(O contato aprofundado com o Japão tem trazido mais do que Jaspions e Jiraiyas)
“Nesse sistema, cada coisa é ela mesma em não ser ela mesma, e não é ela mesma em ser ela mesma. Seu ser é ilusão em sua verdade e verdade em sua ilusão. Isso pode soar estranho na primeira vez que se ouve, mas, na verdade, nos permite, pela primeira vez, conceber uma força em virtude da qual todas as coisas são reunidas e trazidas em relação umas com as outras, uma força que, desde os tempos antigos, tem sido chamada de ‘natureza’”.
Kenji Nishitani
Olá!
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Esta história começa com um fato triste. Não se trata de
nenhuma catástrofe que tenha ceifado vidas ou modificado destinos, mas de um
método de extração de café transformado em cacos.
A coisa foi mais ou menos assim: Curitiba é quase tão boa
quanto São Paulo no quesito cafeterias. Enquanto meu filho mais velho ainda
morava lá, sempre procurávamos alguma casa diferente para provar os produtos e
ganhar repertório. Em uma delas, no saguão de um hotel, pedimos nossos cafés e
fomos nos sentar para esperar, até sermos sobressaltados pelo ruído de
porcelana caindo no chão. E lá estava a mocinha desesperada com a meleca toda
no balcão. Em um impulso, fiquei de pé e fui ajudar com o inútil recolhimento
de um grande pedaço que havia saltado sobre o balcão. Quando o peguei, pensei
comigo: que método é esse? Era um falecido Origami.
Trata-se de um utensílio muito semelhante ao brasileiro Koar,
e segue aproximadamente o mesmo princípio geral: diminuir o contato do filtro
com o porta-filtro, através da distribuição de ranhuras que permitem a livre
passagem de ar. Porém, aqui as ranhuras têm arestas pontiagudas, enquanto o
Koar as tem arredondadas.
Outro diferencial é um maior orifício na base, se comparado
aos porta-filtros V60, da Hario. Como o objetivo do método é proporcionar uma
passagem rápida da água, esta característica faz com que haja uma retenção
menor. O controle deve ser feito através da moagem.
O material de confecção é nobre, sendo composto por
porcelana recoberta de resina, com todo o charme que remete às dobraduras de
papel tão caras aos japoneses. Há uma explicação para a aplicação da resina,
além do efeito estético: a porcelana pura contém muita porosidade, o que
provocaria uma retenção indevida de óleos e outros resíduos, com a dupla
desvantagem de “roubar” componentes e mantê-las em oxidação, prejudicando o
resultado final.
Nome do utensílio: Origami
Tipo de técnica: percolação em porcelana resinada
Dificuldade: Baixa
Espessura do pó: Média
Dinâmica: O porta-filtro deve ser inserido em um suporte do tipo mancebo ou anel de madeira (não vem com o produto) e receber um filtro cônico. Após o habitual bloomig, realizar os despejos necessários conforme a receita escolhida.
Resíduos: Baixos
Temperatura de saída: Média
Nível de ritual: Médio
O acidente foi infeliz, mas me trouxe uma série de reminiscências infantis. Eu tinha uma tia-avó chamada Antônia, espanhola de Cartagena, que tinha duas habilidades muito especiais. Ela era daquelas pessoas que contavam histórias com todo um colorido, que seduzia sua audiência, em especial as crianças. Seu sotaque fortemente marcado ajudava muito na tarefa, porque trazia uma certa aura de mistério, como uma pessoa que vinha de longe (vinha mesmo) e trazia um espírito cigano, de quem tinha visto muita coisa em seus vários anos de vida. E ela era pródiga em fazer dobraduras, que, muitas vezes, juntava às histórias que contava. Ela não apenas ensinava, mas construía todo um enredo através do ato. E não eram barquinhos ou aviõezinhos o que ela confeccionava, mas homens de ternos, cavalos que puxavam carruagens, personagens da commedia dell’arte, e com ela vinham os soturnos negociantes de metais preciosos, os cavalos que transportavam o sol e o Polichinelo falastrão espalhando segredos pela aldeia toda. Um espetáculo. É sério. Era a contação de histórias eleva a nível de bel’arte.
Muito pouco eu aprendi, tanto das histórias, quanto das
dobraduras. Talvez o mais diferente sejam os barquinhos de capota, pouca coisa
diversa daqueles que colocamos nas bacias de nossos bebês (ainda se usa colocar
barquinho de papel nas bacias dos bebês?). Mas uma coisa é certa. O termo origami,
tão caro à cultura japonesa e que hoje está no nosso léxico, era absolutamente
incomum. Aliás, quando eu era criança, a cultura japonesa ainda era algo muito
distante do nosso dia-a-dia. Sushis eram inexistentes fora da Liberdade. Animes
e mangás eram raridades restritas aos Ultramens da vida, e muitos dos desenhos
que passavam na TV nem davam noção direta de sua procedência nipônica (hentais
também não eram populares, para gáudio de Carlos Zéfiro - entendedores entenderão).
Tínhamos algumas ocupações mais presas a estereótipos do que a realidade
permitiria deduzir: quitandas, tinturarias e “pasterarias” eram clássicas
ocupações de japoneses e seus nisseis, sanseis e sucedâneos. Além,
evidentemente, dos primeiros lugares em concursos e vestibulares. Mas ainda
restava uma visão de colônia mais fechada, de cultura substancialmente própria,
como se fosse impensável um japonês bicheiro ou cabulador.
Hoje em dia, a cultura japonesa abriu asas em terras
tupiniquins, e encontramos tudo isso que falei em profusão, incluindo rodízios
impensáveis outrora, bandejinhas bentô, refrigerantes que explodem na boca,
lojas de quinquilharias e, claro, hentais.
O resultado é que não temos mais aquele ar exótico e
fechado, embora seja ainda uma cultura inequívoca por suas características
próprias. É até óbvio, já que usam língua que nem são de nosso tronco
linguístico, tem religiosidade que foge do modelo abraâmico, são bem mais
uniformes fenotipicamente e, com isso, não conseguimos ter a mesma proximidade
que temos com os demais latino-americanos, por exemplo. Mas o mundo interligado
nos permitiu ter um contato muito mais rico com seus valores e manifestações.
Mas não é só da cultura popular que encontramos cada vez
mais intersecções com influências orientais, mas no próprio meio intelectual.
Os japoneses têm a fama da sabedoria, muito por conta do modo reflexivo com os
quais conduzem seus hábitos, religiões e doutrinas, dando um aspecto racional
que nem sempre está presente nas tertúlias ocidentais, tidas como passionais e
sanguíneas, menos dada a introspecção.
É a partir do século XX que veremos as duas frentes
culturais se imbricando, com a abertura das ideias ocidentais penetrando no
Japão, e, no caminho inverso, uma melhor compreensão dos fenômenos intelectuais
japoneses cada vez mais se apresentando no dito pensamento ocidental. Esse
ponto de contato se dá principalmente através da Escola de Kyoto, que funciona
como uma espécie de porta de entrada para os filósofos europeus, especialmente
alemães, como Kant, Hegel, Schopenhauer, Heidegger e Nietzsche.
Estava com vontade de escrever um texto mais genérico sobre
essa escola, mas vou deixar para um segundo momento. Vou falar agora de um
exemplo bem marcado de como ambos os modelos de pensamento se imiscuíram a
partir desse momento, o que se deu com uma obra que tenho acompanhado nos
últimos tempos.
O intelectual Keiji Nishitani faz uma conciliação
interessante entre o conceito de niilismo
e noções que atravessam a religião oriental, em especial a ideia de vacuidade
do budismo.
O momento histórico de onde surgem seus pensamentos tem
muito a ver com o fracasso das expectativas surgidas a partir do Iluminismo
europeu. Sucessivamente, as tradições, as religiões e mesmo a razão se
mostraram frustrantes para fornecer sentido à existência humana. A primeira
representa a perpetuação dos estados de coisas que conduzem ao vazio, a segunda
demonstrou com o tempo não trazer respostas e a terceira, ao fim e ao cabo,
demonstrou que a confiança na ciência e na tecnologia levam ao seu efeito oposto:
as guerras hoje podiam, pela primeira vez na história, levar todo o planeta à
destruição. Nesse contexto, o niilismo floresce e se consolida: a vida é um
grande absurdo em que nada faz sentido. Essa é uma afirmação muito recorrente
no existencialismo, especialmente em Camus.
A condição do absurdo é desconfortável. Ninguém se agrada de
não ver sentido na sua existência, de não ter qualquer tipo de suporte para
sustentar suas motivações, e isso acaba tendo uma solução ilusória: o mundo
moderno, fortemente baseado no individualismo, busca cada vez mais se esconder
do nada, através da posse contínua e da sensação de uma vida incrível vendida
pelas propagandas. O sentido da vida é a compra de passaportes contra o nada.
As civilizações do hedonismo são construídas para fugir no niilismo.
Um dos exemplos mais simples está na atual incapacidade de
se ver sem um celular na mão (estou digitando este texto em um celular). Com
este aparelho, comunicamo-nos com o mundo todo instantaneamente, em um piscar
de olhos. É um fenômeno contemporâneo? Nem tanto. Antes dele, havia a
televisão, os toca-discos, os walkmen, os rádios… artifícios para desviar o
pensamento de nós mesmos. Não são ruins por si mesmos, mas são
ferramentas para criar uma cortina entre uma realidade no mínimo
desconfortável e uma dimensão feita sob medida para nos mantermos iludidos.
Esse é o grande erro de toda uma sociedade, no parecer de Nishitani.
O niilismo não é uma crise do mundo, mas a crise de um ego que busca evitar o
vazio, quando, na verdade, deveria explorá-lo.
Toda a fonte de desespero que o humano enfrenta ao se
deparar com suas incertezas está baseada no fato de que esse vazio não é
absoluto, mas relativo: trata-se de um nada em relação com o próprio ego. As
coisas não estão boas para mim, a falta de perspectiva é com relação ao meu
futuro, é a minha vida que não avança. Sempre que se coloca algum tipo de
problema ou dificuldade, o ponto de referência sou eu mesmo.
Ocorre que, utilizando o princípio de sunyata
(vacuidade) do Budismo, Nishitani apresenta a solução ao niilismo de maneira
próxima à de Nietzsche. O nada absoluto ocorre quando se consegue despir do
próprio eu para se chegar à realidade em si mesma. O nada absoluto é semelhante
a entrar em um espaço vazio onde tudo está por ser construído, em um autêntico
despejo de criatividade para quem chega a esse estágio. O mundo vai além do
ego.
O nada absoluto é uma tela vazia onde você pintará com suas
próprias tintas. No dizer de Nishitani, é quando você caminha em uma estrada e
perde a noção de destino e, ao olhar para trás, também já não enxerga a origem.
No de Nitezsche, é quando se atira no abismo.
De uma forma ou de outra, é possível reconhecer como
Nishitani acaba por se aproximar de noções dos fundamentos do próximo
conhecimento. Se pensarmos na estética
transcendental de Kant, lembraremos que a base mais profunda da relação
cognitiva está naquilo que temos de inato: as noções de tempo e de espaço, que
acabam por constituir o substrato por onde os conteúdos empíricos são colhidos
do mundo. Ao se remover todo esse pacote inserido pelo mundo exterior, ainda
assim continuamos a ter o fundamento, agora na forma de nada. Tempo e espaço
são os elementos por onde tudo existe, não só na forma concreta, mas da
possibilidade.
Portanto, Nishitani vê a vacuidade como um retorno ao inato,
ao mais basilar de todos os mecanismos de apreensão do universo para que o ego
daquele que se defronta com a angústia possa ter para si a realidade purificada
e repleta de possibilidade de transformação. É ao se defrontar com o Ser das
coisas que percebemos como elas estão interconectadas e relacionadas para formar
a natureza como ela é, em cada um de seus componentes, e que somos parte desse
todo, e não apenas nós mesmos. O mundo moderno, impulsionado pelo mercado,
tenta nos conduzir para o lado oposto, do individualismo, mas é justo no nada
que reencontramos tudo.
Este é o sentido mais autêntico de religião. Não se trata de
uma necessidade de reencontro com um ser divino, porque a palavra em si
significa “religar”. Mas religar com quê? Com a base que nos constitui, com o
reconhecimento de que o universo transita sobre esse nada autêntico. É aqui que
se constrói a vida e o sentido, inclusive nos pedaços que se partem ao chão.
Bons ventos a todos!
Recomendação de leitura:
Ser mais conhecido no ocidente não significa ter obras traduzidas
para o português. É muito difícil achá-las, mas tem sempre um espanhol ou
italiano para quebrar nosso galho.
NISHITANI, Kenji. La Religión y La Nada. Madrid:
Siruela, 1999.




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