(Cafés e juízos podem sempre trazer novidades consigo)
“Certos conhecimentos por meio de conceitos, cujos objetos correspondentes não podem ser fornecidos pela experiência, emancipam-se dela e parecem que estendem o círculo de nossos juízos além de seus limites”
Immanuel Kant
Olá!
Certos métodos não são métodos. Deixe explicar melhor.
Quando falamos de métodos de extração de café, pensamos em filtros, prensas, cadinhos
e etc. Mas eles não são as únicas parafernálias que povoam esse mundo. Há
também apetrechos que não são propriamente métodos, mas que são acessórios que
prometem coisas, como é o caso da pecinha que tenho diante de mim neste
momento: a cápsula Lily Drip.
Há toda uma narrativa por trás da criação deste curioso
equipamento. Diz-se que a Lily é filha do inventor do objeto, e um dia desses
colocou uma bolinha de gude dentro do filtro em que seu pai japonês percolava
seu café, dizendo que aquilo ia deixar o líquido mais gostoso. Dito e feito, o
pai percebeu uma real diferença positiva no sabor e nos aromas, e resolveu
desenvolver a ideia. A princípio, o efeito se deu por conta do aumento do
espaço de contato da água com o pó, sem que se aumentasse o tempo de escoamento.
Isso é feito virando um filtro modelo V60 do avesso com o gabarito que vem
junto da cápsula de porcelana.
Feito isso, a cápsula é encaixada no fundo do porta filtro Hario
e o filtro já virado é colocado sobre ele. Feita a saturação com água quente, o
pó é despejado no fundo, como de costume, e a água vai na sequência, como se
fosse outro método de filtragem qualquer.
Nome do utensílio: Lily Drip
Tipo de técnica: Acessório cônico de filtragem
Dificuldade: Média, já que é possível rasgar o filtro na viragem
Espessura do pó: a gosto, normalmente acompanhando o habitual do método V60
Dinâmica: Uma cápsula de porcelana que aumenta a superfície de contato com o pó em um porta-filtro do tipo v60. Antes do uso, é necessário virar o filtro do avesso para encaixe da cápsula
Resíduos: Os mesmos de uma percolação normal
Temperatura de saída: A mesma de uma percolação normal
Nível de ritual: médio/alto
Eu vou manter meu compromisso de ser franco e admitir que
não percebi diferença alguma no café feito com ou sem a cápsula. Para tirar a
teima, fiz um teste cego com uma Hario e uma Waalz,
irmãs gêmeas. Mesmo café, mesma moagem, mesma temperatura, mesmos ataques, tudo
igual, garante a patroa, e não senti nada de diferente entre ambas as amostras.
Certo: minha sensibilidade de ex-fumante não é mesmo das melhores, e isso é um
fator. Portanto, para quem achar que há melhoras, que aproveite bem.
A verdade é que o café é uma das paixões possíveis para uma
pessoa, e a busca por aperfeiçoar a relação que temos com nossos gostos é uma
das coisas que dá sabor à vida. Enquanto nós, seres humanos que elegemos nossas
coisas de acordo com nossas possibilidades, há cabeças que procuram essas
aproximações com a perfeição em outros campos, tipo com a razão, como fez
Immanuel Kant. Ele não quis descobrir como filtrar um bom café, mas como
funciona definitivamente a razão humana. Cada um com suas possibilidades,
procuro me conformar.
Meus caros amigos, eu recomendaria que vocês fizessem ao
menos a leitura do texto deste
link, para que partíssemos do mesmo ponto, mas vou resumir muito
rapidamente: Kant pôs fim na velha discussão entre racionalistas e empiristas
ao deduzir que o conhecimento provém dos sentidos, mas a mente humana já possui
inatamente estruturas que permitem fazer com que esse processo flua. Desta
forma, vê se que, em alguma medida, ambas as correntes estavam certas (ou
erradas, dependendo do ponto de vista do copo meio cheio ou meio vazio), e que
a capacidade de conhecer está muito relacionada com a espécie e com o
indivíduo.
Depois de compreender como se dava o processo de cognição
humana, e já levando em conta suas limitações, Kant passou a tentar responder
uma pergunta: é possível que a filosofia tenha caráter científico? A pergunta
não tem a simplicidade com a qual poderíamos revesti-la, tendo em vista que
nosso caro alemão não tinha foco meramente em seu caráter especulativo, mas na
capacidade mental de construir conhecimento puramente conceitual, como parece
ser possível para problemas metafísicos. Fez isso imbuído pelas leituras que
fez de David Hume, a quem lhe atribuirá mais tarde o despertar do sono
dogmático.
Para que um conhecimento pudesse ganhar o estatuto de
científico (àquela época) deveria alcançar dois objetivos: ser necessário e
universal por um lado, e trazer informações novas por outro. Trocando em
miúdos, algo é necessário quando é de uma forma e não poderia ser de outra,
assim como universal é aquilo que é igual em qualquer tempo ou lugar. Trazer
informações novas, por outro lado, consiste em não repetir aquilo que já está
contido no próprio sujeito. A tarefa não é simples, como se verá a seguir, porque
envolverá uma dimensão epistêmica e outra lógica, com uma aporia a ser
resolvida em seus cruzamentos.
Começando pelo começo, o que era um juízo para Kant? Não se
tratava de um julgamento, como o nome pode fazer pensar, mas uma relação
predicativa do tipo a=b, ou seja, uma afirmação onde é atribuída uma qualidade
a um objeto qualquer. Como qualquer boa e velha proposição, pode ganhar ou não
um atributo de verdade ou falsidade. Portanto, uma afirmação do tipo…
Todo homem é mortal
… tem um sujeito (“Todo homem”) que recebe uma predicação e
um predicado (é mortal) que nos conta alguma coisa do sujeito, ou seja, temos a
construção de um juízo, uma articulação mental que procura traduzir um
conhecimento.
Kant dava uma qualificação referente ao valor
lógico-linguístico de uma afirmação que tinha relação com sua capacidade de
trazer novidades com relação ao sujeito. Ele dizia que os juízos podiam ser
analíticos ou sintéticos. No primeiro caso, os predicados estão contidos nos
próprios sujeitos, e sua utilidade está em fixar um conceito. São inúmeros os
casos dos juízos analíticos: um triângulo tem três lados e três ângulos
internos que, somados, sempre resultarão em 180 graus; retas paralelas nunca se
tocam; corpos sempre possuem alguma extensão e por aí vai. São ocasiões em que
se faz a análise de um objeto qualquer, no sentido de atribuir conceitos a ele,
sem variabilidade local e temporal. Dessa forma, os juízos analíticos atendem
ao requisito de universalidade e de necessidade da cientificidade. Já os juízos
sintéticos são aqueles que acrescentam informação, que formam síntese com o
objeto para trazer descrições contingentes, de cada caso observado
empiricamente. Juízos sintéticos dizem que borboletas podem ser azuis, que a
lua tem fases, que a maré está alta ou baixa, e assim sucessivamente. Os juízos
sintéticos são descendentes diretos da observação empírica, e, por isso, dizem
respeito ao âmbito dos objetos observados. Coligem, assim, informações novas aos
juízos.
Por outro lado, Kant fazia uma classificação cognitiva dos
juízos, de acordo com o momento em que se dava o fenômeno do conhecimento. Se
ele se dava antes do contato com o objeto a ser conhecido, dizia ser um juízo a
priori, ou “o que vem antes” em latim. São todos os juízos que prescindem
da experiência para ocorrerem, como é o caso dos círculos, nos quais não
preciso ter nenhum contato empírico para saber que não possuem arestas. Grosso
modo, os mesmos juízos analíticos que mencionei no item anterior são todos
eles, a princípio, também a priori. Por outra mão, os conhecimentos que derivam
da experiência são, por uma questão lógica, obtidos após o contato cognitivo
com o objeto, e, por isso mesmo, são a posteriori. Eu sei a cor de uma
camisa quando eu a vejo, ou o timbre de uma guitarra quando eu a ouço, o
amargor de uma cerveja quando eu a bebo. Eu acrescento essas informações e
enriqueço as coisas que sei sobre ela, mas há problemas.
É que, relembrando o critério de cientificidade de Kant,
conhecimento científico é aquele que é universal e necessário, além de trazer
informações novas ao objeto. É uma combinação bombástica, porque os juízos
analíticos são universais e necessários, mas não trazem novidade alguma. No
exemplo clássico do triângulo, dizer que ele tem três lados já está embutido em
sua própria definição. É universal, é necessário, mas não há nada de novo nessa
informação. Alguém por acaso diz “um triângulo de três lados”? Não basta
simplesmente dizer “triângulo”? Sendo assim, seria uma informação completamente
vazia para além de seu poder definitório. Já os juízos sintéticos dizem algo
que acrescenta informação de fato. Se eu digo que Laura e Ana são cientistas
(homenagem ao pessoal do Nunca Vi 1 Cientista)
trarei uma informação que não é inerente a nenhuma das duas, mas que é
contingencial. Laura e Ana não deixarão de ser quem são se fossem pintoras,
tatuadoras, informatas ou quartas-zagueiras. Por acaso, são cientistas, mas
isso é uma contingência, e não uma necessidade. Ora (direis), uma vez
cientistas, sempre cientistas, e com isso o acidental acaba. Não, senhor
(responderei), porque Laura e Ana permanecem cientistas, mas a Ciência
permanece o que é? Digamos que os critérios para estabelecer o que é ciência
mudem, como já aconteceu antes. Se, por exemplo, passa a ser científico apenas
aquilo que é útil, o que faremos com as milhares de expressões matemáticas que,
a fim e a fogo, não têm significado tangível? Para que servirá uma matriz com
mais de três dimensões? Se isso for estabelecido, pode ser que as formações de
Laura e Ana não sirvam para mais nada, e isso prova que o fato de serem
cientistas é, sim, contingencial. Ufa!
Com relação ao momento em que se dá o processo cognitivo,
não faz sentido achar que a obrigatoriedade do ato empírico dê universalidade e
necessidade ao conhecimento, sendo que é impossível que algo contingente seja
conhecido antes de seu componente estrutural e definitório. Eu sei que um
guarda-chuva é preto, está furado e molhado porque eu já sei estruturalmente o
que é um guarda-chuva. Mas o conhecimento a priori do objeto em termos
analíticos também não me traz novidade alguma. Dizer que o guarda-chuva é um
utensílio que serve para proteger da chuva (e ser esquecido) não traz nada de
informação. É a mesma coisa eu dizer que “o guarda-chuva que protege da chuva
está molhado” e “o guarda-chuva está molhado”, percebem? Nada mais é do que um
pleonasmo. Os juízos analíticos a priori não trazem novidades, enquanto os
juízos sintéticos a posteriori não são universais e necessários.
Então não só não conhecemos as coisas em si mesmas, mas
também o conhecimento científico é impossível??? Não é assim, segundo Kant.
Pelo cruzamento entre o caráter epistemológico e o lógico-linguístico, haveria
dois outros caminhos, sendo um impossível, e outro que é a cereja do bolo. O
impossível é o juízo analítico a posteriori, porque não faz sentido. Ele
funcionaria, já que guardaria a universalidade e necessidade dos juízos
analíticos e traria a novidade dos juízos a posteriori. Entretanto, se é um juízo
analítico, pressupõe-se a desnecessidade do contato empírico com o objeto, que
só poderia trazer informações contingenciais. Dessa forma, não há como ocorrer
um juízo analítico a posteriori. Resta então um juízo que traria as informações
novas dos juízos sintéticos e a universalidade e necessidade dos juízos a
priori. São estes os juízos sintéticos a priori, a créme de la créme do
pensamento científico kantiano.
Mas o que são esses tais juízos? O exemplo kantiano mais
célebre é o 5+7=12, para comprovar que a matemática dá juízos sintéticos a
priori aos borbotões, mas sempre o achei muito difícil de entender, porque sua
simplicidade não me convencia. Porém, ao observar outras proposições mais
elaboradas, é possível penetrar nesse mundo misterioso com um pouco mais de
facilidade. Kant mesmo usa o exemplo da reta. Quando se afirma que uma reta é o
menor caminho entre dois pontos, podemos deduzir que esta afirmação é verdadeira
em qualquer tempo e em qualquer lugar, e isso é válido ainda que não seja
possível concretizar uma reta na nossa frente que nos faça perceber,
experimentalmente, que a coisa é assim. Não preciso traçar uma reta entre
Taubaté e Curitiba para ter ciência dessa assertiva. E o principal: não está na
definição de reta que ela é o menor caminho entre dois pontos. A definição de
reta é ser uma sequência de pontos colocados um do lado do outro. A reta é um
objeto abstrato: não vemos retas espalhadas por aí sendo apenas e tão somente
retas. Essa abstração, de que a reta tem a qualidade de extensão, é puramente
intuitiva, sem a necessidade de ter derivação empírica. Portanto, é uma
proposição que não somente é sintética, porque traz informação, como também é
apriorística, porque é universal e necessária. Pegando o exemplo de uma regra
da química: A soma das massas das substâncias reagentes é igual à soma das
massas dos produtos da reação, a famosa lei de Lavoisier. Os conceitos de massa
não trazem junto de si a informação da equivalência pré e pós reação, assim
como a lei sempre se aplicará do mesmo modo e podemos estar em Marte, Lua, Sol,
no presente, passado ou futuro. Tudo sempre se dará de forma igual,
independentemente da experiência que tenhamos das mesmas. O processo empírico,
no caso, é confirmatório, e não definitório. Sendo assim, ciências como a
matemática e outros conhecimentos matematizáveis, como a geometria, a física e
a química são considerados ciências em sua plenitude.
Kant assegura que as proposições da matemática e da
geometria são todas desse tipo, e é nos fenômenos que são redutíveis a elas que
poderemos encontrar os tais juízos, e, dessa forma, confirma-se que o
conhecimento científico é possível.
Mas… e a metafísica?
Quando Kant elaborou sua crítica, não tinha em mente
sacrificar esta ou aquela manifestação do conhecimento, mas determinar os
limites da razão. Procurou estabelecer critérios balizadores do que pode ser
considerado conhecimento seguro, sem, no entanto, invalidar a porção
especulativa da filosofia. Por isso, ele coloca matemática, a física e os
correlatos como científicos, porque estão no âmbito da possibilidade da mente
humana, por mais complexas que sejam. Entretanto, embora as disposições
metafísicas não consigam alcançar juízos científicos, Kant não diz que eles são
inválidos. Essa é uma confusão comum que se faz quando o meninão de Königsberg
é estudado superficialmente.
Mas não dá para dizer que o edifício metafísico não tenha
sido de fato abalado por Kant. A revolução científica já vinha fazendo isso, e
duros golpes vinham sendo proferidos. O juízo kantiano foi só um cruzado de
direita. A questão é que disposições metafísicas têm dificuldades em formar
conceitos a priori. Em um exemplo, podemos projetar todos os atributos que
definiriam Deus: um ser transcendente que é onisciente, onipresente e
onipotente, que é a causa primeira de todas as outras e così via. Por
que essa proposição seria mais válida do que qualquer outra sobre diferentes
configurações de divindades, ou simplesmente dizer que não há algo como um
deus?
Resta à metafísica formar dogmas, que, ao fim e ao cabo, são
mecanismos da religião, e não da ciência. Kant não fala de uma extinção sua,
mas de uma refundação, onde “a dificuldade intrínseca e a oposição externa não
nos afastem de uma ciência tão indispensável a razão humana, cuja raiz não
poderia estragar-se ainda que se cortassem todos os seus ramos exteriores e
que, mediante um método diferente e oposto ao que até hoje tem sido empregado,
pode adquirir um útil e fecundo desenvolvimento”.
De certa forma, a metafísica vem se reinventando, através da
especificidade da ontologia, ou dos estudos sobre o tempo, ou ainda coisas mais
malucas como os mundos possíveis, e com isso, de certa forma, as preconizações
de Kant vão fazendo sentido, ainda que haja pensadores posteriores que destoem
de seu pensamento. Mas é com essas novidades que se consagram filosofias. E
cafés.
Bons ventos a todos!
Recomendação de leitura:
Pela terceira vez, vamos olhar para a Magnum Opus kantiana.
É difícil, mas é obrigatória. Desta vez, em versão on line.
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Disponível em [http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2246]. Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia). Acesso em 01.10.2024.
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