Marcadores

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Pequeno guia das grandes falácias - 53º tomo: o estilo sem substância

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

O centro de SP é a própria imagem do caos. Carros e pessoas se confundem e se amassam nas praças e ruas estreitas, típicas de um tempo em que sequer se sonhava com automóveis e caminhões, apenas as carroças e tropas de burros. Afinal de contas, a Capital da Vertigem é uma das cidades mais antigas do Brasil, que nasceu como uma espécie de repouso para quem acabava de vencer a subida da Serra do Mar. Por conta disso, o centro mais histórico não tem lá muito para onde se expandir, a não ser que se derrube tudo (ainda mais do que já se derrubou).

Eu moro em uma dessas ruas estreitas e cheias de lixo, como já contei para vocês, e há bem poucos prédios onde more mais gente ao meu redor. Por isso, as noites são o exato oposto dos dias: um silêncio que permite ouvir os morceguinhos vindo se saborear com as mariposas de minha arandela. E isso se repete todas as noites. Quer dizer, quase todas…

Eu normalmente não me incomodo com ruídos da vizinhança. São normais e eu mesmo já fiz muito barulho, principalmente quando ainda tentava viver de rock’n’roll (veja, veja e veja). O guaio é quando você é acordado pelo ribombar das bazucas do carro de algum infeliz quando você já está na cama. E olha que eu não durmo cedo. De tempos em tempos, o mesmo fenômeno se repete, e vem gente que não sei nem de onde para fazer um chaveirinho de pancadão na rua paralela à minha. Só não podemos dar esse nome com acerto e precisão porque o repertório é menos de funks cariocas e mais daquilo que se convencionou chamar de sertanejo universitário.

Bem… até isso me faz filosofar, mesmo com toda raiva do mundo. E a verve poética que me chega ao ouvido me faz lembrar da falácia do estilo sem substância. Vamos entender isso.

O amadurecimento nos traz um viés crítico que tira um ranço típico da juventude. Eu, por exemplo, impunha a mim mesmo um detestar de certas tendências justamente por não estarem na mesma caixinha à qual eu me propunha a estar. Só que eu fui me livrando desse tipo de bobagem, à mesma media que o cabelo começou a rarear e a barba a embranquecer. Acho que isso já aconteceu com todo mundo. Hoje em dia, o samba que eu dizia não gostar passou a fazer parte de meus acervos, como também a bossa nova, o fado, o baião, o tango. Só do tal sertanejo eu nunca consegui livrar a repulsa.

Eu não falo daquele sertanejo mais raiz, feito por aquilo que costumávamos chamar de dupla caipira. Esses eu respeito e até gosto, porque não só são músicas mais puros e intuitivos, mas também porque dão o testemunho vivo do êxodo rural que tanto afligiu nossos antepassados. Também não falo de aperfeiçoamentos musicais mais sofisticados, como Almir Sater, Renato e Chico Teixeira, Passoca, Pereira da Viola, Braz da Viola, Paulo Freire e outros. Desses, eu tenho discos e recomendo neste espaço (aqui). Meu problema é com uma linha de música que teve seus primeiros sinais na década de 70, foi para a grande mídia na década de 80 e se transformou nisso que ouvimos hoje.

Vou pedir desculpas para quem é fã do estilo. Não estou aqui pregando verdades absolutas nem fatos imutáveis, como bem ensinou Nietzsche, e pode até ser que (quem sabe?) venha a apreciá-lo um dia. Portanto, lembre-se que se trata de um mero suporte para exemplificar o que eu quero e não me xingue, apenas discorde. Para tanto, vou colocar minha biografia mais uma vez a meu serviço.

Eu creio que esse bode com a vertente vem do meu pai, com um grande reforço da minha mãe. O que acontecia era que o velho era muito fã de duplas, como sói acontecer com pessoas vindas do interior. E ele gostava muito de ficar ouvindo suas musiquinhas pela manhã, antes de sair para trabalhar, em um programa do Zé Béttio, muito famoso quando eu era criança. Pior ainda nos finais de semana, quando, já bêbado, o genitor perdia a tramontana e desandava a pôr suas longas estradas da vida no último volume, seja no radinho de pilha, seja na vetusta vitrola da sala. Minha mãe fazia esgares de desânimo, e aguardava pacientemente o indefectível sono do patriarca para primeiro baixar o volume à metade, depois mudar para um som qualquer no rádio e finalmente desligar o aparelho por completo, técnica esta que garantia o sono contínuo do patriarca. Um belo dia meu pai apareceu em casa com um aparelho três-em-um*, que vinha guarnecido com duas caixas acústicas. Eu fiquei todo empolgado com aquele equipamento caro, e me prontifiquei a ajudá-lo a desemaranhar os fios e planejar a distribuição pela sala. Minha mãe observava tudo com a cara contrafeita, quedada silente. Meu pai nem notou, mas eu sim, e fui perguntar para ela o porquê, em local discreto. "Agora só vai faltar montar um galinheiro no quintal", disse. Minha mãe tinha um jeito meio cifrado de falar as coisas.

No disco de teste, entendi perfeitamente o mal disfarçado azedume da minha mãe. "Quando olho na parede e vejo o seu retrato, as lágrimas ganham meu rosto num pranto sem fim", foram os versos inaugurais berrados pelo National SS8000, comprado em prestações na Casa Bahia. E o meu pai era o protótipo do homem que encarava uma compra como uma conquista. Como era duro conseguir comprar qualquer coisa do gênero, um aparelho desses era uma das pequenas vitórias do homem suburbano, saído de sua terra para tentar superar, por pouco, sua miséria rural. Ficou por dias e dias e dias desfiando sua pequena coleção de elepês e compactos, pouco incrementada porque, ora essa, era preciso pagar a cara regalia. Minha mãe estertorava enquanto tentava tirar o atraso de suas costuras, e agradecia aos céus porque a estridência do motorzinho de sua máquina de costura encobria um pouco a cantilena chorosa que saía das caixas. É bem fato que já a essa época a velha tinha desesperançado do casamento, e tudo o que meu pai fazia lhe irritava, mas também é verdade que meu pai ficou enciumado com sua máquina de fazer chorumelas, até eu compreender que ninguém mais tiraria proveito dela, e também eu fui aprofundando meu azedume, a ponto de me mandar para a rua todas as vezes em que começava o recital.

Tá… mas por que eu superei o desgosto com o sertanejo raiz e não com sua derivação mais popularizada? É difícil de explicar, mas eu acho que tem muito a ver com o vazio do seu universo. Vou traçar uma rota das minhas percepções pessoais.

Até a década de 60, o padrão da música sertaneja era a dupla acompanhada por viola e violão tocados pelos próprios cantores, algumas vezes também por sanfona. Os vocais adotavam um padrão onde um dos integrantes usava uma voz cantada na terça baixa da tônica, que por sua vez era cantada pelo outro membro. Trocando em miúdos, um cantava a melodia principal, e o outro cantava em um tom um pouco mais baixo, padrão que persiste até os dias de hoje. Entretanto, até esse momento, as duplas procuravam fazer uma espécie de acorde vocal**, sem que uma voz tivesse muito destaque com relação à outra. Os temas falavam da vida no campo e das saudades da vida simples do interior. Esse tipo de composição é possível de ouvir em Tonico e Tinoco, Pedro Bento e Zé da Estrada, Belmonte e Amaraí, e os melhores de todos, Pena Branca e Xavantinho.

A partir da década de 70, houve uma mudança de rumo, com a introdução de instrumentos de sopro, teclados e violinos. A temática tipicamente caipira é substituída por um romantismo transbordado e trágico. Com relação à técnica vocal, passou-se a dar destaque muito maior à primeira voz. A harmonia das duplas mais antigas foi substituída por um floreio cada vez mais destacado do cantor principal, com agudos mais e mais penetrantes, enquanto o outro virou uma espécie de capacho sonoro. Os representantes máximos dessa escola são Milionário e José Rico, mas lá também estão Trio Parada Dura, João Mineiro e Marciano, Duduca e Dalvan, Mato Grosso e Matias e outros mais.

Do meio para o fim da década de 80 o fenômeno foi exacerbado, chegando o pesadelo mais autêntico. A eletrificação da sonoridade aproximou as duplas de um conceito industrial e das músicas tocadas nas rádios FM, onde são praticamente abandonados os instrumentos originais: viola, violão e sanfona são substituídos por guitarras e teclados, como qualquer banda mainstream. A romantização das temáticas chega ao seu ápice, de forma a ganhar o desonroso apelido de "música de corno", e o campo cantado como objeto da nostalgia praticamente deixa de existir. A única manutenção do antigo sertanejo são os vocais com o baixo na terça, sendo que, em alguns casos, a segunda voz é um mero grunhido, enquanto a primeira faz o tímpano tremer de tão esganiçada. Isso nasce especialmente com Chitãozinho e Xororó, mas se estende até hoje, sem perspectiva de mudanças: Zezé de Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, João Paulo e Daniel, Bruno e Marrone... É exatamente esse tipo de som que estampa meus tímpanos nessas inglórias noites.

Ora (direis de novo), se fosse um funkão carioca, com sua peculiar repetitividade e pobreza lírica, não seria pior ainda? Não, e eu explico. Primeiro que a repetição excessiva tão típica do ritmo, apesar da irritação inicial, vai variando para uma sensação nauseabunda típica dos excessos, que, no final das contas, desemboca no mesmo efeito entorpecente dos mantras e das ladainhas. Ou seja, ainda que seja um daqueles sonos que não propiciem descanso, o fato é que você acaba dormindo pelo tédio. E o mais importante: os funkeiros, ao contrário dos sertanejos, não se consideram grandes artistas que fazem obras do mais puro enlevo musical. O funk carioca, já foi dito, é uma espécie de não-arte, de não-música, um dadaísmo harmônico, uma negação musical. Sabem que são provocadores e que incomodam, porque há toda uma crítica à futilidade e excessiva sexualização de suas letras, e apelam justamente para esse sentido meio marginal. Isso é proposital, nenhum deles quer se arrogar virtuosismo. Não é isso o que fazem os sertanejos. Eles se consideram verdadeiramente ótimos, porque se cercam de bandas formadas por músicos renomados, usam equipamentos da mais alta qualidade, possuem motorhomes que mais parecem mansões e pagam caro para que especialistas em músicas de mercado componham seu repertório. O resultado são espetáculos onde tudo é grandioso, que ocupam enormes espaços, que consomem imensos recursos, que arrastam descomunais multidões, que auferem titânicas quantias, mas que, do ponto de vista puramente artístico, é vazio. Suas letras não dizem absolutamente nada, e não pelo fato de serem populares, mas por não estimularem o cérebro de ninguém. Uma comparação rápida:

Enquanto Cartola fala assim de amor...

Queixo-me às rosas
Mas que bobagem, as rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

...e Orestes Barbosa fala assim...

A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
E tu pisavas nos astros distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão

... Simone e Simaria falam assim...

Adoro quando corro pra você, assustada
Você é o meu herói, matador de baratas
E depois de tudo a gente dá risada

... e Leandro e Leonardo falam assim:

Em vez de você ficar pensando nele
Em vez de você viver chorando por ele
Pense em mim, chore por mim
Liga pra mim, não, não liga pra ele

Compreendam novamente que minha crítica é absolutamente pessoal. Não precisam me dizer quem é mais rico, quem come mais quem, e que, enquanto eu filosofo pobre em um apartamento velho de mais de setenta anos, os precitados não só vivem abastados pela sua música, mas por inúmeras outras atividades que os tornam ainda mais nababos. Existirá quem os mesmos detestem, como filósofos ou professores, e isso não os empobrecerá nem um cruzado de mel coado, mas o fato é que sua produção não tem conteúdo algum. Por trás dos músicos renomados que eles contratam, dos equipamentos da mais avançada geração, das luzes mais ofuscantes de seus shows, há o vazio. Um autêntico ensopado de pedras preciosas, as mais caras de todas, que não alimentam ninguém. Uma forma elaboradíssima sem conteúdo algum. Um estilo sem substância.

Como eu disse lá no começo, e também como já contei neste texto, quando estou deitado e impossibilitado de dormir, sempre me resta a Filosofia, girando pela minha cabeça inerte. É que o furor me tira o sono, mais do que o próprio barulho, e aprofundar os pensamentos não deixa de ser uma maneira de tirar o foco do inferno sonoro. E começo a lembrar de quantas vezes uma bela forma oculta um conteúdo inane. Isso é especialmente válido na retórica. Quantas e quantas vezes um discurso empolado carrega uma construção que fica muito aquém do valor semântico em si. É exatamente o que vemos expresso nas sentenças atenuantes típicas da figura de linguagem conhecida como eufemismo, com uma de suas variações conhecida por circunlóquio, a palavra rodeada, como o próprio nome diz, e que serve para suavizar uma expressão que, dita diretamente, pode soar agressiva ou antipática. O caso mais clássico são aquelas palavras que são proibidas, como morte, câncer ou diabo (leiam mais aqui). Usa-se uma série de expedientes para não se falar a palavra maldita, e enriquece-se uma forma que tem um conteúdo muito mais simples e direto. O que é mais conciso de se dizer? Que fulano morreu ou que foi dormir com os anjos ao lado do pai?

Ainda aqui temos diferentes formas para expressar o mesmo conteúdo. O grande problema acontece quando damos estatuto de verdade para alguma expressão meramente por sua forma mais elaborada. É aqui que temos uma falácia, aquela que mencionei na abertura: o estilo sem substância.

Nesse tipo de falácia, a construção de uma estética é prioritária para o convencimento de quem ouve. Alguns dos casos mais clássicos são os dos políticos, que possuem uma espécie de “quintalzinho” moral de onde não devem sair, para fins de não ferir susceptibilidades do eleitorado. Isso inclui uma fala sem vacilos, um olhar direto, uma amplitude vasta de qualquer temática (ainda que sem substância), uma certa agressividade com adversários, a rejeição a temas polêmicos, um discurso favorável à moralidade reinante e um ensaboamento para assuntos que lhe são problemáticos. Essa espécie de gabarito é quase uma unanimidade nos tempos do Brasil República, que demonstrou um desgaste muito grande nos tempos atuais, embora a recentíssima eleição para prefeituras tenha demonstrado um regresso do político clássico ao poder. Talvez seja esse mais um dos fatores que ajudaram os dois últimos presidentes eleitos a chegar ao cargo: o discurso fora do padrão. Dilma Rousseff com sua fala confusa e o atual mandatário com seu estilo bronco são, de certa forma, mais um elemento do anticonvencionalismo de quem buscava algum ar de mudanças.

É claro que é perfeitamente possível falar argumentos válidos e sólidos com termos rebuscados. O grande problema acontece quando o estilo deixa a visão crítica obnubilada pela estética do discurso, e é mesmo uma tendência que sejamos seduzidos por palavras bonitas, pelo simples fato de que há duas instâncias lutando em nossa cabeça: a da veracidade do argumento em si e a da forma como ele é proferido. Às vezes esta última é que faz o jogo ser vencido. Ou perdido.

Bons ventos a todos!

Recomendações de audição:

Vamos só de música caipira hoje. Comecemos pelo esplêndido álbum de Almir Sater, somente instrumental (daí seu nome). Em alguns momentos, esse disco beira o folk prog, dada sua elaboração e habilidade na execução. Se alguém quiser saber como pode soar bem uma viola, é aqui. Sua música mais conhecida é Luzeiro, o tema de abertura do programa Globo Rural. Mas escutem com atenção à música Doma.

SATER, Almir. Instrumental. São Paulo: Som da Gente, 1985. 29:16 min. 1 LP.

Falei de Pena Branca & Xavantinho como a melhor dupla caipira no estilo antigo que conheço, embora sua carreira não tenha se desenvolvido exatamente na época do sertanejo raiz. A referência que faço aqui junta a eles outro grande da música sertaneja, Renato Teixeira. Desse jeito, mato três coelhos com uma só paulada. E é ao vivo, para não deixar dúvida do talento de ninguém. A versão em CD tem cinco musicas a mais. Muita atenção ao violino de Zé Gomes, um daqueles músicos ocultos que todo mundo deveria conhecer.

PENA BRANCA & XAVANTINHO; TEIXEIRA, Renato. Ao Vivo em Tatuí. São Paulo: Kuarup, 1992. [73:21]. 1 CD.

Por fim, vamos de Passoca, escrito assim mesmo. Não se trata exatamente de um artista do âmbito sertanejo, mas da Vanguarda Paulistana (de quem ainda falarei um dia), o movimento oitentista que chacoalhou o underground de Sampa. Coloquei aqui essa recomendação exatamente para mostrar um intercâmbio: um movimento rico lançando mão de uma música rica.

PASSOCA (Marco Antônio Villalba). Sonora Garoa. São Paulo: Barclay, 1984. 31:58 min. 1 LP.

* Para quem é mais jovem e nunca viu um desses, um três-em-um era um aparelho que era composto por um toca-discos, um toca-fitas e um receiver de rádio. Sua sonoridade era distribuída em caixas acústicas, normalmente duas, que eram instaladas separadamente, de forma a permitir o efeito estereofônico.

** Em teoria musical, um acorde necessita de, no mínimo, três notas para serem combinadas. É claro que não é possível constituir um acorde com apenas duas vozes, mas a sensação buscada nesse caso é de unicidade.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Eclesiastes e sua Filosofia do Tempo - outras observações sobre o livro mais filosófico da Bíblia

Pensamento!
Mesmo o fundamento
Singular do ser humano
De um momento, para o outro
Poderá não mais fundar
Nem gregos, nem baianos...

Gilberto Gil - Tempo Rei

Olá!

Tempos atrás, em uma dessas turnês etílicas que fiz a Monte Alegre do Sul, aproveitei uma promoção de lichias que ocorria em uma pequena chácara na beira da estradinha que leva ao distrito de Mostardas, quase na saída da cidade. O preço estava muito bom, dada à safra generosa daquele ano, e o dono permitia que se chupassem frutas à vontade, enquanto se deslindava a aquisição da sapindácea de origem chinesa, tão bem adaptada ao clima tropical da Ilha de Vera Cruz. Enquanto a patroa usava toda a sua verve otomana para negociar vantagens, fiquei de namoro com um pé de manga gigantesco que havia na entrada da pequena herdade. Todo cheio de frutas ainda verdes, estava tão carregado que era fácil de pegar várias mangas só esticando a mão. Imaginei se não haveria nenhum problema em aviar uma delas à minha algibeira, mas não o fiz sem expressa autorização do chacareiro. Chega de falar difícil. Eu queria era mesmo pegar uma manga. Perguntei-lhe:

“O senhor me autorizaria a tungar uma dessas, mesmo verde?”

Sua resposta foi simples o suficiente para me ensinar algumas coisas: “Essa manga ainda não é de tempo. Se você levar, não vai ter proveito. Ela vai apodrecer antes de ficar madura. Espera um pouquinho”.

Foi até o fundo da roça, de onde era possível ver outras mangueiras. Trouxe-me outras mangas, iguais-que-nem para olhos urbanos. E disse:

“Essas sim. Pode esperar uma semana que elas vão ficar boinhas. Se estiver com pressa, embrulha no jornal que em três dias já dá para comer, mas não vão ficar tão gostosas”.

Atrevi-me a perguntar qual seria a diferença entre o produto de ambas as árvores, e o homem me explicou que há um tempo exato para que uma manga possa ser colhida com proveito. Demonstrou algo sobre a textura da casca, mas eu não consegui perceber a diferença, falando que sim apenas para parecer educado. Mas foi dito e feito: uma semana depois as mangas estavam realmente boinhas para consumo. Há, realmente, um tempo para plantar e um tempo para colher. E isso me remete ao Eclesiastes.


Ora (direis),
justo você vai falar de religião? Não, vou falar de Filosofia. Quando falamos deste livro, temos diante de nós o escrito mais filosófico de toda a Bíblia, que se aproxima muito de pensamentos que trafegam entre o ético e o lógico, e se afastam do metafísico, como acontece com o Budismo, para citar um exemplo. Eclesiastes, ou Qohelet, não se propõe a contar uma história, a desfiar moral, a fazer elegias e louvores... Eclesiastes se propõe a filosofar, e essa é nossa matéria-prima. E sua filosofia é tão rica que há muito que extrair dele. Comecei há tempos atrás, em uma postagem que me rendeu muitas visualizações, e da qual recomendo muito a leitura antes de prosseguir aqui. Fica a seu critério, incomum leitor.

No texto mencionado, depuro como Qohelet assume a posição parmenidiana de mudança como ilusão, baseada em uma de suas frases fundamentais: não há nada de novo debaixo do sol. Mas é no terceiro capítulo do escrito que encontramos o elemento que permeia e dá substância a todo o sentido desta conclusão: o tempo.

Vamos ver. A assertiva sobre a manga do meu caro sitiante encontra-se perfeitamente gravada nos dizeres do filósofo que redigiu Eclesiastes, com toda a carga poética que lhe é peculiar:

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Tempo de matar e tempo de curar; tempo de demolir e tempo de construir. Tempo de chorar e tempo de rir; tempo de gemer e tempo de dançar. Tempo de atirar pedras e tempo de ajuntá-las; tempo de abraçar e tempo de apartar-se. Tempo de procurar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de jogar fora. Tempo de rasgar e tempo de costurar; tempo de calar e tempo de falar. Tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz" – Ecl 3, 1-8.

Tudo tem seu tempo, seu momento correto de acontecer, e a nós resta aguardar. Como eu disse, há um fundo lírico muito intenso na maneira como Eclesiastes cuida da questão do tempo, especialmente no navegar chiaroscuro das suas dicotomias, mas num primeiro olhar temos uma afirmação que pouco passa do intuitivo. Afinal de contas, é quase que uma característica universal humana pensar em oposições. Mas notem que, por trás desse véu de poesia que fica entre o simples e o ingênuo, há um significado mais profundo.

Vamos falar rapidamente sobre a dialética como ferramenta filosófica. Grosso modo, seria a arte do diálogo na busca de respostas às questões que mais nos afligem. Entretanto, quando pensamos no jargão, a dialética não é uma mera troca de ideias, e sim uma espécie de polarização entre conceitos, onde as ideias colocadas em pontos opostos vão se “combatendo” para extrair uma conclusão nova. Já nos tempos de Zenon de Eleia, talvez contemporâneo ao autor de Eclesiastes, o uso de contradições que caminham de um lado para o outro eram construídas para se tentar espelhar a realidade. Este foi um filósofo que se alinhou muito a Parmênides e, como tal, apostava na permanência perpétua do Ser. E usava muitos paradoxos para justificar suas teses*. Entretanto, a percepção da mecânica dialética, desse trafegar entre opostos, foi, ao longo do tempo, transbordando de uma mera ferramenta filosófica (como ocorre com a Lógica) para constituir uma verdadeira Filosofia da História: a estrutura com a qual a História (ou seja, nosso tempo realizado) se movimenta, lembra em muito a dialética que nasceu com os pré-socráticos e desembocou com toda sua majestade no Geist hegeliano e em sua derivação mais famosa, o materialismo histórico-dialético de Marx (leiam mais aqui). Para resumir, estes filósofos entendiam que a História não se deslinda linearmente, como se o tempo fosse um grande vetor movido pelo acaso ou por uma divindade, mas ao sabor de suas contradições, em uma espécie de zigue-zague.

A Filosofia do Tempo de Qohelet já dizia isso, com todas as letras, embora seu tom pessimista pareça lhe tirar um bom tanto de objetividade. É preciso lembrar que as terras judaicas viviam de mão em mão no período em que esta obra foi escrita, sob domínio de assírios, babilônios, persas e romanos, sucessivamente.  Mas isso não oculta outra característica que vem embutida nesse modelo dialético. Poderíamos achar estranho que tanto apoio na dialética esteja situado em um texto que, apesar de filosófico, não deixa de ser religioso. A volatilidade do tempo percebido, que migra de lá para cá dá uma sensação de impermanência que não coaduna com um deus. Mas é nisso que Eclesiastes é diferente dos demais textos bíblicos em geral, na sua adaptabilidade a circunstâncias que escapam do teológico.

Ao se pensar em estados extremos, obrigatoriamente somos levados a pensar em tudo o que está entre ambos. Em uma régua de trinta centímetros, temos o ponto zero e o ponto trinta, o começo e o final. Tudo o que é possível de medir com essa régua está entre esses dois pontos. A dicotomia entre esses limites carrega consigo uma outra constatação que fica mais em seu substrato: o tempo é uma totalidade. Essa ideia é tão poderosa que vai ser retomada, das mais diferentes maneiras, por outros filósofos ligados à Religião, como Santo Agostinho e Boécio, e até mesmo na moderna ciência de Einstein. Como é isso? O semear e o colher são os limites que perfazem a vida de um vegetal. Representam o ato gerador de seu nascimento e sua morte, princípio e fim - alfa e ômega, em um linguajar mais místico. Entre alfa e ômega, tudo o mais na realidade simbólica representada pelo alfabeto está incluído, tudo está lá. Da mesma forma, tudo o que ocorre no tempo está situado entre esses dois extremos: o brotar, o crescer, o dar frutos, o desfolhar, o definhar. Todas as dicotomias expostas por Eclesiastes vão sempre no mesmo sentido: entre o amar e o odiar há todas as nuances destes sentimentos, entre o chorar e o rir existem todos os aspectos dos estados de espírito. Ele corrobora toda essa informação no seu versículo 11, onde diz que...

“As coisas que Deus fez são boas a seu tempo. Ele pôs, além disso, no seu coração, a duração inteira, sem que ninguém possa compreender a obra divina de um extremo ao outro” (grifo nosso)

... o que indica que não só a dança dos extremos, mas a presença permanente dos tempos. Que tempo? O tempo percebido, porque segundo ele mesmo, não é dado compreender ao homem a dimensão completa do tempo sempre presente.

Já falei sobre a questão da duração (durée) em outro texto, sob o prisma de Henry Bergson. Nela, temos uma discrepância entre o tempo mensurável e o tempo intuído. É aquela sensação de que um bom jogo de futebol passou como um raio e um jogo modorrento se arrastou infinitamente. Não, ambos os jogos duraram noventa minutos em uma medida de relógio, mas a sensação peculiar a cada um de nós se dá pela intuição, e daí a impressão de diferença entre os tempos. Mas a duração à qual Eclesiastes se reporta é outra. Seu sentido é que o tempo é como um imenso tecido onde todos os pontos já estão devidamente alinhavados:

“Reconheci que tudo o que Deus faz dura para sempre, sem que se possa ajuntar nada, nem nada suprimir (...) Aquilo que é, já existia, e aquilo que há de ser, já existiu; Deus chama de novo o que passou”.

Aqui, podemos enxergar uma forma de determinismo, ou, no jargão religioso, de predestinação. Lembremos que estamos diante de um texto que, embora filosófico, é também teológico. Estando o tempo todo presente, e sendo ele uma criação divina, cabe a Deus determinar que acontecimentos estão disponíveis para serem tornados presentes. Mas, nesse caso, como podemos enxergar o futuro?

O futuro é sempre hipótese. De certa forma sabemos o futuro. Não na forma de previsibilidade de que os métodos científicos dizem, mas no reconhecer a dialética dos tempos. Sempre sabemos que qualquer situação não é estanque, mas que ruma para o seu oposto, o que dá até um medinho quando as coisas estão boas. É bem verdade que essa linha invisível tem lugar para parar, mas há sempre um ponto em que a direção chega e se inverte de mão. E sabemos que isso acontecerá, ainda que não saibamos quando ou como… Há uma discrepância entre aquilo que gostaríamos que acontecesse e aquilo que sabemos que vai acontecer. Ao primeiro sentimento, damos o nome de esperança, mas este é um sentimento subjetivo, ligado aos nossos desejos e vontades, sem a necessidade de nenhuma conotação egoísta, mas da nossa própria natureza desejante. Já o segundo sentimento existe como nosso conhecimento dessa natureza dialética dos acontecimentos. Ainda que não queiramos, sabemos do rumo para a morte, enquanto também sabemos que outros seres nascerão, e estes também perecerão. Sabemos que por mais que sejam belas as paisagens naturais e as obras humanas, também estas terão um fim, e no campo devastado haverá quem vislumbre a chance de uma criação ou um novo florescer. Sendo assim, o futuro existe na forma de espera.

Note-se, portanto, que o tempo vivido não é pura predeterminação, mas uma série de eventos inevitáveis que devem ser encarados por cada um de sua maneira própria, e não como uma pura reação mecânica que já estaria escrita em algum livro qualquer. A proposta do autor de Eclesiastes para defrontar a espera representada no futuro é muito próxima à que foi imaginada por seu provável contemporâneo grego, Epicuro. Já delineei a ética do prazer deste filósofo helênico neste texto, mas dou uma rápida repassada na mesma. A humanidade tem um propósito comum: a felicidade. Seja um objetivo terreno ou uma esperança para outro plano, o fato é sempre o mesmo – todos querem ser felizes. As vias para chegar a este intento podem ser muito diferentes entre si, mas os epicureus observavam que a senda do prazer era, de longe, a mais apropriada e menos dolorosa. Era mais fácil buscar o prazer do que resistir à dor, como preconizavam os estoicos. Entretanto, o prazer aqui pensado não é aquele do poder, da fama, do sexo ou da mesa, mas o fato de se tornar prazenteiro qualquer ato que se pratique na vida. Uma caminhada que se faz pela manhã, uma flor que se cheira, o trabalho que dá forma a um objeto, uma água pura que se beba no rio, tudo isso são pequenos atos que, quando se quer a felicidade, são transformados em prazer. Os dizeres de Qohelet são muito próximos a essa mesma ética do prazer simples, como se pode ver no versículo 22:

“E verifiquei que nada há de melhor para o homem do que alegrar-se com o fruto de seus trabalhos. Esta é a parte que lhe toca. Pois, quem lhe dará a conhecer o que acontecerá com o volver dos anos?”.

Daqui temos uma contradição à própria ação do homem discutida nos capítulos anteriores: a vaidade (hevel) e a futilidade que retira o sentido da vida. Qohelet nos diz que não nos importa uma preocupação doentia com o futuro, porque ele já está posto, não nos cabe fazer mais do que esperar. Sabemos o que vem, mas não como vem, e angustiar-se com isso é inútil. A vida existe no presente, e é nele que deve ser vivida. Parece meio terreno demais, e é, até mesmo porque boa parte da crítica é favorável à tese de que Eclesiastes nasceu primeiro como um escrito puramente filosófico, para somente depois receber seus elementos teológicos. De qualquer forma, repito o que eu disse no meu primeiro texto sobre este escrito fabuloso: é um texto humano, que pode interessar como conhecimento até mesmo para o mais arraigado ateu. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

O texto de Eclesiastes é facílimo de encontrar na internet. Para compor este post, utilizei a seguinte versão:

https://www.bibliacatolica.com.br/en/biblia-ave-maria/eclesiastes/3/

* Não vou me alongar muito em Zenon porque já estou preparando um texto bem mais detalhado sobre sua metodologia dos paradoxos.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Maradona e velho problema de esbarrar na loucura a cada instante

Olá!

Vou tentar ser rápido. Há muito tempo eu não faço um texto ao correr da pena. Mas o momento exige.


Quando eu era pouco mais do que um menino, eu tinha sonhos de fazer uma banda e sair pelo mundo tocando minhas mazelas e sandices. A primeira parte eu consegui, pelo exato tempo que levei para concluir que eu precisava ganhar a vida, e fui burocratizar minha história em um escritório de contabilidade. Mas mesmo assim são passagens importantes da minha história, não só no aspecto artístico, como já pincelei aqui, aqui e aqui, mas de experiência mesmo, como se verá mais adiante. Para isso, vou dar detalhes de dois momentos em que a música passou para um plano secundário em minha efêmera carreira.

Tropa de Choque foi o nome de minha segunda banda, uma agremiação do pós-punk alla Camisa de Vênus, mais dedicada a covers do que a composições próprias. Queríamos colocar Boca de Lobo, mas já havia um comboio com esse mesmo nome e mesma proposta circulando por aí, daí acatamos a sugestão de alguém, nem lembro mais quem. O projeto nasceu em uma tarde de sol de um domingo desses, através do contato de um colega de colégio, o Marcos (aka Argentino, numa coincidência temática apenas ocasional). A ideia da banda nem nasceu na hora. Veio um pouco de tempo depois, quando um amigo de lá do bairro queria uma banda de suporte para participar de um festival. A coisa não deu lá muito certo, mas foi o suficiente para tentarmos a sorte.

Fomos juntando repertório e aperfeiçoando a técnica cada vez mais, e ficando famosinhos naquele quarteirão da Vila Santa Clara, até o ponto de começarmos a arriscar uns barzinhos, o que nos exigiu dar uma, digamos, modificada em alguns documentos, pelo fato de sermos menores de idade, todos. Mas cinco moleques que mal faziam a barba conseguiam negociar com pais e donos de bares para tocar a incipiente carreira? Claro que não. É nesse ponto que entra a figura do Calola.

E quem esse cara? Um rapaz bem mais velho que a gente, muito do boa pinta, que vivia em trajes sofisticados, como se fosse um advogado. Era raro vê-lo de jeans e camiseta. É aquele típico cidadão que passa confiança em uma primeira vista, e se tornou uma espécie de empresário da emergente banda, conseguindo uma rede cada vez mais ampla de lugares para desfiarmos nossas cordas.

Se fosse só isso, nada de mais, como diria o peru na porta do forno. Ocorre que o Calola foi uma espécie de catequista para uma nova religião: as famosas substâncias. No começo, uma paranguinha fina, para todo mundo fazer cachimbo da paz no meio dos ensaios sem chances de perdas totais. Depois, uma perigosa habitualidade, que se tornava mais perigosa ainda naqueles tempos de repressão mais pesada. A história chegou ao ponto de não nos reunirmos mais para ensaiar, mas para marolar. A coisa chegou no meu limite quando nosso papa Calola veio com uns papelotes estranhos, cheios de um negócio que não era verde, nem feitos para fumar. Ele dizia que era melhor de usar nas entradas dos shows, para dar uma “liberada nos instintos”, nos dizeres dele.

Eu sempre fui muito cagão para essas coisas, então achei que era o momento exato de pular fora, o que fiz. De fato, já andava meio indisposto com os demais colegas. Queria partir para um estilo mais maduro, e trabalhar com composições próprias, o que foi acontecer mais tarde, com o Exílio e o Mosaico. Fui franco com os motivos e não fui lá tão bem entendido, mas no fim das contas não ficou muito ranço pra trás, apenas o aprendizado de que as coisas não podem ser sempre baseadas em uma solidariedade a um messias que nos promete o paraíso. O tal Calola foi o único que quis um pouco mais de satisfações com relação ao meu pedido de conta, mas nada de cano na cabeça ou dramas de folhetins.

Anos depois, já mais estabelecido e trabalhando com minhas cançõezinhas próprias na retrocitada Exílio, fui dar um socorro para uma galera que tentava iniciar sua vida artística. Novamente eram companheiros de escola, com um nome bem mais thrash: Sentença de Fogo. O dono da bola era bem cheio de grana, filho de empresário que era, e tinha todos os equipamentos necessários para alegrar o coração dos pobres músicos desvalidos, que compravam microfones a prestação. Bons amplificadores, espaço à vontade e um baixo Rickenbacker 4001 que era absolutamente inalcançável para alguém da minha laia. Entretanto, meu papel lá era outro – fazer vocal e bateria enquanto eles não conseguissem nomes ideais para as duas tarefas. Uma delas era para o irmão mais novo, com o bulímico apelido de Porco, que estava tentando dominar seu ímpeto nos tambores, e a outra foi se espalhando por vários candidatos (modéstia a parte, todos piores que eu). Com isso, fui ficando, ficando e ficando. Coelho na guitarra e Tio no baixo eram bons músicos, e estavam em franca evolução, e às vezes eu tinha até um pouco de vontade de permanecer, embora não quisesse ficar tocando covers de bandas de heavy metal a vida inteira. Como eu já contei, meu barato era outro.

Entretanto, um belo dia apareceu aquele pacotinho que eu já tinha visto nas mãos do pregresso Calola. Ali, não havia riscos, a não ser do pai dos meninos descer com uma peia em nossas costas. Só que eu cocei o piolho na hora, relembrando os dias nem tão longínquos de Tropa de Choque e concluí que, para mim, já tinha dado. Desta vez, aleguei que o Porco (o tal irmão mais novo) tinha que começar a tocar junto com a galera, senão nunca pegaria noção de grupo. E quanto aos vocais, não seria difícil de conseguir, bastando sair da acomodação de ter alguém fazendo a dupla função. Eles ficaram entre tristes e putos, mas sério... meu instinto de conservação e bunda volumosa – ainda bem – não deixaram eu prosseguir naquela casa. Melhor voltar para o velho Exílio, onde as drogas mais pesadas eram a cafeína e a nicotina, consumidas aos borbotões*.

Contei essas duas histórias apenas para lembrar como várias vezes tangenciamos a questão da drogadição ao longo de nossas vidas. E eu só mencionei dois exemplos que foram bem marcantes, porque esses momentos ocorreram incontáveis vezes, às vezes até mesmo em uma inocente viagem. Vamos esbarrando no tema em cada esquina, cada bar, cada faculdade, cada show, cada jogo. E há quem consiga se desviar, há quem não.


No dia de ontem, 25/11 do ano da graça de 2020, morreu Diego Armando Maradona, que nasceu pobre e em condições precárias, em uma favela de Buenos Aires, até ser reconhecido como um dos maiores jogadores de todos os tempos. Aliás, essa dúvida só não ocorre no Brasil, onde Pelé é o rei, e na Argentina, onde Maradona é Deus, com “D” maiúsculo. Como sua morte é recentíssima, a internet está apinhada de material sobre o craque. Mesmo assim, senti-me motivado a falar sobre seu passamento por dois motivos.

O primeiro foi logo que recebei a notícia. Estava em meu home office enfadonhamente costumeiro e minha filha mais nova sentada lá perto, vasculhando o mundo através de seu celular. Ela mesma falou: “Ixe, o Maradona morreu”.  Minha reação foi uma esperada surpresa e ligar a televisão – velho tem dessas coisas. Caiu em uma entrevista ao Casagrande, um dos meus jogadores favoritos da juventude. Ele estava verdadeiramente consternado, por um motivo muito humano: menos que o jogador, é o adicto que falou. “A morte de um dependente químico como o Maradona é a morte de todo dependente químico”, ele falou. Esse foi o principal insight que me levou a escrever este texto.

Mas não é só. O segundo motivo é que eu sou apaixonado por futebol, que acho uma das melhores ferramentas para falar sobre Filosofia, como espelho da vida que é. Usei tantas vezes o esporte bretão como referência neste espaço que daria um belo compêndio. Para quem se interessar, fiz uma listinha incompleta lá no fim deste texto.

Eu nunca fui um fã incondicional do Maradona, dado o fato de ser argentino, o que é uma grande bobagem que hoje eu recordo com vergonha. É um dos maiores gênios do futebol que a humanidade já viu, mas, ao contrário de Pelé, Messi, Zico ou Zidane, foi um tremendo vida torta. Sempre se envolveu em rematadas polêmicas e cansou de fazer bobagens. E é exatamente isso que lhe dá todo o encantamento. Enquanto os jogadores que eu citei formam a beleza dentro do campo, Maradona é um cara que ia para além disso. Ele está na mesma prateleira de esportistas como Nelson Piquet e sua relação tempestuosa com a imprensa, ou como Sócrates e seu engajamento político, ou ainda como Mike Tyson e sua perigosa relação com a criminalidade. São mais que atletas, são personagens que moldaram um modo de ver o mundo que suplanta aquela imagem do herói perfeito, apolíneo. São, antes disso, cada um a seu modo, descendentes de Dionísio, com o amor pelo anticonvencional. Eu resumo a coisa da seguinte forma: jamais gostaria de ter Maradona como genro, mas sua biografia é certamente muito mais interessante de ler do que qualquer um dos perfeitos. Sua vida não é só uma história; é um romance, cheio de percalços.

Por conta disso, Maradona era um daqueles anti-heróis tão caros à filosofia nitzscheana do amor fati, alguém que se apegou tanto à própria vida que acabou morto por ela. Uma vítima da tragédia grega que é a vida vivida em intensidade maior do que a mesma pode suportar. É aquilo que chamaríamos de louco, mas o que é um louco? Erasmo de Roterdã já utilizou da ironia para definir a loucura como indefinível, e Nietzsche, em sua obra Aurora, sugere-nos como temos o direito a ser loucos, porque é a moral ditada pelos donos do poder que arbitra o que é sanidade. E, ainda que de forma inconsequente, a felicidade é pessoal:

“Ao indivíduo, à medida que procura sua felicidade, não se deve dar nenhum preceito sobre o caminho que leva à felicidade: pois a felicidade individual brota segundo suas próprias leis, ignoradas por todos, de modo que só pode ser bloqueado e detido por preceitos que vêm de fora - os preceitos a que chamamos 'morais' são na verdade dirigidos contra os indivíduos e não desejam de modo algum sua felicidade”.

É exatamente quando entendemos que os preceitos que nos apontam focam a uma conformidade que vem de cima que podemos entrar em perigo. Eu corri os riscos que Maradona assumiu, e isso ocorreu, como eu disse, a cada instante. Como não sei bem o que é a loucura (e de resto ninguém sabe), poderia hoje estar no seu mesmíssimo papel, no ponto pequeno do meu universo. Quem mais não é assim?

Maradona foi um louco, na medida em que viveu sua vida louca, e não podemos julgar se sua loucura é pior ou melhor que as nossas próprias. Mas podemos guardar a imagem da luz que se apaga sobre uma camisa dez da Argentina que será infinita, porque a arte dele já tinha sido a nós entregue e estão inscritas nos nossos cânones e memórias, ainda que não desejemos sua trajetória para nós mesmos. Sua arte é legado para o futebol; sua história trágica, para a humanidade.


Não consegui evitar a verve sentimentalóide, mas eu já sou um “jovem” senhor, que viveu o auge da carreira de Dom Diego Armando exatamente no auge da minha própria vida. Não chorei, mas fiquei de fato mexido, como fiquei na morte do Raul Seixas, do Lemmy, do Garrincha e de tantos outros. Peço minhas desculpas. Bons ventos a todos e vida eterna à memória do Pibe de Oro.

Recomendações:

A referência para a obra menciona de Nietzsche é a seguinte:

NIETSZCHE, Friedrich. Aurora. São Paulo: Escala, 2013.

Coletâneas de jogos e gols de Maradona são encontradas às pilhas na internet. Talvez seja mais interessante entender seu caráter complicado através da carreira errática de treinador. Há uma boa série de documentários disponível na Netflix para ver esse seu lado menos conhecido.

MCQUEEN, Angus. Maradona no México. Documentário. Episódios entre 26 – 39 minutos. Cor. Los Gatos (EUA): Netflix, 2019.

* Voltei a dar minhas voltas com o mundo dos tóxicos em minha passagem pelo Mosaico, mas essa história eu já contei em um dos textos indicados neste post.

Sobre goleadas e a dialética que explica os vexames no futebol

Pequeno guia das grandes falácias - 12º tomo - A afirmação do consequente

País do futebol: o que precisamos avaliar para saber se isso é ou não uma verdade

A Portuguesa e a tragédia grega posta em prática - Até quando há de brilhar a cruz dos teus brasões?

Sobre couraças psicológicas e pênaltis mal batidos

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (18 – Filosofia da Linguagem)

O comportamento de manada explica porque temos tanta dificuldade em pensar por nós mesmos (Pequeno Guia das Grandes Falácias – 44º tomo: o Bandwagon, ou Argumentum ad judicium [Apelo à maioria])

Navegações de cabotagem – Um campinho de futebol em Pedro de Toledo e a pergunta que perturba: nós existimos de fato ou somos frutos de alguma percepção?

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 10ª mirada (2ª parte): o distrito de Luís Carlos evocando os princípios e leis da Gestalt

Inferências diversas como matéria-prima para a metodologia científica, ou tempos de saber melhor como funciona a Ciência

Tentativa simples de explicar a metodologia científica com o uso do futebol

E tantos outros...

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Pequeno guia das grandes falácias – 52º tomo: a armadilha de Kafka (uma falácia polêmica e perigosa)

K. não respondeu mais nada; pensou: será que eu preciso me deixar confundir ainda mais pelo palavrório destes subalternos - eles mesmos admitem que o são? Seja como for, falam de coisas que absolutamente não entendem. A segurança deles só é possível por causa da sua estupidez – Franz Kafka, O Processo

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

Quando você está solto pelo mundo, é natural e mesmo desejável que varie suas atividades para além daquilo que é necessário. O problema são os tempos de pandemia, infinitos, que te deixam um bocado amarrado (ao menos para quem tem vontade de preservar a si e aos seus). Dessa forma, não tenho um campo de possibilidades muito aberto, e continuo fazendo as mesmas coisas que fazia logo no início da desventura, há mais de sete meses. Isso inclui explorar a internet em busca de bandas antigas, como já narrei aqui. Claro que sou fã das sendas do bom e velho rock’n’roll, como conto para vocês há tempos, e esse é o perfil de minhas buscas ainda hoje.


Em uma dessas, fui fazer uma maratona Black Sabbath, de quem sou fã. Não é nada muito original, mas é como o bom e velho arroz-com-feijão: por mais que você tenha carnes e peixes do mundo todo ao seu dispor, tem momentos em que tudo o que você quer é uma boa e simples comidinha caseira. A comparação não é muito própria, mas é o que me ocorreu no momento. Só que eu fui atrás de músicas específicas, ao invés de utilizar uma das muitas playlists encontráveis na internet. Chamei Supertzar, chamei Electric Funeral, chamei Sabbra Cadabra, chamei Fairies Wear Boots. Em todas elas, o algoritmo me obedeceu perfeitamente, como se compreendesse minhas intenções. A coisa deu chabu quando chamei The Warning. Ao invés de surgir a música do lado B do primeiro álbum dos britânicos, aquele da bruxa, surge um vídeo de umas menininhas. Menininhas mesmo, muito jovens, até um pouco desengonçadas, com uma certa desproporção dos instrumentos que tangiam. Torci o nariz e rolei um pouco a página, em busca da música procurada. Mas havia outros e mais outros vídeos das mesmas garotas, e concluí que deveria descartar a preguiça e especificar um pouco melhor minha busca. Entretanto, a curiosidade venceu a desesperança e, sei lá por qual motivo, cliquei no vídeo das meninas, certo da decepção. Não e não e não!!!

The Warning é o nome de uma banda mexicana, composta pelas irmãs Daniela, Paulina e Alejandra, todas de 20 anos para baixo, e que faz um som que vai no meio termo entre o Heavy Metal e o Grunge. Não há nenhuma novidade crucial no som delas, mas uma qualidade surpreendente no produto final, muito melhor do que vem sendo produzido nesses tempos modorrentos. Embora não sejam virtuoses, são ótimas musicistas, especialmente se levarmos em conta a pouca idade, e vem claramente evoluindo em seus misteres, o que gera boas perspectivas. Algumas coisas em especial me trouxeram encanto para o que vi:

1. A banda é um power trio, formação que se consagrou nos anos de ouro do hard rock, com bandas como Blue Cheer, Cream, Beck Bogert and Appice, ZZ Top, Jimi Hendrix Experience, Rush, Triumph, Motorhead, Budgie, Mountain e muitos outros. É um formato que eu adoro, talvez pelo fato de que minha primeira banda tenha sido um desses, ou pelo reconhecimento de que os membros do grupo precisam se desdobrar na função de vocalistas, que baixo e bateria precisam segurar a peteca sozinhos na hora dos solos, o que as garotas em questão fazem com a mesma qualidade conseguida pelas senhoritas do Rock Goddess (outro power trio poderoso);

2. Todas as três componentes também cantam, o que permite a formação de contrapontos e coros mais preenchidos, como acontece com Uriah Heep, Birtha, Vanilla Fudge, Fanny e outras bandas;

3. Cada uma delas faz vocal solo. Isso não é só prova de habilidade, mas dá uma possibilidade de variação na execução das composições. Entre três irmãs, há uma inevitável variabilidade entre vozes, o que pode ser usado a favor de seu trabalho: uma voz mais grave aqui, mais sussurrada lá, mais gritada acolá, mais rascante para além. Tudo isso aumenta o espectro do que as meninas podem fazer;

4. Usam teclados com parcimônia e sabedoria, já que a vida musical delas começou exatamente dessa forma. Sabemos que há uma medida certa para se usar tecladeiras nessa área do rock, e a dose me parece bastante justa – bem pouca;

5.  Elas crescem muito em energia no palco. De fato, bandas aclamadíssimas como o Nirvana perdem demais quando tocam ao vivo, pelos mais diferentes motivos. Algumas escancaram seus limites técnicos, enquanto outras se limitam a reproduzir o que está em seus álbuns. Quem vai a um show não quer ouvir uma reprodução, como se ouvisse um disco na vitrola. Quer ver como uma música evoluiu a partir de sua gravação e como a interação com o público a faz encorpar. Esse é o melhor sentido do trabalho de The Warning: as gurias são muito boas de palco;

6. Ainda continuando no quesito “ao vivo”, elas fazem uma mescla bem interessante de covers com músicas autorais; aliás, estas últimas poderiam ser um ponto fraco, mas não. As canções próprias são bem redondinhas;

7. Mais uma referente a palco. Não consegui perceber utilização de overdubs ou samples para disfarçar incorreções, especialmente vocais. É garganta e braço. Posso estar enganado, nesses tempos em que verdades digitais são criadas com dois cliques de mouse, mas sempre há uma maneira de pegar o erro quando ele é escancarado;

8. Uma frescura minha: a baixista usa baixos de quatro cordas*.

Resumo: as guriazinhas tocam prá caralho, não há outro termo. Elas aparentemente têm um bom suporte financeiro, razoável sucesso e devem continuar crescendo musicalmente. Isso tudo fez renascer em mim um fenômeno muito frequente até metade da década de 90 e que se perdeu daí para frente: a expectativa pelo lançamento de um álbum novo. Acho que o último trabalho que esperei com alguma atenção foi o álbum Versus, do Pearl Jam (aquele da ovelha), mas agora tenho acompanhado de perto as notícias das gravações, que, nesses tempos de iutubes e feicebuques, são quase diárias. Enquanto aguardo, ouço suas músicas disponíveis, no canal próprio e de sua fanbase.

Mas eu fiz a bobagem imperdoável para um cara com minha idade e vivência, enquanto cantarolava “... just go with the flow of the river’s soul”. Em um vídeo qualquer, rolei a página para baixo e cheguei ao subsolo do cemitério, ao porão do aterro, ao lençol freático do chorume, ou, se for melhor uma conotação religiosa, desci à mansão dos mortos, ao sheol, à geena, ao hades dos comentários. E lá encontrei aquilo que já estamos carecas de encontrar.

O que você esperaria se fizesse um bolo de laranja para o café da tarde? Que, para o bem ou para o mal, os convivas falassem do bolo, elogiando, criticando, sugerindo, não está certo? Agora, seu sexo, cor, nacionalidade ou religião não fariam diferença, ao que me consta. Acontece que as coisas não são assim. Nos comentários, as coisas degringolam para temas indiretos que vão se afastando cada vez mais do objeto de origem da discussão, e sempre caminhando para a polarização e para a rudeza, como se fosse possível colocar absolutamente tudo no plano político (vide aqui). E não é só: é normalíssimo descambar para um debate moralizante, com aqueles inúmeros ranços sexuais, ou tematizações de gênero e sexo, em um vídeo de três meninas tocando músicas que não falam sobre nada disso. Quem não está a fim de azedar o estômago, percebe a roubada e cai fora na primeira resposta mal dada, e quem permanece é porque quer briga, seja para defender sua posição política, ou para cumprir sua missão de cruzado, ou coisa que o valha.

Eu nem precisava explicar isso tudo.  O tema das milícias virtuais é recorrente em nossos infelizes dias atuais, e um cara que mantém um blog ao invés de um perfil no Instagram é, certamente, alguém que não está na crista da onda das redes sociais. Mas é preciso perceber como essa mecânica toda tem sua lógica, que é baseada mais em uma guerra discursiva do que em pedras e paus físicos.

Um dos principais exemplos é uma falácia a quem deram o nome de Armadilha de Kafka, que é utilizada especialmente nos confrontos de conservadores contra progressistas, esse enjoativo ringue virtual contemporâneo. Foi proposta pelo desenvolvedor Eric Raymond em 2010 para designar uma modalidade de discurso que imputa culpa a uma pessoa pelo simples fato de não haver o reconhecimento desta mesma culpa. Confuso? Vamos entender esse curioso nome, se essa é de fato uma falácia e como funciona a mecânica do seu uso.


Vai ter um pouco de spoiler, não há como evitar. O livro O Processo é um grande clássico do realismo absurdo, com autoria do tcheco Franz Kafka. Nesta obra, Josef K é o protagonista da história, um homem que vive sua vida medíocre de bancário até que é citado para comparecer em juízo. Total desconhecedor do fato que origina o processo contra si movido, o infeliz é levado a passar por todo tipo de dificuldade nos enredos da burocracia judiciária, no qual não lhe é possível nem ao menos saber do que é acusado. O ambiente distópico é reforçado pelo olhar de todos ao seu redor, que parecem saber de seus delitos como ele próprio não sabe. Prova-se isso com o conselho geral de confissão, o que Josef se recusa a fazer. “Confessar o que, se nem sei do que sou acusado?” é a questão do protagonista. Ele termina mal: como não confessa seu crime, é condenado à morte, o que é feito através de uma facada no peito.

Pois bem. A armadilha de Kafka consiste em atribuir uma culpa a alguém sem que o contribuinte saiba do que se trata a acusação, e a sua negação seria, então, uma prova de seu “crime”. Esse formato de argumento tem sido atribuído nos tempos atuais aos “justiceiros sociais”, maneira pejorativa de denominar grupos e pessoas que sustentam pautas progressistas, notadamente a defesa de minorias. Um exemplo muito famoso diz respeito ao feminismo. Vamos a ele.

No meio daqueles comentários dirigidos aos vídeos da banda, há algumas observações inconvenientes, dirigidas ao modo como as meninas se apresentam ao público. De fato, a indumentária usada por elas não tem nada de especial. Foge à indumentária pontiaguda dos metaleiros, aos andrajos dos grunges ou ao diáfano das divas pop. Usam calça, camiseta, tênis, e é só. Alguém mais saidinho reclama da falta de ousadia das suas roupas e lá vamos ladeira abaixo. A culminância vem na forma daquilo que se convencionou chamar de “lacração”, uma frase ou gesto que encerra a discussão, geralmente de forma agressiva. No caso, vamos pegar a frase “todo homem é um estuprador em potencial”. É uma assertiva forte e de alto poderio acusatório, porque coloca uma carga bastante pesada nas costas de metade da humanidade.

É uma afirmação claramente falaciosa. Por um lado, há aspectos físicos que desmentem a frase: homens castrados, com disfunções eréteis, paralisias, tetraplegias e outras não são ameaças sexuais. Por outro, há pessoas sem a menor disposição sexual para tanto. Há assexuais e homossexuais estritos, que não apresentam nenhum tipo de tesão diante de uma mulher. Mas tudo isso ainda é pouco: tem-se a impressão de que todo homem teria não só a condição física para o estupro, mas uma predisposição em fazê-lo. A violência sexual, dessa forma, parece um pressuposto de um determinado gênero, e isso faz com que o mecanismo de culpa se instale, como se ser homem fosse inerentemente ruim: há uma ferramenta do mal no próprio tipo físico. Creio que poucas pessoas, a não ser que estejam em um polo MUITO extremo, acreditam na verdade dessa afirmação.

Há uma explicação fácil nesse efeito psicológico. Desde pequenos, em nossa sociedade ocidental, somos apresentados à noção de pecado. Lembrem-se de Adão e Eva: sendo os pais originais de toda a humanidade, seu pecado de desobediência (fortemente vinculado à questão sexual de se reconhecerem nus) torna-se algo genético, transmitido a todo e qualquer vivente que lhes seja descendente. É o pecado original, transmitido de geração em geração. É um pecado que carregamos ainda que tenhamos sido as mais puras das criaturas. Com isso, desde a mais tenra idade, o substrato da culpa nos ladeia, de maneira inevitável, por uma ação de outrem realizada há milênios. Pelo menos é isso o que ensinam as religiões, e isso vem no alicerce da construção de sociedades do nosso modelo, por mais que se ache a história fabulesca. O fato, por conseguinte, é que temos uma via traçada em nossa psique para esse sentimento de erro, ainda que imotivado.

Percebemos, portanto, que a armadilha de Kafka é uma falácia que se move por essas peculiaridades. Ela é composta, e conjuga generalização apressada, ao atribuir a toda uma classe uma característica que é própria de alguns indivíduos; culpa por associação, quando se inclui um comportamento indesejável ao grupo que se pretende combater e raciocínio circular, porque a carga que é colocada na recusa à pecha é posta como a própria prova de culpa. Essa lógica pode ser aplicada a qualquer forma de argumento que acuse alguma parte de ter um privilégio do qual deveria se envergonhar, como é a questão do racismo, da homofobia, da xenofobia , do sexismo e da defesa dos animais, só para citar uns exemplos.

Acontece que pau que dá em Chico, dá em Francisco. Claro que classes com privilégios tendem a receber um volume maior de acusações, e também é óbvio que não são todos os argumentos progressistas que são bons, sendo alguns verdadeiramente exagerados, como pudemos ver. Entretanto, o âmbito conservador pode utilizar a mesmíssima lógica de acusação genérica e abrangência generalizada, com uma culpa consequente. Cito a questão do aborto, onde o papel de justiceiro social se inverte e a defesa dos fetos é feita pela esfera conservadora. Aliás, eu nunca compreendi muito bem essa troca de papéis, como já disse neste texto. Aqui, temos uma acusação de assassinato mesmo para quem nunca nem sequer sonhou em ter um filho, com a única condição de se estar no polo oposto. É a mesmíssima lógica. Cito também a acusação de que qualquer pessoa com ideias progressistas convalida os genocídios perpetrados pelos regimes comunistas espalhados pelo mundo no século XX. Mesmo quem vê Stalin, Mao, Pol Pot et magna comitante caterva como fumaça nos olhos é taxado de comunista** se fizer qualquer tipo de objeção ao moralismo dos costumes ou ao liberalismo da economia. Não, pessoas. Pautas sociais não precisam ser defendidas por socialistas, mas por qualquer pessoa ou posição que acredite que há gente que precisa de algum tipo de proteção, como no caso de leis de acesso a deficientes.

Enfim... Acho triste que até mesmo fundamentos filosóficos como a Lógica tenham que ter partido hoje em dia. Apropriações de termos são coisas tão comuns hoje em dia que automaticamente ficam politizados (aqui e aqui), como aconteceu infelizmente com a camisa da seleção, e isso só empobrece nossa vida. Em essência, progressistas não são ruins, liberais não são ruins e conservadores não são ruins. Eles só se tornam ruins quando vão a extremos, como ocorre quando se apropriam de discursos e colocam uma etiqueta na testa de quem discorda deles.

Penso que vou me arrepender deste post, mas agora já foi. Bons ventos a todos.

Recomendações:

Já recomendei o ótimo livro de Kafka neste texto aqui. Vão nele para pegar a referência.

Com relação à banda The Warning, elas possuem um site...

https://www.thewarningband.com/

... e um canal no YouTube:

https://www.youtube.com/user/luisvillarr

Seus dois álbuns lançados até o momento são os seguintes:

THE WARNING. XXI Century Blood. México: Nada Más Records, 2017. 52:50.

THE WARNING. Queen at the Murder Scene. México: Nada Más Records, 2018. 51:11.

* Mentira. Acabei de ver um vídeo onde Alejandra recebe um baixo de cinco cordas para a gravação do novo álbum. Mas eu quis manter o texto mesmo assim.

** Como se ser comunista fosse um crime por si só. Dizer que alguém é nazista já embute na pessoa o racismo que é peculiar a este regime, constituído em sua raiz. Qual crime semelhante há no comunismo? O desrespeito à propriedade privada? Mas os bancos já não tomam bens dos outros? E, sim, eu não sou comunista, podem acreditar.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Navegações de cabotagem – o Museu do Telefone de Bragança Paulista e a disseminação de informações como “cola” social

Olá!

Clique aqui para ler mais textos sobre meus bate-e-volta

Este será o último texto destas navegações de cabotagem até que as coisas se estabilizem de vez e eu possa finalmente retomar minha vida normal, assim como é desejo de tanta gente por aí, embora da minha janela eu veja que a coisa já esteja muito próxima de uma normalidade enviesada. Estou me comportando exemplarmente, com os cabelos a formar um patético rabo-de-cavalo, uns bons quilos a mais e uma adaptação que eu não fazia a mais de trinta anos: rapei fora com o bigode, para melhor me arranjar com a incômoda máscara. Mantive, todavia, a barba, dando a mim um insólito e esotérico aspecto de leprechaun. Mas essas são pequenas intercorrências que eu só coloco aqui para usar a função fática da linguagem. Vamos ao que interessa.

No último dia 01 de março, às portas da pandemia do coronavírus que veio corroer nossas relações, fiz algo que já tinha feito outras vezes: fui a Bragança Paulista para comprar linguiça. Ora (direis), vale a pena ir tão longe só para comprar um saco de embutidos? Respondo que sim, por vários motivos. O primeiro e mais óbvio é que o produto é muito bom mesmo, sua tradição não é à toa. O segundo é a modorra dominical e o terceiro é que Bragança é uma cidade bem bonita, tranquila de se passear. É por este motivo que o passeio não é somente gastronômico, mas também de lazer e (por que não?) cultural. Lá, existe o Museu do Telefone, que resolvi conhecer nesse mesmo dia.


Este museu não está instalado em um lugar aleatório. O prédio abrigava a Companhia Rede Telephonica Bragantina, uma espécie de Vivo que foi unificada com outras empresas para se tornar a Companhia Telefônica Brasileira. Quem for bastante atento, poderá encontrar perdida por aí alguma tampa de poço de visita com as iniciais CTB.


É um casarão típico dos começos do século XX, mais especificamente de 1907, que é a data gravada em seu frontão de pedra. É uma construção de três andares mais porão, com aquela costumeira imprevisão de pavimentos para garagem. Mesmo estando bastante desgastado, guarda uma boa parte de sua beleza original, e há projeto de reforma já aprovado.


Internamente, o espaço utiliza a divisão dos cômodos para separar os equipamentos em uma ordem mais ou menos cronológica. Boa parte dos aparelhos ainda funciona, e se houver disponibilidade, é possível conseguir alguma demonstração.


O telefone é um dos inventos mais contraintuitivos do ser humano. Ao contrário de um motor ou de um sistema hidráulico, a telefonia deixa aquela pulga atrás das orelhas – como minha voz pode correr através de um fio? Um começo de explicação vem da antiga brincadeira do telefone de copo, tão usual na época de eu-menino. A voz falada dentro de um deles produz uma vibração em seu fundo. Esse vai-e-vem é passado ao fio que, uma vez bem esticado, repassa-o aos fundos do outro recipiente, de modo a reproduzir o mesmo padrão vibratório, tornando a emissão original audível. Essa é a mágica por trás do brinquedo.

A lógica aplicável ao telefone propriamente dito é mais ou menos a mesma, com a diferença de que o meio de transmissão não é mecânico, como a vibração do barbante, mas eletromagnético. Este aparelho abaixo é um reversível, muito semelhante ao brinquedo, que tem esse nome por admitir uma única direção de fala, precisando ser revertido para trocar o sentido entre falante e audiente.


Acomodamo-nos a considerar Alexander Graham Bell como inventor do telefone, mas há inúmeras contestações sobre esta autoria. O fato é que ele ganhou a patente e com ela fez fortuna. Sua Bell Company foi uma das fomentadoras da expansão da telefonia a grandes extensões territoriais, utilizando uma base de funcionamento que, na essência, só mudou de arquitetura com o advento da telefonia celular. Embora tenhamos a ilusão de que estamos falando diretamente com  interlocutor na outra ponta da linha, o fato é que acionamos uma central que, por sua vez, promove a ligação entre as duas pontas. Bem nos primórdios, isso era feito através de uma indução magnética promovida pelo giro de uma manivela, como neste velho telefone de faroeste.

Este ato fazia com que a mesa da central recebesse um chamado, através do desarme de um componente chamado “drop”, que nada mais era do que o anteparo do "buraquinho" correspondente à linha que estava chamando. A telefonista introduzia-lhe o plugue do cabo e podia, desta forma, comunicar-se com o demandante da ligação, e transferi-la para o destinatário da mesma.

Essa operação de transferência de ligações é chamada de comutação e passou a ser feita de forma automática nas centrais mais modernas, com a adição de mais e mais linhas, exigindo mesas cada vez maiores e com grande número de operadores.

Entretanto, ainda na época da comutação manual, alguns aparelhos eram ligados diretamente a pontos específicos por uma questão de utilidade pública, como era o caso dos telefones policiais (momento Guarda Belo*). É mais ou menos como ainda acontece com os fones de rodovia, que bastam ser tirados do gancho para fazer uma chamada.

A evolução do telefone fez com que a portatilidade se tornasse não só um desejo, mas uma necessidade, que veio se aprofundando cada vez mais, até os dias de hoje. Mas o uso de pilhas permitiu o uso do aparelho em meio à guerra, através dos telefones de campanha.

Telefone era um troço incrivelmente caro, como já discorri neste texto. Na minha tenra infância, lembro de duas casas que o tinham: a do seu Otávio, por força do trabalho que o exigia, e a do seu Ernesto, que era um pouco melhor situado financeiramente. Quando a linha chegava na casa de algum endividado felizardo, vinha com um aparelho padrão, de disco, como estes abaixo.

Para quem não tinha essa opção, restava os orelhões, aparelhos em franca extinção e que funcionavam na base da ficha, um artefato semelhante a uma moeda com ranhuras, e que garantia três minutos de ligação ao transeunte (18 segundos nas ligações interestaduais).

Por conta desse custo mais alto, era nas empresas onde existia a possibilidade de observar outros usos das linhas telefônicas. Uma das mais fascinantes era o telex, onde era possível transmitir textos escritos entre dois pontos. Nem vou tentar explicar seu confuso funcionamento, com uso de teclados e fitas, mas vou dizer que era uma das grandes ferramentas para que os jornalistas transmitissem suas notícias a longa distância.

Outro aparelho muito comum em escritórios era o fax, que servia para reproduzir remotamente cópias de documentos, através da reprodução de imagens. Tanto o fax quanto o telex caíram em desuso com a chegada do e-mail e dos scanners.

Mais dois: os telefones sem fio (que ainda existem) e as secretárias eletrônicas, com suas pequenas fitas cassete e recados gravados com voz metalizada.


Por fim, há um grande mostruário com vários exemplares de celulares de várias gerações, com destaque aos tijolões que faziam os janotas andarem tortos. Creiam, crianças, que estes desconformes aparelhos limitavam-se unicamente a fazer e a receber ligações. Não havia joguinho algum neles.

Bom... Telefone nunca foi coisa que tenha me atraído a atenção. Bem entendido, os modernos celulares são antes computadores do que telefones, por isso uso à beça. O que me incomoda é aquela vozinha no ouvido e minha interlocução pouco animada. Minhas conversas nunca duram mais do que cinco minutos, e isso já sob uma certa irritação. Há causas? Certamente, mas não consigo interpretá-las muito bem. Talvez algumas das piores notícias de minha vida tenham chegado através do aparelho, no meio das madrugadas. Pode ser também da natureza do meu trabalho, que se baseia em pressão, o que causa um arrepio ao ouvir até o mais baixo dos toques telefônicos. Talvez ainda seja um daqueles estranhos fenômenos que ocorrem quando temos acesso a alguma coisa que jamais imaginamos que teríamos. Nossa sensação de estranhamento faz com que não nos convençamos de nosso direito a usar algo que jamais poderíamos em situação normal. Deve ser por isso que há tantos equipamentos públicos vandalizados, como é o caso das piscinas públicas. Como eu disse, telefone era algo muito caro, e não fazia parte das minhas expectativas de posse até a década de 90, quando já era adulto. Por isso, parece restar algum ranço subconsciente contra o bem. Ora, pensando bem, isso é uma sonora bobagem, porque a patroa era igualmente pobre e igualmente com baixa esperança de adquirir uma linha. Entretanto, quanto a consorte conecta-se com sua mãe, é conversa para horas. Chega a ser estranho. As duas são capazes de ficar tempos a fio em uma linha, e quando se veem pessoalmente a quantidade de mensagens trocadas é muito mais modesta.

Pode ser que seja o conteúdo a explicação. O telefone consegue um nível de privacidade impossível de se obter ao vivo e em cores, mas que dá uma expressividade que não se consegue com palavras escritas. Por isso, indiscrições são mais possíveis de se transmitir através dos pulsos telefônicos. Não digo os grampos que tanto afligem políticos, mas certas coisas são meio inconfessáveis a um público aberto, como é o caso das maledicências, dos maldizeres, das aleivosias, dos murmúrios, das coscuvilhices, das difamações, das futricas, dos fuxicos, das fofocas.

Eu não vou aqui posar de bom moço e dizer que não curto uma fofoquinha. Lembro bem das freguesas da minha mãe que tinham fama de bisbilhoteiras contumazes. O quintal da Edileusa, pedicure do pedaço, era então uma espécie de agência de notícias, especialmente aos sábados. Entretanto, é o tipo de coisa que me causou perturbações nos meus tempos de cristão. Uma frase retumbava em minha cabeça quando me preparava para minhas poucas confissões: “Não é o que entra em sua boca o que o torna impuro, mas o que sai dela” (Mt 15, 11). Isso era uma clara mensagem de que não bastava amar a Deus sobre todas as coisas, não tomar seu santo nome em vão e così via, mas que a língua estava a serviço do diabo e me levava à perdição pelo fato de não saber guardá-la dentro da boca. Dessa forma, tinha comigo que seria necessário uma extensa caderneta para anotar todas as imprecações impiedosas que eram despejadas da minha boca. Mas elas insistiam em estar lá. E, de mais a mais, quando a minha mãe queria puxar o interesse da casa, ela sabia muito bem o que fazer: “gente, vocês não sabem da maior”. Portanto, a fofoca deve ser uma inerência do ser humano, e não simplesmente um defeito. Há teorias para tanto. Uma delas diz que a fofoca é um elemento evolutivo. Vamos ver isso.

Há cerca de 2,5 milhões de anos atrás, um primata diferenciou-se de todos os demais então existentes. Era o Australopithecus, ancestral comum aos hominídeos, e do qual lentamente foram se derivando todas as espécies daquilo que chamamos de gênero homo, do qual nós, bípedes implumes, fazemos parte. Não vou me alongar muito na história, principalmente porque me falta conhecimento para tanto, mas é suficiente dizer que nós, homo sapiens, surgimos no Sul da África há cerca de 200 mil anos, e convivíamos com outras espécies do mesmo gênero, que se espalhavam por todo o globo, como o Homo Erectus, o Homo Heildelbergensis e o Homo Neanderthalensis, além de possivelmente outras espécies. Como é de se supor, a vida em tempos passados era muito mais restrita a uma geografia menor, por isso as espécies tardavam a se espalhar para outras terras. Entretanto, as necessidades de busca por novos territórios levaram nossos ancestrais a tentar sair da África. A expansão mais óbvia era a região do Levante, parte do Oriente Médio ligada ao Mar Mediterrâneo, pelo simples motivo de existir ligação por terra entre os dois continentes. Observações paleontológicas notaram que uma primeira tentativa de incursão pelo Levante ocorreu a cerca de 100 mil anos atrás, onde havia populações neandertais já habitando. O resultado foi ruim, com o desaparecimento desses primeiros aventureiros. Na segunda tentativa, há 70 mil anos, o contrário aconteceu: os sapiens dominaram a área e expandiram seu território cada vez mais, eliminando, expulsando ou se miscigenando com os neandertais, tudo junto ou separado. O que será que houve de diferente entre as duas incursões, que deram resultados tão distintos?

Especula-se na existência de um período em que mudanças drásticas ocorreram no homo sapiens; não em sua conformação física, mas na maneira como a linguagem se desenvolveu, especialmente de modo a dar conta do convívio de grandes grupos. Houve um momento tal em que a capacidade mental da comunidade sapiens conseguiu superar seus limites físicos através da abstração, encontrando um sentido coletivo que dava coesão a massas muito maiores de população, como a introdução de totens e deuses unificadores das tribos. Essa foi a Revolução Cognitiva preconizada por Yuval Harari, professor israelense que é, hoje um dia, um destacado pesquisador das coisas humanas.

Somos animais gregários, ou seja, vivemos em bandos, como eu já disse dezenas de vezes (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui há exemplos). Entretanto, a capacidade de se organizar em grupos tem um limite: a quantidade de membros do grupo. Um grupo muito pequeno é ineficiente; um grupo muito grande é incontrolável. Mesmo um líder muito forte tem dificuldades em manter as rédeas de uma população muito grande. Entretanto, quando se consegue unir algum objetivo comum que vai além da mera concretude do mundo, o grupo tende a se tornar mais homogêneo, através do compartilhamento do mito. Notem como nas histórias antigas das religiões há sempre um deus conduzindo os exércitos, as oferendas pelas boas safras e outros atos que, mesmo desligados da realidade circunstante, tornam possível a agregação de tantos homens. E quanto mais homens, melhor a ocupação em território inimigo, principalmente se eles não tiverem o mesmo nível de coesão do invasor. Na primeira tentativa, pequenos bandos encontraram outras pequenas tribos, mas que tinham a seu favor o conhecimento do terreno e maior disponibilidade de provisões. Na segunda, o jogo virou por conta do volume organizado de gente.

Só que mesmo essa causa comum não é suficiente para explicar o amálgama social. Imaginem um líder que precisa, de uma forma ou de outra, controlar seu pessoal. Em uma população muito grande, ele não terá como perguntar um a um o que está bom ou ruim. Mais ainda: não terá como acompanhar o modo de pensar e a personalidade de cada um dos membros: quem é bom, quem é falso, quem se contraria com suas decisões, quem é fiel e assim por diante. O papel de lhe trazer informações sobre o aparelho social como um todo vem exatamente da fofoca. Ao saber como se posicionavam os membros e o potencial de influência que cada um tinha sobre sua comunidade local, o líder tinha ferramentas para criar uma coesão em torno de propósitos que era impossível antes deste enriquecimento da linguagem. E um grupo coeso faz exatamente aquilo que descrevi logo atrás: tem uma capacidade muito maior de enfrentar um grupo inimigo. Os sapiens, que evoluíram para esse modelo de “compartilhamento de informações”, eram muito mais bem adaptados ao meio do que as dispersas tribos neandertais. Não parece interessante?

Portanto, não fique mangando de sua sogra e vizinhos que fofocam nos telefones e nos muros de nossos bairros. Eles estão apenas sendo humanos. Bons ventos a todos.

Recomendações:

Harari é um dos melhores escritores da atualidade, com um texto altamente fluído. Mas não é só forma – seu conteúdo também é muito bom.

HARARI, Yuval. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. São Paulo: L&PM, 2015.

E recomendo também uma visita ao Museu do Telefone, com a sugestão de pegar uma bela porção de linguiça no restaurante do campo do Bragantino.

Museu do Telefone – Centro Cultural
Praça José Bonifácio, nº 126
Centro
Bragança Paulista/SP

Aproximadamente 90 Km a partir do centro de São Paulo

* Não sei até onde vai o conhecimento dos antigos desenhos da meninada atual. Para quem não sabe, o Guarda Belo era um daqueles famosos personagens secundários essenciais a uma trama. Falo especificamente do desenho Manda-Chuva, que mostra uma caterva de gatos vagabundos que vive às turras com o ordeiro policial em questão. Procurem na internet porque é muito divertido (e um tanto subversivo).