bem específica de servir para guardar líquidos, tem uma origem clara que é a fábrica de garrafas ou dos artesãos vidreiros e é utilizada sobejamente por fabricantes de cerveja, refrigerantes, perfumes, lubrificantes e tantos outros. Essa visão utilitária, portanto, atribui uma série de situações normais para o objeto garrafa, para o ente garrafa. Exemplificando: vou à venda do seo Américo e não há nada mais corriqueiro do que pedir uma garrafa de guaraná para beber, uma garrafa de vinagre para temperar, uma garrafa de óleo para fritar. Jamais pensamos, nestes termos, no Ser garrafa. Só é para nós uma garrafa quando está presa a uma relação utilitária, e, neste sentido, a garrafa é um ente, ora essa – um objeto que justifica um uso e uma relação particular, e nada mais.

Heidegger entende que é preciso fazer o Ser emergir, e, para isso, é absolutamente necessário quebrar a corrente das relações utilitárias. Imagine, então, que você tenha um priminho. Um priminho bem novo, daqueles do estilo pentelho. Ele vem à sua casa e toca o puteiro. Mexe em tudo, derruba suas coisas, abre as portas dos armários, revira tudo lá dentro, zoneando discos, livros e revistas de exposição pouco recomendada, fazendo perguntas indiscretas. Seus tios, entretidos com as habituais maledicências, estão literalmente cegos para a ação do demoninho, e você, estoicamente, reage com um misto de complacência e infinita paciência, que não consegue disfarçar de todo o incômodo. Ao chegar em sua adega, no entanto, o peralta se distrai com uma garrafa (ela de novo) e, apesar do risco, você o permite, porque agora o fedelho está aquietado: o rótulo é cativantemente colorido e chamou a atenção do pequeno, que, diligentemente, tenta removê-lo a custo, bem aos poucos. Em seguida, passa para outra garrafa, e faz o mesmo, por um tempo bastante estendido. É o momento certo para aproveitar e adentrar na animada tertúlia, saborear um dos últimos pães de queijo, essas coisas. Depois que seus parentes vão embora (pentelho incluso), você relaxa e resolve descansar, não sem antes dar aquela aliviada básica dos guerreiros. Ao levantar a tampa da privada, a surpresa inexorável: uma das garrafas, ainda plena de líquidos e rótulo, está lá, submersa na água azulada de sachê do vaso. Jamais nenhuma ordem utilitária faria pensar em uma garrafa dentro da privada. Poderíamos encontrar coisas pouco notáveis, como a própria água, um desodorizador caído ou até mesmo... Bem. Mas não uma garrafa, ‘inda mais de fina bebida. Há uma quebra que produz surpresa e estranhamento, e você vai buscar, nos recônditos de seu conhecimento e por um rápido instante a essência daquilo que está no lugar errado – sua estampa, sua característica, seu Ser!!! É nesses momentos de inadequação que o encontramos, e não ao ente. Por isso, Heidegger achava que a vida redondinha só servia para produzir tédio, sem nenhuma descoberta, sem nenhum resgate de essências, só entes, entes e mais entes. Mais do mesmo, em resumo. E é a partir daí que nascem as crises existenciais, mas isso é tema para outro texto.

Depreende-se daí que há outra importante forma de atingir o Ser: a atividade artística. Quando Dalí coloca seus relógios para derreter, quando Picasso desmonta suas imagens tridimensionais em um plano de duas dimensões possíveis, quando Guimarães Rosa reinventa as palavras em seus contos, são aspectos do Ser que são afetados e reconstruídos. Mesmo quando arquitetamos uma simples metáfora, é dos Seres combinados e com sentidos permutados que extraímos a essência. Vejam: cada um dos seus componentes doa seus sentidos para obter o terceiro termo, uma recombinação de significados. A flor fornece seu encanto para traduzir a beleza da moça, seu ponto em comum.

E isso tudo com a porra do gafanhoto? Ora, o medo é, ele também, uma forma de inadequação, só que mais extrema. Ainda que o bichinho seja completamente inofensivo, para o acridófobo a sua presença no quarto é uma gigantesca quebra de normalidade. O Ser do gafanhoto surge imenso, desproporcional, ameaçador, torturante, lancinante, fragilizador, imperativo. Não importa o ente gafanhoto que ali se apresenta, basta que seja um gafanhoto. Portanto, Heidegger diria que o medo e, mais ainda, a fobia aterrorizante é um dos canais para reconhecer o Ser. Pena que de maneira distorcida, porque potencializando as ameaças e menosprezando as virtudes.

E o Pequeno Guia, tem espaço para ele? Sim, tem. É a falácia da vivacidade (ou nitidez) enganosa. Quando algo se sobressalta de forma a extrapolar qualquer raciocínio lógico, acaba-se por formular argumentos inconsistentes. No caso do gafanhoto, para ficar no exemplo, podemos reputar um local qualquer por perigoso unicamente pela possibilidade de sua existência. Não, um lugar não se torna perigoso porque algo que me impinge medo está presente, se este objeto não for efetivamente algo que cause risco, como uma cobra. Esse sim é um caso de risco real.

É que a tal da fobia é um grande alimento para os processos de heurística. Somos tão afetados pelo medo que ele é praticamente tudo o que se torna disponível à nossa consciência em momentos onde nos deparamos com seus causadores. Como eu disse, o provocador do medo cresce a ponto de não vermos absolutamente mais nada: só ele é evidente, só ele é nítido, só ele é vivaz.

Exemplificando ainda melhor: no mês que vem, pretendo dar uma chegada em Minas Gerais, estado que vem sofrendo ultimamente com um surto preocupante de febre amarela. Para mitigar a questão, a conduta é simples: dez dias antes da viagem, no mínimo, vai-se ao posto de saúde e toma-se a competente vacina. Tenho duas situações a temer:

1. Contrair a doença

2. Tomar a picada da vacina.

As duas hipóteses são mutuamente exclusivas: se eu tomar a vacina, não contrairei a doença; se eu contrair a doença, é porque não tomei a vacina. Os dois medos são justificáveis, mas, diante da hipótese mais palpável da dor da picada, posso cometer a imprudência de optar pelo risco de uma doença verdadeiramente perigosa, com alta taxa de mortalidade, mesmo que menos provável, o que é algo inteiramente irracional.

Pensando em termos de argumentos, poderia colocar dois deles, da seguinte forma:

1. Não viajarei para Minas, por medo de contrair febre amarela, uma doença grave.

2. Não viajarei para Minas, por medo de tomar vacina, que causa uma dor lancinante.

3. Não viajarei para Minas, porque, mesmo tomando a vacina, ainda assim a febre amarela é terrivelmente perigosa.

Percebam como o segundo é bem menos justificável do que o primeiro, e que o terceiro é absurdo. O medo, neste caso, desvia o juízo e torna o argumento falacioso. A dispersão se dá por conta do excessivo estado de terror, que não tem sentido. Será muito mais fácil morrer na viagem por conta de algum acidente do que pela eventual falha na vacina. Outra coisa: a dor não é argumento válido, mas não há falácia se a justificativa for uma alergia. Aí, sim. É um caso mais grave e mais difícil de resolver. Neste caso, a vivacidade enganosa não se aplica, porque a ameaça é real.

Em suma, a falácia da vivacidade enganosa é muito assemelhada a outras falácias, como o holofote (reportado no texto citado sobre heurística) e a evidência anedótica, com o diferencial de que o fator não é apenas algo que se destaca, mas que preenche o argumento de uma nitidez que ofusca o verdadeiro sentido do que se quer propor.

Recomendação de leitura:

Martin Heidegger é um dos filósofos mais difíceis de se compreender. Dizem que seu forte eram as aulas, onde se podia constatar seu verdadeiro talento como filósofo. Mas, feito cuidadosamente, um estudo de suas obras é um grande resgate de questões que há muito tempo estavam esquecidas pela Filosofia. Recomendo a obra abaixo:

HEIDEGGER, Martin. O que é metafisica? In: Conferências e Escritos. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

*A fobia aqui tratada está exclusivamente no âmbito psicológico, e, por isso mesmo, aplicada no sentido de medo. Em seu aspecto social, o termo fobia tem muito mais a ver com aversão, como é o caso em que se usa as palavras homofobia (aversão a indivíduos do mesmo sexo), xenofobia (aversão a estrangeiros) e etc. A palavra vem do deus grego Phobos, filho de Ares, cuja tarefa era injetar medo nos soldados dos exércitos adversários.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Sobre os modelos de persuasão e o Pequeno Guia das Grandes Falácias - 34º tomo: o apelo à popularidade (argumentum ad popolum)

Olá!


Há pouco mais de dois meses estamos com novos prefeitos em nossas cidades, tilintando de tão polidos. Aqui em São Paulo, a novidade se chama João Dória, um empresário do ramo de eventos, que, além disso, trabalhou em governos anteriores, presidindo a Paulistur e a Embratur (embora tenha insistentemente se apresentado como um não-político) e que também apresentou alguns programas de entrevistas na tevê.

Por enquanto, nada digno de nota em sua gestão. Afinal de contas, quarenta e poucos dias são insuficientes até mesmo para apreciar o valor de um síndico, quanto mais para falar do prefeito de uma cidade com módicos e estimados doze milhões de habitantes, embora pareça haver boa vontade por parte da mídia – vide este exemplo, onde um site de notícias conclui que, em apenas 13 (TREZE) dias, mudou o jeito de governar São Paulo. De causar inveja a qualquer coelho Ricochete. Destaque para o aumento de velocidade nas Marginais, o que gerou um belo e já resolvido imbróglio jurídico; para a polêmica com os grafiteiros; para a colocação de uma base da GCM na porta de sua casa; para a liberação dos veículos em um viaduto que, por coincidência, fica exatamente na rota entre sua casa e a sede da prefeitura e para suas incursões no mundo dos garis. Um milionário que não deve nem saber diferenciar uma vassoura de um rodo pagando de lixeiro não deixa de ter seu aspecto burlesco. Eu preferiria mais pão e menos circo. Mas aguardemos, que esse tipo de baboseira costuma passar rápido. Não vou julgar um governo apenas pelas suas micagens.

Um pouco surpreendente foi sua eleição. Pouco conhecido do grande eleitorado, calcou sua campanha na imagem de trabalhador e de grande gestor, tentando vender uma história de infância pobre e de sucesso na carreira baseado no esforço próprio. Colou, como pudemos constatar. Sua campanha decolou a ponto de ser eleito no primeiro turno, em uma grande arrancada, quando todas as pesquisas indicavam o contrário.

Como uma pessoa consegue ser eleita na maior cidade do país sendo relativamente pouco conhecida, apesar de ter apoio da máquina estadual? Que tipo de mágica é essa que incute na cabeça das pessoas o convencimento de que se trata de uma boa opção, ainda mais sabendo que as campanhas e debates lidam pouco com propostas e muito com ataques? Como fazer decolar uma popularidade em meios onde ela não é provável? É preciso nos reportar um pouco às teorias sobre a persuasão.


Vou buscar a abordagem dos psicólogos sociais e pesquisadores norte-americanos Richard Petty e John Cacioppo, que elaboraram uma teoria conhecida como ELM, sigla para Elaboration Likelihood Model (Modelo de Probabilidade de Elaboração). Trata-se de uma teoria de processo dual, onde um determinado fenômeno psíquico pode derivar de dois processos diferentes, sendo que, geralmente, um é explícito e consciente, enquanto o outro é tácito e inconsciente.

Mas vamos, primeiramente, tratar do que é persuasão. Basicamente, persuadir é convencer à adoção de uma atitude. É a apresentação de elementos cognitivos a um receptor de uma determinada mensagem, seja ela textual, gestual, imagética, concreta ou simbólica, com o objetivo de lhe causar alguma afetação. Ela pode se dar em três níveis: se eu não tenho nenhuma opinião sobre um determinado assunto e me é apresentada uma proposta sobre o mesmo, terei uma persuasão formativa. Caso eu já possua uma posição sobre determinado assunto e o argumento vem ampliar minhas convicções, terei uma persuasão reforçadora. Por fim, se a tese que se me apresenta visa fazer com que eu troque de opinião, já aí terei uma persuasão modificativa.

Podemos concluir que a persuasão sempre envolve uma mensagem, e que segue o velho esquema que aprendemos nas aulas de Linguística: a mensagem é a codificação intencional de um determinado objeto ou argumento que é transmitida por um emissor e resgatada por um receptor. É neste último que a persuasão exerce sua ação. Uma mensagem afeta um receptor de alguma forma. Ele pode dar grande atenção a ela e pensar por horas e horas no assunto, ou pode simplesmente desprezá-la solenemente. A medida do quanto de energia o receptor vai dispender na decifração e na absorção da mensagem recebida é o que se chama de probabilidade de elaboração. Em miúdos, é o tamanho da chance de que uma informação vá ser pensada e aproveitada por alguma pessoa.

Mas o que faz com que determinada mensagem toque mais uma pessoa e menos outra? O engajamento do receptor às mensagens se dá, fundamentalmente, em duas variáveis: o envolvimento e a habilidade em processar. Na primeira, é preciso compreender o quanto determinado assunto interessa a uma pessoa. Tente explicar para sua esposa ou namorada a lógica do campeonato paulista e você a verá roncar em 30 segundos. É claro que existem exceções, como no caso da minha patroinha e de minha afilhada Jazz, mas o tema futebol geralmente não interessa às mulheres, e por isso qualquer mensagem referente ao tema enfrenta resistência em ser absorvida.
Já na segunda variável, é preciso levar em conta todo o patrimônio cognitivo do receptor para deduzir sua capacidade de elaboração. Não se trata de falar em quantidade de inteligência, mas é preciso um conhecimento mínimo para absorver uma mensagem, o que torna complicada a emissão de mensagens complexas, como teses científicas. Voltemos ao futebol e às mulheres. 

Geralmente, futebol se define à sua namorada como “ 22 homens que correm atrás de uma bola”. Tendo em vista esta estreiteza de escopo, tente explicar a ela a regra do impedimento. A compreensão desta regra exige um estoque mínimo de informações: o conceito de ataque e defesa, de linha imaginária, de linha da bola, de linha do meio-campo, de momento do lançamento, de bola vinda do adversário, de participação ativa na jogada, de goleiro como membro do time e etc. Não adianta. Se a pessoa não liga para futebol, não conseguirá processar a regra. Isso, mais uma vez, não tem nada a ver com a falta de capacidade cognitiva, mas com a necessidade do aporte mínimo de conhecimentos. Por fim, concluímos que envolvimento e capacidade de processar são ligados entre si. Interesse faz com que haja busca de conhecimento, e quanto maior for esse, proporcionalmente maior será o engajamento. Simples assim.

Pois muito bem. Vamos voltar a Petty e Cacioppo. Com base nas constatações acima, nossos amigos perceberam que a recepção de mensagens persuasivas segue um processo dual que possui dois braços: a rota central e a rota periférica. Há quatro pontos principais na teoria de ELM:

1. Todas as vezes que uma pessoa se confronta com alguma forma de comunicação, é-lhe provocado um estímulo mental, que o leva a uma elaboração. Trocando em miúdos, o camarada PENSA. Isso é o que chamamos, tucanamente, de processo de elaboração. Quando nos compenetramos e raciocinamos de maneira consciente, temos uma elaboração alta. Por outro lado, se o fenômeno é passageiro, quase imperceptível, temos uma elaboração baixa, com menor esforço.

2. Como deriva do item anterior, há diversos níveis de processos mentais. Alguns são intuitivos, onde há baixíssima elaboração, que ativam partes da mente onde as emoções e sentimentos são mais presentes. São nesses processos que atua a rota periférica. Outros são mais racionais, com alta elaboração, e onde são pesados os valores apresentados à mente. Neles se encaminha a rota central.

3. As elaborações feitas via rota central tendem a produzir impressões mais duradouras, exatamente pelo fato de que demandam maior esforço, o que ocorre inversamente na rota periférica.

4. As variáveis de um processo podem ter diferentes papéis na elaboração. Isso significa que nem sempre algo que é destinado a ser central o é. Rota central e rota periférica se imbricam. Não há uma divisão arbitrária dizendo onde até cada uma vai. Portanto, o que atinge um receptor pela via central, pode atingir outro pela via periférica. Isso deriva de seus interesses e conhecimentos.

Em suma, temos dois caminhos por onde uma informação trafega em busca da persuasão. A primeira delas, a rota central, recebe a mensagem direta e objetivamente. É aquela que apresenta os argumentos verdadeiramente relevantes para uma escolha, porque lida com uma intensa elaboração cognitiva e, naturalmente, como costuma apelar mais para a racionalidade do que para a emoção, produz persuasões mais permanentes, difíceis de dissuadir.
Já o outro caminho, a rota periférica, lida com fatores emocionais e não apresenta argumentos, ou o faz com grande carga de emoções e sentimentos. Não há grande estímulo à criticidade nesta rota, como a avaliação de prós e contras. Seu mecanismo de atuação não dá motivação ao processamento de informações. Sendo assim, a via periférica é mais fácil de atingir, porque exige menos energia para ser absorvida, apesar de sem mais efêmera.

Isso tudo nos faz chegar a algumas conclusões. Em um mundo onde a livre concorrência é a teórica mola propulsora do sistema capitalista, uma das principais bases do enriquecimento e da sobrevivência das empresas é o convencimento de que seu produto é melhor que o dos outros. Sendo assim, e levando em conta a quantidade de alternativas disponíveis na maioria dos mercados, é necessário fazer com que o produto se dê a conhecer o mais rapidamente possível. Fazer um convencimento pela rota central pode dar maior fidelidade, mas toda caminhada começa pelo primeiro passo, já dizia um sábio chinês: é preciso convencer o consumidor a tomar o primeiro contato com a mercadoria. Neste passo, a rota periférica pode ajudar, e muito.

A via periférica é mais eficiente quando temos pouca informação com relação ao produto. É aquele “toque” que nos faz voltar o olhar e prestar uma atenção que não teríamos unicamente pela mais elaborada via central. Mas, como a rota periférica é menos absorvida, precisa ser repetida reiteradas vezes. Por isso mesmo, qualquer lançamento de uma novidade é reprisado ad nauseam. Isso fica ainda mais bem evidenciado quando há poucos argumentos para o convencimento. Pela racional via central, haveria poucos motivos para substituir um artigo plenamente funcional por outro mais novo, mas com poucas vantagens adicionais. Se vincularmos ao produto alguns satélites como sexualidade, fama, riqueza e poder, a emotiva rota periférica entra em ação. É por isso que atrizes bonitas e esportistas saradões emprestam seu prestígio às marcas anunciantes. Fulana usar o sabonete A ou beltrano gostar do desodorante B não são critérios para a eleição racional do produto, mas há um substratozinho heurístico (principalmente o viés de disponibilidade) que pode nos arrastar a experimentar um segredo de felicidade afiançado por alguém dos pedestais, bem como a alegação de que muita gente também o faz.

Chegou a hora de dar alguns exemplos. Catei uma revista de culinária aqui em casa e pesquei algumas pecinhas publicitárias para a gente analisar. Não sei se firo algo relacionado a direitos autorias, mas, se sim, me proponho a retirar ou enevoar as marcas aqui constantes. Vamos a elas.

Este é o primeiro exemplo:


Temos aqui um exemplo muito bem acabado de persuasão pela rota central através da utilização de elementos textuais. Todos os argumentos estão construídos em cima da racionalidade, o que exige até algum tipo de alongamento, haja vista se tratar de tema pouco conhecido do público-alvo, ainda que atinente ao mesmo. São necessárias referências a elementos de credibilidade ligados diretamente à produção dos derivados de leite, bem como aos seus benefícios.

No segundo exemplo, vamos ver a rota central atuando através de imagens:


Neste caso, os elementos textuais são praticamente inexistentes. A grande vedete é a imagem, que produz efeito pela rota central porque apresenta diretamente o produto. Não há elementos (com exceção do pequeno texto) que busquem o convencimento além do que as forminhas são de fato. A visualização dos artigos na matéria, pensa-se, deve ser suficiente para seduzir a escolha do adquirente, seja pela sua beleza, seja pela sua praticidade.

No terceiro exemplo, vamos ver a combinação dos elementos textuais e imagéticos, ainda voltados para a rota central:


Aqui, temos a apresentação dos produtos e alguns argumentos por escrito, enriquecendo a função de transmitir uma mensagem ao consumidor. Dada a dificuldade de passar impressões de sabor eficientemente através de imagens, como no caso anterior, a propaganda lança mão de argumentos racionais por escrito, sem, no entanto, utilizá-los em profusão como ocorreu no primeiro exemplo. Afinal de contas, é mais conhecido o sabor de um chocolate do que as benesses dos laticínios búlgaros, havemos de convir.

No próximo exemplo, vamos perceber como já se começa a introduzir elementos que atingem a rota periférica:


Todo mundo sabe o que é farinha e o que pode ser feito com ela. Então, é introduzido um texto que mais se assemelha a um slogan do que a um encaminhador de escolha racional. A imagem dos acepipes faz disparar a salivação, ou seja, tenta produzir um desejo com as derivações da farinha, e a moça bela-recatada-e-do-lar ostentando a palavra chave faz-nos pensar em alta qualidade e mãos hábeis para manufaturar as guloseimas. Tudo isso age menos no raciocínio, e mais no campo dos desejos.

Para os próximos exemplos, cacei algumas caixas de sapatos, peça que nem sempre é explorada como artigo de publicidade, dada as vantagens de sua padronização. Mas há empresas que as aproveitam, e que nos ajudam a chegar a algumas conclusões.

No primeiro caso, teremos uma conhecida figura da televisão brasileira, a apresentadora Fátima Bernardes:


A sua fotografia impressa na caixa tem o propósito de doar credibilidade ao produto, baseada na sua própria. Afinal, uma mulher que tem a imagem vinculada à elegância, à seriedade e à sobriedade não usaria um calçado sem os mesmos atributos, correto? Não, não é. Talvez ela goste do mais ordinário dos chinelos, ou até mesmo aprecie andar descalça, mas, no caso, o que vale é sua imagem pública, que se busca transferir para o produto. Outra coisa: o sapato nem mesmo é apresentado – toda a publicidade está amarrada na imagem da apresentadora. Essa é uma das maneiras de se utilizar a rota periférica, que prepondera nesta ação.

No próximo passo, teremos uma mescla um pouco maior. Vamos ver:


Temos aqui uma ênfase no conforto. A mocinha não é conhecida (pelo menos eu não a conheço), e sua atitude e vestimentas versam menos sobre a sensualidade e mais sobre a leveza proporcionada pelo calçado, mas que é apoiada pelos seus trajes e pela ação relaxante de curtir uma musiquinha. A ênfase visual, portanto, está menos no calçado em si, que é um pequeno e pouco visível elemento na propaganda, e mais na sensação que a imagem produz. Temos uma ênfase na rota periférica, sem, no entanto, abandonar de todo a rota central.

No último caso dos calçados, veremos um uso muito mais do elemento central de persuasão:


Aqui, temos o produto calçado exposto com plena ênfase. São exibidas várias amostras de sua variedade, que servem como sugestão para futuras aquisições. Não há praticamente nenhum meio-termo: aqui estão os calçados, para a cliente avaliar se gosta ou não. Um único elemento persuasivo fora do racional – mas não totalmente – é a indução ligada à chegada do verão.

Por fim, tentarei demonstrar, através de dois exemplos fictícios, como uma mesma mensagem pode atingir a rota central ou a rota periférica, dependendo de como são dispostos na peça publicitária. Vamos utilizar o mesmo elemento: uma maçã (extraída de www.guiasaudero.com.br).

No primeiro caso, vamos dar um nome hipotético para um suporto comércio de maçãs:


Aqui, estamos utilizando um elemento direto e essencial à comercialização de maçãs: a própria maçã. Evidentemente, é uma maçã perfeita, muito vermelha e lustrosa. Uma fruta apetitosa, que, mesmo atiçando as sensações, a faz pelo que ela mesmo é, pelas suas características próprias. A razão social faz remissão à Eva bíblica como a pretensa primeira pessoa que comeu uma maçã na história da humanidade (muito embora o texto bíblico não explicite qual seria o fruto consumido). Rota central na cabeça.

Vamos para o segundo exemplo, somente mudando o nome da firma:


Agora, temos outra rota. Não esperamos ir a um motel para comer uma maçã saborosa (a não ser que haja algum tipo de tara relacionado às rosáceas), mas a cometer certas estripulias. A remissão a Eva muda: temos aqui a primeira pecadora, e não a primeira consumidora de maçãs. Sabemos que o primeiro pecado está relacionadíssimo à sexualidade, e esta é tudo o que se exerce dentro de um motel. A relação entre o nome e o símbolo dão uma escapada do racional, e se encaminha para o lado da sensação – o de que o ato reputado por pecaminoso tem todo o seu aporte ligado ao prazer, metaforicamente ligado à doçura da maçã e à lascívia da Eva, a mulher que põe seu homem a perder*. Perceba-se como o significado migrou do concreto para o simbólico. Rota periférica, obviamente.

---

Formar, reforçar e modificar convicções e argumentos... Algo a ver com o Pequeno Guia das Grandes Falácias? Tudo a ver! Desde o tempo dos sofistas, trabalha-se a persuasão para se obter vantagem nos debates, sem a necessidade de se ter a verdade ou a lógica como baliza do que se afirma. É suficiente que o convencimento reste atingido, seja por bem construída tese, seja por blá-blá-blá. No tema exposto aqui, podemos inferir que a persuasão é usina de confecção de falácias, principalmente quando suas premissas, sejam lógicas ou não, conseguem atingir um número muito grande de pessoas. É com base nisso que nasce a falácia do apelo à popularidade, ou argumentum ad populum. É uma falácia de dispersão e relevância, onde o gosto popular sobre determinado assunto lhe dá estatuto de verdade.

A questão é que, por todo exposto acima, ver muitas pessoas persuadidas dá a sensação de acerto em uma determinada posição, e tendemos ao conforto de nos alinhar a ela. É com isso que trabalham os candidatos aos cargos eletivos, e é por isso que as pesquisas de opinião pública são apresentadas ou omitidas de acordo com sua conveniência. Os candidatos que as lideram usam-nas como se dissessem: as pessoas nos aprovam; somos, portanto, os melhores. Já os candidatos em curva ascendente de popularidade gostam de afirmar coisas como “crescemos nas pesquisas, portanto nossos adversários são piores”. Ambas as colocações não são verdadeiras por si só. As pessoas dirigem seus votos por persuasão, e, muitas vezes, isso se dá no campo minado da emoção. Quando os candidatos fazem aqueles discursinhos de defesa da família, da moral, dos bons costumes, estão percorrendo a rota periférica, porque sabem que isso afeta muita gente sem ser preciso oferecer grandes explicações. Mesmo quando a escolha é racional, muitas vezes esta se dá não pelo melhor, mas pelo menos pior.

E ad popolum não falacioso, existe? Sim, é claro. Segue-se a regra geral dos apelos – para que não haja falácia, é preciso que uma premissa seja relevante para o argumento, e que não seja apenas uma tentativa de desviar do foco. Por exemplo: se afirmarmos que seria interessante convocar um figurão conhecido do Youtube para promover um simpósio porque ele arregimentaria muita gente, não haveria nenhum erro de argumento, por mais calculista que seja esse pensamento. Falacioso seria dizer que a qualidade do tal simpósio estaria assegurada pela mera presença do blockbuster, capice?

Finalmente: o argumento da popularidade é muito semelhante ao apelo à maioria e ao refletor (mencionado no meu texto sobre heurística), sendo os três praticamente subsidiários entre si. Mas há diferenças sutis entre as três peraltices. Logo, logo vou falar sobre o segundo. Aguardem.

Recomendação de leitura:

Infelizmente em inglês, o livro abaixo é a síntese das teorias de rotas de Petty e Cacioppo, muito importantes para a psicologia e para a publicidade.

CACIOPPO, John; PETTY, Richard. The Elaboration Likelihood Model of Pesuasion in Advances in Experimental Social Psychology. Academic Press, 1986. Vol. 19.

* A quantidade de misoginia existente nos mitos de criação e na própria história da humanidade é algo sobejamente descrito. O uso de Eva neste texto tem caráter meramente ilustrativo.