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terça-feira, 3 de maio de 2022

Sobre vestimentas e a autenticidade do eu

(Quanto que uma roupa diz sobre o que nós somos? Seria uma mera questão de moda ou um conflito da verdadeira identidade?)

Olá!

A pandemia ainda não acabou, e demanda cuidados, mas é fato que as coisas vão lentamente voltando ao seu eixo, muito por conta da eficiência das vacinas, aquelas que foram tão combatidas por certas trupes de malucos. Esse tão propalado "novo normal" carrega consigo uma boa parte de sustos e traumas. Como exemplo, cito as várias pessoas que trabalham comigo e persistem no uso da máscara (eu incluso), embora não seja mais obrigatória.

Para além disso, há novos costumes de natureza ainda mais pessoal. No meu caso específico, adotei uma política diferente de indumentária. Antes, recobria-me de infernais ternos e gravatas, mesmo para dias senegaleses. Agora, só o faço de acordo com a pauta: tem reunião com graúdo, tem paletó; do contrário, há camisetas e o bom e velho brim. Ah, mas tem reunião de emergência… emergências não são para desfiles de moda, e vamos com o que temos. Até agora, a chefia não reclamou, então vamos mantendo o hábito até a censura.

Para desgosto da minha defunta mãe, eu nunca primei pela elegância, mas pelo conforto. A coisa piorou significativamente quando passei a ostentar abdômen proeminente, que deixam a roupa com a alegre, porém desengonçada aparência de dono de circo. Embora tenha estudado Filosofia, trabalho com informática, que, infelizmente, paga melhor. E isso me coloca em uma condição estranha. Embora haja certa flexibilidade no vestuário dos desenvolvedores em geral, na área de requisitos temos inumeráveis reuniões, o que nos coloca com o duvidoso título de "representantes da instituição". E aí pega mal estar fora do padrão bem aceito, como se um pano amarrado no pescoço certificasse virtudes em seu portador.


Mas o que a maneira com a qual me visto diz de mim?

Pode-se dizer que é bem pouca coisa, mas há um conjunto de olhos sociais que buscam desesperadamente alguns tipos, digamos, de selo de certificação de que aquela pessoa assim vestida tem algum grau de fiabilidade, de conhecimento, de habilidade, de recursos ou de seja lá o que for. A roupa não diz o que temos por dentro, mas, para quem é de fora, interessa o que é de fora. No caso, exatamente a roupa, o tal selo. Pode parecer maluquice? Pode, mas é assim que se bate o tambor e não tenho muito o que fazer.

Há outros componentes que montam nosso visual. Meu perfil geral é o seguinte: cabelos amarrados em rabo de cavalo, barba sem bigode, roupas preferencialmente folgadas e tênis. Tem gente com cabelo pintado, cabelo raspado, cabelo moicano, cabelo branco e assim por diante, cada um moldando sua moldura de acordo com a dicotomia vontade-possibilidade. Dão a isso o nome de estilo, e, embora cada um diga que tem o seu, a verdade é que o nosso velho ambiente desenha tudo. Se eu fosse ter meu verdadeiro estilo, andaria pelado como um índio. Mas não se preocupem: sou obediente à lei e às normas, e somente serei o mais legítimo possível no seio de meu lar, prometo.

Mas essa questão de estilo. Dizem que a maneira como nos expomos fala muito sobre nós, mas o fato é que diz sobre como queremos ser vistos, e não como somos de verdade. Isso é mais perceptível quando vemos como os tais estilos são massificados, a tal da moda (para ler um pouco sobre isso, tenho estes textos – aqui e aqui). Evidentemente, não existem tantas pessoas iguais, como não existem ambientes iguais, mas temos uma tendência à uniformização, isso não chega a ser surpreendente. Percebam como as casas também são frutos de modas: temos sua aparência pública, e embora possam trazer algum tipo de ideia de época ou do tal do estilo, nada dizem do que ela é por dentro - uma casa rota pode ocultar uma vida harmoniosa, enquanto em casas eruditas podemos ter violência de todo tipo. O mesmo se passa com corpos. A aparência exterior diz pouco, diz aquilo que queremos transmitir, e a paz dos tons azuis pode esconder intensos conflitos. Mas o fato é esse: variamos de aspecto por conveniências, e não por dar reflexo ao que se passa por dentro de nós. Porque quando tentamos fazê-lo, a chance de dar errado é grande.

Eu já falei sobre os motivos pelos quais entendo que as pessoas têm multiplicidade de apresentações e até justifico isso, em um dos textos que entendo ser um dos melhores deste espaço. Mas quero aqui abordar a temática por outro ângulo, desta vez mais psicológico. Isso porque, embora sejamos um e muitos ao mesmo tempo, há aqueles que mais bem se adequam à nossa realidade mental, e outros que parecem ir ao exato contraponto. É algo como alguém que suporta engolir uma amarga cerveja que detesta para ter aceitação de um grupo que aprecia, adorador dessa mesma cerveja. Vou falar em primeira pessoa, mas usando profusamente Kierkegaard na análise.

Embora sejamos menos do que uma minúscula partícula de areia em um imenso universo, quando olhamos para nosso particular percebemos que, no final das contas, somos, para nós mesmos, mais importantes do que todo o restante deste mesmo universo. Pode parecer se tratar de ato de magno egoísmo, mas não é isso. Basta que pensemos o seguinte para compreender: o que seria do universo sem mentes que o absorvam? Ele poderia continuar a existir, mas a poeira e os gases que estão por toda parte não têm em si uma compreensão de sua existência. Ou seja, dar importância a alguma coisa é uma prerrogativa de seres viventes, o que, pelo que sabemos até agora, limita-se ao planetinha azul, essa esferinha cada vez mais judiada. E quem, dentre todos estes, é aquele que percebe o mundo e sabe que percebe? O ser humano. Essa percepção, ainda que possamos pensar em uma espécie de ação coletiva, é feita individualmente. Quem ganha o jogo é o time, é bem verdade, mas o goleiro que defende é um indivíduo, o zagueiro que entra no meio da canela é um indivíduo, o centroavante que goleia é um indivíduo. Nesse escrete chamado de humanidade, a história é escrita por todos, mas vivida individualmente. Cada um de nós adquire o universo para si através dos sentidos, de maneira única e irrepetível. Por essa razão, o indivíduo é, para si mesmo, o centro do universo.

Aí então eu pergunto: o que vale mais para uma pessoa? Seriam os sistemas que explicam no atacado e no varejo as verdades tidas como universais e necessárias, válidas a todo lugar e a todo momento, ou seria a busca individual, que reflita uma realidade que esteja em consonância com o que ela é? Sendo assim, é no detalhe que residem as questões mais importantes para cada um de nós - quem sou, por que sou como sou e quais são os fatores que me afastam de meu verdadeiro eu, a minha essência.

Mas, para além da consciência que temos do universo e de certas noções próprias, como a finitude e a intencionalidade, o que nos caracteriza como humanos? Qualquer que seja a essência de cada um, ela precisa ser materializada de alguma forma. Mesmo que consideremos que há almas, e que elas sejam igualmente intrínsecas ao homem como é o corpo, elas nada seriam sem estar concretas no mundo. Ou seja, nós existimos. E nessa existência está nossa materialidade, a realização de nossa essência, tida aqui como nosso modo autêntico de ser.

Nós existimos não porque respiramos ou enxergamos, mas porque exercemos arbítrios. Em outras palavras, nós fazemos escolhas. O fato de que eu esteja digitando este texto nesse exato momento é um critério meu: eu poderia estar cochilando, escutando a fofoca alheia, especulando sobre a rodada do Brasileirão ou fumando maconha um charuto, e cada uma dessas seria uma escolha, mas eu, dentro das possibilidades, optei por escrever. Se o fiz com liberdade, é uma manifestação da minha essência.

Ocorre que, se eu estou escrevendo, não posso estar cochilando, nem escutando fofoca alheia, nem nada mais. Por isso, a minha escolha implica na renúncia de todas as demais possibilidades. Existe na economia um termo chamado de custo de oportunidade, que é representado por todas as oportunidades que deixei de lado para investir na área de negócio que escolhi, e que representará um encargo eterno na minha mente: não teria sido melhor investir em ações do que ter aberto uma tabacaria? Há uma característica na escolha ampla – ela impossibilita paralelos. Eu não consigo ser careca e cabeludo ao mesmo tempo... que exemplo bobo... Vamos melhorar. Ao optar por não ter filhos, eu trago comigo tudo o que isso representa. Serei livre dos encargos da criação, terei mais dinheiro, minha responsabilidade se limitará a mim e poderei fazer coisas que um pai não faz. Por outro lado, todo o lado positivo de ser pai fará parte da escolha tida na forma de renúncia: a um descendente, a um sucessor, a alguém que cuide de mim na velhice, a alguém que possa receber minhas histórias, etc. Essas questões não são nada óbvias e viram um peso, especialmente nos momentos em que sentimos o barco adernar.

A liberdade de escolher entre a infinidade de possibilidades é uma geradora inesgotável de angústia. E é principalmente dolorosa para quando pensamos em retransformar quem somos para algo diferente. Parece coisa frívola, e pode ser mesmo, mas há duas implicâncias possíveis, tanto no sucesso quanto no fracasso. Pode ser que queiramos virar monstrões, com músculos capazes de esmagar pulgas. Faríamos isso para atender uma necessidade de destaque visual, sob a desculpa de estarmos cuidando da saúde. Se der certo, o cara gordinho, meio suarento e disponível a qualquer instante dará lugar ao marombado que será temido por homens e admirado por mulheres, que, entretanto, não será mais o cidadão boa praça de antes, sempre presente nas rodas de amigos. O novo eu pode se ressentir de tudo o que o antigo perdeu, mas a escolha já se deu e carrega todo o peso das perdas. Se fracassar, contudo, vem o desespero. Esse desespero não está no simples fato de que o gordinho continua ostentando a pança, mas porque ele quis se afastar de si mesmo e não conseguiu. O indivíduo já não suporta a si mesmo, mas não consegue deixar de sê-lo.   

É um beco sem saída, uma aporia? Sem dúvida. Vivemos em confronto com nossa realidade dupla - nosso temporal e nosso eterno, nossa liberdade e nossa necessidade. A cada instante o homem precisa decidir e exercer sua síntese - uma pessoa é um ser sintético. Somos livres para escolher, mas sempre dentro de um leque de possibilidades. Isso indica que a liberdade não é absoluta: temos o arbítrio, mas ele não pode nos levar a qualquer lugar. Menos do que impossibilidades óbvias, como voar ou viver sem ar, a angústia está na imprevisibilidade da possibilidade. Talvez eu resolvesse tingir meus poucos cabelos de rosa, para criar uma imagem de ousadia, mas o efeito seria de tolice. Mas a coisa ainda não seria grave, ainda. Bastaria raspar os cabelos. A questão vai muito mais para o quando temos de corda para nos afastar da âncora que nos prende à nossa própria personalidade. Renegá-la significa expressar uma insatisfação consigo mesmo, mas nós somos o que somos - sou destro e não adianta tentar ser canhoto, sou baixo e não adianta tentar ser alto, tudo o que terei são garranchos ou calos nos pés.

Quantas vezes não nos vemos desesperados? Não o desespero fático de nos vermos ameaçados pela morte, mas por nos vermos desiludidos, especialmente nos momentos em que algo dá errado com nossas escolhas? Ainda que não esteja em sua consciência, o homem luta em desespero para ser a si mesmo, porque toda construção que ele faça para si é um afastamento de si, da sua própria essência. Isso é contínuo e este presente todos os dias de nossa vida. É uma doença da própria vida.

A solução kierkegaardiana é uma aproximação com Deus - ele é cristão. Esse empuxo do espírito vai sempre em direção aos céus, pensa ele, e a angústia é uma decorrência do medo da morte, de quem o cristão, com sua expectativa pela vida eterna, está livre. Nietzsche, por outro lado, diria que a solução para a angústia está em beber a vida de um gole só, ainda que o gole lhe custe a vida*. Ou seja, as contingências da vida carregam a angústia no conjunto, e o negócio não é se paralisar, mas soltar-se na torrente do destino. Na minha humilde, talvez devamos ter um meio termo. Ser cristão e imaginar que a cura do desespero está na religião leva a uma ilusão, porque ninguém consegue assegurar qual seria o caminho certo para chegar a Deus (vejam o número infindável de correntes dentro do Cristianismo) e é mais um elemento de angústia, afinal pecados são julgados e nem sempre conseguimos mensurar o tamanho da gravidade de nossos atos. Por outro lado, o largar-se de Nietzsche é meio radical demais, e podemos quebrar a cara na primeira esquina. Sendo assim, um pouco de prudência, mesmo a nível psicológico, não faz mal, como o caldo de galinha dado ao doente, que não cura, mas alimenta. Isso serve para tudo, inclusive para roupas. Ternos são detestáveis e inexplicáveis, mas ir de sunga para o trabalho não diz quem eu sou, a não ser que limites não são uma noção muito clara para mim.

Portanto, a maneira com a qual me visto diz que sou um ser que experimenta possibilidades, que exerce escolhas, um eu-público que tenta demonstrar uma faceta que tem mais a ver com meu desejo do que com meu eu autêntico, porque muitas vezes estamos apenas forçando uma barra para ser o que não somos. Se conseguimos, maravilha, não importa se causa escândalo ou ironia; se não, estamos apenas continuando a ser humanos. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Como em toda sua obra, Kierkegaard é um bocado difícil de ler, mas sempre precisamos tentar. Segue a indicação.

KIERKEGAARD, Søren. O Desespero Humano. Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974.

*Na bela figura do trecho de Snegs de Biufrais, música da banda Som Nosso de Cada Dia.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Navegações de cabotagem – O Templo Zu Lai de Cotia: as influências do Budismo na Filosofia Ocidental

Olá!


A natureza propiciou a nós dois períodos do dia bem distintos, um que vai até o sol a pino e outro que segue até escurecer. Já a cultura os chamou de “manhã” e “tarde”, ao menos para nós, descendentes de Camões. Isso nos dá uma clara divisão, cujo ponto de inflexão é o arroz-com-feijão nosso de cada dia, que pode ser utilizada para igualmente dividir nossas tarefas: de manhã, lavo; à tarde, passo. De manhã, escrevo; à tarde, leio. De manhã, bocejo; à tarde, durmo. Assim sucedendo, e estando na municipalidade de Cotia, divido meu dia em dois e vou de manhã ao templo Odsal Ling, do qual já fiz minha narrativa nesta série, e à tarde vou ao templo Zu Lai, após um prato vegetariano para manter o clima de descolamento. São meros quinze minutos de distância, cada qual em uma das bandas da rodovia Raposo Tavares. Vamos até lá.



É o maior santuário budista de toda a América Latina, e é um dos monastérios Fo Guang Shan espalhados pelo mundo, de orientação mahayana. Zu Lai significa, em uma tradução livre, “nem vir, nem ir”. É um tanto estranho, mas isso tem seu significado no desprendimento, um dos principais dogmas budistas – a passagem deve ser de tal modo a deixar o mundo por onde se passou absolutamente intacto.



O templo não é muito velho. Foi fundado em 2003, e nasceu não só para ser um lugar de culto, mas também um centro de educação doutrinário e casa de benemerência social. De acordo com sua fé, todo o ambiente é composto por estética de temática budista. Desde a sua entrada, com o terreno em desnível, o trajeto rumo às salas principais é feito todo em subida.



Próximo às escadas, temos um morro gramado que é conhecido como Jardim dos Dezoito Arhats. Um arhat é um ser que, assim como um buda ou um bodhisattva, atingiu a iluminação, com a diferença de que esta foi alcançada não por si próprio, mas por intermédio de ensinamentos alheios. Conta-se que o Buda Shakyamuni, fundador do Budismo, próximo ao momento de desencarnar, delegou a dezoito de seus discípulos a tarefa de cuidar dos ensinamentos do dharma, como se fossem apóstolos. Cada um deles é retratado no jardim. Este no centro da foto, por exemplo, é Chudapanthaka, o arhat mendicante que agita seu cajado às portas onde batia.



Passando as escadas, há mais uma sequência de estátuas, desta vez de jovens budas em diferentes situações. Não consegui maiores informações sobre seu significado, mas posso supor que são arhats no começo de suas caminhadas.



Entre estes dois jardins, fica situada a escadaria que conduz ao pórtico principal, símbolo do progresso das encarnações e caminho para a sabedoria, representada esta pelo portal. O estilo arquitetônico é aquele tipicamente chinês, principalmente utilizado nos palácios da dinastia Tang, que ocorreu em um período de grande desenvolvimento tecnológico.



Bem no pé da escada, há uma fonte que as pessoas facilmente confundem com uma fonte dos desejos, como a Fontana de Trevi, em que se jogam moedas para a realização das mais recônditas obsessões. Na verdade, a presença da bodhisattva Kwan Yin explica melhor a sua função. Ela é a versão feminina de Avalokiteshvara, bodhisattva da compaixão. As moedas que lá são atiradas não são destinadas a realizar desejos, mas a simbolizar um ato de caridade e misericórdia.



Para cumprir adequadamente o rito, é preciso arremessar uma moeda de forma a bater no sino da fonte. Desse modo, o dinheiro provavelmente cairá dentro do vaso situado à frente da imagem.



Também do alto das escadas, antes de penetrar no pátio, observamos em ambos os lados um elemento decorativo muito interessante, que são as cascatas artificiais que servem de desaguadouro para suas respectivas fontes. No tempo certo, estas cascatas se enchem de flores de lótus, uma das principais metáforas budistas. O lótus brota a partir de regiões pantanosas, e é símbolo da pureza espiritual que emerge do mundo.



Já no interior da área do santuário propriamente dito, temos um pátio de distribuição por onde é possível ter acesso a todos os compartimentos, incluindo restaurante, lojinha e aos salões rituais, que incluem um cinerário e algumas salas de meditação.



Um diferencial com relação ao Odsal Ling e ao templo Kadampa de Cabreúva é que o Zu Lai ENCHE. Muita gente acorre a este espaço como um ponto turístico, embora não o seja na acepção perfeita da palavra. Detesto tacar borrões nos rostos, mas há pessoas que detestam ser retratadas sem autorização. Afinal de contas, é muito grave ser fotografado em um templo, que coisa pecaminosa! Por conta disso, achei por bem passar o dedo nos visitantes. A exceção é a patroa.



Na escadaria que precede o salão principal, temos mais um exemplo das tradições e da arte de cunho budista. Trata-se da imagem esculpida de Shishi, o leão guardião que visa manter o templo protegido de maus espíritos. Os leões não são típicos da região asiática onde se desenvolveu o budismo, mas é uma prática que demonstra um certo sincretismo com outras regiões do mundo. Originalmente, o papel era exercido por imagens de tigres ou cães.



O templo principal é conhecido como “Sala do Grande Herói”, e é lá existe uma magnífica estátua de jade de Buda Gautama. Não é permitido tirar fotografias no interior do templo, o que obedecemos. Do lado de fora, há um grande incensário onde é possível espetar seu artefato no fundo de areia. O odor é bastante forte (o que eu gosto), e quem é alérgico precisa manter distância.



Bem ao lado, há uma árvore semelhante a uma pitangueira em que as pessoas penduram desejos de paz, saúde e etc. Novamente, muita gente faz confusão e esquece (ou nem sabe) a forma como o Budismo lida com a questão do desejo. Vamos falar um pouco mais para a frente.



O fundador deste templo é o Mestre Hsing Yün, um chinês que migrou para o Taiwan durante a guerra civil, no século XX. Fundou mais de 200 templos pelo mundo inteiro, e sua principal característica foi o ecumenismo com que tratou a difusão de sua fé. Deixou a administração deste local ao encargo da monja Jue Cheng, mais conhecida como Mestra Sinceridade.



Como eu disse anteriormente, há um cinerário no templo Zu Lai. Mas o que é isso? É uma sala onde são depositadas as cinzas dos mortos. É uma prática muito comum entre os budistas. É dedicado ao bodhisattva Kshitigarbha, uma espécie de protetor dos moribundos. Também aqui as fotografias são proibidas sem autorização.



Nos fundos do templo, há um pequeno playground para os petizes mais impacientes. Ele é guarnecido por um painel de azulejos que representa a lenda do pombo e da bodhisattva Kuan Yin. Rapidamente: em um jardim, havia uma estátua de pedras preciosas de Kuan Yin. Um pombo que voejava por lá pousou aos seus pés, e uma das pedras caiu sobre ele. Entendendo ser um sinal, pegou a pedra e levou até a casa de uma família necessitada. Assim que voltou, novamente a cena se repetiu. Isso aconteceu até a estátua ficar totalmente desprovida de preciosidade e o pombo morrer. Parece sem sentido, mas representa o destino de um bodhisattva – a resiliência na execução da tarefa, sem esperar nada em troca.



Para dispor todos esses conhecimentos, o templo possui um museu de arte budista, que contém um bom acervo de peças. Novamente, não sendo permitido tirar fotos de seu interior, limitei-me a fazer o que era possível.



Anexo ao santuário, há um parque onde é possível realizar meditações mais próximo à natureza. Digno de nota é seu lago, com muitas carpas e tartarugas, cercado por bosque de Mata Atlântica nativa e com uma ponte em estilo tipicamente oriental.



Quando observamos diretamente os fundos filosóficos das diferentes religiões, vamos concluir que aquelas de origem oriental têm um fundamento bem mais filosófico do que as abraâmicas. Isso porque estas últimas, que são majoritárias na Europa e nas Américas, baseiam-se no princípio de autoridade, primeiramente de um deus onipotente, e depois dos sacerdotes, a quem cabe uma interpretação que costumeiramente não dá margem a grandes discussões. Com isso, a força das concatenações lógicas se torna muito menos necessária para definir, por exemplo, uma regra de conduta moral. Como a matriz oriental, em especial o Budismo, prescinde de uma figura de autoridade, já é muito mais de rigor que as coisas façam um sentido completo. No modelo judaico-cristão-islâmico, basta a palavra da divindade (ou do pretenso portador do magistério); no Budismo, o que impera é a relação de causas e efeitos. É evidente que tudo isso se dá em linhas gerais, e há princípios causais no Cristianismo, assim como há linhas hierárquicas no Budismo, mas essa estrutura subjacente faz a aproximação com o pensar tipicamente filosófico muito mais confortável, dada a ausência de elementos ad hoc ou manifestações de vontade imperscrutáveis.

É óbvio que o fato de vivermos sob cultura ocidental faz com que a Filosofia aqui praticada seja muito influenciada por uma moral de fundo cristão, e isso é inevitável, mas também é fato que muitos pensadores do lado esquerdo do planisfério foram influenciados pelo pensamento budista, tão bem estruturado para fins de especulações filosóficas que é, e é sobre eles que pretendo discorrer neste texto.

O Budismo é tão milenar quanto a própria Filosofia ocidental, mas só foi conhecido com mais profundidade no nosso lado do globo (eu disse globo) a partir do século XVIII. Por este motivo, é somente neste momento que vamos começar a sentir alguns filósofos se aproximando intencionalmente de seu ideário.

Antes disso, tivemos algumas aproximações sem pontos de contato, como a afinidade do Budismo com o Estoicismo no quesito resiliência à dor, ou com o nominalismo na questão dos universais. As influências mais claras vão aparecer com os voluntaristas, a dispersa corrente que aprendeu a olhar a volição como mais significativa que a própria razão em termos de domínio mental. O começo é com Kierkegaard, o dinamarquês que inaugurou o Existencialismo no começo do século XIX, apesar do desenvolvimento da escola ser mais tardio. Embora seja autodeclaradamente um filósofo cristão, que lidou com a questão do indivíduo diante de Deus, é possível observar como muitos dos traços de seu pensamento estão mais aparentados ao Budismo que ao Cristianismo. Por exemplo, ao concluir que a existência do homem é mais importante do que a sua essência, Kierkegaard coloca a nós o mar de possibilidades que decorre do devir. Nesse sentido, o leque de escolhas torna-se uma usina de angústia. Em um animal não-humano, não há esse problema: ele segue seu instinto e pronto. Já o ser humano, dono da liberdade de escolha, percebe que tudo é igualmente possível. Essa angústia é o que ele chama de puro sentimento do possível, e é a principal marca da nossa existência, um sofrimento que nos pauta para sempre. Quando olhamos para o Budismo, vemos que, em seu âmago, ele diz a mesma coisa: por toda a vida de um indivíduo, ele se moverá por conta do sofrimento. A dor é uma inerência ao ser humano, esteja ele no nível de existência em que estiver, um sofrimento cíclico, inesgotável, caracterizado pelas suas inúmeras repetições, cuja saída se dá pelo nirvana, o alcançar da iluminação. Aqui, Kierkegaard trata da questão da saída do fluxo de angústia pela tomada de consciência da individualidade, ao invés de um amargo carregar de repetições do passado, imposto a alguém que não é reconhecido como único e que também não reconhece a si mesmo como tal.

Em seguida, vamos falar de Schopenhauer, o filósofo mais diretamente influenciado pelo Budismo. Estamos de acordo que a pauta da vida humana se dá no sofrimento, sendo a angústia um deles. Mas qual seria o motor para esse sofrimento? Qual é a causa originária que está por trás de cada ato de dor? Para o Budismo e Schopenhauer, é o desejo. Diferem muito pouco quanto a isso. O Budismo diz o seguinte em suas Quatro Nobres Verdades:
  • Não há como fugir do sofrimento;
  • O sofrimento é causado pelo desejo;
  • Há como se fazer cessar o sofrimento pela cessação do desejo;
  • O caminho para isso é a busca do nirvana pela conduta e prática mental.
Schopenhauer chega a uma conclusão muito semelhante. Ao contrário do que imaginavam os filósofos anteriores, a razão não está na guia do sentimento humano, mas a vontade. Não se trata de um mero desejo orgânico, que pode ser satisfeito com a sua realização, mas de um sentimento visceral, violento, inexorável. O corpo quer viver e para isso deseja, sempre mais e mais. No fundo, é o próprio instinto de sobrevivência que faz isso, suplantando qualquer racionalidade possível. Há vontade em toda a realidade, que suplanta a mera representação que cada um de nós temos do mundo. O mundo é guerra de egos, porque cada um constrói sua própria representação da vontade que tem. Aspiramos por aquilo que não temos, seja material como uma pedra preciosa, seja corpóreo como uma bela fêmea, seja abstrato como um sentimento de glória. Sua extinção só chega pela extinção do próprio eu. E aqui temos mais uma interseção entre Budismo e Schopenhauer – como romper esse laço? Fundamentalmente, através da negação do desejo, cuja ferramenta basilar é a ascese, o exercício mental para reconhecer e afastar-se da ação da vontade.

Outro que se sentiu tocado pela filosofia budista foi Nietzsche, o dono do martelo. Não tanto no sentido de alinhar seu pensamento, como fez Schopenhauer, mas o de fazer análises críticas. Devemos nos lembrar de que, para Nietzsche, o verdadeiro caminho para a evolução da humanidade é atingir o übermensch, o além-do-homem, a superação de todos os valores como consequência da libertação do espírito. A atravancar esse caminho, teríamos uma moral de rebanho cuja principal ferramenta é a Religião. No seu entender essa moral era padronizante, castradora e impedimento de valores verdadeiramente significativos, imposta pelos mais fracos como meio de se fazerem iguais aos melhores. Esse processo de melhoria não é algo contrário à benevolência, mas uma necessidade de evolução da própria humanidade. A principal Religião de rebanho é o Cristianismo*, uma autêntica representante da humanidade decaída. Já o Budismo, por se calcar na realidade, é visto com olhos muito menos críticos. Um dos seus principais pontos é a ausência de um deus senhorial que guiaria o rebanho, que ditaria atitudes corretas e qualificando seu desvio como pecado, conceito este inexistente no Budismo. Nietzsche, como sabemos, admite o sofrimento como inerente à vida, mas, ao contrário do Budismo, entende que o mesmo não deve e nem precisa ser evitado. No entanto, acha essa psicologia do desejo muito mais aceitável que a lógica punitiva do Cristianismo, a ponto de entender que os budistas pertencem à última religião admissível antes do além-do-homem (mesmo que, ainda assim, mantenha muitas críticas ao Budismo como religião em si).

Por fim, falemos de Freud. O Budismo talvez seja a religião que melhor trata a questão da mente, não somente pelas suas práticas meditativas, que compartilha com outras práticas religiosas, mas principalmente pela questão do autoconhecimento, do olhar para dentro de si mesmo. O Budismo preconiza isso pela doutrina de que é difícil chegar a um completo conhecimento de si mesmo, em especial de todo o potencial que a mente tem de captar holisticamente o mundo e o papel de cada um nesse todo. Quando Freud fala das instâncias da consciência, podemos perceber claramente também essa limitação de se autoconhecer. O ego, a parte consciente da psique, é apenas uma pequena porção do todo, e fica ensanduichada entre o id instintivo e o superego repressor. Dessa forma, também a psicanálise reconhece a impossibilidade do pleno autoconhecimento.

Existem inúmeras outras influências do Budismo na Filosofia contemporânea, não só no campo da Ética, mas até mesmo na Filosofia da Linguagem. Para o momento, no entanto, está de bom tamanho, porque eu queria apenas demonstrar como temos cada vez mais elementos orientais na Filosofia, advindos de locais onde ela é mais natural do que em nosso habitual quotidiano. Bons ventos a todos!!! E bom ano novo.

Sugestões de leitura:

Dois livrinhos de autoria do fundador do templo Zu Lai para ajudar na compreensão do Budismo:

YÜN, Hsing. O que é Budismo? Cotia: Templo Zu Lai, 2019.
-------------. A essência do Budismo. Cotia: Templo Zu Lai, 2019.

E o livro de Nietzsche onde ele comenta sobre o Budismo e desce o cacete no Cristianismo com mais força. Os demais autores já estão citados nos textos a que remeto através dos links.

NIETZSCHE, Friedrich. O Anti-Cristo. São Paulo: Escala, 2011.

E, claro, recomendo a visita ao templo Zu Lai. Fica na Rua Fernando Nobre, 1461, em Cotia/SP, bem pertinho da Rodovia Raposo Tavares, lá pelo Km 28.

* Devemos ter em mente que Jesus, para Nietzsche, era um espírito livre. O problema não é Cristo, portanto, mas o Cristianismo – "o Evangelho morreu na cruz", é uma de suas frases mais famosas.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Sobre motivos para apoiar ou condenar a descriminalização do aborto

Olá!

Nada mais adequado que um hospital para refletir sobre questões de saúde. E é exatamente onde estou agora... Entra gente de maca, sai gente de muleta, entra ambulância, sai ambulância, entra criança, sai velho, todos pacientes impacientes. Bom, espero que no final todos tenham finais felizes prá contar.
Andemos. As recentes manifestações que se espalharam que nem fofoca das traquinagens dos namorados atrás dos muros, e das quais produzi meus habituais pitacos neste post, acabaram por ampliar muito a pauta de reivindicações da juventude. Nestes protestos, que se iniciaram com a grita pelo aumento da tarifa de ônibus, acabou se tratando de tudo um pouco, como a derrubada PEC 37, a má condição de trabalho dos professores, a corrupção dos políticos, os gastos exorbitantes com a Copa do Mundo, a baixa qualidade dos serviços oferecidos pela saúde pública e uma questão correlata: a defesa ao direito ao aborto. Tema polêmico.


Já que o assunto costuma gerar verdadeiras guerrilhas entre defensores e opositores da ideia, vamos fazer uma pequena delimitação de território para facilitar o desenvolvimento do texto. A massa jurídica brasileira já prevê três situações em que o aborto pode ser permitido: a gravidez resultante de estupro, a gravidez que traz riscos à vida da mãe e a gravidez de fetos anencéfalos – crianças que foram geradas sem que o cérebro se desenvolvesse. As duas primeiras hipóteses são fixadas em lei, enquanto a terceira deriva da aplicação de jurisprudência consagrada nos Tribunais. Portanto, não estarei aqui preocupado com estas situações, já que a demanda de parte da população é por um direito mais amplo e menos ligado a situações extremas, como estas citadas. Também não vou discutir o recente projeto de Estatuto do Nascituro. Sou contrário a praticamente todos os estatutos.

Pois muito bem, então. A premissa básica para se defender o direito ao aborto é baseada na afirmação de que ninguém é verdadeiramente favorável ao aborto em si. O que se tem é que o aborto é considerado crime, e, como tal, não pode ser objeto de políticas públicas de saúde, ao menos legalmente. Também temos a questão de que o aborto é uma prática corriqueira, feita em condições de higiene e segurança precárias, principalmente por quem não pode recorrer aos serviços particulares, que existem aos montes, mas que cobram caro para corromper a legislação.
Colocações como essas tendem a conduzir nossas convicções para o lado daqueles que são favoráveis à descriminalização do aborto, principalmente quando são apresentadas estatísticas sobre a quantidade de mulheres que foram esterilizadas, tiveram sequelas ou até mesmo tenham morrido vítimas de más condições na execução do aborto. Mas, de cara, detecto a existência de uma falácia nesse discurso. A lei existe e criminaliza justamente para salvaguardar direitos. E a lei entende que o feto possui direito de se desenvolver plenamente até o nascimento. Se não houver a criminalização, o que poderá ser feito para garantir que o aborto não seja praticado? É o mesmo que dizer: não sou favorável a que se roube, mas os roubos não serão mais punidos com a prisão, porque está provado que a maioria deles é praticado por pessoas que passam por algum tipo de necessidade, ou porque a sociedade relegou determinadas classes sociais a uma situação de exclusão. Quer?

A solução não me parece dar abertura à prática do aborto, mas, finalmente, dar educação sexual adequada aos nossos jovens e crianças. E isso implica em explicar a correta utilização de preservativos, pílulas e que-tais. Meninas e meninos precisam aprender sobre seus corpos, sobre as consequências e riscos da atividade sexual. Chegou a hora de derrubar definitivamente alguns mitos, no mais das vezes apoiados por convicções ético-religiosas, que devem defender suas posições sem impedir que a sociedade como um todo se instrua e saiba lidar com sua sexualidade.
Ademais, tenho duas opiniões sobre o que faz com que discutamos com veemência esse tema. O primeiro tem fundo moral e o segundo mais parece uma teoria da conspiração, mas vamos a eles.

Nossa sociedade tem praticado uma competitividade tão desenfreada que acaba caindo em uma série de armadilhas. O sucesso a qualquer preço, tão bem preconizado pela mídia para anunciar as benesses do liberalismo-capitalismo aos quatro cantos e aos quatro ventos, dá a nós a sensação de que a vida não pode ser considerada como algo que valeu a pena se não nos encaixamos aos seus ditames. Ora, o ser humano não é perfeito nem bem acabado. Tem seus limites, seus defeitos. Esse novo Deus, esse imperativo, dá como punição ao infiel a sua pressão, a sua depressão, suas síndromes do pânico. Homens e mulheres hoje desdizem de profissões que eram o máximo de respeito no passado, por conta de sua baixa rentabilidade. O homem sofre por não exercer suas vocações, e não sabe mais lidar com esse sofrimento. Os projetos para ter filhos são cada vez mais tardios. Primeiro, é preciso terminar a faculdade, para depois conseguir estabilidade na carreira, para depois buscar um casamento (ou não) e, aí sim, pensar em procriação. Um filho, neste meio tempo, é algo absolutamente indesejado, porque só vai atrapalhar, e muito, o desenvolvimento desses planos.
O ser humano não sabe mais sofrer. Só que o grande problema é que isso é inevitável. Então é preciso saber lidar com o sofrimento, saber ter as dificuldades, conviver com elas e superá-las. Eliminar o filho é a maneira fácil de contornar o problema, mas percebam como é uma atitude cruel, mesquinha. Vamos percorrer um itinerário filosófico para tentar entender o que é a atitude do homem perante o sofrimento.

Søren Kierkegaard foi um filósofo dinamarquês que praticamente inaugurou, de forma mais sistemática, o pensamento existencialista (evidentemente houve pensadores anteriores que trataram do tema, e posteriores, como Sartre, que o sistematizaram). Ele abominava as teorias de Hegel, que transformava os homens em conceitos, buscando universalidade em todos os aspectos. Kierkegaard reputava que essa atitude simplesmente tornava a humanidade em um mero objeto, esquecendo-se de algo primordial, que é a sua subjetividade, sua individualidade e, por extensão, de sua capacidade de livremente arbitrar e escolher.
Pois muito bem. Conceitos não decidem, não apontam para o absurdo. A tentativa de reduzir o ser humano a conceitos impede uma explicação razoável para atitudes que poderíamos reputar como insólitas. Escolher pelo menos esperado é uma das opções do homem, e suas causas não podem ser colocadas em uma prancheta, como quer Hegel. Ao contrário, a escolha determina tal estado de angústia que muitas vezes paralisa o ser decisório. O que torna as coisas ainda piores é o fato de que a própria omissão é uma escolha, e o homem se vê na trágica encruzilhada: não há como não tomar uma decisão.

Mas que tipo de decisões pode ter o homem? Isso vai depender do estágio de desenvolvimento humano em que se encontrar. Kierkegaard identifica três: o estético, o ético e o religioso. As mudanças entre eles se faz por um movimento dialético, que se dá através de suas atitudes diante das escolhas.
No homem estético, funciona primordialmente o princípio do prazer, do qual o nosso filósofo tem como arquétipo o personagem legendário espanhol conhecido como Don Juan. Esse camarada é o modelo máximo do hedonismo recursivo, do prazer que se alimenta até o paroxismo do próprio prazer. Don Juan encontra mais satisfação no jogo da sedução do que no próprio ato sexual. Este jogo é o campo onde ele emprega todas as suas astúcias, seus sentidos e sentimentos com o objetivo de fazer sua “vítima” ceder. Também esta última é movida pelo seu sensório: o conquistador derruba as barreiras uma por uma, até atingir sua meta, em um ciclo que, para a mulher desejada, representa uma possibilidade de experimentação de seus próprios limites. Para Don Juan, no entanto, as artimanhas da conquista representam o prazer em movimento, o desejo em ação, e a sua consumação tem um significado angustiante: a tarefa se cumpriu, o jogo acabou. Por esse motivo, o homem estético tem a característica da atividade incessante, que tem um objetivo que, na verdade, não deseja atingir. A busca pelo objetivo é a sua arte; sua obtenção é a sua tragédia. Disso redunda o desespero, o tédio e o inconformismo com o destino.

Já o homem ético é aquele que passa a saber lidar com deveres e limites. As frustrações do âmbito estético já o calejaram, e este homem passa a reconhecer uma largura delimitada em seu espaço de ação. Com isso, o homem ético busca relações estáveis, como o casamento – ele deixa de lado as aventuras de Don Juan, o homem que é escravo de sua insaciedade. A adequação aos ditames sociais leva o perfil ético a aceitar o escopo ambiental onde se insere, e ele começa a viver de acordo com regras, em um continuum, onde já não existe a pontualidade das relações ocasionais e o prazer não é mais o imperativo de sua conduta. Estas regras podem ser as leis, os mandamentos e tudo o mais que se dirija ao convívio entre os seres humanos. Em suma, o homem ético passa a conviver com a alteridade. Mas também aqui impera a angústia: seus braços estão amarrados, seu campo de ação significativamente reduzido. Ele procura intervir na sociedade com sua atitude bem pautada, mas esta não reage, e nosso pobre homem ético se vê colocado no vazio da existência, mais uma vez.
Agora, vamos falar sobre o passo à frente. Kierkegaard era um dos poucos filósofos que ainda levava a sério o Cristianismo após o advento do Iluminismo, e o fez de maneira inteligente, procurando extrair lições a partir das histórias de personagens bíblicos. O mais célebre exemplo, e que virá a calhar nesta nossa exposição, é o episódio do sacrifício de Isaac pelo seu pai Abraão. Para facilitar a compreensão, vou descrever rapidinho essa passagem. Quem já conhecê-la, pode saltar confortavelmente o parágrafo seguinte.

Abraão era um patriarca que foi o primeiro agregador dos judeus como um povo. Sua esposa, Sara, era estéril, e ambos já bastante idosos. Por sua fé, perseverança e fidelidade, Javé concedeu-lhe a graça de ter um filho, mesmo em sua condição desfavorável, a quem chamou de Isaac. O menino cresceu guapo e pimpão, lépido e faceiro, sagaz e perspicaz, até chegar à juventude, quando ajudava por demais seu velho pai no desempenho de suas necessárias tarefas. A vida transcorria com seus habituais porém contornáveis sobressaltos, até que se deu a tragédia: por intermédio de um anjo, Javé determinou a Abraão que oferecesse seu filho em sacrifício, como era corriqueiro fazer, à época, com cândidas ovelhinhas, trigueiros cabritinhos e voláteis pombinhas. Tomado de irrefutável tristeza, Abraão chama seu filho e inicia seu rumo ao monte dos sacrifícios. Chegando ao local, toma sua adaga ritual e posiciona o pobre mancebo para a imolação. No derradeiro momento, o mesmo anjo que havia trazido a má notícia determina a interrupção da ordem. A pantomima toda era destinada a experimentar a fidelidade de Abraão, e não levar a cabo a cruenta conclusão.
Bom... A que tipo de homem podemos atribuir a atitude de obediência de Abraão? Ao homem estético, que faz sua vida se assemelhar à arte, e para quem tudo é sensorial? Parece que sim, já que o homem estético vislumbra um sentido trágico na existência.

Mas não. Antes de mais nada, o homem estético é movido pelo imperativo do prazer, e o sentido trágico consiste exatamente na impossibilidade de atingi-lo permanentemente. A obtenção do desejo é sempre efêmera e seguida de um novo desejo e uma nova luta para alcançá-lo, em um ciclo sem fim. Só que no caso de Abraão não temos como falar em prazer, muito pelo contrário. Fosse Abraão um homem estético, só poderia pensar em algum prazer na continuidade da existência do filho, e não justamente em sua extinção.
Será um homem ético, portanto? Há indícios favoráveis. A atitude de Abraão é individual, mas já tomada com base em critérios que levam em conta a alteridade; afinal, parte de uma ordem externa (Javé) e são aplicáveis a uma outra pessoa (Isaac). A ele, cabe apenas o pior: tomar a decisão e executá-la.

Mas também não podemos atribuir a Abraão o perfil de homem ético, por um motivo bastante simples: o cumprimento da ordem implica na morte do outro, o que retira da ação todo o seu caráter moral, em especial por ser inaceitável pelas cadeias sociais.
Onde Kierkegaard enquadraria Abraão?

Para nosso caríssimo dinamarquês, o patriarca dirige sua ação guiado pelo objetivo maior, sem se importar com o prazer do homem estético nem com o regramento do homem ético. Abraão suprime o mundo ao seu redor e salta no escuro. Ele vai além, chega aonde um homem normal não chegaria, tudo em nome de uma meta que transgride e transcende o senso comum. Mas ele não o faz irracionalmente – procura conciliar subjetividade e absoluto, entende que apenas rumando à transcendência poderá se desamarrar do prazer inatingível (estético) e da estrutura sufocante (ético). Este é o homem religioso.
E o que isso tem a ver com a questão do aborto? Com a capacidade de sofrer em nome de um ideal maior, de algo que vá para além do simples alcance de nossa visão imediata.

Nossa sociedade tem tomado um rumo bastante interessante, que é o de lançar um olhar realmente mais sério para o outro, e a visão progressista tem procurado, aos poucos, dar direito real às minorias que, anteriormente, não tinham a possibilidade de viver plenamente a sua cidadania. E passam a lutar pela aprovação de leis que amparem esses direitos (se o ser humano fosse algo realmente benéfico ao planeta, não seriam necessárias as leis, já falei isso mais de uma vez. O bom senso seria o suficiente). É óbvio que isso implica sacrifícios e perdas de privilégios, mesmo que pequenos. Garantir terras aos indígenas significa limitar o alcance dos agricultores, dar vagas de estacionamento aos idosos representa a diminuição das vagas gerais, propiciar quotas universitárias aos negros reduz o quadro geral de vagas, fornecer acessibilidade aos deficientes aumenta o custo da construção de equipamentos públicos, dar aulas em LIBRAS para atender surdos força o professor a aprendê-la, conceder meia-entrada aos estudantes encarece o custo dos eventos, ampliar os direitos trabalhistas tem como consequência um menor índice de contratações, conceder direitos ao consumidor arrefece o leque de negociações possíveis com as empresas, proteger os animais reduz os orçamentos disponíveis para cuidar dos menores abandonados, impedir as crianças de trabalhar atinge o orçamento das famílias pobres e assim sucessivamente. Todos direitos bons e íntegros, aos quais dou meu total apoio e peço mais. Mas reconheço que os recursos não são infinitos e que o cobertor é bastante curto.
Se a sociedade tem essa disposição em garantir direitos ao outro, se está se encaminhando para assumir cada vez maiores sacrifícios, porque no final das contas é o único meio de estender essa possibilidade de plenitude cidadã; se essa sociedade luta pela garantia do direito à vida, de qualquer direito, por que quer retirar esse direito do feto e apenas dele? Como podemos determinar o que é uma vida que vale ou não a pena ser vivida? O sacrifício de Abraão tinha essa característica de fazer com que todo o benefício próprio e próximo fosse suprimido pelo objetivo maior. E se a vida é o nosso objetivo maior, de uma sociedade de ideias progressistas, devemos estar dispostos a encarar dificuldades. Será que estamos confundindo o outro com nós mesmos?

Não se trata aqui de fazer uma aplicação direta das ideias de Kierkegaard e desejar uma sociedade religiosa, não é isso. O que entendo é que precisamos reconhecer que as soluções mais fáceis, menos penosas, geralmente são mais imediatas, e isso nem sempre é o melhor, o mais humano, o mais respeitável ao outro. A liberdade tem limites, a individualidade também. Não existe direito de propriedade absoluto, como também não existe liberdade absoluta.
Agora, ser contrário ou favorável ao direito de abortar pode ser uma questão pessoal, mas o que eu acho extremamente desonesto é vincular automaticamente a posição anti-abortista aos grupos religiosos, especialmente por dois motivos:

1.   Procurei marcar minha posição no âmbito filosófico, e não religioso. A filosofia de Kierkegaard tem substrato religioso, mas pode ser estendida ao âmbito laico, e por isso a utilizei. É perfeitamente possível fazê-lo sem recorrer à religião e suas nuances morais;

2.   A posição das igrejas NÃO é inválida. Os defensores da impunidade do aborto costumam atribuir aos padres, pastores e guias espirituais (entre outros) uma visão obscurantista e retrógrada, limadora das individualidades e da liberdade. É bem verdade que o pseudo-moralismo de frases como “fez o filho, agora aguente” apenas mascaram o objetivo de reprimir a sexualidade, principalmente na forma de vingança contra a mulher. Mas quando tomam posições que buscam demonstrar que há uma vida a se defender, devo concordar com elas. Religiosos não são idiotas por definição. Podem até ser, mas não obrigatoriamente.
E aqui chegamos à teoria da conspiração. Na verdade, retomo algo que falei com relação à legalização das drogas, como consta desta página amarelada de meus alfarrábios.

O capitalismo vive de lucro e investimentos, baseado em um sistema de livre concorrência, que tende a se expandir até que uma situação de equilíbrio faz com que essa expansão se estabilize. Mas esse equilíbrio normalmente faz com que os ganhos sejam nivelados por baixo, já que uma nova ideia sempre é explorada até ser sugada ao seu máximo. Como tal, é um sistema em que é imprescindível que haja sempre a busca de novas fronteiras econômicas. Antigamente, a expansão do mercado se dava pari passu à expansão territorial, principiando-se pelo exaurimento dos recursos coloniais, e se seguindo pela constituição de sociedades economicamente estruturadas e preparadas para o consumo nos moldes capitalistas. Depois, as fronteiras a serem rompidas passaram a ser tecnológicas, e a produção de bens e serviços cada vez mais requintados foi substituindo a obsolescência. O diabo é que tecnologia custa caro e leva tempo a ser devidamente dominada. Há certas áreas mercadológicas em que se possui conhecimento técnico suficiente, há vasto mercado disponível e demanda reprimida bastante significativa, prontas para serem exploradas pela mecânica capitalista. E nesta seara encontramos produtos como drogas ilícitas, expansão agrícola em demarcações indígenas e... aborto! Vejam: é técnica simples, amplamente conhecida, rápida, que requer pouco tempo de internação, de baixíssimo risco, e que provavelmente terá o mesmo custo de um parto cesariano.
Uma pá de pesquisas já foi realizada pelos mais diferentes institutos e o brasileiro médio tem se mostrado contrário à descriminalização do aborto, mas essa desaprovação tem uma tendência de queda. Isso se deve, em boa parte, à ação da mídia. Vou dar um exemplo. Na péssima novela da globo (Amor à vida) que está sendo exibida atualmente (devo informar que já desisti dela – e que as novelas DEVEM ser analisadas, como fenômenos que atraem milhões de espectadores diariamente – observem as análises que fiz neste, neste e neste texto), houve uma cena que considerei nojenta. Diante do risco de vida de uma determinada mãe, um médico se recusa a realizar um aborto por “ferir suas convicções”, com uma cara de medo e estupidez de fazer pensar como um cretino daqueles conseguiu se formar médico. A impressão que se passa é essa mesmo, a de que as convicções morais, no mais das vezes de origem religiosa, são imbecilidades. Religiões impõem limites, e estes podem ser prejudiciais em certas relações. Olhem só.

Empresas médicas são anunciantes na mídia? Sim, são.
Empresas médicas vivem à base de lucro? Sim, vivem.

Empresas médicas precisam continuamente expandir seus negócios? Sim, precisam.
Empresas médicas gostariam de poder explorar ramos com tecnologia dominada, de baixo custo e amplo potencial de mercado? Sim, gostariam.

Empresas médicas poderiam considerar que o aborto legal se enquadra nas características acima? Sim, poderiam.
Empresas médicas cobrariam em um aborto o mesmo tanto que cobrariam em um parto (ou até mesmo mais)? Sim, cobrariam.

Significa? Para mim, sim. Mas posso estar enganado.

Recomendação de leitura:
KIERKEGAARD, Søren. Ou... Ou... Lisboa: Relógio d’água, 2013.