Marcadores

terça-feira, 17 de maio de 2011

Sobre estações de metrô e a opção preferencial do poder público

Olá!

Bem, tivemos problemas na maquininha de blogs neste final de semana. Com isso, acabei perdendo dois posts, que eu vou ter de reescrever (saco! como eu vou lembrar de tudo?).

Uma questão típica da organização de uma cidade acabou ganhando as primeiras páginas dos jornais na última semana: o governo (ou a empresa contratada - ninguém quis assumir a culpa - AVÁ) cedeu às pressões dos moradores do bairro de Higienópolis para mudar de lugar uma estação de metrô que seria construída por lá. Para quem não é de São Paulo, explico: Higienópolis é um dos últimos bairros valorizados nas cercanias do centro da cidade, que sobreviveu (e bem) à degradação de outros, como os Campos Elíseos, o Bom Retiro, a Vila Buarque e o Arouche.

A história pegou fogo por conta de um contra-senso: há décadas que os paulistanos escutam a mesma cantilena - que a salvação para o trânsito virá com o metrô. De fato, e aqui registro um pouco da minha história pessoal, morar próximo a uma linha de metrô é uma benção. Tanto é verdade que o aluguel de moradia nessa condição é impraticável. Soube disso quando me enchi de perder 3 horas diárias dentro de um ônibus para ir do centro (quando eu era pequeno, chamávamos o centro de "cidade". -Olha, amanhã tenho que acordar cedo, vou na cidade!) para casa e vice-versa, e fui correr atrás de alugar algo perto de uma estação qualquer. Achei preço decente apenas no próprio centro, onde vivo hoje, que é perto do metrô e é desvalorizado por outros motivos - falaremos sobre isso em outro momento.

Ora, e os moradores de Higienópolis não querem metrô? Por que?

A alegação é a de que já há estações suficientes na região e que a construção de novas traria pessoas indesejáveis para a região. Uma das moradoras as chamou de "diferenciadas": mendigos, camelôs, gente da periferia; pobres, enfim. Essa foi a senha para a revolta dos "diferenciados", que no último final de semana fizeram no lugar onde seria construída a estação um autêntico churrasco de laje, com direito a farofa e cachaça, ao som de pagodões. A quantidade de gente que compareceu ao evento é difícil de determinar. Em pesquisa na internet, observei números que iam de exageradas 5.000 pessoas até mentiras deslavadas como os apenas 300 gatos pingados que a Record dizia estarem lá (cuidado com essa emissora - ela consegue ser PIOR que a Globo no quesito manipulação de notícias. Claro, o pastiche é sempre pior que o original - se quer fazer o malfeito, faça benfeito).



Há algumas coisas a observar nesse imbroglio todo.

O primeiro: até que ponto a preocupação dos moradores não é legítima? Não estou aqui pensando na mesquinhez de quem não quer ver gente feia na porta da sua casa, mas na degradação que aconteceu bem perto, nas proximidades da Santa Cecília. Lá, uma obra pública monstruosa (o Minhocão) simplesmente DESTRUIU os bairros pelos quais ele passa, outrora aprazíveis e valorizados. Outro exemplo: quando se fala no Brás, pensa-se imediatamente em um bairro perigoso, cheio de moradias irregulares e atividades ilícitas. Boa parte dessa situação se deve, pasmem, justamente à construção do metrô na região. Isso porque a linha e a estação foram construídas exatamente na parte mais residencial do bairro. Com isso, o Brás virou meio que uma "cidade fantasma".

Portanto, os higienopolitanos (existe isso?) tem razão em se preocupar com o que será construído em seu bairro, e com as consequências que isso irá trazer. O meio adotado (abaixo-assinado) é civilizado e democrático, e, para mim, o problema todo não é esse. O direito de reivindicar deve ser assegurado.

Na verdade, o centro da questão é a prontidão do poder público em atender uma reivindicação que partiu de moradores de um bairro de elite. Será que os moradores do Brás não pediram para preservar suas casas? Claro que pediram! Mas acontece que eram POBRES! Derrubaram suas casas, o lugar em que viviam. Em Higienópolis, o projeto previa a desapropriação de um supermercado, e só. No caso do Brás, jogaram a origem e o repouso das pessoas no lixo, décadas de história dos habitantes e da própria cidade. Seus pedidos não foram ouvidos. A voz de Higienópolis vale mais. Eles não terão gente feia perto deles, e com isso chegamos à conclusão de que o valor das pessoas é, este sim, diferenciado.

Assisti um documentário no aniversário da cidade de São Paulo chamado Sotaques e Desmemórias, dirigido por Marta Nehring e baseado em um livro homônimo de Lourenço Diaféria, que conta algumas histórias do Brás. Recomendo os dois para quem gostaria de conhecer algo de um dos bairros mais tradicionais e descuidados da cidade.

Por fim: toda esta história demonstra o novíssimo poder de mobilização da internet. A churrascada da gente diferenciada foi um evento criado sem lideranças, de uma boa ideia que apareceu ninguém mais sabe onde, e que conseguiu a adesão de pessoas que não se conhecem, mas que tem interesses e objetivos comuns. Nesse sentido, a internet é uma GRANDE ferramenta da cidadania e da democracia, e, no limite, da aproximação das pessoas.

Recomendação de leitura e de filme:

DIAFÉRIA, Lourenço. Brás: Sotaques e Desmemórias. São Paulo: Boitempo, 2002.

NEHRING, Marta. Brás: Sotaques e Desmemórias. Filme. Brasil, 2006. 26 min.

3 comentários:

  1. a internet de certo modo é uma grande bolota de bosta , tanto boa(não sei como uma bolota de bosta pode ser boa), quanto ruim. Mas não deixa de ser uma grande ferramenta de democriacia, cidadania, educação,de ajuda, informação, mobilização, sacanagem,humor. (e de certo modo, conseguimos um jeito dessa povo lê um pouco.

    PS: to esperando meu post de aniversário >.>(ôoÔoô monte alverne)

    ResponderExcluir
  2. É verdade...
    Pena que não nos mostram isso com mais acesso.

    Tomara que Higienópolis não seja destruída também...

    ResponderExcluir