Olá!
Em meu post anterior, comecei a discutir a questão do tempo e da memória a partir do filme "O fabuloso destino de Amélie Poulain". Coloquei a visão patrística de Santo Agostinho, que compara o tempo à música, e que reputa-o como eminentemente psicológico ou espiritual.
O mesmo faz o pensador francês Henri Bergson, que traz interessantes teorias sobre o tempo que, a bem da verdade, complementam e enriquecem as ideias de Santo Agostinho. Para ele, na maneira como olhamos o tempo há um equívoco: procuramos observar espacialmente algo que não tem dimensões. Dividir o tempo significa dividi-lo em anos, meses, semanas, dias, horas, minutos, segundos. Essa segmentação é precisa - cada segundo é igual a outro segundo, seguindo assim uma premissa científica. Ok, o tempo assim dividido realmente se presta à ciência, que necessita de métricas para o estudo dos fenômenos. O problema é para quando vamos além dos limites das ciências.
Um exemplo, então: já leram Machado de Assis? Gostaram de "Memórias Póstumas de Brás Cubas"? É um dos livros mais adotados nos exames vestibulares. Pois bem, como a maioria das pessoas o lê por obrigação, costuma ser uma leitura arrastada, demorada, empurrada goela abaixo. Como seria se a pessoa obtivesse prazer nessa leitura? Ora, haveria fluência, atenção. Digamos que duas pessoas com o mesmo nível de leitura se colocassem a ler este livro ao mesmo tempo, e terminassem também juntos. Falando em termos científicos, os tempos são iguais e pronto. Mas para a pessoa que leu com prazer o tempo percebido é bem menor. De onde vem essa impressão? Que tempo interior é esse, que faz com que o mesmo fenômeno seja tão distinto em circunstâncias iguais?
Para explicar essa situação, Bergson pensa nas instâncias da consciência; temos, em primeiro lugar, o instinto. Este é uma espécie de regra pronta para a solução imediata de um problema. É como quando um piano cai sobre nossa cabeça: não adianta nada, mas erguemos os braços para nos defender. Depois, temos a inteligência, que procura avaliar as relações entre as coisas antes de atuar. Para tanto, a inteligência espacializa o tempo, procura dispô-lo em compartimentos contínuos e separados. Voltando ao piano, se houver tempo suficiente, a inteligência avalia a distância, impede a ação do instinto, formula a hipótese do desvio, compreende qual o melhor ponto para a fuga, a velocidade com a qual isso deve ser feito e aciona os membros competentes para a execução da tarefa (óbvio que, para tanto, o piano deve cair de um prédio beeeeeeeeeeeeem alto). Em ambas as instâncias, podemos fazer uma medida do tempo, normalmente em segundos. Mas quem diz à consciência que tudo se deu rapidamente ou foi demorado? Quem diz quanto a experiencia "durou"? Essa percepção é a intuição. Somente com ela podemos dizer qual foi a duração (durée) do fenômeno. No caso do livro de Machado, podemos dizer que é a intuição que diz se a leitura foi breve ou demorada. A intuição não é espacializadora, ela capta o evento como um todo, e assim o transmite à consciência. Como a intuição é diferente de pessoa para pessoa, podemos dizer que ela é única, personalíssima, identificadora.
Para ilustrar a diferença entre a inteligência e a intuição, Bergson lança mão de um exemplo maravilhoso: a inteligência assemelha-se a um colar de pérolas, que são ligadas por um fio, mas são compartimentalizadas. Cada pérola é um evento, bem delineados e distintos entre si. Há um espaço que as delimita e sequencializa, isoladamente. Já a intuição é como um novelo de lã, contínuo, sem interrupções, compõe um todo, onde as experiências passadas estão sobrepostas pelos acontecimentos mais recentes, mas em um continuum: em nenhum momento o passado mais interiorizado deixa de estar à disposição da consciência, e pode, inconscientemente, ser resgatado. Como em Santo Agostinho, essa presença perene dos tempos no presente é psicológica, espiritual, inerente ao ser humano.
É nesse ponto em que podemos voltar ao filme, e com uma novidade: o cruzamento entre memória e conduta.
No campo ético, o resgate da memória motiva um momento de decisão para Amélie. Para tanto, ela acompanha de que modo se dará a reação de Dominique (o menino que ocultou os pertences, agora um homem maduro) ao rever seus objetos perdidos. Caso essa reatividade seja positiva, Amélie tomará como valor a contribuição ao próximo como chave de sua atitude ética. Nesse caso, podemos fazer remissões à ética judaico-cristã de amor ao próximo e também ao imperativo categórico da ética do dever de Kant, já que a escolha de Amélie terá por fim a constituição de uma verdade universal para si própria, mas é melhor se prender à grande sacada do filme, que é a seguinte: A escolha ética de Amélie será tomada em cima de uma constatação metafísica: qual é a importância do tempo nas escolhas do indivíduo? A memória eternamente presente é uma chave para se desvendar a verdade sobre a conduta das pessoas, inclusive daquelas que não estão diretamente implicadas com meu próprio resgate, ou minha própria expectativa. Afinal, sobre a decisão de um terceiro com relação ao seu próprio passado ela pautará sua conduta ética. Os desdobramentos seguintes em sua vida já são uma consequência desta decisão.
O filme não se limita a isto. É visível, no decorrer do filme, o desenvolvimento das habilidades sociais da personagem central, ao construir por si mesma a sua rede de relacionamentos, embora seja inevitável a percepção de suas dificuldades em virtude do déficit educacional ocorrido em sua tenra idade. Mas vou ficar na questão do tempo e deixar os demais assuntos para outra oportunidade.
Recomendação de audiência:
Esse entrelaçamento entre metafísica e ética é absolutamente original, por isso recomendo fortemente o filme.
JEUNET, Jean-Pierre. O fabuloso destino de Amélie Poulain. Filme. França, 2001. 120 min.
Recomendação de leitura:
Henri Bergson, além de grande filósofo contemporâneo, é também excelente escritor, tanto que foi agraciado com o prêmio Nobel de literatura em 1927. Sua principal obra com relação a problemas metafísicos é:
BERGSON, Henri. A evolução criadora. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
Marcadores
Mostrando postagens com marcador Instintos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Instintos. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 8 de novembro de 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Arte, vida e arte (ou: sobre instintos e pianos que caem)
Olá!
Dei uma sumida por uns tempos. Sacumé, coisas da vida, apertos, dificuldades, blá, blá, blá. Mas chegou a hora de retomar meus escritos. Então, vamos lá!
A rua Maria Paula é um lugar que frequento diariamente. Na semana, encaro seu trânsito encalacrado, impaciente e sonolento dentro de uma Kombi, sentido Sé. No fim da semana, pego um solzinho em suas calçadas, sentido República. Por lá, já exerci alguns exercícios metafísicos, tratando de instinto, intuição e raciocínio. Não sou Aristóteles, mas dou minhas peripatetizadas. Penso no instinto e no piano que cai (lembra, Rê?).
Instinto... O quanto ele é significativo em nossas representações? O que a arte tem de vida e vice-versa?
Pensar em pianos, afilhados e instinto traz à minha cabeça Antonin Artaud, dramaturgo e teatrólogo francês, em especial sua obra O teatro e seu duplo (Lembra, Rê?)2.
Artaud é criador da corrente denominada O Teatro da Crueldade. Ele teoriza a existência de uma tirania da linguagem escrita e falada nas artes ocidentais. Para ele, a principal fonte de um ethos artístico legítimo é desprezado nesta enfatização da palavra: a transpiração visceral do instinto. Em seu teatro, utilizava surrealisticamente e abusivamente de recursos que, segundo ele, são os mais adequados para expressar uma linguagem mais autêntica - o grito, os tons alternados da voz, as glossolalias, os rictos faciais, a expressão corporal. Tudo o que fugisse das expressões convencionais, insuficientes para dar completude à tarefa de comunicar. Além disso, a representação no palco é indissociável da reação na plateia, que devem ser integrados e fazer parte do mesmo ato. O Teatro da Crueldade é um teatro do instinto e da intuição. A racionalidade não prepondera, porque ela não é o único componente das fontes mentais.
O que podemos tirar disso tudo?
O duplo do teatro é a própria vida. E, pelo que podemos compreender das teses de Artaud, aquele tem ascendência sobre esta. Isso porque o palco é o espaço originário para a representação, é lá que ela é perfeitamente lícita e esperada.
(Abro parênteses para um breve esclarecimento: o conceito de "representação" que utilizo aqui deve ser compreendido no sentido estético. Digo isso porque falei neste post e também neste sobre a representação vista sob o ângulo dos filósofos voluntaristas, em especial Schopenhauer. Representação, neste caso, tem a ver com o sentido da perspectiva individual que a vontade faz com que as coisas sejam enxergadas. Fecho parênteses).
Acontece que a vida obriga-nos a encenar ininterruptamente. Em cada local, um cenário; em cada situação, um script. As contingências produzem os improvisos, o fluxo da vida determina o gênero - há comédia, há drama, há tragédia, há pantomimas, há miscelâneas - e a plateia vaia ou aplaude, ainda que implicitamente. A vida é teatral, empurra-nos a isso. Mesmo os mais autênticos vestem suas personagens (que tal os ternos no verão? Será que as convenções também não são roteiros?).
Não será, contudo, a recíproca também verdadeira? O teatro ser imitação da vida, não é tão óbvio que parece impossível? Ora, invertamos a lógica: se o teatro é o espaço da invenção, da criação e da representação, a vida é o local por excelência da realidade, do quotidiano, das causas e efeitos. Quando o artista incorpora e interpreta o personagem, ele disponibiliza sua energia a tal nível que acaba por conceder realidade a este ser abstrato, e, desta forma, retransforma o teatro em duplo da vida, com prerrogativas desta vez invertidas.
Neste ponto, finalmente, temos o espelho diante do espelho. Teatro e vida introjetam-se mutuamente de um modo inexorável, ainda que a princípio imperceptível. Tolher a manifestação instintiva e intuitiva nesta relação significa empobrecê-la, desconstruí-la (não gosto deste termo). Afinal, se são duplos mutuamente, precisam refletir-se por completo. Sob a pena de não termos defesa contra os pianos que caem (lembra, Rê?)3.
Recomendação de leitura:
Os escritos de Artaud são tão surreais e tresloucados quanto suas atuações. De toda forma, sua escola influenciou e tem influenciado todo o teatro desde os anos 20 do século passado. Por isso, vale a pena tentar compreendê-lo.
ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
Dei uma sumida por uns tempos. Sacumé, coisas da vida, apertos, dificuldades, blá, blá, blá. Mas chegou a hora de retomar meus escritos. Então, vamos lá!
A rua Maria Paula é um lugar que frequento diariamente. Na semana, encaro seu trânsito encalacrado, impaciente e sonolento dentro de uma Kombi, sentido Sé. No fim da semana, pego um solzinho em suas calçadas, sentido República. Por lá, já exerci alguns exercícios metafísicos, tratando de instinto, intuição e raciocínio. Não sou Aristóteles, mas dou minhas peripatetizadas. Penso no instinto e no piano que cai (lembra, Rê?).
Instinto... O quanto ele é significativo em nossas representações? O que a arte tem de vida e vice-versa?
Pensar em pianos, afilhados e instinto traz à minha cabeça Antonin Artaud, dramaturgo e teatrólogo francês, em especial sua obra O teatro e seu duplo (Lembra, Rê?)2.
Artaud é criador da corrente denominada O Teatro da Crueldade. Ele teoriza a existência de uma tirania da linguagem escrita e falada nas artes ocidentais. Para ele, a principal fonte de um ethos artístico legítimo é desprezado nesta enfatização da palavra: a transpiração visceral do instinto. Em seu teatro, utilizava surrealisticamente e abusivamente de recursos que, segundo ele, são os mais adequados para expressar uma linguagem mais autêntica - o grito, os tons alternados da voz, as glossolalias, os rictos faciais, a expressão corporal. Tudo o que fugisse das expressões convencionais, insuficientes para dar completude à tarefa de comunicar. Além disso, a representação no palco é indissociável da reação na plateia, que devem ser integrados e fazer parte do mesmo ato. O Teatro da Crueldade é um teatro do instinto e da intuição. A racionalidade não prepondera, porque ela não é o único componente das fontes mentais.
O que podemos tirar disso tudo?
O duplo do teatro é a própria vida. E, pelo que podemos compreender das teses de Artaud, aquele tem ascendência sobre esta. Isso porque o palco é o espaço originário para a representação, é lá que ela é perfeitamente lícita e esperada.
(Abro parênteses para um breve esclarecimento: o conceito de "representação" que utilizo aqui deve ser compreendido no sentido estético. Digo isso porque falei neste post e também neste sobre a representação vista sob o ângulo dos filósofos voluntaristas, em especial Schopenhauer. Representação, neste caso, tem a ver com o sentido da perspectiva individual que a vontade faz com que as coisas sejam enxergadas. Fecho parênteses).
Acontece que a vida obriga-nos a encenar ininterruptamente. Em cada local, um cenário; em cada situação, um script. As contingências produzem os improvisos, o fluxo da vida determina o gênero - há comédia, há drama, há tragédia, há pantomimas, há miscelâneas - e a plateia vaia ou aplaude, ainda que implicitamente. A vida é teatral, empurra-nos a isso. Mesmo os mais autênticos vestem suas personagens (que tal os ternos no verão? Será que as convenções também não são roteiros?).
Não será, contudo, a recíproca também verdadeira? O teatro ser imitação da vida, não é tão óbvio que parece impossível? Ora, invertamos a lógica: se o teatro é o espaço da invenção, da criação e da representação, a vida é o local por excelência da realidade, do quotidiano, das causas e efeitos. Quando o artista incorpora e interpreta o personagem, ele disponibiliza sua energia a tal nível que acaba por conceder realidade a este ser abstrato, e, desta forma, retransforma o teatro em duplo da vida, com prerrogativas desta vez invertidas.
Neste ponto, finalmente, temos o espelho diante do espelho. Teatro e vida introjetam-se mutuamente de um modo inexorável, ainda que a princípio imperceptível. Tolher a manifestação instintiva e intuitiva nesta relação significa empobrecê-la, desconstruí-la (não gosto deste termo). Afinal, se são duplos mutuamente, precisam refletir-se por completo. Sob a pena de não termos defesa contra os pianos que caem (lembra, Rê?)3.
Recomendação de leitura:
Os escritos de Artaud são tão surreais e tresloucados quanto suas atuações. De toda forma, sua escola influenciou e tem influenciado todo o teatro desde os anos 20 do século passado. Por isso, vale a pena tentar compreendê-lo.
ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
Assinar:
Postagens (Atom)

