“(...) Ele estava com medo. E o medo dele me
mostrou um caminho melhor: confessar e dividir a culpa com ele. Era uma
maldade, mas ele precisava de uma lição (...)”
J.
J. Veiga
O argumentum ad
baculum, ou apelo à força, é uma falácia do tipo informal que acontece
quando uma explicação calcada na lógica é preterida em favor da utilização de
uma ameaça. Este medo incutido em quem é adversário no debate visa apenas e tão
somente colocar um ponto final em argumentos contrários, sem a necessidade de
se chegar a uma conclusão bem construída. Perceba-se que a inserção da força no
meio da discussão não produz nenhum tipo de prova. E o que faz com que o debate
se encerre é a prudência, e não a razão.
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Dá para argumentar com quem põe uma faca em nossa cabeça? |
O termo latino “baculum” pode ser traduzido como báculo.
Esse objeto pode ser visto na mão de bispos da Igreja Católica e tem o sentido
da condução que seus representantes têm sobre a massa de fiéis, ou seja, é um
símbolo do pastoreio tantas vezes repetido nos Evangelhos. Fora do contexto
religioso, báculo é um nome coxinha para o bom e velho cajado, a bengala que
auxilia os camponeses em suas tarefas diárias. Esse objeto tem múltiplos usos:
serve como apoio para subir e descer dos morros e colinas, serve como alavanca
para deslocar objetos pesados, serve para afugentar os lobos que se aproximam
dos currais, serve para dar nas costas das ovelhas mais obstinadas em não se
recolher ao redil. Em resumo, o cajado é uma alegoria à imposição pela força. E
o argumento ad baculum (ou apelo à
força) faz exatamente isso, ou seja, mostrar que quem detém o porrete tem
sempre razão.
Talvez um dos empregos mais comuns desta falácia é o famoso
“Deus castiga” que aplicamos às crianças. O argumento é de todo ilógico, mas
muito convincente. Ensina-se insistentemente que Deus é bonzinho, que Deus fez
tudo de bom e bonito, que Deus tem piedade dos homens, que Deus é isso, aquilo
e o outro. Na primeira escorregadela do fedelho, tacamos a imprecação
peremptória:
- Não faça isso! Deus vai te castigar!
Cadê aquele ser benévolo, sereno, misericordioso, a quem
devemos confiar? Ora, virou uma ameaça, um objeto de medo!
Ao invés de se justificar logicamente os porquês da
inconveniência da traquinagem, utiliza-se a força, a ameaça e, no caso, a
incoerência também.
Mas há argumentos com a aplicação de ameaça que não são
falaciosos. São aqueles em que a ameaça é real, e que geralmente não partem voluntariamente
de quem os profere. Quando alguém lhe disser...
- Não passe debaixo dos andaimes. Um martelo pode cair na
sua cabeça.
... ele estará lhe advertindo de um risco real, não estará
dando um falso argumento. Neste caso, não há uma falácia, porque a ameaça está
intrinsecamente ligada à lógica da frase. O mesmo se aplica ao policial que
ameaça o bandido pego em flagrante delito, em mais um exemplo. Não temos uma
ameaça pela impropriedade do argumento, mas pelo dever de ofício.
A diferença reside no uso da razão, como eu disse acima. Se
meu chefe me ameaça com uma punição (ele nunca faria isso, meu chefinho tão
bonzinho), pode fazê-lo por dois motivos. Ele pode querer que eu trabalhe até
mais tarde e bradar pelos corredores que, se eu não o fizer, poderei ser
prejudicado na minha carreira. Mas também pode me explicar a necessidade real
do trabalho, que se eu não conseguir terminá-lo a tempo todo o setor será
prejudicado, que nossos superiores contestarão os prazos que nós mesmos
prometemos e que, em vista disso, terei mais dificuldades para seguir confiante
na carreira. Perceba-se que, em ambos os casos, terei elementos suficientes
para me borrar inteiro, só que o argumento do medo é único no primeiro caso,
enquanto no segundo há toda uma construção das causas e consequências que,
mesmo me impondo temor, são reais e devidamente ponderadas.
Como se pode observar, é muito difícil que não recorramos a
este tipo de apelo, até mesmo com certa frequência, e isso é natural. O risco
não está na informalidade de seu uso, mas na sua aplicação como argumento
lógico, o que pode ser muito compreensível no quotidiano, mas é sempre preciso
lembrar que apelar para a força nada tem de lógico. Portanto, cuidado com as
armadilhas da tentação de utilizar um porrete quando sua característica de ser
racional servir de prova para sua condição de humano.
Recomendação de leitura:
Várias obras literárias já tiveram a possibilidade de
demonstrar como os apelos à força podem ser utilizados para alienar e oprimir.
Alguns dos exemplos mais clássicos são 1984,
de George Orwell e Admirável Mundo Novo,
de Aldous Huxley. Gostaria de recomendar aqui um outro livro que tem esta
pegada, de onde extraí a epígrafe do começo do texto. Trata-se da obra-prima de
José J. Veiga, maior representante do realismo fantástico no Brasil, ao lado de
Murilo Rubião. A história é uma alegoria do período repressivo no Brasil, em
que o governo militar é representado por uma empresa que se aloca em uma
pequena localidade e se alastra até estar presente em todos os aspectos das
vidas dos cidadãos. Vale a pena conhecer.
VEIGA, José J. Sombras
de Reis Barbudos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
Agradeço à Renata e ao Azul por autorizarem o uso da fotografia.
Agradeço à Renata e ao Azul por autorizarem o uso da fotografia.
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