Marcadores

terça-feira, 1 de abril de 2025

Navegações de cabotagem – a Casa da Memória de Guararema e o que é a memória quando ela volta à cabeça

(Memórias puxam memórias. Mas como elas são os tijolinhos da construção do conhecimento?)

“A memória age como a lente convergente na câmera escura: reduz todas as dimensões e produz, dessa forma, uma imagem bem mais bela do que o original”.

Schopenhauer

Olá!

Clique aqui para ler mais textos sobre meus bate-e-volta

Dei uma passeadinha com a patroa para comemorar o aniversário de casamento. Não há novidade nenhuma nisso, mas, como as coisas estão enroladas no meu pedaço, a coisa teve que ser curta e próxima. As mudanças minha para Taubaté e do fedelho mais velho de Curitiba custaram uma exorbitância, e não deu para concretizar grandes projetos.

Acontece que tem lugares agradáveis aqui por perto de São Paulo mesmo. E uma pousada baratinha (mas sem baratas) é suficiente para passar uns momentos legais em boa companhia. Achei uma dessas a cerca de 70 km, na cidade de Guararema, que não é novidade para mim, porque já passei por essas bandas.

Não fiquei só internado na chácara, porém. Fui dar minhas bandas para comer alguma coisa e passear pela agradável cidade, e fui encontrar, bem no centrinho, um pequeno museu de artigos históricos da região, chamado de Casa da Memória.

A intenção é resgatar um pouco da história das famílias que construíram a cidade, muito mais do que contar a história do município em si. Eles dão muita importância em passar essa visão aos visitantes.

Por essa razão, nota-se um tom pessoal em casa um dos objetos que estão expostos nas proteções de vidro, como se fossem coisas que pudéssemos achar nas salas das casas de nossas avós.

São hábitos, costumes e habilidades que cada um dos cidadãos compartilha com o restante de sua comunidade, dando tons de universalidade para quem vem de fora e de comunitarismo para quem é da casa.

As histórias nem sempre são felizes, nem sempre são tristes, mas podem ser sintetizadas nestes objetos que representam tempos de paz e de batalha.

Representam o trabalho dos indivíduos espelhado na sociedade, na medida em que são reconhecidos por todos como objeto comum do passado.

Muitos dos objetos expostos são de meu testemunho também, que foram substituídos por meios mais modernos e mais eficazes. Alguns puxam pela memória a marotagem dos antigos comerciantes, que aproveitavam o material ferroso dos ponteiros para atraí-los com ímãs colocados discretamente no canto dos visores.

Alguns itens são verdadeiramente afetivos, porque lembram nossas avós e madrinhas, nossos tempos de criança e das diversões simples que praticávamos. Era uma forma de brincar de adulto utilizar as máquinas e utensílios para fazer o pão e o café nosso de cada dia.

Enfim, são as pequenas coisas que constroem a memória coletiva de uma população.

O nome oficial deste lugar tem o acréscimo de “Dona Nini”. Pelo que vi no site da prefeitura, é uma senhora exemplar que sintetiza todas as virtudes do morador comum de Guararema. Desta forma, ao invés de homenagear algum grandão que nunca nem de longe lidou com objetos prosaicos como os expostos, buscou-se dar relevo ao próprio povo que formou a cidade. 

É meio brega esse meio quase sentimentalismo, mas é que essas coisas da memória estão no nosso dia-a-dia, e podem ser percebidas nos mais simples fatos. Mas não são somente uma coleção de objetos que nos trazem afeto e conforto, ou que nos fazem pensar nas coisas boas do passado. A memória, e talvez essa seja a sua melhor função, é o repositório de informações que utilizamos para adquirir conhecimento. Basta que pensemos em uma mera operação matemática, do tipo 2+2=4. Para fazê-la, vamos resgatar elementos abstratos de nossa memória, como os conceitos de algarismos, de seus valores, de operações de adição e de igualdade. Mas também buscamos fatores concretos: quando pegamos o lápis para rabiscar a conta no papel, resgatamos o desenho dos números e dos operadores, por exemplo. Então percebam que todo o fluxo de dados que percorre a consciência tem como elemento primário a busca de informações na memória. Uma informação nova é armazenada na memória, e quando é trazida de volta é uma reminiscência.

Isso não foi percebido apenas nos dias de hoje, mas há registros esparsos desde há muito, e que redundou em interessantes discussões na Antiguidade Clássica, representadas especialmente na oposição das visões de Platão e Aristóteles.

Platão entendia que as memórias eram elementos inatos que eram reavivados de acordo com racionalidade. Segundo ele pensava, todos nascemos com a capacidade intelectual de acessar as formas perfeitas do mundo das ideias, porque a alma é eterna e carrega consigo, aprioristicamente, todos os conhecimentos do universo. Quando encarna, entretanto, a alma passa a conviver com os sentidos, que distorcem a cognição. Isso acontece porque permanece na alma a capacidade de reconhecer as formas das coisas, mas que somente são captadas na materialização imperfeita da concretude. Parece coisa de espírita, e talvez seja mesmo.

Mas o que são essas tais formas? Lembram das discussões dos filósofos da physis, que buscavam o elemento essencial de todas as coisas, a sua substância, a sua arché? Eles buscavam a essência em uma materialidade que fosse comum a tudo, enquanto Platão faz sua teoria em um outro sentido: não é a matéria que explica a natureza, mas a sua forma, ou seja, um paradigma que é comum a todos os existentes daquela espécie que é absorvida. Dessa forma, quando olhamos para uma banana (estou olhando para uma banana na feira da Água Branca), independentemente de ser nanica, prata, ouro, maçã, figo, pão, São Tomé, da terra ou vermelha, captamos a forma “banana” e a reconhecemos como tal. 

E como um contribuinte pode fazer para considerar conhecer? Aí cabe a atitude filosófica de abstrair o objeto concreto e resgatá-lo do modelo ideal. A banana que vejo sobre a banca é uma concreção do modelo banana, assim como todas as outras que lá estão. A cada exemplar, tenho um resgate, e lá eu devo saber que há algo que é próprio de cada uma das bananas e algo que é comum a todas elas. Por exemplo: umas são mais curvas, outras menos. Se eu for usar instrumentos, perceberei que mesmo aquelas que parecem idênticas possuem discretas diferenças em seu ângulo de curvatura (a tal ilusão dos sentidos que Platão tanto fala). O que é comum a todas e que as caracteriza como tal é a existência da curvatura, e isso pertence à sua forma. Essa forma reside em nós previamente, acessíveis unicamente através do intelecto.

Sendo assim, todas as vezes que captamos um novo objeto, nada mais fazemos do que restituir os modelos que previamente conhecemos no mundo das ideias. Esse é o processo de reminiscência platônico, que considera a memória algo eterno e permanente, assim como seria a própria alma.

Já Aristóteles vira essa lógica de cabeça para baixo. Os processos cognitivos também se baseiam em memória e reminiscência, mas de maneira totalmente diferente.

A primeira coisa que Aristóteles estabelece é que não existe um mundo intelectual destacado da própria realidade, mas somente a realidade em si mesma. Isso implica em sua teoria do conhecimento: se você quer conhecer as coisas, você precisa ir até às próprias coisas. E você não pode ir até às próprias coisas se não for para vê-las, para ouvi-las, para respirá-las, para senti-las. E isso tudo só é acessível através dos sentidos, com tudo o que há de defeitos neles. Desta forma, estava estabelecido o primeiro confronto entre idealismo e realismo da história conhecida. Platão certamente se virou na cova ao saber das teses de seu pupilo.

Aristóteles entende que somente com a memória somos capazes de estabelecer juízos. O seu processo consiste em gravações de imagens mentais derivadas dos contatos com os objetos. Quando percebemos alguma coisa, fixamos a conformidade deste objeto em nossa mente como se fosse uma escrita, de modo a criar um registro que só não é permanente porque o tempo pode fazê-lo desvanecer. De todo modo, é com essas imagens mentais que se articula o nosso raciocínio. Se o contato com o objeto não é suficiente para criar a imagem, então ele não estará no nosso campo cognitivo.

Dessa forma, a memória é, para Aristóteles, tanto uma operação cognitiva quanto uma condição orgânica. É indispensável à memória que ela funcione bem, e, embora não se conhecesse os processos de Alzheimer nos tempos de Aristóteles, é um bom exemplo que podemos ter para entendermos como a memória precisa estar funcional para exercer suas funções.

Agora, com relação ao modo como a mente opera com os conteúdos da memória, precisamos compreender alguns conceitos aristotélicos que diferem um pouco daquilo que usamos hoje em dia no senso comum: imaginação, fantasia e fantasma.

Quando buscamos uma imagem mental em nossa memória para compor um raciocínio, o que temos de resultado não é algo exatamente igual ao objeto com o qual tomamos contato através dos sentidos. Ela depende do quão bem gravada ficou a representação do objeto. Algumas vezes, comparando com uma impressora a jato, a tinta está acabando e a impressão sai toda falhada. Em outras vezes, pegamos o papel com a mão molhada e a impressão é borrada. De qualquer forma, a imagem armazenada não é igual à imagem real. Sendo assim, entre o objeto colhido pela sensibilidade e a imagem mental que temos armazenada da memória temos um processo de resgate denominado fantasia, ou seja, a operação mental com os fantasmas, ou seja de novo, as representações dos objetos sensíveis. Em miúdos, quando você olha uma hipotética xícara de café, você guarda isso na memória em forma de imagem que, quando maior o detalhe obtido, maior será a fidelidade da gravação. Ao rememorar essa xícara, a mente obtém não a xícara em si mesma, mas uma cópia da imagem mental que servirá para realizar suas operações mentais, e essa cópia tem suas diferenças com o original, e damos a ela o nome de fantasma. Toda essa operação é a fantasia, a capacidade que o cérebro tem de operar com fantasmas.

Aristóteles informa ainda que não há como produzir conhecimento sem que se faça uso de imagens, que é parte integrante da intelecção, no final das contas, porque as imagens constituem os seus tijolinhos. A imaginação é a atividade voluntária de resgatar os conteúdos da memória e adicioná-los aos raciocínios de forma a produzir encadeamentos lógicos. Sem imaginação, não temos como dar elementos para a produção de conhecimento.

Fantasmas não são aparições noturnas, mas concretizações de imagens mentais; fantasia não é devaneio intangível, mas processos de resgate de memórias, e imaginação não está ligada à criatividade, mas ao uso das imagens na composição dos pensamentos. E isso tudo ajuda a explicar o mecanismo das reminiscências em Aristóteles, completamente dissonante da eidética platônica. A reminiscência é uma atividade tipicamente humana de produzir conhecimento a partir da experiência vivida, do depósito de informações obtidos a partir do universo em si mesmo, e não de uma eternidade adquirida diretamente das almas, independentemente da matéria, como quereria seu mestre. Ou seja, as formas que estariam no mundo das ideias, na verdade estão no próprio intelecto que constrói o conhecimento, e a reminiscência é a maneira com a qual as formas são trazidas ao plano mental para efetuar suas relações lógicas e causais.

Talvez os religiosos gostem mais de Platão, e cientistas, de Aristóteles, por conta da primazia que cada um dá à metafísica e à materialidade, respectivamente. Entretanto, isso não pode ser estabelecido como uma regra. O mais importante é que cada um deu uma guia-mestra para a maneira com a qual a memória e seu resgate podem ser trabalhados no âmbito filosófico de modo a trazer reflexos no pensamento até os dias de hoje. Platão não falava de extrações do universo ideal de artefatos, então a Casa da Memória está mais para aqueles que apreciam Aristóteles e sua agregação de conhecimento através das imagens. Afinal de contas, saber juntar um ponteiro de balança com um ímã é conhecimento que salva alguns cobres do desanimado adquirente de batatas. Bons ventos a todos!

Recomendações:

O principal tratado de Aristóteles (mas não o único) sobre o tema vem do livrinho abaixo, que está em um contexto bem mais geral, mas que é daqueles que a gente lê em uma sentada só. 

ARISTÓTELES. Da Memória e Reminiscência. São Paulo: Loja Kindle, 2018. E-Book.


Com relação ao equipamento, segue o seu endereço. Vale a visita, bem como a todo o restante da cidade.

Casa da Memória Antonia Guilherme Franco (Dona Nini)

R. Dona Laurinda, 138

Centro

Guararema/SP 

A aproximadamente 75 km do centro de São Paulo