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terça-feira, 10 de maio de 2011

Mais sobre os símbolos

Olá!

No meu primeiro post para valer, citei o ocorrido na corrida de Fórmula Indy em São Paulo: a reação do público frente ao hino cantado por um ídolo sertanejo. Os comentários chamaram-me a atenção, e fiquei com vontade de retomar brevemente o assunto.

No primeiro (Darci), transparece a questão da adoção de um símbolo que nem conhecemos, seja por famosos, seja pelo povo.

No segundo (Renata), é atribuído a um público específico (ou seja, a uma camada específica da população - o ingresso era bem caro) a capacidade de criticar o mau uso do hino.

Ambas tem uma boa parcela de razão. De fato, o hino não é muito bem conhecido pelo grande público. E, principalmente, não é muito bem compreendido. Também podemos deduzir que o público presente ao Anhembi é pertencente, no mínimo, à classe média. Estaríamos diante, pelo menos em tese, de um público mais esclarecido, não era o "povão" que estava lá.

Mas eu acho isso não explica tudo. Nossa relação com os símbolos é bem mais complexa.

Vou retomar um fato importante em minha vida. Meu filho mais velho nasceu, coincidentemente, no dia do aniversário do ex-presidente Fernando Collor. Para os mais jovens, é bom saber que aqueles dias estavam pegando fogo. O então presidente era acusado de uma série de crimes financeiros, e havia uma verdadeira enxurrada de denúncias. No entanto, a população, apesar de indignada, acompanhava os fatos meio que à distância. Collor então tomou coragem e fez uma grande besteira. Convocou toda a população para que demonstrasse apoio ao seu governo, saindo às ruas no dia do seu aniversário vestidos de verde e amarelo. Foi a gota que transbordou o balde popular. As pessoas saíram às ruas vestidas de PRETO, com o rosto pintado de preto (daí o nome do movimento, cara-pintadas). Eu presenciava tudo isso na Avenida Paulista, próximo à maternidade onde nascia meu filho. As pessoas andavam para cima e para baixo com sua paramentação negra, mas um deles chamou-me a atenção em especial: bandeiras do Brasil negras, em diversos tons de preto (existe tom de preto?). E estas bandeiras pretas lideravam a marcha alegre dos jovens, naquele que (ao menos em minha lembrança) talvez tenha sido o último ato político relevante conduzido pela juventude no Brasil.


Ora, como pode se admitir a adulteração do símbolo em um caso e não no outro (o hino distorcido pelo nosso herói sertanejo)? É que, no caso das bandeiras, não se trata da destruição do símbolo, mas do símbolo DENTRO do símbolo. É uma nova significação dentro do significante. E, com isso, atinge-se o consenso. As pessoas criaram a seguinte representação, no caso: a bandeira preta não é um símbolo do Brasil, mas do que estavam fazendo dele. A adulteração não é gratuita, é uma manifestação do sentimento coletivo. Não é o mesmo caso do hino. Ali, as pessoas viram sua representação ser tratada com descuido, com desprezo.

Tá, ainda pode-se argumentar que aqueles jovens pertenciam à mesmíssima classe média que foi ao circuito do Anhembi vaiar o cantor sertanejo. Então pergunto: Será que os militantes do MST, por exemplo, fariam diferente? Não estou me posicionando, neste momento, nem a favor nem contra o MST. Mas é inegável que nenhum movimento é tão atuante e organizado. Por isso o sentido de identidade deles é bastante forte. Portanto, eles prezam muito seus distintivos. Creio que não gostariam de ver sua bandeira mal tratada. E eles não são da mesma camada populacional que vaiou o Luan Santana.

Recomendação de leitura:

Para quem quiser conhecer melhor o desenrolar do caso Collor, recomendo o seguinte livro (fácil de achar nos sebos):

FARIA, Tales; KRIEGER, Gustavo; NOVAES, Luiz A. Todos os sócios do presidente. São Paulo: Página Aberta, 1992.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Sobre hinos e cantores sertanejos

Olá!

No domingo passado, para variar, eu estava trabalhando. Liguei meu radinho prá ouvir a corrida de fórmula Indy e, entre as dentadas em um pastel de palmito e os goles em um refrigente qualquer, ouço o início do hino dos EUA, interpretado pela Luciana Mello. All right, como dizem por lá. Canto seguro, correto, sem grandes firulas, sem ameaças de mísseis sobre nossas cabeças. Aí, chegou a vez do hino brasileiro, cantado por... Luan Santana!!! E a capella!!! Meu Pai Eterno...


Antes que digam que eu sou invejoso, velho, quadrado, anacrônico, ultrapassado, catastrofista, reacionário, conservador, despeitado, fundamentalista ou outra coisa qualquer, devo dizer que não tenho absolutamente nada contra o garoto em questão. Para mim, ele não é melhor nem pior que seus pares do sertanejo dito universitário (o que quer dizer isso, exatamente?).

Por que teria sido ele o escolhido para cantar o hino brasileiro? Para mim, não há como fugir dos teóricos de Frankfurt, que elaboraram a teoria da "Indústria Cultural", mais especificamente Theodor Adorno e Max Horkheimer. Para eles, a arte tornou-se produto na mão da sociedade capitalista. Da mesma forma que são produzidas latas de tinta e pacotes de macarrão, também os artigos pretensamente culturais devem ser feitos visando o lucro, que passa a ser o principal critério de escolha.

A Indústria Cultural provoca o mesmo efeito das técnicas comerciais aplicáveis à venda de qualquer produto: através da perda da consciência crítica, consumimos desenfreadamente aquilo que não precisamos, e nem aquilo que é melhor para nós. Perdemos a visão do todo, não nos importa mais a sensação de questionamento e espanto causados pela obra de arte legítima. O que importa agora é uma visão fragmentária, de consumo rápido, para que logo em seguida consumamos mais e mais, em um ciclo sem fim.

Os produtos precisam de vitrine... Qual seria melhor que essa, um evento internacional, transmitido para uma porrada de países, sendo que seu principal consumidor é o público estadunidense, e que também estava chamando a atenção de todas as pessoas no Brasil, por estar sendo realizado aqui?

Só que o tiro saiu pela culatra. O rapaz levou uma sonora vaia.

Não que o povo brasileiro seja tão refratário a inovações. Assisti a uma interpretação do hino, se não me engano na final do campeonato paulista do ano passado, feita pelo maestro João Carlos Martins, que foi simplesmente maravilhosa. Ele fez um passeio musical pelo Brasil, utilizando os principais ritmos regionais, culminando com um sambão de tirar o fôlego, sem esquecer do caráter erudito da apresentação. Clássico e popular fundidos. Excelente! E foi aplaudidíssimo.

Acontece, porém, que não se mexe com as representações simbólicas impunemente. Por mais que o hino tenha sido vilipendiado e mal utilizado através do tempo, ele ainda é o NOSSO hino (com perdão ao cacófato). Agrega em si nossos valores como pátria, representa um momento de orgulho para um povo mal tratado, reúne em si nossas diversidades e confluências (e isso o maestro soube captar muito bem). Por isso, não pode ser colocado diante do mundo como um produto qualquer, para ser jogado na prateleira de uma mercearia qualquer.

Repito mais uma vez: não tenho nada, absolutamente nada contra o rapaz. Acho ele bastante simpático, até. E não faria diferença se a execução se desse por outra celebridade da mesma linha. Mesmo que de outro estilo. Mas o preço foi pago.

Em tempo: podem meter o pau à vontade na Globo, e ela é digna disso. Mas a organização e a transmissão da Bandeirantes fizeram-me sentir saudades da "vênus platinada".

Recomendação de leitura:

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Fragmentos Filosóficos. São Paulo: Jorge Zahar, 1985.