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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Sobre o modo como o Black Sabbath usa os demônios para colocar o dedo nas nossas feridas

Olá!

Quando eu era menino novo, morava junto dos meus primos em uma casa velha da Vila Ema. Isso era nas décadas de 70 e 80. Para situar um pouco meus leitores no tempo, naquela época a hoje Avenida Luiz Ignácio de Anhaia Melo (conhecida pelo intenso comércio de veículos usados) era um longo rosário de chácaras, serpenteado em seu meio pelo então descoberto e já mal cheiroso Córrego da Moóca. Meu primo mais velho e compadre, infelizmente in memorian, tinha alguns discos de hard rock, que costumava colocar em volume considerável, e que contrastava com o então em voga John Travolta e seus meneios e visagens disco.
Não tínhamos uma rádio lendária como a Eldopop em São Paulo (somente na segunda metade da década de 80 surgiram a rádio 97 de Santo André e a ilegal Ladrão do Mar, com programação voltada exclusivamente para o rock – a 89 veio um pouco depois), os lançamentos de discos tinham uma diferença de meses ou anos entre o exterior e aqui (isso quando eram lançados) e baixar música... Bom, isso não existia nem em sonho, nem nos mais otimistas prognósticos. Shows de artistas internacionais era outra coisa impossível, porque os pobres tupiniquins não faziam parte do roteiro das turnês. Malemá me lembro das passagens do Queen, do Van Halen e do Kiss. O Brasil só começou a entrar na rota dos grandes eventos a partir do Rock in Rio, de 1985. Por conta disso, o grande intercâmbio se dava pelo trânsito das fitas cassete e rodízio de LP’s feito entre os amigos. Desta forma, tomávamos conhecimentos dos lançamentos, das novidades e das notícias de uma forma que se aproximava da tradição oral, tão cara aos nossos antepassados. Lojas de disco que traziam novidades, como a Woodstock ou algumas pérolas da Galeria do Rock viviam lotadas até a tampa.
As coisas eram um pouco diferentes do que são hoje em dia. Costumávamos acompanhar o mais de perto possível a carreira de nossos ídolos, mas sem se importar com detalhes tão pessoais, como as cores preferidas, as boutiques mais frequentadas e outras efemérides. O que importava mais eram as tendências que cada álbum seguiria, o acolhimento das excursões, as datas dos próximos lançamentos. Tanto fazia se guitarrista tal era homossexual, se baixista X era religioso ou se baterista Y traía a mulher. O que mais importava era o produto entregue. Mas era possível detectar algumas características comuns e algumas sutilezas que diferenciava determinada banda de todas as outras.
Havia um tripé que sustentava toda a cena hard rock de então: Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath. Do primeiro, tínhamos as raízes blues e o misticismo contrapostos a uma seção rítmica poderosa. Do segundo, um ar mais de pesquisa (era o única das três que tinha um tecladista de ofício, o excelente Jon Lord) e velocidade. Do terceiro, a atmosfera macabra e o peso, digno de estourar crânios. Ao todo, em suas formações clássicas, eram treze músicos, doze deles exímios. O único que não era um virtuoso executor era o Ozzy Osbourne. Mas, longe de qualquer dúvida, era o mais essencial de todos, porque sintetizava todo o pensamento daquela juventude que aflorou nos fins da década de 60. E esse era permeado pela revolta e pela violência.
O que tínhamos naquela época? Um mundo na premência da guerra. Lembremo-nos que aqueles eram os anos do pós-guerra mundial e da guerra fria. Estados Unidos e União Soviética espalhavam seu imperialismo pelo mundo e colocavam a humanidade sob constante ameaça de um combate nuclear. Eram tempos da guerra do Vietnã em pleno curso, onde milhares de soldados foram enviados a uma terra totalmente desconhecida, onde um povo absolutamente distinto procurava dar um rumo para a sua vida. Eram os anos do apartheid, e a minoria branca não só exercia o poder discricionariamente, mas também transformava a África do Sul em um imenso gueto.
Uma boa parte da juventude, na verdade a esmagadora maioria, era contrária à guerra. A luta entre os sistemas gerava um sentimento de medo e vontade de fuga, e nasce com isso uma série de movimentos de contestação, dos quais os hippies provavelmente foram os mais conhecidos.

Acontece que os hippies eram movidos por um pacifismo que chocava pelo comportamento coletivista, pelo sexo livre e pelo consumo de drogas, mas ainda não havia chegado ao âmago do stablishment. Flower Power significava um desejo de paz e liberdade, mas não era uma denúncia aberta; era uma fuga, um não-enfrentamento. Faltava algo mais.
Quando o Black Sabbath resolveu falar de inferno e de demônios, acabou atingindo a base da construção moral da ocidentalidade, e atirou na cara dos senhores da guerra que a sua atitude belicista era algo que gerava contra si mesma as armas erigidas por seus maiores medos. Os demônios, nesse libelo acusatório, nada mais são do que metáforas e consequências deste modo de agir, mas que incomodam demais. Vejam o que diz uma parte da letra de Wicked World:

“The world today is such a wicked thing
Fighting going on between the human race
People give good wishes to all their friends
While people just across the sea are counting the dead”

Traduzindo…

“O mundo hoje é como algo perverso
A luta continuará entre a raça humana
As pessoas desejam boa sorte para todos os seus amigos
Enquanto as pessoas do outro lado do mar estão contando os mortos”

A atitude da sociedade ocidental é paradoxal, e o Sabbath deixa isso claro. Enquanto apregoa uma religião judaico-cristã que se baseia na tríade fé, esperança e amor, também lança bombas, napalm e agente laranja na cabeça dos coreanos e vietnamitas. E tomam um cacete exemplar. Essa mesma filosofia religiosa garante punição ao mal, e mesmo que a manutenção do sistema sangrento seja justificada como uma defesa da própria vida, lá no seu íntimo sabe-se que haverá uma penalidade a ser remida. Esse fardo era pesado de arrastar, e o Sabbath soube compreender e explorar isso.
Mas o fato é que a sociedade ocidental, ao menos no que se refere a uma visão global, funcionava bem. Tanto é verdade que ela existe até hoje, talvez com uma ferocidade mais dissimulada (mas não extinta – que se lembre rapidamente da invasão do Iraque). Isso quer dizer que tanto o pacifismo do flower power quanto a ferocidade do Sabbath estavam errados? Eram, de fato, desajustados sociais que não compreenderam o funcionamento da máquina política? Hmmmmm... Vamos ver. E, para ver, vamos convocar Erich Fromm, que manjava bem dessas coisas.

Erich Fromm era um psicanalista alemão que divergia em alguns pontos do grande mentor desta ciência, Sigmund Freud, e que trazia uma inédita visão marxista sobre a psicanálise. Ele acreditava que a grande contribuição de Freud foi a descoberta do inconsciente, mas que tal descoberta se deu de maneira limitada. Isto é algo típico do desenvolvimento de novas ciências, mas o ideário freudiano foi tão encantador que seus seguidores tiveram dificuldade em confrontá-lo. Já tematizei a questão da consciência freudiana por aqui, mas vamos fazer uma rápida retomada. A mente humana opera em três níveis de consciência, chamados de instâncias: o id irracional, o ego consciente e o superego censurador. O primeiro e o último se opõem radicalmente. Enquanto o id é a sede dos instintos e das reações imediatas, o superego é constituído pelas amarras morais que refreiam as ações instintivas. Para Freud e seus seguidores, esta disposição mental, quando em desequilíbrio, denota o transtorno do indivíduo.
De forma mais ou menos intensa, Freud e seus seguidores acreditavam que a sociedade tinha mecanismos de acomodação que faziam com que suas virtudes fossem exaltadas e seus defeitos amainados. O que provava essa tese era o fato de que, de uma forma ou de outra, a sociedade funcionava de maneira adequada: havia uma ordem estabelecida, existiam regras nas relações e seus componentes sabiam razoavelmente bem os scripts a serem seguidos para viver sob sua égide. E aí surgiam aqueles indivíduos que não se enquadravam adequadamente a esses esquemas, e temos com isso os desajustados – os criminosos, os mendigos, os neuróticos – sendo que esses últimos interessavam grandemente à psicanálise, incluindo aí o estudo sobre os seus desajustes ao chamado “mundo normal”. O ego destas pessoas não conseguia equilibrar os limites impostos ao superego pelos mecanismos sociais. Ou seja, tentava-se responder à seguinte pergunta: Por que há indivíduos que fogem de um determinado padrão social?

Fromm foi radicalmente contrário a essa visão. Para ele, a existência de indivíduos desajustados não denota simplesmente um erro pessoal, mas uma doença da sociedade: ela não deve prover e se preocupar unicamente com as necessidades físicas do cidadão, mas também suas necessidades psíquicas. Os homens não tem sua consciência formada de modo meramente biológico, comprimida pelo instinto de preservação e pelo imperativo dos instintos sexuais. Por consequência, Fromm entende que a psicanálise, como praticada até então, era mecanicista e determinista, além de não se prestar a esclarecer nada sobre a psicologia dos grupos, das etnias, das comunidades.
Para dar conta desta última característica, Fromm acreditava na existência de um influenciador de atitudes, que era o inconsciente social. É uma forma aproximadamente semelhante ao inconsciente coletivo preconizado por Jung (do qual falei neste post), ou seja, existe um tipo de estrutura mental que atinge as pessoas coletivamente, extrapolando os limites dos indivíduos. A diferença básica entre os dois tipos de inconscientes é que no coletivo temos estruturas universais e permanentes, denominadas arquétipos, enquanto no social o que temos é a repressão de partes da consciência pela própria sociedade, causadora de alienação. E uma diferença consequente é que os arquétipos são muito mais difíceis de florescer na consciência, porque são atávicos e inerentes à espécie, enquanto a alienação é mais fácil de ser trazida à consciência e combatida, como todo bom marxista acredita.

Mas como o inconsciente social se forma? Os homens se relacionam entre si e com o mundo com diferentes níveis de interesse. Fazem-no para obter conforto, proteção, afeto, segurança e outros. Neste ciclo, alguns indivíduos revelam-se mais aptos ao exercício do poder e passam a formar um comportamento em que as atitudes prejudiciais a eles passem a ser reprimidas. Essa repressão se expande e se torna tão habitual que passa a ser interiorizada e recalcada, de modo que as pessoas adotam hábitos que nem sabem mais por que o fazem. Qualquer semelhança com a teoria da alienação de Marx não é mera coincidência. Fromm a estendeu ao mecanismo psíquico, nada mais que isso.
Só que esse inconsciente não está em um nível tão profundo quanto o inconsciente individual ou o coletivo. Isso porque há transformação de interesses e um impulso a se formar novos inconscientes sociais, o que faz com que os indivíduos consigam reagir. É aí em que enquadramos a revolta tipicamente juvenil, que, via de regra, se volta contra os pais, porque são estes a porta de comunicação com a sociedade como um todo. Os mecanismos que preenchem o superego não são constituídos meramente por influência dos pais. Estes são apenas os vetores de uma construção social. São os agentes autorizados pela sociedade a impor as rédeas comportamentais.

Desta forma, toda atitude de confronto com os pais não está conscientemente voltada contra eles. A reação é contra a sociedade, e é possível investigar e mensurar o quanto a própria sociedade é adoecida. Um jovem tem os pais como parâmetro, mas estes são também um produto social. Quando a menina quer colocar um piercing ou o rapaz quer fazer uma tatuagem (bom, isso já nem é mais uma contestação – já é uma moda) para contrariar os pais, querem na verdade contrariar a sociedade inteira. Quando o Sabbath ou outra banda qualquer grita nomes de demônios e profere sacrilégios, na verdade contestam os estados de coisas vigentes e buscam uma quebra da aceitação cega dos ditames de uma sociedade que, na sua concepção, é injusta. E quanto mais neuróticos existem em uma sociedade, mais ela é doente, porque deixa de atender uma determinada camada populacional em seus anseios e expectativas a ponto de causar um desequilíbrio emocional a um número significativo de componentes. Não é a toa que a reação da crítica na época foi a de considerar sua obra como música feita por e para macacos.
Por fim, devo dizer que, no começo de outubro, fui ao show do Black Sabbath realizado no Campo de Marte. Olha que gracinha o ingresso:



No geral, alguns problemas sérios: o local não tá legal prá receber shows dessa monta. Milhares de morrinhos impediam que as pessoas se espalhassem uniformemente, o que dificultou a vida de pessoas de estatura mediana, como eu. A abertura foi feita pelo ótimo Megadeth, digno de uma turnê como atração principal – lembrando que não é vergonha nenhuma para qualquer banda, mesmo medalhões como o Metallica e o Anthrax, abrir uma apresentação do Sabbath. O som, nesta parte do show, estava vergonhoso. Parecia uma mistura de Olodum com aqueles festivais de taikô tão comuns nos eventos japoneses, tal era a altura do som dos bumbos. O baixista poderia sair confortavelmente para tomar uma boa quota de cervejas que ninguém iria perceber. Mas na hora do “vamuvê” estava tudo em seu devido lugar (os caras da mesa devem ter sido trocados, graças a Deus). Não é a toa que os caras chegaram onde chegaram.
É bem verdade que faltaram vários clássicos no repertório. Músicas como a precitada Wicked World, Supernaut, The Warning, The Wizard, After Forever, Sabbra Cadabra, alguma coisa do Sabotage, como Sympton of the Universe e Hole in the Sky, além de muitas outras, poderiam ter sido encaixadas, mas creio que já seria muito para a garganta bastante dilapidada do malvadinho Ozzy. Mas não deixou de ser uma catarse aquela reunião de vovôs despirocados com a rapaziada sedenta pela busca dos ídolos que lhes faltam hoje em dia (Fui no show com meu filho e minha nora). Vão ser bons assim lá no inferno!

God bless you!


Recomendações:
A primeira e mais essencial: Não morram sem ver um show do Sabbath. Quer dizer, isso se os caras não morrerem primeiro e vierem novamente para o Brasil.

 
Quanto a Erich Fromm, sua obra é vasta. Mas como tocamos no tema do inconsciente social, deixo como dica uma obra póstuma, composta de uma série de textos coligidos em torno do tema.
FROMM, Erich. A descoberta do inconsciente social. São Paulo: Manole, 2011.

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