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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O café filosófico do quotidiano – o clinamen nos inspira a pensar sobre arbítrio e criatividade

(Um pequeno desvio pode explicar uma gigantesca mudança?)

“Não há nenhum lugar onde os corpos, quando estão reunidos, possam, perdida a força do peso, ficar imóveis no vazio, nem, por outro lado, aquilo que é vazio deve suster alguma coisa, mas, pelo contrário, como exige a sua natureza, apressar-se a dar-lhe passagem”

Lucrécio

Olá!

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Depois de tanto tempo indo e vindo, é natural que a gente fique meio cansado. Ainda que seja perto, um lugar aonde vamos muito acaba se tornando cansativo. Não o local em si, mas sua rota. Eu tenho um piloto automático tão acionado no caminho Ayrton Senna - Carvalho Pinto (antiga Trabalhadores) que nem reparo mais nos morros, nas plantações, nas casinhas, nas vacas, nos postes de luz, somente na faixa de asfalto que parece mais e mais infinita, a ponto de causar um certo “barato”, onde a alma parece abandonar o corpo e flanar por aí, enquanto a pobre massa física vai girando o volante para lá e para cá ao sabor da habitualidade, o que é perigoso.  Redundar em distração a 120 km/h não é exatamente o que mais querem os legisladores de trânsito, nem os mantenedores da saúde pública. Afinal de contas, o corpo que está presente ao volante precisa da alma* para lhe dar vigilância e atenção. Por isso, e como já falei por aqui, resolvi alugar uma casinha em Taubaté, ainda que não seja para ficar lá cem por cento do tempo. Afinal de contas, a modernidade permite trabalho remoto, mas o chefe não, e isso me obriga a manter a base SP, para ficar em formato híbrido.

Alugar uma casa significa estruturá-la, o que não é muito módico. Sorte que o espólio da Dona Madalena me disponibilizou um monte de móveis e utensílios, e isso possibilitou economizar uma grana e viabilizar a empreitada. Geladeira, fogão, armários, cômodas… tudo isso e outras coisas mais permitiram a este escriba alugar a casa e não dormir no chão, nem comer comida fria. Não fosse isso, na verdade, e eu não conseguiria aluguel algum. É casa pequena, parece um trenzinho, mas, para mim, está de ótimo tamanho.

Mas é óbvio que a macróbia defunta não tinha um kit mudança pronto, e, para complementar, precisei comprar um monte de miudezas. Uma das mais óbvias era um método para o santo cafezinho de toda manhã, do qual não abro mão. Para isso, juntei o leve ar interiorano do campo com a praticidade da cidade e comprei um método misto, manufaturado pela Fabrikafé, uma empresa pernambucana que atua com baristas para produzir objetos ecologicamente sensatos: coadores de pano que se assentam em porta-filtros de mercado.

São produzidos com tecido do tipo saco de farinha, em algodão grosso. Eles vêm em vários modelos, e eu comprei um cônico e um trapezoidal, para encaixar nos porta-filtros V60 e Melitta, respectivamente.

Aqui a ideia é dupla: a primeira é de dar um certo ar de nostalgia, para que os coadores de pano modernizados possam relembrar as velhas “calcinhas” que nossas avós usavam para escoar café nas manhãs agitadas e nos domingões modorrentos. A outra é mais ecológica. Ao utilizar um coador reaproveitável, economiza-se muito papel que seria descartado imediatamente após o uso nos métodos mais costumeiros.

Depois de alguns dias de uso, e usando as recomendações de limpeza, consegui concluir que, de fato, funciona muito parecido com as velhas mariquinhas, dando aquele saborzinho de nostalgia. O segredo é o enxágue pós uso e o escaldamento no momento da extração.

Muitas vezes o que temos de mais esperto a fazer é exatamente a juntada de características fortes, para sair lá na frente com um objeto melhor. Isso não se restringe a coisas, mas também a ideias, incluindo o combate entre elas. E isso também pode ter uma coloração de nostalgia, onde ideias há muito esquecidas retornam com força, demonstrando como a racionalidade é poderosa.

Claro que não me refiro a pensamentos estapafúrdios, como terraplanismos e geocentrismos, mas a questões que pareciam aposentadas, que são reavivadas pelas descobertas científicas mais recentes, e voltam à discussão na academia, para depois cair nas discussões de boteco. Algumas dessas conversas são milenares, e pareciam que fariam unicamente parte dos compêndios históricos. Um bom exemplo é a questão da não-linearidade dos eventos, coisa que já se discutiu há um bocado de tempo, mas que hoje é rediscutida em eventos que parecem trazer metafísica para o mundo palpável, como o efeito borboleta e outros. É assim que funciona a ciência. E a filosofia também.

Bom, vamos lá. A ideia de atomismo nasceu a partir do pensamento de Lêucipo e seu aluno mais famoso Demócrito, que descreveram a hipótese da formação do universo a partir das interações entre as partículas fundamentais da matéria, os átomos, e o vazio, espaço onde absolutamente nada existia. Anteriormente, na pesquisa racional para a descoberta de um princípio geral da formação do universo e do que se mantinha no seu substrato, sempre tínhamos alguma espécie de vetor físico definido, como água, ar, terra, fogo e da combinação de todos eles, ou de elementos menos figurativos e mais abstratos e moldáveis, como o ápeiron e as homeomerias, ou até mesmo matemáticos, a tal da arché. No entanto, em consórcio com todos eles, havia alguma espécie de moção metafísica, como a ação divina ou impulso volitivo, porque se entendia que era necessária alguma forma de impulso para a coisa funcionar. Faltava a aposta em um fundamento puramente material, e é nisso que reside o atomismo, já que não há nada que gire o universo a não ser ele mesmo.

O que seria então esse tal de átomo? Seriam partículas mínimas puramente materiais e a combinação entre elas, de modo que cada uma delas fosse indivisível. É uma ideia parcialmente intuitiva, já que podemos partir um bolo em pedaços cada vez menores, inclusive no âmbito micrométrico, até o ponto em que essa divisão se torne impossível, e essa seria um “átomo” de bolo. Sempre lembrando que Demócrito anteviu que a tipagem de átomos era bastante limitada, e a imensidão de substâncias se dava pela combinação entre eles, o que poderíamos atualizar para as moléculas.

Mas como se dava o processo de construção dos corpos? Os atomistas entendiam que, observada a existência da gravidade, os átomos caíam no vazio em queda livre, até que um acabasse colidindo com o outro, porque os mais pesados terminariam encontrando os mais leves pelo caminho, o que poderia causar uma agregação (do tipo enganche) e isso ocasionaria sucessivas formações maiores, desde poeirinhas até planetas.

A estruturação dessa ideia parecia poderosa, mas Aristóteles resolveu jogar água nesse chope. Em primeiro lugar, ele não concordava que havia alguma coisa trafegando no vazio, porque não existia vazio. Aquilo que assim parecia, na verdade, era algum dos quatro elementos em estado desvanecido, mas não em algo rigorosamente sem nada, como o vácuo absoluto. E segundo, ainda que assim fosse, pelo funcionamento da própria racionalidade, Aristóteles concluiu acertadamente que, não havendo nenhum material a interpor resistência, não havia por que uma partícula mais pesada cair mais rapidamente do que uma mais leve. Estando em caminhos rigorosamente verticais e paralelos, jamais uma partícula atingiria outra, e o fenômeno da agregação atômica nunca se daria, e essa explicação sobre o funcionamento do universo era furada. Outra coisa: uma perspectiva puramente material desafiava a tese teleológica aristotélica. Dentre as famosas quatro causas, uma era a causa final, um motivo para que todas as coisas existam. No universo puramente material de Demócrito, não haveria propósitos, nem causas, nem finalidades, e isso contradizia o pensamento aristotélico que, como demonstrei, não gostou nada dessa explicação. 

É neste contexto que aparece o romano Lucrécio. Fundado no Epicurismo, e observados os inúmeros fenômenos do acaso que ocorrem incessantemente no mundo e no universo, teorizou que, sem nenhum tipo de determinação, ocorriam minúsculos desvios na trajetória de certos átomos, o que levaria à colisão pensada por Demócrito. Seria essa, e não o peso dos átomos, a responsável pelas colisões que realizaram as agregações necessárias à construção dos corpos. É daí que surge o termo clinamen, ou inclinação, em latim.

Aparentemente, temos aqui um argumento ad hoc dos mais clássicos: se não tem explicação, eu arrumo uma. Mas também Lucrécio não tira sua hipótese do nada. O princípio geral da ideia é que, caso a teoria dos atomistas estivesse completamente correta, teríamos um mundo determinístico, completamente previsível e imutável. Mas não é o que temos na prática. Nem somente as coisas mudam ao menor sabor de variáveis, bem como também as próprias linhas de pensamento não seguem um caminho reto. Como os materialistas dos átomos achavam que tudo era composto por estes, também os pensamentos e abstrações seriam, e isso vai incluir livre arbítrio e criatividade. Vamos cuidar dessa questão.

Quando falamos em arbítrio, automaticamente pensamos em julgamentos e escolhas. Isso pode incluir opções simples, como resolver a janta, ou decisões delicadas, como planejar a economia de um país, o que, naturalmente, implica em uma série de consequências, algumas mensuráveis, outras nem tanto, outras ainda absolutamente imprevisíveis. O que temos de certo é que o arbítrio é uma decisão diante de uma questão. Ele tem uma anterioridade: nosso conhecimento, nossas condições psicológicas, nossas necessidades materiais. Uma vez colocados diante de uma questão, todas essas condições são fatores que vão influenciar nas escolhas. A discussão é se todos esses fatores são capazes de fixar uma escolha - se aquilo que eu optar poderia ser de outra forma ou se eu de fato opto livremente. Se entendermos que há determinação na escolha, ou seja, ela está escrita nas estrelas, então não há que se falar em liberdade. Mas, se ela houver, o que faz o desvio das condições que, em tese, faria algo ser decidido como foi? O que é essa vontade própria que contraria o curso natural dos acontecimentos?

Outra questão: um mundo determinístico pressupõe uma ordenação muito menos mutável que a que enxergamos ao nosso redor. A teoria da evolução, por exemplo, preconiza que as espécies surgem através de descendência com modificação. Isso não quer dizer que um pelo dia nascerá um humano com asas, mas com sutilíssimas, porém vantajosas mudanças com relação aos seus ascendentes. Um membro minimamente mais flexível, um osso um pouquinho mais resistente, um olho que enxergue em níveis de luminosidade um trisco mais baixos podem trazer vantagens que, oferecidos no atacado, parecem de pouca monta, mas no varejo fazem toda a diferença. A própria palavra mutação carrega consigo uma aura de desvantagem, resultando em perdas, não em ganhos. Quando eles ocorrem, são esse pequeno desvio, essa minúscula inclinação que tornam a sobrevivência ligeiramente mais apta.

Mais uma coisa ainda. Como se explica a criatividade? Artistas traçam um mundo que não veem, que vai além do alcance do mero ato empírico. Sim, é perfeitamente possível reproduzir situações em uma tela ou uma pedra, mas, mesmo estas, são frutos de abstrações, e da sensação inicial surge algo novo, modificado com relação à natureza, criado. Se não houver alguma forma de desvio, não há como surgir o novo, porque só teremos a eterna reprodução daquilo que já tínhamos antes, e de novo, de novo, de novo. 

O clinamen de Lucrécio, portanto, surge como contraponto à tendência cada vez maior de se estabelecer um determinismo tão marcante que parece impossibilitar o livre arbítrio. Se um pequeníssimo desvio é capaz de gerar novos mundos, novas espécies, fazer furacões através de movimentos de asa de uma borboleta, então não parece ser plausível que não seja possível optar sem chance de que a escolha fosse outra.

Em resumo, a grande questão se transforma no seguinte: se o universo é determinístico, por que raios ele varia de modo imprevisível? Talvez nosso grande problema seja a dificuldade de enxergar processos, e, quando os enxergamos, pensemos neles como estruturas lineares, que seguem roteiros invariáveis e caminhem em uma só direção, ainda que tremendamente complexos. Pode até ser que os deterministas estejam certos, e por detrás do liame irresolvível dos fatos tenhamos eventos que são como são e não poderiam ser de outra forma, mas não é assim que a realidade se apresenta a nós, e essa linearidade se mostra inconsistente. Saltos quânticos, mutações e outros desvios são percebidos como acaso de difícil encadeamento lógico, ainda que haja uma ordem em seu substrato.

Duas observações finais, para além do próprio assunto em si. Notamos como a mente é uma ferramenta poderosa, que, mesmo sem possuir instrumentos técnicos, consegue dispor os fatos de maneira lógica a ponto de se aproximar muito da realidade em si mesma de maneira muito sofisticada. Demócrito, Leucipo, Aristóteles e Lucrécio, para ficar apenas nos citados neste texto, falaram sobre coisas difíceis com grande percentual de acerto. Não são risíveis suas deduções. Levaram a lógica ao esplendor por se tratar da única ferramenta disponível para compreender o mundo naquela época, e é invejável o modo como conseguiram ao menos tangenciar coisas que hoje a ciência explica com sofisticadíssimos equipamentos.

Mais ainda: isso tudo demonstra como o pensamento científico deixou de andar desde os sofistas até mais ou menos o tempo dos Bacons, Roger e, especialmente, Francis, quando novamente se passou a olhar para o universo em si com um espírito de descoberta. Sabe-se lá como estaríamos hoje sem esta interrupção milenar. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Lucrécio faz parte daquela leva de pensadores romanos que trouxe a base grega ao centro decisório do mundo de então. Seus escritos são curtinhos e rápidos de ler.

LUCRÉCIO. Da Natureza das Coisas. Lisboa: Relógio d’Água, 2015.

 

*Antes que algum chato me pergunte, “alma”, aqui, tem o sentido de consciência.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Sobre a complexidade das memórias e como o envelhecimento lhes coloca em xeque

(Os processos mentais estão entre os grandes mistérios da humanidade. E a memória é uma espécie de musa dentre eles)

“Memórias são retratos na parede

Que não se cansam de mudar de lugar”

Picumã - Eu

Olá!

Começo a digitar essas mal traçadas linhas no dia seguinte ao Natal do ano da graça de 2025, e vou concluí-lo no último. No dia de hoje, a patroa recebeu a notícia de que uma tia dela morreu. Era informação que podia demorar dias antigamente, com o favor de um telefone local ligando para um número que recebia o recado como um favor, mas hoje os aplicativos de mensagem instantânea fazem uma transmissão praticamente ao vivo. Morava na pequena cidade de Ibiporã, no norte do Paraná, e não era exatamente uma visita constante, porque não gostavam do agito de São Paulo. Nós também não íamos muito para aquelas redondezas, um pouco por desleixo, um pouco por desinteresse. Mas a tia era cozinheira de mão cheia, e isso tornava sua casa uma atração turística. Como faltava a ela dois dedos abaixo para ser chamada de anã, recebeu o maledicente apelido de Botija, posto pelo próprio marido, esse sim um tio de sangue da consorte, ainda vivo.

Evitamos contar o passamento para minha sogra, para não transformar o ato em pantomima. Ela é daquelas que transformam um evento triste, porém corriqueiro, na encenação de uma tragédia grega, com coro e tudo. Isso inclui pressentimos, galos que cantam tristes e outras mandingas, além da necessidade peremptória de viajar correndo para acompanhar o enterro. Não se faz necessário esse movimento todo, especialmente no intervalo entre as festas. Afinal de contas, o falecimento de uma idosa de 86 anos não deveria causar estrépitos superiores à natural tristeza pela perda, mas até ameaças de desmaio já testemunhamos, então é melhor deixar passar. É mais fácil controlar a raiva posterior da senhora pela intempestividade do comunicado do que seus impulsos teatrais.

Morreu de Alzheimer, dizem os parentes mais diretos. Bem, não se morre de Alzheimer, mas que ele atrapalha muito, atrapalha. As perdas progressivas de importantes funções cognitivas vão levando a quadros de disfagia e imobilidade, que, por sua vez, favorecem a aquisição de infecções e de desnutrição, o que é pedra de campa para quem já tem os problemas típicos da idade. É uma doença misteriosa, cujo principal ataque se dá à memória.

Quem já teve algum avô com Alzheimer sabe o quanto a condição é triste. São pessoas que você ama e quem não tem mais condições de reconhecê-lo, nem aos outros, nem a si próprios. É uma morte que ocorre antes da morte, porque a pessoa só está lá fisicamente, sem sua história e aquelas lembranças que tanto gostamos de ouvir dos mais velhos, como vieram parar aqui, porque tomaram as decisões que tomaram, como conheceram fulano e sicrano, e essas coisas que dão um sabor extra ao jantar de Natal. Mas, para além do sentimentalismo da situação, existe um processo orgânico que deixa de funcionar a contento, e provoca o tão indesejado efeito.

Na minha família, não costumamos precisar de lidar com este mal, por um motivo de pouco alento: a turma morre cedo, antes de se ver acometido por doenças neurológicas. São cânceres e enfartes que puxam a galera para a barca antes que haja tempos de esquecimentos. Então não sei se é um infortúnio ou um privilégio. O único caso que sei foi da exceção: a Tia Antônia, irmã do meu avô, por um curtíssimo período viveu seus dias de demência, exatamente pela morte algo prematura dele, que, sendo temporão, era bem mais jovem e inverteu a lógica dos falecimentos. Nos oito meses entre a morte dos dois, la vieja saiu de uma perfeita lucidez para tudo aquilo que está no paradigma do Alzheimer – perda da memória recente, falta de reconhecimento de parentes, lembrança de gente dos tempos em que ela ainda vivia na Espanha. Foram formas diferentes de agonia, com os tumores expostos do meu avô sendo sucedidos pelo desvanecimento psíquico de sua irmã, minha tia. Tudo triste, mas, segundo os médicos, explicável.

A memória é colocada no cérebro pela ativação de neurônios especializados na retenção de informações. Eles ficam armazenados de acordo com uma série de circunstâncias: a atenção que damos ao fato, sua repetição, as impressões que nos deixam, sua utilidade e assim sucessivamente. Sua relação com o conhecimento é tão íntima que são praticamente sinônimos, porque não basta que as lembranças façam o papel de tijolinhos do saber, mas os próprios nexos causais são frutos da memória. Ou seja, nós não nos lembramos apenas de nomes, fatos ou objetos, mas das maneiras com as quais eles se ligam uns aos outros. O que significa isso? Que o aprendizado se dá pelas cadeias de causa e consequência que extraímos do mundo.

Um exemplo simples para compreender. Quando somos crianças pequenas e ganhamos a famosa primeira bola de nossos pais, procuramos desmioladamente chutá-las com a maior força possível para nossas perninhas, achando que isso aumentará as chances de superar nosso avô-goleiro. Isso se dá pela observação simplista dos jogos que assistimos na tevê ou no campo, sem passar pelo crivo de nossa própria experiência. Entretanto, a percepção de que a banda não toca nesse tom faz com que experimentemos um melhor controle se usarmos chutes mais brandos. Notaremos que às vezes é a boa colocação que leva ao sucesso, e não uma mera pancada. Essa estrutura maior-força-menor-controle estará causalmente colocada para outros esportes, como o vôlei e o basquete e, mais ainda, para inúmeras ações do quotidiano, como o prosaico ato de enfiar um prego na parede com um martelo. Notem que as conexões causais independem dos objetos utilizados e, se estes últimos são os tijolos, a causalidade é a argamassa que liga tudo. Quando algo de diferente acontecer, temos o aprendizado (ou uma dissonância cognitiva).

Acontece que nosso cérebro funciona de maneira parecida (forçando um pouco a barra) de um dos modernos HDs de nossos computadores. A informação é armazenada em um disco através de minúsculos pontos magnetizáveis, que recebem singelos dados: ativo/inativo, ligado/desligado, sensível/insensível, zero ou um. Isoladamente, não significam nada, tendo que estar em um conjunto para ganhar sentido. Também não estão em uma sequência física, podendo existir parte da informação em um canto, e o restante em um setor remoto, no lado oposto, ou completamente fragmentada pelo disco todo. Tudo depende do mapeamento que se faz das localizações da informação pulverizada. A grande questão é que, uma vez perdido um desses pontos, a informação inteira fica ameaçada. Existem mecanismos de recuperação que podem resgatar a informação, com riscos de distorções, no entanto. Só que, uma vez que determinadas quantidades de pontos sejam perdidas, a recuperação se torna inviável. E isso não acontece apenas nos registros dos dados, mas no próprio mapeamento.

Transporte tudo isso para o cérebro. O ponto sensibilizável é o neurônio, menor unidade da guarda de informação. Tanto os dados que coletamos da realidade, quanto os encadeamentos causais estão armazenados neles. Ocorre que eles vão morrendo durante toda a existência de uma pessoa, com a infeliz característica de não serem células que se repõe. Isso é a causa das lentidões mentais típicas dos idosos, mesmo dos mais saudáveis. Se ela tiver um processo degenerativo mais acelerado, como ocorre no Alzheimer, não há como realocar as informações em outros lugares, e o resultado é esse que conhecemos: a perda progressiva das memórias.

Não se enganem com a simplicidade do exemplo, que é meramente didático. O cérebro tem processos extremamente mais complexos que o mapeamento das posições de dados de um HD. É capaz de suprimir faltas de memória através de encadeamentos lógicos, de modo a reconstruir um objeto perdido, ainda que de forma imperfeita, a ponto de formar memórias falsas tão perfeitas que são indiscerníveis da verdade para quem as têm. Por isso comecei este texto com a epígrafe da letra de uma música de minha autoria, que fala mais ou menos sobre isso mesmo: como nossas memórias nos enganam, como nos atormentam e como vão parar em um canto perdido, semelhante àquelas teias de aranha recobertas de poeira, o tal picumã. Se pensarmos nessas trocas imperfeitas, temos uma boa explicação para lapsos que vão se tornando cada vez mais frequentes, até o ponto em que haja completa perda de sentido nos conteúdos mentais.

De certa forma, é por isso que dizemos que os velhos voltam a se tornar crianças. Enquanto estas últimas ainda não tem a cognição completa, nos primeiros ela está perdida, com a evidente desvantagem de não ter mais recuperação. As crianças ainda não têm o equipamento cognitivo todo, e por isso montam suas engraçadas falas desconexas, enquanto os idosos fazem o mesmo pela perda dos mesmos elementos que faltam às crianças. Só que o processo não é exatamente dessa forma. O cérebro do idoso procura desesperadamente solucionar os desencontros por aproximação, e substitui o que seria a informação correta por outra semelhante, e aí acontecem aquelas famosas trocas, onde o velhinho te chama pelo nome de um parente mais antigo, por encontrar algum ponto em comum entre as duas pessoas, e que ainda remanesce em sua memória.

O primado da memória é tão importante que tendemos a valorizá-la em um ponto máximo, admirando quem tem conteúdos de cor, chamando essas pessoas de prodigiosas e outras coisas. O esquecimento é sempre tido como um defeito: é o mal dos distraídos, dos ingratos, daqueles que não ligam para momentos de suma importância para outras pessoas. Mas, conforme já especifiquei neste texto, o esquecimento é tão importante quanto a retenção para nosso correto funcionamento mental. Já imaginou se você conseguisse repetir passo a passo, minuto a minuto, instante a instante tudo o que você fez no dia de ontem? Se não, Jorge Luís Borges já o fez, em seu conto “Funes, o Memorioso”. Ele conta a história de Irineu Funes, um rapaz que passou a recordar mínimos detalhes de tudo o que lia e vivia após sofrer um acidente com um cavalo. O grau de minudência de suas lembranças contrastava com sua incapacidade de abstrair, de generalizar, de correlacionar fatos e lógicas, o que demonstra a inutilidade de um conhecimento meramente enciclopédico. Recordar um dia na íntegra significa revivê-lo na íntegra. O que é melhor? Reviver o ontem como se fosse hoje ou viver o hoje como mais um dia na vida? Extrair (puxar para fora na origem da palavra) um entendimento significa esquecer o que ele tem de particular e reter o que ele tem de universal, e isso é o autêntico conhecimento, não se perdendo em minúcias que só são relevantes para a formação de um contexto eventual.

Não maltratemos o esquecimento como um peso a carregar, porque ele tem suas necessidades. O mal ocorre quando mesmo o conhecimento extraído de nosso contato com o mundo se perde, como acontece com a doença de Alzheimer. Aí, sim, podemos lamentar o destino.

E é exatamente na memória de todos que a conheceram que a pobre tia vai continuar a existir. As pessoas podem acreditar em vida após a morte, em um lugar de benesses e no repouso de um lugar mais tranquilo que essa maluquice chamada de mundo, mas é na memória dos que ficam e nos legados que se deixam que as pessoas materialmente continuam a viver. Deuses são hipóteses, a memória é uma realidade. Os parentes contarão aos seus filhos e seus netos os feitos daquela baixinha que fazia uma carne de sol como ninguém, que era um verdadeiro laudamus no coro de sua igreja e que era referência na cidade inteira, até mesmo no campo do Estrela, o principal time da pequena cidade, que ficava do lado de sua casa. Que tenhamos um 2026 melhor. Bons ventos a todos! 

Recomendação de leitura:

Jorge Luís Borges é um dos grandes escritores latino-americanos, daqueles que não falam de coisas fáceis. O livro que recomendo abaixo contém o conto mencionado e vários outros.

BORGES, Jorge Luís. Ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 



terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O estoicismo que nos resta quando achamos o tempo breve demais

(As coisas acabam, é assim que a vida é. Nada de crises com isso)

“Quanto é tardio começar a viver só quando é hora de terminar”

Sêneca 

Olá!

Nem só de progressivo o homem viverá. É bem verdade que as explorações sonoras extremas da vertente o fizeram meu gênero favorito de sempre, mas, especialmente para minhas limitações técnicas, é no hard rock que eu repouso uma boa parte das minhas audições, o que vai se traduzir nas músicas que componho (cada vez menos). E por isso estou sempre ligado ao som da década de 70 e seus principais mandachuvas.

É óbvio que tenho decorada toda a produção do trio de ferro*, mas eles tiveram filhotes e alguns deles são verdadeiramente bons. Um deles teve o anúncio da aposentadoria de seu líder bem recentemente. Sem dúvida uma das maiores vozes que tivemos no movimento, David Coverdale anunciou que está deixando os palcos e, com isso, o Whitesnake fecha oficial e definitivamente as suas portas.

Fez bem, o notável vocalista. Se ele sente que seus limites físicos e artísticos foram atingidos, é digno que ele curta a vida da melhor maneira que lhe convier a partir de agora. Alguns de seus shows tiveram de ser cancelados por problemas em sua voz, e, se é exatamente ela que lhe caracteriza o talento, pode ser que os registros gravados em abundância lhe façam mais bem do que as extenuantes rotinas das turnês.

Coverdale está para o rock’n’roll assim como Annie Haslam está para o rock progressivo: na minha opinião, são os representantes máximos dos vocalistas. Embora estejam em ótima companhia, tem aptidões extras, e isso os eterniza. Mas eu preciso delinear um pouco melhor o momento de minha preferência em uma carreira muito heterogênea, movida, em certo momento, mais por sucesso do que por moções artísticas.

A banda nasce a partir do desmonte do Deep Purple original, já com as devidas trocas de componentes. Livre no mercado, Coverdale começa por uma carreira solo mais calcada em um repertório leve, com canções de inspiração soul, e com isso lança dois álbuns de algum sucesso, mas que decepcionaram fãs que esperavam uma continuidade na pauleira da banda anterior, como se mesmo ela já não estivesse em flerte com o som da motown. A partir daí, a sua fase de ouro, com forte influência do blues e o diálogo dos seus geniais guitarristas, Micky Moody e Bernie Marsden. A excelência estava em suas melodias, como faziam Eric Clapton e David Gilmour, e não na velocidade de suas escalas, o que virou uma maldição mais tarde. Ambos eram muito cuidadosos na composição de seus arranjos, traçando uma sintonia que mais tarde se tornaria célebre em uma vertente mais pesada, a New Wave of British Heavy Metal, que tinha como nomes de proa o Iron Maiden, o Judas Priest e o Saxon, todos eles usando muito a técnica de duas guitarras solo se alternando ou trabalhando em conjunto. Tudo isso já existia na formação chapéu-e-bigode, símbolo dado pela indumentária de Moody, mestre dos slides. Lançaram cinco excelentes álbuns nessa fase, incluindo um duplo ao vivo que captou toda a energia da banda no palco. Pouco depois, dois álbuns de transição trouxeram mais distorção ao som da banda, buscando alguma aproximação ao mercado ianque, ainda assim de ótima qualidade, até a virada em 1987, quando se transformou em mais uma banda de metal farofa. Agora se adaptam plenamente ao formato de agrado aos estadunidenses, enfatizaram os cabelões, a performance de guitar hero e uma sensualização meio andrógina, em um pacote que dava muita importância ao imaginário das fãs e pouca às origens rockeiras. Tenho todos os álbuns até esse, que comprei mais pela curiosidade da formação completamente nova. A partir daí, entretanto, perdi inteiramente meu interesse, porque os diferenciais que me atraiam estavam perdidos, exceção feita à vocalização, que continuou ótima. Mas para ouvir um Bon Jovi de voz grossa, prefiro continuar com o Bon Jovi de voz fina. Detalhe para o esplêndido álbum que gravou com Jimmy Page em 1993, que parecia reconduzir as ovelhas ao redil. Mas não.

Daí para frente, não tenho mais condições de expedir meus pitacos. Espero que nosso caro David curta muito suas pescarias e o churrasquinho na laje, porque seu legado está gravado para todo o sempre. Merece repousar na glória que construiu, mesmo que tenha ido para caminhos que não tenham me agradado tanto. Afinal de contas, o mundo não gira em torno do meu umbigo, mas os discos de minha vitrola, esses sim.

Também eu tenho meus projetos de aposentadoria, que são diametralmente opostos ao do nosso caro inglês. Enquanto ele decide se afastar, eu quero me aproximar. Suma ironia do destino seria se ele passasse a descrever requisitos como hobby. Na minha juventude, eu tinha bandas e músicas, um monte delas, mas a vida me impediu de prosseguir, enfiando-me em um escritório para eu destilar minhas frustrações. Tudo ficou gravado na memória, mas eu ganhei o objetivo de gravá-las em formato mp3, e virou uma espécie de hobby antecipado para os dias que me restarem. Espero que desta vez dê certo, como não deu da outra vez.

A ideia é aproveitar as benesses da tecnologia e gravar tudo eu mesmo. Algumas coisas já estão disponíveis: tenho uma boa bateria, alguns microfones e duas guitarras para pegar emprestado. O violão eu também tenho e o software para gravar é livre. Nestes quatro anos que me separam da aposentadoria, pretendo juntar o suficiente para comprar um baixo minimamente bom e um teclado, que eu ainda preciso aprender a tocar. Não precisa ser grande coisa, só as coberturas para dar elegância e um certo ar de pesquisa.

Na verdade, eu já comecei paulatinamente o trabalho. Embora eu tenha uma boa fornada prontinha, prontinha, também é verdade que muitas músicas ainda estão cruas, só com letra e melodia, mas sem um arranjo definitivo, porque ainda não tinham ido para ensaio, e tenho pensado bastante nisso. Também tenho ajustado algumas letras, aproveitando a maturidade para encaminhar melhor minhas mensagens.

Não tenho me concentrado em escrever nada novo, porque quero me livrar primeiro do estoque. Se tudo der certo, talvez eu passe a compor mais um pouco, quem sabe.

O que eu vou fazer com essas músicas se eu conseguir cumprir meu objetivo? Apresentar para alguma gravadora? Montar uma banda e sair tocando pelos bares? Nada disso. Quero dar uma cópia para cada filho, para que mostrem aos eventuais netos e tenham o registro da “genialidade” do vovô. Encher o saco dos velhos amigos para relembrar, e dos novos para impressionar são possibilidades. Também eu mesmo vou me ouvir, da mesma forma que faço com este blog. Talvez eu me enleve com algumas, e me envergonhe com outras, mas tudo para marcar o pensamento que eu tive em diferentes épocas da minha vida. Se conseguir isso, me dou por satisfeito e dou por fechada minha existência com chave de ouro.

E se não conseguir? Se o corpo não corresponder mais, se eu não me entender com a tecnologia, ou se tudo for tão cansativo que eu desista? Ou, pior ainda, se aparecerem os mesmos problemas que me impediram de continuar no passado, os mesmos impedimentos, a mesma vida que seleciona as suas necessidades?

Certamente ficarei frustrado, porque tenho consciência de que não terei meios para subir numa moto e cortar estradas, ou viajar para países exóticos. Também não tenho a menor intenção de ficar em um sítio, tendo ainda mais trabalho do que já tenho hoje. Do barco eu já desisti ainda cedo.

Mas eu tenho a hipótese de continuar vivendo, e com isso eu tenho que lidar. Embora tenhamos alguma espécie de governo sobre nossas ações e não possamos simplesmente ficar encostando em um barranco esperando o tempo passar, o fato é que somos senhoreados pelo destino. Planos e mais planos submergem no vinagre por meio de uma veia entupida. Nem precisamos ser tão dramáticos: um chefe mal-humorado, uma paixão mal resolvida, tudo muda o lado para onde o vento assopra, a maioria das vezes sem que possamos fazer grandes coisas.

Há maneiras e maneiras de lidar com a situação, e a filosofia já trabalhou das mais diversas com a questão da imprevisibilidade do futuro. Em algumas, coloca-se tudo nas mãos de uma divindade; em outras, conclui-se pelo absurdo da existência e desiste-se de encontrar uma razão e uma solução. Em outras ainda, vê o fracasso como um impulso da vontade para buscar ainda mais. Mas há certas formas de fatalismo ativo, em que a resistência à dor é a principal escolha ética para enfrentar a derrota da felicidade.

Nos dias de hoje, frente a um mundo em que noções de fracasso estão muito mais próximas a nós, é notável como a corrente estoica está cada vez mais reavivada. Há livrinhos e videozinhos falando sobre essa corrente como se fosse uma grande novidade, mas que não era nova nem para o Cristianismo, que absorveu muitos de seus princípios gerais. Mas eu já falei sobre ele, em um texto bastante abrangente, razão pela qual vou pegar um pouco do chamado estoicismo imperial, a vertente romana dos estoicos, mais especificamente a partir de Sêneca.

Sêneca é um pensador romano proveniente da Espanha, que veio a ser senador e preceptor de Nero, e, embora pareça contraditório, pregou ativamente o desprendimento como fórmula de atingir a virtude e a felicidade.

Mas quais princípios pregava Sêneca? Fundamentalmente, o estoicismo reside na ataraxia, ou seja, a ausência de perturbações diante das dificuldades da vida. Isso não é um simples “deixar para lá” apático, mas uma atitude de busca constante da felicidade através da virtude. O que  é basilar especificamente em Sêneca é o entendimento de que somente devemos exercer controle sobre aquilo que é possível controlar. Não temos como conter uma avalanche ou impedir que venha uma tempestade, mas é possível evitar o baixio de uma montanha no inverno ou se colocar a público quando as nuvens fecham. Da mesma forma, nós conseguimos controlar nossa conduta, mas não a opinião que os outros tem de nossas atitudes. O foco para onde devemos aplicar nossos esforços é no aperfeiçoamento de nossa sabedoria.

Talvez o melhor exemplo esteja na gestão do tempo. Em um mundo onde estamos constantemente reclamando da falta dele, temos a clara sensação de que a vida é curta demais. De fato, quando penso que já vivo a meio século e meia década, quando vejo que me aproximo do momento de aposentar, chego a me horrorizar. Certas coisas parecem ter ocorrido ontem, mas quando se enumera tudo o que ocorreu entre elas e o momento atual, tenho em conta o quanto já se passou. A resposta estoica é que essa sensação de brevidade do tempo é inautêntica. O tempo não é tão breve quanto parece, a questão está no seu uso. Desperdiçamos o tempo com coisas fúteis, preocupações vãs, alta expectativa para objetivos pouco importantes, procura incessante de posses e prazeres e com as suas consequentes angústias e ansiedades.

Não adianta lutar contra leis naturais, esse é o cerne do pensamento de Sêneca. Só é desejável procurar mudar aquilo que é possível mudar. Tudo o mais, é exatamente o campo da frustração e suas consequências. E isso está no nosso quotidiano. Não seguraremos a avalanche. Não controlaremos nosso chefe.

Pense, por exemplo, nos dias que antecedem a grande final do campeonato. Eu mesmo sinto um frio no estômago que acaba se espalhando para todos os dias anteriores, às vezes na forma de angústia sem objeto, um sentimento incômodo de que nada vai dar certo, sabe? É um medo infundado, porque não muda o preço do dólar, não nos trará méritos pessoais e, no final das contas, não entramos em campo para influenciar no resultado. Quem se entrega a medos vazios acaba criando medos reais, sofrimento inútil que nos afasta da felicidade.

Tendo estas “instruções” como guia, entendo que somente no momento em que acontecerem impedimentos ou impossibilidades para minhas ideias e projetos que eu vou me incomodar com eles. Sofrer por antecipação é sofrer dobrado e, se pararmos para pensar, é nossa grande usina de desesperos. Se as coisas vão dar certo ou não dependem menos de mim do que do destino. O que é da minha alçada eu estou fazendo, arranjando, rearranjando, refazendo trechos, tentando manter minimamente a forma e a vontade. Eu conto quando chegar. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

É um livrinho que explodiu no mercado editorial nos últimos tempos, especialmente porque os estoicos entraram na vibe de coachs. Injustiça com eles.

SÊNECA. Sobre a Brevidade da Vida. São Paulo: Penguin & Companhia das Letras, 2017.

*Para quem é muito novo, ou aportou de Marte recentemente, são as bandas Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple, os principais sustentáculos do que se convencionou chamar de rock pesado.



segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Sobre o complexo de inferioridade e os momentos em que ele deixa de ser normal

(Baixinho invocado é um dos maiores estereótipos que conhecemos. Mas o complexo de inferioridade existe)

“As pessoas normais são aquelas que você não conhece bem” 

Adler

Olá!

Vocês acham que os baixinhos são mais bravos? Eu tenho lugar de fala (explicações sobre esse mal utilizado termo aqui e aqui), porque a patroa é, e não é muito difícil de fazê-la explodir. Se você parar para pensar, vai logo lembrar de cinco ou seis tampinhas que são bastante empombadinhos, e a quinta série de plantão acaba por lhes imputar apelidos tão mais ofensivos, quanto mais contundente for sua reação: pintor de rodapé, mecânico de Autorama, salva-vidas de aquário, caixa do Banco Imobiliário, pedreiro de Lego, esquiador de freezer, zagueiro de pebolim, lenhador de bonsai, Tarzan de samambaia e outros menos votados. Lembro logo dos líderes de desenvolvimento com os quais eu trabalho e há, de fato, um bastante irritadiço e confrontativo, logo o mais baixinho deles: “não faço, não estava no projeto”, “estamos errados até quando estamos certos”, “o prazo já foi dado e não tem como encurtar” e assim por diante. É duro na queda quase que por costume, porque sabemos como são difíceis prazos e orçamentos. Basta lembrar que a panaceia universal para justificar atrasos saiu do trânsito e veio para os sistemas, esses malvados. Demorou o metrô? Sistema. Tem fila no caixa? Sistema. O pão desandou? Sistema. Sendo assim, já subimos a cidadela quase que naturalmente, sem a necessidade de se medir alturas.

Claro que a questão da dotação é rematada bobagem, derivada de uma pretensa Síndrome de Napoleão, que, em tese, levaria as pessoas de baixa estatura física a compensar sua humilde biometria com prepotência e agressividade desproporcional, como uma forma de autodefesa gerada por um complexo de inferioridade. O nome se deve ao famosíssimo general francês, Napoleão Bonaparte, conhecido pela genialidade nas estratégias militares e habilidade política. Há uma série de erros na sua vinculação a uma suposta ideia de supercompensação pela sua pouca altura. A primeira é que ele não era, de fato, baixinho, ao menos para a época em que viveu, mas um homem de estatura mediana. Provavelmente essa ideia se deve mais à sua compleição achatada, de tórax e abdômen alargados, do que propriamente à altura. A segunda é que ele não era nem mais, nem menos cruel do que seus colegas militares, mas a quantidade de conquistas amplia tanto seus números quanto o temor psicológico que seu nome causava. E a terceira é que o complexo de inferioridade, embora possa de fato trazer um impulso a compensações com outros atributos pessoais, não está bem caracterizado nesse caso. Mas é um nome que pegou, não vamos lutar contra isso e vamos continuar amigos. Um dos pares do referido líder de desenvolvimento é, se muito, meio centímetro mais alto, e é dócil como um gato em dias de bajulação. Portanto, a síndrome de Napoleão é, até prova em contrário, pertencente ao senso comum, ou, mais claramente, uma amostra de hipótese pseudocientífica.

Mas eu falei sobre o complexo de inferioridade no meu texto anterior, e eu parei no meio do caminho para não me estender demais, sob a promessa de retomar o tema em seus princípios. Então vamos tratar um pouco mais sobre esse interessante tema, que se baseia em uma transição de idades em que passamos a reconhecer nossas potencialidades e deixamos de nos considerar inferiores. O problema é quando isso não acontece.

A psicanálise freudiana, posta de lado suas polêmicas, trouxe novidades nos termos das pesquisas psíquicas. A mente passou a ser estudada em seus recônditos inaparentes, e justificativas para os acometimentos que se reputavam com estereótipos, tipo a histeria das mulheres mal-amadas, começaram a ganhar novas abordagens, com o surgimento de conceitos que surgem nas derivações da psicanálise, mais especificamente, em nosso caso, pelas mãos de Alfred Adler, que desenvolve uma corrente que viria a ser conhecida como psicologia do desenvolvimento individual, ou mais simplesmente Psicologia Individual. Seu principal fundamento está nas modificações que cada indivíduo tem no transcorrer de sua vida, e sua pedra de toque é o conceito de complexo de inferioridade.

A palavra inferior tem sua raiz na palavra grega infra, que significa aquilo que está por baixo. Inicialmente, não tem nenhum significado pejorativo ou diminutivo, indicando unicamente uma situação posicional. Por exemplo, as pernas estão abaixo dos braços, ou a derme está abaixo da epiderme. O inferus, palavra que deriva deste radical, não é inferior por ser ruim, mas por estar na parte de baixo, estar oculto, estar mais aprofundado. Portanto, somente quando estabelecemos um relacionamento qualitativo que o inferus vai ganhar um aspecto de pior, de menos capacitado. Quando somos crianças, e em relação a adultos, temos desempenhos físicos relativos inferiores. Claro: não temos nossa compleição física tutta intera, ainda cresceremos e aprenderemos a utilizar melhor nossos equipamentos orgânicos. Entretanto, é nesse mesmo momento, em que ainda somos pequenos diante do mundo, que começa a se formar nossa personalidade. Não temos nenhum tipo de consciência do que é o mundo e, pior ainda, do que são as relações sociais tão logo nasçamos. Só sabemos que temos fome, que estamos sujos, que está frio ou calor, que queremos um colo macio. Palavras como alteridade e empatia não conhecemos nem de passagem, nem por conhecimento (óbvio), nem por sentimento. Somos, portanto, os centros de nossos universos, egoístas por excelência. Mas o transcurso do desenvolvimento faz com que percebamos, lentamente, que nossa posição central é frágil e que não somos objetos de permanente atenção. São estes os momentos em que começamos a aprender outros sentimentos negativos, menos orgânicos, mas igualmente permanentes. É quando surgem raiva, ciúmes, inveja. E, com eles, vem a competição, inicialmente dentro da própria casa: entre os irmãos, entre o pai e o filho que disputam a mãe. Isso tudo parece cruel, mas é a linha com a qual nossos primeiros anos são tratados. Normal.

Vamos combinar que ninguém nasce grande e vai ficando pequeno, nem nasce sabendo e vai ficando burro, portanto, essa linearidade é inerente aos seres, não só humanos, mas principalmente eles. Todos passamos por esse momento de inferioridade, que nada tem de negativo quando vividos nos momentos certos. Eis que sabemos, quando pequenos, que nós temos inferioridade com relação aos que são mais velhos que nós. Pedimos para eles pegarem coisas nos altos, perguntamos sobre coisas que ainda não sabemos, queremos que peguem coisas mais pesadas. Isso está na normalidade das coisas, e uma das que aprendemos é que haverá um momento em que estaremos no mesmo patamar daqueles a quem recorremos neste momento. O processo de desenvolvimento providenciará para que chegue nossa vez. É aquele momento tonto em que achamos que deveríamos chegar logo à maioridade e parar de depender dos outros. Santa ignorância, Batman…

Um dos aspectos do amadurecimento está no reconhecimento de que, mesmo completamente desenvolvidos, atingimos um determinado patamar que é nosso limite. Eu, por exemplo, adoraria estar no nível dos grandes bateristas deste universo conhecido, dos grandes escritores, dos excelentes professores, mas um belo dia cheguei num ponto em que eu não ia mais além de onde estava. Eu sou inferior tecnicamente a uma montanha de gente, e isso não é um problema, é só uma questão de autoconhecimento. Quer dizer, não é um problema se eu não me retrair ao mundo por conta disso, ou que eu não tente supercompensar além dos limites aceitáveis para suprir essa carência.

O primeiro acontece quando um aspecto da minha inferioridade me faz supor que isso seja generalizado, que eu seja ruim em tudo. Isso fará com que eu me retraia a tal ponto que nada do que me for potencial aflorará. São aquelas pessoas com excesso de timidez, que procuram passar despercebidas em qualquer canto onde estejam. Isso está fora do escopo das boas relações humanas, porque, ora essa, somos seres sociais e dependemos de um pacote de relações mínimas para sobreviver. Se alguém perdeu o ponto de virada do amadurecimento, viverá precariamente para sempre.

Já o segundo é uma reação exagerada e irrealista à condição de inferioridade, fazendo com que todas as reações de confronto com pontos em que a pessoa se considera hábil sejam exponencializadas, às vezes de forma agressiva. É por isso que se diz que pessoas violentas no trato são complexadas com seus defeitos, o que nem sempre é verdade.

Adler concluiu que esses fenômenos psíquicos ocorrem em decorrência de desencontros na transição entre as idades infantil e adulta, normalmente ocasionados por um quadro de restrições durante os primeiros anos de vida. Crianças que não recebem adequada atenção dos pais, que têm seus erros reforçados e seus acertos subestimados costumam ter em si mais arraigados os complexos de inferioridade em suas duas formas.

A questão toda é que a mente humana plasma dentro de si todo o painel competitivo que a própria vida tem e, crueldade das crueldades, é em casa que temos o primeiro ambiente de embates. Imagine, por exemplo, que você é o irmão do meio de um trio de encapetados. O seu irmão mais velho goza da força típica daqueles que já condensaram no corpo mais células, além de contar com uma certa experiência a mais (e um pouco de opressão aplicada). O mais novo aproveita do beneplácito dos pais e lança mão justamente da sua fragilidade para conseguir maior proteção. Você, o do meio, é inferior fisicamente ao mais velho e politicamente ao mais novo, e fica naquela espécie de lugar maldito de quem não tem vantagens. Se seus pais forem suficientemente habilidosos e aprenderem com o tempo, isso será apenas uma lembrança quando as coisas se igualarem. Só que se não forem, você poderá se sentir uma espécie de pária, que nem é tão forte, nem merece tanta proteção.

Adler vem da escola freudiana, mas diverge do guia em pontos decisivos. Os principais são a menor primazia dos recalques e pulsões de origem sexual e uma maior participação da instância consciente na psiquê humana. No primeiro caso, Freud entendia que muito do que molda a psiquê vem dos apetites sexuais que se desenvolvem desde a mais tenra infância, a fonte de prazer por excelência, colidindo com a moral reinante, que via as crianças como reservatórios de pureza. É óbvio que não se tratava de dizer que as crianças estavam dispostas e disponíveis para o ato, mas que já colocavam em desenvolvimento aquilo que viria a ser sua sexualidade final, e as maneiras como recebiam repressão tornava se uma fonte inesgotável de neuroses na idade adulta. Adler, por seu lado, levava a sexualidade para um papel mais simbólico, e compreendia que a personalidade era moldada por aspectos mais totalizantes e integrados. Não é a sexualidade, mas as interações sociais que melhor moldam, que se refletem em estilos de vida. Além disso, embora concorde com as instâncias de inconsciência, Adler entende que o ego não é tão imobilizado pela guerra entre id e superego. Freud enfatiza o passado na formação da personalidade, enquanto Adler acredita que o indivíduo pode se mover por metas, ou seja, ter o futuro como guia da personalidade. Enfim, tanto Freud quanto Adler teorizam que o ambiente social tem influência sobre a formação da personalidade, mas o primeiro vai pelas repressões do superego, enquanto o segundo entende que a sociedade é o meio pelo qual o indivíduo ganha objetivos.

Portanto, nas teorias de Adler, aqueles indivíduos que excedem os consensos sociais são movidos por um complexo de inferioridade que não foi bem modulado no momento de transição adequado, mormente pelas dificuldades interpostas pelo meio onde viveu em seus primeiros anos. Comportamentos neuróticos são uma resposta orgânica à tentativa de superar o sentimento de inferioridade. O grande problema, que o desvia da média geral da população, é o descolamento da realidade: ele persiste se vendo como inferior em lugares onde ele não é, ou se vê extra superior em aspectos onde ele não chega a tanto. Enfim, é um transtorno da visão de realidade.

Sendo assim, baixinhos não são naturalmente mais agressivos para uma suposta defesa antecipada, ou por se sentirem inferiores. Eles são tão agressivos quanto seus estilos de vida os tornaram, e o quanto eles se propuseram a sair desse estado. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Mais um livro de Adler para aprofundar o sentido de seus pensamentos. Leia-o por um prisma filosófico, e você se sentirá mais confortável.

ADLER, Alfred. El Caracter Neurotico. Buenos Aires: Paidos, s. d.



segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Sobre os paradigmas que justificam a estrutura religiosa do pensamento e o Pequeno guia das grandes falácias – 77º tomo: o retorsio argumenti

(Por que a maioria esmagadora da população professa uma fé, ainda que a cada dia que passa ela fique mais difícil de justificar?)

“Mais cedo ou mais tarde a criança adquire consciência de sua inaptidão para lutar. Sem a ajuda de outrem, com as dificuldades da existência. Este sentimento de inferioridade é a força geradora, o ponto de partida dos impulsos combativos das crianças. Será ele que determinará o modo por que a criança adquirirá paz e segurança na vida, será ele que determinará a própria meta de sua existência e preparará o caminho pelo qual essa meta será atingida”.

Adler

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

Como tenho dito para vocês, minha vida tem sido um eterno trafegar entre São Paulo e Taubaté, pelo miolo daquele bico que se aproxima do Rio de Janeiro conhecido como Vale do Paraíba. Por óbvio, esse nome diz respeito ao acidente geográfico formado pelo Rio Paraíba do Sul, nascido pela junção os rios Paraitinga e Paraibuna, que fazem um insólito percurso que vai rumo à Capital, para fazer uma curva na altura de Guararema e pegar a rota do Rio, onde vai desaguar no mar. Coloquei um mapinha no fim do texto para facilitar a compreensão.

Toda essa região é muito antiga, logo dos tempos da fundação deste inusual país, e, como tal, tem uma carga muito grande de história, embora respeito ao patrimônio histórico não seja exatamente nosso forte. É daqui, por exemplo, que o movimento dos tropeiros nasceu e se consolidou, especialmente após a descoberta de minérios valiosos na região do que hoje é Minas Gerais. E também aqui várias povoações foram nascendo e crescendo, com a preponderância da cultura portuguesa, o que trouxe muitas igrejas para cá, algumas delas ainda hoje de pé.

Para mencionar apenas algumas das mais importantes, temos o santuário da Rosa Mística em Jambeiro, o convento de Frei Galvão em Guaratinguetá, o convento de Santa Clara em Taubaté, a igreja da Santa Cabeça em Silveiras, o mosteiro da Sagrada Face em Roseira, além de muitas e muitas outras, assim como novos espaços da religiosidade, como a Canção Nova em Cachoeira Paulista e o Memorial do Padre Leo em Lorena, além, obviamente, da basílica de Nossa Senhora Aparecida, em um conjunto composto pela bela igreja original e pela gigantesca igreja principal, assustadora em suas dimensões. Isso se deu por conta da velha e bastante conhecida história da padroeira: um grupo de pescadores lança suas redes no Rio Paraíba do Sul e traz o corpo de uma santa, mais especificamente de Nossa Senhora da Conceição, porém sem sua cabeça. Na sequência, lança a rede novamente e, desta vez, vem a cabeça, em perfeito encaixe. Ato contínuo, a pesca escassa de até então passou a ser abundante. Reputado como milagre, o fenômeno fez com que a imagem fosse acomodada em um nicho humilde e, a partir daí, pegando fama crescente, até chegar no atual status: padroeira do Brasil.

Então é muito comum para estes lados vermos as romarias, peregrinações de muitos quilômetros que tem seu nome baseado nas visitas que as pessoas de fé faziam a Roma, sede da Igreja Católica, onde, diz-se, São Pedro teria sido levado a martírio lá pelos idos do primeiro século da era comum. Essas caminhadas, dizem os romeiros, servem para reflexão, oração e penitência, o que dá alimento para a fé. Há caminhos feitos por trilhas partindo de várias partes do país, mas é na Dutra que mais se vê romarias, especialmente por ocasião da data magna da santa, 12 de outubro. Há romarias a pé, de cavalo, de charretes, de bicicletas e, claro, nos ônibus de excursão, fretados pelas igrejas para esta festividade.

Estamos, evidentemente, falando no âmbito católico, a religião que mais participou da formação cultural do brasileiro, embora não se devam desprezar as influências indígenas e africanas, e nem se esquecer da virada evangélica que vem se processando desde a década de 80 do século passado, época em que eu era um jovem guapo e trigueiro. É, portanto, algo que já está bem sedimentado nos nossos conceitos e não causam estranheza, mesmo quando já não se vivencia a fé. Um caminhoneiro percorrendo a Dutra não tem nenhum estranhamento ao ver aquele monte de gente com cajados e terços nas mãos, vestindo camisetas de cor berrante e imagens de suas respectivas paróquias. Pode até ridicularizar a atitude, mas não se admira com ela. Entretanto, esse esquema de sacrifícios por uma divindade que não se vê, que se faz discutível no atendimento dos apelos que se fazem a ela e que por vezes tem a mão pesada contra predisposições naturais de seus fiéis torna admirável tanta fidelidade, e é preciso tentar compreender essas atitudes que, muitas vezes, parecem contraintuitivas.

Um dos pontos a ser observado é: por que acreditamos em uma transcendência? Tem a ver com a falta de clareza com a qual absorvemos o universo, o que ocorre desde que nos entendemos por gente. E isso está no nosso subconsciente ainda nos dias de hoje.

Sabe quando você fica em silêncio no quarto de dormir? À noite, estamos privados da visão, nosso mais apurado sentido, e colocamos na audição a tarefa de decifrar o mundo, o que já torna a coleta de dados mais imprecisa. Há uma série de ruídos que são fáceis de decifrar, como os murmúrios do vento, o ruído da chuva, um gato no telhado. Mas nem sempre é possível traduzir com exatidão o que se passa lá fora. Não é preciso que haja nada de especial, mas é a ciência de que há um universo girando para além da nossa cognição.

Os processos que nos fazem entender que há um “lá fora” com relação ao universo sensível são semelhantes ao quarto noturno. Aguçamos nossos sentidos para compreender de onde vem os fenômenos observáveis e a sensação de que tudo se move regido por uma forma de inteligência fica tão patente que se torna difícil aceitar mecanismos outros.

Isso se desenvolve por milênios. E serve como uma luva não somente para deduzir fenômenos naturais, mas para também para responder a perguntas cabais no psicológico humano: o que há no post mortem? Como se desenvolve a vida para além desta realidade vivida? Teremos uma vida “lá fora”? No que ela seria diferente da vida real?

Percebem como esse pensamento de fundo pauta toda e qualquer religião? A denúncia é feita pela própria origem da palavra: religar a humanidade colocada no mundo sensível às origens dadas por suas supostas divindades, como um filho que volta à casa de seu pai depois de ter passado anos distante. Sendo um destino comum a todos, o mundo fica irmanado, tanto na sua consciência de fim, quanto na sua perspectiva de realidade exterior. O que muda são as formas, mas a lógica é sempre a mesma. Ou seja, não é algo de indivíduos, mas da espécie como um todo. Ou seja de novo, a consciência humana é moldada para crer em deuses.

Tudo isso chega a ser bonito. É um resumo da busca humana por explicar a si mesma e de reconhecer sua pequenez. Isso não teria nada demais se não representasse, na imensa maioria das vezes, um argumento para dar balizas morais a priori, e, mais profundamente, a fazer o exercício do poder.

Como é incerta a presença de algo “lá fora”, mas os sinais são muito bons nesse sentido, é de se supor que haja ali uma vontade, já que faz pouco sentido achar que o universo gire a troco de nada. Essa vontade não é expressa em palavras, a não ser para meia dúzia de iniciados, que, em tese, portam esse interesse da divindade sem que seja necessário provar nada. É suficiente que eles existam, suas palavras têm uma espécie de fé pública para a grande comunidade privada de contato direto. Os próprios ministros tendem, conscientemente ou não, a imputar seus próprios valores à divindade, que ficaria satisfeita com todos aqueles que cumprissem à risca seus supostos ditames. E nós nos entregamos às interpretações dos iniciados porque eles parecem trazer respostas para nossas questões, que são sempre muitas.

O substrato de fundo se apoia em dois quesitos: a curiosidade e o instinto de preservação. Só que, parando para pensar, percebemos que ambas se imiscuem. A curiosidade não é só uma distração de desocupados que buscam saber das novidades acerca da filha dos outros, mas uma ferramenta que permite agregar informações sobre fenômenos que podem ser perigosos. Desta forma, sobrevive mais quem é curioso, ao contrário do que preconiza o ditado do gato.

Então, sim, poderíamos pensar em uma vantagem evolutiva em se crer em uma divindade, como, de resto, é vantajosa qualquer associação entre indivíduos que, no final das contas, são muito mais fracos desunidos. Ao contrário de um tubarão, que não tem grandes benefícios de agir em consórcio, um pobre humaninho sozinho é presa fácil das feras e das circunstâncias. E a religião é, sabemos, um dos principais ferramentais dos sentimentos de pertença e de gregarismo.

Só que o fenômeno é bastante complexo, especialmente quando observado pelo campo do psíquico, e podemos tentar algumas conclusões pela observação das estruturas comuns dos pensamentos.

Sabemos que as religiões, algumas mais declaradamente, outras de modo mais tácito, funcionam com uma lógica de submissão. Embora não seja algo assumido, o fato é que deuses não são parceiros, mas superiores hierárquicos. São chamados de pai, senhor, rei e outros termos que denotam uma linha de subordinação, sempre com eles acima, como é de se supor. Essa é a regra (das exceções, não vou tratar agora).

Mas onde nasce essa ideia de estar abaixo, de ser inferior? De acordo com o psicanalista Alfred Adler, austríaco que travou uma vertente da psicanálise de Freud, muito do nosso atitudinal vem da maneira como é constituída nossa infância.

Comecemos com uma experiência pessoal. Quando eu era criança pequena, tinha uma tia-avó que era caseira em uma chácara na região de Campo Limpo Paulista. Era daquelas propriedades de lazer, e não de trabalho, exceção feita à hortinha da própria tia Nica. Era uma terrinha toda bem equipada, com todas essas coisas do estilo recanto do guerreiro: churrasqueira, campinho de futebol e, claro, uma piscina. Não era, naturalmente, para o nosso bico, e sim dos donos, então a atração era o pão caseiro da tia. Mas restava a observação, e, na minha cabeça pueril, a piscina era enorme, tipo aquelas olímpicas, que comportaria facilmente alguma competição local.

Anos depois, já com a tia Nica e o tio Antônio devidamente encaminhados ao seu destino final, fui levar meu convite de casamento ao primo Gilberto, que lá ficou remanescente. Como era comum que este último viesse nos visitar, deixamos de ir à chácara, e, nisso, estou falando de mais de vinte anos. No caminho, fui falando das recordações com a futura patroa, e de como tinha lá uma piscina enorme. O fato é que, embora fosse de fato uma boa piscina, dos tempos em que eram feitas de alvenaria, não tinha nada mais que uma dessas modernas, feitas de fibra. Cheguei ao ponto de perguntar se os donos tinham mudado o equipamento, ao que o primo garantiu que não. Era uma imagem reservada tão distorcidamente na memória que era capaz de me fazer criar realidades alternativas.

Isso não significa que eu sou louco, mas que era criança e, portanto, via tudo maior do que vejo hoje, até mesmo por uma questão de tamanho. Se hoje eu entrasse naquela piscina, ficaria com a cabeça para fora estando de pé. Com meus cinco anos, morreria afogado inapelavelmente, o que nos leva a concluir pelo óbvio - tamanho faz diferença.

Nas nossas raízes mais profundas, observamos que nascemos biologicamente prematuros. Enquanto uma girafa pare filhos que já nascem andando, ou um pintinho já sai do ovo pronto para uma alimentação muito próxima à que terá por toda a vida, nós chegamos à luz em um grau de dependência absoluta, sendo absolutamente impensável nossa sobrevivência sem os cuidados de terceiros. As coisas são assim por motivos evolutivos que não cabem discutir neste momento, mas o fato é que nós nascemos sob um signo de dependência e desabrigo, caracterizados pela fragilidade extrema: incapacidade de articulação física, fraqueza e pequenez.

Mesmo após o crescimento e ganho de autonomia, o percurso que um ser humano traça para chegar ao seu formato final é longo. Um cão já é adulto ao completar um ano de vida, enquanto nós levamos pelo menos quinze para atingir o mesmo que isso. E, vamos e venhamos, e mesmo reconhecendo que os processos mentais de um cachorro são altamente complexos, são muito diferentes do que ocorre com humanos. Grosso modo, um cachorro está suficientemente desenvolvido quando aprende o básico da sobrevivência, e mais alguns truques para obter benesses, como as habituais caras de fofura. Já nós somos praticamente escravos da nossa psiquê, enfrentando conteúdos abstratos por toda a vida. A questão é que passamos muito tempo da nossa vida reconhecendo-nos menores que nossos pais, nossos irmãos mais velhos, nossos parentes, nossos vizinhos. Ainda que já muito capazes, continuamos sendo crianças. Menores e, de certa forma, inferiores.

Isso não é um problema em si. É um processo natural de transição, que vai paulatinamente diminuindo à medida que crescemos e ganhamos novas capacidades e habilidades. Embora seja inconsciente, também a nova realidade vai moldando a psiquê, de modo a nós percebermos já mais pareados com o mundo adulto.

Mas, como eu disse, o processo é inconsciente, e, como tal, arraigado. Uma parte desse complexo de inferioridade permanecerá até nas mentes mais saudáveis, e quando eu me torno um adulto como os outros, minhas estruturas mentais buscam por quem está acima agora. Permanece um rabicho na minha personalidade traçada ainda criança, e a busca pela substituição dos pais e adultos como um todo se dá na projeção futura: na prateleira vazia do degrau de cima do complexo de inferioridade, surge um deus. Juntamos a insistência psíquica da inferioridade com a sensação da existência do “lá fora” e chancelamos que é inevitável que há um regente de nossos destinos.

Não se trata aqui do complexo de inferioridade descrito por Adler como uma neurose, e falarei sobre ele com mais cuidado bem brevemente, para não perder o fio do tema, mas de reconhecer como é difícil modificar algo que estruturalmente é pouco maleável. Notem como temos dificuldades de modificar opiniões, de superar (ou mesmo reconhecer) vieses, de sepultar superstições, mesmo utilizando as melhores ferramentas da lógica. Nossa cabeça é construída para trabalhar de forma hierárquica, e isso facilita estruturas de dominação, como nas empresas, nos governos, nas igrejas.

Alguns religiosos dirão que tudo isso é sandice, enquanto outros dirão que isso é até mesmo prova inequívoca da existência de deus. Afirmam que, se há uma estrutura voltada para a busca por uma divindade, é porque se trata de uma necessidade humana, e, sendo necessário, não poderia ser diferente do que é. Sendo assim, a estrutura religiosa do pensamento existe para que os homens tenham capacidade de reconhecer deus.

Ora, na minha miserável opinião, o argumento é falacioso, mais especificamente um retorsio argumenti, a falácia que busca transformar um argumento contrário em um favorável. A ideia básica é reconhecer a validade de um argumento, mas modificar seu sentido, para que seja mais oneroso à tese original fazer um desmentido.

O que temos no caso? Que a substituição das instâncias superiores na relação de inferioridade está correta, porque ela deve persistir pelo reconhecimento da majestade do deus. Nossa inferioridade existe, o que, por não desmentir o argumento, também não o invalida. Mas há problemas.

A substituição precisa ser feita? A ideia de subordinação típica das relações com o divino é facilmente plasmada para outras relações, como eu já disse: nos patrões, nos militares, nos governantes, nos legisladores e mesmo em coisas mais dolorosas, como nas raças, nos sexos e nas capacidades. Nossa continuidade nos pontos de inferioridade não pode ser uma justificativa para colocar alguém no lugar dos pais quando chegamos à maturidade. Essa é a razão pela qual a assunção desta relação é problemática: nós podemos sair do complexo. Ora (direis), socialmente é necessário que existam hierarquias. Faz sentido quando pensamos que há juízes que precisam julgar, presidentes que precisam governar e così via, mas percebam a sutileza de que estamos falando de papéis institucionais, e não de pessoas. O que vai além disso, é abuso de poder.

Não fiquem bravos comigo, amigos religiosos. É meu ponto de vista, refutável, modificável e, principalmente, não proíbe nossa amizade e respeito mútuo. Bons ventos para todos!

Recomendação de leitura:

Este é um livro mais geral, sempre no espírito de que não há controvérsia na psicanálise como filosofia. Já discuti a questão neste texto.

ADLER, Alfred. A Ciência da Natureza Humana. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957.

Aqui, o mapa do trajeto do Rio Paraíba do Sul:





quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

O café filosófico do quotidiano – de tanto ver, ficamos cegos

(Sim, a torrente de imagens nos anestesia. Mas não podemos deixar dessa forma)

“A guerra dilacera, despedaça. A guerra esfrangalha, eviscera. A guerra calcina. A guerra esquarteja. A guerra devasta”.

...

“O problema não é que as pessoas lembrem por meio de fotos, mas que só se lembrem das fotos”.

Sontag

Olá!

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O café é um hábito coletivo. Chego a esta conclusão influenciado pela vida em uma família grande, cujo único consenso culinário real residia no líquido negro e espesso. Nunca vi a sorvedura como algo para se fazer sozinho, mesmo que essa companhia venha em sucessões: um faz, outros tomam, juntos ou cada um à sua vez, partilhando um mesmo produto e um mesmo ato. Mas o mundo gira, a lusitana roda e hoje, por muitas vezes, se eu não fizer um cafezinho para mim mesmo, eu e só eu, acabo não tomando uma dose daquelas de final de tarde, para ajudar a se manter de pé. É bem verdade que pelo menos a esposa costuma me acompanhar, mas há dias em que estou junto do meu silêncio, e convém uma dose única.

Com o mesmo espírito de pobreza de outrora, dá um pouco de dó gastar toda uma parafernália para extrair uma mísera xícara. Para tal mister, há os métodos que nos permitem esse efeito sem que precisemos lançar mão de tanta coisa. Comprei um baratíssimo e prático porta-filtro Kalita Tall, cujo fundamento é exatamente ser útil para um contribuinte individual.

O método é extremamente simples. Com um aspecto de uma barquinha, seu fundo possui três furos, para manter a engenharia típica da Kalita de acelerar o escoamento e não reter água. Além disso, possui um conjunto de ranhuras paralelas para favorecer o fluxo reto e rápido.

Nesse sentido, parece um Melittão clássico que teve seu fundo cerrado, o que o faz ficar mais prático de levar para lá e para cá. É possível encaixar o fundo de um filtro trapezoidal nº 01 e depositar uma quantidade pequena de pó, uma medida prática de fazer um cafezinho rápido.



Nome do utensílio: Kalita Tall

Tipo de técnica: percolação

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média/fina

Dinâmica: Da mesma forma que outros métodos de percolação, inserir um filtro trapezoidal na cavidade e escaldar com água fervente. Depositar o pó e atacar com quantidades pequenas de água, haja vista o pouco espaço disponível.  

Resíduos: Baixos

Temperatura de saída: Média/alta

Nível de ritual: Médio

Enquanto estreio o pequeno método, vou ouvindo as notícias através do rádio do vizinho, bastante alto para os padrões deste prédio. Lá eu escuto os comentários de guerra, especialmente dos ataques israelenses na Faixa de Gaza, uma história cíclica e incessante, que alterna momentos de pau comendo e silêncio tenso, nunca de paz legítima. Esse lugar virou um sinônimo tão consistente de violência que até mesmo o calçadão que vai do metrô Sé até o asfalto da Silveira Martins ganhou esse apelido aqui em casa, vindo das trapalhadas do poder público que, vez por outra, faz o trecho virar uma sucursal da Cracolândia. Faixa de Gaza é, portanto, sinônimo de perigo. Mas eu não tenho vontade de ouvir sobre isso logo cedo, e vou acionar meu celular para ouvir sobre futebol ou fofocas. A ironia vem na forma de vídeos que abordam a ausência da Rússia na Copa do Mundo por conta da guerra contra a Ucrânia.

Bate em mim uma certa culpa. Às vezes eu me pergunto se não sou muito chapa branca, ou menos engajado do que deveria ser, mesmo neste humilde espaço. E às vezes eu me pergunto se eu não sou exatamente aquilo que eu temia: insensível diante do mundo. Vou explicar isso tudo melhor, com calma.

Não se trata de não me importar com os acontecimentos caóticos. Tenho posições bastante claras para mim mesmo e sou, por definição, antiguerra. Acho que, especialmente na questão de Gaza, todos os limites foram ultrapassados e não há como não encarar a ação israelense como um apartheid seguido de um genocídio, com a concupiscência geral do Primeiro Mundo, mesmo que haja justificativas históricas e razões para sua própria defesa. Mas há dois pontos. O primeiro é que há um natural cansaço em se saber que se alinha ao gabinete Netanyahu a maior potência política e bélica do planetinha azul, e isso já faz com que não tenhamos muito rumo além das lamentações habituais e os votos de desagravo, as moções de repúdio, os stories, os posts comovidos. Todos tão tocantes quanto inúteis. E o segundo é que vamos ficando cada vez mais anestesiados com o ambiente de violência que permeia o mundo, começando pela rua de casa, terminando pelo pálido ponto azul rumo ao calcinamento. Todos os dias encaro a praça repleta de mendigos e nem passa pela minha cabeça os dramas de cada um deles, o que faz eles estarem lá, qual a história de cada uma de suas feridas, que são muitas. Mesmo que sejam de boa paz, a vida nas ruas é feita de violência, e tendemos a não nos incomodar, a não ser quando roubam o celular de um dos nossos. Aí, sim, eles surgem. De tanto ver, fiquei cego.

O mesmo acontece quando pensamos na questão internacional. Nos anos oitenta, quando a globalização dava suas caras com toda sua força, uma reunião de artistas musicais deu origem ao projeto USA for Africa, que gerou o megasucesso “We are the World”, que até hoje aparece por aí. Buscava chamar atenção para a fome na África, o que é louvável, mas com a velha lógica de mandar recursos sem mandar soluções, o que é costumeiro em quem quer reduzir sua própria culpa. Dizem que não se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar. Só que não adianta ensinar a pescar se não se dá acesso ao rio. Aí, é divisão de lucros, e isso já não é legal.

Daí, que tanto a fome na África persiste, quanto não se dá horizontes. A questão ali é a guerra permanente, causada, em especial, pelas divisões arbitrárias da época da colonização. É possível mediar os conflitos e inserir esses países no mercado mundial. Isso seria resolver o problema. Como fazer isso? Não sei, mas há meios, se houver vontade. Só que, fundamentalmente, mostrar criancinhas negras esquecidas passa a dar um ar apelativo, meio brega até. Você já sentiu isso? Então está comprovada a sua dessensibilização.

É uma sensação estranha, porque eu constato que não sou imune à sensibilidade. Na rua em que habito, o trânsito amalucado traz consequências. Um leve esbarrão de um carro em outro gerou um entrevero entre dois motoristas que terminou com um extintor rachando a cabeça de um, enquanto o outro foi se ver com a polícia, detido pelos transeuntes. Era exatamente o momento em que o pobre golpeado ia sendo recolhido à ambulância que eu cheguei para almoçar, e a cena sanguinolenta me causou choque, ainda mais quando o bissexto zelador do prédio me descreveu a futilidade do ocorrido. O fato ficou passeando alguns dias pela minha cabeça, prova do tanto que fiquei impressionado.

Se eu me incomodo com dois brutalhões resolvendo seus entreveros na porrada, por que fico com cara de horizonte perdido quando se fala da guerra? Pego refletindo sobre o caso, pergunto por que não somos mais incisivos com relação à guerra, à fome, à miséria. E vou buscar minhas referências quanto sinto que estou perdido no caos. Sabe quando você está com aquela roda de amigos e o debate esquenta? Sabe quando se busca a opinião daquele mais quieto, que não se mistura no debate para não se tornar, também ele, improdutivo? É assim que vou parar em Susan Sontag, uma das vozes da lucidez.

Ela tem uma paixão, a fotografia, e tem senso crítico aguçado. Faz meditações sobre a importância das fotografias na maneira como as pessoas reagem diante do horror da guerra, e conclui que não basta que se apresentem os artefatos, mas que há todo um ambiente que lhe apresenta, de modo a lhe mudar completamente seu sentido.

Pense em uma pedra. Jogada na rua, é o resíduo de uma construção, um estorvo de tropeço. Colocada em um pedestal, é o fundamento da mesma construção, algo sacralizado até. Uma imagem não é nada sem a narrativa que se faz em torno dela. Uma foto de guerra pode tanto mortificar quem a observa, quanto exaltar um herói que derrota o suposto inimigo. Pode tanto causar a revolta, quando colocar a culpa na vítima que está lá, estendida no chão com os miolos espalhados. A fotografia depende da folha onde está colada.

Talvez ela tenha razão. O grande problema está no apelo que se dá às imagens, e não nas imagens em si. Elas falam por si mesmas, mas sua língua pode ser desvirtuada por sua moldura. Na maioria das vezes, fiamo-nos mais naquilo que se descreve sobre a imagem do que nela mesma, e acabamos, com isso, desviando o olhar dela. Há toda uma carga ideológica que conduz a isso, como a destruição apresentada como uma necessidade da vitória, os lados positivos da guerra. A dor e a morte são exibidos de acordo com a conveniência de quem tem os meios, e isso balanceia onde se age e onde se omite. Sontag exemplifica com aquela que é tida como a maior catástrofe da contemporaneidade: os atentados do famoso 11 de setembro. São 3000 admitidos corpos que ficaram completamente ocultos aos olhos das câmeras. Nem unzinho corpo do atentado foi exibido por um curioso de plantão. Sabendo ser isso impossível em um momento em que já existiam celulares com câmeras em profusão, só um tácito acordo possibilita esse completo sumiço. Como não somos burros, percebemos o truque e passamos a olhar para as imagens apresentadas com os filtros de quem o faz. E isso mata os nossos nervos, porque passamos a colocar o horror entre parênteses.

Há maneiras de compreender esses mecanismos. Em um pequenino trecho do seu livro, lê-se sobre a introdução de imagens de cânceres e enfisemas nas embalagens de cigarros no Canadá. Lembro que isso também foi feito no Brasil e fico confuso. Ao lado da inequívoca redução no consumo, veio aquilo que fazíamos ao tempo dos lançamentos. Dizíamos: “você já encheu o seu álbum? Porque vieram figurinhas novas”. O tom jocoso já entrevia a colocação de lado do efeito choque. Mas o fato é que tivemos expressiva diminuição no consumo, o que pode ser mais bem explicado pela proibição do uso em locais fechados. Mas o uso das imagens pode explicar o desencorajamento de novos fumantes, ao que me parece, que não tem permanentemente as imagens chocantes dentro dos seus bolsos, e talvez não se anestesiem como ocorre com os inveterados, gozadores de seus próprios riscos.

Talvez a imagética trazida pelas redes sociais deem a dupla noção de que eventos como a Guerra da Ucrânia ou os ataques a Gaza são causas justas e que acontecem longe de nós. Ambas são ilusórias, porque a cada imigrante que vemos em nosso país, e não são poucos, podemos colher o entendimento de que um sofrimento pela saída da terra é igual pela injustiça com os seres humanos, e, não importando se vemos nigerianos, haitianos ou sírios, eles estão aqui pelos mesmos motivos das guerras nos Bálcãs ou no Oriente Médio. Então TEMOS proximidade com as imagens que vemos e achamos longínquas, na forma de drama humanitário.

Mas aí temos o efeito. As ideias que nos vendem tem a cara e o selo da hegemonia. Intervenções em Gaza sempre carregam o fundo de combate ao terrorismo, o que é justo e reconhecemos isso como tal. Mas as motivações para a violência não vêm a claro, e dá impressão de que a dor é necessária, a violência é inevitável, justamente pela culpa de quem a sofre. Como as imagens que voam pelos canais de comunicação tem uma espécie de chancela do lado vencedor, tendemos a interiorizar que aquela imagem que nos mostram é a imagem autorizada, a imagem que permitem que vejamos. Quando isso acontece, é muito difícil manter um interesse autêntico, e os consequentes sentimentos de pena ou repulsa que deveríamos ter. A dor dos outros fica por detrás dessa capa midiática, e isso nos torna apáticos. Mas elas continuam a existir, a dor e a morte.

Quando eu volto a mim, já tomei todo o café e mal percebi o produto do método, o que me obriga a repetir a operação. Talvez se fosse extraída uma zurrapa inabsorvível eu tivesse reparado, mas eu já estou tão acostumado com café que é possível nem perceber o que passa pela garganta, mesmo que estiver me envenenando. É mais uma mostra de que nossos sentidos conseguem ser desviados de tal forma a registrar outro tipo de realidade. Bons ventos a todos! 

Recomendação de leitura:

Obra de tiro curto, com um modelo de ensaio, e desafiador como só a autora consegue ser.

SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.