(Apateísmo é um termo tão novo que nem o Word ou o Google Docs o reconhecem. Mas é uma ideia boa de ser confundida)
“É muito importante não confundir cicuta com salsinha, mas acreditar ou não em Deus não tem a menor importância”
Dennis Diderot
Olá!
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Já falei muitas vezes da patroinha aqui neste espaço. Não é
à toa. Somos casados há trinta e cinco anos, e, com isso, não é de se estranhar
que nos conheçamos como Pelé e Coutinho, Simon e Garfunkel, Chico Bento e Zé
Lelé, Marx e Engels (uepa!). Na maioria das vezes, ela toca de primeira e me
deixa na cara do gol, eu cruzo sem olhar e lá está ela com a bicicleta armada.
Mas nem sempre. O mundo não é perfeito e casais perfeitos não existem. Para o
bem da dimensão trágica da existência, que ótimo!
Simetrias são bonitas nas artes, na engenharia e no
equilibrismo circense. Na vida real, há momentos em que Cascatinha puxa o Ré
menor e Inhana vai no Mi maior, causando dissonâncias dolorosas, mas
concretíssimas. É assim a vida como Nietzsche sempre disse que deveria ser, e
assim ela é.
É por isso que há momentos em que é impossível deduzir o que
pensamos mutuamente, eu e a patroa. E talvez os piores sejam aqueles momentos
de silêncio. Não é frequente, mas eventualmente acontece de eu me cair mais
quieto. São inúmeros os motivos: problemas no trabalho sempre estão à frente,
mas há momentos puramente reflexivos, alguma irritação recolhida, algum
alheamento ocasional ou até mesmo uma pontinha de febre de uma gripe que vem
chegando. E a pergunta vem a cavalo, às vezes secundada pela filha mais nova (o
filho mais velho não costuma se imiscuir nessas questões): por que você está
tão apático? Nem sempre a resposta é fácil, o que piora a pergunta: você não
estava assim, você não fala nada, você fica só murcho…
Bom, estar apático é, de fato, um estado de espírito, mas o
termo em si é muito mais carregado de significados do que um mero porre pela
vida. Ele é tão extenso que até mesmo vem nomeando uma nova tendência de
encarar as divindades, ou melhor, de nem querer saber sobre elas. Como tem
florescido com bastante força nos últimos tempos, é comum que ela se torne
confusa e as pessoas a tratem com certo desconhecimento, razão pela qual vou
dar aqui meus apontamentos para dar uma substância nas discussões sobre sua
pertinência ou não. Trata-se do apateísmo, que talvez você já tenha
ouvido falar por aí.
O que é apateísmo?
De maneira bastante sintética, é o desinteresse pela
existência ou não de divindades.
No que ele é diferente do ateísmo?
O ateísmo, embora seja estranho dizer, é uma crença: a
crença de que não existem divindades. Ou seja, é uma crença com sinal negativo.
É uma atitude ousada, porque é passível de erro, já que basta que uma das
milhares de divindades propaladas em inúmeras religiões exista, ou mesmo alguma
marota escondida por aí, da qual nunca nós ouvimos falar. Já o apateísmo não
diz respeito a crer, mas a não atribuir interesse na divindade. Não se trata de
crer na não existência, mas da impossibilidade de conhecer.
Então podemos dizer que é um agnosticismo?
Mais ou menos. Talvez um agnosticismo com uma dose de
deboche. O agnóstico, ao contrário do ateu, não tem uma crença, mas uma
confissão de ignorância. Ele não sabe se existem deuses ou não, mesmo que tenha
alguma opinião a respeito. Mas isso é uma questão para ele, que pode até mesmo
ser incômoda. E é exatamente isso que o apateísta quer evitar: a confissão de
desconhecimento é a mesma, com a diferença de que a indefinição não pode e não
deve causar transtornos na sua cognição.
E esse nome esquisito?
Seria algo como “prática da apatia”, o que nos leva a pensar
em alguém que curte se sentir deprimido. Mas a realidade vai em um sentido
totalmente diferente. O nome vem da junção das palavras gregas de negação a
(não) e o designador de emoção pathos. Vou falar um pouco mais sobre
ele. Quando falamos deste termo hoje em dia, quase na totalidade das vezes
pensamos em doenças, em patologias. Mas é olhando-o como um termo
do jargão filosófico que poderemos entender melhor seu uso. O pathos grego é um
estado de espírito em que o emocional prepondera sobre o racional. O pathos,
sendo assim, lança referências sobre o eu que se solta em relação à vida,
tolerando o que ela lhe trouxer, suportando o que vier de bom e de ruim, e
sofrendo (daí sua relação com a doença). A apatia, mais do que ficar molejando
entristecido em um sofá, é a atitude daquele que não entende ser necessário
sofrer por conta de qualquer coisa, tipo um desconhecimento sobre a existência
de deuses.
E por que os apateístas chegam a essa conclusão?
Imagine o seguinte: a estrutura religiosa é fundante no
pensamento humano. Praticamente desde que foi possível realizar registros, com
as pinturas rupestres e outros elementos pré-históricos, é possível deduzir que
a humanidade reverenciou divindades, o que tem mais de 50.000 anos. A escrita
foi criada há mais de 5500 anos, e a filosofia grega é considerada viva há 2500
anos. Todo esse tempo se passou e a humanidade não conseguiu concluir sobre
quais divindades operam na sua existência, ou, no limite, se elas existem.
Sendo assim, não é hoje, em um pequeno cérebro pouco mais consistente que um
pudim, que a dúvida deixará de persistir e que alguém chegará à verdade
definitiva. Sendo assim, queimar irreversivelmente importantíssimos neurônios
na questão é pura perda de tempo, segundo diz a corrente.
Então o objetivo é só evitar sofrimento?
Não exatamente. Pense em quanto você sofre por um motivo
menos relevante. Eu, por exemplo, fico sempre aflito quando uma final de
campeonato se aproxima. Isso é irrelevante para quem não gosta de futebol, e
tanto faz se time A ou B vai levar o título. O problema é que tal abstenção não
é puramente voluntária, porque é difícil escolher no que crer, no que se
interessar. É mais válido pensar na obtenção de uma paz mental evitando cair na
discussão de conflitos religiosos, porque sabemos o quanto isso influencia no
nosso plano psicológico. Talvez, no máximo, podemos pensar em apateísmo como
uma prática que mistura ceticismo e estoicismo.
Como funciona essa fusão de ceticismo e estoicismo?
Falo de correntes filosóficas, e não meramente no que o
senso comum entende por essas palavras. Do ceticismo,
os apateístas trazem a impossibilidade do conhecimento e a suspensão do juízo.
Dos estoicos,
trazem a apatia filosófica, ou seja, a indiferença perante o sofrimento
inevitável.
É mais uma modinha?
Em parte, sim. É comum que certas correntes de pensamento
ganhem maior ou menor relevo em períodos específicos, especialmente porque são
trazidas a claro em grande quantidade produções intelectuais que se refiram ao
tema, como acontece com as tais correntes. Só que dizer-se apateísta durará
pelo exato tempo em que houver um convencimento interior. Passado isso, o
movimento arrefece e só permanece nele quem efetivamente se fundeou. Mas é
possível que certas pessoas acabem por adotar e absorver em definitivo essa
posição.
Isso não aconteceu com as outras linhas de pensamento? E
elas não acabaram caindo em desuso?
É que a coisa funciona assim: eu ouço uma música e gosto.
Então eu me inteirarei mais da carreira da banda que a produziu e me tornarei
um aficionado. Isso é um movimento natural porque existe uma correlação direta
entre gosto e consciência do gosto. Quando eu me afeiçoo por uma ideia, já é
preciso um mínimo de aprofundamento. Não basta achar que é uma corrente com
nome bonitinho, ou dar ar de independência e modernidade. A adesão aqui precisa
ser conectada com formação de princípios fundamentais, senão ela não resiste à
próxima tendência dos corredores das academias. O niilismo já foi desse jeito,
e hoje continua existindo, mas em um percentual muito menor que no ápice, e
ainda expressiva para aqueles para os quais a ideia permaneceu coerente.
Não seria somente uma forma de “arrego” aos custos de se
declarar ateu?
Vai do nível de sinceridade consigo mesmo e com a sociedade
de quem adere a esta corrente. Pode ser que a palavra “ateu” soe mais pesada em
um país predominantemente religioso, mas eu acho que o efeito pode ser
contrário, na medida em que o desinteresse pelo assunto pode ser ainda mais
condenável do que uma oposição ativa, em um sentido semelhante daquele que
temos quando afirmamos que a indiferença é pior que o ódio, porque é isso que
mata uma relação.
Se os apateístas pregam a irrelevância, não basta
considerá-los irrelevantes?
É uma cilada, Bino, simplesmente desprezar o pensamento dos
apateístas, ao menos pelo ponto de vista religioso. Vários dos motivos pelos
quais os apateístas entendem não ser relevante a discussão religiosa estão no
coração da crença em divindades, como a questão da doação de uma moralidade
pronta e acabada. Por isso, é importante (a quem importa) olhar pela lupa ao
fenômeno e entender por que seus aderentes pensam como pensam.
Há mais alguma corrente filosófica no substrato do
apateísmo?
Se um modo de pensar leva a tornar sem importância aquilo
que não pode ser visto, sentido ou como sem interferência na vida das pessoas,
podemos perceber que a ênfase está naquilo que existe. Então temos uma
influência do existencialismo
no apateísmo que é bem forte, no final das contas, já que adere plenamente ao
seu pano de fundo. Outras influências devem existir, mas não me aprofundei
tanto, a ponto de trazê-las aqui.
No final das contas, os tais religiosos não praticantes
não são, na verdade, apateístas?
Depende. De fato, se a religião é meramente protocolar,
então podemos dizer que sim. Mas quantos desses que não tem o exercício
religioso da vertente que declaram pertencer não produzem em suas vidas algum
outro tipo de comportamento de fundo religioso? Lembrem-se de que basta
consultar um horóscopo para tomar uma atitude religiosa, esotérica, espiritual
ou coisa que o valha.
Com relação ao desencanto do mundo mencionado por Weber,
podemos achar que o apateísmo é um reflexo?
Parece a mim que sim, mas é preciso esclarecer o conceito.
Weber vê o desencantamento
por duas vias: uma que tem base no crescimento científico da sociedade, e,
nesse sentido, o apateísmo estaria em plena aderência; e a outra diz respeito
ao desencantamento no interior das próprias religiões, que passariam a
enfatizar mais o aspectos éticos dos seus ensinamentos do que a prática
ritualística, fundamentada na “magia”. Por esse viés, o apateísmo não tem um
sentido tão forte.
Temos algum autor que já se deteve mais sobre o assunto?
Como se trata de um assunto que ainda é recente, carecemos
de pensadores que tenham se aprofundado o bastante para criar uma tese sólida
sobre o fenômeno. O que temos são pesquisadores da religião que abordam o tema
em um posto de vista comparativo, como Trevor Hedberg, Jordan Huzarevich e
Milenko Budimir, que, preponderantemente, emitiram artigos em revistas
filosóficas, aos quais faço menção mais abaixo.
Faz sentido pensar que o apateísmo pode ser aplicado a
pessoas religiosas?
É estranho, mas faz. Uma vez formada uma convicção, é
possível mantê-la ad infinitum de maneira inobservada. Dessa forma, eu
estabeleço que creio nos princípios budistas (digamos) e não volto mais o
interesse para isso. Mas alguém que se denomina apateísta dificilmente tomará
uma atitude dessa natureza.
Pelo que dá para perceber, o apateísmo pode ser ativo ou
passivo. É isso mesmo?
Sim. Tem gente que não liga para religião naturalmente, sem
fazer nenhum tipo de propaganda sobre essa condição. E tem gente que faz disso
uma bandeira. Novamente: acho que a primeira atitude é mais sincera e passível
de mantença, mas não recrimino ninguém por adotar uma prática de deixar o
assunto de lado intencionalmente.
Você é apateísta?
Não. A questão religiosa é importante para qualquer pessoa
que queira tratar de filosofia e ciências humanas.
Então, jovens… Esta é uma visão ainda nova que tem se
consolidado cada vez mais no debate religioso como alternativa à dicotomia
teísmo-ateísmo, e, sob este ponto de vista, absolutamente saudável. Espero ter
contribuído. Bons ventos a todos!
Recomendação de leitura:
Como eu disse, não há abundância de escritos sobre o tema,
justamente por conta da ainda novidade. Estes são os artigos disponíveis na
internet que trazem boas informações sobre o assunto.
BUDIMIR, Milenko. Historical Religious Indifference and
its Links to Contemporary Apatheism. Disponível em: https://www.pdcnet.org/wcp23/content/wcp23_2018_0061_0031_0036.
Acesso em 26.02.2025.