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quarta-feira, 18 de julho de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (15 – Filosofia da Educação)

Olá!


Estamos nos aproximando mais uma vez das eleições neste desacreditado país, e os velhos mantras vão se repetindo, vazios como sempre. “Educação é a solução para o país”, “não se faz uma nação sem educação”, “educação é prioridade para qualquer programa de governo”, educação, educação, educação... O resultado é aquele que bem conhecemos: muita fala e pouco efeito prático. De fato, como eu já falei neste texto, muito se desperdiça com ideias capengas nesta terra, mas, ao contrário do que consta lá, há nos dias de hoje uma pretensa politização mais na base da falsa dicotomia do que propriamente um debate maduro.

É claro que a discussão descamba facilmente para o lado da ideologia favorita, em ambos os sentidos possíveis para a palavra, de ideário e de alienação. É óbvio que isso limita demais qualquer escopo que se pretenda dar ao assunto. Talvez fosse necessário trazer para a conversa uma visão um pouco mais profunda, levantando questões sobre o ato de ensinar e o ato de aprender, o que os favorece e atrapalha, o quanto tem de coletivo ou de individual. Em suma, é preciso perguntar o que é educação. Essa é a tarefa para a Filosofia da Educação.


Como eu já disse no meu texto sobre a Teoria do Conhecimento, as relações cognitivas são características de nós, bípedes implumes. Os animais não-humanos conhecem? Sim, mas limitados à concretude instintiva que lhes caracteriza. Por esse motivo, dizemos que os homens são racionais, que usam a massinha cinzenta para construir correlações que vão além do real palpável. Só que nossos aportes individuais de conhecimento seriam muito menores se não pudéssemos lançar mão do arcabouço intelectual comunitário, que, em certa medida, não só supera a capacidade de nossos poucos bilhões de neurônios, mas também passa pelo filtro crítico de pessoas e gerações, dando-lhe qualidade (em tese). É para dar e ter acesso a esse patrimônio intelectivo, que está no substrato de toda cultura humana, que nasce a figura da Educação – a transmissão do conhecimento feita de forma intencional, ou, como quereriam os antigos latinos, o ato de “guiar para fora”, tanto de si mesmo quanto do mundo aparente.

Sempre que falamos em Educação, mentalizamos as figuras do professor e da escola, mas o fato é que tal atividade vai muito além disso. Todas as vezes em que procuramos conhecimento estamos realizando um ato de aprendizagem. Isso ocorre quando lemos um livro, assistimos a uma peça, participamos de uma palestra, reunimo-nos com um grupo de pessoas. De todo conhecimento exposto, fazemos avaliações críticas. O que não sabíamos, absorvemos; o que já sabíamos, reforçamos. Se nesse momento existe oposição, refutamos ou ajustamos nosso conhecimento anterior. Resumindo, a exposição ao conhecimento nunca é improdutiva e sempre produz um efeito em nós. Mas isso já nos conduz a dois problemas: 1. Se a Educação é transmissão intencional, ela carrega consigo a ideologia de um dos polos da relação de aprendizagem; 2. Ainda que se aprenda por toda a existência, o fato é que o momento onde a relação cognitiva é mais intensa ocorre na infância, justamente quando o juízo crítico ainda não está bem formado. Vamos tratar destas causas.

Primeiro. Sim, a Educação é ideológica, como é ideológico até seu cafezinho. Acha que não? Pois saiba que o pretinho básico que fumega à sua frente não é erva nativa desta Terra de Santa Cruz. Passamos a ser produtores em escala planetária por conta de uma predisposição em obter produtos primários (commodities, em linguajar tucano) e de terra boa, apta a florescer em quantidade os produtos que serão industrializados em outras partes do planetinha azul, donos de maiores recursos tecnológicos e know-how fabril. Essa é a divisão internacional do trabalho, uma forma de estipular tarefas para cada um dos países de acordo com sua vocação, e isso é ideologia. Portanto, toda relação educativa é carregada de ideologia, e fenômenos como Escola sem Partido são bobagens sem tamanho – representa uma troca de ideologia por outra, no más. Isso posto, resta perguntar por que isso acontece. É que toda Educação tem por propósito melhorar a vida das pessoas, e, ainda que pensemos egoisticamente no aperfeiçoamento individual apenas, o fato é que o aperfeiçoamento de vários e vários indivíduos redunda no aperfeiçoamento social. Por isso, é intrínseco à Educação que ela seja ideológica, que ela tenha um propósito. Como dela redunda muito do que está espelhado no desenho social (o que as pessoas desejam, a consciência do que podem atingir, o modo como enxergam umas às outras), a educação formal fica impregnada da ideologia de plantão, o que não é necessariamente ruim. Em democracias maduras, aliás, é bom, porque a Educação oferecida será baseada no projeto eleito (claro que o Brasil não está nesta lista). Achar que um sistema escolar será neutro é uma ilusão, como de resto é ilusória qualquer possibilidade de neutralidade absoluta em qualquer coisa. O que há é uma neutralidade possível, onde fossem seguidas as lições de Rousseau e de Kant, a saber e respectivamente: que a criança não seja ensinada em conteúdos estanques, mas que aprenda a pensar por si mesma; e que o princípio geral da Educação não seja uma acomodação ao vivenciamento contemporâneo, mas um projeto futuro de mundo melhor. De uma forma ou de outra, a visão é utópica, mas no melhor de seus sentidos – não como algo irrealizável, mas a ser perseguido para se tornar existente.

Segundo. Uma criança tem uma cabeça mais “vazia”, ou seja, menos conteúdos para fazer comparações, e um juízo crítico incipiente. Como um bichinho, opera mentalmente muito na base do concreto, e tende a acreditar mais facilmente naquilo que lhe é ensinado. A criança não sabe muito bem o que fazer com a torrente de informações que recebe, e confunde muito facilmente aquilo que é ensinado com a forma com a qual é ensinada, especialmente com uma questão de satisfação e prazer. Portanto, a educação formal que lhe é aplicada precisa utilizar de técnicas apropriadas para obter melhores resultados, e isso é tarefa da Pedagogia, que será abordada em momento propício. Mas a Educação não se resume a ensino. Na verdade, desde os tempos socráticos e platônicos a Educação tem um propósito axiológico: aperfeiçoar o homem para a virtude. Essa predisposição ética visa afastar o homem do embrutecimento e torna-lo cidadão, ou seja, capaz de viver em sociedade, o que, gregários que somos, é-nos inerente.

Só que o tema é muito complexo. Ensinar virtude depende de se estabelecer o que é ela dentro do meio em que se vive, e há concepções incrivelmente diferentes de um grupo social para outro, de uma época para outra, fazendo com que o alvo a ser atingido educacionalmente se desloque em dois eixos: valores na China são diferentes de valores na Islândia, e virtude era uma coisa na Idade Média e outra em nossos tempos. É nesse último caso que enxergamos as dificuldades dos confrontes entre tradição e progresso: a resistência a mudanças pode dificultar a evolução no relacionamento social, enquanto o avanço nas mudanças pode custar perda de valores. Diante dessa aporia, a pretensão do ato de educar precisa de um norte, e aí damos a volta no círculo da ideologia: o que a nossa sociedade espera? No que aposta nosso sistema político?

Mas vamos retornar à linha reta. As crianças, quando nascem, são um autêntico poço disposto a engolir todo tipo de informação, e o faz em profusão. A princípio, falta-lhe maturidade para saber o que fazer com tudo isso, e comete equívocos típicos desta fase, como meter a mão em tomadas e enfiar tudo na boca. Isso faz parte da aprendizagem, mas Educação em sentido estrito vai além. Ela começa com os rudimentos do “não” dos pais e das festinhas quando elas fazem alguma gracinha, e vão evoluindo cada vez mais, até o ponto em que é superada essa fase sensório-motora, e a criança ganha condições de estabelecer correlações que vão além do instintivo. O aparelho neurológico da criança ganha uma sofisticação que lhe permite associar realidade e símbolo, e os conteúdos de sua memória podem ser cada vez mais traduzidos em linguagem, o que lhe facilitará sobejamente uma otimização no armazenamento e na organização das suas informações internas, bem como a expressão e a interação com o mundo exterior.

Percebam como lentamente o papo filosófico vai se aproximando de uma abordagem psicológica, e não há como fugir disso: a Educação vai se tornar mais e mais científica, baseada na Psicologia, na medida em que aumenta o conhecimento sobre o funcionamento mental humano. É na compreensão destes fenômenos que os processos pedagógicos vão se aperfeiçoando, e a Filosofia da Educação se torna um balizador para onde os estudos psicológicos apontam. É natural que assim seja, já que a cognição se dá a nível mental, ora bolas. Vou pincelar rapidamente sobre as correntes psicológicas que nasceram para descrever o funcionamento da psique, que, uma vez construídas para compreender como se absorve informação do mundo e o que nos faz procurar pelas mesmas, redundaram em orientação educacional, mesmo que indiretamente, e oportunamente detalharei melhor cada uma delas quando me der na telha.

Vamos lá. A Filosofia da Educação parte do pressuposto de que a pergunta sobre a possibilidade do conhecimento, tão cara à Gnosiologia, está positivamente respondida. Sim, é possível conhecer, é o que se pressupõe no ato educativo. Afinal de contas, de nada adiantaria se dar ao trabalho de transmitir saberes se nada poderá ser feito com eles, o que também se presta a responder à Epistemologia sobre o valor do conhecimento, entendemos que é proveitoso transmitir aquilo que apreciamos como verdadeiro. Mas há métodos que parecem mais eficientes que outros, e há pessoas que parecem se dar melhor que outras com cada um deles. A resposta está lá onde as informações trafegam – na cabeça do contribuinte. Há diferentes aptidões, assim como há diferentes modalidades de inteligência. Pelé não é chamado de gênio porque elaborou grandes teorias cosmológicas ou compôs sonatas inebriantes. Pelé foi um gênio do uso do corpo e da interpretação dos espaços, do movimento que se executa neles. É o tipo de inteligência que se chama de corporal-cinestésica, tão necessária a dançarinos, mímicos e esportistas. Essa categoria de conhecimento não se desenvolve da mesma forma que em indivíduos inteligentes em lógica e matemática, ou em linguística, e isso explica em parte porque é difícil ser unívoco nesta questão. Entretanto, há teses.

O Behaviorismo, corrente cujos maiores expoentes são Thorndike, Watson e Skinner, busca seu foco na modelação de comportamentos (tradução do termo behavior, em inglês). Com vistas às experiências do russo Pavlov, que conseguiu condicionar o comportamento de cães através de um mecanismo de estímulo*, os behavioristas começaram a pensar o aprendizado em termos de estímulo e resposta, ou seja, certos atos seriam condicionadores, que estimulariam uma absorção do indivíduo. Esses estímulos são chamados de reforços e podem ser positivos ou negativos, funcionando na base do prêmio ou castigo. Em suma, eu faço determinada coisa porque quero obter recompensa ou evitar sofrimento.

No entanto, o reforço negativo, quando aplicado sob o prisma educacional, tem efeitos que não se encaixam na lógica estímulo-resposta. Basta que se perceba como se comportam os alunos na presença e na ausência do professor que os ameaça de castigo – basta o docente estar fora da sala para termos um pandemônio. O comportamento adequado, nestas circunstâncias, é contingencial, e o ambiente entediante/aterrorizante, antes de promover, refrata o aprendizado. Esse é o problema do método tradicional, baseado na exposição de conteúdos e na memorização forçada: ao aluno, é oferecido em belo zero no fracasso, ou seja, um reforço negativo que, aplicado de forma contumaz, tira o sentido do aprendizado justamente no polo mais frágil, e daí será moldado o mau aluno. Já o reforço positivo, com o elogio no bom desempenho e a compreensão no mau, esse sim é buscado pelo aluno, que se dedica ao aperfeiçoamento pelo simples motivo de que ele espera que o estímulo se repita, ao contrário da punição.

Outra escola que busca explicar os processos de aprendizagem é a Gestalt de Wertheimer, Köhler e Perls. Nesta corrente, temos a ideia de que a percepção do mundo e da realidade não se faz por peças isoladas, mas por uma visão holística, porque temos a tendência de fazer encaixes em contextos. Neste momento, por exemplo, estou na sala de espera de um hospital, e vejo uma senhora em cadeira de rodas, o que se explica por si só. Se eu a estivesse vendo em outra situação, poderia estar diante de um grande estranhamento. Pensemos que ela está na plataforma de uma corda bamba. O que temos aqui? Uma situação de dissonância com o que é esperado, que me põe em situação de desequilíbrio cognitivo. Segundo a Gestalt (que, em alemão, significa algo como estrutura), essa é a necessidade da visão integrada: fornecer elementos para explicar os fenômenos. A senhora na cadeira de rodas nada significa isoladamente. Ela vai ganhar sentido na medida em que se relacione com o ambiente que a cerca, formando uma estrutura cognitiva. Mas é só a situação de desequilíbrio que me afeta a buscar o conhecimento – não me move tanto a curiosidade hospitalar quanto a circense. Da primeira, eu já tenho informações suficientes; é da segunda que brota algo a ser conhecido. Será um desafio? Um delírio de minha parte? Uma ilusão de ótica? Esse é o ponto de aplicação da Gestalt na educação: na problematização. Todas as vezes que deslocamos um objeto do seu eixo comum, estamos fazendo com que ele escape de sua trivialidade, e, com isso, aprendemos sobre ele. É por isso que as perguntas dos professores às vezes parecem desafiadoras. É fora da zona de conforto que o aprendizado acontece, e isso acontece mesmo quando perguntamos coisas que parecem óbvias.

Mais um conjunto de subsídios à educação é dado pelo Humanismo de Rogers, Fromm e Maslow. Aqui, temos uma modificação de polo na relação educativa, e o aluno sai de sua habitual posição passiva para ser reconhecido como partícipe do processo de aprendizagem. Segundo Rogers, o aluno aprende com mais facilidade quando pode atuar no processo e quando o escolhe espontaneamente. Em outras palavras, o aluno tem mais condições de aprender sobre um determinado assunto se puder presenciá-lo e se, melhor ainda, puder interagir com ele. É por isso que as aulas em laboratório costumam ser tão eficientes. Nelas, o aluno não só ouve um professor falar, mas manipula elementos e instrumentos, e obtém resultados que lhe são tangíveis. Com relação à espontaneidade, não se trata de uma mera escolha do aluno, mas um respeito à sua individualidade, incluindo aí seu tempo de resposta ao aprendizado. Rogers entende que todos os lados da relação de aprendizagem devem se despir de papeis. O professor precisa se apresentar como ele é, e não adotar em classe uma conduta que divirja com o que ele faz em casa, e isso para que o aluno faça o mesmo. Diante de indivíduos, e não de alunos, o professor não deve ser um expositor de conteúdos, mas um facilitador do aprendizado. Ele deve observar os anseios de sua classe e buscar meios para realizar a experiência educativa. A grande pergunta que esta abordagem nos causa é: como estabelecer um currículo mínimo se o ensino estará condicionado aos anseios do aluno? Eu, por exemplo, penso que não quereria olhar para a cara de um logaritmo nunca. Os humanistas acreditam de forma mais otimista no indivíduo do que as demais abordagens. É certo que o indivíduo responde por si mesmo, mas o meio em que ele vive é, por si só, desafiador. A busca pelo aperfeiçoamento é algo inerente ao pacote psíquico dos seres humanos, e o indivíduo procurará saber o que o grupo como um todo sabe. Desta forma, a equalização dos conteúdos se dará naturalmente, sem que seja necessário forçar um currículo estabelecido.

Mais uma abordagem é a psicanalítica, de Freud, Jung e Lacan, entre outros. Para estes pesquisadores, a psique é composta de três partes, como já descrito neste texto. No caso, a parte inconsciente que é moldada pelo mundo exterior é o superego, um conjunto de predisposições morais que refreiam as peripécias instintivas do id. O primeiro canal a operar na modelagem do superego são os pais, que ensinam premissas básicas de certo e errado. Evidentemente, o que há de mais impactante são as recusas, as contraposições, os nãos. E isso é o que desenha o superego para que o mesmo consiga reter a impulsividade do id. É um processo absolutamente natural e desejável, do contrário seríamos puro impulso, como acontece com os demais animais. Entretanto, algumas das impressões gravadas no superego são mais profundas do que o normal, gerando uma neurose, um tipo de anormalidade psíquica que é contornável racionalmente. Imagine que, por exemplo, uma fobia qualquer é desenvolvida em uma criança: por excesso de cuidados, com barreiras para varandas e redes para janelas, que, aliás, são mantidas fechadas independentemente da temperatura, além de uma persecução e repressão desproporcional em qualquer aproximação, uma criança desenvolva uma neurose fóbica. Mais tarde, já jovem, ela se vê à frente de uma ponte estreita. Racionalmente, não há nenhum perigo real, já que a ponte é firme e possui anteparos que torna quase impossível acidentes. Mesmo assim, a pessoa terá dificuldade em executar o atravessamento da ponte, e não o fará sem suores e tremedeiras. Algumas dessas neuroses não são voltadas para o ambiente, mas para pessoas, e é passível de ocorrer um processo de transferência, ou seja, as aflições infantis são transferidas dos pais para outras pessoas (numa relação educativa, para o professor). Se há um grande medo da brutalidade do pai, digamos, o processo de transferência fará o mesmo com relação ao professor, ainda que isso não fique evidente. Isso será explicitado na criança arredia, que parece ter um medo injustificado no trato com seus mestres. Neste processo de transferência, o aluno atribui um espécie de “poder” ao seu professor, que terá em mãos uma ferramenta para influenciá-lo: o aluno deposita nele uma importância semelhante que dá aos pais, inconscientemente. O tal poder, portanto, não está no professor em si, mas na imagem que o processo de transferência do aluno fez dele. Isso é mais um cuidado a ser tomado do que um uso a ser feito pelos docentes.

Como eu já disse, todas essas escolas da psicologia não nasceram para se voltar à Educação, mas como tratam do ato cognitivo mais ou menos diretamente, acabam por influenciar o moderno pensamento educacional. Há psicólogos célebres que trataram diretamente da Educação, como Piaget, Vigostky, Bandura e Dewey, que prefiro tratar com mais calma, mas há sempre o pano de fundo dado pela Filosofia para que se traduza não apenas o que o cérebro pode fazer, mas o que se tem como objetivo o que ele faça. Afinal, a Psicologia nos diz como; quem vai dizer porque e para que é a corujinha de Minerva.

Recomendações de leitura:

Mencionei estes dois filósofos mais acima. O Emílio de Rousseau é uma obra-prima do Iluminismo, que demonstra um respeito inédito pela figura da criança como ser humano já pleno em sua condição, e não como um projeto de adulto. É um clássico da Filosofia da Educação e da Pedagogia.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou da Educação. São Paulo: Difel, 1979.

Já Kant tem a Educação como ferramenta para aperfeiçoamento da humanidade. É a materialização da ideia iluminista de uma sociedade erigida sobre bases que não sejam meras relações de poder, mas de conhecimento.

KANT, Immanuel. Sobre a Pedagogia. Piracicaba: Unimep, 1996.

* O experimento de Ivan Pavlov é simples. Ele tocava uma campainha todas as vezes que ia alimentar um cão. Após algum tempo de condicionamento, o cão começava a salivar tão logo ouvisse o som da campainha, ainda que não visse ou farejasse o alimento.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (14 – Filosofia da Religião)

Olá!


Ontem à noite acabou a luz. Foi uma piscada rápida, coisa de cinco minutos, no máximo. Como sempre, alguns transtornos: vamos acertar o relógio do micro-ondas, encher a cuba do filtro do aquário (defeito velho que nunca lembro de arrumar) e escrever boa parte deste texto novamente, por que só Cristo salva. Apesar da exiguidade deste lapso, deu tempo de recordar dos tempos de infância, quando os longos períodos em que faltava luz me obrigavam a estudar sob a luz de velas. Alguns períodos eram realmente longos, como quando trocaram os postes de madeira da rua por artefatos de concreto. Deve ter levado uns dois dias para a completa empreita. De uma forma ou de outra, a luz voltava e, com ela, a normalidade. Pior era com os meus parentes do Paraná. Eles moravam em uma cidade a meio caminho entre Maringá e Umuarama, e energia elétrica era artigo de luxo. Não que fossem ricos ou pobres, era uma questão de cabeamento – simplesmente não existia. Final de campeonato era coisa para se ver no boteco que funcionava à guisa de rodoviária ou acompanhar pelo radinho de pilha mesmo. Desta forma, todas as vezes que viajávamos para lá a atração turística era a noite: o lampião de querosene com seu cheiro forte, competindo com o café coado na “calcinha da velha” e nada mais, além do papo no alpendre da casa toda de madeira. Era legal por quatro ou cinco dias, mas o costume urbano logo começava a cobrar seu preço.

A dependência da tecnologia me faz imaginar o que deve ter sido o surgimento de objetos como a lâmpada elétrica, ou o maravilhamento que foi ouvir a voz de um parente a milhas e milhas através de um telefone, ou a comoção de se andar em uma carroça sem cavalos. A base da tecnologia, a Ciência, tem a credibilidade dos grandes feitos e explica o mundo sem a necessidade de misticismos. São átomos, ondas, gravitações e magnetismos, substituindo os antigos humores de divindades e energias de entidades esotéricas, tudo bem sintetizado em fórmulas químicas e expressões matemáticas. No entanto, apesar de carregarem em seus bolsos celulares que contêm milhões de informações e funcionalidades, as pessoas continuam riscando a cara com sinais-da-cruz. Jogadores que têm carros com mais tecnologia embarcada do que um foguete do início da era espacial ajoelham e erguem os braços ao céu a cada gol marcado, agradecendo a Deus pelo sucesso, e não ao técnico, ao fisiologista, ao médico. Órgãos transplantados e marca-passos instalados não são suficientes para que o fiel deixe de consultar sua sina, seus búzios, suas runas com mais confiança que seu colesterol e triglicérides. Em um mundo cercado de ciência por todos os lados, ainda há uma maioria da população que crê no que não vê, no que não se prova, apenas se pressente ou intui. O que explica o fenômeno religioso? Essa é a tarefa da Filosofia da Religião.


Assim como fiz com Estética e Filosofia da Arte, é preciso estabelecer algumas distinções logo de cara, para evitar confusões. No caso, Filosofia da Religião é distinta da Teologia, porque esta última já pressupõe uma divindade e lança seu foco sobre ela, enquanto a primeira prescinde até mesmo de se crer na existência de alguma delas, já que seu olhar se volta para as estruturas humanas que permitem a existência e o desenvolvimento das religiões, independentemente da posição do filósofo. Em resumo, a Filosofia da Religião tem um propósito laico, onde é indiferente a existência de um deus, mas do fenômeno religioso em si. Ok?

A primeira coisa a pensar é a seguinte: por uma questão evolutiva, a humanidade possui o máximo interesse em saber o autor dos fenômenos que ocorrem no planetinha e fora dele. Vejam se não faz todo o sentido biológico: você e um camarada pré-histórico estão cochilando após o almoço embaixo de uma mangueira primitiva. Um ruído se ouve a alguns metros e o companheiro se assusta, se levanta e fica ligado, enquanto você permanece na modorra. Quando percebe a fera vindo, pega o beco e deixa você virar petisco. Muy amigo! Mas veja como foi vantajoso para ele ser curioso. E a coisa, atavicamente, funciona até hoje. Puxe pela memória e você lembrará de alguma panela que caiu do armário. Seu cônjuge, que não a guardou, achará que foi displicência sua; você, que o fez com tanto cuidado, pensará ser uma molecagem do saci. No final das contas, tentou-se achar um culpado, um agente, uma causa, assim como se achou a onça ancestral no triste episódio dos dois amigos.

Da mesma forma que a mecânica da causação dá lógica a meros fenômenos gravitacionais, como a queda da panela, também se busca uma causa para toda e qualquer ocorrência que se passe ao nosso redor. Acontece que hoje em dia temos conhecimento científico bem consolidado, mas a sua ausência não nos tira a necessidade ascendente de ter explicações para tudo. Nada há de mais doloroso do que um buraco no conhecimento, e, para supri-lo, buscamos justificativas fora de nosso mundo imanente (num processo que origina o Deus das Lacunas). Esse é um dos nascedouros da Religião.

Para que se explique a necessidade da Religião, é preciso fazer algum esforço retrospectivo do que seria a humanidade em seus primórdios, coisa que já fiz neste, neste e neste textos, mas que, para o bem da clareza, retomo por aqui brevemente. Se levarmos em conta que os sentidos são a porta de entrada daquilo que conhecemos, fica estranho achar que há algo do “lado de fora”, invisível e imperceptível. Mas o homem não custou muito a perceber que as coisas não aconteciam ao léu, como se fosse um mero rolar de dados, e que seus sentidos não conseguiam alcançar tudo. Os fenômenos se repetiam, uns em período curto de tempo, outros a médio prazo, outros ainda em grandes intervalos. Essa percepção da uma natureza cíclica da realidade tirou do homem recém constituído a noção de que tudo acontecia por si só. Parecia existir algum tipo de inteligência que lhe fugia dos olhos, mas que se manifestava na perfeição do relógio celeste e, mais ainda, quando algo estava fora do lugar. Da mesma forma que as coisas fogem da normalidade quando estamos tristes, raivosos ou eufóricos, também a natureza se revela tempestuosa em certos momentos. Isso seria a prova de que não só haveria uma inteligência a reger os ciclos universais, mas que essa mesma entidade estava sujeita a temperamentos.

A primeira impressão foi a de divinizar os próprios fenômenos. O Sol, os trovões, as águas, todos eles seriam em si mesmos divindades, que carregariam uma vontade autônoma. Muitos dos mitos de origem indígena, por exemplo, nascem deste raciocínio geral. É o chamado animismo, que dota de espírito seres que, em tese, seriam dele desprovidos. É uma mecânica que explica bem os desvios do ciclo, mas que dava alguma dificuldade para responder porque a ordem geral era constituída da forma que é.

Nasce então a percepção de que há uma dimensão transcendente do mundo, ou seja, há algo fora das coisas que se põe a regê-las, e é nesse momento em que ocorre o destacamento da divindade do elemento respectivo e se dá a sua personificação. Os deuses agora são semelhantes a pessoas. No entanto, possuem atributos exacerbados: imortalidade, influência direta no elemento do qual é regente, força e resistência multiplicadas. Os deuses são vários e, por vezes, competem entre si, assim como a água e o fogo se contrabalanceiam. Esse é o politeísmo.

Na medida em que se percebe que os mecanismos universais são todos interligados, cresce a noção de que divindades isoladas, e até mesmo adversárias, não eram suficientes para fechar o sentido universal. Para solucionar o problema, a princípio é deslocado um dos deuses do panteão para o alto da hierarquia, de forma que esse Deus era o centro harmônico de princípios conflitantes. Por outro lado, a regularidade dos ciclos universais e o caminho de retorno à normalidade que sucede os cataclismas dão a ideia holística de uma regência unificada. Por um lado, temos a ideia de que essa divindade reinante do politeísmo é ubíqua, já que se pode perceber ciclos por toda a parte; sua presença também se encontra assim espraiada. Se é onipresente, também sua consciência e sua capacidade de agir são universais. Dessa forma, atributos que eram departamentalizados em várias deidades ficavam concentrados em uma só, e temos o monoteísmo. Por outro lado, nasce a noção de que a universalidade se dá não porque há um Deus que impera sobre o cosmos, mas porque o permeia. Deus está em toda parte não porque tenha visão ampla, sapiência universal e ademanes, mas porque ele é a própria substância de tudo o que existe. Ele está em toda parte porque tudo é feito dele e tudo é ele. Esse é o panteísmo.

Bom. Explicar cada uma dessas divindades é tarefa da Teologia, como eu já disse. Ocorre que todas essas explicações eram boas e valiosas enquanto o aporte de conhecimento da humanidade era pobre e limitado. Mas a ascensão da Ciência e a evolução tecnológica trouxe informações muito mais sólidas sobre o funcionamento cósmico, que dispensa a divindade em muitos aspectos, e ainda tem as vantagens das previsibilidades e da construção de hipóteses mais bem fundamentadas. Hoje podemos pensar em teorias que seriam incompreensíveis a algum tempo atrás, como o multiverso, a teoria das cordas e os buracos de minhoca, que não brotam da intuição de um sacerdote, mas de outras teorias que se desenvolveram e se consolidaram com base em observação e experimento. Ou seja, por menos que se queira, a Ciência apresenta dados, informações, relatórios, descrições, imagens, gráficos, equações e fórmulas, enquanto a Religião apresenta, no máximo, um livro e testemunhos. No entanto, ao contrário do que esperaria a lógica, o fenômeno religioso persiste. E sabem por que? Porque também ele faz sentido, mesmo que não se concorde com ele.

Vejam bem. Se olharmos para o interior do homem, veremos que existe uma perturbação psicológica permanente: a consciência de finitude. Bem arrazoado, por ser um destino inevitável, não deveria ser algo tão aterrorizante. Mas é que temos o diabo de um instinto de sobrevivência que fica nos prendendo a esta casinha. Um olhar meramente científico sobre a questão só aumenta a angústia: morreu, punto e finito. Mas a observação cíclica da natureza, que deu origem ao pensamento de que há algo “fora”, que governa o funcionamento do cosmos, também oferece a ideia de que nossas próprias vidas são cíclicas, contínuas e talvez infinitas. O ciclo se encerra para reiniciar com outra vida, seja um renascimento nesta mesma dimensão, seja em outro plano, no mais das vezes de acordo com os méritos pessoais. Esse pensamento é um consolo sem preço para a angústia da vida que se aproxima diariamente da morte, o salto no abismo schopenhaueriano. Por mais que subverta evidências, justifica-se que seja tão atraente, até porque não se aplica somente à morte, mas a outras circunstâncias menos dramáticas. Todos nós já nos sentimos em situação de desamparo perante o risco, como me sinto quando cruzo a Sé à noite, por exemplo. Claro que evito os desvãos do metrô e o miolo da praça, ladeando o permanentemente vigiado frontão do Palácio da Justiça, mas, se eu tivesse alguém que olhasse por mim por todo o tempo, sentir-me-ia muito mais seguro.

Mas por que optar por religiões que me ditam regras sobre cada passo que sigo? O que faço, o que deixo de fazer, o que como, o que bebo, o que visto e como trepo? Neste caso, é importante tentar entender como as religiões se institucionalizam. Da mesma forma que a arte, há uma simbiose entre religião e cultura onde uma espelha a outra. No entanto, essa relação é muito mais conflituosa, porque a dinâmica de ambas tem velocidades diferentes. As religiões são barcas que giram muito lentamente, sempre movidas por transformações na sociedade que lhe são antecipadas. É natural que assim seja, porque as religiões possuem corpos de regramentos que lhe caracterizam. É por isso que elas são conservadoras – seus séquitos se formaram pelo que as igrejas são apresentadas, e modificações de ritos não são como trocar o macarrão pela feijoada no almoço de domingo. As doutrinas e dogmas são pouco mutáveis por conta disso: apresentam uma forma de conhecimento pronto, onde pouco há para ser moldado pela razão e muito pela fé – instâncias inversas às das ciências. Esta última, sim, muda a toda hora. O ovo é uma pobre vítima dela. Ora é bom, ora é ruim, já não podem ser crus, já não devem ser fritos. Nos meus quase cinquenta anos de vida, ouvi de tudo sobre eles. De salvar a interromper vidas, minha pobre cabecinha hemicentenária não sabe bem o que fazer com o nobre produto galináceo. Uma religião não pode funcionar assim, ela apresenta uma verdade que redunda em regras sobre certo e errado. Se eu seguisse uma religião que proíbe o consumo de ovos, saberia muito bem o que fazer. Entenderam?

E como uma religião se homologa como elemento cultural? Fazendo remissão ainda aos conjuntos de regras próprios de cada uma delas, percebemos que há uma questão de sacralização que representa uma modificação no propósito original de um lugar, de um objeto ou de uma atitude. De fato, há casos extremos, como o da cruz, que, pensando laicamente, é um instrumento de tortura, mas que é sagrado para o Cristianismo. Explica-se: na teologia cristã, a cruz foi o lugar onde Jesus padeceu para extirpar os pecados humanos. Sem fazer juízo de valor, o fato de que haja um meio pelo qual a pena eterna do inferno passe a ser evitada tira a cruz de sua função original, e a vemos transitando por pescoços e adornando altares como sinal sagrado, apartado de seu uso e sentido original.

Mas o processo de sacralização não é exclusivo do uso religioso e é aplicado até mesmo por ateus, segundo nos ensina o filósofo romeno Mircea Eliade. O objeto ou o local sagrado sempre brota de uma anterioridade profana, ou seja, de coisas que não se relacionam a uma divindade. A sacralização ocorre quando um objeto é separado dos demais e colocado em lugar especial, por lhe ser atribuído um significado simbólico que o destaca dos demais. Um processo de sacralização laico comum de se ver é um diploma pendurado na parede, um livro de cabeceira (que não precisa ser religioso) ou um troféu do seu time de futsal. Vou dar exemplos pessoais aqui.

Nos meus anos de juventude, eu tocava em uma banda de hard rock. Eu trabalhava, é bem verdade, mas tinha que ajudar no orçamento doméstico e pagar minha própria escola, o que impossibilitava grandes investimentos na carreira. Como nosso grande barato eram músicas autorais, vivíamos à caça de festivais para mostrar nosso trabalho. Acabamos emplacando um, do Colégio Anchieta, levando as estatuetas de melhor banda e melhor música, Centro da Cidade, um libelo de lamentação quanto à desnaturação do espaço urbano, onde eu dizia que “não me importa mais saber/só me resta esquecer/que ainda cai a tarde/no centro da cidade”. Os pequenos troféus não têm qualquer conotação religiosa, mas estão devidamente sacralizados, expostos na estante de livros que fica logo na entrada do meu apê, à vista de todo mundo que adentrar. A menorzinha é ainda mais sagrada, porque é de uma composição minha que brotou o prêmio, enquanto a outra é do grupo todo.

Ao lado das estatuetas clássicas com Nice, a deusa grega das vitórias, há dois pequenos troféus, na estranha forma de lápides. Também representam glórias caseiras, e simbolizam o bicampeonato da minha filha no concurso de redação da escolinha em que ela estudava. Ela sempre gostou de escrever e falar de historinhas, mas ela mesma não punha fé alguma em levar um dos prêmios, e o fez mais por obrigação do que por vontade. Ela reclama um bocado do formato da láurea, mas também a tem em local especial.

O outro caso se deu com meu filho mais velho. Em 99, quando ele tinha apenas sete anos, o Corinthians foi campeão paulista. Acho que foi o primeiro título que ele acompanhou de verdade. Minha mãe, à época, conhecia um conselheiro do clube, que a convidou para a festa. Lá, ela comentou sobre o neto, o quanto ele pulou e gritou. O tal conselheiro, uma pessoa de certa fama, tirou a faixa de campeão que lhe ornava de transverso e a deu à minha mãe, para entregá-la ao neto. “Que seja a primeira de muitas”, disse ele. E realmente foi. Após essa data, o Timão ganhou de tudo. Mundiais, Libertadores, Brasileirões, Copas do Brasil, Rio-São Paulo e outros tantos estaduais. Não pareceria que o estadual de 99 receberia um lugar especial, individual, apartado dentre tantas conquistas mais significativas, mas a faixa está lá, encerrada em uma moldura, na parede do quarto de dormir, devidamente sacralizado.

O que Eliade nos ensina é que a sacralidade, independentemente de uma religião institucionalizada, é inerente à espécie humana. A noção de sagrado vai acima da que a Religião lhe atribui. Em qualquer cultura, seja qual for o nível de religiosidade que a mesma possua, há um elemento derivado da consciência de seus indivíduos que realiza essa distinção entre o sagrado e o profano, como se naturalmente distinguíssemos as coisas que devem ser separadas das demais. O objeto sacralizado recebe atributos tão dignos de nota que seu movimento inverso, o da profanação, ganha um aspecto altamente negativo. É uma qualidade que se perde, e uma qualidade vital, porque distintiva. É jogar algo que se tinha em alta conta na vala comum. Profanar um cadáver, por exemplo, nem deveria ter esse nome, mas como a maioria das culturas veem o corpo como algo sagrado, que já foi capaz de reter uma alma que o habitou, acabam por outorgar a esse ato um estatuto que suplanta a mera intervenção sobre um cadáver.

A supressão da angústia e a noção de sacralidade são sentidos naturais para a religiosidade, ainda que a Religião em si seja obrigatoriamente cultural. Ainda há outros aspectos que são observados pela Filosofia da Religião, como a sensação de pertença a uma unidade universal ou ao sentimento oceânico freudiano, mas, nestes casos, vou pedir para vocês lerem os textos dos links, porque este já está ficando muito longo. Bons ventos a todos.

Recomendação de leitura:

Não há como não recomendar a obra de Mircea Eliade, que faz observações muito sensatas com relação à estrutura das religiões. Recomendo o livro abaixo, que certamente voltarei a recomendar por aqui.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. A Essência das Religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (13 – Filosofia da Arte)

Olá!


Na época em que estava no fim do ginasial*, era hábito entre os filhos de peão, como eu, procurar os cursos técnicos integrados, para estudar à noite e já se destinar a um emprego. Para ingressar em uma delas, era preciso fazer um vestibulinho, sendo que algumas das vagas eram tão concorridas quanto aquelas dos vestibulares de “gente grande”. A maioria era oferecida pelo governo, como a Federal e as ETE’s, mas também havia acesso gratuito provido pela iniciativa privada, como as bolsas oferecidas pela excelência no concurso, por empresas como a Antárctica e seu prestigiado curso de Química, o SENAI, e o Liceu de Artes e Ofícios. Deste último, muito antigo, veio-me uma curiosidade. Sua grade falava em Edificações, Mecânica de Motores, Eletrotécnica... todos ofícios, na minha jovial concepção, mas nada das tais artes.

Perguntei a quem sabia: meu compadre e seus amigos, já versados nessas coisas de secundarismo. Entre compungidos e sarcásticos, explicaram a mim que, em termos industriais, não havia muita diferença entre artes e ofícios, e que eu, safra nova, ainda aprenderia melhor essas sutilezas. E eles tinham razão. O termo latino ars significa habilidade em produzir artefatos, da mesma forma que a palavra grega techné, e isso não se circunscreve, como se pode notar, unicamente ao campo de objetos desprovidos de utilidade ou destinados ao enlevo. Mas essa designação mais ampla do léxico se perde quando imputamos aspectos estéticos à sua produção, e a Arte passa a ser algo distinto. Ou não? O que é essa tal de Arte? Essa é a pergunta primordial da Filosofia da Arte.


Oportunamente já tratei de estabelecer distinção entre Filosofia da Arte e 
Estética, muito comumente confundidas. É que o objeto de ambas é semelhante, porque se imbricam – de uma forma ou de outra, ambas buscam o conhecimento sensível, além do fato de que a Arte trafega pelo âmbito da Estética mesmo. Mas há distinções que precisam ficar realmente claras.

Talvez pudéssemos ter dificuldades para incluir a Arte como uma fonte de conhecimento. Mas o fato é que arte e cultura são inapartáveis, e isso as tornam ferramentas intercambiáveis para o conhecimento de uma e outra. Não se explica a cultura de um determinado povo sem olhar para a maneira como pratica suas manifestações artísticas, e nem se entende a arte de uma determinada comunidade sem que se entenda seu desenho cultural. A produção artística da Idade Média, por exemplo, era quase toda destinada à Religião. Isso é um indicativo imprescindível de um determinado contexto cultural: por um lado, uma religiosidade espraiada por um meio onde não haviam alternativas nas dificuldades a não ser esperar a piedade divina. Há guerra? Que Deus nos ampare. Há doença? Que Deus nos proteja. Há fome? Que Deus nos sustente. Além disso, é uma prova de que a divindade possui um estatuto tão elevado naquela cultura que é necessário envidar os esforços mais preciosos para se referenciar a ela, e sabemos o quanto a arte medieval é grandiosa, tanto na construção de igrejas quanto em seu adorno. Mais ainda: a arte daquela época demonstra onde residia o poder e o quanto ele era magnificente, com o empenho de recursos quase ilimitados para a produção de pompa e circunstância. Isso denota, de uma só vez, o sentimento de desamparo e submissão, a reverência e a noção das relações de poder, política inclusa.

Isso tudo acontece porque, apesar da noção inicial que temos de Arte como portadora de beleza, o fato é que ela é muito mais do que isso, e, por isso mesmo, independente da mera apreciação estética. A Arte é um duto por onde se propagam e se comunicam ideias, que, naturalmente, não carregam consigo apenas o ideal estético do belo, mas toda sorte de expressões de sentimentos. Muitas vezes os discursos lógicos e bem construídos dos acadêmicos são menos eficazes para expressar costumes e tradições de uma sociedade do que os modos como se constroem as narrativas contidas nas expressões artísticas.

Sabem por que? A arte é uma autêntica ferramenta da liberdade, e é só nesse âmbito que é possível dar vazão total àquilo que se quer e que se pensa. É a síntese do pensamento inalcançável pelas demais pretensões ao conhecimento. Vejam como as Ciências precisam se balizar por provas, por contraprovas, por experimentos bem sucedidos ou fracassados, por anos e anos de observação e por um empirismo quase doentio. É verdade que provê a melhor estrutura possível para se aproximar da realidade, mas é preciso toda uma instrumentalização ao seu redor, que tolhe muito do que nos é cabível pensar. Já a Filosofia possui um grau de liberdade maior, porque sua pauta é a especulação e a lógica, cadarços mais laceados para os sapatos no caminho da criatividade, mas ainda assim cadarços. A Religião, por sua vez, tem uma posição contraditória. É livre para criar seus mitos e configurá-los de modo a explicar o mundo sem provas e até mesmo sem lógica, mas uma vez fechado seu escopo, torna-se inamovível, em um jogo dicotômico de certo ou errado tão exacerbado que toda expressão nova fica do lado de fora (às vezes, no inferno). 

Com a Arte não acontece nada disso. Ela cria, ela imita, ela interpreta, cria a imitação, imita a interpretação, interpreta a criação. Ela representa e dá voz, através de suas técnicas, a todo o espectro do que pensa o artista e sua sociedade, do trivial ao catártico, e do apolíneo ao dionisíaco, sem limites materiais, já que ela é canto, é poesia, é dança, é expressão. Às vezes, expressão em forma pura, como acontece com a música e com a dança, que se valem só da beleza para existir, e não da funcionalidade da arquitetura, da plasticidade da pintura e da escultura, da narrativa da literatura, do teatro e do cinema.

Pois bem. Já chegamos à conclusão de como arte e cultura se imiscuem. Por tabela, isso nos carrega à ideia de que a arte é atividade tipicamente humana, porque ela, para o ser, precisa ser intencional. Meus canários, por exemplo, me acordam todo dia de maneira sincronizada. O mais velho dá o sinal para os demais, como se fosse o regente, e sai de cena. Um deles tem o tal canto-campainha, rapidíssimo e linear, bastante longo e persistente, e outro tem um canto mais costurado, com alternância entre graves e agudos, em um desenho melódico mais complexo. Parece que um faz a base e outro o solo, e é lindíssimo, gerando uma impressão estética muito marcante. Estética, sim; artística, não. Não é arte. É parte da natureza dos bichinhos, que concorrem entre si pelas fêmeas, no viveiro ali do lado, e não pelo julgamento estético que possamos eventualmente fazer. O mesmo se aplica à casa do joão-de-barro, ao balé dos pavões e à performance dos golfinhos. Não buscam uma intenção estética para sua atividade, como faz o homem. Desta forma, a Arte tem um permanente viés antropológico, sempre dizendo alguma coisa, em primeira instância, do artista que a produz e, em segundo plano, da sociedade que o molda e que por ele é moldada.

É claro que esta concepção de Arte não foi sempre igual e também não é unívoca. Da mesma forma como já falei neste texto, há uma certa arenga entre aqueles que acham que basta a aplicação do talento para que qualquer coisa possa ganhar qualificativos artísticos e aqueles que depuram um desinteresse utilitário na sua produção, uma espécie de carregar do lema “a arte só se justifica pela arte”. Portanto, a discussão está no pote: ele é arte como um todo ou a arte está só nos seus mosaicos e craquelados? O pote foi fabricado pelo artista ou pelo artífice? É arte ou é ofício? O artesanato pode ser arte? Se víssemos as coisas no tempo dos gregos antigos, veríamos que a Arte está no próprio ato da produção do artefato. É a sinonímia entre artes e ofícios que citei lá no comecinho. Só que sua transformação conceitual foi se dando à medida que o apuro no plano estético se tornava mais relevante que seu propósito prático. É como se sua beleza fosse mais significativa que sua utilidade. Desse progressivo afastamento é que foi nascendo essa ideia de arte pela arte. Que, diga-se, não é impassível de críticas. E de gente cascuda. Platão, por exemplo, não via a Arte como demonstração do talento, mas de afastamento da realidade. Em seu cosmos dual, o conhecimento verdadeiro estava instalado no mundo das ideias, e o mundo perceptível pelos sentidos eram suas cópias imperfeitas, contingentes e acidentais. Sendo para Platão a arte uma imitação, ela não seria mais que uma cópia da cópia, ainda mais imperfeita e distante da realidade atingível pelo intelecto. Seria a réplica de uma concreção produzida com os desvios dos sentidos de um artista, o que é plenamente indesejável para a obtenção de conhecimento seguro. O que Platão talvez não considerasse é a capacidade do artista de produzir uma visão já depurada, e às vezes mais clara, de uma relação cognitiva com um objeto, ou seja, da arte vista como interpretação, e não como imitação.

É bem o caso da ficção. Na concepção platônica, ela é mentira e pronto. Já seu discípulo e sucedâneo Aristóteles percebe a mancada e a importância que tem a tragédia baseada na Mitologia, capaz de produzir a catarse, como procurei espelhar neste texto. Não há uma realidade necessária no mito; a realidade está no efeito catártico, que purifica a alma dos audientes pela situação trágica construída e vivenciada pelo herói, um ser imaginário.

E é exatamente no jogo de interpretação e reconstrução de realidades que está o grande conhecimento possível de ser produzido pela Arte. Peguemos o livro Crônica de uma Morte Anunciada, do genial Gabriel Garcia Márquez. Uma obra pequena, para ser lida em poucas horas, consegue nos dar uma visão clara sobre um tema universal: as sobreposições de versões dos fatos e a perspectiva pessoal. Um compêndio de Psicologia, preso às restrições científicas, tem muito mais dificuldade de por a claro a questão do subjetivismo na interpretação dos fatos, movidos não só por questões concretas, mas também pelo desejo de vingança, pela indiferença, pelo rigor moral, ou seja, por sentimentos que não têm como fugir do individual, Cada maneira de ver os propósitos e desfechos são particulares. O mestre em Psicologia teria um trabalho de anos; Gabo, em cento e poucas páginas, com acesso a mais gente e mais saboroso de se ler. Falta-lhe o rigor científico, mas a função da Arte é outra: a sua verdade está em revelar uma fórmula de pensamento, que é a verdade daquele indivíduo, daquela situação e daquela comunidade, e não um conhecimento testável.
É claro que muito da magia da relação artística está no polo de quem a absorve. A arte não pára unicamente no artista, ela é fruída por alguém. Como eu falei neste texto, há uma espécie de experiência cultural no momento em que alguém é colocado diante da obra de arte e lhe tira proveito ou não. No instante em que se contempla desinteressadamente o artefato artístico é que essa interação cognitiva pode acontecer. E, sim, aqui entra muito da visão pessoal e da carga educacional que uma pessoa possui. É óbvio que alguém que possua em seu arcabouço toda a obra de Shakespeare bem absorvida dificilmente vai se impressionar com Harry Potter. Mas não há nenhuma regra fechada nisso. É perfeitamente possível que uma leitura mais leve traga exatamente o que a pessoa quer: uma experiência simples de prazer. Ainda que haja quem queira estabelecer cagação de regras cânones para diferenciar o que é ou não é arte, o fato é que nada é mais antidogmático do que esta atividade humana. Ao artista cabe dizer o que é a obra, como pensa o filósofo Wollheim, e cabe a nós concordar ou não, guiados pelo nosso conhecimento e pelo nosso juízo de gosto. Afinal, há quem goste de alecrim e há quem deteste. Há quem goste do perfume do alecrim e odeie o sabor (eu). Nisso também reside a liberdade artística: estar perante a obra e ter a prerrogativa do escrutínio.

Gostar ou não gostar modifica em alguma coisa a obra de arte? Não posso ter nas mãos um bastão com o qual eu determine se algo é arte ou não, baseado simplesmente em minhas preferências. O que eu posso fazer é dizer se gosto ou não de uma determinada peça, ou até mesmo fazer um juízo comparativo, apreciando mais uma do que outra, mas dogma e liberdade não combinam, e é preciso tirar o autoritarismo da contemplação estética.

Recomendações:

Conforme citei no corpo deste texto, segue a indicação do livro do velho Gabo, um dos meus autores favoritos.

MARQUEZ, Gabriel G. Crônica de uma Morte Anunciada. São Paulo: Record, 1981.

Vou recomendar também um canal muito bom do YouTube. Trata-se do Vivieuvi, da Vivian Villanova, que traz notícias do mundo artístico e discute muitas questões afeitas à Filosofia da Arte, em um ambiente eivado de cultura, como deve mesmo ser a Arte.

https://www.youtube.com/channel/UCxIruXzvzmLkaH-a-QGnnKQ

* Ginasial era o modo como se chamava o atual Fundamental II. Já Colegial é o atual Ensino Médio.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (12 – Filosofia da História)

Olá!


Gostamos de histórias. Gostamos de contá-las e de ouvi-las, principalmente quando o narrador coloca toda a sua vivacidade a serviço do colorido na exposição dos fatos, sejam eles verídicos ou nem tanto, como os “causos” do pessoal do interior ou as pantomimas de avós e de madrinhas. Eu tinha uma tia que era especialmente hábil neste mister, a tia Antônia, espanhola de nascimento, e que contava coisas de além-mar com tal destreza que a audiência mal piscava durante as sessões. É evidente que, ainda que a base seja real, muitos dos detalhes mais barrocos vinham do âmbito do legendário e do mítico. Como diria Camus, “a verdade, como a luz, cega. A mentira, ao contrário, é um belo crepúsculo que valoriza cada objeto”. É claro que se trata de um rigor excessivo para quem deseja apenas apreciar um bom conto nos dias frios em que falta energia elétrica, mas é necessário crer que o existencialista franco-argelino (de quem já falei neste espaço) estivesse se referindo unicamente à verdade como correspondência ao mundo que nos cerca, e não com vieses artísticos da oratória de bons velhinhos. E é nessa toada que precisamos olhar para a Filosofia da História, o estudo crítico de como é construída a rememoração de nossos tempos.


Uma das perguntas iniciais que fazemos quando olhamos filosoficamente para a História fatalmente se dirige aos seus propósitos. Para que serve estudar a História? É uma pergunta que pode obter resposta um tanto pragmática, já que poderíamos ter o condão de dar uma resposta tão sentimental quanto inútil: muita gente acha relevante que saibamos de onde viemos e como fomos formados, mas também tem muita gente que pensa que isso não quer dizer muita coisa. O que passou, passou. Não é verdade.

Vamos aproveitar a Tia Antonia. Ela nos dizia que, quando chegou ao Brasil, era costume dos trabalhadores da indústria têxtil, na sua maioria estrangeiros, passear pela cidade nas horas livres, a fim de conhecê-la um pouco melhor. Um dos lugares mais bonitos era o bairro dos Campos Elíseos, nome chupado do Champs-Élysées francês, que, por sua vez, já tinha sido importado da mitologia grega, o lugar de honra para onde os homens virtuosos eram encaminhados após sua morte, uma espécie de paraíso. Região absolutamente central*, era um bairro tomado pelos casarões dos antigos barões do café, com destaque para a sede do governo do Estado (hoje abrigando o SEBRAE) e para o Liceu Coração de Jesus. De lá, a vetusta parenta nos contava que, pelos largos passeios, era possível observar a elite com sua criadagem, os poucos automotores disponíveis, o cheiro das azaleias nos jardins, os guardas civis que ladeavam os prédios oficiais. Contava também das moçoilas de vestidos rendados e ancas de arame, que soltavam seus lenços para chamar a atenção de afetados príncipes encantados, mas aqui já começa o blá-blá-blá. Era, enfim, um local de enlevo, propício aos sonhos de gente que vinha de tão longe e que tinha tão pouco.

Transpondo a mesma região para os nossos dias, quem passa desavisadamente pela sua via principal, a avenida Rio Branco, provavelmente terá uma sensação de que ainda temos um bairro ao menos razoável, mas é nas travessas que a coisa acontece. E tudo se deu por conta da vizinha Luz. Acompanhem o raciocínio.

A Luz era um bairro quase tão bom quanto os Campos Elíseos. Menos luxuoso, mas bem equipado com a famosa estação, o jardim, a pinacoteca, não havia muito do que reclamar. Um belo dia, aparece o colosso do mau planejamento público: a Rodoviária. A princípio, a ideia não parecia de todo ruim. Construída entre as estações de trem da Luz e Júlio Prestes, teria por objetivo ser um ponto focal para a interligação entre os meios de transportes. Acontece que colocar a única rodoviária do maior aglomerado urbano da América Latina bem no centro da cidade foi uma enorme estupidez. O trânsito se tornou insuportável já no começo de seu funcionamento, e as antigas residências foram substituídas por rede hoteleira miúda, destinada principalmente para pernoites. Além disso, expandiu-se a quantidade de bares, restaurantes e pequeno comércio principalmente para dar suporte aos passageiros que faziam uso do terminal, mudando completamente o perfil ocupacional da região.

Toda ideia de jerico acaba mal, como bem sabemos. A Rodoviária da Luz durou joviais 21 anos, por motivos que deveriam ser óbvios, mas que só foram sentidos na prática após o bairro e seu entorno serem desfigurados. E aí temos a emenda pior do que o soneto. A sua desativação foi feita de maneira atabalhoada e com ainda menos planejamento que sua construção. O terminal simplesmente foi transferido para a Marginal Tietê, e toda a estrutura comercial que lá se estabeleceu foi abandonada à própria sorte, sem que houvesse a substituição por outro modelo urbano. O resultado foi a falência de inúmeros estabelecimentos, a transformação de outros em puteiros, com o abandono dos imóveis e sua ocupação pelo tráfico de drogas. Com o advento do crack, a partir da primeira década do século XXI a região teve um aumento absurdo de usuários, no que ficou conhecido como Cracolândia, uma verdadeira 25 de Março do narcotráfico. Sua “capital” é a rua Helvétia, ligação direta entre a estação Júlio Prestes e o antigo Palácio dos Campos Elíseos. A Tia Antonia certamente não reconheceria mais sua região de passeio, que hoje nos dá a mais clara ideia do que seria um apocalipse zumbi. Talvez, se fosse muito atenta, perceberia aqui e ali uns vestígios das antigas residências, e ficaria estupefata. Mesmo que suas histórias não fossem de príncipes, mas de demônios, dificilmente conseguiria chegar ao nível do que a realidade se transformou.

É para isso que serve a História: para que entendamos o que deu certo e o que deu errado. Este é seu objetivo prático. Mas a Filosofia a olha mais profundamente do que isso. Seria possível existir alguma forma de lógica nos rumos dos acontecimentos? A História tem um fio condutor? Estamos fadados a nunca termos uma antevisão do futuro ou condenados a repetições eternas?

Há algumas concepções de História que a veem como uma longa sequência de fatos sucessivos, inéditos e irrepetíveis, que apontam linearmente para o futuro, como se fosse um vetor. O Positivismo, por exemplo, vê o rumo da humanidade como um caminho que parte da visão supersticiosa da Religião, baseada quase que exclusivamente em mitos e lendas, para a noção positiva, que coloca no lugar dos altares a primazia da Ciência, desprovida de misticismo e de visões fugidias ao metódico e ao sistemático.

Outras concepções enxergam a História como a repetição indefinida de ciclos, como estabelece a alegoria do eterno retorno de Nietszche, muito embora os ciclos sejam entendidos não em seu sentido estrito, mas em sua estrutura. Para tanto, basta que se pense na sucessão dos dias e dos anos. Em si, eles são ciclos infinitos – eternamente o Sol nasce e se põe, a lua e as estrelas surgem no céu e lá ficam até um novo despontar; o tempo esfria, as noites ficam mais longas, até que lentamente os dias comecem a aquecer progressivamente, quando chegará o ápice do verão, e volta a temperatura a se amainar, as folhas a cair e novamente, e novamente, e novamente... Essa estrutura cíclica dá a intuição de que tudo é circular, ainda que os fatos em si, vistos isoladamente, sejam inéditos. Ciclos de guerra e paz, de miséria e prosperidade, de avanço e estabilidade parecem pavimentar a rota por onde a História caminha.

Temos ainda um terceiro ponto de vista de desenvolvimento histórico, que é o vai-e-vem do movimento dialético. Cada fato na realidade carrega consigo sua própria contradição e ruma para ela, até chegar ao ponto de síntese, que elabora um novo fato na realidade, com uma nova contradição e assim sucessivamente. Se a História é a narrativa da realidade, também nela se plasma essa mesma estrutura. Desta forma, a mecânica dialética, tanto hegeliana quanto marxista, é linear e cíclica ao mesmo tempo, porque trabalha com acontecimentos irrecitáveis que se guiam sempre no mesmo delineamento sucessivo.

Pensamos até agora no desenho que a História percorre, mas, para que isso aconteça, já é preciso que ela não seja algo estanque. O que faz com que a História se mova? No final das contas, há algum propósito em estarmos aqui, deixando nossos passos nas areias das ampulhetas? Somos seres teleológicos?
Há um confronto mais ou menos moderno na própria concepção de História a partir do momento em que marcos como o Renascimento e o Iluminismo reforçam a posição humanista de independência com relação às divindades. Até então, a noção de “motor da História” sequer existia, porque ela não fazia sentido. Os fatos se sucediam através da concreção da vontade divina, que era interpretada por filósofos e teólogos, mas extremamente simples: um plano divino, que caberia desvendar, sem grandes possibilidades de contestação. Mas a coisa muda de figura com o advento do novo humanismo. Como já vimos, Hegel percebe a linha histórica como um movimento dialético, ainda transcendental, mas já não propriamente divino, o que não é mais o bastante para explicar como ela se desloca. A percepção dialética é a posteriori; o que vem antes? Aprioristicamente, o mestre alemão entende que a humanidade possui um “espírito”, que, diferentemente da ideia de uma deidade, não é algo físico ou transcendental, mas uma espécie de predisposição em se ser o que se é, com variações de acordo com o espaço (volksgeist) e com o tempo (zeitgeist). O exemplo que eu mais uso é o seguinte: o Geist é como se fosse um ethos, ainda que não seja exatamente a mesma coisa. O brasileiro é o rei do jeitinho: dadas suas limitações patrimoniais, improvisa com gatos e gambiarras, tem uma língua de veludo de dar inveja e toda agenda já embute quinze minutos de atraso. Esse é o “jeitão” do brasileiro, uma espécie de espírito coletivo, é seu volksgeist. Também temos aquilo que chamamos de “tempos bicudos”: contingências climáticas, estados de tensão bélica e outras coisas conduzem a uma condição generalizada de prevenção, de restrição e de pessimismo, que vão se espelhar nas artes, na religião, na filosofia, nas vontades e nas atitudes das pessoas. Esse é o zeitgeist, o espírito do tempo, dinâmico, influenciador do e influenciado pelo volksgeist. Essa variação no tempo e no espaço tende a procurar uma estabilidade, onde os espíritos nacionais se unifiquem. É o que Hegel chama de Espírito Absoluto, a razão concreta, uma espécie de estágio final das transformações históricas, onde não haverá motivos para a busca de uma nova síntese. Esse Geist é que “puxa” a História.

Como eu já falei anteriormente, Karl Marx vê o movimento dialético hegeliano como correto no sentido de processo histórico, mas discorda frontalmente com seu motor. Nada de espírito disso ou daquilo, o que temos é o cosmos em que vivemos e que podemos experienciar. O que toca as transições entre tese e antítese está nas condições materiais com as quais a humanidade convive, e é a guerra pelo poder, sintetizada na luta de classes, que faz a roda da História girar. Vejamos.

Marx não acredita em transcendências, Geist incluso. Para ele, todo o espectro de uma sociedade pode ser dividido em classes, que são definidas de acordo com o seu acesso a meios materiais. Esse alcance definiria todas as características dessas classes: como se alimentam, como se educam, como pensam, como vivem. Enquanto permeados por uma ideologia dominante, as classes de uma sociedade se mantêm mais ou menos estáveis, até que a consciência coletiva de um determinado estrato se vê incomodada com a disparidade de acesso com a qual se vive, e passa a lutar contra a classe dominante. Notem como já aí é possível enxergar a estrutura dialética da realidade. Segundo Marx, toda a História pode ser explicada a partir da perspectiva da luta de classes. A insatisfação gera o conflito, que descamba para o confronto, que pode ou não gerar uma nova classe dominante, com novas classes oprimidas, que novamente gerarão conflitos, e via discorrendo. Ainda que do conflito não brote uma nova classe, a situação mantida também preserva a realidade e a sua contradição: continua havendo quem domine e quem é submetido. Diferentemente do Espírito Absoluto, para Marx a estabilização histórica viria com a implantação do Comunismo, que teria por objetivo a extinção das classes sociais e o consequente “desligamento” do motor de transformações históricas.

Tudo isso dá uma certa impressão de “destino”, que os pensadores contemporâneos costumam rejeitar. Por outro lado, há linhas de pensamento que afirmam existir um propósito para que a História seja como ela é. A Filosofia Medieval, por exemplo, afirma aos quatro ventos que a teleologia humana se explica em Deus, unidade de força universal, inclusive histórica. Também na metafísica aristotélica é possível visionar teleologia, ao compor na descrição das essências a causa final, inerente a todos os seres. O problema está em uma visão mecanicista, que obriga a causa e desvia a observação. Pensadores hodiernos entendem que a História deve ser estudada sob o prisma científico, com metodologia própria, ou seja, o fato deve ser analisado pelo que dele pode ser observado, sem que se tente buscar um objetivo para além deles. Evidentemente, há coisas que são criadas para determinados propósitos, mas, ao imputar finalidade ao próprio processo histórico, faz-se um exercício mais de adivinhação do que propriamente de previsão. Este se desenrola empiricamente: quando se juntar A com B, ter-se-á C, e pronto.

Por fim, há a questão do recorte dos tempos históricos, que se inicia pelo registro, que não é determinado somente, mas principalmente pela escrita. As eras são estabelecidas por marcos, o que é bom didaticamente, mas que costuma distorcer a visão que temos dos processos de transformação. Além disso as divisões históricas são absolutamente eurocêntricas, mas fazer o que? É a cultura dominante até hoje, e não cabe discuti-la neste momento (ainda que seja discutível e que possamos fazê-lo em alguma hora adequada).

A tradição dos marcos históricos, apesar das críticas, tem sua razão de ser. De fato, são compostos por situações onde tanto os acontecimentos anteriores se desenrolaram para construí-las quanto os posteriores foram moldados decisivamente por eles. Por exemplo: a tomada de Constantinopla pelos turcos, marco inaugural da Idade Moderna, não aconteceu como um meteoro que cai durante a noite. Há vários fatores concorrentes, como o enfraquecimento do Império Bizantino, os desencontros causados pelo cisma da Igreja Católica e as progressivas conquistas das invasões otomanas. Mas a importância do marco se dá pelas suas consequências. Visto isoladamente, seria uma tomada de um território entre outras, mas é a partir dela que se iniciam as Grandes Navegações, que, a princípio, objetivavam dar acesso à Ásia por vias marítimas, contornando o bloqueio da passagem terrestre. Caso não ocorresse esse evento, é impossível saber quanto tempo levaria para se saber da existência da América.

A essa tendência de viés positivista, a principal oposição se deu através da École des Annales, movimento de historiadores franceses do século XX que se propôs a rever essa concepção compartimentada, unida por sucessão de fatos como uma fieira e as contas de um rosário, onde a única diferença está no tamanho de algumas delas, e passam a encarar o tempo histórico como a urdidura de um tecido. Para tanto, desenvolvem a ideia de extensão dos tempos. Um fato participa tanto do breve tempo de um momento específico, quanto do tempo médio que forma um contexto, quanto do tempo longo que impulsiona o mundo a uma determinada direção, o que lhe dá uma certa tridimensionalidade. Além disso, os Annales cuidam de aproximar a visão histórica de um momento específico à sua devida conjuntura. Como vimos neste texto, é um descuido frequente levar valores atuais para a visualização de acontecimentos pretéritos, o que faz com que a sua descrição se distorça e a historiografia deixe de cumprir seu papel.

No fundo, no fundo, a Filosofia da História, assim como a Filosofia da Ciência, é uma derivação da Epistemologia, a área da Filosofia que estuda a possibilidade de conhecermos com segurança (se isso possível for). Ficamos por aqui porque já andamos muito. Bons ventos a todos.

Recomendação:

A História como narrativa é algo sensacional, tanto que eu tinha grandes dúvidas sobre cursar Filosofia ou História, mas o que vem pelo pano de fundo é algo realmente meio árido. Para tirar algumas dúvidas, sugiro o canal e o blog do Icles Rodrigues, o Leitura ObrigaHistória.

https://leituraobrigahistoria.wordpress.com/

https://www.youtube.com/channel/UCtMjnvODdK1Gwy8psW3dzrg

* Eu moro a 100 metros do marco zero de São Paulo. Se eu for a pé até os Campos Elíseos, demoro algo em torno de 20 minutos.

sábado, 9 de junho de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (11 – Filosofia da Ciência)

Olá!


Encerrada a primeira etapa desta série, onde tratei daqueles campos mais básicos da Filosofia, vou começar agora a falar de áreas derivadas, ou seja, que pressupõe a existência de alguma base anterior e que esteja mais próxima de sua aplicação no dia-a-dia, mostrando o que há por trás de uma série de conhecimentos humanos. Vamos principiar falando sobre a Filosofia da Ciência, filhote direta da Teoria do Conhecimento, e, mais especificamente, da Epistemologia.


Bem, qual seria a diferença entre a própria Ciência e uma filosofia dedicada a ela? Ao cabo do presente texto, seremos capazes de dar essa resposta, mas, sempre recordando o que é a própria Filosofia, é a pergunta que nós lançamos sobre os fundamentos últimos das próprias coisas. Portanto, a Filosofia da Ciência tem o escopo de determinar quais os tipos de conhecimentos podem ser enquadrados como científicos. E, para isso, precisamos fazer a pergunta basilar: o que é a Ciência?

Sempre que pensamos em um cientista, temos na mente profissionais de jalecos brancos, com instrumentos sofisticados, enfiados em laboratórios e observatórios, rodeados de anotações. Essa é uma visão estereotipada, é bem verdade, mas serve para notar o quanto a experimentação é importante nesse meio. Isso não ocorre porque os cientistas são malucões, mas porque a investigação empírica é premissa fundamental da Ciência, e explico por que.
Quando falei sobre a Lógica como ferramenta do conhecimento, dei o exemplo da construção de inferências através da articulação de proposições, conhecidas como silogismos. É um processo de aquisição cognitiva conhecida como dedução, que parece excelente, mas que não nos fornece grande coisa. Querem ver?

A dedução parte de uma proposição universal para apontar para uma proposição particular, de forma que sua conclusão será verdadeira se as premissas forem verdadeiras. Ora, conhecimento seguro é uma coisa muito boa, mas o problema é que essa dinâmica não nos traz novidades. Vamos no clássico dos clássicos do silogismo:

Todo homem é mortal
Sócrates é homem
Logo, Sócrates é mortal

Vejam bem. Sem grandes interpretações, podemos perceber a plena validade dos argumentos acima. Só que ele tem um defeitinho. A premissa maior já contém a premissa menor, ou seja, o universal já contém o particular. Quando falamos que todo homem é mortal, já incluímos automaticamente Sócrates nessa assertiva, já que ele é homem. Deduzimos algo que já está implicitamente no universal, e isso não é acréscimo de conhecimento, mas uma simples evidenciação.

Ciência é uma palavra latina que significa algo como “aquilo que se sabe”, ou, em um neologismo que pensei aqui, é uma “sabência”. Ora, para eu saber o que são as coisas e os fenômenos, preciso entender suas essências e funcionamentos mais profundos, e, para isso, preciso obter conhecimentos novos, e como a concretização do objeto está no plano particular, é para essa instância que preciso observar. Uma vez conseguindo dados novos, busco extrair deles uma regularidade e, subsequentemente, uma proposição que se aplique a todos os casos semelhantes. Em suma, eu parto do particular rumo ao universal, um processo inverso ao da dedução, e tenho a indução, a grande ferramenta da Ciência.

Ao contrário da dedução, a indução nunca parte do raciocínio puro, mas da observação, em especial de fenômenos que se repetem com alguma habitualidade. Não é a estrutura do argumento que garante a sua validade, mas a quantidade de indícios que dão consistência ao que se afirma. Aliás, as proposições asseveradas por induções tem uma característica importante: elas nunca são 100% fiáveis, porque um só indício que contradiga uma série de argumentos é suficiente para desmontá-los por completo. É clássica a construção de Hume: sabemos que o Sol vai nascer no dia seguinte porque desde os inícios dos tempos ele vem nascendo; no entanto, basta um único dia que o sol não desponte para invalidar toda a lógica deste argumento. Portanto, a indução nos fala de probabilidade, e não de certeza.

Até mesmo por conta desta insegurança, a indução não pode se calcar em um mero exercício mental, mas em rigorosas anotações, onde todas as variáveis possíveis são relacionadas e testadas, formando uma metodologia própria. Além disso, filosoficamente a Ciência é aberta, com cada experimento sendo devidamente divulgado e disponibilizado à crítica de quem discordar de seus resultados, ou para ser utilizado como base para novas hipóteses e experimentos (já descrevi um pouco como funciona esse processo). É dessa forma que o pensamento científico se torna patrimônio da espécie humana, embora nem sempre seja possível ser neutro e altruísta como seria desejável.

Vou fazer uma narrativa que mistura ficção factual e realidade geográfica para deixar as coisas mais claras. Conforme já andei contando por aqui e por ali, sou nascido na Mooca, um dos bairros mais tradicionais da Pauliceia. Diferentemente dos bairros mais modernos, compostos por meia dúzia de ruas, a Mooca tinha uma extensão territorial formidável, com o agravante de ser dividida ao meio pela linha de trem, que funciona até hoje. Isso significa, neste caso, que morar no mesmo bairro não equivale a morar perto. Tanto minha parte da família quanto o Zio Chico e primas éramos mooquenses, só que eu era mais dos confins, próximo à Vila Prudente, e eles moravam al di là da linha de ferro, na Mooca Baixa, três casas para lá do campo do Juventus. Isso é um bocado longe, uns 40 minutos a pé, mas tinha uma gambiarra para o caminho ficar mais rápido: atravessar o muro da ferrovia, cheio de buracos, passar pelos trilhos e ladeá-los pela avenida das fábricas até a antiga porteira, perto da Antarctica, o que constituía uma reta só. Hoje em dia é absolutamente contraindicado cumprir esse roteiro, mas a quase quarenta anos atrás não havia grandes sustos, mesmo sendo eu um pouco mais que uma criança.

Essa transposição dos trilhos era algo habitual, e eu nada teria percebido se não fosse um costume esculachado: ficar girando a chave nos dedos, pelo aro do chaveiro. Uma vez, fazendo isso enquanto saía do matagal para saltar os trilhos, a chave voa do meu dedo e se aloja em um vão entre dois deles. Abaixo para pegá-la e continuo minha caminhada normalmente. Algum tempo depois, temos a exata repetição da cena, com uma diferença primordial: a chave ficou encalacrada na junta dos trilhos, muito mais estreita do que outrora, e deu trabalho de tirá-la de lá antes que o trem a esmigalhasse. Desse dia em diante, passei a notar a fenda entre os trilhos todas as vezes que os cruzava, e percebi que elas variavam de tamanho. Ora mais largas, ora mais estreitas, ainda que no mesmo ponto; percebi também que essa variação acompanhava a dança das temperaturas, aumentando em dias frios, diminuindo em dias quentes.

Para aumentar minha intriga, observei também que o linhão elétrico ficava mais esticado em dias frios e mais bambo em dias quentes. Pus os piolhos para pensar: não se trata dos trilhos que ficam mais próximos, mas maiores; nem dos postes que se ajuntam, mas dos cabos que ficam mais longos. Sendo que ambos os fenômenos ocorrem nos dias mais quentes, chego à brilhante conclusão de que o calor dilata os corpos!!!

A empolgação perante a descoberta me faz contá-la para Deus e para o Diabo na terra do sol. Alguns fingiam surpresa, indulgentes; outros nem ligavam, dizendo “uhum”; mais alguns faziam cara de desdém, como se perguntassem se minha próxima descoberta seria o odor das fezes; havia até quem duvidasse e perguntasse como eu havia chegado a tal conclusão.

No dia seguinte, de muito sol, acordei cedo e fui procurar porcarias por aí, para corroborar melhor minha teoria, não sem antes encher uma garrafa daquelas de água mineral e colocá-la no congelador, para fazer os resfriamentos necessários. Peguei um parafuso que entrava justinho em uma porca e o aqueci, para em seguida não conseguir rosqueá-lo mais. Ponto para a ideia. Consegui um pino que saía facilmente de sua dobradiça; aqueci-o e ele não saía mais. Mais um gol. Cada pequeno experimento confirmava tudo aquilo que eu havia previsto: que todo corpo se dilataria com o calor. Faltava fazer os testes inversos – esfriar os corpos para detectar seu encolhimento e, para isso, fui buscar minha garrafa d’água gelada. Acontece que eu me distraí tanto com os meus afazeres científicos que acabou passando um tempão. Quando fui retirar a garrafa, ela estava trucidada pela água que congelou em seu interior.

Cocei a cabeça. Se a água que estava na garrafa congelou, deveria ter condensado. Caso a garrafa fosse de vidro, poderia pensar que havia quebrado justamente pela sua variação de tamanho, fragilizada por um eventual e impercebida rachadura. Mas não. A garrafa era de plástico, fininha, e é visível que arrebentou por que o volume em seu interior se expandiu, já que não há blocos de gelo externos que denunciem vazamentos. Conclusão: apesar de submetida a congelamento, a água AUMENTOU de tamanho, contrariando tudo o que eu havia até então observado e deixando minha tese mais destruída que a própria garrafinha*.

O que podemos extrair dessa fábula onde não há bicho que fale? Que, de maneira quase infantil, está exposto todo o método científico. Vamos conferir.

Quando eu tive o acidente com a chave, fiz uma constatação direta do mundo que me cerca e a problematizei. Todo o processo científico (e mesmo filosófico) começa com uma pergunta, e é sobre ela que vamos nos debruçar. E aqui começam as observações, como os trilhos afastados e os fios arqueados, a coleção de dados que vão fazer parte do arcabouço informacional que levará à construção da hipótese. A hipótese nasce, portanto, do processo indutivo, ou melhor dizendo, a indução gera a hipótese. Um fenômeno qualquer acontece uma vez, duas vezes, três vezes, várias vezes, até se perceber que ele se repetirá todas as vezes em que o fenômeno se der. No meu caso, a hipótese é de que todas as vezes em que eu aquecer um material qualquer, ele se expandirá em alguma medida. Por que montei essa hipótese? Porque o fato se repetiu sempre que o observei e me induziu a uma suposta regra geral.

A indução permite que se façam previsões. Não só os objetos constatados se dilataram mediante o calor, mas qualquer outro sofrerá o mesmo processo se submetido às mesmas condições. Por isso mesmo, é preciso que todos os passos que utilizei na minha experiência devam ser bem descritos, já que o conhecimento da técnica não pode ficar adstrito à minha pessoa: é preciso que os desconfiados possam fazer o mesmo e obter seus próprios resultados. É o que fiz quando tagarelei o meu achado pelos quatro cantos, dando a oportunidade de que alguém jogasse água no meu chopp.

Por fim, é imprescindível que as minhas conclusões tenham algum ponto em que ela seja provada falsa. É um aperfeiçoamento do processo de repetibilidade, já que este só busca o que é igual. A falseabilidade caça o que é diferente. Portanto, se eu afirmo que os corpos se dilatam com o calor, há duas maneiras de falsear minha hipótese: pesquisar algum corpo que não se expanda, ou encontrar um material que se expanda com a refrigeração, o exato oposto da minha declaração hipotética. Foi exatamente o que aconteceu.

Um problema, uma indução, uma hipótese, uma experimentação, uma conclusão com sua divulgação e repetibilidade, uma previsibilidade e um falseamento. Esse é o método científico aceito pela academia a nível mundial nos dias de hoje. Se eu suprimir qualquer um desses passos, NÃO TEMOS CIÊNCIA. É algo muito simples de entender, mas que gera muita resistência.

De fato, como já falei neste texto, a Ciência parece arrogante, mas não é o caso. Muita gente pensa que o processo científico dá um estatuto de verdade irrefutável às conclusões científicas, mas o que acontece é exatamente o oposto. A obrigatoriedade do princípio de falseabilidade existe justamente para remover a possibilidade de um saber absoluto, tão afeito às religiões, mas um conhecimento em permanente atualização. As pseudociências brotam no exato momento em que uma explicação esotérica retira a falseabilidade, conforme já discuti aqui e aqui. Se eu acrescentasse uma chicana, do tipo “há uma radiação indetectável que muda o sinal da expansão ou da condensação”, tirarei a verificabilidade e consequente falseabilidade da hipótese, tirando-a do campo científico.

Lamento frustrar a todos, mas a Ciência é conhecimento seguro, forte, consolidado, embasado; mas, no que tange à sua essência, e dentro do que permite seu pia-máter (a indução), é sempre e somente provável, nunca definitivo. Por isso mesmo precisa fazer o reconhecimento filosófico de sua transitoriedade. Se não for assim, não é Ciência, é dogmatismo.

É só isso. Uma Ciência é um conjunto de procedimentos que passa pelo crivo do método científico. Se não atende a todos os critérios, não há porque dizer não se tratar de conhecimento, mas sem a segurança que a Ciência propõe. Há até mesmo dificuldades em se enquadrar confortavelmente as Ciências Humanas no método científico, porque as hipóteses nascem de induções menos tangíveis e mais sujeitas a variações imprevisíveis, mas isso somente aumenta o número de refutações, e não a sua cientificidade. Obviamente, as Ciências Naturais, embora altamente complexas, fogem do fator humano, o que lhe dá um pouco mais de estabilidade.

E isso é a base da Filosofia da Ciência: dar compreensão do que é essa atividade humana, explicar porque seu método funciona da maneira como funciona e qual seu papel e limites. E, nos dias de hoje, deixar claro o que é e o que não é propriamente científico, sem as confusões que costumam ser feitas. Às vezes de propósito.

Recomendações:

Vou fazer duas remissões hoje. A primeira é ao ótimo livro de Rubem Alves, cujo objeto é exatamente o tema deste texto:

ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência. Introdução ao jogo e as suas regras. São Paulo: Loyola, 1999.

A outra é o bom canal do Pedro Loos, chamado “Ciência Todo Dia”, que tem uma pegada semelhante à do meu blog, de achar no quotidiano onde estão as grandes questões da Ciência e acabamos nem percebendo. Recomendo fortemente.

https://www.youtube.com/CienciaTodoDia

* A água se expande quando congelada por conta do arranjo sui generis de suas moléculas, que tem a forma de cristais. Normalmente, o estado sólido faz com que o perímetro de vibração dos átomos seja menor, porque eles estão mais “juntinhos”. O formato dos cristais do gelo impede essa aproximação. Pior ainda: faz com que o espaço intermolecular se amplie.