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quarta-feira, 26 de março de 2025

Apateísmo: o que ele é e o que ele não é

(Apateísmo é um termo tão novo que nem o Word ou o Google Docs o reconhecem. Mas é uma ideia boa de ser confundida)

“É muito importante não confundir cicuta com salsinha, mas acreditar ou não em Deus não tem a menor importância”

Dennis Diderot 

Olá!

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Já falei muitas vezes da patroinha aqui neste espaço. Não é à toa. Somos casados há trinta e cinco anos, e, com isso, não é de se estranhar que nos conheçamos como Pelé e Coutinho, Simon e Garfunkel, Chico Bento e Zé Lelé, Marx e Engels (uepa!). Na maioria das vezes, ela toca de primeira e me deixa na cara do gol, eu cruzo sem olhar e lá está ela com a bicicleta armada. Mas nem sempre. O mundo não é perfeito e casais perfeitos não existem. Para o bem da dimensão trágica da existência, que ótimo!

Simetrias são bonitas nas artes, na engenharia e no equilibrismo circense. Na vida real, há momentos em que Cascatinha puxa o Ré menor e Inhana vai no Mi maior, causando dissonâncias dolorosas, mas concretíssimas. É assim a vida como Nietzsche sempre disse que deveria ser, e assim ela é.

É por isso que há momentos em que é impossível deduzir o que pensamos mutuamente, eu e a patroa. E talvez os piores sejam aqueles momentos de silêncio. Não é frequente, mas eventualmente acontece de eu me cair mais quieto. São inúmeros os motivos: problemas no trabalho sempre estão à frente, mas há momentos puramente reflexivos, alguma irritação recolhida, algum alheamento ocasional ou até mesmo uma pontinha de febre de uma gripe que vem chegando. E a pergunta vem a cavalo, às vezes secundada pela filha mais nova (o filho mais velho não costuma se imiscuir nessas questões): por que você está tão apático? Nem sempre a resposta é fácil, o que piora a pergunta: você não estava assim, você não fala nada, você fica só murcho…

Bom, estar apático é, de fato, um estado de espírito, mas o termo em si é muito mais carregado de significados do que um mero porre pela vida. Ele é tão extenso que até mesmo vem nomeando uma nova tendência de encarar as divindades, ou melhor, de nem querer saber sobre elas. Como tem florescido com bastante força nos últimos tempos, é comum que ela se torne confusa e as pessoas a tratem com certo desconhecimento, razão pela qual vou dar aqui meus apontamentos para dar uma substância nas discussões sobre sua pertinência ou não. Trata-se do apateísmo, que talvez você já tenha ouvido falar por aí.

O que é apateísmo?

De maneira bastante sintética, é o desinteresse pela existência ou não de divindades.

No que ele é diferente do ateísmo?

O ateísmo, embora seja estranho dizer, é uma crença: a crença de que não existem divindades. Ou seja, é uma crença com sinal negativo. É uma atitude ousada, porque é passível de erro, já que basta que uma das milhares de divindades propaladas em inúmeras religiões exista, ou mesmo alguma marota escondida por aí, da qual nunca nós ouvimos falar. Já o apateísmo não diz respeito a crer, mas a não atribuir interesse na divindade. Não se trata de crer na não existência, mas da impossibilidade de conhecer.

Então podemos dizer que é um agnosticismo? 

Mais ou menos. Talvez um agnosticismo com uma dose de deboche. O agnóstico, ao contrário do ateu, não tem uma crença, mas uma confissão de ignorância. Ele não sabe se existem deuses ou não, mesmo que tenha alguma opinião a respeito. Mas isso é uma questão para ele, que pode até mesmo ser incômoda. E é exatamente isso que o apateísta quer evitar: a confissão de desconhecimento é a mesma, com a diferença de que a indefinição não pode e não deve causar transtornos na sua cognição.

E esse nome esquisito?

Seria algo como “prática da apatia”, o que nos leva a pensar em alguém que curte se sentir deprimido. Mas a realidade vai em um sentido totalmente diferente. O nome vem da junção das palavras gregas de negação a (não) e o designador de emoção pathos. Vou falar um pouco mais sobre ele. Quando falamos deste termo hoje em dia, quase na totalidade das vezes pensamos em doenças, em patologias. Mas é olhando-o como um termo do jargão filosófico que poderemos entender melhor seu uso. O pathos grego é um estado de espírito em que o emocional prepondera sobre o racional. O pathos, sendo assim, lança referências sobre o eu que se solta em relação à vida, tolerando o que ela lhe trouxer, suportando o que vier de bom e de ruim, e sofrendo (daí sua relação com a doença). A apatia, mais do que ficar molejando entristecido em um sofá, é a atitude daquele que não entende ser necessário sofrer por conta de qualquer coisa, tipo um desconhecimento sobre a existência de deuses.

E por que os apateístas chegam a essa conclusão?

Imagine o seguinte: a estrutura religiosa é fundante no pensamento humano. Praticamente desde que foi possível realizar registros, com as pinturas rupestres e outros elementos pré-históricos, é possível deduzir que a humanidade reverenciou divindades, o que tem mais de 50.000 anos. A escrita foi criada há mais de 5500 anos, e a filosofia grega é considerada viva há 2500 anos. Todo esse tempo se passou e a humanidade não conseguiu concluir sobre quais divindades operam na sua existência, ou, no limite, se elas existem. Sendo assim, não é hoje, em um pequeno cérebro pouco mais consistente que um pudim, que a dúvida deixará de persistir e que alguém chegará à verdade definitiva. Sendo assim, queimar irreversivelmente importantíssimos neurônios na questão é pura perda de tempo, segundo diz a corrente.

Então o objetivo é só evitar sofrimento?

Não exatamente. Pense em quanto você sofre por um motivo menos relevante. Eu, por exemplo, fico sempre aflito quando uma final de campeonato se aproxima. Isso é irrelevante para quem não gosta de futebol, e tanto faz se time A ou B vai levar o título. O problema é que tal abstenção não é puramente voluntária, porque é difícil escolher no que crer, no que se interessar. É mais válido pensar na obtenção de uma paz mental evitando cair na discussão de conflitos religiosos, porque sabemos o quanto isso influencia no nosso plano psicológico. Talvez, no máximo, podemos pensar em apateísmo como uma prática que mistura ceticismo e estoicismo.

Como funciona essa fusão de ceticismo e estoicismo?

Falo de correntes filosóficas, e não meramente no que o senso comum entende por essas palavras. Do ceticismo, os apateístas trazem a impossibilidade do conhecimento e a suspensão do juízo. Dos estoicos, trazem a apatia filosófica, ou seja, a indiferença perante o sofrimento inevitável.

É mais uma modinha?

Em parte, sim. É comum que certas correntes de pensamento ganhem maior ou menor relevo em períodos específicos, especialmente porque são trazidas a claro em grande quantidade produções intelectuais que se refiram ao tema, como acontece com as tais correntes. Só que dizer-se apateísta durará pelo exato tempo em que houver um convencimento interior. Passado isso, o movimento arrefece e só permanece nele quem efetivamente se fundeou. Mas é possível que certas pessoas acabem por adotar e absorver em definitivo essa posição.

Isso não aconteceu com as outras linhas de pensamento? E elas não acabaram caindo em desuso?

É que a coisa funciona assim: eu ouço uma música e gosto. Então eu me inteirarei mais da carreira da banda que a produziu e me tornarei um aficionado. Isso é um movimento natural porque existe uma correlação direta entre gosto e consciência do gosto. Quando eu me afeiçoo por uma ideia, já é preciso um mínimo de aprofundamento. Não basta achar que é uma corrente com nome bonitinho, ou dar ar de independência e modernidade. A adesão aqui precisa ser conectada com formação de princípios fundamentais, senão ela não resiste à próxima tendência dos corredores das academias. O niilismo já foi desse jeito, e hoje continua existindo, mas em um percentual muito menor que no ápice, e ainda expressiva para aqueles para os quais a ideia permaneceu coerente.

Não seria somente uma forma de “arrego” aos custos de se declarar ateu?

Vai do nível de sinceridade consigo mesmo e com a sociedade de quem adere a esta corrente. Pode ser que a palavra “ateu” soe mais pesada em um país predominantemente religioso, mas eu acho que o efeito pode ser contrário, na medida em que o desinteresse pelo assunto pode ser ainda mais condenável do que uma oposição ativa, em um sentido semelhante daquele que temos quando afirmamos que a indiferença é pior que o ódio, porque é isso que mata uma relação.

Se os apateístas pregam a irrelevância, não basta considerá-los irrelevantes? 

É uma cilada, Bino, simplesmente desprezar o pensamento dos apateístas, ao menos pelo ponto de vista religioso. Vários dos motivos pelos quais os apateístas entendem não ser relevante a discussão religiosa estão no coração da crença em divindades, como a questão da doação de uma moralidade pronta e acabada. Por isso, é importante (a quem importa) olhar pela lupa ao fenômeno e entender por que seus aderentes pensam como pensam.

Há mais alguma corrente filosófica no substrato do apateísmo?

Se um modo de pensar leva a tornar sem importância aquilo que não pode ser visto, sentido ou como sem interferência na vida das pessoas, podemos perceber que a ênfase está naquilo que existe. Então temos uma influência do existencialismo no apateísmo que é bem forte, no final das contas, já que adere plenamente ao seu pano de fundo. Outras influências devem existir, mas não me aprofundei tanto, a ponto de trazê-las aqui.

No final das contas, os tais religiosos não praticantes não são, na verdade, apateístas?

Depende. De fato, se a religião é meramente protocolar, então podemos dizer que sim. Mas quantos desses que não tem o exercício religioso da vertente que declaram pertencer não produzem em suas vidas algum outro tipo de comportamento de fundo religioso? Lembrem-se de que basta consultar um horóscopo para tomar uma atitude religiosa, esotérica, espiritual ou coisa que o valha.

Com relação ao desencanto do mundo mencionado por Weber, podemos achar que o apateísmo é um reflexo?

Parece a mim que sim, mas é preciso esclarecer o conceito. Weber vê o desencantamento por duas vias: uma que tem base no crescimento científico da sociedade, e, nesse sentido, o apateísmo estaria em plena aderência; e a outra diz respeito ao desencantamento no interior das próprias religiões, que passariam a enfatizar mais o aspectos éticos dos seus ensinamentos do que a prática ritualística, fundamentada na “magia”. Por esse viés, o apateísmo não tem um sentido tão forte. 

Temos algum autor que já se deteve mais sobre o assunto?

Como se trata de um assunto que ainda é recente, carecemos de pensadores que tenham se aprofundado o bastante para criar uma tese sólida sobre o fenômeno. O que temos são pesquisadores da religião que abordam o tema em um posto de vista comparativo, como Trevor Hedberg, Jordan Huzarevich e Milenko Budimir, que, preponderantemente, emitiram artigos em revistas filosóficas, aos quais faço menção mais abaixo. 

Faz sentido pensar que o apateísmo pode ser aplicado a pessoas religiosas?

É estranho, mas faz. Uma vez formada uma convicção, é possível mantê-la ad infinitum de maneira inobservada. Dessa forma, eu estabeleço que creio nos princípios budistas (digamos) e não volto mais o interesse para isso. Mas alguém que se denomina apateísta dificilmente tomará uma atitude dessa natureza.

Pelo que dá para perceber, o apateísmo pode ser ativo ou passivo. É isso mesmo?

Sim. Tem gente que não liga para religião naturalmente, sem fazer nenhum tipo de propaganda sobre essa condição. E tem gente que faz disso uma bandeira. Novamente: acho que a primeira atitude é mais sincera e passível de mantença, mas não recrimino ninguém por adotar uma prática de deixar o assunto de lado intencionalmente.

Você é apateísta?

Não. A questão religiosa é importante para qualquer pessoa que queira tratar de filosofia e ciências humanas.

Então, jovens… Esta é uma visão ainda nova que tem se consolidado cada vez mais no debate religioso como alternativa à dicotomia teísmo-ateísmo, e, sob este ponto de vista, absolutamente saudável. Espero ter contribuído. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Como eu disse, não há abundância de escritos sobre o tema, justamente por conta da ainda novidade. Estes são os artigos disponíveis na internet que trazem boas informações sobre o assunto.

BUDIMIR, Milenko. Historical Religious Indifference and its Links to Contemporary Apatheism. Disponível em: https://www.pdcnet.org/wcp23/content/wcp23_2018_0061_0031_0036. Acesso em 26.02.2025.

HEDBERG, Trevor; HUZAREVICH, Jordan. Appraising Objections to Practical Apatheism. Disponível em: https://philarchive.org/archive/HEDAOT

segunda-feira, 24 de março de 2025

O café filosófico do quotidiano – a Navalha de Hitchens como síntese do que se admite como prova

(Não é qualquer estultícia que pode ser nivelado a evidências consistentes. Melhor tratar besteira como besteira)

“A ignorância gera mais confiança do que o conhecimento: são os que sabem pouco, e não os que sabem muito, que afirmam positivamente que esse ou aquele problema nunca pode ser resolvido pela ciência”

Charles Darwin

Olá!

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Temos uma tendência em sermos conservadores com coisas que gostamos muito. É como se quiséssemos colocá-las em uma redoma de vidro para evitar intempéries e estragos. O resultado é que, se por um lado temos o objeto preservado, por outro não extraímos tudo o que ele pode dar a nós.

Claro que me refiro a café. Estamos acostumados com aquele líquido quentinho, que nos anima a levantar e encarar o dia, que se mantém por longos minutos em nosso paladar enquanto nos preparamos para a comédia do dia-a-dia. Isso tudo é afetivo, e queremos o mesmo efeito sempre, esquecendo que haverá os dias de pressa, os dias de frustração, os dias de luta e luto. Por isso, entregar nosso afeto unicamente a um café é injusto com a própria bebida, que pode passar a se vincular com desafetos que não são dela.

Por essa razão, experimentar é uma ótima opção. Um café não precisa ser só daquele jeito ao qual já estamos acostumados, embora isso não signifique que não deva ser consumido como sempre. Uma das opções que experimentei (e gostei) foi o cold brew, o café extraído a frio, que pode ser usado tanto puro, quanto misturado a outras bebidas, principalmente drinques. Puristas como um todo podem achar que é uma heresia, uma excrescência, um despautério, uma insensatez, um dislate, mas eu achei tão legal a brincadeira que fui me inteirar do processo, usando um método que é apropriado para tanto, o Mizudashi.


É um utensílio fabricado pela consagrada Hario, que consiste em um jarro com um filtro de nylon extrafino, onde o café já moído ficará em contato com a água por bastante tempo, já que este é o fator de extração.

O pó deverá ser moído mais grosso do que o convencional, semelhantemente ao que fazemos com uma prensa francesa, para evitar que se extraia muito amargor.

O pó é colocado no interior do filtro e coloca-se a água fria, e depois é colocada a tampa para proteger a mistura de resíduos.

A quantidade de água deve ser suficiente para permitir que o conjunto pó-filtro fique imerso durante todo o tempo da maceração, que deve ser entre 12 e 24 horas, dependendo da torra do pó e da espécie do café. Os mais delicados dependem de mais tempo de extração.

Este tempo deverá ser cumprido dentro da geladeira, o que explica a lentidão do processo: extrações a frio tiram solutos de forma bem menos acelerada, e age quimicamente em outros componentes do café, o que lhe traz características únicas. Um cold brew não é parecido com um café extraído a quente, mesmo que se aqueça o líquido a posteriori.


Nome do utensílio: Jarro de extração a frio

Tipo de técnica:  Infusão

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: grossa

Dinâmica: Deposita-se o pó no filtro de nylon, encaixa-se o mesmo no jarro e despeja-se água fria ou gelada no conjunto, fechando-o em seguida. O jarro já preenchido deve ser levado Pa geladeira por um mínimo de 12 horas e um máximo de 24 horas, quando então deverá ser removido o filtro contendo o café. O líquido resultante pode ser tomado puro ou em mistura com outras bebidas.

Resíduos: Baixo 

Temperatura de saída: Baixíssima

Nível de ritual: médio

E essa é a magia da coisa. A realidade não é uma coisa unívoca, que só tem uma solução para tudo. Há sempre mais propostas do que o limitado número habitual, que guiamos mais por nossas preferências que por nossas racionalizações.

Mas é preciso cuidado. Nem toda solução é boa, e de cara dá para deduzir algumas coisas que não dão certo.

Dou um exemplo ligado ao café. Certa vez, fiz uma experiência bizarra. Partindo da premissa que adicionar umas pitadas de canela dá uma salvada em cafés ruins, resolvi fazer um chá de canela para escoar no café. O resultado foi horroroso, e era óbvio que seria. Chá de canela tem um sabor muito forte, e dificilmente é palatável na sua forma pura. Junte-se isso a um café meia boca e teremos um líquido intragável. Isso não precisava ser realizado para ser constatado, a não ser por pura teimosia. Já a extração de um café a frio pode ser deduzida como razoável, e aí o esforço vale, especialmente pela expectativa de boas surpresas.

Essa historinha serve como alegoria para a avaliação do que vale a pena ser estudado quando queremos trazer uma resposta a uma questão que nos aflige. Diante da dúvida de como melhorar um café chinfrim, é mais razoável supor que uma pequena intervenção trará melhores resultados que uma virada de ponta-cabeça nas proporções da fórmula, porque aí há várias coisas em jogo: desnaturação de ambos os componentes, deslocamento da função de um deles, utilização de um elemento inabitual na relação e etc. É melhor compor com a solução mais simples primeiro: uma pitadinha de canela resolve muito bem para pequenas correções. A não ser que não se goste de canela.

Não é novidade o que trago aqui. Chama-se navalha de Ockham e já tratei dela aqui. Mas não é só essa navalha epistemológica que existe, já que há outras maneiras de se delimitar áreas de conhecimento, e as navalhas nada mais são do que artifícios para dizer o que uma coisa não é: corto as arestas que ficam tentando se aderir ao objeto, e deixo ele limpinho.

Dá para notar, sendo assim, que as navalhas são subsidiárias das metodologias de pesquisa. Não são métodos em si, mas ferramentas que buscam dar limites às hipóteses às quais devemos correr atrás, porque a boa filosofia manda utilizar o princípio da simplicidade, e isso tem uma razão até mesmo econômica: o caminho mais simples é mais rápido, mais barato e mais coerente na imensa maioria das vezes. Somente após esgotada sua possibilidade, partimos para algo mais complexo. É até natural.

Outras navalhas foram sendo definidas ao longo do tempo, e o caso da experimentação da Mizudashi me inspirou a falar sobre a navalha de Hitchens, que tem toda uma história interessante por trás dela. Vamos começar.

Durante toda a história da Filosofia, diferentes olhares sobre a questão das divindades foram levantados. Seja como pano de fundo da realidade dos filósofos da physis, seja como principal objeto na filosofia medieval, seja transformada no deísmo dos modernos, o fato é que, até o século XIX, filósofos ateus eram exceções. Os motivos são vários, e o principal era a falta de subsídios para justificar um universo puramente material, em que não houvesse um motor a regê-lo. Havia poucos abnegados que cravavam a inexistência de deuses, mesmo aqueles mais difusos e etéreos, impessoais.

Ocorre que o mundo girou incessantemente e o sucesso da Revolução Científica em explicar uma realidade independente de deidades, aliado ao fracasso da Revolução Francesa em aperfeiçoar as relações de forças políticas fizeram com que a filosofia começasse a considerar com mais seriedade um mundo sem deus, a ponto de se notar, desta vez, uma tendência mais clara nesse sentido. Marx chamava a religião de ópio do povo; Nietzsche proclamava a morte de Deus, enquanto Freud o considerava fruto de uma neurose infantil. Já Darwin lança a Teoria da Evolução, tirando das mãos divinas as espécies criadas prontas, o que gera rebuliço até hoje. Ficaram conhecidos como Quatro Cavaleiros do Ateísmo, embora Darwin, na verdade, fosse agnóstico, parafraseando a passagem bíblica que fala dos quatro cavaleiros do apocalipse que prenunciam o fim dos tempos:

“Depois, vi o Cordeiro abrir o primeiro selo e ouvi um dos quatro Animais clamar com voz de trovão: ‘Vem!’. Vi aparecer então um cavalo branco. O seu cavaleiro tinha um arco; foi-lhe dada uma coroa e ele partiu como vencedor para tornar a vencer. Quando abriu o segundo selo, ouvi o segundo Animal clamar: ‘Vem!’. Partiu então outro cavalo, vermelho. A quem o montava foi dado tirar a paz da terra, de modo que os homens se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada. Quando abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro Animal clamar: ‘Vem!’. E vi aparecer um cavalo preto. Seu cavaleiro tinha uma balan­ça na mão. Ouvi então como que uma voz clamar no meio dos quatro Animais: ‘Uma medida de trigo por um denário, e três medidas de cevada por um denário; mas não danifiques o azeite e o vinho!’. Quando abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto Animal, que clamava: ‘Vem!’. E vi aparecer um cavalo esverdeado. Seu cavaleiro tinha por nome Morte; e a região dos mortos o seguia. Foi-lhe dado poder sobre a quarta parte da terra, para matar pela espada, pela fome, pela peste e pelas feras”. - Ap 6, 1-8 (disponível em https.www.bibliacatolica.com.br).

Os quatro cavaleiros seriam representações da sequência que conduziria ao fim do mundo: a sede de poder que conduz à guerra, que conduz à fome, que conduz à morte. É óbvio que a alegoria se torna um tanto exagerada para ser aplicada aos pensadores em questão, mas é bem representativa do medo que seu descolamento causava à estrutura religiosa, símbolos do paulatino afastamento dos homens de suas deidades, de modo que todos foram praguejados como se fossem juízes em jogos da Portuguesa.

Em um pêndulo onde ora havia mais desvinculação com a religião, ora menos, o pensamento médio foi flutuando em uma média, até que os acontecimentos do famoso 11 de setembro de 2001 desencadearam uma nova reação contra a religião, tendo em vista a dimensão do evento e seu móbile religioso. Surgiram vários pensadores que iniciaram um quase combate à influência social dos religiosos que, em nome de Deus, podem se permitir qualquer barbárie.

Nesse contexto, em meados da primeira década do século XXI, surgem os Quatro Cavaleiros do Novo Ateísmo (ou variantes assemelhadas). Richard Dawkins, Daniel Dennett, Christopher Hitchens e Sam Harris são pensadores que não somente se declararam ateus, mas que passaram a combater a religião como um mal para a sociedade. Não disparavam suas armas unicamente contra o Islã, mas a provar que a ideia de um deus era uma irracionalidade que conduzia a legitimação de barbáries, como se pode comprovar ao longo da história.

Dentre os quatro, Dawkins é um cientista, Harris e Dennett são filósofos e Hitchens era jornalista, ou seja, mais do que os outros, a palavra era a matéria-prima de seu trabalho. Talvez por isso, fosse o mais incisivo dos quatro, principalmente por conta de suas construções pingentes, difíceis de contestar mesmo pelos mais bem preparados opositores. Ficou célebre por seus livros e capacidade de debate, e, evidentemente, por sua fraseologia. É provável que a mais memorável de todas seja aquela que ficou conhecida como Navalha de Hitchens. Ele dizia que “o que pode ser afirmado sem provas, pode ser refutado sem provas”. A ideia original é antiga, provavelmente sintetizada por Pierre-Simon de Laplace ainda no século XIX, ao afirmar que “o peso da evidência para uma alegação extraordinária deve ser proporcional à sua estranheza”. A navalha de Hitchens seria, então, um corolário de uma delimitação que, no fundo, é metodológica.

E o que significa essa navalha? Quando fazemos afirmações de fundo filosófico, é admissível que a sua base de sustentação seja calcada na lógica. Isso porque a filosofia se serve unicamente do raciocínio para construir suas teorias. Ela é o fundamento dos princípios gerais do pensamento, e ainda prescindem de confronto direto com a realidade em si mesma. Já o papel da ciência é de explicar a realidade, e isso não pode evitar verificação e experiência. O empirismo que é facultativo na filosofia, é obrigatório na ciência, porque esta é feita de provas. Na maior admissibilidade de uma abertura, essas provas podem não ser obtidas no momento em que são hipotetizadas, mas em algum momento deverão ser. Percebam que, neste último caso, uma declaração científica permanecerá hipotética durante todo o tempo em que não houver tecnologia disponível para a obtenção de evidências. Mas o fundamento da ciência pode ser resumido na palavra “prova”.

É simples compreender isso. Vamos falar do tema evolução, já que resvalamos nele. À questão sobre quem criou as espécies, temos algumas respostas possíveis. Quando se afirma ter sido um princípio de seleção natural que parte de pressões ambientais impostas aos seres vivos, para que permaneçam as espécies mais bem adaptadas, temos dificuldades, já que não vemos à nossa frente uma espécie se transformando em outra*. Mas há provas indiretas abundantes: o registro fóssil comprova que existiram espécies que não estão mais aqui; a anatomia comparada permite verificar que as espécies se assemelham umas às outras, de forma a apontar para um ancestral comum; os órgãos vestigiais indicam que a espécie sofreu modificações que inutilizaram certas estruturas orgânicas; a estrutura celular permite verificar as semelhanças e diferenças entre as espécies, afastando-se ou aproximando-se conforme sua classificação biológica; ainda é possível perceber como a distribuição geográfica das espécies faz com que determinados parentescos sejam mais próximos que outros, e como espécies de alto nível de endogenia sejam preponderantes em ambientes mais isolados, como a Oceania, Madagascar e Ilha de Páscoa. Provas indiretas, mas provas. O conjunto de comprovações é robusto, e, mesmo que contestáveis, mantêm-se sólidos por seus próprios fundamentos. Se for considerada a necessidade de comprovações extraordinárias, elas estão aí.

O que acontece se afirmarmos que há alguma forma de inteligência por trás do surgimento de espécies? A primeira coisa é estabelecer que inteligência é essa, de onde surgiu e porque resolveu construir espécies. Se as criou prontas, o que significam todas as evidências evolutivas que não fariam sentido em um ambiente guiado, especialmente os resíduos fósseis. Voltando à inteligência, deve-se explicar por que essa, e não outra, e assim por diante. E, principalmente, que provas temos de tudo isso?

A navalha de Hitchens estabelece, portanto, que imiscuir questões que não obedecem a princípios científicos de evidência e verificação no âmbito científico é um ato que pode ser derrubado com as mesmas ferramentas. Eu não posso contestar a lei da gravidade simplesmente afirmando que as mãos de Deus sustentam o universo. É preciso provar isso. Do contrário, basta a mim afirmar que Deus não conseguiria passar desodorante enquanto segura as estrelas e planetas. É jocoso, mas serve como exemplo.

É a velha questão do ônus da prova. A quem cabe o peso de demonstrar válida uma afirmação? A quem a faz, não? Não posso falar por aí que vi seu par te mandando bola nas costas sem uma mísera foto, nestes tempos de celular na mão. Se eu afirmo, cabe a mim provar que estou certo, e não a você provar que estou errado. E quanto mais difícil for a minha afirmação, melhores as provas que deverão ser apresentadas. Na talaricada acima, se não há foto, gravação, mensagem de zap ou qualquer coisa, posso simplesmente dizer que o motivador da fofoca é intriga, inveja ou qualquer outra coisa que eu também não posso provar, entenderam? É, portanto, uma navalha da economia: não é preciso perder tempo construindo refutações sofisticadas para argumentos tão sólidos quanto uma faca na manteiga.

A navalha de Hitchens seria contrária à própria filosofia? A resposta é não. Ela não se opõe a afirmações que um dia possam ser comprovadas como verdadeiras, mas à assunção de hipóteses como reflexo da realidade. Outra coisa: afirmações filosóficas que se pautam em consequências da realidade são aceitáveis em seu próprio âmbito. Se querem se imiscuir no processo científico, precisam ser convertidas. Mas com que? Trazendo provas, para virar ciência. É isso. Simples assim.

O fato é que muitas vezes afirmações de cunho esotérico ou religioso se travestem de filosóficas apenas para ganhar status de racionalmente lógicas, e, com isso, estarem no rumo da cientificidade, o que é uma esparrela, na maioria das vezes. Hitchens detecta a malícia de quem quer dar estatuto científico a teses que claramente não são e as coloca no âmbito daquelas que devem ser postas de lado sem grandes esforços. Ele estabelece essa regra sem querer torná-la um estatuto oficial, daqueles que ficam escritos nas pedras acadêmicas, mas às vezes ser zombeteiro funciona melhor do que criar manuais a serem seguidos criteriosamente e não ser compreendido pelo amplo público.

Então é isso. Bom é que tenhamos em mente que não é muito provável que nosso café aceite qualquer bobagem. Tomá-lo gelado não é uma dessas. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Eu já falei de Dawkins no blog, aqui e aqui. Falo agora sobre Hitchens e certamente falarei sobre os outros dois cavaleiros, no tempo certo. A obra-prima do personagem principal deste texto é o excelente livro abaixo:

HITCHENS, Christopher. Deus não é Grande: Como a Religião Envenena Tudo. Rio de Janeiro: Globo, 2016.

*Embora isso seja perceptível a nível microscópico.

segunda-feira, 17 de março de 2025

O Futebol e suas diferentes filosofias: o veterano Nacional e a estranheza de quem não vê a importância de nosso universo refletida no mundo inteiro

(Sabe quando você acha que seu mundo é o mundo de todo mundo?)

“É impossível para um homem ser enganado por outra pessoa que não seja ele próprio”

Ralph Waldo Emerson

Olá!

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Eu já falei sobre ferrovias neste meu blog em algumas ocasiões, muito por força de meus passeios por Minas Gerais ou de cidades paulistas que preservam suas relíquias ferroviárias (aqui e aqui), mas bem poucas vezes de minha relação pessoal com elas. Eu nunca fui um usuário muito frequente das linhas férreas*, exceção feita a dois momentos bem marcados. O primeiro deles foi lá pelo meio da década de 80. Eu trabalhava no centro de São Caetano do Sul e estudava na Vila Prudente. Olhando no mapa, são regiões bastante próximas, mas o ônibus que ligava ambas dava uma volta daquelas que parecem a avó contando uma história. A linha reta da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí tornava o trem muito mais elegível, inclusive mais barato.

Por que a questão, então? Bom… quem chora loas ao passado simplesmente não sabe o que está fazendo. Os trens da EFSJ eram pocilgas sujas, cheias de buracos nos vidros e que recendiam àquele divertido cheiro de pano queimado, tão típico dos cigarrinhos “envenenados”. Eram dias em que ainda era encrenca ser pego com um desses, e minha tática era simples: tão logo o trem andasse, acendia eu mesmo o meu caretíssimo Marlboro. Se os hômi baixassem o baculejo na galera, eu já tinha a desculpa entre os dedos: não tenho nada com isso. O pior que aconteceria seria ter que jogar o cigarro fora, ou, no limite, ter que descer da composição. Mas, como era muito mais rápido e descomplicado do que ter de explicar, eu-rapazola, que não tinha nada a ver com a marola alheia, achava que valia o risco.

O segundo era anterior, nos finais de semana em que visitávamos meus primos que moravam na Barra Funda, filhos da tia Júlia. Eles tinham um ferro-velho na Rua da Várzea, bem perto da linha, e quando íamos lá meu avô já tinha seus planos: pegar o trem e andar uma estação** até a estação Água Branca, onde ficava o campo do Nacional, o time dos ferroviários.

Eu continuei dando meus pulos no velho campo da Rua Comendador Souza até os dias de hoje, para acompanhar as desventuras do tradicional time. É uma daquelas empreitadas absolutamente tranquilas, em que você pode se sentar na arquibancada coberta e comer seus amendoins e até apreciar um bom futebol de vez em quando.

O Nacional, a despeito de seus atuais passeios pelas divisões inferiores do futebol paulista, é de uma tradição inigualável. Embora não possa ser considerado o clube de futebol mais antigo do país, tem uma conexão direta com o primeiro jogo de futebol praticado com registro em Terra de Santa Cruz. Afinal, foram os ferroviários da São Paulo Railway que enfrentaram os funcionários da Gaz Company naquele longínquo 1895, em um campo perdido na Várzea do Carmo, aqui perto de casa. Charles Miller, o inaugurador do esporte bretão em São Paulo, trouxe as bolas e as regras do esporte para começar nossa longa saga dentro das quatro linhas. O time dos ferroviários manteve-se jogando partidas isoladas e participando de pequenos torneios incipientes, até que resolveu se organizar em um clube em 1919, a verdadeira data de fundação. O nome original foi mantido até o término da concessão da ferrovia em 1946, quando foi nacionalizada, o que inspirou a adoção do nome atual. Sendo assim, o escudo da porta da federação é diferente daquele do momento da fundação. O mascote do time, um baixinho com um apito e cap típico dos controladores de rotas, ainda relembra os tempos em que os trens eram empreitadas que contratavam muita gente.

O Nacional nunca esteve na crista da onda do futebol brasileiro, embora tenha revelado muitos craques que se destacaram em clubes maiores, como Dodô, Deco, Cafu, Magrão, Sérgio Manoel e outros. Seu campo faz parte do Triângulo do Futebol, junto dos CTs do Palmeiras e do São Paulo, naquela região da Barra Funda onde antes vicejava as várzeas do Tietê e as fábricas da família Matarazzo. Recentemente, a arquibancada do estádio foi tombada pelo patrimônio público, em vista do avanço da especulação imobiliária sobre a região. O clube ganhou algum interesse para os praticantes de futebol society, no espaço onde antes havia outras práticas, mas o time em si continua na semi-obscuridade. 

Há um sentimento estranho. O espírito das partidas, a agitação da pequena Almanac**, os contornos dramáticos da sua existência fazem com que os confrontos ali ensejados tenham uma dimensão muito maior do que tem na verdade, como se fossem acontecimentos no mínimo municipais, quando, de fato, pouco saem do espectro da própria Barra Funda. Mas a sensação não é essa. Vocês já não tiveram a impressão de que um fato ou acontecimento marcante em suas vidas era de conhecimento ou compartilhamento muito mais geral com o mundo aos seus redores?

Na vida de todas as pessoas há coisas que nos igualam como seres humanos, e há coisas que nos diferenciam. Como o comportamento de espécie é atavicamente muito forte, nós temos uma tendência a buscar um certo nível de conformidade. Quem está distante do paradigma tem aquela incômoda fama de diferentão. Por esta razão, quando saltamos do nosso âmbito privado, vamos procurar no universo ao nosso redor confirmações para nossas crenças e costumes mais privados, mais individuais, ou, no máximo, dos grupos menores, mais fechados.

A questão é que certos comportamentos individuais se tornam arraigados, e procuramos nos aprofundar nessas pequenas coisas que nos são caras. E, no caso do apreciador do time menor, redunda na busca de informações que não dão em árvores. Coisas sobre Corinthians, Palmeiras e os outros grandões dão em árvores, e não demandam nenhum tipo de esforço. Já para saber mais sobre o Nacional, é preciso ir às fontes mais diretas, conversar com os poucos torcedores, com os velhos frequentadores, com os funcionários clássicos. E isso carrega nossa consciência para muito perto do objeto a ser conhecido.

A coisa ser tão envolvente acaba por trazer transformações em nós mesmos. Todas as vezes em que saio do Nicolau Alayon com a camisa listrada tenho a sensação de que todo mundo sabe muito bem qual é aquele time, sua escalação completa com reservas e comissão, seus títulos e posições nos torneios que disputa. A verdade é que não é nada disso, nem perto. Talvez os mais jovens até pensem que é a camisa do Porto, e é de estranheza quase geral minha disposição em acompanhar um time da A4, que não joga uma divisão nacional há muito tempo.

Isso não acontece somente no âmbito do indivíduo, mas dos grupos pequenos, que compartilham interesses que fogem do terreno mais comum. Eu, por exemplo, recitava as formações de minhas bandas favoritas álbum a álbum, dando lista completa das músicas e detalhes mais técnicos, como engenheiros de som e produtores, ou até mesmo estúdio de gravação e ateliê de design das capas. As pessoas às vezes me perguntavam de onde eu tinha tirado tanta informação e porque eu tinha tanto interesse. A coisa é tão mais difícil de entender quanto mais jovem for a pessoa, pelo óbvio motivo da diferença de mídias. Meu aprendizado se deu com os amigos mais velhos dos meus primos: Heber, Tuco, Daily, Serginho e outros que nem lembro mais, todos na faixa de 5-7 anos mais velhos que eu-fedelho, que ficava flanando pelas salas enquanto meus companheiros mais velhos ouviam e discutiam sobre música, o que é didático. O ritual era sempre semelhante. Um dos rapazes comprava um disco novo e todo o proletariado se juntava para escutar a peça, na maioria das vezes já com fitas cassete para levar sua cópia para casa. O mais frequente era o precitado Daily***, que morava no porão de uma quitanda e gastava todos os seus cobres com discos e derivados. O ambiente subterrâneo já dava um ar literalmente underground em sua saleta forrada de pôsteres, que retumbava com os potentes alto-falantes comprados a peso de ouro e consequente miséria indumentária pelo indigitado, o que lhe fazia parecer um misto de hippie e mendigo. Não falavam só dos grandalhões, como Led Zeppelin e Deep Purple, mas de coisas verdadeiramente difíceis de se ouvir, como o bizarro krautrock tedesco do Can, dos discos mais progressivos da Electric Light Orchestra ou dos então recém-surgidos grupos da New Wave of British Heavy Metal, até então desconhecidos.

Esse pequeno universo, para aquele grupo e para mim, parecia tão definidor do que era a música, a própria sociedade e o universo, que dava a sensação de que eu sairia do porão do Daily e veria todo mundo cabeludo e descabelado, roupas velhas e tênis sujos, rabiscando na parede nomes com AC/DC, Rock Goddess ou Judas Priest. Mas não. A realidade era Olivia Newton-John, ABBA, Bee Gees, além dos mega-ídolos nacionais, como Roberto Carlos e Amado Batista.

Não se trata de pensar em humanos estruturalmente diferentes dos demais, mas de interesses comuns substituídos. Fossem vocês àquela época para me perguntar sobre novelas e eu nem ao menos saberia a emissora que as estivesse transmitindo. Mas um imenso público conhecia atores, diretores, trama, capítulos, personagens e demais que-tais com a mesma vivacidade que eu sabia de minhas bandas. Por isso, somos iguais, diferentes em nossas particularidades.

Mas o que explica a sensação de que o mundo deveria saber tudo o que sei? Bem, Freud explica e a nova psicologia aperfeiçoa a explicação, com minhas associações feitas por conta própria.

A projeção, no espectro psicanalítico, é um mecanismo de defesa psíquica que visa proteger a mente de uma pessoa ao atribuir a outrem as falhas que lhe podem causar incômodo ou desconforto. Isso acontece porque o conflito interno pela admissão do fracasso é maior que o subterfúgio do repasse pela responsabilidade. A admissão da falibilidade é especialmente danosa ao ego, que não processa a possibilidade de que ele é defectível, por isso esse processo é feito inconscientemente: ao encarar a frustração, a psique procura desesperadamente algo fora de si, e projeta sobre ele a sua causa. Quando chega a nível consciente, o fenômeno já aconteceu - sou tão responsável pelos meus sucessos, quanto inocente pelos meus fracassos. Devem ser inúmeras as vezes em que você ouviu alguém dizendo que sua vida está amarrada porque há quem lhe coloque olho gordo, e pouquíssimas onde alguém admite erros de conduta, como preguiça, teimosia e congêneres.

A projeção é deslavadamente visível no efeito ator/observador, de quem já falei neste texto, mas não só. Ainda que a projeção freudiana diga respeito a sentimentos pesarosos e negativos, dessa ideia podemos depreender que temos a característica de imputar aos outros coisas que são nossas. A questão aqui é que talvez não seja somente o caso de projetar por mecanismo de defesa, mas justamente pelo sentimento de conformidade, incluindo aí visões positivas ou neutras sobre a realidade.

Nós sabemos que vivemos em sociedade e que isso representa um todo distinguível dos próprios indivíduos, mas também sabemos que é a partir de nós como indivíduos que parte nossa visão sobre esta mesma sociedade. Desta forma, ainda que a sociedade como um todo possa ser considerada uma entidade autônoma, ela só existe pelo ponto de vista da percepção das pessoas que a compõem. Essa percepção é enviesada, porque nós não temos o universo inteiro dentro de nós - interpretamos o ambiente a partir de nossas crenças, de nossas opiniões, de nossos valores e de nossos costumes, o que faz com que esses fatores “contaminem” a nossa visão. Enquanto eles estão plenamente aderentes àqueles comumente assumidos no meio, nada a contestar. Mas, a partir do momento em que eu entenda que mesmo meus hábitos mais estranhos e preferências mais incomuns são subsumidos na mesma proporção pela sociedade, ou seja, que eu os projete para o ambiente onde eu convivo, eu sinto a estranheza de não encontrar reflexo real no mundo. Eu saio do campo do Nacional achando que vou encontrar inúmeros torcedores com a camisa listrada por aí, e não encontro, da mesma forma que eu saía da casa da rapaziada mais velha achando que ouviria Magma ou Faust a cada esquina, mas o que havia era disco music. É o efeito do falso consenso, um viés cognitivo de atribuição que nos faz entender que os nossos hábitos e valores são de boa aceitação e de farto uso pelo mundo inteiro. É o famoso “mundo que gira ao redor do umbigo”.

É mais uma prova do quanto somos naturalmente egocêntricos, e somente depois de muito convívio e confronto que nossos eus se adaptam melhor a uma vida em comum. Como tendemos a perceber nossos conjuntos de valores como preciosos, vamos procurar grupos que os confirmem, o que reforça ainda mais essa percepção, de modo a atribuir uma ideia de consenso que se estende para além dos limites desse grupo. Só que não.

Isso traz, por outro lado, a sensação de exclusividade. É como se a estranheza com que os outros lhe encaram fosse transformada em um sonoro “você não sabe o que está perdendo”. Acompanhar o Nacional é para poucos, e isso porque somente quem tem verdadeiro interesse pelas raízes do futebol e do futebol como esporte entendem o sentido de se sentar na arquibancada memorial. Os outros gostam de grife, não de futebol. Bons ventos a todos!

PS: você acha que esse viés não te atinge? Leia sobre isso no meu texto sobre o viés de ponto cego.

Recomendação de leitura:

Lançado como comemoração pelo centenário do clube, o livro abaixo traz histórias e fotos dos principais momentos do clube, escritos por um dos raros torcedores e prefaciado por ninguém menos que Mauro Beting.

ILHÉU, Leandro Massoni. Nacional: Nos Trilhos do Futebol Brasileiro. São Paulo: Martins Fontes, 2019.

*Cumpre distinguir aquilo que chamamos de trem do que denominamos metrô, que é, no final das contas, um trem também, mas que tem toda uma cadeia própria de construção e utilização. Então é sobre o primeiro que estou falando.

** Almanac é a torcida organizada do Nacional

** Pronuncia-se Dailí

quarta-feira, 12 de março de 2025

O Futebol e suas diferentes filosofias: o pequeno Jabaquara e a lógica que amarra as pernas dos pequenos

(É possível alguém das beiradas ir parar no centro? Difícil)

“Em questões de dinheiro, todos temos a mesma religião”

Atribuído a Voltaire

Olá!

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Jabaquara é um bairro daqui de São Paulo. Ele ficou especialmente célebre a partir da década de 70, quando virou a última estação da banda sul do metrô e seu pátio de manobras, aquele misterioso local onde os dorminhocos vão passear ao fim das viagens, para acordar perdidos. Essa notabilidade foi acentuada quando foi criado o terminal rodoviário, que substituiu com vantagem a velha rodoviária do Glicério, despejando o mar de ônibus que vai para a Baixada Santista diretamente na Rodovia dos Imigrantes. Isso tudo colocou no mapa um bairro outrora distante, daqueles que demoravam horas e horas de ônibus para chegar. Fiquei mais íntimo de lá quando trabalhei na região, na Água Funda, e volta e meia precisava ir a algum banco ou repartição.

Jabaquara, palavra de origem tupi, significa algo como “esconderijo de negros fugitivos”, e isso explica a função inicial do bairro. Com o decorrer do tempo, acabou se tornando uma espécie de pouso para as pessoas que trafegavam entre a porção central de São Paulo e o extinto município de Santo Amaro de um lado, e a região da Borda do Campo (atual ABC) do outro. Só deixou de ser uma região rural a partir de meados do século XX.

Se você perguntar a um paulistano inespecífico, a primeira resposta à pergunta “o que é Jabaquara” será semelhante a essa, com algumas informações a mais ou a menos. Se a pergunta for a alguém muito letrado, poderá ser acrescido o segundo parágrafo. Mas Jabaquara não é só isso.

Jabaquara é um dos times fundadores da Federação Paulista de Futebol, o primeiro desta série de textos que ainda está na ativa. Vem passeando há décadas pelas divisões inferiores do Estadual, tendo, inclusive, alguns períodos de licenciamento, sempre por apuros financeiros. Seu nome original era Hespanha, pelo óbvio fato de ter sido fundado por imigrantes espanhóis da cidade de Santos, colônia bastante significativa por lá. Sim, o Jabaquara do futebol não tem nada a ver com o bairro paulistano, o que foi um grande engano deste escriba em seus primeiros anos de compreensão futebolística. Foi obrigado a mudar de nome em 1940, por força da legislação que proibiu a utilização de nomes referentes às forças beligerantes na Europa por ocasião da Segunda Guerra Mundial, mesmo ato que obrigou os Palestras Itálias mineiro e paulista a se transformarem em Cruzeiro e Palmeiras, respectivamente, ou o Germânia a virar Pinheiros. Por esta razão, já consta da famosa entrada da federação com seu nome novo, mas as mesmas velhas cores aurirrubras da bandeira espanhola.

O Jabaquara nunca foi campeão paulista, e ostenta apenas os títulos obtidos na região da Baixada Santista. É lembrada mais por ter sido o berço de um dos principais goleiros da história, Gylmar dos Santos Neves, que depois flanou seu talento por Corinthians, Santos e Seleção Brasileira. É o terceiro time da cidade de Santos, uma espécie de xodozinho que todo mundo gosta, mas ninguém leva a sério. Quer dizer… todo mundo que conhece, o que já é mais raro. Claro que os moradores de Santos sabem da existência daquele pequeno estádio na Caneleira, bairro de morros e mangues que não lembram uma cidade praiana, para onde o clube se mudou ao vender a sede do Macuco, esta de fato próxima ao mar, mas todo mundo se pergunta até quando ele dura. Sua estrutura é o mínimo que se espera para não ser um time de várzea, e é quase inacreditável que ainda exista profissionalmente.

O Jabaquara está como está por causa do capitalismo, sem nenhuma crítica direta ao sistema. Vou explicar meu ponto.

O capitalismo é um sistema econômico cuja principal característica está na liberdade de mercado, ou seja, as relações comerciais são regidas por movimentações de dinheiro circulante, que se dão sob uma espécie de algoritmo que faz com que a economia se equilibre e reequilibre espontaneamente, sem a necessidade de intervenções exteriores, notadamente de governos. Isso é proporcionado por alguns pilares básicos: livre iniciativa, livre concorrência, admissibilidade e incentivo ao lucro e acúmulos de capital.

Seu nome deriva do latim caput. Literalmente, esse termo significa “cabeça”, mas é utilizado em seu sentido figurado de “primeiro”, ou de “líder”. Capitalista é, nesse sentido, aquele que detém os meios econômicos para liderar os processos industriais e comerciais, de fazer a roda da economia girar. A interveniência de governos passa a ser considerada prejudicial à economia, por dirigir políticas, retirar fundos da economia e desequilibrar o mercado, de modo a produzir teratologias financeiras, por seu imenso tamanho. O mercado deve se pautar pela lei de oferta e procura, que funciona mais ou menos como alguns princípios da seleção natural. Quando há excessos de um determinado produto, ele tende a ficar mais barato, e isso faz com que seu consumo aumente, até o ponto em que há uma inflexão e, de tanto ser consumido, ele passe a ficar escasso, o que movimentará seu preço para cima, o que fará com que menos pessoas consigam adquiri-los, e, com isso, haja um excesso de produção e os preços novamente baixem, em um movimento pendular infinito. Portanto, enquanto nos seres vivos o impulsionamento da seleção se dá pela necessidade de sobrevivência, no capitalismo a movimentação se dá pelo dinheiro. E, surpresa, em ambos os casos são os melhores adaptados que sobrevivem.

O capitalismo, como o próprio nome diz, favorece aqueles que detêm capital, mormente na forma de acúmulo. E os demais? Como se inserem neste sistema? Com o seu trabalho. Ou trabalha para um capitalista que tem terra, fábrica ou comércio, ou tem algum pequeno negócio onde todas as tarefas são desempenhadas por ele mesmo. Suas ações isoladas não são capazes de modificar a realidade da economia e, por isso, em tese, precisariam atuar em conjunto, algo difícil sem uma guia (como sindicatos e governos). O livre mercado defendido pelos capitalistas, nesse sentido, possui uma certa quantidade de pessoas naturalmente excluídas. São aqueles que estão nas franjas do sistema, que não se adaptam bem a esse modelo de realidade. Eles se encontram até mesmo nos países mais avançados do mundo. Não é preciso ser alguém que não tenha dinheiro ou não goste de trabalhar.

Acho que um dos melhores exemplos que eu posso dar é o pintor que morava no prédio em que habito, o José Camargo. Ele fazia pinturas de um preciosismo ímpar, como sói acontecer com os espíritos mais cuidadosos. Cada tracinho era visto e revisto e apagado e repintado até chegar àquilo que ele julgava ser a sua perfeição. Fazia um estilo majoritariamente impressionista, ao agrado dos transeuntes da Praça da República*, que admiram muito, especulam mais ainda e compram pouco. Para quem anda a esmo, um quadro a trezentos dinheiros é caro, artigo de luxo que se compra uma vez na vida e outra na morte. Para o pintor, é uma pechincha, pois quanto mais esmero se dá na sua produção, menor o tempo restante para fazer mais obras. O Camargo fazia os pequenos quadros de flores e casinhas com raiva, porque era isso o que saía, e ele precisava comprar o seu feijão, mas estava longe de ser a maneira que ele gostava de se expressar. Há uma alma artística e um corpo pragmático, que chora por comida. Ele amava as encomendas em que o comprador apenas dava uma temática, dando-lhe liberdade para criar em cima da ideia geral. Mas essas eram raridade, principalmente quando era dado o orçamento.

Em um exemplo, o Zé cobrava mil reais em um quadro que iria lhe tomar o mês inteiro. À parte do custo dos materiais, imagine-se tendo um salário desses. Dá para viver? Para quem iria comprar, é um objeto caro, cujo único propósito é estético, e que pode ser empurrado ad infinitum. Para quem faz, é praticamente uma miséria, um ganha-pão ingrato que demanda esforço físico e intelectual, mas que não dá sustento. Esqueçam dos renomados: eles são uma ínfima parcela daqueles que têm o talento recompensado. E renome não é sinônimo de talento: Romero Brito, podre de rico, é tão criticado quanto um Paulo Coelho na literatura. Mas seus gatos estilizados vendem como água.

Existe um ponto tal em que o que vende é o nome que assina, não a obra em si. Fui a uma exposição de esculturas que tinha peças do estadunidense Jeff Koons, célebre por flertar com o brega o tempo todo, e esse foi o construtor de seu elevado conceito. Ele mesmo lançou a si um desafio: “tudo o que eu faço é reverenciado pela crítica e pelo público. Vamos ver o que acontece se eu pegar anões de jardim e fadas, daqueles que as pessoas compram em lojas baratas, e reproduzi-las igual-que-nem, como se eu as tivesse criado”. O resultado: “Koons revoluciona mais uma vez”, “o kitsch purista de Koons renovando a academia” e outras bravatas semelhantes. Chega um ponto em que o nome se empurra sozinho. São fenômenos do capitalismo.

Quando o Camargo chegou à conclusão de que seu trabalho estava desvinculado do cumprimento de qualquer sonho, foi pragmaticamente ganhar a vida como faxineiro de um prédio. É uma lástima que as coisas cheguem a esse ponto, mas lá também sua verve artística e seu apuro nos detalhes veio trazer problemas. Ele via seu ofício como uma obra de arte, e limpava escadas e corredores com o mesmo critério que utilizava em suas pinturas: qualquer cantinho ficava impecável sob sua alçada, com madeiras polidas, cromos brilhantes, chão e paredes indefectíveis. Isso é uma qualidade, não? No aspecto prático, não. O síndico apreciava o edifício reluzente, mas a velocidade da faxina era inversamente proporcional ao capricho, e isso colidia com a necessidade de uma limpeza mínima em todos os andares. O Camargo era cobrado, mas não conseguia se desvencilhar de seu preciosismo, e o resultado foi sua substituição por alguém mais medíocre, mas que resolvia o problema da limpeza com mais objetividade**.

O Camargo é isso que falamos ser um desencaixe do modelo capitalista. Não é um vagabundo que não quer trabalhar, e sim alguém que não produz em escala comercial, mas, mesmo que fosse, teríamos apenas outra forma de exclusão que se baseia na comercialização de produtos, sendo que um deles é o labor.

Percebam que eu estou evitando juízos de valores. O Zé Camargo existiu, como existem mendigos, e vivia nesse sistema. Não estou dizendo que o capitalismo é bom, nem ruim, apenas fazendo constatações empíricas. Haverá quem diga que tudo no universo tem esse substrato de Lei da Selva, e que o capitalismo nada mais é do que isso transposto à economia, e que faz aperfeiçoar produtos e serviços. Mas, se é uma lei de seleção, ela tem seu percentual de crueldade inerente.

A condição do Jabuca demonstra, plasmando a situação dos marginalizados, como funciona esse sistema também no mundo futebolístico. No estado de São Paulo temos quatro “grandões”, sendo que um deles fica na cidade de Santos, Terra da Liberdade e da Solidariedade. Os meninos que querem começar a carreira procuram primeiro a Vila Belmiro, e não a Caneleira. Vão para lá aqueles que não passaram nas peneiras do Santos, nem da Portuguesa Santista (de quem chegará a vez aqui na série). Resta para o Leão aqueles que ainda não explodiram, ou que nunca vão explodir, e vão procurar ofícios em outras atividades, a grande maioria. Isso acontece porque o Santos atrai mais, pela fama, pela estrutura e, principalmente, pela grana. O Santos, mesmo em percalços financeiros, tem muito mais visibilidade, agentes internacionais, infraestrutura, nome na praça, e uma possibilidade de crescer que o Jabaquara só terá se algum mecenas quiser fazer caridade esportiva, algo muito raro. Quem tem dinheiro, quer uma vitrine mais ampla, e times com a corda no pescoço existem aos borbotões, inclusive já encaminhados em alguma divisão nacional. O Jabaquara está na quarta divisão do Paulista. Não me parece que vá ter atenção de algum endinheirado.

A realidade é que nosso querido Leão da Caneleira só existe ainda porque estamos no Brasil, justamente com seu capitalismo imperfeito. Associações não estarem sujeitas à lei das falências é uma jabuticaba jurídica daquelas exemplares, e, por conta disso, ainda podemos ver a tradição amarela e vermelha em campo. Mas isso não muda o fato de que o Jabaquara está naquela borda mais externa, aquela parte do bolo em que pouco resta além das migalhas que caíram no chão. A realidade é triste, porque se trata de um daqueles onze fundadores, um dos que não sucumbiram por pura teimosia, um dos times que eu mais gosto no futebol, mas a realidade é esta, no futebol e no mundo, e no futebol como espelho do mundo. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Escrito por um apaixonado, bancado pelo próprio bolso, é um livro de histórias esparsas e emocionantes, e, apesar de já ser meio antiguinho, faz jus a um time que tem como principal patrimônio a sua história.

SILVEIRA, Sérgio dos Santos. Jabuca dos nossos corações. Santos: Edição do autor, 2002.

* Para quem não é de São Paulo, a tradicionalíssima Praça da República é onde se realiza a feira de artes todos os finais de semana.

** Para não deixar a história sem uma conclusão: o Camargo terminou seus dias ao lado de seu companheiro Luiz, que lhe deu liberdade para compor suas obras. A última delas, inacabada, veio parar em minhas mãos e está hoje na sala de casa. Ele morreu de repente e, romanticamente, seu companheiro se foi um mês depois. Contornos tristes do que, no final das contas, foi um final feliz.

segunda-feira, 10 de março de 2025

Lugar de fala: o que ele é e o que ele não é

(Certos conceitos são tão distorcidos que seu sentido original acaba indo para o lado oposto)

“Não se trata aqui de diminuir a militância feita no mundo virtual, ao contrário, mas de ilustrar o quanto muitas vezes há um esvaziamento de conceitos importantes por conta dessa urgência que as redes geram”

Djamila Ribeiro

Olá!

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Insistir ou largar mão? A vida tem me ensinado que a segunda opção é a melhor. O insistente é chato, porque repisa reminiscências que, na maioria das vezes, deveriam ser só suas. E as cabeças não são fáceis de mudar, porque há uma tendência natural em achar as opiniões próprias mais certas até mesmo que a de notórios especialistas, fato este elevado à enésima potência nesses tempos de internet fácil. Além disso, uma boa maneira de tornar as coisas invisíveis é justamente pendurá-las em todos os cantos. Eu penso nos luminosos que ficam nas portas dos túneis, com recomendações que todos os motoristas já sabem (ou deveriam saber): não buzine, evite ultrapassagens, use farol baixo e blá-blá-blá. No dia em que um aviso sério precisa ser dado, porque há um acidente, ou solapamento de asfalto ou outra desgraça, ninguém dá bola, porque está acostumado com aquela falação pouco proveitosa. E lá se vai dar de frente com destroços, buracos ou escuridão. E aí sim as coisas ficam mais perigosas.

Mas o fato é que meu sangue latino canta nas veias e minha língua fica frequentemente dançando dentro da boca, e esse fenômeno deu origem a esta série, que nasceu como um simples post sobre confusões com o comunismo e que hoje entra em seu 13º texto. Quando vejo comentários imbecis sobre qualquer assunto, tendo a querer respondê-los, mas com isso já sei lidar: não desperdiço minha saliva virtual e me limito a lamentar. Meu problema é quando vejo pessoas de um nível melhor comprando ideias errôneas, e aí eu sinto que preciso agir, mesmo quando já havia agido antes. É exatamente o caso que narro agora.

Quem me segue sabe que curto ler, e, com isso, nada mais esperado que eu siga alguns canais de literatura, que mencionarei logo abaixo. São poucos e bons, e, sem nenhum motivo especial, todos tocados por mulheres. Simples coincidência? Parece a mim que sim. O fato concreto é que uma delas comentava sobre um livro qualquer e veio trazer suas experiências pessoais para confrontar com a narrativa. Até aí, maravilha, porque eu canso de fazer isso neste espaço. O problema foi quando ela disse que tal tema lhe tocava em especial porque ela tinha ganhado “lugar de fala” sobre ele por motivos X e Y. Não, por favor, não.

Já vou dizer que não cabe cancelamento e que tal termo está tão queimado quanto mato no verão. Mas quem o disse tem boa cultura e deveria saber que lugar de fala está muito distante do que seu uso vem consagrando, então vou considerar mera derrapada, mas esquecerei que já tratei do tema exatamente sob este prisma link e o farei de novo, desta vez na forma de perguntas e respostas, na esperança que encontre pessoas com legítima dúvida sobre seu uso, ou, melhor ainda, pessoas que o utilizem erradamente e revejam sua utilização a partir do que eu vou escrever. Se conseguisse isso, daria por cumprida a missão deste blog, desde 2011. Vamos começar.


O que é lugar de fala?

É um conceito da sociologia que indica como uma determinada manifestação é formatada pelos contextos sociais, políticos, econômicos e culturais de grupos que possuem características comuns com foco a um determinado fenômeno social.

Que?

É assim. Há diferentes grupos em todas as sociedades, que podem ser construídos pelos mais diferentes distintivos. Quando juntamos esses grupos, existe um todo social, que é dirigido pela preponderância de alguns grupos sobre os outros. De uma forma ou de outra, todos se manifestam pelo ponto de vista de suas características no universo do espaço público. Alguns falam de muito longe, com uma voz que é pouco ouvida, enquanto outros estão muito mais de acordo com aquele todo social. Encaixam-se melhor, por assim dizer. Essas interações são observáveis em um espaço onde todos os estratos possuem alguma capacidade de usufrutos comuns, e este é o espaço público, onde as regras sociais são plenamente aplicáveis. O espaço público por excelência é a rua, mas ele não subsiste apenas fisicamente: todo lugar onde é possível se manifestar faz parte do espaço público. Quando alguém faz um comentário na internet, está se servindo do espaço público. Quando liga um rádio audível pela vizinhança, também. E é assim com os discursos em praça pública, na publicidade, nas paredes, e em tudo mais onde se externa uma mensagem.

Tá. Pode falar mais sobre espaço público?

Vivemos em sociedade, estamos assentes quanto a isso. Sendo assim, para além de nossas individualidades, temos uma grande porção compartilhada com as demais pessoas, senão não seria uma sociedade, ora essa. O espaço público é composto por lugares onde as pessoas se encontram e se relacionam, diferentemente do que acontece na casa de cada um de nós, onde, respeitados os limites legais, podemos fazer o que bem entendermos. O espaço público é, por excelência, onde melhor podemos perceber as preponderâncias sociais e as fragilidades dos grupos mais desprotegidos. É lá que percebemos melhor o conceito social de minoria, que não significa apenas uma questão numérica. Imagine uma rua cheia de mulheres que trafegam por outdoors repletos de referências sexualizadas. Fisicamente, há uma maioria de uma camada da população que não moldou o espaço público da forma como ele é.

Se nós levarmos em consideração o uso correto do termo, então que papel o lugar de fala tem nas ciências humanas?

O de um princípio metodológico. A ideia de lugar de fala permite ao pesquisador compreender a divisão de um espaço público e interpretar como os diferentes lugares enxergam seus meios de convívio, como proferem seus discursos, como se comunicam e desenham o meio.

E o que mais se pode dizer sobre ele?

O lugar de fala está na ordem do discurso e, por consequência, da linguagem. Sociólogos e antropólogos que ajudaram a moldá-lo se deram conta das diferentes maneiras como os emitentes das interpretações e opiniões tratam dos mesmos assuntos e como os lugares sociais em que vivem fazem com que tenham o ponto de vista que tem.

Ok. Se lugar de fala não é o que dizem, o que isso que dizem ser o lugar de fala?

É a representatividade. As pessoas que possuem determinadas características as tornam únicas, mas que também as colocam em determinados grupos, e isso faz com que sintam, para o bem e para o mal, o peso da maneira com a qual a sociedade encara cada um deles. O lugar de fala não se ganha, porque você já o tem; a representativa sim, porque é possível que se transite para dentro de um determinado grupo. Se eu perder uma perna, passo a ser representativo do grupo de pessoas com deficiência; se eu mudo de afiliação religiosa, entro no grupo de representantes da nova religião.

Mas a representatividade é sempre mutável?

Não. Existem características que são intrínsecas da pessoa, e, neste caso, a representatividade é permanente. Cor, sexo biológico, naturalidade são alguns desses exemplos. Já algumas características são mutáveis: engordar, tornar-se ateu, converter-se para uma religião minoritária. Estes são alguns exemplos daquilo que se diz “ganhar lugar de fala”. Não. Lugar de fala não se ganha; no máximo, se muda.

Então é aqui que há impedimentos para se falar, como muita gente pensa no lugar de fala?

Não, também aqui não há impedimentos, mas há necessidade de se substituir a experiência direta, a tal da vivência, de alguma forma. Uma delas é o estudo: mesmo um professor branco de classe média pode se inteirar das questões do racismo e das minorias negras. Também o convívio e as relações de empatia trazem informações suficientes para se sair da mera opinião e aproximar as visões de representantes de pontos sociais distintos. Nada é tão simples para se dividir o mundo em dois polos.

Se falamos em lugares de fala, então há de se supor que haja alguém que “escute”. Existem lugares de escuta?

Claro! É uma relação em duas vias: um processo de fala é um output que pressupõe a captação por algum interlocutor. A fala é distribuída pelo espaço público e está à disposição dos outros lugares, agora de escuta, que processarão, cada um ao seu modo, a mensagem que é colocada. É assim que se iniciam as tentativas de dialogia.

E as vozes de todos os lugares de fala são ouvidas?

Há muitos lugares de fala que são silenciados. Isso não é feito colocando literalmente uma mordaça nos grupos sociais, mas utilizando outros mecanismos que façam suas manifestações se tornarem menos significantes. Eu tenho um bom exemplo para colocar. No bairro do Canindé, nas proximidades do Brás, existe uma feira muito famosa que é realizada todos os finais de semana na Praça Kantuta, realizada por imigrantes andinos que trabalham na região. Lá, fazem seus acepipes, cantam suas músicas, dançam suas danças, reverenciam suas divindades originárias e contam suas histórias. Manifestam-se, portanto. Se você analisar a visão geral que propiciam, especialmente no vale de chorume de comentários das redes sociais, verá que é um lugar tido como sujo, com comidas duvidosas, pouco recomendável para celulares e outros aparelhos. Isso é dito por pessoas que provavelmente nunca foram lá, e se passa uma impressão geral de temor. A fala dos andinos, uma minoria que representa o corpo de imigrantes de países pobres, apesar de manifesta em lugares como a Kantuta, não é ouvida, porque não é bem vista no meio social hegemônico.

Uma fala pode ser silenciada a ponto de desaparecer?

Sim, pode. Determinados lugares sociais simplesmente não são vistos, tão misturados à paisagem urbana que se tornam sem uma solução. O caso mais flagrante é o dos moradores de rua. Eles são colocados na conta de qualquer outra coisa que não os definem. Em São Paulo, por exemplo, são habitualmente igualados aos viciados em crack, o que eles não são. Também recebem a equivalência a delinquentes, o que também não são. Os moradores de rua são tão invisíveis que as promessas de políticas voltadas a eles são sempre inespecíficas, e nunca estão em seu interesse. Soluções simplíssimas e imediatas como banheiros químicos nunca são pautadas.

Existem críticas a esse conceito?

Existem, e é bom que existam. Embora pareça um conceito típico de esquerda (vide), os marxistas dizem que o lugar de fala é falho por considerar que todos os atores de um determinado nicho social tem perfeita consciência do que oprimem e de onde são oprimidos, e, por esse caminho, o conceito de alienação perderia todo o seu sentido. Outra crítica que se faz é com relação a um desinteresse que o conceito causaria nos lugares mais dominantes da sociedade. Com relação a isso, entendo que faz parte da confusão que o termo causa, não no sentido de se ganhar ou perder lugares de fala, mas de achar que o termo “saltou” do substrato analítico para a própria realidade. Antes a realidade acontece, para depois ser analisada. Ninguém diz que “eu tenho tal lugar de fala, portanto não me importo com o restante da humanidade”, mas ele já não se importa pela sua própria realidade. Outra questão é que, uma vez que para se enquadrar em um lugar de fala é preciso lançar mão da consciência de si mesmo, nada mais temos do que um reavivamento do bom e velho método fenomenológico, que diz não ser possível dialogar epistemologicamente com o mundo sem as cargas culturais que levamos conosco, e, sendo assim, o conceito nada mais é que um rebatismo, e não uma novidade intelectual.

Para concluir, percebam que meu objetivo aqui não é nem defender o conceito, nem pugnar pela sua adoção indiscriminada, mas apenas e tão somente tentar ajudar na sua compreensão, porque fazia tempo que eu não via algo ser utilizado com tanto engano, a ponto de estar ocorrendo com ele a magia da transformação linguística de sentido. Isso é natural, mas não é desejado se quisermos mantê-lo como um conceito válido, ou, mais simplesmente, que saibamos o que ele significa de fato. Um bom vento a todos!

Recomendação de canais:

Há quem reclame de booktubers, mas, para mim, é inegável que esse universo dá, ao menos, uma ideia do que vou encontrar em um livro. Já me salvei de muita tranqueira e me interessei por muita coisa boa através desse mecanismo. Recomendo duas:

Isabella Lubrano (Ler Antes de Morrer):

https://www.youtube.com/lerantesdemorrer

Mell Ferraz (Literature-se)

https://www.youtube.com/@MellFerraz

Já o canal abaixo é diferente, porque não se trata de dicas de leitura, mas de técnicas de literatura, ou seja, toques para a escrita e a publicação de obras.

Wlange Keindé (Ficçomos):

https://www.youtube.com/ficcomos