Marcadores

segunda-feira, 23 de março de 2026

Sobre monumentos involuntários e indesejados indo ao chão (parece) e sentidos de frases usados um pouco melhor

(Nada é permanente nos dias de hoje… como, aliás, nunca foi)

“Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado e o homem é obrigado por fim a encarar com serenidade suas condições reais de vida e suas relações com seus semelhantes”.

Marx

Olá!

Bem ao contrário da vista da Mantiqueira que eu tenho em Taubaté, da janela do meu quarto no centro de São Paulo eu tenho uma velha visão do descaso. Do meu ponto de visada, bem no caminho onde eu poderia enxergar o Parque Dom Pedro, há um colossal esqueleto de um prédio que deveria ter sido uma garagem vertical. É o que a cidade conhece como Caveirão.

Ele é célebre, sempre citado como exemplo quando se quer demonstrar a velocidade de lesma com que as coisas se desenrolam em Terra Papagalli. Trata-se de um antigo projeto de prédio-estacionamento, imaginado quando a questão vagas passou a ser problemática por estas bandas. Não sendo projetada para a maluquice urbana que temos hoje, por sua idade avançada em termos de Brasil, São Paulo se ressente de bolsões competentes de estacionamento, ainda mais que, sendo terra da grana (na mão de poucos), é de carro que a cidade faz seu negocial, e esse tipo de aberração tem sido imaginado já há tempos. Não teria sido muito melhor esteticamente se este armatoste tivesse chegado ao seu uso inicial: seria feio, continuaria encobrindo a visão, reinaria como um marco à miséria do centro da cidade mais rica do país, imperando sobre o Glicério dos cortiços e da Várzea do Carmo das enchentes. Há coisas que nascem mal e não tem muito para onde correr. Mas o fato é que esse entulho armado está embargado desde a década de 70, quando as obras do metrô colocaram em risco suas estruturas. Entre trocas de proprietários e disputas judiciais, esse lugar foi ocupado diversas vezes, infelizmente por pessoas intimamente ligadas ao tráfico e abuso de menores, como bem sabemos nós, moradores das redondezas. Então tínhamos um caldeirão de problemas sociais reunidos em um só lugar, ele mesmo um problema urbano prestes a desabar, fazendo sucumbir as vidas daqueles que procuravam um lugar para morar, para se esconder, para cometer crimes ou, simplesmente, para ficar de chiacchera na calçada enquanto a vida passa.

Depois de décadas de imbróglio, parece que as coisas começam finalmente a tomar um rumo. São incríveis 60 anos que demoraram para um desfecho, que ainda poderiam ter se arrastado por mais tempo ainda. O judiciário, frente ao risco de desabamento, expediu ordem judicial ao proprietário para que ele procedesse a demolição do imóvel, o que foi sucessivamente descumprido, sob a alegação de ausência de recursos, cada vez piorada pelas multas não pagas. Diante disso, a justiça intimou a prefeitura a realizar o serviço e a autorizou a cobrar do proprietário os custos, o que certamente se dará pela desapropriação da área. Pelo projeto inicial, virá um conjunto de prédios de uso misto, o que significa lojas no térreo e moradias acima.

Alguns meses ainda se passaram dessa omelete jurídica, até a coisa ganhar concretude, e ela veio na forma do cercamento da entrada da estrutura, pela frente e pelos fundos, bem como do despejo dos cortiços que lhes são lindeiros. A igreja evangélica foi poupada desse último, mas isso é história para outro momento. E, nestas últimas semanas, finalmente foi possível ver ação: uma equipe da prefeitura começou a instalar os patamares que servirão para dar sustentação à operação de demolição, que, dado ao fato de estar a coisa toda logo acima do túnel do metrô, precisará ser feita na marretada. Perdi a chance de ver uma implosão ao vivo e em cores. Droga…

Pena que o jacarandá que resiste no topo do prédio deve ser a primeira coisa a vir abaixo. Eu o removeria com cuidado e plantaria na frente da obra que for construída no lugar, como prova da tenacidade da natureza e de como é possível surgir beleza dentre os abrolhos. O Caveirão já está há tantos anos não só no meu campo de visão, mas de todo aquele que chega ao centro de SP, que já parecia um espetáculo a ser candidato a patrimônio histórico. Quem vem pela Avenida do Estado ou pela Radial Leste já o vê ao longe, com sua estranha imponência asquerosa, armadura exposta e apodrecida, fruto de um misto inexplicável de pobreza da intenção estética, falta de imaginação na solução urbana e surreal lentidão burocrática. Quem o vê, não entende como é possível que se quisesse erguer um prédio tão horrível, ao mesmo tempo que se assombra com o fato de que tal edifício tenha sido condenado por ameaçar cair há tanto tempo e tenha ficado lá, esperando virar desgraça. É o tipo de coisa que nos faria acreditar que Deus sustenta aquela tralha e evita a hecatombe que seria sua queda, se não fôssemos tão firmes na nossa falta de fé. 

Fosse uma implosão, e tudo iria ao solo em segundos, como ocorreu com prédios vizinhos na praça Clóvis, com nuvens de poeira invadindo as salas e filas de caminhões para remover o entulho. Seria o fim espetacular de algo que, no final das contas, parecia que iria desafiar eternamente as regras da engenharia. E eu lembro de uma frase usada meia solta por aí: “tudo o que é sólido desmancha no ar”, como sinônimo da transitoriedade daquilo que acreditávamos imutável. Ela é uma frase de Karl Marx, usada no conhecidíssimo Manifesto do Partido Comunista*, e é preciso deixar algumas coisas um pouco mais claras sobre ela.

O Manifesto Comunista é uma obra que divide opiniões. Para alguns, um panfletão sindicalista; para outros, a base de uma nova sociedade, ambas defendidas e atacadas com as mesmas altas doses de rancor e reverência. Não dá para conversar com esses ânimos, mas é possível tentar esquecer das dicotomias atuais e chegar a um didatismo desapaixonado. Olhado por um prisma o mais isento possível, o texto é baseado numa análise do processo de Revolução Industrial, ponto culminante da implantação do Capitalismo, passando pelas fases anteriores e com comparações sociais do que seriam as classes dominantes, com a qual se pode concordar ou não. O cerne do livro é detectar no processo histórico a repetição de uma mesma lógica de dominação, passando desde os primórdios da organização política até a chegada da burguesia ao poder. Entretanto, a divisão entre burgueses e proletários, ainda que reproduzindo a mesma estrutura da realidade, tem suas sutilezas que trazem um cenário único: movidos pela expansão do comércio e pela expansão industrial, nunca uma divisão entre classes foi tão acentuada.

A burguesia é revolucionária. Ela transformou o mundo de uma maneira tão radical quanto as guerras e invasões, de modo a modificar todas as relações econômicas e sociais como nunca se viu antes. Sua principal virtude foi desmontar a lógica hereditária dos antigos reinados e a estrutura baseada no sentimentalismo sustentada pela religião. Tudo, absolutamente tudo, virou um conjunto de relações comerciais.

A grande questão é que esse modo de produção capitalista, segundo os autores, precisa se retroalimentar continuamente. A cada vez em que uma transformação do sistema se instala, junto com ela vem uma revolução social. A expansão marítima tornou necessária imensa quantidade de recursos para viagens cada vez mais distantes. A Revolução Industrial transferiu para a fábrica a lenta produção artesanal. A linha de produção hiperespecializou e simplificou tarefas que eram realizadas mais lentamente por funcionários que precisavam conhecer o produto como um todo. E assim andou pela época de Marx, e assim anda até hoje.

Essa contínua transformação impede que as coisas se tornem perenes, mas não as impedem de se afigurar como tendências irrefreáveis. Um produto fabricado com altíssima tecnologia terá sucedâneos que aparentam não ter substitutos. Um celular hoje em dia é tudo, menos um telefone, e cada vez menos há pessoas com linhas fixas em casa, como é meu caso mesmo. Para se obter essas maravilhas eletrônicas a um preço que esteja ao alcance de um número cada vez maior de pessoas, é peremptório que os custos sejam diminuídos em algum canto, e ele se dá exatamente pelo aproveitamento cada vez menor de recursos humanos. 

Parando para pensar, as novas formas de produção são uma constante na linha evolutiva do modo de produção capitalista, e sentimos isso em nossas mãos. Nos tempos dos inícios da indústria, a grande preocupação era produzir mais e mais, com um custo cada vez menor. Essa lógica não mudou, mas a forma como esse objetivo é perseguido muda muito rapidamente. Vivemos nos dias de hoje algo que os sociólogos chamam de desemprego estrutural. Não se trata mais das inúmeras crises que fazem com que a produção encolha e a desocupação expanda, para logo depois ser retomada a trilha costumeira, mas de um nível tão avançado de automação que o trabalhador se tornou desnecessário. Lembro muito bem de quando fui, aos quatorze anos, trabalhar de office boy em uma grande rede varejista. Os relatórios que buscávamos na matriz para levar ao RH hoje são extraídos de um celular. As inúmeras cartas de cobrança encaminhadas ao correio viraram ameaçadores e-mails. Tudo é virtual e não serviríamos para mais nada nos dias de hoje, com nossas perninhas ágeis e nossas cabecinhas distraídas. Em outra empresa, aos dezesseis, éramos nove no departamento de contabilidade. Pessoas destinadas exclusivamente para fazer faturamento, para calcular correção de patrimônio, para operar a máquina contábil (eu), para cuidar do arquivo, para preencher fichas de lançamentos estão todas hoje subjugadas pelo toque de um botão, que integra todas as informações financeiras de uma empresa instantaneamente. Folha de pagamento, contas pagas, duplicatas a receber, baixas de estoque, absolutamente tudo é integrado nos livros contábeis no exato momento em que acontecem, e ao contador resta somente a parte analítica, quando muito. Mas cuidado, vem vindo mais.

Hoje temos a inteligência artificial que ameaça fazer sucumbir toda a indústria de desenvolvimento de software como conhecemos até hoje. Em um processo de autofagia, a cibernética decreta seu próprio fim e faz desmoronar tudo aquilo que parecia ter vindo para ficar. O contador, que olhava com preocupação a queda nos índices de liquidez, agora tem que olhar com preocupação a necessidade de seu trabalho, frente à capacidade infinita de coligir dados de uma IA que, se ainda não é perfeita, mostra que o horizonte é novo. Até que outro processo inimaginável neste momento vai superar a tão decantada IA, sempre na busca de aperfeiçoamentos para o sistema de acumulação de capital, sempre maximizando ganhos através da economia proporcionada com a mão de obra. O desemprego estrutural é a demonstração de que mesmo um sistema exploratório encontra seu término. Nas épocas de Marx, o pequeno produtor, o artesão e o comerciante miúdo eram transformados em proletários porque não tinham outro caminho a não ser vender sua própria força de trabalho. Hoje, perguntamo-nos se haverá empregos amanhã. Nada é para sempre.

Só que muitas das vezes em que essa frase é usada, há um sentido meio que puxado para o estoico, como, por exemplo, trata Sêneca no seu famoso texto “Sobre a Brevidade do Tempo”, sobre o qual já dei meus pitacos. Neste, a questão das transformações inesperadas se dá em um âmbito ético, mais no sentido de não se desperdiçar momento vivido com sonhos irrealizáveis, mais para o tempus fugit, carpe diem.

Marx dá uma ideia mais de destruição. O Capitalismo funciona sob uma lógica de que todas as relações são efêmeras e podem mudar ao sabor da sua necessidade de se reinventar continuamente. Não são só as artes e ofícios que se transformam, mas as tradições e relações sociais vão na mesma esteira. Reis e sua vassalagem eram um fato tão concreto na Idade Média que nada pareceria romper essas relações tão cheias de mística. O próprio fenômeno burguês surge como uma quebra de hierarquia política: o poder sai das mãos de quem tem direito “divino” para ir para os que têm recursos.

A expansão contínua toma proporções planetárias, extinguindo fronteiras; a natureza é subjugada ao máximo, em uma medida que seus ciclos não mais dão conta, fazendo áreas inteiras modificar-se irremediavelmente. Tudo precisa ser grandioso e rápido, e, no fim, mesmo que velada por uma atmosfera conservadora, para a manutenção do status quo, só resta o reconhecimento de que todas as relações humanas se baseiam no negócio, nas relações comerciais e, no limite, no desigual confronto de classes.

Então percebam como o sentido da famosa frase se dá no âmbito político e econômico, sendo menos genérico do que seu uso “profano” pode fazer crer. Mas esse uso pode ser considerado ilegítimo? Não, né?

O sentido de efemeridade é aplicável a praticamente tudo na vida. Sempre temos situações que achamos hoje serem imutáveis, mas que giram 180 graus de um minuto para o outro. Um prédio vai pelos ares em segundos. Pode parecer insignificante em uma cidade com milhões deles, mas, se eles forem torres gêmeas, mudam o destino do mundo. Ídolos incontestes sucumbem em uma colisão. Era inimaginável que isso acontecesse, e vocês sabem de quem estou falando, mas a solidez não resiste ao vento do acaso. Só que, como podemos ver, embora seja uma interpretação válida da frase em sentido genérico, ela escapa do real contexto para o qual ela foi criada.

Portanto, é uma questão mais de se saber do que se está falando do que vetar seu uso por um capricho ideológico. O importante é saber o que se faz na cozinha para não passar vergonha na sala. E lembremos que nada impede que novas firulas judiciais façam com que os pedaços de concreto não comecem a cair e que a afirmação objeto deste texto seja mais uma vez falseada em nosso insólito país. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Critique somente o que você conhece. O Manifesto Comunista é curtinho e não exige grande ciência para ser lido, além de poder ser baixado de graça na internet.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2000.

*Pois é… você usa uma frase marxista e nem sabia disso.



quarta-feira, 11 de março de 2026

Navegações de cabotagem – o Museu Histórico e Pedagógico de Pindamonhangaba e a nossa servidão voluntária do quotidiano

(É certo que estamos exercitando a democracia, mas ainda nos entregamos a atitudes tirânicas)

“A borboleta que, esperando encontrar algum prazer, se atira ao fogo, vendo-o luzir, acaba por ser vítima de uma outra qualidade que o fogo tem: a de tudo queimar”.

Etienne de la Boétie

Olá!

Clique aqui para ler mais textos sobre meus bate-e-volta

Como é de se esperar, para alguém que viveu anos a fio em uma cidade imensa como São Paulo, morar em Taubaté, ainda que se reconheça como uma cidade razoavelmente grande, não dá nível de comparação possível. Claro que isso é bom, porque é exatamente esse menor movimento que é um dos atrativos daqui. O efeito colateral é que você domina todo o cenário em pouco tempo, e eu já tenho toda a lógica viária traçada na minha cabeça, porque isso em SP é praticamente autodefesa, onde ter orientação especial pode te livrar a cara de encrencas grandes. Por isso, é preciso pensar Taubaté como o miolo de um grande cercado de cidades, que permite fácil chegada a qualquer momento. Isso inclui São José dos Campos, Santo Antônio do Pinhal, Tremembé, Campos do Jordão, Redenção da Serra e várias outras, que podem ser alcançadas em, no máximo, uma hora de deslocamento. Naturalmente, isso inclui Pindamonhangaba, que é quase um continuum de Taubaté.

Embora Pinda seja uma cidade do mesmo contexto histórico das outras do Vale do Paraíba, primariamente não foi por isso que vim para cá pela primeira vez na minha aventura no Vale, mas por motivo médico. Já não sou uma criança, e preciso saber para onde correr na hora do aperto. Como estou formando uma carteira médica novinha em folha, peguei uma indicação que fica nesse lugar, e lá fui para conhecer. Com tempo suficiente, fui tomar um café em um estabelecimento bem agradável e dar uma voltinha pelo Centro, onde achei o Museu Histórico e Pedagógico.

É um belíssimo casarão de estilo neoclássico, que pertenceu a Antônio Salgado da Silva, o Visconde de Palmeira, aristocrata do século XIX que construiu sua fortuna no ciclo do café, aquele período da história brasileira em que se pautou toda a vida econômica do Florão da América no cultivo e exportação da rubiácea. Todo o Vale do Paraíba era ocupado por fazendas de café, o que enriqueceu muita gente dessa classe.

Lá dentro, um grande acervo de objetos se espalha pelos vários cômodos e nos diferentes pavimentos erguidos em taipa de pilão como marcas dessa época e denotando usos e costumes.

O imóvel teve vários usos, incluindo como casa mesmo, para o tal Visconde e sua família, que guarnecia sua casa com diversas obras de arte, como estatuária dirigida para a mitologia grega e romana.

Outra função é a memória local, representada por fotografias de pessoas e eventos que eram marcos sociais da cidade, já que a quantidade de cômodos permite uma grande distribuição de objetos.

O prédio também foi utilizado como hospital durante a Revolução Constitucionalista, que teve muitos episódios ocorridos na região do Vale do Paraíba.

Como já mencionei neste texto, a Revolução é uma grande marca do estado de São Paulo como um todo, e possui a estranha imagem de ser uma derrota rememorada com orgulho.

Outro uso foi como escola normal e colégio estadual, onde se focava no ensino profissionalizante. Muitos utensílios de escritório se encontram lá expostos, inclusive alguns que eu cheguei a utilizar, o que prova que o tempo passa para mim também.

Há uns cômodos reservados para os povos que viviam na região, que incluíam imigrantes, negros escravos e índios, dos quais são exibidos vários utensílios.

Nos pavimentos inferiores, há ainda vários elementos interessantes. Um dos principais é uma magnífica charrete de quatro rodas, que parece prontinha para ser utilizada. Curiosidade é o amortecimento em feixe de molas, moderno para a época.

Outro cômodo abriga o maquinário da antiga gráfica da Tribuna do Norte, jornal quase sesquicentenário que ainda resiste nos dias de hoje na própria cidade de Pindamonhangaba.

E tem também um porão que foi montado à guisa de senzala. É um dos momentos mais pungentes da visita, porque dá uma ideia de sufoco e de repressão muito intensos, representados pelos sacrifícios dos escravos.

Não se limitando ao trabalho duro e ao cerceamento da liberdade, ainda havia amplo uso de tortura…

… e a morte humilhante, para controlar através do medo.


É realmente difícil compreender a escravidão, seja por qual lado ela for vista. Por mais que ela fosse costumeira e até mesmo chancelada por textos sagrados, não faz muito sentido que se ache natural a submissão de um ser humano por outro, como se fossem espécies distintas. Talvez seja o máximo de violência que se pode perpetrar contra alguém, pois envolve tudo: corpo, cultura, manifestação e, se descuidar, pensamento. A pessoa deixa de o ser, ainda que se mantenha viva.

O grande questionamento é se o simples fato de não se ter um senhor de papel passado nos tira da escravidão, ou, pior ainda, se nós não acabamos por nos entregar a ela. Eu olho para minha própria existência e concluo que não há grandes liberdades. É aquilo de todo mundo: ou trabalha, ou não vive. E isso significa seguir horários impostos, tarefas monótonas, imposições forçadas e até uma boa dose de assédio. É estrutural do sistema e não há muito por onde escapar. Claro que chegamos aqui à questão da opção, e, para isso, sou chamado por meu interlocutor imaginário favorito: ora (direis), é possível escolher um caminho diferente. Ninguém te obriga a ser um funcionário que marca cartão. Por que não trabalhas por conta?

É uma visão simplista da realidade, porque somos inseridos em uma estrutura muito maior, que não nos prescinde de obrigações seja lá qual for a senda seguida. Tenho vantagens em ter carteira assinada, assim como é falsa a assertiva de que cuidar do próprio nariz me dá liberdades tão maiores, sendo às vezes o exato contrário. Mais ainda: pesados alfas e ômegas, todos somos bem amarrados pelos próprios sistemas sociais e econômicos.

A coisa diz mais respeito à nossa passividade diante das situações que nos são postas. Em tempos de democracia, ainda que imperfeita, nossa cabeça baixa perde ainda mais sentido do que quando a tirania era companheira de governos aristocráticos e monárquicos. É neste momento em que podemos localizar uma das obras da filosofia mais efêmeras e insólitas, a tese da servidão voluntária de Étienne de La Boétie.

Caracterizado pela sua juventude e pela amizade profunda com o filósofo Michel de Montaigne, La Boétie vive em um tempo onde ainda temos a figura do tirano enraizada nas culturas. Regimes democráticos eram distantes e até mesmo indesejáveis, e só muito tempo depois viriam a ser constituídos e puderam moldar instituições. Entretanto, isso não significa que a tirania deixou de existir; não mais apenas nos governos, que ainda se servem do poder que é colocado em suas mãos, mas em outros aspectos das nossas vidas, tanto individualmente, quanto socialmente. Por isso sua mensagem continua atual.

A pergunta central de nosso jovem Étienne é muito simples. Olhando de modo direto, um tirano é um homem só. Não resistiria nem a dois homens, quanto mais a uma nação inteira. Mas o fato é que toleramos indefinidamente seus caprichos e seus desmandos, como se fôssemos amarrados por grilhões invisíveis.

Essas amarras somente podem ser psicológicas. A tentativa de resposta de La Boétie se dá em dois caminhos que se entrecruzam: uma vontade de obedecer inata e as camadas de burocracia que existem entre o tirano e o governado. Neste último caso, há uma série de paredes hierárquicas que nos tornam tão distantes do tirano (concreto ou simbólico) que não acreditamos ser possível sobrepujar a todas. E eis que a tirania vem em escala. Em uma forma de pirâmide, a rede de tirania nasce de um e vai descendo em níveis que agrupam cada vez mais indivíduos, até formar um aparato tão sólido que parece impossível de ultrapassar. O déspota tiraniza seus ministros, que tiranizam seus adjutores, que tiranizam seus feitores, até chegar à plebe, que só tem a mulher e os filhos para tiranizar e, desta forma, perpetuar dentro de casa a lógica existente fora dela. Só que esses patamares da pirâmide são exponenciais: crescem a cada um deles em quantidade de ocupantes. Assim, um herói que se propusesse a “pegar no braço” um por um, se vê amarrado diante da multiplicidade de subtiranos. Isso pode ser transposto a uma empresa: o presidente tiraniza os diretores, que tiranizam os coordenadores, que tiranizam os supervisores, que tiranizam os chefes, que tiranizam os peões, que tiranizam o cara do cafezinho, que, em resposta, se vinga cuspindo na água do café e mete a mão na esposa e nos filhos quando chega em casa. Ou seja, a tirania está na alma do homem e é transmitida em um efeito dominó, onde somente aquela pontinha mais fraca de todas não tem como reagir, mas mesmo assim tenta, nem que seja arrancando a cabeça de uma boneca. Ela não se desprende por causa da rede de favores, acima e abaixo, que se encadeia entre as camadas. Um favorecimento aqui garante uma fidelidade ali, e a interdependência que isso gera garante a manutenção do estado de coisas. Ainda que a base sinta efeitos pesados, ainda assim ela forma uma espécie de gratidão ao degrau imediatamente acima, por conceder uma benesse mínima. Podia ser pior: talvez nem isso poderíamos ter. Então está consolidada a rede de proteção à tirania – conformamo-nos com as migalhas. 

Mas, por outro lado, parece existir uma espécie de fetiche em ser obediente à tirania. Mesmo quando pensamos em regimes democráticos, e como temos visto em nossas últimas eleições, fechamos um culto a personalidades que não coadunam com a multiplicidade que os cenários verdadeiramente democráticos proporcionam. Escolhemos uma personalidade de estimação e fechamos com ela cegamente, de maneira irracional. A tirania paira sobre nossas cabeças, sem nos abandonar um único instante e ameaçando reaparecer a todo instante. Essa nossa vontade de obedecer é a verdadeira causa de nossa servidão voluntária, principalmente quando elegemos representantes que escancaradamente nos prejudicam, tiram-nos direitos, transferem nossos bens para poucos beneficiados. E ela existe porque nos acovardamos e damos fidedignidade a qualquer um que pareça mais forte do que nós mesmos, mesmo que na base da bravata. É bom pensar no que perdemos quando surge um candidato a déspota em nosso caminho. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Livro curtinho, curtinho, para ser lido em uma sentada de meia hora.

LA BOÉTIE, Etienne de. Discurso sobre a Servidão Voluntária. São Paulo: Edipro, 2017.