(Quinze anos não são quinze dias, mas também não são a eternidade)
“Talvez o dinheiro não compre a felicidade, mas pode comprar uma bela casinha na Toscana, e isso já me basta”.
Lois Greiman
Olá!
Há quinze anos, minha mãe era viva, meu pai também. Eu tinha
outro cachorro, ainda tinha 20 passarinhos na gaiola, e meus filhos moravam
comigo. Há quinze anos eu professava uma religião, eu não tinha air fryer,
eu nem sonhava em trabalhar em home office. Eu tinha poucos cabelos brancos
(aliás, tinha muitos cabelos), não tomava remédio para diabetes e só lia livros
físicos. Por outro lado, eu já era corintiano, já fazia bons
quiches, já morava no centro dessa cidade vertiginosa, embora ainda não a
dividisse com Taubaté. O mundo muda e não muda em quinze anos.
Hoje, faz quinze anos que abri este boteco. Muito mudou: os temas, as abordagens, o público. Pouco mudou: o pano de fundo, o jeito de escrever, o próprio escriba. Não queria ser repetitivo, mas sempre é necessário fazer uma rápida reciclagem para quem não me acompanha há tempos. Este blog nasceu quando o formato já não era novidade, inclusive já estava na vazante da maré quando decidi iniciá-lo, como um projeto pedagógico: em pleno estágio acadêmico, eu precisava propor uma ideia que cumprisse a obrigação formativa. Não fui muito criativo, e propus o formato blog para lançar um questionamento partido do quotidiano para que meus alunos refletissem e respondessem em sala. Ora (direis), por que não usaste o próprio espaço de comentários para que os alunos fizessem seus apontamentos? Pois é, mais uma mostra de minha incompetência digital. Mas, uma vez passada a fase de projeto, continuei postando textos, um pouco mais elaborados, e virou uma espécie de repositório de pensamentos e aprendizados. Sendo um formato já ultrapassado, não sei até quando vai durar. Para mim, poderia durar para sempre, porque, nesse tipo de coisa, sou conservador – tenho dificuldade em me adaptar a novos ventos. Falaram para mim sobre o formato newsletter, onde meus textos chegariam aos leitores por e-mail e eu poderia até cobrar pelo serviço. Se ninguém lê o que escrevo de graça, por que pagariam pelo mesmo serviço? Mas não vou ficar com aquelas chorumelas de que não vou isso, não vou aquilo. No mínimo, fico aqui enquanto a plataforma deixar. Dopo, vedremo.
Mas é justamente sobre essas duas últimas palavrinhas que eu
vou falar hoje. Nós temos maneiras próprias de nos expressar que nos dá alguma
identidade. Uns usam longos períodos, outros repetem palavras com constância,
outros ainda usam tantas referências que tornam o texto uma autêntica teia de
aranha. Quem me lê com alguma constância, percebe que misturo formalidade com
língua coloquial, e sou pródigo em utilizar expressões estrangeiras, não por um
viralatismo explícito e assumido, mas porque, de fato, há muita coisa na
filosofia que tem suas origens externas. Há os ethos gregos, as veritas
latinas, os geists alemães, as durées francesas ou falsafas
árabes, e é inevitável que façamos referências a origens etimológicas ou termos
consagrados. Mas é evidente que não é isso que salta aos olhos, já que todos
que lidam com o tema têm esses termos como matéria-prima. O que eu quero me
reportar é aos inúmeros italianismos que venho usando desde o começo da
empreitada.
Para começo de conversa, vivemos em um país de numerosos
descendentes de italianos, em especial no Sul/Sudeste. Junte-se fatores que
estimulavam o êxodo na península mais famosa do mundo, como a incerteza
política, a fuga das guerras e a pobreza generalizada com a oportunidade de
explorar um território imenso ainda desbravado, mas em franco crescimento, e
teremos o alinhamento dos planetas que fizeram o Brasil o território com a
maior quantidade de descendentes da bota do mundo. Isso está refletido nas ruas,
nos negócios, na cultura e, claro, na minha vida pessoal.
Dia desses, eu estava dando aquele tapa nos documentos
velhos, e encontrei um talão contendo os seguintes dizeres: E.E.P.G. Stefan
Zweig – Formandos 1983. Era a minha turma do ginasial que encerrava seu ciclo
naquela imensa escola da Zona Leste, cada um na busca de seu futuro. O bairro
ainda era um repositório dos descendentes de europeus que já começavam a ser
tocados para os cantos mais periféricos, onde iriam dividir com os descendentes
de negros e indígenas as agruras de morar no que ainda era parte dos limites
urbanos da cidade. Coloquei-me a folhear para ver de quais nomes eu conseguia
me lembrar da pessoa, e como não dá para saber de qual Marcelo ou Sandra está
se falando sem o sobrenome, comecei a compulsá-los. E veio a torrente de oriundi.
Era Bartachini, Agnoletto, Beratta, Salerno, Tuzzi, Galletti, Favero,
Andreazza, Buchi, Chiavegatti, Tagliatella, Colatti, Mortari, Cordoli,
Boldrini, Fiorentini, Pignatti, Peretti, Gianchristofaro, Rizzon, Rompinelli,
Tomazelo, Galassi, Quintale, Versutti, Zerbini, Mazziero, Cararetto, Gomeratti,
Dovadoni, Giudice, Daneluci, Martinelli, Cescato, alguns já levemente
aportuguesados, outros fiéis à escrita italiana, mas todos de origem inegável.
Meio admirado, resolvi fazer um exercício mais recente,
puxando o nome da turma de TI do lugar onde trabalho, e lá vem o fenômeno se
repetindo: Moretti, Gambarini, Belucci, Chelli, Fasolai, Ricci, Contini,
Brandini, Frigoglietto, Morgantini, Breviglieri, Portela, Scarpone, Casarotti,
Bertoni, Granato, Mastriani, Stroppa, Pecora, Bergamo, Azzolini, Canatto,
Pieri, Girotto, Grassano, Pissolatto, Chinelato, Christianini, Venturini,
Perazolo, Corcini, Cortesini, Villani, Paganini, Secco, Croce, Del Cioppo… adesso
fermati! È già tanto.
Portanto, ainda que o auge da imigração italiana tenha se
encerrado no começo do século passado, o fato é que ela foi tão numerosa que
tem seus reflexos na cultura ainda nos dias de hoje, desde um simples ciao
até trejeitos bandeirosos e voz alta.
Isso passa pela óbvia culinária: risoto, pizza, talharim e
tanta comida que nem dá para se estender tanto, mas por toda a linguagem que
foi construída em Terra Brasilis, que difere do português de Portugal
justamente por essas influências externas, e o italiano traduz muitas dessas
diferenças. São os italianismos, traços da língua italiana traspassados para
nosso falar.
No português materno, por exemplo, é muito comum a aplicação
de infinitivos, enquanto aqui somos mais adeptos do uso de gerúndios. Por
exemplo, não dizemos comumente que estamos “a fazer” coisas, mas “fazendo”, o
que é uma forma típica da Itália. Cuidado: não se trata do recente gerundismo
que tomou conta dos manuais traduzidos diretamente do inglês e usados como
forma de empolação ao falar. A influência italiana, no caso, é plenamente
válida na norma culta do português, enquanto o gerundismo, não. Ainda não.
Outra construção típica do italiano que usamos no Brasil é a
repetição enfática. Como exemplo, há um provérbio que diz que “Piano piano se
va lontano”, um equivalente do nosso “devagar se vai ao longe”. Nós usamos essa
repetição de palavras também, em frases do tipo “ele é bonzinho, mas é chato,
chato”, “no meu salário este mês não veio nada, nada”, “consigo fácil, fácil”,
como se este eco demonstrasse mais realce para a característica que se queira
destacar.
Em São Paulo ainda temos o corte do designador de plural
“s”, e falamos comumente “os mano” e “as mina”. Isso segue a lógica italiana de
não designar plural com a letra “s”. Lá, há diferenças em fazer plural no
masculino e no feminino. Assim, moço e moça se dizem ragazzo e ragazza,
que no plural vão para ragazzi e ragazze. Sem o S, portanto, o
que, no Brasil, vai desembarcar no seu corte puro e simples.
Também as construções do tipo “não me vai fazer
errado de novo” são italianismos. Elas se devem ao uso da partícula ne,
que não tem nenhum sentido em português, mas que em italiano substitui palavras
como “dele” ou “disso”, assim: “Sono un tifoso del Corinthians. Non ne lasciarò
mai”. Notem que a partícula não tem nenhuma função no português, mas os
italianos recém-chegados acabaram a adaptando de um jeito meio arrevesado, mas
que se tornou típico das Moocas da vida, a ponto de se tornar comum na cidade
toda. Não me passa uma vergonha dessas, não me deixa a chave no serviço de
novo.
A conclusão a que chegamos é que muito do que se pode chamar
de influência italiana está imiscuído em nossa cultura, de maneira menos
perceptível do que as tarantelas das festas de imigrantes podem fazer supor. Um
certo gestual, um tom de voz, um sotaque cantado dos velhos da Mooca e do
Bixiga fazem de fato perceber uma proximidade com o modelo de fala que se
pratica até hoje na bota. Um derramamento no canto e um volume bastante elevado
para outros padrões também são demonstrações inequívocas da influência. É
doloroso falar, mas dia desses, há tempos, eu estava ouvindo um progressivo
italiano (I Dalton) quando minha agora defunta mãe perguntou se Bruno e
Marrone tinham feito uma versão em italiano de uma de suas chorumelas.
Imperdoável, ma non troppo, porque esse exagero é realmente típico dos
italianos, e não tinha como evitar que ele fosse traspassado junto com tudo o
mais que eles trouxeram para a cultura brasileira em geral.
Eu sou neto de italianos, e isso ficou fartamente comprovado
no exame de hereditariedade que fiz há um tempo atrás. Está lá: praticamente
70% de “italianidade”, o que nem foi surpresa para mim, só confirmação. Não é
motivo de orgulho, nem de vergonha, apenas a constatação daquilo que eu ouvia
da tropa mais velha, aqueles termos sujos dos italianos pobres, que vinham das
regiões agrárias fugindo da fome ou da guerra, como tantos daqueles que
ostentam os sobrenomes sonoros que listei mais acima. Meus parentes se
espalharam pelos bairros típicos de italianos, morando nos antigos cortiços ou
nas casas operárias, além da quota de campesinos que fizeram parte da diáspora
itálica, pelos interiores de São Paulo e Paraná.
Mas eu peguei bastante prática na língua por causa da
faculdade de filosofia. Era época em que já não nos rastejávamos na internet,
mas ainda havia pouco material disponível na Última Flor do Lácio. Com isso,
era necessário pesquisar em língua estrangeira, o que era um desastre para um
monoglota convicto como eu. Apelei para a língua da nonna e fui me
aperfeiçoando, inclusive, confesso, aproveitando artigos inteiros para cumprir
as obrigações acadêmicas (quem nunca?). Comecei a escavar livros inteiros nos
sebos, e fui melhorando e melhorando a leitura, desvendando os mistérios e
desfazendo de falsos amigos, até o ponto de fazer meu TCC
baseado na maior parte da obra de Giovanni Guareschi na língua nativa, fruto
dessas garimpagens e da conotação política havida na obra. Giovanni quem? Beh,
Giovannino Guareschi foi um jornalista especialmente ativo na época da Segunda
Guerra e, como sabemos, a Itália foi um dos grandes atores do palco de eventos.
Ele não foi um autor da grande literatura, como Dante ou Ariosto, mas um
cronista sem igual quando o tema é a colisão entre os costumes tradicionais
religiosos e os novos tempos da esperança comunista e do aggiornamento
católico. Por lá, peguei bastante do formal e do coloquial, da língua simples e
do empolamento, porque há políticos e bispos na narrativa, e não apenas aldeães
pobres da época da fome. Então eu fui pegando mais e mais o jeitão da coisa, a
ponto de me virar muito bem quando o quesito é leitura. Para ouvir, um pouco de
calma na interlocução faz maravilhas, mas tenho dificuldades quando a chiacchera
pega ritmo. Agora, quando tem que sair de mim, seja falando, seja escrevendo, o
buraco fica bem mais embaixo. Ainda sai aquela língua meio suja e rural dos
parentes, inclusive com as sutilezas regionais. Mas eu vou tentando melhorar.
Então é por isso que uso tantos termos em italiano nos meus
textos, um pouquinho pela influência da nossa linguagem mesclada, um bom tanto
pela minha descendência e outro pedaço pelo pragmático uso que fiz da língua
nas épocas acadêmicas. Já vi bastante gente fazendo uso de línguas estrangeiras
também com outros idiomas, e acho elegante, por isso uso tanto. Não no sentido
de substituir pura e simplesmente palavras existentes na língua mãe, mas de
colocar um pouco de meus usos e costumes em uma escrita que procura traduzir um
tanto de informalidade. Nem só dia-a-dia, nem só Filosofia, é o slogan de
guerra do blog. É claro que tento me cuidar para fugir do pedantismo e,
principalmente, para me fazer compreender sem perder o colorido da escrita,
isso é o mais importante de tudo.
De resto, a pergunta mais comum que me fazem diz respeito à
continuidade no formato, que já está bem ultrapassado. A resposta é curta e
direta: não sei. Formatos como YouTube e Instagram são muito mais trabalhosos e
não quero cair na armadilha de priorizar forma em detrimento do conteúdo.
Talvez eu crie alguma forma de trazer remissões para este mesmo lugar, que
também não durará para sempre. Não sei se virão mais quinze, sejam anos, meses
ou até dias. No final das contas, o mundo gira e impulsiona nossos ciclos, e
eles são impossíveis de medir. Mas não importa, porque continuaremos a tentar
viver e o término é sempre o mesmo. Não nos importa começar tudo de novo, e de
novo, e de novo, até porque… tutti i salmi finiscono in gloria. Buoni venti
a tutti!!!
Recomendação de visita:
Vou indicar as três principais festas italianas da cidade de
São Paulo, o que já dá a elas o estatuto de mais conhecidas do Brasil. Vão em
ordem cronológica da época do ano em que acontecem.
Festa de São Vito Mártir
Rua Polignano a Mare - Brás
Ocorre entre maio e julho
Festa de Nossa Senhora Achiropita
Rua Treze de Maio - Bela Vista (Bixiga)
Ocorre em agosto
Festa de San Gennaro
Rua San Gennaro - Mooca
Ocorre entre setembro e outubro

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