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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Cultura coletiva e psicopatia

Olá,

Tenho recebido através de e-mail algumas manifestações sobre a conveniência e até mesmo a necessidade social do porte de armas. Compreendo essa posição, em especial em um país com leis frouxas e ineficiência estatal na gestão do combate à violência. Nessas circunstâncias, a defesa pessoal é a única coisa a ser feita mesmo. Porém, é preciso tomar cuidado com o uso indiscriminado de armas e com o acesso da população em geral a elas. As causas da violência são tão amplas que nenhuma lei ou regra será capaz de prever todas as circunstâncias possíveis.

Em abril deste ano, escrevi o texto abaixo em outro blog, baseado nos acontecimentos de triste memória em uma escola fundamental do Rio de Janeiro. Procuro correlacionar o desmanche das instituições coletivas com os casos de violência movidos pela alienação do mundo moderno. O texto está praticamente na íntegra. Vamos a ele:

"Já foi decidido o que será feito com relação à procissão do Domingo de Ramos: não haverá procissão de Domingo de Ramos. Teremos a Virada Cultural.
Peço, no entanto, cinco minutos de atenção.


Será que podemos fazer algum tipo de relação entre o que não acontecerá mais no próximo domingo e o que aconteceu esta semana no Rio de Janeiro?
(Abro parênteses: no dia 07/04/2011, um jovem de nome Wellington Menezes de Oliveira matou 11 crianças em uma escola no Realengo, bairro da cidade do Rio de Janeiro, em um ato muito semelhante a vários casos ocorridos pelo mundo afora, em especial nos EUA).

Infelizmente sim.

Em todos os casos semelhantes ao que aconteceu na escola carioca, só conseguimos achar um ponto em comum: foram delitos praticados por pessoas solitárias. Não é a solidão de quem contempla uma obra de arte, ou se absorve em um livro, ou se põe a refletir seriamente sobre uma questão. É a solidão de quem fracassou.

Que fracasso seria esse? Ora, vivemos em uma sociedade baseada na dicotomia individualismo-sucesso, um sucesso que precisa ser alcançado cada vez mais cedo, sem maturação, sem considerar a hipótese de que as coisas podem não dar certo. E são gerados ídolos como Justin Bieber, Neymar, Sebastian Vettel, Luan Santana, Miley Cyrus. Será que todos nós conseguimos nos enquadrar em um perfil desses?

A verdade é que o sucesso do indivíduo não representa o sucesso do coletivo. E nós perdemos a dimensão do coletivo. A maior prova disso é a Virada Cultural, que será realizada em pleno Domingo de Ramos.

Toda liturgia é realizada por uma comunidade, não existe celebração de uma pessoa só. Nas igrejas, resta um dos últimos espaços públicos que ainda temos ao nosso dispor. Uma cerimônia é sempre a realização de uma coletividade, de uma comunidade, como eram as partidas de futebol feitas na rua, ou uma festa junina, ou um cordão carnavalesco, coisas que já não existem mais. Lá, as gerações mais antigas transmitiam seus valores e seus costumes às gerações que estavam chegando, e assim era escrita a história de uma cidade, de uma etnia, de um povo.

Hoje, temos a Virada Cultural. Cultural... Não creio que veremos os pais levando seus filhos à uma rave, os avós levando seus netos à uma balada. Há uma desagregação, que nem mesmo o fato da formação de grupos de amigos resolve. A tradição se quebrou, a história se rompeu. Uma pista de tecno não é um salão de dança. Cada um dança por si, não há um entrosamento entre pares ou trios, ou pequenos grupos. Podem rir à vontade, mas uma quadrilha caipira contava uma história, era uma dança com significação, por mais ingênua que fosse. E uma rave, o que nos diz? Que legado nos deixará?

Deixará o legado da individualidade. Quem não deixará de participar do começo da Semana Santa por causa da Virada Cultural? Quem participará do coletivo, do comunitário, do compartilhado? A regra será se divertir ao máximo, conseguir tanto prazer quanto for possível. Qual o espaço do coletivo, se a satisfação é individual?

A quem não tem para si a comunidade, só resta o individualismo. Só que o individualismo traz consigo a solidão. Confundimos individualidade com individualismo. Um homem procura se formar sozinho, mas tem necessidade de se relacionar com o meio, um meio que cobra sucesso a qualquer preço. É preciso saber o quanto cada um consegue suportar de fracasso e solidão. Este rapaz carioca não suportou o peso de sua desgraça. Tenho muito dó do que aconteceu com as crianças, é inevitável que eu me coloque no lugar dos pais delas, tenho filhos e afilhados que acabaram de deixar de ser crianças. Morro de raiva dos Nardonis, do Misael, do Pimenta, do Chambinha e de muitos outros, mas não consigo ter raiva deste rapaz. Parece-me (veja, estou falando de um fato 'fresco', podem aparecer desdobramentos que mudem minha opinião) que o Wellington não teve suporte psicológico para fazer frente às suas dores, enlouqueceu. Não agüentou o fracasso que uma sociedade baseada no valor do indivíduo lhe impôs.

O que teria acontecido se este rapaz tivesse consciência de sua função na comunidade? Será que teríamos assistido a este ato tresloucado?

Uma comunidade tem a força de seus indivíduos somados, adicionado ao que ela por si só representa. A soma das partes, assim, é maior ainda que o todo. Impedir uma procissão de domingo de Ramos não representa apenas um insulto a uma coletividade religiosa. Significa, principalmente, que o nosso organismo social vive de fragmentos esparsos, que não se considera mais em seu todo. A Prefeitura tenta reunir as pessoas uma vez por ano, e, quando o faz, mete os pés pelas mãos, simplesmente desprezando um dos últimos atos que as pessoas ainda tem o prazer de realizar juntas.


PS: não sou contra a Virada Cultural, tanto que pretendo ir a alguns shows, mas lamento profundamente que a política de cultura da Prefeitura se limite a um evento anual, que se baseia mais na resistência física das pessoas do que na formação intelectual e na constituição de uma tradição cultural."

Recomendação de filme:

Por fim, recomendo um filme que investiga a fascinação dos estadunidenses com relação às armas de fogo, e dá enfoque aos casos em que são realizados grandes massacres por psicopatas. A semelhança é mais do que evidente.

MOORE, Michael. Tiros em Columbine. Filme. EUA, 2002. 180 min.

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