(Memórias puxam memórias. Mas como elas são os tijolinhos da construção do conhecimento?)
“A memória age como a lente convergente na câmera escura: reduz todas as dimensões e produz, dessa forma, uma imagem bem mais bela do que o original”.
Schopenhauer
Olá!
Dei uma passeadinha com a patroa para comemorar o
aniversário de casamento. Não há novidade nenhuma nisso, mas, como as coisas
estão enroladas no meu pedaço, a coisa teve que ser curta e próxima. As
mudanças minha para Taubaté e do fedelho mais velho de Curitiba custaram uma
exorbitância, e não deu para concretizar grandes projetos.
Acontece que tem lugares agradáveis aqui por perto de São
Paulo mesmo. E uma pousada baratinha (mas sem baratas) é suficiente para passar
uns momentos legais em boa companhia. Achei uma dessas a cerca de 70 km, na
cidade de Guararema, que
não é novidade para mim, porque já passei por essas bandas.
Não fiquei só internado na chácara, porém. Fui dar minhas
bandas para comer alguma coisa e passear pela agradável cidade, e fui
encontrar, bem no centrinho, um pequeno museu de artigos históricos da região,
chamado de Casa da Memória.
A intenção é resgatar um pouco da história das famílias que
construíram a cidade, muito mais do que contar a história do município em si.
Eles dão muita importância em passar essa visão aos visitantes.
Por essa razão, nota-se um tom pessoal em casa um dos
objetos que estão expostos nas proteções de vidro, como se fossem coisas que pudéssemos
achar nas salas das casas de nossas avós.
São hábitos, costumes e habilidades que cada um dos cidadãos
compartilha com o restante de sua comunidade, dando tons de universalidade para
quem vem de fora e de comunitarismo para quem é da casa.
As histórias nem sempre são felizes, nem sempre são tristes,
mas podem ser sintetizadas nestes objetos que representam tempos de paz e de
batalha.
Representam o trabalho dos indivíduos espelhado na
sociedade, na medida em que são reconhecidos por todos como objeto comum do
passado.
Muitos dos objetos expostos são de meu testemunho também,
que foram substituídos por meios mais modernos e mais eficazes. Alguns puxam
pela memória a marotagem dos antigos comerciantes, que aproveitavam o material
ferroso dos ponteiros para atraí-los com ímãs colocados discretamente no canto
dos visores.
Alguns itens são verdadeiramente afetivos, porque lembram
nossas avós e madrinhas, nossos tempos de criança e das diversões simples que
praticávamos. Era uma forma de brincar de adulto utilizar as máquinas e
utensílios para fazer o pão e o café nosso de cada dia.
Enfim, são as pequenas coisas que constroem a memória
coletiva de uma população.
O nome oficial deste lugar tem o acréscimo de “Dona Nini”.
Pelo que vi no site da prefeitura, é uma senhora exemplar que sintetiza todas
as virtudes do morador comum de Guararema. Desta forma, ao invés de homenagear
algum grandão que nunca nem de longe lidou com objetos prosaicos como os
expostos, buscou-se dar relevo ao próprio povo que formou a cidade.
É meio brega esse meio quase sentimentalismo, mas é que essas
coisas da memória estão no nosso dia-a-dia, e podem ser percebidas nos mais
simples fatos. Mas não são somente uma coleção de objetos que nos trazem afeto
e conforto, ou que nos fazem pensar nas coisas boas do passado. A memória, e
talvez essa seja a sua melhor função, é o repositório de informações que
utilizamos para adquirir conhecimento. Basta que pensemos em uma mera operação
matemática, do tipo 2+2=4. Para fazê-la, vamos resgatar elementos abstratos de
nossa memória, como os conceitos de algarismos, de seus valores, de operações
de adição e de igualdade. Mas também buscamos fatores concretos: quando pegamos
o lápis para rabiscar a conta no papel, resgatamos o desenho dos números e dos
operadores, por exemplo. Então percebam que todo o fluxo de dados que percorre
a consciência tem como elemento primário a busca de informações na memória. Uma
informação nova é armazenada na memória, e quando é trazida de volta é uma
reminiscência.
Isso não foi percebido apenas nos dias de hoje, mas há
registros esparsos desde há muito, e que redundou em interessantes discussões
na Antiguidade Clássica, representadas especialmente na oposição das visões de
Platão e Aristóteles.
Platão entendia que as memórias eram elementos inatos que
eram reavivados de acordo com racionalidade. Segundo ele pensava, todos
nascemos com a capacidade intelectual de acessar as formas perfeitas do mundo
das ideias, porque a alma é eterna e carrega consigo, aprioristicamente, todos
os conhecimentos do universo. Quando encarna, entretanto, a alma passa a
conviver com os sentidos, que distorcem a cognição. Isso acontece porque
permanece na alma a capacidade de reconhecer as formas das coisas, mas que somente
são captadas na materialização imperfeita da concretude. Parece coisa de
espírita, e talvez seja mesmo.
Mas o que são essas tais formas? Lembram das discussões dos
filósofos da physis, que buscavam o elemento essencial de todas as
coisas, a sua substância, a sua arché?
Eles buscavam a essência em uma materialidade que fosse comum a tudo, enquanto
Platão faz sua teoria em um outro sentido: não é a matéria que explica a
natureza, mas a sua forma, ou seja, um paradigma que é comum a todos os
existentes daquela espécie que é absorvida. Dessa forma, quando olhamos para
uma banana (estou olhando para uma banana na feira da Água Branca),
independentemente de ser nanica, prata, ouro, maçã, figo, pão, São Tomé, da
terra ou vermelha, captamos a forma “banana” e a reconhecemos como tal.
E como um contribuinte pode fazer para considerar conhecer?
Aí cabe a atitude filosófica de abstrair o objeto concreto e resgatá-lo do
modelo ideal. A banana que vejo sobre a banca é uma concreção do modelo banana,
assim como todas as outras que lá estão. A cada exemplar, tenho um resgate, e
lá eu devo saber que há algo que é próprio de cada uma das bananas e algo que é
comum a todas elas. Por exemplo: umas são mais curvas, outras menos. Se eu for
usar instrumentos, perceberei que mesmo aquelas que parecem idênticas possuem
discretas diferenças em seu ângulo de curvatura (a tal ilusão dos sentidos que
Platão tanto fala). O que é comum a todas e que as caracteriza como tal é a
existência da curvatura, e isso pertence à sua forma. Essa forma reside em nós
previamente, acessíveis unicamente através do intelecto.
Sendo assim, todas as vezes que captamos um novo objeto,
nada mais fazemos do que restituir os modelos que previamente conhecemos no
mundo das ideias. Esse é o processo de reminiscência platônico, que considera a
memória algo eterno e permanente, assim como seria a própria alma.
Já Aristóteles vira essa lógica de cabeça para baixo. Os
processos cognitivos também se baseiam em memória e reminiscência, mas de
maneira totalmente diferente.
A primeira coisa que Aristóteles estabelece é que não existe
um mundo intelectual destacado da própria realidade, mas somente a realidade em
si mesma. Isso implica em sua teoria do conhecimento: se você quer conhecer as
coisas, você precisa ir até às próprias coisas. E você não pode ir até às próprias
coisas se não for para vê-las, para ouvi-las, para respirá-las, para senti-las.
E isso tudo só é acessível através dos sentidos, com tudo o que há de defeitos
neles. Desta forma, estava estabelecido o primeiro confronto entre idealismo e
realismo da história conhecida. Platão certamente se virou na cova ao saber das
teses de seu pupilo.
Aristóteles entende que somente com a memória somos capazes
de estabelecer juízos. O seu processo consiste em gravações de imagens mentais
derivadas dos contatos com os objetos. Quando percebemos alguma coisa, fixamos
a conformidade deste objeto em nossa mente como se fosse uma escrita, de modo a
criar um registro que só não é permanente porque o tempo pode fazê-lo
desvanecer. De todo modo, é com essas imagens mentais que se articula o nosso
raciocínio. Se o contato com o objeto não é suficiente para criar a imagem,
então ele não estará no nosso campo cognitivo.
Dessa forma, a memória é, para Aristóteles, tanto uma
operação cognitiva quanto uma condição orgânica. É indispensável à memória que
ela funcione bem, e, embora não se conhecesse os processos de Alzheimer nos
tempos de Aristóteles, é um bom exemplo que podemos ter para entendermos como a
memória precisa estar funcional para exercer suas funções.
Agora, com relação ao modo como a mente opera com os
conteúdos da memória, precisamos compreender alguns conceitos aristotélicos que
diferem um pouco daquilo que usamos hoje em dia no senso comum: imaginação,
fantasia e fantasma.
Quando buscamos uma imagem mental em nossa memória para
compor um raciocínio, o que temos de resultado não é algo exatamente igual ao
objeto com o qual tomamos contato através dos sentidos. Ela depende do quão bem
gravada ficou a representação do objeto. Algumas vezes, comparando com uma
impressora a jato, a tinta está acabando e a impressão sai toda falhada. Em
outras vezes, pegamos o papel com a mão molhada e a impressão é borrada. De
qualquer forma, a imagem armazenada não é igual à imagem real. Sendo assim,
entre o objeto colhido pela sensibilidade e a imagem mental que temos
armazenada da memória temos um processo de resgate denominado fantasia, ou
seja, a operação mental com os fantasmas, ou seja de novo, as representações
dos objetos sensíveis. Em miúdos, quando você olha uma hipotética xícara de
café, você guarda isso na memória em forma de imagem que, quando maior o
detalhe obtido, maior será a fidelidade da gravação. Ao rememorar essa xícara,
a mente obtém não a xícara em si mesma, mas uma cópia da imagem mental que
servirá para realizar suas operações mentais, e essa cópia tem suas diferenças
com o original, e damos a ela o nome de fantasma. Toda essa operação é a
fantasia, a capacidade que o cérebro tem de operar com fantasmas.
Aristóteles informa ainda que não há como produzir
conhecimento sem que se faça uso de imagens, que é parte integrante da
intelecção, no final das contas, porque as imagens constituem os seus
tijolinhos. A imaginação é a atividade voluntária de resgatar os conteúdos da
memória e adicioná-los aos raciocínios de forma a produzir encadeamentos
lógicos. Sem imaginação, não temos como dar elementos para a produção de
conhecimento.
Fantasmas não são aparições noturnas, mas concretizações de
imagens mentais; fantasia não é devaneio intangível, mas processos de resgate
de memórias, e imaginação não está ligada à criatividade, mas ao uso das
imagens na composição dos pensamentos. E isso tudo ajuda a explicar o mecanismo
das reminiscências em Aristóteles, completamente dissonante da eidética
platônica. A reminiscência é uma atividade tipicamente humana de produzir
conhecimento a partir da experiência vivida, do depósito de informações obtidos
a partir do universo em si mesmo, e não de uma eternidade adquirida diretamente
das almas, independentemente da matéria, como quereria seu mestre. Ou seja, as
formas que estariam no mundo das ideias, na verdade estão no próprio intelecto
que constrói o conhecimento, e a reminiscência é a maneira com a qual as formas
são trazidas ao plano mental para efetuar suas relações lógicas e causais.
Talvez os religiosos gostem mais de Platão, e cientistas, de
Aristóteles, por conta da primazia que cada um dá à metafísica e à
materialidade, respectivamente. Entretanto, isso não pode ser estabelecido como
uma regra. O mais importante é que cada um deu uma guia-mestra para a maneira
com a qual a memória e seu resgate podem ser trabalhados no âmbito filosófico
de modo a trazer reflexos no pensamento até os dias de hoje. Platão não falava
de extrações do universo ideal de artefatos, então a Casa da Memória está mais
para aqueles que apreciam Aristóteles e sua agregação de conhecimento através
das imagens. Afinal de contas, saber juntar um ponteiro de balança com um ímã é
conhecimento que salva alguns cobres do desanimado adquirente de batatas. Bons
ventos a todos!
Recomendações:
O principal tratado de Aristóteles (mas não o único) sobre o
tema vem do livrinho abaixo, que está em um contexto bem mais geral, mas que é
daqueles que a gente lê em uma sentada só.
ARISTÓTELES. Da Memória e Reminiscência. São Paulo:
Loja Kindle, 2018. E-Book.
Com relação ao equipamento, segue o seu endereço. Vale a
visita, bem como a todo o restante da cidade.
Casa da Memória Antonia Guilherme Franco (Dona Nini)
R. Dona Laurinda, 138
Centro
Guararema/SP
A aproximadamente 75 km do centro de São Paulo