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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Os verdes mares de onde não há mar – 11ª Parada: Cachoeira de Minas e as discussões culturais ao redor de uma fogueira

(Cultura e sociedade se imiscuem, mas em qual ordem de primazia?)

Olá!

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Nesta altura do campeonato, eu estava em uma parte da viagem enriquecida pela culinária. Não era mais só os riachos e quedas d'água, mas o polvilho em Conceição dos Ouros, azeite em Consolação e agora biscoito. Seguindo a vocação desta região, estamos de barriga cheia pela comida caseira e também pela produção industrial. Estamos em Cachoeira de Minas.


Como visto em outro texto, a disponibilidade de mandioca faz com que boa parte da atividade comercial se volte para seus derivados, e então os biscoitos de polvilho deitam e rolam.

Outra especialidade é o fubá feito no moinho de pedra. Segundo reza a tradição, esta é a melhor maneira para se obter um pó muito fino e solto, ideal para se preparar polenta e bolos que necessitam de estrutura bem firme.

Andando pela cidade, ainda encontramos um forte aroma de café, sinalizando que estamos em região de bons grãos. Entramos em uma das lojas para tomar um espresso moído na hora.

Esta cidadezinha foi criada em 1854, por obra de Ignácio da Costa Rezende, que doou as terras às margens do Rio Sapucaí -Mirim. Neste busto tríplice, está ladeado pelo cônego João Dias de Quadros Aranha, que rezou a primeira missa da freguesia, e pelo coronel Antônio Ribeiro Portugal, que tratou de emancipar a vila para a condição de município.

No centro da cidade, impera a igreja de São João Batista, padroeiro das festas juninas, que, como veremos, são muito significativas para a cidade.

Há uma certa confusão quando falamos de festas juninas, que carregam esse nome por serem realizadas no mês de junho, o mais frio de Terra Papagalia. Quando começaram a ser comemoradas no Brasil, levavam o nome de "festas joaninas", justamente por ocorrerem na data do santo em epígrafe.

Sendo assim, o termo ficou obsoleto, mas não censurem os velhinhos que ainda o utilizem, porque ele estará mais correto que você.

Cachoeira de Minas, falando ainda sobre as festas joaninas ou juninas, orgulha-se de sua fogueira da festa de São Pedro, que é a maior do Brasil com estrutura empilhada. Ela nasceu de manifestações de fé, e foi crescendo com o correr dos anos, fazendo-a aumentar um metro por ano, até chegar em um limite de segurança, de cerca de quarenta metros. A festa inclui desfile de carros de boi para trazer a lenha e queima de fogos de artifício no momento em que a fogueira é acesa. O pátio onde tudo se dá é um grande terreno que fica na parte mais alta da cidade, atrás da igreja matriz.

Não dá para se ter uma ideia muito precisa da altura da fogueira por esta foto, então peguei outra no site da prefeitura (https://www.cachoeirademinas.mg.gov.br/historia-da-fogueira) para que vocês tenham uma ideia de quanto a brincadeira fica alta. Imaginem tudo isso pegando fogo.

Tradições por vezes são coisas óbvias, mas também precisam de explicação em outras. A fogueira de Cachoeira de Minas é dedicada a São Pedro, e não a São João, que não só empresta seu nome para as festividades, como também é padroeiro do município. Seria de se esperar que a fogueira levasse seu nome, mas a homenagem vai para o dono das chaves do céu. Isso acontece porque a tradição nasce pelas supostas graças recebidas por um certo Pedro que morava nas cercanias, e que se valeu do seu xará, consagrando a ele sua promessa.

Eis como se imbricam sociedade e cultura. Quando observamos de perto uma comunidade mais coesa, como essa cidade de cerca de 10 mil habitantes, podemos verificar como se dá a sua mobilização. Realmente, quando uma festividade movimenta uma parte enorme das pessoas, que participam das procissões, do corte da madeira, da montagem das barracas, das missas, dos enfeites, da comida e tudo o mais, notamos o quanto há de importância em uma atividade que é essencialmente típica, não se reproduzindo em qualquer lugar que se vá. Certo, festas juninas (joaninas) existem no país inteiro, mas essa ênfase no tamanho da fogueira como um distintivo local é próprio daqui.

Como esta, existem milhares de outras tradições distintivas de localidades, algumas tão fortes que fazem com que seja um signo cultural tão expressivo que a tornam única no mundo. Um evento ou fenômeno dirige tão marcantemente esse lugar que faz com que o próprio funcionamento daquela sociedade seja espelhado por esta circunstância. E aí teremos o dilema de Tostines© (este texto não é patrocinado, mas bem que poderia): vende mais porque é mais fresquinho, ou é mais fresquinho porque vende mais? Facilitando as coisas: a sociedade molda a cultura ou a cultura molda a sociedade? O que vem primeiro: a Sociologia ou a Antropologia?

Há respostas nos dois sentidos. Tradicionalmente, uma cultura navega dentro de uma determinada sociedade, e, por este motivo, parece existir uma primazia desta segunda. No marxismo, por exemplo, não se consideram as relações humanas ocasionais e randômicas, mas tem-se que as forças produtivas fazem com que os homens entrem em relações predeterminadas, independentes não só de sua vontade, mas mesmo de sua consciência. Essas relações, ao fim e ao cabo, têm um propósito econômico. Vejamos um exemplo. Um trabalhador qualquer dorme e acorda em horários determinados, consome sua principal refeição e descansa nos finais de semana sempre em função do seu desempenho laboral. Ele sabe que todas essas ações são voltadas para este mesmo desempenho, mas se aliena do que produz e do quanto é explorado, criando todo um conjunto de hábitos que é naturalizado. Esse modo de visão calcado na alienação é pulverizado por todo o organismo social, que se baseia fortemente nos dispositivos econômicos para formar superestruturas, um termo muito caro à escola. A superestrutura é o conjunto das infraestruturas que são baseadas em um determinado sistema econômico e produtivo, de forma a refleti-lo para todos os demais aspectos sociais de uma determinada população, inclusive em termos culturais. Em miúdos: a relação infraestrutural de produção estabelece para toda a sociedade seus modos de conduzir suas políticas e leis, que se projetam para todos os cantos sociais, a tal da superestrutura, ou seja, a presença dos mecanismos de embates produtivos em qualquer lugar que se olhe. Os filmes que assistimos nos cinemas, as músicas que ouvimos, as comidas que comemos, a religião que professamos são desta forma porque há uma superestrutura que espraia o modo de produção capitalista para toda a sociedade. Ou seja, a cultura é como é porque a sociedade está erigida de modo a esculpi-la dessa forma.

Já outro monstro sagrado da Sociologia dá um pouco mais de protagonismo à cultura, mas ainda assim de maneira subalterna. Max Weber fala sobre o agir social, o modo como os diferentes componentes sociais agem entre si e com quais propósitos. Ele qualifica quatro maneiras com as quais essas ações se desenrolam, e já falei sobre elas neste texto, mas vou dar uma pinceladinha rápida. Duas são racionais: uma com relação a fins e outra com relação a valores. E outras duas são irracionais – ações afetivas e ações tradicionais. Só para dar um exemplinho: você é lateral-esquerdo de um time que está perdendo uma partida, e o time adversário ataca pelo seu setor. Em uma disputa, uma bola prensada sai pela linha de fundo e o juiz dá escanteio para seu adversário. Racionalmente, você correria para o miolo da área, para ajudar na marcação e recuperar rapidamente a bola. Mas o que você faz é reclamar com o juiz, que lhe aplicará uma rebordosa e talvez um cartão, dando ao time do lado de lá um tempo precioso. Uma seria a ação racional com relação a um fim: recuperar a posse de bola o mais rapidamente possível. Outra, uma ação afetiva: clamar contra um ato que, no final das contas, é critério do árbitro, e não seu. Dessa forma, é possível notar o pano de fundo de cada ação social, se é baseada numa construção racional, numa impulsividade ou num automatismo.

Por onde transita a cultura para Weber? Para ele, quando observamos especialmente a cultura ocidental, verificamos que ela se dá no âmbito do racionalismo. O conceito weberiano de cultura está no indivíduo que fornece significação ao mundo que o cerca. Na medida em que os diferentes indivíduos passam a compartilhar essa significação, forma-se uma base cultural. Toda a cultura se quantifica por finalidades que ela busca (conhecimento, lazer, socialização) ou por valores onde ela se enquadra (beleza, utilidade). Mesmo na questão da tradição, a manutenção da cultura se dá no plano da descrição das raízes históricas e no conhecimento da origem dos fazeres, e não no sentido de se manter algo porque as coisas sempre foram assim.

Percebam como Weber enxergava a cultura de modo a ainda subordiná-la à sociedade, ou seja, colocando-lhe hierarquicamente abaixo da sociedade. Mas o que é uma casa sem seus tijolos? É com Jeffrey Alexander, sociólogo norte-americano, que teremos uma conceituação inversa. Ele estabelece que os componentes irracionais de uma determinada cultura fazem com que a conformação social de um determinado povo ganhe contornos próprios.

Imagine-se de que maneira um determinado evento seria recebido em São Paulo, em Cachoeira de Minas, no Japão ou na Tanzânia, como, por exemplo, um fenômeno natural catastrófico ou uma guerra. A compreensão deles por cada uma dessas populações não tem como ser delineada, não tem como ser de uma maneira previsível, fundamentalmente porque cada um deles tem uma linguagem culturalmente construída que vai lhe doar os significados. O sentido coletivo de todos esses eventos só existe como ele é porque existe uma cultura para fazê-lo assim. Uma cultura mais racional atribui causas científicas, uma cultura mais religiosa atribui vontades divinas e assim sucessivamente. Mais que isso, encarar o mundo depende da relação que temos com ele. Uma fotografia do rosto de uma pessoa no momento de um terremoto demonstra que o plano racional vai para o vinagre em São Paulo, enquanto em Tóquio teremos que ter um abalo verdadeiramente forte, porque há uma interação diferente em cada lugar, e isso influencia na própria linguagem, não somente a falada ou escrita, mas na construção das representações.

Sendo dessa forma, uma sociedade somente é compreensível quando vista e interpretada pelo ângulo de sua cultura, porque ela é o elemento próprio de uma sociedade que faz com que seus componentes pensem como pensam e encarem o mundo como encaram. Uma sociedade não é como é apesar de sua cultura, mas justamente por causa de sua cultura. Se todos os aspectos culturais fossem puramente racionais, poderíamos imaginar uma relação de causalidade que faria com que as culturas se assemelhassem, mas elas diferem, por vezes radicalmente, exatamente porque são permeadas pelo irracional, indefinido por natureza.

Ora, tantos pontos de vista distintos, e eu só falei de três, podem trazer a uma reflexão sobre qual é a validade das diferentes linhas de pensamento, e isso ajuda a nos demonstrar a "magia" das Ciências: por serem antidogmáticas, as Ciências se renovam e permitem a correção de rotas. Isso não está somente nas Humanas, mas em qualquer área – ovos, café e leite ora fazem bem, ora fazem mal, não é verdade? Isso é uma impressão que temos porque as olhamos pela superfície, e por não compreender muito bem seu escopo e propósito. A verdade não está em Marx, em Weber ou em Alexander. A verdade não é algo que se conquista, como um troféu, mas algo que se aproxima, que se modifica, que se renova e se refaz, sem que precisemos ficar presos à ditadura de uma regra. E com isso podemos perceber que qualquer cultura carrega consigo uma porção de verdade e de verossimilhança, sempre vinculada aos valores próprios de sua população. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Dos citados, Marx e Weber são consagradíssimos. Jeffrey Alexander acabou de ter sua primeira obra editada em português, o que dá impressão de menos relevância, o que é falso. Segue sua indicação:

ALEXANDER, Jeffrey. Sociologia Cultural: Teoria, Performance, Política. Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades, 2023.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (21 – Sociologia)

Olá!


Vamos entrar em um novo estágio deste pequeno manual. Há muitas áreas do conhecimento que já escapam do âmbito puro da Filosofia, seja porque ganharam muita especificidade, seja porque desenvolveram métodos próprios de pesquisa, mas sem deixar de guardar algumas penas da coruja de Minerva em seus fundamentos. Até mesmo por isso, são ciências humanas das quais faço uso frequente neste espaço, e que merecem destaque apartado, ora pois.

Em inúmeros cantos, por exemplo, comentei sobre as maneiras e os porquês pelos quais os homens preferiram associar-se e viver juntos, partilhando bens e gêneros de primeira necessidade, protegendo-se mutuamente e dando manutenção ao grupo, cuidando das suas crianças e enterrando seus defuntos. Essa malha ganha complexidade à medida que se torna maior, sendo composta por indivíduos com anseios próprios, mas que, de alguma forma, se submetem aos ditames do todo em que vivem. Essa vida em comum é o que se chama de socius em latim, e é o que modernamente chamamos de sociedade. Sabendo que grupos sociais se inter-relacionam, podemos chegar à extensão máxima do planetinha como campo de estudo, o que é realmente bastante coisa. Percebendo e tentando compreender o funcionamento destes entes que englobam e que superam as individualidades nasceu a Sociologia, que vamos analisar agora.


Se comparada à Filosofia, a Sociologia é uma criança cujos dentes-de-leite ainda estão brotando. Isso não quer dizer que somente com a modernidade nasceu a questão social. Encontramos inúmeras referências à vida em sociedade nos socráticos, como o animal político de Aristóteles e a cidade ideal de Platão, e mesmo antes, nos pré-socráticos e pré-filosóficos, como Homero e Hesíodo, encontramos embaraços entre grupos humanos a tentar serem resolvidos. No entanto, é apenas no século XIX que os fenômenos sociais passam a ser objeto das Ciências. Estamos no âmbito do Positivismo, derivação direta do otimismo com os avanços tecnológicos, que vê a Ciência como meio de resposta muito mais eficiente do que a Metafísica e a Religião para sanar nossas ambiguidades e problemáticas. Explica-se: diante da dor de cabeça, um comprimido funciona muito melhor do que uma prece ou do que se especular sobre o que é a dor, seu sentido, sua essência e o conformismo diante dela. As respostas para os enigmas do universo estão no próprio universo, e não em instâncias imateriais, é o que diz o saber científico. E, por isso, a Ciência, o arauto do Positivismo, é considerada a única forma de conhecimento válido. Tudo isso nos fala Comte, o papa da corrente.

Muito bem. Acontece que a sociedade existe, como podemos determinar empiricamente. E, como tal, merece e precisa ser estudada. Mas não o será mais em termos especulativos, e sim científicos, submetida a um método que permita aferições e medidas, que possa ser reproduzido e verificado. É nesse âmbito que a Sociologia, agora como Ciência, vem à luz. Bem... Comte a chama de Física Social. O termo Sociologia nasce depois, com um cara que veremos já, já. Era preciso dizer, após isso, como deveria ser dado tratamento a ela, ou seja, qual seria a metodologia que lhe daria respaldo. A Sociologia é do campo das Humanas, mais difíceis de tratar em termos de reprodutibilidade do que as Exatas, mas o desafio precisou ser enfrentado.

Como a Sociologia é ainda uma área do conhecimento bastante recente, as linhas-mestras do seu pensamento são um tanto restritas. Não se trata de simplificá-la; é só uma questão de cronologia. Se falamos de Matemática desde Pitágoras, é natural que as correntes tenham se ramificado muito mais, mesmo sendo do escopo das Exatas. Por isso, quando falamos em Sociologia, três nomes brotam logo de imediato e são unânimes, porque consolidaram o campo investigativo: Durkheim, Marx e Weber. Seus trabalhos são extensos e vão além da análise social pura e simples. Por isso, nosso intento aqui será apenas e tão-somente trazer o carro-chefe do pensamento de cada um deles, aquilo que mais contribui para delimitar a Sociologia como Ciência.

Vamos seguir a boa e velha cronologia dos manuais e começar pelo francês Émile Durkheim (de quem já falei aqui). Como sabemos, toda Ciência tem um objeto bem claro de investigação. A Biologia, por exemplo, não estuda pedras, a não ser naquilo que elas dão de apoio à vida. Idem com a velha confusão entre Arqueologia e Paleontologia. Uma estuda a cultura de povos antigos, a outra estuda espécies antigas. De cara dá para perceber que a primeira é ligada às Ciências Humanas, e a segunda às Ciências Naturais. Se você achar um caco de panela velha em seu quintal, deverá procurar um arqueólogo; se achar um ossinho esquisito, um paleontólogo – não se engane mais. Essa definição do que a Sociologia deve estudar é o que Durkheim fez muito bem, além de batizar esta nova ciência.

Durkheim cria o conceito de fato social para delimitar o campo de estudo sociológico. Ou seja, não é qualquer coisa que ocorre em uma sociedade que faz parte do mecanismo social. É preciso que, para ser elegível como fato social, um fenômeno atenda a alguns requisitos. A base do raciocínio é a ideia de que a sociedade é mais do que a mera soma dos indivíduos que a compõe. Os acordos que são constituídos socialmente superam as vontades de cada um, e trazem a obrigação de cumprir normas e regras, ainda que estas não estejam escritas, mas que sejam parte de um hábito consensual. Por isso, o fato social, em primeiro lugar, é coercitivo: há um mecanismo que obriga a sua existência. É óbvio que o que mais salta aos olhos é o cumprimento da lei, que determina, por consenso de representantes eleitos ou de concessão do poder, o que é passível de punição e o tamanho da pena. Mas há outros dispositivos de pressão social que funcionam de maneira igualmente eficaz, como a habitualidade, a noção de moral, a etiqueta. Senão, o que explicaria o uso de paletós e gravatas em pleno verão nas nossas terras tropicais? Há uma confluência tácita de que terno é sinônimo de elegância e de que é desrespeitoso comparecer a um evento formal fora de trajes ditos elegantes. A pessoa se obriga a tais desconfortos porque há um escape de seu interesse individual, e vai suar às bicas porque a sociedade lhe coage.

Outra caracterização do fato social é sua exterioridade com relação a indivíduos. Isso significa que a sociedade é um organismo independente dos organismos que a compõe. Não importa se a sociedade é formada por Maurícios e Mateus; se forem trocados por Tarcísios e Tadeus, dá na mesma, continua sendo uma sociedade, com todas as suas características. O que significa isso? Que, ao olhar para um fato social, como o processo educativo, por exemplo, examinaremos os papeis dos atores, e não os seus ocupantes. Veremos existir um diretor, alguns professores e vários alunos, e não o diretor Toninho, os professores Lalau e Vera Lúcia e os alunos Décio, Rogério e Ricardo. O fato social é impessoal, e, se um fenômeno não puder ser dissociado de um indivíduo, então não estaremos falando de um.

Por fim, um terceiro aspecto do fato social é a sua generalidade. Isso significa que um fato social é aplicável quando se tratar de um uso comum na sociedade onde se pratica. Como exemplo mais escancarado, temos a utilização da língua portuguesa em território brasileiro. É um código linguístico que forma uma unificação social através da compreensão comum. Mesmo um surdo-mudo, através da língua de sinais, se fará compreender pela estrutura da linguagem mútua. A generalidade se dá porque a sociedade se caracteriza por algum nível de coesão. Mesmo em uma suposta sociedade anômica há um nível de consenso nas consciências que faz com que certas regras sejam estabelecidas.

O resumo da ópera durkheimiana é que não são os indivíduos que compõem a sociedade, mas a sociedade que molda os indivíduos, e, nesse sentido, o fato social é aquele que deve ser analisado por si só, independentemente dos elementos subjetivos que lhe propulsam.

A seguir, vamos falar sobre o alemão Karl Marx, tão polêmico e decantado hoje em dia em Pindorama. Enquanto Durkheim define um objeto de estudo para a Sociologia, Marx lhe prescreve um método. Como já falei neste post, Marx define uma Filosofia da História não linear, que se dá pela movimentação entre polos contrários, que chamamos de materialismo histórico dialético. A mola propulsora desta navegação entre extremos antitéticos é seu grande conceito sociológico: a luta de classes. Vamos esmiuçar.

As sociedades, vistas à distância, podem ser enxergadas como uma entidade, com características próprias a cada lugar onde for observada. Assim, podemos falar em uma sociedade alemã, uma sociedade brasileira e assim por diante. No entanto, quando olhamos estruturalmente, verificamos não possuírem uniformidade. Há vários estratos e camadas, formando grupos que possuem algum elemento de coesão, mas que se distinguem de outros e se lhe opõe, em maior ou menor nível. Alguns desses grupos não possuem diferenças irremediáveis, e podem conviver sem conflitos (embora nem sempre isso ocorra). Já entre outros, o estado de tensão é permanente. Por exemplo: imigrantes andinos chegam ao Brás e povoam os cortiços locais, por conta de sua mão-de-obra barata. Eles constituem uma classe, a dos imigrantes, que é mal recebida por outra, a dos nativos. Estes se opõem com veemência, reclamando da desvalorização dos salários e da diminuição da disponibilidade dos empregos, gerando uma inquietude entre ambas. Percebam como uma realidade empurra a outra. Uma classe foge da miséria e a outra não quer dar elementos para que a mesma miséria se avizinhe. No final, há a síntese, até mesmo porque, ao se escalar o nível, nota-se que andinos e locais pertencem, eles mesmos, a uma mesma classe, mais abrangente: a dos pobres, que se oporá à dos remediados, e que, somadas, se oporão à elite. Esse impulso espiral compele (ou força) as situações a saírem de suas estagnações, e rumar para seu lado oposto, porque, obviamente, não faz sentido que caminhem para o lado pior.

Segundo Marx, é o sob o prisma da luta de classes que todo fenômeno social deve ser compreendido. Se o dólar subiu, se há poucas vagas nas creches, se a escolaridade melhorou, se há mais crimes contra a vida que contra o patrimônio, deve-se encontrar quais são os interesses das classes envolvidas no fato e deslindar a dialética que redundou em seu desfecho, em sua síntese.

Finalmente, vamos falar de outro alemão, também ele pilar sociológico: Max Weber (de quem já falei neste texto). Se Durkheim propõe um escopo e Marx um método, Weber dá à Sociologia suprimento para outra necessidade científica – os modelos, essenciais à capacidade de realizar predições. Isso é feito através do que foi chamado de tipo ideal.

Um tipo ideal é um modelo social que independe da sua existência concreta para a análise do sociólogo. O senso comum pensaria em tipo ideal como modelo de perfeição, mas não é nada disso. “Ideal”, no caso, indica que o modelo existe na ideia, e não obrigatoriamente no mundo prático. Desta forma, ao invés de trabalhar com realidades palpáveis e complexas de se obter, a pesquisa social utiliza modelos abstratos que permitem a sua substituição.

Mas de onde o pesquisador extrai o tipo ideal? Do mesmo lugar que outras Ciências: de um processo de indução, e, para isso, lança mão de uma quantidade suficiente de dados estatísticos, que são a grande ferramenta de trabalho da Sociologia. Weber detectou a impossibilidade de deter a totalidade de informações de um determinado organismo social, e concluiu que amostras significativas podem constituir perfis que permitem prever características coletivas como um todo. Eu vou aqui fazer um exemplo-brincadeira para explicar. Observada a sala onde trabalho, temos as seguintes preferências esportivas:


Eis que temos que o tipo ideal da sala adora futebol e fórmula 1, curte um pouco de basquete, mas não gosta de vôlei e boxe. O tipo ideal, neste caso, tem um encaixe perfeito, que é o indivíduo D***. Veja que, enquanto indivíduo, o cidadão W*** é o exato oposto dessa tendência, um contramodelo, mas se você socialmente quiser colocar uma TV para nossas horas de folga, terá que priorizar futebol e fórmula 1, com alguma coisa de basquete. Essa é a preferência do grupo, sintetizada em seu tipo ideal. Pode deixar vôlei e boxe para lá, W*** que se lasque. É óbvio que isso é um chiste para aporrinhar o colega de gosto exótico, mas é uma maneira eficiente de abranger maiores fatias de uma determinada população em uma decisão governamental, por exemplo.

Minhas remissões aos três autores são meramente superficiais neste post, há muito mais para extrair deles, com teses absolutamente geniais sobre suicídio (Durkheim) e capitalismo (Marx e Weber). Mas, para dar uma palhinha sobre suas contribuições seminais à Sociologia, parece-me suficiente. Bons ventos a todos.

Recomendação de canal:

Recomendo o canal Sociovlog, do Robson Lima, um professor e pesquisador jovem e muito claro, que fala sobre vários temas ligados à Sociologia, indo muito além da santíssima trindade mencionada no presente texto. Segue o link:

https://www.youtube.com/channel/UC_-q4wp-W3B6HJW_mqI4Cmg

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Dos dias em que o vento nos afasta do mar - 6º sopro: São Lourenço e as armadilhas do desencantamento do mundo

Olá!

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Ainda em recuperação das emoções e desventuras no antiquário em Cambuquira, a articulação para os rumos a serem tomados no dia seguinte apontaram minha barca para a maior cidade da região, que é o polo por onde toda a redondeza orbita, já que é significativamente mais populosa e, por efeito, mais equipada de comércio e serviços. Trata-se de São Lourenço.


O nome remete ao padroeiro da cidade, dada a sua data de criação, que coincide com a suposta ocasião de seu martírio. Conta-se que, a exemplo de tantos cristãos dos primeiros séculos, o diácono Lourenço não quis renegar sua fé, o que, à época, representava uma sentença de morte. O ponto notável é que, embora tendo sido morto queimado, novamente como outros tantos, não foi exposto diretamente às chamas, mas colocado em uma espécie de grelha. Morbidamente: ao invés de cristão na brasa, temos aqui cristão na chapa. Minha liberdade na brincadeira tem eco no próprio relato de sua paixão, onde se diz que o mesmo Lourenço, ao já se encontrar bastante queimado de um lado, sugeriu aos carrascos que o virassem do outro, para assar por igual. Quem disse que o bom humor não pode estar presente até nos momentos difíceis? Sua basílica é essa aí:


Ainda no campo da religiosidade, tenho mais duas observações a fazer. Na primeira, temos um curioso templo, de uma entidade da qual eu nunca havia ouvido falar: a Sociedade Brasileira de Eubiose. É uma instituição daquelas que costumamos chamar de esotéricas, apesar da flagrante generalização. Eubiose significa algo como “bom modo de viver”, e junta ciência, filosofia e religião. À parte disso tudo, é um lugar bem belo, com um jeitão meio grego, eu achei.


A outra diz respeito a uma singela capela dedicada a Nhá Chica, nas cercanias do perímetro urbano. Há inúmeras representações de santos em estilo naïf, tornando a construção uma coisa única, formando uma coleção de mosaicos de cacos de ladrilhos. A princípio, eu tinha entendido que a capela tinha sido erigida pela própria beata, mas depois vi que não. Bem, no momento certo falarei mais sobre ela.


São Lourenço extravasa muito da questão da religiosidade. Um dos mais admiráveis equipamentos culturais de lá é o sistema ferroviário, que preserva bem conservados uma estação inaugurada em 1884...


... e uma linha operante de caráter turístico, ligando São Lourenço ao município de Soledade de Minas, com preço assombroso (o que não foi exatamente um problema, dada sua operação unicamente em fins de semana). É tudo à moda antiga, com locomotivas a vapor. Esta da foto já foi aposentada, sendo apresentada apenas como objeto museológico.


Ainda nas vizinhanças da estação, fica situado o Educandário São Lourenço, uma escola ainda ativa que funciona em prédio histórico, gerida pela Igreja Católica, dando uniformidade ao conjunto arquitetônico da região.


Históricas também são as árvores da praça. Segundo se diz, são as mesmas que a florestaram na ocasião da construção da gare. As raízes de concreto, que se estendem em forma de mão na direção delas representam a proteção à natureza e à história, e foram idealizadas pelos alunos do educandário retro.


Só que São Lourenço tem um elemento turístico ainda mais característico – o gigantesco Parque de Águas, que abraça mais de 400 mil metros quadrados de paisagismo, área verde, lagoas e fontes, além de outras veredas, como o caminho do bambuzal.


Um dos principais equipamentos do parque, sem dúvida, é o balneário, onde a água é utilizada para práticas estéticas e medicinais. O prédio é imponente, regendo toda a área do lago.


O lago, aliás, não só é morada de uma montanha de garças e patos, mas é ponto de lazer, porque é navegável. Há diversidade – pedalinhos, caiaques, miniescuna e botes...


... como o que eu e a patroa fretamos por uma hora. Não sou atleta, longe disso, e é meio confuso nas primeiras remadas, mas depois pega-se o jeito e dá para fazer altos rolês pelas águas, sempre bem acompanhados.


Também aqui dentro há lugar para as manifestações religiosas. Além de uma imagem tida como milagrosa de Nossa Senhora dos Remédios, cheia de ex-votos e agradecimentos, o parque é sede da ermida do Bom Jesus do Monte, onde moram religiosos, e por isso seu acesso é restrito. Mas há um elevatório onde os fiéis podes dirigir suas preces ao céu e ter uma visão um pouco mais ampla daquele setor.


Dentro do parque, há alguns animais que vivem soltos, como vários passarinhos, borboletas e alguns macaquinhos sauá, com sua longa cauda preênsil. Alguns deles são expeditos o bastante para se aproximar dos caminhos artificiais e ganhar suas frutas.


O centro das atenções, naturalmente, está nas fontes. O parque tem nove delas, entre gasosas, sulfurosas, magnesianas e etc. Todas elas ficam acomodadas em construções semelhantes a quiosques, e são canalizadas por bicas, de acordo com suas propriedades medicinais. Ficam espalhadas por toda parte, para dar uma melhor dinâmica na caminhada.


Há fartas descrições das propriedades de cada uma delas, em painéis explicativos, o que é muito legal. Há inclusive avisos para aquelas que precisam ser consumidas com parcimônia. A fonte ferruginosa, por exemplo, chega a ter a água levemente turva, o que indica grande quantidade de elementos em suspensão. É bom não ir com muita sede à fonte (ai!).


Em um dos quiosques, há uma curiosidade: um bico de gás, que muitas pessoas procuram alegando benesses respiratórias. Algumas reclamam se sentir mal ao respirar, outras dizem sentir uma renovação do fluxo de energia. Eu e a patroa demos nossa cafungada, e somos unânimes: ainda que por somatização (vide), dá um levíssimo barato.


Todas as cabanas que guarnecem as fontes são de bela feitura. Pudera. Há uma Nestlé por trás da sua manutenção, sem crítica. Esta aqui é uma das mais visitadas:


Há também um “lado de lá” do parque. Acessível por intermédio de um túnel, um novo quarteirão está sendo formatado para expandir a obra. Por ora, há um jardim japonês já completo...


... e uma fonte sulfurosa, cuja água, por motivos óbvios, tem um cheirinho meio demoníaco. Esta é a parte do parque II que ainda está sofrendo um processo de ajuste na paisagem. De fato, a fonte está apenas funcional, ao contrário do que acontece na gleba principal.


Falando em projeto paisagístico, este parque é mais complexo do que o de Lambari, minimalista, e o de Cambuquira, bucólico. Como o espaço permite, o pessoal que cuidou desse aspecto teve mais liberdade e pode viajar mais na maionese. Foram buscar na mitologia grega as figuras das ninfas, divindades menores, todas elas femininas e que representam os espíritos da natureza.


As ninfas não representam uma classe uniforme. Há várias espécies delas, sempre de forma etérea, como se constituíssem a alma do ambiente em que habitam. Há ninfas das selvas, das montanhas, dos vales, dos ventos e de tudo o que se pensar em termos de ambiente. Aquelas que povoam os mundos aquáticos, como as que temos aqui, são chamadas de náiades.


Também as náiades não são um bloco fechado. Como os ambientes aquáticos são bastante diversos entre si, como oceanos, rios, lagos e etc., existem náiades específicas das fontes, que lhes emprestam os dons de cura e saciedade: as crinéias.


As crinéias mais famosas foram Aganipe, filha do deus-rio Ternesso, mãe de Dânae e habitante da fonte de mesmo nome, no sopé do monte Hélicon; e Salmácis, caso único em que uma divindade feminina tenta violentar um outro deus, Hermafrodito, o filho de Hermes e Afrodite. São representações da beleza e da perfeita integração entre homem e natureza, como as demais ninfas.


Como são interessantes as construções míticas, não? Com poesia e arte, todos os povos sempre buscaram dar explicação não só aos seus sentimentos e aflições, seus destinos e futuros, mas mesmo aos pequenos aspectos práticos de suas vidas. Nesta minha viagem a São Lourenço, enquanto caçava alguma coisa dietética nas abundantes prateleiras de abundantes doces de abundante açúcar, encontrei um pequeno livro (indicado nas recomendações) que conta o mito tupi da criação da Serra da Mantiqueira. Uma história lindíssima, lírica, e que satisfez por muito tempo o imaginário dos povos que o contavam. Não tendo à sua disposição um aporte científico, justificavam a existência de seu meio através de um sistema intrincado de contos e lendas. Em síntese: o Sol vagava pelo mundo em sua eterna alternância com a Lua, quando avistou em um pequeno lugarejo uma mulher linda, pela qual se apaixonou. Diante de tanta beleza, o Sol deixou de se pôr, para contemplar sua paixão, secando os rios e gretando a terra. A Lua, revoltada, foi apelar a Tupã, o deus supremo, que condenou a jovem que se atreveu a apaixonar o Sol. Atirou-a ao fundo de um vale, ao redor do qual havia uma imensa cadeia de montanhas, e a escondeu na escuridão que se formou. O Sol, todas as tardes, avermelhava-se de tristeza e ia se afundar no mar, por detrás do horizonte. Vendo a sua tristeza, também a Lua se comoveu, chorando as estrelas que povoam o céu, enquanto a índia de nome perdido no tempo chorava todas as noites por não mais poder ver o seu amado. Daí, o nome Mantiqueira, a "serra que chora" em língua tupi. Vai dizer que não é bonito?

Mas o mundo moderno, com exceção das religiões fortemente institucionalizadas, abandonou a narrativa mítica, apesar de sua beleza intrínseca. Por que?

Penso que tinha razão nosso caro Nietzsche quando afirmou que o homem perdeu a capacidade de suplantar a si mesmo ao abandonar a formação de uma mitologia nos moldes da tragédia grega (revivida pela pobre Lusa, como descrevi neste texto). Mas o bigodão acha que o sacrifício do pensamento estético se deu por força de uma mudança de paradigma epistemológico, ao se adotar o racionalismo extremo proposto por Sócrates. Mas há mais de um caminho para analisar a questão. Vou seguir o itinerário sociológico de Max Weber para tentar fazer uma outra compreensão do abandono dos mitos.

Weber percebe como a religião morde seu próprio rabo quando surge o novo paradigma proposto pelo Protestantismo. Inicialmente, o Cristianismo baseia-se fortemente na ideia de que o mundo terreno é uma instância passageira, de onde os fiéis deveriam buscar simplesmente ferramentas que pudessem garantir suas salvações: boas ações, boas palavras e bons pensamentos. Este mundo não é o Reino de Deus prometido pelos profetas, em suma. É um terreno de castigo, longínquo do paraíso edênico. Ele tem mais a atrapalhar do que a ajudar, com suas tentações e oferecimentos às vaidades humanas. Além disso, o mundo é um lugar de provação, onde o trabalho é uma atividade vista como um castigo divino: comerás teu pão com o suor do teu rosto. Não à toa, a palavra trabalho tem origem no latim tripalium, três paus, que eram um instrumento de tortura.

Com o advento da Reforma Protestante, há uma mudança na filosofia salvífica e, de embalo, no modus vivendi do cristão. Weber nota que a mudança mais radical se dá através não dos ditames de Lutero, primeiro reformador bem-sucedido, mas da interpretação de Calvino.

Ao contrário do que pensava a corrente dominante do Cristianismo, Calvino entende que a salvação não se dá pelo conjunto da obra de um ser humano, mas da livre vontade de Deus. A tese é a seguinte: Deus é um ser superior a toda a humanidade, que lhe é totalmente subordinada. É impensável que a criatura possa prescrever condições ao seu criador. Sendo assim, Deus admite ao seu lado quem ele bem entender, e não há nada que o homem possa fazer para mudar isso. É a doutrina da predestinação: o homem já tem seu destino escrito e definido.

Mas isso traz uma dificuldade aparentemente insanável. Se já se está marcado por um destino imutável, dependente exclusivamente da vontade divina, como fazer para se ter noção de quem pode ou não ser salvo? Calvino diz que Deus dá “dicas” de suas escolhas – o homem escolhido é próspero, ele tem recompensas já em sua vida terrena. Assim, se os negócios vão bem, se a terra é produtiva, se a freguesia cresce, se os bens se acumulam, isso é manifestação inequívoca da benesse divina. De cara, esse pensamento tira o aspecto pecaminoso que o Catolicismo atribuía ao lucro e à sua variante mais mesquinha, a usura. Sendo a prosperidade uma manifestação da vontade de Deus e o lucro sendo seu principal propulsor, nada há de errado nele.

Essa filosofia religiosa caiu como uma luva para o contemporâneo capitalismo que florescia. Devidamente escusado de seus pecados, os capitalistas encontravam o conforto antes inexistente para a prática de suas atividades, o que, inclusive, desmistificava a visão negativa que se dava ao trabalho.

Weber nota uma coisa interessante, derivada disso tudo: os católicos se preocupam com uma educação humanista, enquanto os protestantes dão maior importância à educação técnica, e uma das consequências aparentes é que os negócios vão todos caindo nas mãos destes últimos. Eles estão melhores acomodados com a posição individualizada da dicotomia protestantismo-capitalismo. Lembrem-se: sendo escolha única de Deus, a salvação se aplica a indivíduos, e não a grupos. A comunidade agora é menos importante do que o indivíduo, que passa a olhar muito mais a si mesmo. O individualismo passa a ser a doutrina subjacente tanto à religião quanto ao sistema econômico, com o trabalho como bandeira a ser carregada. Quase que por uma motivação psicológica, a propensão ao trabalho do protestante vira uma ética do dever laboral – o trabalho não só não é mais um castigo, como ele é uma obrigação, um espaço do qual Deus se utiliza para manifestar suas decisões.

E é aí que nasce o busílis. Ao preconizar um mundo já delineado, cuja única ação tem por propósito dar vazão àquilo que já está decidido, tem-se que praticamente apenas o trabalho é a oferta que se tem a fazer a Deus. Uma vida ascética não tem mais valor, um culto aos santos e a imitação de suas vidas não tem mais valor, incensos e velas não tem mais valor, narrativas míticas (a não ser aquela chancelada pelo seu livro sagrado) não tem mais valor. O mundo perde por completo seu aspecto mágico e passa a se pautar unicamente pela “racionalidade”. É o que Weber chama de desencantamento do mundo, que não tem o sentido de desilusão ou desapontamento que o termo parece dar, mas de exclusão de todo o misticismo.

Só que é exatamente aí que o parafuso quebra na próxima volta. Da mesma forma que o capitalismo encontra no calvinismo sua cara-metade religiosa, também este vai se constituindo em restante do aspecto místico a ser descartado. Em um mundo cada vez mais laico, e com os progressos científicos cada vez mais substituindo a necessidade de orações, e com o paradoxo dos prósperos de outras religiões, e com o malabarismo lógico para conciliar (sem sucesso) predestinação e livre arbítrio, o fato é que a ética do capitalismo baseado no calvinismo aproveita-lhe apenas o esqueleto, como se fosse um fóssil. E a cobra morde o próprio rabo. O desencantamento do mundo mostra ainda mais uma vez suas garras, sufocando o próprio movimento religioso que lhe deu origem.

E nesse meio tempo já se perdeu todo o lirismo das diferentes mitologias... O mundo desencantado de tudo seria o cúmulo da chatice, não fosse a arte, mas isso é tema para outro momento.

Recomendações de leitura:

Basilar na Sociologia, o livro abaixo representa o suprassumo da visão weberiana sobre a influência da Religião na vida da sociedade. Se o assunto interessar, não deixe de ler.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 2000.

Também referenciei o livrinho que encontrei em São Lourenço sobre o mito do surgimento da serra da Mantiqueira. É ótimo para crianças, porque é todo ilustrado pela própria autora, mas que serve muito bem para exemplificar a poética a que me refiro neste texto.

BAJGIELMAN, Selma. Lenda da Mantiqueira. São Lourenço: Novo Mundo, 2014.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Sobre tradições arraigadas e onde elas podem por pedras no caminho da modernidade [Pequeno guia das grandes falácias - 36º tomo: o apelo à tradição (argumentum ad antiquitatem)]

Olá!

Uma agulha finíssima, uma seringa plena de glicose com mais alguma substância, uma mão habilidosa e o milagre acontece: picada a picada, os pequenos vasos da patroa vão sumindo à frente dos meus olhos, substituídos temporariamente por uma leve irritação e um subsequente esparadrapo. É o tratamento chamado escleroterapia, destinado a dar fim nas telangiectasias, os pequenos vasos sanguíneos capilares que arrepiam os cabelos de nossas consortes. Um dos métodos mais comuns é este que descrevo: o angiologista (mais conhecido como “vascular”) inutiliza o vasinho já dilatado e pouco funcional, fazendo-o desaparecer, já que é o fluxo do sangue que o torna vivaz. Fechado o caminho, o sangue vai procurar outras rotas para seguir seu curso, da mesma forma que faz a vida a caminho da morte.

Líquidos que são utilizados para suprimir os fluxos de outros líquidos... Não é à toa que a Filosofia nasceu especulando que a água era o elemento primordial de tudo. Hoje, com todo o aporte científico que temos, sabemos que as coisas não são assim, mas não foi sem dor que chegamos a esse tipo de conclusão. Penso nisso porque, ainda hoje, escuto no consultório do angiologista, meio que lateralmente, alguns comentários sobre o já distante acidente fatal com a cantora Clara Nunes, que morreu em 1983 por complicações alérgicas em reação à anestesia que tomou para uma cirurgia de remoção de varizes. Sim! As pessoas têm tanto medo de morrer que desenterram uma história de mais de 30 anos, cheia de teorias da conspiração, com tecnologia anestésica totalmente superada. Pode-se morrer de choque anafilático ainda hoje? Sim, é claro. Mas essa bolachinha que você está comendo enquanto me lê pode conter uma bactéria que vai te levar para a cova. Como diz o senso comum (desta vez com sabedoria), para morrer basta estar vivo. Por isso mesmo, é bom não ficar queimando muito a chapa com esse tipo de coisa. Vai arrancar essas varizes que te fazem sofrer. Faça uma boa macarronada com elas.
Falando em bactérias e líquidos, penso em Cláudio Galeno, médico e filósofo romano do século II, brilhante em suas teorias fisiológicas, que perduraram por muitos séculos. Foi dele que as práticas de dissecação e vivissecção se voltaram para objetivos medicinais e profiláticos. Portanto, embora suas teses estejam hoje superadas, é importante que sejam conhecidas para que se compreenda como se constrói uma Ciência.

Vejamos. Quando uma pessoa ficava doente, nem sempre era possível determinar uma correlação direta com uma causa. Óbvio: comer carne podre dava uma bela diarreia (voltarei a isso), mas havia outras moléstias que pareciam surgir do nada. Acordava-se indisposto, febril, dolorido; pensava-se no que se havia feito de errado no dia anterior – um dia a mais enfileirado no caminho, sem nada de especial. O princípio do Deus das Lacunas fazia pensar na insatisfação de alguma divindade especialmente suscetível, mas as coisas permanecem incertas, mesmo assim.
Pois bem. Galeno, estudante de Hipócrates, com sua faquinha ligeira e seu espírito desbravador, gostava de dissecar macacos, animais com fisiologia bastante próxima à do ser humano. Além dos costumeiros órgãos e vísceras, o que mais via no interior dos organismos eram líquidos – sangue, linfa, secreções, sucos gástricos, urina, às vezes pus, às vezes esperma e assim sucessivamente. O indicativo era intuitivamente claro – os líquidos do corpo possuíam um equilíbrio tal que, movidos seus respectivos níveis, havia influência direta na saúde e – mais ainda - na personalidade das pessoas. E aqui já vamos deixar registrado que, ainda que as teses de Galeno já não sejam válidas, uma coisa ele sacou com precisão: disposições físicas podem determinar comportamentos psíquicos, como a moderna neurologia já detectou. Deficiências em certos neurotransmissores e hormônios são causas comuns de depressão e outros acometimentos mentais.

Mas vamos detalhar um pouquinho a teoria dos humores. De todos os fluidos do corpo, Galeno isolou quatro – o sangue, a fleuma, a bílis negra e a bílis amarela. Estes líquidos eram os componentes que se misturavam em diferentes proporções no organismo e que, além de determinar sua saúde, davam à personalidade do contribuinte algumas características.
Esses quatro termos são mais conhecidos como humores. A palavra “humor” não nasce de alguma indicação de temperamento. Essa associação será feira posteriormente justo por causa da teoria dos quatro humores (cuidado com a inversão de causa e efeito), que diz que é a quantidade de um dos humores que dá a linha de comportamento de um indivíduo. O vocábulo surge do latim humore, que significa líquido. Até hoje, há alguns líquidos do organismo que são chamados tecnicamente de humores, como é o caso dos humores vítreo e aquoso, que representam as partes gelatinosas do olho em contato direto com a retina e o que preenche as câmaras oculares, respectivamente.

Bem, o que são cada um desses líquidos? A fleuma é a substância gelatinosa que recobre a superfície das vias aéreas, o famoso muco. A bile amarela é um líquido secretado pelo fígado e que serve para emulsionar as gorduras. A bile negra seria excretada pelo baço (o que não é um fato) e o sangue... O sangue é sangue. Cada um desses líquidos seria capaz de carregar consigo um pacote de características físicas que dariam por resultado um certo comportamento. Assim, a fleuma traz a frieza; a bile amarela, a ira; a bile negra, a tristeza, e o sangue, o ardor. Todos os indivíduos possuem os quatro humores, sendo que a sua combinação dá um determinado modo de ser para cada um. Assim, os indivíduos sanguíneos, com excesso de sangue, seriam afetuosos, hiperativos, fortemente emotivos. Os fleumáticos são calmos, ponderados, até mesmo indiferentes. Os coléricos (do grego kholé, bile) são raivosos, vingativos, impacientes, e os melancólicos (de melas kholé, bile negra) são tristes, pessimistas, dados à passividade. Os comportamentos transitórios são explicados por uma perturbação eventual do equilíbrio dos humores. Isso explicaria nossos estados de comportamento: quando estou com raiva, há uma maior proporção da bile amarela na composição dos líquidos do meu corpo. Se estou em “estado de repouso”, os humores voltam ao seu estágio natural, e aquele de maior teor dará minha característica geral, o meu humor típico.
A teoria dos humores persistiu por anos a fio, e sua base se dava nas ferramentas que se dispunham à época: observação direta, dedução e especulação. Nada mais do que isso. Só foi sendo paulatinamente derrubada por provas e mais provas de seus enganos (embora houvesse algum sentido lógico e algum acerto fisiológico, como já mencionei anteriormente), até ser totalmente superada. Mas houve tanta resistência que até hoje há quem continue atribuindo veracidade à teoria dos quatro humores, de maneira espiritualizada.

É que as tradições são difíceis de ser transformadas. Quando passamos um conhecimento de um para o outro (a origem da palavra tradição – traditio - significa a passagem de alguma coisa para outra pessoa, mas não uma coisa qualquer; é coisa de valor, importante, que queremos que seja mantida pela pessoa que a recebe) é transmitida também uma relação de confiança. Em cada valor que transmitimos temos a esperança de que esse valor seja mantido e retransmitido para todo o sempre. Pense bem: você não gostaria, de fato, de que tudo o que é importante para você seja importante para o universo inteiro, em todos os tempos? É esse o caso. As tradições nascem de coisas importantes, ainda que esse significado seja dissipado pelo tempo. O grande problema é que uma tradição tem um valor efetivo enquanto ela carrega um significado. A partir do momento em que a tradição se dissocia do seu tempo e passa a ser um mero ritual, é preciso repensá-la ou abandoná-la. Hoje em dia, retomando nosso tema, é incompreensível que se atribua uma doença ao desequilíbrio de humores. Quando a tese surgiu, não havia instrumental para saber que existiam bactérias, vírus, protozoários e outros buliçosos microorganismos. A diarreia pela carne podre se explica pelas bactérias que ela contém, e não pela ingestão pura e simples. Galeno não tinha como saber disso, então usava a lógica possível, que era engenhosa e se consagrou, mas não era correta.
Podemos dizer que a tradição é, portanto, irracional? Vamos com calma. Como a tradição exige um certo fluxo (não há tradição aferrolhada em uma única pessoa, senão não é tradição, ora bolas), ela sempre é social. Um cara que falou sobre esse tema foi Max Weber.

Maximilian Weber faz parte da tríade sagrada da Sociologia, ao lado de Émile Durkheim e Karl Marx. Porém, ao contrário de ambos, que entendiam ser a própria sociedade que moldava os seus componentes, Weber apontava seu telescópio para o indivíduo, célula social sem a qual não é possível interpretar o funcionamento de todo o organismo. Eles são os atores que encenam as ações sociais, uma de suas principais teses. E o que é essa coisa?
Ação social é qualquer atitude consciente, seja ativa ou reativa, em que é dado algum sentido a quem a executa, e em que haja outros indivíduos envolvidos. Não existe ação social que não envolva pelo menos duas pessoas. Logo de cara, devemos diferenciá-las dos comportamentos passivos, porque nestes existe uma habitualidade que faz com que se aja com o piloto automático ligado, como fazem as pessoas que se benzem inconscientemente ao passar na frente de um cemitério.

Max Weber, após seus estudos, chegou à conclusão de que quatro eram os tipos de ação social realizados pelos indivíduos, sendo dois deles instrumentalizados pela razão, e dois que prescindem do componente racional. Para tentar entendê-los, vamos nos colocar de pé no domingo pela manhã e nos encaminhar à feira mais próxima. No meu caso, é a da Baixada do Glicério.
Ir à feira é uma autêntica ação social. Tenho consciência de que cometo alguns sacrifícios, como levantar cedo em dia livre, para obter alguns benefícios, que é o de comprar frutas e legumes. Também não estarei apenas eu envolvido. Os feirantes que me venderão, patroa e filhos que consumirão, pedintes que mendigarão, todos estão envolvidos, direta ou indiretamente, na ação social “ir à feira”. Mas há diferenças nos possíveis motivos que levam a ela.

1. Posso ir à feira porque quero comprar frutas, legumes e verduras;
2. Posso ir à feira porque acho que os supermercados são grandes centros capitalistas que querem tirar as oportunidades dos pequenos vendeiros e concentrar renda, atitude da qual discordo verticalmente;

3. Posso ir à feira porque tenho muitos amigos e velhos companheiros nas bancas e nos estreitos corredores;

4. Posso ir à feira porque minha família sempre foi à feira, desde meu avô que veio da Itália, passando pelos meus pais e chegando a mim, que já me encarrego de levar meus filhos junto, para que também eles o façam a seu tempo.

Agora vamos analisar as motivações, uma a uma. No primeiro caso, minha ida à feira deriva de uma necessidade que preciso suprir. Raciocino sobre essas necessidades e concluo que devo me encaminhar à feira, pois lá encontrarei os suprimentos desejados. Percebam que a ação social, neste caso, é motivada racionalmente por um objetivo certo e bem delineado. Há uma finalidade – é o que Weber chama de ação racional relacionada a fins.
Na segunda opção, também tenho um dispositivo racional a me mover. Só que, neste caso, o que me motiva não é a finalidade em si – comprar bananas e acelgas – mas um valor. Posso achar ético que mais pessoas tenham uma oportunidade de trabalho, e por isso deixo de aproveitar os melhores preços do mercado para procurar pela distribuição de minhas parcas moedas para um maior número de pessoas. É uma ação racional relacionada a valores.

Vamos à terceira hipótese. Neste caso, não estou preocupado com frutas ou legumes, nem com o valor de uma compra para um pequeno comerciante, mas estou a fim de bater papo, rever amigos, contar um pouco de mentiras e vantagens, comer um pastel e reclamar de seu pouco recheio. O componente racional é abandonado para ser substituído por algo que me toca os sentimentos, um componente emocional. É a ação afetiva.
Por fim, na quarta hipótese não há racionalismo aplicado, nem mesmo um laço afetivo. Vou porque sempre fui, porque meu pai ia, porque meu avô ia, sem me preocupar com objetivos, valores ou afetos, sem levantar questionamentos. É um mero uso, um costume. Esta é a ação tradicional.

Isso significa que a ação social tradicional é um mal em si e que deveríamos eliminar as tradições? Não, mil vezes; não é isso que estamos falando. Em primeiro lugar, não vivemos racionalmente cem por cento do tempo, ninguém consegue fazer isso. Muito pelo contrário. Desde cedo, aprendemos a adotar séries de ações “decoradas” justamente para liberar a cabeça para pensar. Imaginem se a cada passo rumo à feira eu precisar fazer uma análise completa sobre os proveitos e deméritos do meu ato. Em segundo lugar, acostumamos a pensar nas tradições como componentes formadores de nossas próprias histórias, e que é importante mantê-las. Não há nenhuma dúvida quanto a isso, mas percebam a mancada. Quando me preocupo em conservar um tipo de música, um jeito de dançar, uma indumentária, uma certa técnica arquitetônica, em suma, em contar a história e os costumes da minha família ou da minha cidade – em preservar uma tradição – minha ação ganha um objetivo, que nasceu de uma ponderação. Nesse sentido, manter as tradições não é uma ação tradicional, mas uma ação racional voltada a fins. Entenderam a diferença?
Sinopse: a ação tradicional não é um problema em si mesmo. Ela só se torna um problema quando obstaculiza uma ação racional. Não faz sentido, por exemplo, continuar a tomar beberagens tendo medicamentos comprovadamente eficazes. Mas também é preciso pensar sobre o que nos amarra às tradições irracionalmente. Um dos motivos é o conforto, uma tendência à imobilidade. Se estamos vivos, bem ou mal adotamos uma estratégia de sobrevivência certa. É isso que nos insere nos mecanismos de evolução, animais que somos. Por isso temos a tendência a ser conservadores: mais do que manter situações de privilégio, a tendência atávica é de fugir de riscos. Mas também somos humanos, e não estamos aqui apenas para sobreviver. O mundo ao nosso redor evolui e precisamos continuar caminhando sobre ele. As tradições precisam ser continuamente reavaliadas para serem utilizadas da maneira correta – como um valor plenamente válido, como uma instância favorável de uso ou como um retrato na parede, de doce memória. O importante é que a tradição tenha sentido e que não seja um atravanco em nossas vidas.

Vamos dar um exemplo bem cabal da perda de sentido de uma tradição. Os dogmas católicos indicam que há alguns dias do ano destinados à contrição e à penitência, em especial nos períodos chamados de Quaresma e Semana Santa, tempos preparatórios para a principal solenidade desta religião, a Páscoa. Em tese, são dias em que o fiel deveria passar em recolhimento e oração, evitando abusos de prazeres mundanos. O cume deste estado seria a Sexta-feira da Paixão, que inclui a restrição de alimentos como carne vermelha, fortemente vinculada à luxúria e à vida desregrada. O peixe, ordinário, não entrava nesta conta, porque era considerado comida de pobre. A tradição persiste até hoje, e durante estes dias restritivos, onde se prega a humildade e simplicidade de atitudes, onde se é exercitado o desprendimento das coisas terrenas, onde se busca desvencilhar dos prazeres, substitui-se o pecaminoso bife por um modesto e bem comportado... bacalhau!!!
Sim, é verdade. A tradição da Sexta-feira da Paixão desembocou, aliada à tradição culinária portuguesa, na orgia consumista do caríssimo peixe, muito mais oneroso que um ostentativo filé mignon. Ocorre que, em Portugal, o bacalhau é abundante e barato, no exato contrário do que acontece em nossas plagas tropicais. O dito bacalhau é um verdadeiro devorador de cartões de crédito, porque não basta ser caro, é preciso ser muito. Que dê, ao menos, para o almoço e a janta. Imaginemos uma oração fictícia a ser realizada no prólogo da refeição de uma igualmente fictícia família na Sexta-feira Santa:

“Ó, Senhor! Tu, que passaste 40 dias no deserto em jejum para viver livre das tentações, que viveste com pouco e partilhaste com pobres e desfavorecidos de todo tipo, receba nossa oração neste dia de sua morte, onde descemos à máxima humilhação de nos mal alimentar com uma insignificante bacalhoada à Gomes de Sá, guarnecida por uma caponata com alcaparras e regada por um vinho Madeira, em celebração ao teu santo sangue, e trancamos nossas tendências ao pecado sorvendo pasteis de Santa Clara, padroeira da parcimônia. Pedimos penhoradamente que nos dê força para suportar esta privação em sua honra e glória. Amém!”.
Para onde se encaminhou o sentido da tradição da Sexta-feira Santa? Percebem como é uma tradição vazia? A ação social da bacalhoada na Sexta-feira da Paixão não é nada mais do que isso: uma ação oca de racionalidade. É um problema a ser resolvido pelos católicos: ou se arregimenta suas massas, lembrando-as dos significados da sua tradição, ou se abandona a mesma. Do jeito que está, há só cinismo.

Mas sabemos o quanto é difícil mudar hábitos arraigados. Pela própria pressão psicológica de estabilidade e conservadorismo que já citei, há uma tendência quase natural a se selecionar argumentos para justificar uma tradição. Só que nem sempre isso representa uma boa lógica. E, nestes casos, vemos brotar um tipo de falácia informal de dispersão e relevância conhecida como apelo à tradição (argumentum ad antiquitatem).
O apelo à tradição tenta nos impingir o convencimento de que algo é melhor porque é tradicional, porque é muito antigo, porque é repetido por muitos e muitos anos, e que deve preponderar sobre o novo apenas e tão somente por isso. O seu principal mote é atribuir uma espécie de crivo temporal pelo qual a tradição não teria sobrevivido se não fosse valiosa. Mais ou menos como um livro, que, por ser antigo, contenha melhores informações do que um novo.


Antigo não significa antiquado, mas é preciso ter cuidado para achar que as coisas novas não podem ser melhores por não ser tradicionais

É claro que essa linha de pensamento é inválida, como pudemos perceber pelas teses de Galeno. Do mesmo modo que algo não é bom pelo simples fato de ser moderno (vejam meu texto sobre o apelo à novidade), também a idade não é argumento suficiente para dar suporte e consistência a uma tese. Nem vou dar exemplos porque os mesmos já restam abundantes neste post.

Mas apelar à tradição nem sempre é falacioso. Como premissa básica, podemos afirmar que antigo não é sinônimo de antiquado. Por isso mesmo, um livro de um autor antigo não é, obrigatoriamente, um livro defasado por completo. É necessário, por conseguinte, que se contextualize adequadamente onde a tradição tem relevo. Galeno mesmo tem importância real na história da medicina pela sua tradição de pesquisa e filosofia, isso ninguém pode tirar dele. O que se precisa evitar é achar que trepanações e sangrias são melhores do que o uso de medicações exaustivamente testadas em laboratório. É isso o que fere a lógica.
Recomendações de leitura:

Weber é basilar na Sociologia. Qualquer um que se interessar no assunto tem que passar por ele, obrigatoriamente. O livro abaixo é aquele onde melhor se discorre sobre suas teses de ação social.
WEBER, Max. Economia e Sociedade: Fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Unb, 2000.

Não consegui achar nada de Galeno em português. Para quem se interessar muito, há esta edição em língua inglesa de um de seus livros mais expressivos.
GALENO, Cláudio. On the therapeutic method. Gloucestershire: Clarendon, 1991.