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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

O café filosófico do quotidiano – o tempo irreal da lógica

(Uma contradição lógica pode nos provar que o tempo não existe?)

“E o ar que já passou pelos pulmões

De tão velho já quer ir descansar

Daqui pro futuro falta só um piscar

Que é pro tempo não mais nos enganar” 

John Ulhoa, Pato Fu

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Depois de um longo e tenebroso inverno, trouxe para casa a joia da coroa. É um flagrante exagero, porque não passa de um método de extração de café que eu queria comprar faz tempo, mas cujo preço era proibitivo para um sujeito de minha renda. Acontece que os mecanismos de oportunidade da internet provaram sua utilidade. Deixei a intenção cadastrada já há mais de um ano, e uma notificação veio na telinha do meu celular, quando já nem ligava mais, causando-me estranheza pela pouca memória. Indicaram uma promoção muito boa em uma loja virtual, com preço reduzido e parcelas sem juros. Mesmo que um pouco dolorido ainda a tão delicado órgão, veio aquela perigosa sensação de “agora ou nunca” e mandei bala no cartão de crédito. Agora ele está lá, curtindo seu momento de primazia dentre os demais métodos. É a cafeteira de elegante nome Eva Solo.

A produtora do utensílio é uma empresa dinamarquesa especialista em inovações em design. Estruturalmente, é uma garrafa em vidro borossilicato onde se coloca café moído bem grosso, porque não se fará uma percolação convencional, mas se deixará em infusão por um tempo específico para fazer a extração.

Passado o tempo adequado, a filtragem é feita pela própria tampa, que retém os resíduos no momento em que o café é servido. Seu lado positivo é o corpo que dá à bebida, vez que retém pouquíssimo dos óleos naturais do grão. 

O objeto não é caro à toa. O filtro cônico de metal é encaixado de forma a evitar que se formem os temidos pingos que as vovós tanto detestam em suas toalhas, e a tampa tem um engenhoso sistema de abertura e fechamento automáticos para completar a função de servir.


A sofisticação chega ao ápice através de uma jaqueta de neoprene com zíper que é ajustada ao corpo esbelto da Eva, como se fosse uma mocinha surfista, ajudando a manter a temperatura e (dizem) diminuir o processo de oxidação do líquido, tornando a peça esteticamente única.


Nome do utensílio: Cafeteira Eva Solo

Tipo de técnica: Misto (Infusão e filtragem)

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: grossa

Dinâmica: Deposita-se o pó no fundo da garrafa de vidro e despeja-se a água fervente, em tempo suficiente para uma extração adequada. Após, encaixa-se o filtro e a tampa no bocal para exercer a função de despejo do café.

Resíduos: Altos. Convém não despejar a totalidade do líquido nas xícaras 

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: médio/alto

Como todo método de infusão, o tempo é componente primordial neste tipo de extração. Se formos açodados, a extração será insuficiente e obteremos uma desanimada água de batata. Pelo contrário, se formos distensos, teremos um amargor digno das zurrapas de beira de estrada, o que é igualmente indesejável. Por esses motivos, métodos de infusão exigem um cuidado maior com o fator tempo para obter a bebida na medida certa.

Vou pensando nisso e o tempo vai passando, passando e passando, e eu pensando, pensando e pensando. Por fim, o toque de minutagem da balança me acorda do devaneio e vou servir o café, ainda tendo a cabeça numa forma de concretude do tempo, que não consigo vislumbrar, nem no relógio que demarca o prazo da extração, nem na posição da patroa que me aguarda já acordada na cama. Se o tempo não é concreto, por que dizemos que ele existe?

Aí é que está. Algo que não é tangível não é necessariamente inexistente. Não me refiro a entidades mágicas ou deidades, mas àquilo que damos o nome gramatical de substantivos abstratos, ou seja, objetos que possuem uma substância, uma existência real, mas que só operam em nível mental – abstratos. Está aí, evidentemente, toda sorte de sentimentos e sensações. Talvez os tais seres imateriais possam ser traduzidos em imagens concretas – pense em um anjo. O mesmo não acontece com os substantivos abstratos, que precisam emprestar de um substantivo concreto uma forma de lhes representar. Daí, temos os corações que representam amor, mas que não são amor em si, gelos que representam frio, mas que não são o frio em si, e assim sucessivamente.

E o tempo? É um substantivo concreto ou abstrato?

É possível encaixar argumentos nos dois lados. Se por um lado a representação de um relógio, uma ampulheta ou uma engrenagem que gira cumpre o mesmo papel de substituição típico dos abstratos, é inegável que a visualização das mudanças em nosso redor vai além das meras sensações, e a própria sucessão de eventos é a concretude dos tempos. Se o tempo pode ser medido, ele é concreto, como não acontece com o ódio, a ternura, as saudades, o tédio, a justiça, a misericórdia.

Será?

Às vezes a abordagem sobre o misterioso tempo é uma questão de lógica. Faz sentido conceder concretude a algo que é inerente à percepção humana? Sim, pode até ser que o tempo seja aplicável a cães e baratas, mas o fato é que eles não estão nem aí para relógios ou calendários. Mesmo que o tempo exista concretamente, ele só se aplica a nós.

O mesmo acontece com a lógica. Um leão não come a gazela porque é lógico que a coma, mas porque tem fome. Essas inerências e inferências são igual e tipicamente humanas. Portanto, é lícito dizer que, para que o tempo seja real, é preciso que ele seja lógico. Não lhes parece?

Pois bem. John McTaggart, filósofo inglês de cunho idealista, discordaria desse assertiva, e, por esse motivo, pensava ser o tempo uma irrealidade explicada unicamente pela percepção humana. É uma tese bastante complexa, na qual dei uma breve e insuficiente pincelada no texto onde eu falava sobre Filosofia do Tempo. Vou aprofundar um pouco melhor a partir de agora.

McTaggart parte do princípio aristotélico de que tempo é movimento. Se o mundo inteiro congelasse completamente por 30 minutos, por exemplo, esse lapso temporal não significaria nada, já que nada poderia ser percebido de diferente. Sendo assim, essa meia hora poderia ser uma hora inteira, um dia inteiro, a vida inteira. Também não vale aqueles exercícios budistas de meditação: o que está parado é o corpo, mas a mente está girando tanto quanto o sangue e o ar nos pulmões. Movimento imperceptível não é ausência de movimento.

Sendo o movimento um componente indissociável do tempo, existem dois eixos por onde este trafega: um que descreve o princípio da causalidade e outro que posiciona os eventos com relação ao momento.

O primeiro descreve a ordem com as quais os fenômenos acontecem no transcurso da história: o que vem antes, o que acontece no momento e o que ocorre depois. Se formos perceber bem, notaremos que este é o plano estático do tempo. Não temos como mudar o que tem anterioridade, o que tem simultaneidade e o que tem posteridade. Não há como o centroavante cabecear a bola antes que o ponta cobre o escanteio. E não há como ser assinalado o escanteio sem o corte providencial do zagueiro. A longa cadeia de nexo causal faz com que esse eixo seja, portanto, estático, e aplicável a toda a história. Sempre a Revolução Francesa terá acontecido antes da Revolução Russa, que sempre será concomitante à Primeira Guerra Mundial, e a Segunda sempre lhe será posterior, até porque, para que os fatos transcorram como transcorreram, é preciso que se desenrolem nessa ordem.

Aqui, começamos a perceber algumas colisões. Se esse eixo é estático, então pressupomos um imobilismo, já que é impossível trocas de posições dos eventos e, consequentemente, dos movimentos. Sendo assim, é preciso que exista um plano dinâmico, onde se possa observar movimentação. E é aqui que entra o segundo eixo.

Quando pensamos em qualquer tipo de evento, nós podemos imaginá-lo com relação a um referencial: se penso em algo que já aconteceu, temos o passado; se está acontecendo agora, é o presente, e se ainda ocorrerá, o evento é futuro. Este plano é dinâmico porque os estados se transformam. Algo que hoje é futuro, será presentificado e tornar-se-á passado, assim como o que está no passado, já foi presente e futuro. Dessa forma, ao contrário da série B, encontramos aqui dinamicidade e, consequentemente, movimentação, fator essencial para reconhecimento do tempo.

McTaggart deu ao trânsito passado-presente-futuro o nome de série A, e à anterioridade-simultaneidade-posterioridade o nome de série B. O grande problema é que, olhando para o sentido lógico, elas são contraditórias em si mesmas e entre si, e este é o cerne no argumento do inglês.

Começando pela série B. O entendimento de fixidez que a mesma contém não permite supor que um evento seja variável. Quando eu idealizo o tempo como uma régua, onde é possível vislumbrar que um evento acontece antes ou depois de outros, verifico que, se fosse factível a sua variabilidade, teríamos então ferido o princípio lógico da não-contradição, consagrado desde os tempos aristotélicos (vide). O eixo estático não permite antever posições variáveis, porque como as posições da régua são sempre imutáveis, pensar em mudanças na posição na série desmontaria sua lógica. Sendo assim, a mudança que é elemento necessário para constatar o tempo não se enxerga aqui. A série B não é possível como reflexo da realidade.

Essa mobilidade então deve ser buscada na série A, para verificar se ela sustenta a realidade do tempo e salva a série B. Como eu já disse, aqui os eventos ganham uma qualidade em relação a um ponto de referência. Se na série B um evento sempre será anterior ou posterior a outros, na série A este mesmo evento tem uma caraterística variável. Digamos que eu esteja dentro de um estádio esperando um jogo de vida ou morte do meu time favorito. Este momento era futuro no momento em que eu vestia o manto sagrado e me encaminhava para a estação do metrô, assim como se convolou em passado quando eu, já satisfeito (tomara), desembarcava na mesma estação de volta a casa. Ainda poderíamos dizer que há um elemento de fixidez semelhante à série B, mas a regressão ao passado e a projeção ao futuro podem se dar de forma infinita: passado e futuro próximos ou remotos. Eu posso dizer que estou no campo porque meu pai me ensinou a gostar de futebol, e que seu pai fez o mesmo, e assim por diante. E, com isso, podemos perceber a mobilidade do tempo.

Mas notem. A própria expressão da língua já traz alguma ambiguidade. Um evento qualquer é presente, e aqui não temos problemas. Mas ele também foi futuro e será passado. Percebam que, para expressar a referência do tempo gramaticalmente, eu inverto as relações, porque uso o tempo futuro para referenciar o passado e vice-versa. Mas isso não é o problema central. A questão é que essa posição é relativa a referenciais que são igualmente móveis. Eu percebo que me joguinho é presente no momento que estou em campo, mas, se eu olhar para o banhão que tomo para tirar aquela catiça de torcedor, ele está no passado. Portanto, dependendo do referencial que eu usar, a qualificação do evento varia. Não se trata somente da distância temporal, como no exemplo da regressão infinita, mas da própria posição relativa no que seria a régua do tempo. Se um evento é colocado nesse círculo vicioso, podendo ser passado, presente ou futuro ao mesmo tempo, caímos na mesma contradição lógica da série B, e inviabilizando a série A como expressão da realidade. Visto que só podemos enxergar mudança nela, conclui-se que o tempo é irreal.

A contra-argumentação mais simples que podemos fazer à hipótese de McTaggart é semelhante à que fazemos aos paradoxos de Zenon, por exemplo. Mesmo que seja lógico dizer que um caminho pode sempre ser dividido pela metade para justificar uma teórica nunca chegada, o fato concreto, real e palpável e que nós chegamos. Dizer que o tempo não existe como realidade porque ele não é lógico talvez fale mais sobre o alcance da lógica do que da existência factual do tempo, que certamente tem aspectos abstratos, mas mesmo lá, na abstração, ele existe.

De toda forma, o princípio geral que norteou o pensamento de McTaggart ao discernir sobre o tempo é o de que a lógica plasma o mundo e o mundo deve ser traduzido pela lógica. Sendo assim, se algo não pode ser explicado pela lógica, há duas alternativas possíveis: ou o raciocínio não está bem feito, ou temos alguma ilusão à nossa frente.

Diante do método, em cima da balança temporizadora, por exemplo, mostra a mim que o tempo faz diferença, mesmo que seja percepcional. O tempo em que cheguei ao consenso com minha Eva Solo está bem sólido e realmente demonstra sua existência. Ou não? Bons ventos a todos!!!

Recomendação de leitura:

MCTAGGART, John. A Irrealidade do Tempo. In: Revista Kriterion, nº 130. Disponível em: [https://www.researchgate.net/publication/315931954_A_irrealidade_do_tempo]. Acesso em 01/11/2024.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

De volta às águas e trilhos que ficaram para trás – 2º lugar: Soledade de Minas e a questão do momento em que as saudades deixam de ser positivas

(O que é a saudade senão a presentificação eterna do passado. Isso é um problema?)

Que é, pois, o tempo? Quem poderia explicá-lo de maneira breve e fácil? Quem pode concebê-lo, mesmo no pensamento, com bastante clareza para exprimir a ideia com palavras? E, no entanto, haverá noção mais familiar e mais conhecida usada em nossas conversações? Quando falamos dele, certamente compreendemos o que dizemos; o mesmo acontece quando ouvimos alguém falar do tempo. Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quiser explicar a quem indaga, já não sei.

Santo Agostinho


Olá!

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Quando estive no Circuito das Águas pela primeira vez, eu vi que existia um trem maria-fumaça que cortava um trechinho, já não mais comercialmente, é óbvio, mas como atração turística. Ele saía de São Lourenço, mas, como precisava comprar a passagem antecipadamente, fiquei a ver navios… ops, trens. O passeio chegava até Soledade de Minas, mas não cheguei a ir até lá. Chegou a hora.


Soledade de Minas é daquelas cidades bem pequenininhas, cujo estereótipo diz ser daquelas que pararam no tempo. Ser o ponto final do passeio do Trem das Águas se explica pela sua velha estação de trem, ainda bem preservada, com as peculiaridades de época que a tornam interessante.

Nos dias em que há viagens, que traz para cá pelo menos umas 100 pessoas por vez, há uma grande quantidade de boxes onde são vendidos artesanatos vários. Nos outros dias, tudo fica fechado, à espera do tempo passar.


Ao lado da estação, há uma cascata artificial que promete refrescar os dias mais quentes, e que se tornou uma espécie de ponto de encontro da cidade. Neste lugar, funcionava a caixa d’água da estação ferroviária, que foi deslocada para seu local original.

O afluxo de turistas para cá se justifica pelo material ferroviário cá existente, que explica uma boa parte de como funcionavam os transportes anteriores à segunda metade do século XX, como o ladeamento do leito dos rios…

… e os equipamentos predominantemente fabricados em madeira, ao contrário do que acontece com os aços e plásticos usados hoje em dia. Nos dias de movimentação, ainda há um museu ferroviário que contém peças e artigos ligados à atividade.

Quem é insistente ainda consegue vaguear pela cidade e encontrar as casas dos artesãos, onde se pode aprender alguma coisa sobre as técnicas e criatividade na confecção das peças.

O pessoal te trata como gente da família, convidando para um café e uma cachacinha, tão típicas desta região.


Este lugarejo tinha um nome curioso, que derivava daquela propensão natural que tínhamos para nomear os locais por onde passamos com narrativas de suas histórias: Ponte dos Teixeiras. Isso aconteceu porque foram dois irmãos com esse sobrenome que se dispuseram a construir uma ponte sobre o Rio Verde, para ligar as duas vertentes do vale, e o povoado que se aglomerou ao redor acabou ganhando esse topônimo até que viesse a transformação em distrito.

O nome definitivo é derivado da Fazenda Soledade, que abarcava a maior parte de seu território, e cujo dono mandou erigir uma capela em homenagem à santa que dava o nome à propriedade, Nossa Senhora da Soledade. A capela cresceu e virou a igreja que podemos ver logo abaixo. Como vocês bem sabem, eu costumo visitar e fotografar todas essas igrejas do interior, porque é muito frequente que registrem boa parte da história de suas localidades, mas, no caso, o portão fechado impediu até mesmo uma foto melhor.

Aqui encontro uma confluência de intuições. Do nome da cidade, extraio a representação da mistura de saudades com a solidão. Segundo os católicos, a morte de Jesus traz esses sentimentos confusos que uma mãe sente ao ver seu filho na morte, sozinha e imediatamente saudosa. Por outro lado, a temática da linha de ferro e da locomotiva a vapor traz as reminiscências dos mais antigos e a curiosidade dos mais jovens. De uma cidade que tem a saudade até no nome, vem a mim a seguinte reflexão: o que é essa tal de saudade? Por que temos apego ao passado?

A coisa inicial a se pensar é que a saudade é indissociável do tempo, porque não há saudade sem distância temporal, como é óbvio. Então nós vamos mais uma vez tentar compreender a concepção de tempo de Santo Agostinho para fazer o nosso exercício. Já falei dela mais de uma vez, mas é tão genial que não posso deixar de mencioná-la a algum novo leitor que vier passear por este espaço.

Agostinho de Hipona, filósofo norte-africano que viveu nos primórdios da sistematização do cristianismo, imaginava o tempo não como uma mera sucessão de momentos, como um longo rosário em que futuro se torna presente e que se esvai em passado, tipo uma linha de produção, mas como uma grande folha elástica, onde todo o tempo está presente de uma só vez. Isso significa que passado, presente e futuro não são meros sucedâneos, mas que estão todos juntos na grande camada dos acontecimentos chamada tempo, e o que temos de verdade são três presentes: o passado é presente através da memória e o futuro é presente pela via da expectativa. Como funciona isso?

Aprendemos que existem três tempos: o passado, para as coisas que já aconteceram; o presente, para retratar o momento atual, e o futuro, o universo das coisas que ainda virão. Quando pensamos objetivamente, percebemos que apenas um desses tempos de fato existe: o presente, aquele minúsculo momento em que a realidade se desdobra. Passado e futuro não possuem materialidade, não é possível exercer sobre eles nenhuma ação, porque não estão disponíveis para nossa intervenção.

Ou seja, o passado não existe mais, e o futuro não existe ainda. O tempo no mundo fora de nós é o primado do instante. Mas nós podemos pensar no passado e no futuro, e eles existem em nossa mente. E é nesse campo psicológico que Santo Agostinho distingue um local onde passado e futuro convivem com o presente: o tempo do mundo não é o mesmo que o tempo da alma. 

Efetivamente, o tempo passa para nós e passa para a pedra, mas a pedra não tem essa percepção, mesmo que os ventos ou o rolar pelo morro a desmanche. Para nós, o passado existe pelas lembranças que temos, de bons e maus momentos, de aprendizados que obtivemos, da nostalgia e das reminiscências. O passado existe pela memória. Já o futuro existe pelos nossos planos, pela nossa consciência de dever fazer, pela espera de bons ou maus acontecimentos. O futuro existe pela expectativa.

Mas, segundo Agostinho, passado e futuro só existem quando são presentificados. E como isso acontece? A cada vez que temos uma recordação, a nossa consciência busca um fato já existente no tempo, que está na memória e o resgata para o momento atual, ou seja, o presente. Idem com a expectativa futura: vislumbramos uma possibilidade ou um plano qualquer é trazemos ele à nossa consciência, tornando-o presente. No plano da alma (aka psique), está tudo posto e presente.

Mas se tudo é presente, por que temos a sensação de que o tempo flui? Como podemos explicar a sensação de que as coisas perduram, mas que não são eternas? O tempo não pode ser confundido com a eternidade. A questão de termos todo o tempo posto não significa que ele aconteça simultaneamente, do contrário seria eternidade, que, na perspectiva agostiniana, é o exato oposto do tempo. O presente é quase um não-ser de Heráclito, já que está em uma constante transformação e, além disso, pode ser reduzido a uma porção infinitesimal. O tempo pode ser dividido entre passado, futuro e presente justamente pela ação da extensão da consciência, que busca coisas no passado e no futuro. É com esse trânsito entre os presentes da alma que o tempo dura.

É aqui que vamos fazer a confluência com a saudade. A saudade sempre se calca em uma presentificação de um fato passado específico, que resulta da extensão da consciência ao passado que é trazida ao presente, e que um dia teve uma representação que proporcionou algum tipo de prazer. A saudade não é mera lembrança - é lembrança boa, senão não seria saudade.

Ter saudade tem um fundo de tristeza, porque ela sempre representa ausência e perda. Ocorre que por vezes ela se torna insuportavelmente grande quando uma pessoa passa a substituir expectativas por memórias, o que costuma se agravar com o transcorrer da idade. Isso é evidente em si mesmo: por mais que sejamos otimistas e vejamos o mundo pelo prisma da satisfação com a obra concluída, o fato é que a vida está no fim, e o passado grita, enquanto o futuro silencia. O problema é quando as saudades viram apego pelo passado. Tudo o que a pessoa faz acaba apontando para trás, como se nada do presente valesse a pena, e nada do futuro trouxesse esperança. Dá para explicar? Freud explica.

Nós tendemos a ter uma memória distorcida de nossos fatos passados, especialmente quando somos crianças. Isso se aplica a tudo - fatos, fenômenos, pessoas, objetos. Vamos de exemplo. Quando eu era pequeno, volta e meia ia a Poá, pequena cidade da metrópole que, àquela época, era famosa pela sua água mineral e suas chácaras. Eu tinha parentes lá, daqueles que a gente visita só de vez em quando - tio Manuel, primo Adriano, prima Leonice e assim vai. O caminho para lá era ladeando a ferrovia, que pegávamos a partir da Penha de França. Em uma dessas vezes, a mais antiga que eu me lembro, havia uma sinaleira da via férrea que me impressionou. Era idêntica a um semáforo de cruzamento, só que imenso. Era facilmente explicável, já que o maquinista precisava enxergar a sinalização a uma distância considerável. Isso me levou a representar os desenhos livres da escola com ferrovias de semáforos imensos, uma coisa até recorrente, prova de que fiquei impressionado. Já da última vez que vi a tal sinaleira, dei-me conta de que, se de fato era maior que uma convencional, não fazia tanta impressão assim, a ponto de se tornar um motivador de criatividade. Confesso que fiquei um pouco decepcionado, mas isso demonstra que nossa memória infantil distorce para maior as coisas.

Freud não deixou passar batido esse tipo de sentimento. Ele disse que era bastante comum acharmos nossos pais mais perfeitos do que eram de fato. O pai parecia mais forte; a mãe, mais bela. Essa sensação se constrói em cima do que ele chamava de princípio do prazer. Isso funciona sob a égide da necessidade que o equipamento psíquico de uma pessoa tem em procurar a maior quantidade de prazer possível, ainda que isso represente distorções da realidade.

Pensem bem em quantas vezes filtramos o passado, de modo a fazê-lo parecer muito melhor do que efetivamente foi. Temos a tendência a esquecer eventos negativos (desde que não sejam traumáticos) e a sobrevalorizar eventos positivos justamente porque nosso cérebro se acomoda melhor a uma memória forjada do que a uma realidade mais dolorosa, desinteressante ou vergonhosa.

Isso acontece porque o princípio do prazer tende a se opor ao princípio da realidade. O primeiro é composto pelas pulsões instintivas, que buscam satisfazer necessidades individuais, aquela coisa do “eu quero, e quero mais”. A principal expressão dessas necessidades instintivas está justamente no prazer, que é uma satisfação turbinada: além de ser necessário, é bom. É um extravasamento de energias internas que, no entender de Freud, são mais bem sintetizadas na sexualidade, embora outros defensores da psicanálise não o entendam limitado a isso. O princípio do prazer é isso - a irrefreável e imediata necessidade de satisfação.

Só que há limites impostos pela realidade externa. Esses podem ser físicos e morais, dependendo de quem impõe o limite, a natureza ou a sociedade. Há um princípio limitante dentro do próprio inconsciente, que é o instinto de sobrevivência. Se ele não existisse, é provável que a humanidade não sobrevivesse, porque iria arriscar tudo para se ver propiciada mais e mais prazer. Também não existiriam comunidades, dado o extremo egoísmo do princípio do prazer, que impediria relacionamentos solidários. Dessa forma, é o confronto entre os princípios do prazer e da realidade que permite a vida existir. Mas ele existe, e provoca pressão. Evidentemente, existe um certo desconforto nesse confronto, mas há parâmetros onde ele é considerado normal e saudável. mas há momentos em que há problemas.

O princípio do prazer faz remissões excessivas ao passado quando o indivíduo tem dificuldades em abandonar momentos que são considerados mais prazerosos do que os atuais. É como se o passado elástico de Santo Agostinho fosse presentificado a todo momento, em uma sequência interminável de reiterações da memória, substituindo a vivência do presente e as expectativas do futuro, e as saudades se tornam mais importantes e significativas do que as novas experiências, como se fosse impossível o presente e o futuro trazerem prazer a este contribuinte. O grande problema é que, aqui também, o princípio da realidade age, o que causa grande angústia para quem vive essa situação.

A guerra entre id e superego (vide) sempre coloca o ego em xeque, de modo a fazer nossa parte consciente não compreender, muitas vezes, porque sofre. Há dois problemas essenciais: o passado sobrevalorizado não permite que o indivíduo se conforte no presente, e, confrontado com a realidade, ele perde. Quando vamos a um restaurante que há tempos gostávamos, ficamos decepcionados, e achamos que sua qualidade caiu. Nem sempre isso é verdade. Pode-se simplesmente ter-se mantido o mesmíssimo padrão de qualidade, mas minha memória desenhava experiências muito mais prazenteiras do que são de fato. O objeto perdido não é mais o mesmo, mas ele é desejado, e isso coloca-nos na posição de quem se prende excessivamente às próprias saudades.

Soledade de Minas é isso e não é isso. É possível que o dono original da fazenda que lhe deu gênese quisesse se referir unicamente à santa, mas também poderia estar pleno de apego ao passado, ou apenas gostasse muito de sua terra há algum tempo, e a quisesse homenagear por isso. Nada mais. Bons ventos a todos!

Recomendações de leitura:

Já havia recomendado o capolavoro de Santo Agostinho neste post, e o farei novamente. Só que eu achei uma edição online, o que pode facilitar a vida de todo mundo. Segue a citação.

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Disponível em

< https://img.cancaonova.com/noticias/pdf/277537_SantoAgostinho-Confissoes.pdf>. Acesso em 16.12.2023.

 

Com relação ao princípio do prazer freudiano, uma boa referência é o livro abaixo:

FREUD, Sigmund. Romances familiares. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Eclesiastes e sua Filosofia do Tempo - outras observações sobre o livro mais filosófico da Bíblia

Pensamento!
Mesmo o fundamento
Singular do ser humano
De um momento, para o outro
Poderá não mais fundar
Nem gregos, nem baianos...

Gilberto Gil - Tempo Rei

Olá!

Tempos atrás, em uma dessas turnês etílicas que fiz a Monte Alegre do Sul, aproveitei uma promoção de lichias que ocorria em uma pequena chácara na beira da estradinha que leva ao distrito de Mostardas, quase na saída da cidade. O preço estava muito bom, dada à safra generosa daquele ano, e o dono permitia que se chupassem frutas à vontade, enquanto se deslindava a aquisição da sapindácea de origem chinesa, tão bem adaptada ao clima tropical da Ilha de Vera Cruz. Enquanto a patroa usava toda a sua verve otomana para negociar vantagens, fiquei de namoro com um pé de manga gigantesco que havia na entrada da pequena herdade. Todo cheio de frutas ainda verdes, estava tão carregado que era fácil de pegar várias mangas só esticando a mão. Imaginei se não haveria nenhum problema em aviar uma delas à minha algibeira, mas não o fiz sem expressa autorização do chacareiro. Chega de falar difícil. Eu queria era mesmo pegar uma manga. Perguntei-lhe:

“O senhor me autorizaria a tungar uma dessas, mesmo verde?”

Sua resposta foi simples o suficiente para me ensinar algumas coisas: “Essa manga ainda não é de tempo. Se você levar, não vai ter proveito. Ela vai apodrecer antes de ficar madura. Espera um pouquinho”.

Foi até o fundo da roça, de onde era possível ver outras mangueiras. Trouxe-me outras mangas, iguais-que-nem para olhos urbanos. E disse:

“Essas sim. Pode esperar uma semana que elas vão ficar boinhas. Se estiver com pressa, embrulha no jornal que em três dias já dá para comer, mas não vão ficar tão gostosas”.

Atrevi-me a perguntar qual seria a diferença entre o produto de ambas as árvores, e o homem me explicou que há um tempo exato para que uma manga possa ser colhida com proveito. Demonstrou algo sobre a textura da casca, mas eu não consegui perceber a diferença, falando que sim apenas para parecer educado. Mas foi dito e feito: uma semana depois as mangas estavam realmente boinhas para consumo. Há, realmente, um tempo para plantar e um tempo para colher. E isso me remete ao Eclesiastes.


Ora (direis),
justo você vai falar de religião? Não, vou falar de Filosofia. Quando falamos deste livro, temos diante de nós o escrito mais filosófico de toda a Bíblia, que se aproxima muito de pensamentos que trafegam entre o ético e o lógico, e se afastam do metafísico, como acontece com o Budismo, para citar um exemplo. Eclesiastes, ou Qohelet, não se propõe a contar uma história, a desfiar moral, a fazer elegias e louvores... Eclesiastes se propõe a filosofar, e essa é nossa matéria-prima. E sua filosofia é tão rica que há muito que extrair dele. Comecei há tempos atrás, em uma postagem que me rendeu muitas visualizações, e da qual recomendo muito a leitura antes de prosseguir aqui. Fica a seu critério, incomum leitor.

No texto mencionado, depuro como Qohelet assume a posição parmenidiana de mudança como ilusão, baseada em uma de suas frases fundamentais: não há nada de novo debaixo do sol. Mas é no terceiro capítulo do escrito que encontramos o elemento que permeia e dá substância a todo o sentido desta conclusão: o tempo.

Vamos ver. A assertiva sobre a manga do meu caro sitiante encontra-se perfeitamente gravada nos dizeres do filósofo que redigiu Eclesiastes, com toda a carga poética que lhe é peculiar:

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Tempo de matar e tempo de curar; tempo de demolir e tempo de construir. Tempo de chorar e tempo de rir; tempo de gemer e tempo de dançar. Tempo de atirar pedras e tempo de ajuntá-las; tempo de abraçar e tempo de apartar-se. Tempo de procurar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de jogar fora. Tempo de rasgar e tempo de costurar; tempo de calar e tempo de falar. Tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz" – Ecl 3, 1-8.

Tudo tem seu tempo, seu momento correto de acontecer, e a nós resta aguardar. Como eu disse, há um fundo lírico muito intenso na maneira como Eclesiastes cuida da questão do tempo, especialmente no navegar chiaroscuro das suas dicotomias, mas num primeiro olhar temos uma afirmação que pouco passa do intuitivo. Afinal de contas, é quase que uma característica universal humana pensar em oposições. Mas notem que, por trás desse véu de poesia que fica entre o simples e o ingênuo, há um significado mais profundo.

Vamos falar rapidamente sobre a dialética como ferramenta filosófica. Grosso modo, seria a arte do diálogo na busca de respostas às questões que mais nos afligem. Entretanto, quando pensamos no jargão, a dialética não é uma mera troca de ideias, e sim uma espécie de polarização entre conceitos, onde as ideias colocadas em pontos opostos vão se “combatendo” para extrair uma conclusão nova. Já nos tempos de Zenon de Eleia, talvez contemporâneo ao autor de Eclesiastes, o uso de contradições que caminham de um lado para o outro eram construídas para se tentar espelhar a realidade. Este foi um filósofo que se alinhou muito a Parmênides e, como tal, apostava na permanência perpétua do Ser. E usava muitos paradoxos para justificar suas teses*. Entretanto, a percepção da mecânica dialética, desse trafegar entre opostos, foi, ao longo do tempo, transbordando de uma mera ferramenta filosófica (como ocorre com a Lógica) para constituir uma verdadeira Filosofia da História: a estrutura com a qual a História (ou seja, nosso tempo realizado) se movimenta, lembra em muito a dialética que nasceu com os pré-socráticos e desembocou com toda sua majestade no Geist hegeliano e em sua derivação mais famosa, o materialismo histórico-dialético de Marx (leiam mais aqui). Para resumir, estes filósofos entendiam que a História não se deslinda linearmente, como se o tempo fosse um grande vetor movido pelo acaso ou por uma divindade, mas ao sabor de suas contradições, em uma espécie de zigue-zague.

A Filosofia do Tempo de Qohelet já dizia isso, com todas as letras, embora seu tom pessimista pareça lhe tirar um bom tanto de objetividade. É preciso lembrar que as terras judaicas viviam de mão em mão no período em que esta obra foi escrita, sob domínio de assírios, babilônios, persas e romanos, sucessivamente.  Mas isso não oculta outra característica que vem embutida nesse modelo dialético. Poderíamos achar estranho que tanto apoio na dialética esteja situado em um texto que, apesar de filosófico, não deixa de ser religioso. A volatilidade do tempo percebido, que migra de lá para cá dá uma sensação de impermanência que não coaduna com um deus. Mas é nisso que Eclesiastes é diferente dos demais textos bíblicos em geral, na sua adaptabilidade a circunstâncias que escapam do teológico.

Ao se pensar em estados extremos, obrigatoriamente somos levados a pensar em tudo o que está entre ambos. Em uma régua de trinta centímetros, temos o ponto zero e o ponto trinta, o começo e o final. Tudo o que é possível de medir com essa régua está entre esses dois pontos. A dicotomia entre esses limites carrega consigo uma outra constatação que fica mais em seu substrato: o tempo é uma totalidade. Essa ideia é tão poderosa que vai ser retomada, das mais diferentes maneiras, por outros filósofos ligados à Religião, como Santo Agostinho e Boécio, e até mesmo na moderna ciência de Einstein. Como é isso? O semear e o colher são os limites que perfazem a vida de um vegetal. Representam o ato gerador de seu nascimento e sua morte, princípio e fim - alfa e ômega, em um linguajar mais místico. Entre alfa e ômega, tudo o mais na realidade simbólica representada pelo alfabeto está incluído, tudo está lá. Da mesma forma, tudo o que ocorre no tempo está situado entre esses dois extremos: o brotar, o crescer, o dar frutos, o desfolhar, o definhar. Todas as dicotomias expostas por Eclesiastes vão sempre no mesmo sentido: entre o amar e o odiar há todas as nuances destes sentimentos, entre o chorar e o rir existem todos os aspectos dos estados de espírito. Ele corrobora toda essa informação no seu versículo 11, onde diz que...

“As coisas que Deus fez são boas a seu tempo. Ele pôs, além disso, no seu coração, a duração inteira, sem que ninguém possa compreender a obra divina de um extremo ao outro” (grifo nosso)

... o que indica que não só a dança dos extremos, mas a presença permanente dos tempos. Que tempo? O tempo percebido, porque segundo ele mesmo, não é dado compreender ao homem a dimensão completa do tempo sempre presente.

Já falei sobre a questão da duração (durée) em outro texto, sob o prisma de Henry Bergson. Nela, temos uma discrepância entre o tempo mensurável e o tempo intuído. É aquela sensação de que um bom jogo de futebol passou como um raio e um jogo modorrento se arrastou infinitamente. Não, ambos os jogos duraram noventa minutos em uma medida de relógio, mas a sensação peculiar a cada um de nós se dá pela intuição, e daí a impressão de diferença entre os tempos. Mas a duração à qual Eclesiastes se reporta é outra. Seu sentido é que o tempo é como um imenso tecido onde todos os pontos já estão devidamente alinhavados:

“Reconheci que tudo o que Deus faz dura para sempre, sem que se possa ajuntar nada, nem nada suprimir (...) Aquilo que é, já existia, e aquilo que há de ser, já existiu; Deus chama de novo o que passou”.

Aqui, podemos enxergar uma forma de determinismo, ou, no jargão religioso, de predestinação. Lembremos que estamos diante de um texto que, embora filosófico, é também teológico. Estando o tempo todo presente, e sendo ele uma criação divina, cabe a Deus determinar que acontecimentos estão disponíveis para serem tornados presentes. Mas, nesse caso, como podemos enxergar o futuro?

O futuro é sempre hipótese. De certa forma sabemos o futuro. Não na forma de previsibilidade de que os métodos científicos dizem, mas no reconhecer a dialética dos tempos. Sempre sabemos que qualquer situação não é estanque, mas que ruma para o seu oposto, o que dá até um medinho quando as coisas estão boas. É bem verdade que essa linha invisível tem lugar para parar, mas há sempre um ponto em que a direção chega e se inverte de mão. E sabemos que isso acontecerá, ainda que não saibamos quando ou como… Há uma discrepância entre aquilo que gostaríamos que acontecesse e aquilo que sabemos que vai acontecer. Ao primeiro sentimento, damos o nome de esperança, mas este é um sentimento subjetivo, ligado aos nossos desejos e vontades, sem a necessidade de nenhuma conotação egoísta, mas da nossa própria natureza desejante. Já o segundo sentimento existe como nosso conhecimento dessa natureza dialética dos acontecimentos. Ainda que não queiramos, sabemos do rumo para a morte, enquanto também sabemos que outros seres nascerão, e estes também perecerão. Sabemos que por mais que sejam belas as paisagens naturais e as obras humanas, também estas terão um fim, e no campo devastado haverá quem vislumbre a chance de uma criação ou um novo florescer. Sendo assim, o futuro existe na forma de espera.

Note-se, portanto, que o tempo vivido não é pura predeterminação, mas uma série de eventos inevitáveis que devem ser encarados por cada um de sua maneira própria, e não como uma pura reação mecânica que já estaria escrita em algum livro qualquer. A proposta do autor de Eclesiastes para defrontar a espera representada no futuro é muito próxima à que foi imaginada por seu provável contemporâneo grego, Epicuro. Já delineei a ética do prazer deste filósofo helênico neste texto, mas dou uma rápida repassada na mesma. A humanidade tem um propósito comum: a felicidade. Seja um objetivo terreno ou uma esperança para outro plano, o fato é sempre o mesmo – todos querem ser felizes. As vias para chegar a este intento podem ser muito diferentes entre si, mas os epicureus observavam que a senda do prazer era, de longe, a mais apropriada e menos dolorosa. Era mais fácil buscar o prazer do que resistir à dor, como preconizavam os estoicos. Entretanto, o prazer aqui pensado não é aquele do poder, da fama, do sexo ou da mesa, mas o fato de se tornar prazenteiro qualquer ato que se pratique na vida. Uma caminhada que se faz pela manhã, uma flor que se cheira, o trabalho que dá forma a um objeto, uma água pura que se beba no rio, tudo isso são pequenos atos que, quando se quer a felicidade, são transformados em prazer. Os dizeres de Qohelet são muito próximos a essa mesma ética do prazer simples, como se pode ver no versículo 22:

“E verifiquei que nada há de melhor para o homem do que alegrar-se com o fruto de seus trabalhos. Esta é a parte que lhe toca. Pois, quem lhe dará a conhecer o que acontecerá com o volver dos anos?”.

Daqui temos uma contradição à própria ação do homem discutida nos capítulos anteriores: a vaidade (hevel) e a futilidade que retira o sentido da vida. Qohelet nos diz que não nos importa uma preocupação doentia com o futuro, porque ele já está posto, não nos cabe fazer mais do que esperar. Sabemos o que vem, mas não como vem, e angustiar-se com isso é inútil. A vida existe no presente, e é nele que deve ser vivida. Parece meio terreno demais, e é, até mesmo porque boa parte da crítica é favorável à tese de que Eclesiastes nasceu primeiro como um escrito puramente filosófico, para somente depois receber seus elementos teológicos. De qualquer forma, repito o que eu disse no meu primeiro texto sobre este escrito fabuloso: é um texto humano, que pode interessar como conhecimento até mesmo para o mais arraigado ateu. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

O texto de Eclesiastes é facílimo de encontrar na internet. Para compor este post, utilizei a seguinte versão:

https://www.bibliacatolica.com.br/en/biblia-ave-maria/eclesiastes/3/

* Não vou me alongar muito em Zenon porque já estou preparando um texto bem mais detalhado sobre sua metodologia dos paradoxos.

domingo, 9 de setembro de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (20 - Filosofia do Tempo)

Olá!


Já vimos várias vezes neste blog as dificuldades que a velha Metafísica tem em subsistir. Em eras onde as grandes explicações vêm das Ciências, que possuem instrumentais e métodos cada vez mais poderosos, cabe a ela ser o nascedouro das novas ideias e depois sair de cena (como eu falei neste texto). Fora alguns conceitos de altíssimo nível de abstração, e mesmo estes sem aqueeeeeeeeele destaque acadêmico, parece que o destino da pobre Metafísica não é muito promissor. Passons, as coisas são assim mesmo. Mas existe uma questão sua que não arrefece nunca, que mexe com a cabeça de filósofos desde sempre e que a Ciência não consegue dar explicações satisfatórias e definitivas. É a questão do tempo, aquela coisa que envolve o que é, o que foi e o que será. O tempo é algo concreto e mensurável ou é apenas uma abstração mental? É uma parte da nossa subjetividade? É possível dizer o tamanho do tempo? Afinal, o que ele é? Sim, a pergunta é tão complexa que existe uma área filosófica específica para ela: a Filosofia do Tempo.


É evidente que a Ciência fala sobre o tempo. Segundos, minutos, horas, dias, anos, séculos são medidas bem definidas, que são usadas instrumentalmente para benefício dos próprios experimentos científicos. No caso dos segundos, por exemplo, depois de tentar elaborar uma definição através do fracionamento de dias específicos (1/31.556.925,9747 do tempo de translação da Terra, começando às 12 horas do dia 04/01/1900), concluiu-se que, embora o número seja espantoso, não fornecia a exatidão necessária às aplicações científicas de altíssima precisão. A definição de segundo partiu, então, para nível atômico. Um segundo passou a ser representado pela duração de 9.192.631.770 ciclos de radiação da onda eletromagnética na transição de dois níveis do estado fundamental do césio 133 a 0 graus Kelvin. É um negócio inexplicável para o contexto deste espaço, mas assumirei que é o suficiente para a função a que se propõe.

Só que o conceito de tempo é tão mais amplo do que a mera matematização de intervalos que, mesmo noções já consolidadas, como o espaço-tempo einsteiniano, são altamente abstratas. Ao se tentar fazer uma representação gráfica deste termo, sempre temos que contar com uma noção espacial. Afinal de contas, a folha de papel está no plano do tangível. Eu, por exemplo, tento imaginar as dimensões espaço-temporais como um cubo que desliza em uma linha:


Ora, direis, esta representação é de todo inadequada. E é mesmo, mas é o que eu tenho para a janta. Ela é inteiramente espacial, já que consigo representar as clássicas altura, largura e profundidade, mas somente sugiro um deslocamento, outra característica espacial, e não temporal. Não há nenhuma característica desse tipo no desenho, apenas a sugestão de que o tempo modifica as coisas; no caso, a posição. Mas nada força que as coisas não permaneçam inertes. O espaço-tempo também nos é sugerido como uma malha de múltiplos pontos, um lençol entrelaçado ou uma grande redoma granulada, sempre com o defeito de tentar nos apresentar, sem conseguir, uma interpretação de uma dimensão que não ocupa espaço físico. O tempo, nesse sentido, é irrepresentável.

Apesar disso, a adição do eixo temporal aos planos espaciais resolveu um monte de problemas da Física. Einstein percebeu que o espaço e o tempo, apesar de ser algo completamente contraintuitivo, não são diferentes entre si. Ou melhor, eles se influenciam mutuamente de forma a um não existir sem o outro. Conhecemos as clássicas dimensões espaciais e a temporalidade como coisas distintas, mas existe uma interação entre ambas de forma a que uma interfira na outra. Agora pensem... Do mais distante limite do universo observável até o quintal de nossa casa, o espaço está todo presente o tempo todo. Não há uma única estrela que agora está em seu lugar enquanto outra não está. O universo todo está aí. Sendo o espaço-tempo um contínuo, e estando o espaço inteiro aí, o tempo também está. Seja presente, passado ou futuro, o tempo acontece em um mesmo bloco. Passado, presente e futuro não são alijados entre si, e coexistem.

(Pausa para respirar e pensar. Vou tomar um café e já volto).

Dessa forma, a noção que temos do tempo é completamente relativa à posição em que nos encontramos da imensa malha que entrelaça ambos. Não tenho um exemplo bem construído que demonstre isso. O que pensei de melhor foi nas distantes galáxias cuja luz demora bilhões de anos para chegar a nós. Elas talvez nem existam mais, mas o fato é que elas existem para nós no momento em que chegam a nós, assim como demorará ainda mais tempo para existir aos homenzinhos que habitam um desconhecido planeta, além do nosso. O que é passado para a longínqua galáxia é presente para nós e futuro para os verdes, tudo dependendo de nossa posição relativa.

Que coisa difícil de compreender, mas pasmem. Não é uma visão completamente inédita, pelo menos no sentido de presença temporal. Aliás, Santo Agostinho, já no século IV dC falava sobre um tempo todo presente, em sua tentativa de definir o indefinível. Anteriormente, o grego Plotino já falava sobre um tempo visto como um todo – a eternidade. Dividir o tempo em dias, meses ou anos era condená-lo à incompreensão. De fato, examinar o tempo em seus pedaços corresponde a analisá-lo em movimento, em mudança, em inconstância. Cada fragmento é contingente, e não permite que se tenha o tempo como Ser. Nesse sentido, o tempo é a “imagem móvel da eternidade”, um legítimo reflexo do Uno que dá origem a todas as coisas que existem, diferentemente de um universo que possua um ponto inicial. Se se quer analisar o tempo, é através do seu Ser que devemos fazê-lo, do seu todo, da sua unidade: a eternidade.

Para Agostinho, o tempo é igualmente distinto da eternidade, e só de lá conseguiríamos observá-lo. Como não estamos na eternidade, como Deus está, vivemos o mesmíssimo problema de quem quer observar o planeta em que vivemos. Como o faremos, se vivemos em seu interior? Somente quando Yuri Gagarin se distanciou da superfície da Terra pode contemplar seu azul, sua esfericidade, suas nuvens esparsas. É o mesmo com o tempo. Como nos distanciaremos dele para apreciá-lo e compreendê-lo? Essa é uma das grandes diferenciações entre o divino e o humano que Agostinho detecta: o homem vive no tempo enquanto Deus vive na eternidade. No entanto, há uma resposta, segundo ele. Passado e futuro são existentes, dados a memória e a expectativa, mas não fazem sentido se não são pensados no presente. O presente se estende para o passado e para o futuro, para trazer a si tudo o que se recorda e que se espera, fazendo que tudo se concretize nele e que o tempo esteja completo em si, desenhando uma das mais lindas alegorias filosóficas de toda a história: a metáfora da música, que pode ser lida neste meu texto.

Dessa forma, Santo Agostinho resolve a aporia aristotélica do tempo: se este é sucessão, é impossível que um instante coexista com outro, já que, neste caso, os dois momentos seriam, na verdade, um só, e seriam iguais entre si. No entanto, como são diferentes, é impossível de se afirmar que haja um só agora, mas é o que nos resta quando pensamos no tempo como linha sucessória de passado, presente e futuro. Só o presente é concreto, mas ele pode ser reduzido infinitesimalmente, como nos paradoxos de Zenon. Se o agora é um só, então precisaria ser sempre igual a si mesmo, e o que temos, empiricamente, é que ele não o é. Quando o bispo de Hipona coloca o agora na mesma teia do que era, é e será, ele quebra essa cadeia, porque este agora está na mesma folha elástica de qualquer outro momento. Tudo é presente.

Henry Bergson aprofundou a tese agostiniana observando quem pensa o presente. De fato, sem um homem que o perceba, o tempo é um grande nada. E é essa subjetividade que torna a percepção dos transcorrer das horas tão diferente de uma pessoa para outra. Como afirmar que algo é rápido (rapidinha?) ou lento? Qual é o ponto exato em que a tal rapidinha da piadinha que fiz deixa de sê-la para se transformar em uma, digamos, mediazinha? Esta é uma questão absolutamente pessoal, algo ligado a uma experiência do sujeito, e não nos ponteiros do relógio. Por isso, Bergson entende o tempo como duração (durée), e não como intervalo. A durée é o tempo em que uma consciência capta um momento de vivência, e não pela sucessão de segundos e minutos.

Santo Agostinho usou a música para representar o tempo; semelhantemente, Hume o comparou a instrumentos musicais. Bergson lançou mão dos novelos, e mesmo Einstein usou a metáfora do tecido para especificar seu espaço-tempo. Notem como as tentativas de concretização do tempo sempre recorrem à Estética, e lhe dão caráter poético, belíssimos. Isso acontece porque é muito difícil de se expressar o tempo, algo que, desde os primórdios da questão, é concedido ao âmbito da intuição. Por isso, é com comparações que os filósofos tentam pôr a claro suas tentativas. Mas, apesar de todas elas produzirem igualmente efeitos sensíveis, ou justamente por isso, as respostas oferecidas não são de todo convincentes. Que o diga John McTaggart, filósofo inglês que disse ser o tempo uma percepção ilusória. Como ele chega a essa conclusão?

Ele pensa que há duas maneiras de se encarar o tempo, às quais deu o nome de séries. A primeira é exatamente aquela que percebemos: presente, passado e futuro. Como nosso modo de percebê-los se dá através da sucessão de acontecimentos, temos a sensação de uma mobilidade entre estes tempos, com eventos do passado se mostrando cada vez mais distantes do ponto em que nos encontramos, ou projetos do futuro se aproximando cada vez mais. É como, por exemplo, eu me recordo dos tempos de garoto. Cada vez mais longínquos e enevoados na mente, parece que ficam cada vez mais para trás, como se eu movesse meu presente em relação a eles para mais longe. Idem com relação ao futuro: tenho ciência de que meu destino é envelhecer, como qualquer um, e tenho sinais na minha pele e em meus hábitos que registram isso, como se estivessem saindo de um lugar distante e se tornando cada vez mais próximos.

A segunda série se dá em outros termos, embora também possamos falar em três instâncias: o antes, o durante e o depois. A diferença é que aqui a noção não é de mobilidade e distanciamento como na primeira série; é de permanência, porque sempre há algo que acontece, com coisas que aconteceram antes desta e coisas que acontecerão depois, sem que os acontecimentos registrem as posições para nos dar referências. Não há que se falar em mobilidade aqui. Para além do depois, há sempre mais e mais depois. Para aquém do antes, há sempre mais e mais antes. E há sempre o instante, o concomitante, indeterminável de se colocar em uma linha, como acontece com o presente.

Colocadas as duas séries lado a lado, McTaggart diz que elas são mutuamente excludentes, e, portanto, logicamente contraditórias. Por ser sempre a sucessão de fatos, o tempo é transitório. Por ser sempre estruturado da mesma forma, o tempo é permanente. Não é possível subsistir desta forma incompatível, e, sendo assim, o tempo nada mais é que o engodo de nossa subjetividade; ele não existe.

(É ele quem está falando, não eu).

Então é isso. A questão parece que permanecerá inesgotada por mais um bom tempo (epa!), e não nos resta fazer muito além de esperar uma resposta que nos convença. Bons tempos a todos!

Recomendação de filme:

É um documentário interessante, que começa com muita potência, dando algumas opiniões sobre a natureza do tempo. É bem verdade que, para quem quer se manter no tema, o mesmo se perde um pouco do meio para o fim, quando se começa a tratar da velocidade do mundo contemporâneo, mas isso não representa um desvio do tema, apenas um desejo meu, de que o tempo em si fosse mantido no foco.

DUTRA, Adriana L. Quanto tempo o tempo tem. Filme. Brasil: Inffinito, 2015. 76 min. Cor.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 7ª mirada (2ª parte): São Luiz do Paraitinga - A Cultura e a dúvida: Como viver sentindo a passagem do tempo?

Olá!


O que faz uma cidade ser única? Em São Paulo, por exemplo, a oferta gastronômica e as alternativas acadêmicas, terra de trabalho e correria. Em Santos, as praias. No Circuito das Águas, ora, as águas. Em Ibitinga, os bordados; e assim sucessivamente. São Luiz do Paraitinga tem sua identidade marcada pela inesgotável festividade de seus habitantes.




São Luiz do Paraitinga tem na sua matriz cultural a sua principal característica. Não há praticamente nenhum mês no seu calendário cultural que não abranja algum tipo de festividade, e as marcas dessa febre estão espalhadas por todo o espaço público. A cidade inteira parece um grande trabalho de tear, com urdidura e trama coloridas, começando pelas casinhas que cortam toda a zona urbana.



Outro exemplo é esta escadaria, que é mais um desafio ao término de uma íngreme ladeira, que lhe dá aspecto de uma colcha de retalhos, tão típica da região toda.



Ao chegar mais próximo, um grafite dá mais uma dimensão ao colorido: a teatralidade.



Das incontáveis ladeiras, há muitas referências a um passado que nem é tão remoto assim. Exemplos são os painéis de azulejos do Largo do Teatro (do qual falarei já, já) e da Ladeira das Mercês, que desemboca na capela de mesmo nome. A ladeira retratada, que é o acesso à igreja do Rosário, é praticamente igual ainda hoje.



Festa, música e comida tem uma porosidade entre si. Como tal, é muito difícil de se pensar em uma sem as outras (vide este texto). Por isso mesmo, Paraitinga tem uma curiosidade: não há um, mas DOIS coretos na cidade de 12000 habitantes, sendo um na praça da matriz e outra no calçadão contíguo.



As atividades econômicas da região, além da típica agropecuária, tem muito a ver com o dia-a-dia das próprias pessoas. Nada de grandes indústrias. Há destilarias, como a Mato Dentro, que produz uma cachaça forte, forte, forte de marré, marré, marré, e que ostenta uma série de premiações, situada no interior de uma fazendinha.



Já na praça da matriz, o reforço da vocação etílica, representada por uma adega simbolizada pelo retrato do Pimba, que, curiosamente, é a cara do meu sogrão quando jovem. Atendidos pelo Amauri, ficamos sabendo que o Pimba em questão não é o dono do alambique, mas seu pai (se bem me lembro). A fábrica fica perto, no município de Taubaté. Há cachaça para todos os gostos – branquinha, amarelinha, no carvalho, na umburana, no amendoim, na canela, com frutas e etc.



Há também uma pequena fábrica de farinha de milho, daquelas grossas, que fica no mesmo conjunto do hotel onde ficamos hospedados. A visita à produção é franqueada, de modo que se possa desvendar o mistério dos flocos. Uma moenda tritura o milho, que é filtrado por um túnel poroso. Este fubá é levado a uma chapa circular quentíssima, onde é floculada e ensacada. Bom para saber.



Agora, a comida... Tudo o que é servido aqui é abundante. É preciso certa parcimônia nos pedidos, porque há necessidade de valentia para encarar os “fogados” e costelinhas com quirera, dentro outros. Este abaixo é um dos pratinhos servidos no Barão:



Desculpem-me, mas aqui vou fazer propaganda franca e aberta, e juro que sem remuneração. Um dos melhores lugares que passei em SLP foi um barzinho chamado “Mai será o Binidito?”, colado ao rio Paraitinga e ao Mercado Municipal. Este é o seu distintivo:



É um lugar que junta uma pegada cinematográfica (as paredes são forradas com referências aos filmes rodados na cidade) com produção literária local – e que se pode confortavelmente ler em uma poltrona centenária – e com comida de comer rezando. Aqui, tivemos a felicidade de pegar, de graça, uma jam-session do músico Moreno Overá com um rapaz recém-formado na Europa, de nome Guilherme.



Aqui, a criatividade e a tradição são reunidas no bolinho de arroz com “fogado” (com cachacinha amarelada)...



... e nas diferentes opções de pastel de angu, preparados com requeijão de prato, carne seca, carne moída. A Dani, a Thais e o Pipoca escavam, não sei de onde, cervejas artesanais surpreendentes, como a já recomendada Biéres de la Madona, as cervejas do Gordo e a Lilith. Estão nas vésperas de produzir sua própria cerveja, o que aguardamos com certa apreensão.



Vamos partir para os principais eventos da cidade, aqueles que a deixaram famosa. Há, evidentemente, a festa junina e algumas festividades que homenageiam os cidadãos famosos, além da festa do Saci, uma espécie de alternativa ao Halloween, mas as que “pegam” mesmo são o Divino e o Carnaval. Vamos dissecá-los um pouco.

A festa do Divino Espírito Santo é oriunda da rememoração do dia de Pentecostes, solenidade católica em que se evoca a vinda do Espírito Santo, da mesma maneira em que é relatado pelo livro dos Atos dos Apóstolos: em uma noite cinquenta dias após a Páscoa, um forte ruído assombra os discípulos de Jesus. Era o Espírito Santo, que lhes vinha em algo semelhante a uma pomba. Por esse motivo, o pássaro cosmopolita é a sua representação mais comum.



A comemoração litúrgica é uma missa quase igual a todas as outras, o que fez com que a festa do Divino praticamente se extinguisse dos grandes centros urbanos. Mas a cultura popular a transforma em uma festividade gigante, especialmente no banquete coletivo. Em SLP, o prato principal é o mesmíssimo “fogado” mencionado anteriormente – carne de segunda que passa a madrugada inteira sendo cozida com temperos e legumes, para estar desfiando no momento do consumo. Além disso, há várias procissões que começam longe, e que vão se aproximando e agregando gente por onde passa. Como em todas as outras cidades da região, aqui também a bandeira do Divino é ponto central da festa, sendo instalada em altos mastros, como esse que se encontrava deitado por ocasião de nossa visita.



Testemunha de toda essa movimentação é Neca Junqueira, artesã da lojinha Tatu Him, que nos contou histórias e mais histórias de inundações e celebrações. Sua loja/casa é a do meio, verdinha. Fica quase que nas escadarias da igreja do Rosário.



Quando visitamos sua loja, havia um pequeno aglomerado de crianças nas tais escadarias. Aos poucos, foram chegando alguns jovens, trazendo uns instrumentos musicais. Todos eles saíam de uma casa situada no chamado Largo do Teatro, que citei agora pouco.



Desta mesma casa, emergem dois bonecões. Um senhor de barba e cartola e uma mulher com cabelos amarelados, ambos vestidos de retalhos de chita. Trata-se da representação de Juca Teles e Nhá Fabiana, representação máxima do Carnaval de marchinhas, o segundo evento ao qual gostaria de me referir.



A Neca nos contou o que estava havendo. Eram as crianças e seus instrutores que, ainda em setembro, já se preparavam para a chegada do reinado de Momo, ensaiando o seu desfile. Diferentemente de outras localidades, aqui não é o samba o fundo musical do Carnaval, mas as assim chamadas marchinhas. E os bonecões são uma espécie de abre-alas dos blocos que tomam as ruas da cidade.



Por esse motivo, os bonecões estão espalhados pela cidade inteira, seja nas ruas...



... seja nos prédios públicos, como o Instituto Elpídio dos Santos...



... seja até mesmo no interior dos comércios.



Mas, como já citei no primeiro texto sobre essa cidade, o Carnaval já foi mal visto por aqui. Rapidamente revisando: o italiano Monsenhor Ignacio Gioia foi nomeado pároco local no início do século XX. Impressionado com a importância dada à festa carnavalesca, onde, segundo se dizia, as moças vinham tomar as cinzas no início da quaresma ainda com os corpos repletos de confetes, baixou proibição a todo cristão da cidade de tomar parte desta perdição, no seu dizer. Dizia coisas como o surgimento de rabos e chifres naqueles que desobedecessem, bem como profetizou a inundação da cidade até os tetos da igreja, caso a sem-vergonhice prosseguisse. Há quem diga que sim, há quem diga que não, mas o fato é que enchentes nunca foram propriamente novidades por aqui.

O padre se foi, mas a imprecação permaneceu ecoando. O caso meio que ficou no plano do folclore, até que uma reportagem da rede globo, no começo da década de 80, foi “cavucar” as memórias das pessoas. O resultado da matéria, exibido em rede nacional, foi tomado como ofensivo pelos luizenses, dado o seu tom jocoso, tipo como se os habitantes ainda tivessem medo de se nascerem chifres em suas cabeças e rabos em seus traseiros. Esse foi o estopim para que o Carnaval de marchinhas voltasse a eclodir, com toda a sua força. Ano após ano, mais e mais blocos iriam se constituindo: Barbosa, Casarão, Lençol, Lobisomem, Bebebum, e muitos outros. O mais famoso deles: Juca Teles.



É uma referência ao agitador cultural Benedito de Souza Pinto, que era famoso até a década de 60 por conta de suas manifestações populares, como a Malhação de Judas. Ele adotou o pseudônimo exatamente por conta da transgressão à “moral e bons costumes”, ainda mais pelo fato de ser funcionário do judiciário. Mas ele carregava consigo a alma festeira adormecida naquelas pessoas, e a recriação do Carnaval luizense foi resgatar esta figura que levou praticamente sozinho o que restava dos velhos tempos.



Em todos os estandartes dos blocos, além dos dísticos habituais, como as máscaras teatrais e o megafone de lata, há uma intrigante pergunta: “Como viver sentindo a passagem do tempo?”. Muito interessante ver um questionamento tão profundo em algo voltado à frivolidade, o que é prova de preconceito meu.

Há dificuldade até mesmo em interpretar certeiramente o verdadeiro sentido da pergunta. Será que tem o âmbito de manifestar uma vontade (algo como: “Quero sentir a passagem do tempo. Como fazê-lo?”) ou uma angústia (“Como conseguir viver mesmo sentindo a passagem do tempo”)? Isso porque o tempo é um tema complexo demais, e vou tentar responder ao desafio jucateliano ao meu modo.

Bem, a primeira coisa necessária é tentar entender o que é o tempo, e já aqui a barca naufraga. Muita gente boa tentou fazê-lo, inclusive da maneira que expus neste espaço, aqui e aqui. Em resumo: Santo Agostinho dá uma resposta universal. Se ninguém me perguntar o que é o tempo, eu sei o que é; se alguém perguntar, eu já não sei. Ou seja, o tempo é inefável; foge da razão e está no campo subjetivo da intuição. Cada um tem sua própria percepção de tempo, como bem disse Bergson. Leiam os dois posts que indiquei. São breves e deixam as coisas bem claras.

Mas não precisamos nos reter apenas a estes dois pensamentos. Se pensarmos o tempo nos termos da Física, veremos que os estudos da relatividade de Einstein levaram à fusão dos conceitos de espaço e tempo, algo muito-muito-muito complexo, e que, aqui, abordaremos apenas o essencial necessário para desenvolvê-lo. O contínuo espaço-tempo é algo como um sistema de coordenadas quadridimensional. Neste sistema estão incluídas as facilmente perceptíveis dimensões espaciais (altura, largura e profundidade) e é adicionada a variável do tempo, um eixo através do qual as demais dimensões trafegam. Cada ponto neste sistema é um evento, ou seja, algo que ocorre em momento e local específico. Ocorre que todo esse sistema depende de um referencial para ser aplicado. Afinal, algo tem distância em relação a algo; algo tem duração em relação a algo, ok? Digamos que uma pessoa parada observa um avião. Para ela, o avião está em movimento. Para quem está dentro do avião, o referencial muda: estão parados, e quem se apresenta em movimento é a pessoa da terra firme, que se afasta rapidamente. Se observarmos tudo isso de fora do planeta, perceberemos outro fenômeno – nem um, nem outro estão parados. Ambos se movem com o giro da Terra, e esta gira em torno do Sol, que gira com o braço da galáxia, e assim por diante. A cada novo referencial, temos um novo eixo do tempo no sistema, e este contínuo é percebido de maneira diferente, por menor que seja tal diferença.

Pudemos notar que, mesmo na Física, a percepção de tempo não tem uniformidade, porque depende de referenciais. Em nossa imprecisa consciência, a questão se agrava. Perceber a passagem do tempo significa sentir seu fluxo, e isso significa perceber a movimentação entre o futuro que se espera, o passado que se rememora e o presente que acontece. Ou seja, o tempo se realiza no presente. A aporia maior está em limitar o que é este estranho personagem.

Vamos vasculhar alguns dados do pensamento histórico. Zenon de Cítio, o principal dos estoicos (vide aqui), parecia um cara brincalhão, dado a fazer joguinhos de paradoxos, como aquele em que dizia que um arqueiro, ao disparar sua flecha, jamais a veria chegar ao seu alvo. Isso porque, antes de chegar ao seu destino, a flecha precisaria percorrer metade de seu trajeto, e, antes disso, a metade da metade, e a metade da metade da metade, e così via. Como cada percurso poderia ser dividido em dois, teríamos uma divisibilidade infinita. Ou seja, o movimento nada mais seria do que uma ilusão. Coube a Marcos Cínico* resolver essa parada de um jeito muito fácil e prático, apesar de dolorido. Correndo, dá de cara com a parede, em um extremo do empirismo. Deve ter doído, mas lhe autorizou a ridicularizar a posição de Zenon, que, na real, deveria estar troçando da galera**.

Mas a divisibilidade infinita era um grande problema para que fosse possível estabelecer o que é o presente. Qual seria o seu “tamanho”? Encarando esse enigma, David Hume afirmou que a divisibilidade infinita não pode ser aplicada ao tempo. Há uma espécie de “átomo” do tempo que é o mínimo necessário para configurar um momento, um intervalo mínimo que permite a percepção da temporalidade. Enfim, a quantidade mínima necessária para que percebamos que algo ocorreu. Ora, mas não podemos ter a metade de um momento, ou até menos que isso? Sim, podemos; o diabo é que a percepção não está nas próprias coisas, mas no sujeito. O tempo não é nada sem o sujeito que o percebe. Notem então que há uma dissonância entre o tempo que acontece no cosmos e o tempo que conseguimos sentir. Notem mais ainda:  que um evento físico que ocorre no universo jamais é o mesmo que é produzido psicologicamente. Em Hume temos o belíssimo exemplo do instrumento de sopro e o instrumento de corda. Ele fala que aquilo que sentimos (e aqui insiro a sensação de temporalidade) não é como uma flauta, que cessa sua sonoridade assim que se para de soprar. Antes disso, assemelha-se a uma lira, cuja corda permanece em vibração após ser tangida, produzindo uma sensação sonora que se alonga até seu completo sumiço. O tempo cósmico, portanto, tem a exata medida de seus eventos, enquanto o tempo subjetivo, o tempo que verdadeiramente importa, este dura muito mais que o próprio evento, porque o sujeito tem algo chamado afeto***, algo próprio ao ser humano. Há uma assimetria entre o fenômeno ocorrido e as suas consequências, e o tempo dos afetos é mais duradouro do que o tempo de articulação com o mundo.

Pensemos no seguinte, para ficar mais claro. Um rapaz faz uma proposta indecorosa a uma moça qualquer. Como resposta, voa um belo tapa na sua cara, daqueles dados com as costas das mãos. O tempo físico do ato dura centésimos de segundo – o exato momento do encontro da mão da indignada moça ao rosto do indigitado canalha. Mas o tempo da dor, da decepção pelo fracasso do sacripanta, da revolta pelo acinte da menina, tudo isso dura muito mais, e causa muito mais efeitos do que o mero ato físico.

Diante disso, chego à conclusão de que o tempo, para ser sentido, nada mais é necessário do que perceber seu fluxo através daquilo que nos afeta. Cada pequeno ato que ocorre ao nosso redor é mais um ponto que se fixa no sistema de coordenadas de nossa vida, e que se transforma em referenciais. Por cada um deles mediremos memórias do passado e expectativas do futuro.

Eterno fluxo... Heráclito, o mestre do devir! Nunca tomamos banho no mesmo rio (mesmo – ou principalmente – que seja o Paraitinga). Nós não seremos mais os mesmos, nem o rio será o mesmo, ainda que daqui a um minuto, ou um momento indivisível. O tempo nada mais é do que a sucessão de nossas mudanças, o nosso próprio fluxo ininterrupto.

O tempo é indissociável da filosofia de Heráclito. Enquanto os demais pré-socráticos discutiam qual seria o elemento primordial que comporia os seres (vide), Heráclito institui a doutrina do panta rhei. Tudo flui, o próprio fluxo é o Ser, porque nada persiste em si mesmo imutável, no polo oposto do que Parmênides pensava. Ele usa a imagem do banho no rio para dar o exemplo mais clássico do fluxo eterno, mas é no fogo que ele vê em sua frente o grande elemento de transformação, e o adota como arché, talvez mais simbolicamente do que como elemento concreto.

E por mais que Parmênides possa estar correto em afirmar que há uma essência nos seres que os fazem ser imutáveis, o fato é que isso nos foge aos sentidos. O mundo sensível, aquele que nos afeta, é um continuum em que se entrelaçam o tempo instantâneo dos acontecimentos com o fluxo ininterrupto com o qual somos afetados pelos mesmos. Essa é, para mim, a mais bela maneira de sentir a passagem do tempo.

Recomendações de leitura:

Hume não é propriamente um filósofo fácil, nem de ler, nem de engolir. Isso porque seu ceticismo é praticamente absoluto, o que beira a uma completa ausência de confiança em qualquer coisa que seja. Mas ele, na verdade, é muito sagaz. Vale a leitura.

HUME, David. Investigação sobre o Entendimento Humano. São Paulo: Unesp, 1999.

O livro abaixo é um guia completo sobre o desenvolvimento do Carnaval luizense. Imperdível, apesar de, lamentavelmente, não ter sido editado por nenhuma editora de renome.

SILVA, Degiovani Lopes; VIEIRA, Maria Alice F. do Amaral. São Luiz do Paraitinga sem Rabo e sem Chifre. A Evolução do Carnaval das Marchinhas na Terra de Juca Teles do Sertão das Cotias. São Paulo: Edição do Autor, 2012.

* A escola cínica não tem nada a ver com o cinismo da maneira que utilizamos hoje. Os cínicos filosofavam por uma vida simples, como a de um cão (kynos – cão em grego), onde apenas as necessidades mais essenciais deveriam ser satisfeitas. Certamente terei boas oportunidades de falar melhor sobre eles.

** E estava mesmo: Zenon apenas demonstrava como a matemática não consegue dar conta de toda a realidade.

*** Lembrando que afeto, em Filosofia, significa não só amor que temos por outras pessoas, mas algo capaz de nos produzir qualquer mudança.