Olá!
Que no mundo se vê toda sorte de malucos eu já sabia. Mas
desta eu não esperava: há uma vertente de “iniciados” que são denominados como
terraplanistas, que acreditam naquilo que seu nome indica: que a terra é plana.
Vi alguns videozinhos que apresentam como provas de suas alegações o fato de
que o horizonte de uma praia, por exemplo, pode ser visto aprumado e paralelo a
um objeto reto, como uma régua. Este é um deles. Mas há muitos outros, desenvolvendo
outras teses, inclusive envolvendo a Nasa.
É a retomada do ideário da antiga International Flat Earth Research Society, que achava que a
principal prova para a correção de suas teses era a mais simples de todas –
basta olhar para o horizonte e perceber que ele é plano.
Bom, a quantidade de maneiras de se comprovar o contrário é
tão vasta que vou me limitar a uma só, ao alcance de quem presencie um eclipse:
a sombra projetada da Terra na Lua denuncia um objeto esférico. Ah, mas a Terra
pode ser redonda e chata. Tá bom, vai outro: os fusos horários. Como pode ser
noite agora e ser dia no Japão? O fato de que vemos o horizonte como algo plano
se dá pela infinitesimal proporção do nosso humano tamanho com o da Terra. Nada
mais e nada menos.
Mas ao mesmo tempo em que esse tipo de doideira provoca mais
risos do que atenção, há outras discussões que acabam se pondo mais sérias por
conta de outros fatores, ainda que igualmente polêmicos. Falo especificamente
do confronto geocentrismo X heliocentrismo. Dichavemos.
(Acreditem se quiser: neste EXATO momento acabei de ouvir no
sacolão em que me encontro que é ruim para as mulheres comer muitas frutas,
porque isso ESFRIA o útero!!! Predições da macrobiótica. Ahmaria! Atenção,
febris! Frutas podem substituir a Dipirona com vantagens! Atenção,
ninfomaníacas! Usem frutas quando se sentirem insaciáveis!! Método natural de
moralidade).
O geocentrismo foi uma doutrina tremendamente persistente
porque parte de elementos perceptivos, que eram os únicos que a humanidade teve
ao seu dispor por longos e longos séculos. Imagine no que consistia observar o
céu: olhar para todos os lados em todos os dias do ano e ver basicamente a
mesma coisa – estrelas à noite, nuvens de dia, o Sol e a Lua. Sim, havia uma
variação de posições, mas que não ocorria como em uma dança; era como um
relógio. Uma estrutura repetitiva cíclica, como se os astros realmente girassem
em torno do planetinha azul. Foi parte mesmo da genialidade humana perceber
esse mecanismo e chegar às suas deduções.
Os ciclos astronômicos passaram a fazer parte das diferentes
religiões, que começaram a marcar eventos importantes da história de seus
cultuadores como se houvesse um laço entre si. É assim, por exemplo, que nasce
a astrologia, dando função divinatória à mecânica celeste. Sabemos hoje que
isso não funciona (muito embora exista quem não ponha o pé para fora de casa
sem ler seu horóscopo), mas em uma época na qual as contingências sazonais
traziam mudanças muito mais significativas no quotidiano das pessoas, também é
facilmente compreensível o desenho dessa lógica.
Também sob o aspecto simbólico o geocentrismo tinha um forte
motivador. A Terra, morada da humanidade, o néctar da criação divina, era o
centro do universo inteiro, para onde convergiam e apontavam todos os seus
componentes. O universo existia em função dos homens, e a Terra era o núcleo
imanente daquilo que em Deus se encontrava o cerne transcendente: o planeta
plasmava para o Homem, imagem e semelhança de Deus, aquilo que já desde o
infinito existia em termos espirituais. Esse pensamento se tornou tão arraigado
que foi parar nos livros sagrados, ganhando estatuto de lei divina. E, para
exemplificarmos através do Cristianismo, trouxe grandes problemas àqueles que
divergiram deste postulado, como se pode ver na Inquisição.
Somente no século XVI uma visão nova sobre o cosmos terá seu
nascimento. Nicolau Copérnico, astrônomo polonês, começa a construir o modelo
que faria colapsar a tese geocêntrica. Ele percebeu que os modelos propostos
até então, em especial o de Aristóteles e o de Ptolomeu, eram bastante
adequados para explicar as mudanças na configuração dos céus, mas precisava de
intensos malabarismos para justificar as órbitas planetárias. Havia um
movimento retrógrado dos planetas com relação à Terra que fazia com que estes
aparentassem estar andando para trás. Pela perspectiva geocêntrica, seria
necessário estabelecer órbitas espirais para explicar esse fenômeno, gerando um
movimento denominado “epiciclo”, além de estabelecer uma certa excentricidade
da posição da Terra em relação ao centro exato do sistema. A Terra continuaria
a ser o objeto circundado por todos os demais astros, mas não estaria
exatamente no miolo geométrico, e sim um pouquinho deslocado para um dos lados.
Copérnico fez algo simples e genial para resolver o problema, como sabemos:
tirou a Terra do centro e colocou o Sol em seu lugar, a famosa teoria
heliocêntrica. O problema do movimento retrógrado foi resolvido
instantaneamente, sem nenhuma espécie de forçamento de barra: a impressão que
se tem de movimento inverso se explica simplesmente pela diferença de
velocidade entre os planetas. É a mesma coisa que acontece quando estamos
acotovelados em um semáforo no trânsito intenso. Quando o trânsito anda, temos
a ilusão de que somos nós que estamos andando para trás, como se tivéssemos soltado
o pedal do freio inadvertidamente, mas o fato é que são os carros ao nosso
redor que estão se deslocando para diante, enquanto nos mantemos parados. Portanto,
como a Terra se desloca em um raio em torno do Sol mais curto do que Marte, há
a impressão de que este se desloca para trás. Se imaginarmos a Terra parada,
ficamos com a difícil missão de compreender que tipo de movimento é este. Mas
se a colocamos também em movimento, tudo fica absurdamente mais simples (e
factível).
Ainda assim, a teoria precisou de ajustes, o que veio com as
órbitas elípticas de Johannes Kepler, mas isso é história para contar em outro
momento. De qualquer forma, a Terra foi vítima de rebaixamento para a quarta
divisão. Triste destino para um time tantas vezes campeão.
E vejam vocês, hoje em dia sabemos que também a doutrina
heliocêntrica não está completamente correta. De fato, o Sol é centro do
Sistema Solar, mas não é nem ao menos o centro de um complexo maior, a Via
Láctea! Se pensarmos em centro do universo, temos alguns desafios a enfrentar:
Um. Se o universo é infinito, vamos discutir sobre bobagens,
porque algo infinito não tem centro, ou, sendo extremamente concessivos,
qualquer coisa é centro do universo, seja qual for o ponto que adotarmos: a
Terra, o Sol, a Lua, uma estrela, um cometa, nós mesmos;
Dois. Se o universo é finito, hoje não temos instrumentos
nem métrica para saber. Desta forma, não temos como nos situar – se estamos
próximos ao centro, na beirada ou a meio caminho de ambos;
Três. E se a tese do multiverso* estiver correta? Sim,
sabemos que essa proposta ainda está no campo da metafísica, mas e se de fato
nosso universo conhecido for apenas mais um entre muitos? Qual será a natureza
destes outros universos e como saberemos se há algum conceito de centralidade
possível?
Portanto, mesmo a teoria heliocêntrica é furada em certos
sentidos. Mas é uma alternativa melhor que a opção geocêntrica, ao menos para a
compreensão de nosso âmbito local, o sistema solar.
Só que a galera do geocentrismo não desiste. E o faz porque
as descobertas científicas e as novas especulações metafísicas vão de encontro
aos seus ditames sagrados. Dizem que preferem acreditar naquilo que é revelado
divinamente, e não em contraposições de origem humana. Bem, isso é falacioso?
Vamos com calma nessa hora.
Já discuti muitas vezes neste espaço que Ciência e Religião
têm focos diferentes, e quando uma tenta penetrar no terreno da outra, bicam-se mais que galinhas no cio (galinhas no cio se bicam?). A Religião sempre parte
mais da intuição; e a Ciência, da evidência. Mas quando falamos em Filosofia,
partimos do suposto que devemos enfrentar o desafio da Lógica que é interposta
em nossos argumentos. Vamos montar um exemplo.
A Filosofia teocêntrica da Idade Média (da qual se fala
muito sobre sua aridez, o que não é uma verdade absoluta, como já discorri aqui)
teve por um de seus propósitos mais fortes estabelecer uma conexão entre fé e
razão. Como o item primordial para dar consistência à primeira era
fundamentá-la robustamente, era necessário estabelecer uma lógica que tornasse
Deus possível (ou, no mínimo, aceitável). Muitos dos filósofos da época
tentaram montar suas teses, começando pela patrística de Santo Agostinho e passando por Santo
Anselmo, Mestre Eckart, Nicolau de Cusa e outros, até chegar ao ápice com a
escolástica de São Tomás de Aquino, que foi buscar em Aristóteles a estrutura
necessária para solidificar suas proposições. Falo das leis de causa e efeito,
cujo exemplo maior desemboca no Primeiro Motor Imóvel. Já falei sobre este
argumento antes, no mesmo texto já citado, mas vou repeti-lo rapidamente. Tudo
o que está em movimento no universo foi impulsionado por alguma coisa. A caneta
que escreve estas linhas é movida por mim, que sou movido pela queima de
nutrientes que há em meu corpo, que foram produzidos pela força germinativa da
terra, que tem origem na deterioração de plantas, que extraem sua fotossíntese
da luz do Sol, que é originada das reações nucleares de seu interior e assim ad infinitum.
Mas não há sentido em pensar que tudo é movido por uma força
anterior se não for estabelecido um movimento inicial, que fez toda essa roda
girar sem que ela mesma tenha sido movida. Ela impulsionou sem ter sido
impulsionada. Essa força é chamada por Aristóteles de Primeiro Motor Imóvel. Primeiro por não haver nada anterior. Motor porque fez com que tudo a partir
dele se pusesse em movimento. Imóvel
porque, sendo causa sem ser efeito, não pode ser, ele mesmo, objeto de
movimento.
Pois muito bem. Certo ou errado, o pensamento aristotélico é
muito bem construído, porque dá uma resposta lógica à lei de causa e efeito.
Mas o que é o Primeiro Motor Imóvel? Para São Tomás de Aquino, é Deus. Na
doutrina escolástica, há dois modos de se chegar a uma verdade: a via da
revelação natural e a da revelação sobrenatural. A primeira é manifestada pela
análise do cosmos que nos cerca. Analisamos o mundo e o universo em si mesmos e
descobrimos seus propósitos e funcionamentos. Esse é o âmbito que a razão atua:
conceber e conhecer o mundo tangível. A partir do ponto em que se esgota o
alcance da razão, temos a segunda via entrando em ação. E é nela que se pode
reconhecer o Primeiro Motor como Deus: através da fé, que é intuitiva e que
chega a locais onde a razão parou antes no caminho. Pode-se pensar em outro
motor que não seja Deus? Pode-se. Mas também essa atribuição será matéria de
fé, até o momento em que a razão tenha instrumentos suficientes para chegar a
ela através da revelação natural.
Ufa! Tudo isso para demonstrar que um argumento que leve em
conta uma crença não é necessariamente falacioso. Poder-se-ia falar em um Deus das Lacunas, mas, neste caso, o argumento colocaria um Deus simplesmente
onde não há nada que explique melhor. No caso, como Deus está nas premissas, o
argumento está construído para embasar a própria existência de um Deus, o que o
torna indissociável do mesmo.
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A crença é forte ferramenta para contrapor a razão, para o bem e para o mal |
Mas há de fato algo chamado de apelo à crença e o mesmo pode
ser confortavelmente falacioso. Basta que siga as regrinhas básicas do apelo:
produzir dispersão e introduzir material irrelevante à discussão. É exatamente
o que ocorre quando, à vista das provas do furo do geocentrismo, argumenta-se
que os desígnios divinos não podem ser descritos pelo homem, e, portanto, não
podem ser contestados. Essa é uma doença daqueles que abusam de interpretações
literais dos seus livros sagrados, engessando o horizonte de quem busca
pesquisas mais aprofundadas. Um bom exemplo vem dos mitos de criação das mais
diversas religiões. Quando a Ciência demonstra a origem da vida através de uma
mecânica natural, não está excluindo obrigatoriamente Deus da parada, mas está
contestando a descrição ipsis litteris
do processo constante no livro sagrado. Não se apela à crença quando se coloca
Deus como um engenheiro que disparou essa mecânica ou como um maestro que a
harmoniza, mas quando se diz que a Ciência mente pelo simples fato de que não
há correspondência entre a descrição sagrada e a pesquisa científica.
Talvez essas pessoas ainda estejam muito imbuídas do mesmo
sentimento que existia na marotíssima aposta de Pascal. Este filósofo, físico e
matemático francês, de quem já dei uma palhinha neste texto, tem uma
tese prá lá de pragmática para exercer uma opção sobre a existência ou não de
Deus. Suas proposições são:
- Se Deus existir e você acreditar nisso, seu ganho será infinito;
- Se Deus existir e você não acreditar nisso, sua perda será infinita;
- Se Deus não existir e você acreditar nisso, seu ganho será finito;
- Se Deus não existir e você não acreditar nisso, sua perda será finita.
Para finalizar, o pessoal que é adepto das Ciências pode
discordar ponto a ponto do que eu falei aqui, mas este é um espaço da
Filosofia, ou seja, da livre especulação. Isso inclui Deus. E o mesmo se aplica
aos religiosos.
Recomendações:
A Suma Teológica é o conjunto de escritos de São Tomás de
Aquino. É enorme e muito rica, redigida por um religioso extremamente culto,
mas não é leitura fácil, dada sua erudição e extensão. Faz parte. Filosofia tem
dessas coisas.
AQUINO, São Tomás de. Suma
Teológica. 9 volumes. São Paulo: Loyola, 2006.
Copérnico escreveu o livro onde descreve o heliocentrismo em
latim, sob o garboso nome de De Revolutionibus Orbium Coelestium. Em português,
temos a seguinte edição:
COPÉRNICO, Nicolau. As
Revoluções das Orbes Celestes. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1984.
Um canal do Youtube que gosto muito é o Primata Falante,
tocado pelo estudante de Física David Simões. Os links abaixo são,
respectivamente, de um vídeo onde ele disseca as provas de que a terra é
redonda e da entrada do seu canal. Curtam porque é bom.
O livro de Pascal onde está descrita sua aposta é o mesmo
que já está recomendado no texto do link que mencionei acima. Consultem lá.
* O termo Multiverso está ainda na metafísica das teorias
cósmicas. Na medida em que algumas teorias vão ficando cada vez mais
consistentes, como é o caso do Big Bang ou dos buracos negros, novas
formulações começam a ser especuladas. Algumas perguntas como “o que havia
antes do Big Bang?”, “quem impulsionou o Big Bang?”, “onde deságua a energia e
a matéria absorvida por um buraco negro?” fazem com que se creia que o universo
observável não é único, e que o mesmo processo que gerou nosso universo pode
ter gerado tantos outros, cada um com suas peculiaridades. O tema é instigante
e voltarei a ele, com toda a certeza.
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