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segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

A vontade de verdade e séries biográficas que não contam tudo

(Fui cumprir a promessa, e não gostei do que vi. Mas dá para assistir)

 

O homem inventou o ideal para negar o real”

Nietzsche

Olá!

Eu tinha certeza de que me arrependeria. Sabe quando você tem tanta convicção de um negócio que parece impossível que ele não aconteça, pelo simples fato de que você ainda tem alguma espécie de fé na humanidade? Pois é, aconteceu… e eu estou aqui porque gosto de cumprir minhas promessas.

O fato é que, ainda recentemente, sugeri uma série que nem estava lançada, mas que, mesmo aqueles que não são ligados nelas já sabiam de sua premente liberação, dizendo que a analisaria tão logo estivesse disponível. É a já famosa série Senna, lançada na Netflix. Como usei minha relação com a memória do piloto para basear um post sobre falácias, achei justo assisti-la e fazer alguma apreciação crítica, se possível com alguma injunção filosófica.

O arrependimento é por causa da exatidão do meu diagnóstico anterior ao filme. Não que eu seja um vate consagrado, ou um renomado haríolo, mas é que todo o conjunto de circunstâncias era favorável à maneira com a qual a obra foi desenrolada. Eu tinha a torcida para que tivéssemos alguma novidade desconhecida, ou que, mesmo sabendo se tratar de ficção baseada na realidade, houvesse um perfil mais humano de alguém que, ao fim e ao cabo, era justamente isso: humano.

O resultado foi uma série mais parecida com um documentário chapa-branca, chancelado pela família e pela empresa derivada post mortem. Com o clima de heroísmo implantado pela memória de 30 anos de sua morte, a história romanceada dá a impressão nítida de que é a história real e oficial, indo ao encontro de tudo o que os fãs gostariam que fosse real, em um processo de wishful thinking (vide). Provavelmente eu pararia no segundo episódio, mas quis honrar minha palavra, e aqui estou. 

Em primeiro lugar e sendo justo: há virtudes e não há dificuldades em assistir a série em seu âmbito técnico e até mesmo artístico. As cenas de pista são muito boas, começando pela reprodução histórica, com os patrocínios corretos, os equipamentos, automóveis e vestuários muito fiéis ao que existiram de fato. As passagens de corrida são de tirar o fôlego, e nisso estamos no ponto alto. As interpretações são ok como um todo, e é fácil notar o esforço dos atores em se aproximar de falas e trejeitos dos personagens que representam.  Algum desavisado poderá achar que o ator Gabriel Leone, intérprete de Senna, é um canastrão que transmite pouca emoção. É um erro pensar assim. Senna se expressava exatamente daquele jeito, linear, sem grandes espasmos ou esgares, e nisso ele esteve brilhante. Outros personagens reais estão bem construídos e os fictícios também não estão mal. As coisas não pegam nesse ponto, definitivamente. E esta é a parte que permite assistir a série sem sobressaltos.

O que ocorre é que temos a sensação de estar diante da mesma mecânica de uma teoria da conspiração: um processo de cherry picking que junta fatos (muitos fictícios) por cima de um pano de fundo inautêntico, feito para passar a sensação de perfeição. Em uma rememoração dos 30 anos de um ídolo, quando todos os espíritos estão em estado de catarse pela tragédia ocorrida, há um reforço completo para a constituição do ídolo no seu sentido nietzscheano, ou seja, em uma transformação do real em ideal.

A série peca especialmente no aspecto “o mundo contra Ayrton Senna”. De acordo com o que vimos, ele foi prejudicado no Mundial de kart, na Fórmula 3, pelo companheiro de equipe, pelos dirigentes da federação, por deus e pelo diabo (por deus não, ele era cristão). Isso foi repetido à exaustão no mundo real, elevado com vitaminas e ferro para a série, como se fosse necessário barrar a qualquer custo a ascensão do brasileiro. 

A questão é que uma série baseada em uma vida real, mas povoada de eventos fictícios (legitimamente) apresenta-se como se fosse toda verdadeira, sem nenhum esforço de se explicar que não se trata de uma biografia. E as pessoas sentem a necessidade de receber essa história contada com contornos de tragédia grega, porque ela parece trazer mesmo algum tipo de justificativa para suas próprias vidas.

Parece que temos a necessidade platônica de ter uma reserva de perfeição a perseguir. De tanto correr atrás de vontade de atingir a verdade, parece que nos encontramos na disponibilidade de sermos enganados. A vontade de verdade é uma vontade de engano, uma vontade de sermos saciados por uma completude que não existe, mas que entendemos intimamente ser possível, e uma predisposição em acreditar em algo que substitua a perfeição, como se perfeito fosse.

Nietzsche dizia que a verdade é incompatível com a linguagem. Isso acontece porque a função desta última, a comunicação, precisa lançar mão de generalizações para construir uma lógica. Em miúdos, podemos dizer que a verdade seria uma correspondência entre realidade e discurso, do contrário teríamos falsidade ou mentira. Acontece que, para tentar fazer isso, é preciso que se fale sobre mais de uma pessoa, ou de um fato, ou de um fenômeno ao mesmo tempo, o que não dá para fazer. Assim, se eu quero dizer que a humanidade é racional, eu deixo de considerar cada um dos seres humanos como eles são para trazer uma informação que eles têm em comum. Mas isso não é verdade. Há gente irracional e, mesmo aos que damos o nome de racional, há lapsos em que sua irracionalidade impera, às vezes em maior quantidade do que ocorre o oposto. Basta que você se veja dentro de um estádio e lembre quantas vezes chamou o técnico de burro, o árbitro de ladrão, o goleiro de frangueiro e o centroavante de caneludo. Nestes momentos, não é o pretenso analista de desempenho que fala, mas o torcedor enfurecido, que esquece de quantas vezes técnico, árbitro, goleiro e centroavante fizeram seu ofício como deviam. Tudo isso para concluir que a linguagem é generalizante, enquanto o mundo é composto por indivíduos. Individualidade, segundo os melhores dicionários, são as características que tornam o indivíduo único dentre os demais. Dessa forma, se tentamos atribuir via linguagem uma verdade absoluta, aplicável a qualquer circunstância, fracassamos miseravelmente.

Mas e a ideia como conceito? Não estaria aí a correta acepção da verdade? É aí que nasce a vontade de verdade. É preciso que exista algo fora, que não corresponde à realidade, para traduzir algo que seria pretensamente a verdade. E aí deixamos de olhar para as coisas mesmas para decifrar o que elas são, e passamos a dirigir para elas um modelo de perfeição. Percebem como isso se encaixa perfeitamente não somente à filosofia platônica de mundo das ideias, mas também ao princípio metafísico de coisas como vida eterna, céu, paraíso, morada dos deuses? Por essa razão, o ser humano tem vontade de verdade - onde ele falha como indivíduo, conforta-se com uma esperança. Mas o que ele tem para si é a si mesmo.

O conceito de vontade de verdade é de Nietzsche, mas ele teve desenvolvimento extra com Foucault. Ele parte da premissa de que, se há uma vontade de verdade que busca preencher claros no entendimento, há condições para manipular como esses claros serão preenchidos. Isso é feito instituindo uma verdade oficial, que coloca à margem todos aqueles que discordam dela. Dessa forma, é removida a particularidade de cada um de nós, seu próprio campo visual, e se busca forçar um consenso sobre qualquer assunto que se possa divergir.

A questão é de não existir uma verdade absoluta, algo que vai contra preconizações dogmáticas, em especial ao discurso com modelo religioso. Se não houvesse uma vontade de verdade inerente ao ser humano, ela não poderia ser manipulada, e construções como a da série que ora analiso não teriam o mesmo poder de convencimento que tem.

Atenção: vontade de verdade não é sinônimo de verdade. A verdade continua existindo, seja ela o que for - um conceito abstrato ou um reflexo da realidade. A vontade de verdade é uma tendência em atribuir valores a tudo, especialmente nos quesitos morais. Existe uma concepção de certo e errado que pode ser atribuída como um decreto a qualquer atitude que se tome, e normalmente quem legisla sobre esses valores são divindades, que, ao fim e ao cabo, são a condensação de princípios de uma determinada sociedade. Foucault se apega à questão sexual, mas qualquer pauta moral pode ser regida por esse mesmo princípio, mesmo sobre pontos onde não há questões morais legítimas, como pode ser exemplificado na falácia naturalista (vide).

Dito tudo isso, quando vemos os quesitos biográficos desenvolvidos na série, vemos que eles não são elaborados de modo a trazer o Senna humano, mas o Senna heroico. Não faz problema algum de se contar a história de maneira fictícia, mas, nesse caso, atribuí-la a um personagem real se torna uma falsificação. O exemplo mais gritante é a quase ausência de uma personagem Adriane Galisteu. Sabemos que Senna não era o garanhão retratado na série, mas ele teve seus romances e esse foi o último, ponto final. Se ela o utilizou como escada na carreira ou não, não importa. Isso é irrelevante. Relevante é a existência dela, e isso não foi dado a ser contado, supostamente por uma birra que não arrefeceu em trinta anos. 

Mas há outros aspectos esquisitos. É estranho que eles explorem malandragem mecânicas que seriam muito mais críveis nas mãos do Nelson Piquet do que em verdadeiras virtudes de pilotagem como as aceleradas consecutivas nas curvas para manter a rotação sempre alta. Os seus familiares eram raros em autódromos, e pouquíssima gente penetrava madrugada adentro para acompanhar suas corridas como se fossem uma final de Copa do Mundo. Isso eu posso afirmar porque acompanhei não somente todos os seus títulos no Japão, como suas derrotas também. Fazia isso por conta do meu interesse pelo esporte, como continuo fazendo, com um pouco menos de frequência, até hoje. Não havia rojões, nem gritos, nem festas nas ruas.

A vida de Senna poderia ser mais bem explorada, trazendo aspectos complexos que foram omitidos. Não se fala em aspectos como o conflito com a McLaren, equipe que lhe consagrou e que foi quase largada para trás quando já não era o melhor carro do grid. Não explorou detalhes das controvérsias que teve com o ídolo brasileiro em ocaso, Nelson Piquet, o que poderia dar um capítulo interessante. Falou pouquíssimo da exuberante temporada de 1993, talvez pelo fato de que foi justamente o período Galisteu e do chororô pelo carro do “outro planeta”.

Mas a série fez e continua fazendo sucesso de público. Neste momento histórico do Brasil, temos algo semelhante ao que ocorreu em 1994: carência de pessoas que nos façam sentir enaltecidos como povo, e a série cai como uma luva em dois sentidos. O primeiro, para o pessoal da minha média de idade, que lembra com saudade das proezas do ídolo; o segundo, para as gerações seguintes, que não conseguiram ter para si algo parecido. São os mesmos vinte e quatro anos sem copa do mundo, mesma política polarizada (até pior), mesma indefinição sobre o país como noção. Além disso, o automobilismo veio como um lenitivo esportivo porque durante 19 anos o Brasil viu seus pilotos ganharem oito títulos mundiais. Se levarmos em conta os anos em que houve brasileiros na disputa do título (contando os vice-campeonatos), o número sobe para 12. Ou seja, o brasileiro se acostumou a ver protagonismo em uma das poucas áreas possíveis, o que é uma sonora bobagem. O automobilismo premia quem tem recursos, e não um talento natural inerente à nacionalidade. Fittipaldi, Piquet e Senna chegaram lá porque tiveram, de uma forma ou de outra, suporte para tanto. Então é um patriotismo falso, porque não tem nada a ver com a pátria.

Mas ainda assim as coisas poderiam ter sido diferentes. A vontade de verdade que pulula em nosso espírito seria receptiva com uma biografia mais próxima do piloto extraordinário e do ser humano factível e falível, com os mesmos defeitos que temos e que, por isso mesmo, dono de feitos ainda mais impressionantes. Ariano Suassuna já dizia que Jesus, sendo Deus, era capaz de suportar dores, e, por isso mesmo, a devoção com Nossa Senhora ganhava muito valor, sendo ela humana como todo o povo. A mesma coisa poderia acontecer aqui. Achei uma oportunidade perdida.

Missão dada, missão cumprida, mesmo que tenha sido por mim mesmo. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura: 

Já havia recomendado o livro Além do Bem e do Mal no texto deste link, então vou recomendar a base teórica de Foucault, para complementar o que escrevi no presente post.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Navegações de cabotagem – a Loja do Burro de Taubaté e a metáfora para além da figura de retórica

(Não é preciso se incomodar com palavras que parecem ofensas. Às vezes, elas são grandes elogios)

“… ao dizer que a própria palavra ‘metáfora’ é metafórica, na medida em que é emprestada a outra ordem que não a linguagem, antecipamo-nos à teoria posterior; supomos com ela que: 1) a metáfora é um empréstimo; 2) que o sentido emprestado opõe-se ao sentido próprio; 3) que se recorre a metáforas para preencher um vazio semântico; 4) que a palavra emprestada toma o lugar da palavra própria ausente se esta existe”.

Paul Ricoeur

Olá!

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Quantas estrelas precisam brilhar para sua glória? Depende da constelação que você orbita. O futuro a Deus pertence e, portanto, não pertence a ninguém. Por isso, não dá para saber onde estaremos daqui a quinze, vinte ou cinquenta anos. É aquela velha história: dizem que quem nasce para lagartixa nunca chega a jacaré, mas não é assim que funciona. Pequenos progressos são, ainda assim, progressos. É sempre possível que um momento atual reflita um ponto de inflexão, de onde as coisas pegarão a ladeira para cima. Mal comparando, estamos em ano olímpico. É claro que o Brasil-sil-sil não tem como competir com os grandões, como China e Estados Unidos, mas, se chegar às mesmas vinte e uma medalhas da última olimpíada, não podemos dizer que terá feito feio. São duas coisas. Por aqui, as coisas andam lentas mesmo, como bem sabemos. E, ainda assim, em 76 ganhávamos duas medalhinhas de bronze no mesmo evento, o que já dava motivos para comemorar. Portanto, é preciso colocar em ponto de relatividade onde estamos, de onde viemos e para onde vamos.

Faço todo esse périplo que vagueia entre o lirismo barato e a filosofia de porta de boteco para dizer que, em Taubaté, há um time tradicional de mesmo nome, representado pelas cores da bandeira da cidade, como sói acontecer. Comparado com os times da capital, é bastante modesto, estando fora da primeira divisão paulista há exatos 40 anos, mas, falando da região do Vale do Paraíba, só tem alguma concorrência na cidade ao lado, São José dos Campos, bem maior. Mas sua torcida comparece, e é bem representada também no futebol feminino. Eu vim conhecer um estabelecimento misto, pequeno, mas muito interessante, que deveria estar entre os principais pontos turísticos da cidade. É a loja do Burro, mascote do Esporte Clube Taubaté.

Trata-se de uma mascote inusitada, já que se diferencia definitivamente dos infinitos leões e galos que povoam o imaginário futebolístico. Se destacou tanto que o próprio Maurício de Souza eternizou sua versão, em homenagem ao centenário da equipe, em 2014. Mas não é uma origem meramente jocosa, que tenha nascido de uma ofensa (como o porco do Palmeiras). Taubaté é terra de tropeiros, aqueles viajantes que se internalizavam no país para levar víveres e trazer minérios das Minas Gerais. Sua grande ferramenta de trabalho estava nos burros, mais fortes e resistentes do que os cavalos, além de se acomodar melhor nos terrenos íngremes das Serras do Mar e da Mantiqueira, precisamente no entremeio onde a cidade se localiza. Mas há uma história galhofeira, sim, que envolve o bicho: a escalação de um jogador irregular fez com que o time perdesse os pontos onde aplicou uma goleada.

A parte da loja é o que se espera: diferentes artigos relacionados ao esporte em si, como camisas, calções, mochilas, abrigos, bombetas e meiões.

Há também outros itens, igualmente ligados ao clube, mas menos relacionados ao futebol em si mesmo, com uma variedade até inesperada para uma equipe do interior. São carteiras, chaveiros e até uma razoável cerveja.

A parte mais legal, entretanto, é mesmo o museu. Achei uma solução inteligente, porque deixa a história da instituição mais exposta a um público maior, ao invés de somente ficar restrita àqueles que vão ao estádio. Desta forma, o visitante pode conhecer e se afeiçoar mais a ela, além de ter subsídios sobre a própria cidade.

Que não se espere uma sala de troféus como a do trio de ferro da Capital, ou mesmo da Vila Belmiro, mas o time tem suas conquistas importantes, inclusive nos primórdios do futebol paulista, quando, aos cinco anos de existência, levou o Campeonato Paulista do Interior de 1919.

Outro registro importante é o conjunto que fala sobre o título da divisão de acesso de 1979, que contém o próprio troféu, notícias de jornais locais e a camisa do goleiro Wagner Gão, um dos poucos jogadores do Taubaté da época de quem eu tenho lembrança, além do quarto-zagueiro Bothu.


Além do Burrinho da Central, há outra caricatura, em homenagem ao ex-presidente Joaquim de Morais Filho. Ele ficou célebre ao ter seu nome atribuído ao estádio do clube, que ficou conhecido como Joaquinzão, com capacidade para quase 10000 torcedores.

Do lado de fora da loja/museu, um conjunto de painéis conta toda a história do EC Taubaté, contando “causos” e curiosidades.

Não houve esquadrões de renome e projeção nacional, mas alguns bons jogadores surgiram e passaram por estes gramados, especialmente o bicampeão mundial Zito e o centroavante Edmar, que, mais tarde, passou por Palmeiras, Corinthians e seleção brasileira.


Aliás, as visitas dos grandes sempre foram uma atração para toda a cidade, sendo que o maior público da história do Joaquinzão foi uma refrega com o Corinthians, com mais que o dobro da capacidade atual ocupando as arquibancadas. Vejam um cartaz anunciando uma partida contra o São Paulo.


O Taubaté também teve seus dirigentes folclóricos, e isso está exposto no pequeno acervo. Um exemplo é o Dr. João Rachou, que não admitia jogadores que não eram ambidestros no time. Pobre saci.

Por fim, para quem reclama que times como Juventus de Turim ou Atléticos Paranaense e Goianiense tenham mudado de distintivos, vejam por quantos o EC Taubaté passou.


Como vocês que me acompanham sabem, eu sou um apreciador do futebol mais miúdo, aquele que se joga fora da tevê e da exposição maciça. Por isso, não poderia deixar de voltar meu olhar para este clube, especialmente estando por aqui a menina mais nova há mais de três anos. Três anos, três camisas que estão no meu acervo.

Retomando a questão do burro. Os mascotes são muito importantes na vida de uma torcida, porque eles representam uma totalidade, uma espécie de espírito conjunto de um agrupamento humano como um todo, na mesma senda por onde andam os totens. Eles agregam na sua representação todas as virtudes que as pessoas que lhe compõem têm como preciosas. Por esse motivo, alguns mascotes são mais esperados e recorrentes que os outros. O leão é quase óbvio, porque representa a força, a majestade, a imponência e demais que-tais. Por esse motivo, é adotado por um sem-fim de agremiações, mesmo que seja um bicho que não está em nossa fauna, como Sport, Vitória, Bragantino, Inter de Limeira, Remo, Avaí, Fortaleza, Mirassol, Portuguesa (que abandonou uma mascote muito mais interessante, a dançarina de vira Severa) e um monte de outros. Já o galo é representante da valentia e da entrega à luta, e é adotado por Atlético-MG, Paulista de Jundiaí, Ituano, Goiânia, CRB, Treze, Operário-MS e mais outros, na sua versão galinácea ou da campina. A adoção do burrinho é, portanto, um tanto polêmica, porque é inevitável que a principal característica que ele evoca é a… burrice! A assimilação é tão poderosa que você não diz que o leão e leão ou que o galo é galo, mas você diz que o burro é burro. Você tem o Diogo Cão, o Borba Gato, o Carlos Roberto Gallo, o Leão Lobo, o Osvaldo Aranha e até o Cipriano Barata, só que eu nunca ouvi falar de um Antônio Burro, ou um José Asno, seu sinônimo. Portanto, é um bicho que virou sinônimo de ofensa, punto e finito. Mas as coisas não são como aparentam, e a discussão sobre as metáforas são muito mais profundas, o que tornam o Burro da Central um dos mascotes mais criativos e ousados do Brasil. Vamos ver.

Nós não assumimos um mascote pensando em fazer uma assunção direta deles, mas do seu pedaço simbólico. Isso é óbvio até. Eu não vou me vestir de galo ou viver como um leão, mas vou aproveitar o que eles carregam consigo de virtudes representativas. Nós temos aspectos práticos das palavras e, da mesma forma, aspectos simbólicos, fazendo da mesma forma que nos atos e representações da vida. É, nesse sentido, que temos as metáforas.

Ensinam-nos nas escolas que a metáfora é uma figura de linguagem em que substituímos um termo referencialmente direto por outro, indireto, através de um ponto de contato em que ambos coincidem. Isso está correto, mas há uma análise filosófica que vai muito mais profundamente.

Principiando pelo princípio, o que é uma metáfora? A palavra metáfora quer dizer, em grego, algo como “carregar para além”. Neste caso, o que é carregado para além? O sentido da palavra ou frase onde ela é aplicada. Seu uso, notadamente, é poético ou didático. Daí, já podemos perceber sua utilidade.

O burro, por exemplo. Trata-se de uma inverdade dizer que o burro é burro. Na acepção da palavra, aquilo que tratamos por burrice é, na verdade, o estado de ignorância. Provavelmente isso nasceu entre dois fatores: o fato de que o animal aceita cargas pesadas no lombo em troca de um pouco de alimento, ou de sua proverbial teimosia. A segunda, contraditoriamente, por muitas vezes é a defesa que o bicho tem para a primeira, ou seja, empacar é uma forma de não admitir que seu trabalho lhe seja pesado demais. Ou seja, ser tolo não é um atributo real do burro, mas uma característica que lhe foi consagrada, ainda que de maneira injusta.

De toda forma, justa ou injustamente, o burro carrega a pecha de lhe faltar a inteligência. E isso acaba sendo absorvido e atribuído para outras ocasiões onde essa mesma característica se apresenta. Sendo assim, quando queremos dizer que um sujeito qualquer é atoleimado e teimoso, pegamos emprestados esses tópicos do pobre asinino e aplicamos ao indigitado, nesse ponto de contato semântico.

Podemos notar que o tolo e o burro possuem traços semânticos comuns. Pela visão que temos consagrada, ambos são tardos no pensamento, ambos têm resistência em agir, ambos não medem as consequências de suas ações. Desta intersecção, nasce o uso comum: fulano é burro.

Isso pode ser aplicado em inúmeros exemplos: flores e mulheres compactuam beleza, cristais e crianças compactuam fragilidade, cobras e fofoqueiros compactuam o veneno, e assim por diante. Por vezes, isso ajuda muito a trazer aspectos conhecidos a elementos desconhecidos, ou a fazer exemplos. Quando eu digo que “o Oriente Médio é um barril de pólvora”, não estou querendo dizer que ele é feito de madeira e com um explosivo dentro, mas que um elemento conhecido, que causa grande estrago e que pode explodir com facilidade, sintetiza um lugar que não conhecemos, com equilíbrio político e militar frágil. Essa é a grande força retórica da metáfora.

Como eu disse, está nos manuais da língua esse uso como figura de retórica, que é o mais evidente e que deve, de fato, ser uma preocupação educacional. Mas o espírito filosófico exige um pouco mais e é por isso que podemos imaginar que esse uso semântico só é possível porque existe um fenômeno ontológico em curso todas as vezes em que elaboramos uma metáfora.

Podemos perceber que o exercício metafórico se dá em um plano do equívoco. Não no sentido de se enganar, como pareceria, mas de se estabelecer uma semântica dúbia, que pode carregar mais de um sentido possível. O sentido lato de uma palavra, uma vez escoado seu aspecto meramente concreto, deixa restar seus aspectos profundos, divididos. Um sentido é uma junção de sentidos, e, uma vez devidamente distinguidos, temos um verdadeiro cardápio de significações, que podem ter seus lugares intercambiados.

É como um camaleão que se traveste da cor de fundo onde está localizado. Nós somos capazes de mimetizar significados da mesma forma que o fazemos quando colocamos uma daquelas camisas de recruta, todas manchadas de camuflagem, com a diferença de que não queremos nos fazer ocultos, mas de modificar semanticamente um sentido estrito em algo mais extenso. E isso só é possível porque as coisas têm essências que podem ser mimetizadas. Mimesis é imitação, e, por esse motivo, podemos falar no tal plano do equívoco. Desta forma, a poética e a didática da metáfora ganham um fundo mais especulativo, mais filosófico na acepção da palavra, porque permite entrever um modo de acesso à ontologia dos objetivos envolvidos.

O lado ontológico de um objeto é como o sumo de uma fruta espremida até o bagaço. É a essência de um ser e, como tal, a sua “verdade”. Se pensarmos em termos gramaticais, todos os dados ontológicos de um objeto são suas predicações. Já na ontologia, o que vemos são características gerais que fazem que o Ser seja o que ele é. Exemplo bobo: um burrinho pode ter o pelo de qualquer cor, até mesmo o imaginário azul do Taubaté, mas um dos fatos que o distingue é a existência de pelos. Se eu disser que é alguém é “um burro de tão peludo”, teremos uma metáfora torta, mas ainda assim válida. E é essa a essência que fornece matéria-prima para a formação das metáforas. Não adianta eu trabalhar com metáforas que não são ontológicas, que não dizem respeito ao ser de um objeto, porque teremos um erro ou uma falsificação.

O efeito mimético diz respeito a isso. Uma mimese é um “roubo” de características de um objeto por outro, que só é possível porque duas concessões são feitas: a ambiguidade dos termos e a transgressão categorial que a mesma possibilita. Em miúdos, isso significa que a existência de termos essenciais que possam ser intercambiados possibilita que uma característica seja tomada pela outra. Nossa, nem eu me entendi. Vamos para o exemplo então.

Se eu digo, camonianamente, que o amor é fogo que arde sem se ver, devo assumir que, entre o amor e o fogo há uma ontologia em comum: uma espécie de sofrimento intenso. Ela é ambígua, porque, enquanto esse sentimento é desejável no amor, no fogo ele é físico, e dor de fato. Com essa equivocidade, temos uma mudança de categoria - no sentido lato, o ardor do fogo é ruim, mas no amor ele “aquece”, consome. Por outro lado, o amor não tem características físicas, então como pode arder? É que ele produz sensações psíquicas confusas - por vezes é uma escravidão que prende ao amado de tal forma que parece sufocar, e, nesse sentido, é indissociável da dor, seu habitual oposto.

Sendo assim, porque existe a ambiguidade, é possível mudar a categoria do termo, transferindo, nesse exemplo, uma característica intrinsecamente sensorial para outra completamente abstrata, independente dos sentidos físicos. E isso nos dá a dimensão de como o plano ontológico é complexo, como não se trata de um mero elenco de características gerais de um objeto qualquer. Se esse intercâmbio não é possível, não estamos descendo a esse nível.

Percebem que a metáfora, dessa forma, se torna mais adequada para expressar do que qualquer descrição científica? Isso ocorre porque transferimos algo do âmbito concreto para uma conceituação que não tem equivalente no sensório, e por isso a metáfora é mais que uma mera figura de linguagem, e vai muito além de uma simples força expressiva.

E é exatamente nisso que o burro é mais legal do que qualquer leão. Ele conta história, ele demonstra força e ele é do Taubaté, sua metáfora perfeita quando vista pelo lado certo. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Tomei muita base no escrito abaixo para basear as ideias que expressei neste texto:

RICOEUR, Paul. A Metáfora Viva. São Paulo: Loyola, 2000

 

E a loja do Burro fica dentro de um shopping, no seguinte endereço:

Loja e museu do burro

Av. Dom Pedro I, 7181

Jardim Baronesa

Taubaté/SP

A aproximadamente 135 Km do centro de São Paulo

 

*Acabei de ganhar mais uma, desta vez como presente de aniversário. É a camisa com a qual o Taubaté disputou a mais recente série A2 do Campeonato Paulista.



quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

De volta às águas e trilhos que ficaram para trás – 5º lugar: Aiuruoca e as dificuldades das imposições na área da linguagem

(A maneira como um idioma se forma é a prova de que é difícil forçar a barra para novos usos)

“Escrever é um ato não natural [...] A palavra falada é mais velha do que nossa espécie, e o instinto para a linguagem permite que as crianças engatem em conversas articuladas anos antes de entrar numa escola. Mas a palavra escrita é uma invenção recente que não deixou marcas em nosso genoma e precisa ser adquirida mediante esforço ao longo da infância e depois”.

Steven Pinker

Olá!

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Quando estive na cidade de Caxambu, bateu em mim a vontade de ir até São Thomé da Letras, por conta de sua fama de cidade esotérica e descolada, o que fiz. Entretanto, eu olhava para o trajeto do Maps e não me convencia do tempo alto para quilometragem baixa. Isso me causava desconfiança de uma estrada muito ruim, e como ainda era época do intrépido Bedelho, ficava bolado em colocar meu pobre carro urbano em uma longa trilha arenosa. Com isso, passei a cogitar outras paragens, que acabaram não se realizando porque, ora essa, acabei indo à terra mística. Uma dessas era exatamente a que começarei a tratar agora, a cidade de Aiuruoca.

Este nome significa “casa do papagaio”, e é justificado pela presença do majestoso Pico do Papagaio, um maciço rochoso que se estende a mais de 2000 m de altitude.

Essa formação é de visual onipresente pela região, seja no meio urbano, seja pelas sendas rurais, que não são poucas.

Por esse motivo, é uma espécie de símbolo da cidade, o que ajuda até mesmo a explicar seu nome. Creio que seja derivado do fato de ser uma região repleta da ave e suas aparentadas, como maritacas, araras e outros psitacídeos.

Aiuruoca é repleta de cachoeiras, divididas especialmente nos caminhos dos Vales dos Garcias e do Mututu. Visitei algumas delas, dentre as quais fica o manso Poço do Joaquim Bernardo, na verdade um remanso que forma uma piscina natural a partir de um dos afluentes do rio Aiuruoca.

Bastante próximo, estão situadas as plantações de oliveiras, que se trata de uma atividade produtiva relativamente recente e que agora tem começado a render seus frutos, de forma a fazer surgir o nome da cidade no circuito.

As terras altas e a temperatura amena que caracterizam a Mantiqueira têm se provado ótimas para o cultivo de oliveiras e produção do azeite, de modo que é um negócio que vai se expandindo a passos largos, com alguns lagares ficando bastante famosos, como o Serra dos Garcias.

O que comprova a boa qualidade dos produtos é a quantidade de certificados de premiação que se tem obtido pelos negociantes da região. São realmente muito saborosos e acompanham bem um pãozinho torrado.

Na área urbana, podemos encontrar uma cidade muito pequena, que futuramente terá problemas para se estruturar frente ao crescente turismo na região. Não se trata de nenhum demérito, porque o centrinho é bem bonito.

Ao redor da praça central e nas ruas do entorno, há uma série de construções coloniais típicas, muito comuns de encontrar nesta região e no Vale do Paraíba, por exemplo, com paredes de taipa e janelas com os vidros voltados para fora.

A igreja matriz é dedicada a Nossa Senhora da Conceição, com torre projetada imponente e a sobriedade típica de construções de época.

Um busto na praça reverencia um poeta da cidade, Dantas Motta. Viveu na época do Modernismo, com um ecletismo, entretanto, que lhe fez ter um estilo completamente próprio.

Boa parte do artesanato da região é bastante interessante porque é comercializado diretamente pelos indígenas que vivem nas redondezas, o que tipifica bastante as peças oferecidas.

Lá, vemos o conceito de etnojoia. São inúmeros artigos de sementes, palha, penas e cordões, cujo objetivo é produzir alternativas às bijuterias industriais, com o colorido vivo tão ao gosto tanto dos indígenas, quanto da patroa, que se divertiu à beça lá dentro.

No pacotinho do presente, o termo tupi para o beija-flor, escrito de uma forma atípica, porém correta.

Aiuruoca é o nome complicado de uma cidade simples, que está batalhando para se estruturar e receber os turistas que nunca tinha recebido em volume tão grande. Aliás, a complicação termina com um mínimo de exercícios, como os que costumo fazer quando me dou de frente com situações como essas. É só quebrar a palavra em partes menores e ensaiar um pouco –  aiu-ru-oca, aiu-ruoca, aiuru-oca, Aiuruoca. Duas ou três vezes são suficientes para parar de falar aruoca, airoca, airuoca ou qualquer outra corruptela desse nome.

Nomes indígenas são como a própria cultura indígena, são estranhos enquanto mal conhecidos. Depois disso, damo-nos conta de como fazem parte de nossa vida, e passamos a incorporá-los com muito maior naturalidade. Um grande exemplo está nos topônimos, que disputam com a religião católica a primazia nas denominações, quando já não se misturam (Santana de Parnaíba, que tal?). Explica-se: sendo povos originários, os índios já tinham os lugares nomeados antes da chegada europeia, e muitos deles foram mantidos. Não é normal que você chegue em um local desconhecido e pergunte a quem já está lá onde você está? Pois bem, a lógica é essa.

Eu gosto dos nomes de origem indígena. São fortes, presentes e sonoros, como Pernambuco, Indaiatuba, Itapecerica, Mangaratiba, Ipanema, com equilíbrio entre vogais e consoantes, de modo a não termos aquele amontoado de fonemas típicos de outras culturas. Claro que sempre haverá um Nhocuné ou Mongaguá para servir de trava-línguas, mas isso existe em todos os idiomas, como o clássico “bajame la jaula, Jayme” das línguas hispânicas.

A presença da influência indígena na cultura do Brasil é o principal fator de diferenciação entre o português usado aqui e aquele de Portugal, muito mais do que as decantadas diferenças de sotaque. O exemplo mais familiar é com relação àqueles a quem falta cabelo. Em Portugal, temos os calvos, sendo que aqui, há distinção entre aqueles que têm apenas as entradinhas (esses, os calvos) e os que têm o coco pelado, aqui conhecidos por carecas. A palavra careca não tem o menor sentido em Lusitânia, porque ela é de origem indígena, e, com isso, o léxico de Pindorama (o nome indígena pelo qual se chamava o Brasil – lindíssimo) é enriquecido com relação à língua matriz.

A interpenetração linguística é um fenômeno natural no meio social, e acontece desde o momento em que duas tribos distintas tiveram contato e passaram a tentar compartilhar sua cosmovisão. O exemplo mais próximo que temos de nós é o latim, que, em sua versão vulgar, espalhou-se por toda a Europa desde os tempos da expansão do Império Romano. Chegou à região da Ibéria trazido particularmente pelos soldados, e lá se misturou com os falantes locais, especialmente influenciados pelos árabes. Chegando nas Américas, recebeu ainda a mistura das línguas autóctones e dos povos africanos escravizados e constituiu a língua que hoje falamos em Terra Brasilis.

Eis que temos a maneira de como a língua se forma, mas há ainda o processo de distinção entre o que é correto de se falar e o que não, que fica na conta do coloquial. Quando um índio chama uma determinada fruta por um nome que somente ele conhece, ela dá uma espécie de credencial oficial àquela espécie desconhecida. Por outro lado, quando a cultura preponderante já tem um nome para aquela fruta, o nome indígena fica como um designativo alternativo e não oficial, subalterno à designação oficial. Na medida em que esse nome vá recebendo mais e mais uso, melhor vai se tornando seu estatuto, ao ponto em que, um belo dia, ele vai para a norma culta, ao lado do termo nobre, às vezes até mesmo o substituindo. Ninguém mais é chamado de “vossa mercê”, mas de você, seu derivado hodierno.

Muitos termos, neste exato instante, estão concorrendo para se tornar mais e mais aceitos, primeiro no uso coloquial e popular, com todo o preconceito que vem junto, mas, da mesma forma que na seleção natural, aumentando sua penetração, e esperando ficar colocado no cânone da linguagem.

Um bom exemplo é o gerundismo. O “vou estar enviando” (i'll be sending) é fruto de uma limitação da língua inglesa, mais pobre na articulação dos verbos do que as românicas, e que foi levada a cabo por conta da tradução porca dos manuais originais, e dá impressão de uma fala empolada, sem que se perceba que, em português, há duas formas corretas de fazê-lo: “eu vou enviar”, mais do dia-a-dia e “eu enviarei”, mais formal. Hoje, ainda conseguimos resistir ao erro, mas será inevitável que o uso vá consagrar a forma. Haverá um momento tal em que virá a consagração, e o gerundismo passará a fazer parte na norma culta. Para nós, infelizmente; mas, desde que bem aceito, ninguém mais estará preocupado com isso.

Outro exemplo é o aportuguesamento de palavras. Era comum que as palavras oriundas de línguas estrangeiras fossem adaptadas às regras ortográficas do português, e, com isso, surgiram termos como clube (club), futebol (football), bife (beef), coquetel (cocktail), nocaute (knockout), pudim (pudding), sanduíche (sandwich) e tantos outros, incluindo o horroroso copirraite (que não pegou muito). Por conta da tecnologia, vários e vários novos termos vão sendo introduzidos em nossos quotidianos, só que sem o costume do aportuguesamento, ficando no original em inglês. A internet fez com que surgissem os sites, browser, online/offline, dentre outros, com a novidade de não serem mais aportuguesados, já que não lemos as palavras saite, brauser ou onlaine/ofilaine.

Há ainda outro detalhe. Da mesma forma que palavras surgem, palavras somem. Caem em desuso pelos mais diversos fatores: obsolescência, substituição do termo, momento histórico. Se você não compreende quando eu digo que o zagueiro do teu time deu uma domingada no último jogo, poderemos deduzir duas coisas: que certamente você tem menos de cinquenta anos e que o termo está caindo em desuso. Essa derivação vem do célebre zagueiro Domingos da Guia, um dos melhores nas décadas de 30 e 40, e que, por conta de sua incomum habilidade, era dos poucos à época a sair jogando de sua área, quando o esperado era um clássico chutão para frente. Se por um lado isso dava qualidade na saída de jogo, por outro trazia o risco do desarme. Quem trabalha muito, erra muito, e foi mais de uma vez que um voluntarioso atacante conseguiu o desarme que resultou em contra-ataque. Essa perda de bola arriscada ficou conhecida como domingada. Só que o tempo passou, Domingos da Guia se foi e o termo foi perdendo força, pelo distanciamento histórico, até sua quase extinção nos dias de hoje.

Não deveria nos causar sustos, esse fenômeno. É esse o processo natural de toda cultura, e aquela dominante impõe sobre as demais as suas características. Não foi diferente com os romanos, com os britânicos, com os espanhóis e portugueses na América Latina. O máximo que podemos fazer é choramingar, se isso nos incomodar, mas o mecanismo de construção dinâmica das linguagens é esse, além, evidentemente, das transformações internas.

E qual é o motorzinho dessas transformações? Ora, o próprio processo histórico. No momento em que a França tinha o domínio diplomático do mundo, muito do seu linguajar e cultura se espalhou pelos quatro cantos do planetinha. Abajur, maionese, sutiã, purê, balé, tricô, garçom e tantos outros são palavras que poderiam ter alternativas em português, mas que preponderaram porque a França era mais poderosa política e economicamente. Idem ocorrerá com árabes na Península Ibérica, com russos na área eslava e com ingleses contemporaneamente. Mas não é só pelas regras de dominação que as línguas se formam, porque elas se imiscuem pelo uso. Um exemplo para lá de prosaico: sabem aqueles saquinhos com suco gelado? Como eles se chamam em sua cidade? No meu bairro (São Paulo é tão grande que tem mais de uma fala), chamávamos de juju. No Rio, é sacolé. Em Taubaté, o pessoal trata por gelinho. Há lugares onde é chupe-chupe, geladinho, dindim, flau e assim por diante. É incontrolável o nome que o tal gelo com suco tomará em um local. Pode-se achar engraçado o falar de um forasteiro, ou usar o das novelas dos grandes centros, ou o do cidadão que o trouxe para a cidade, ou… ou… ou. A centralidade do que falo aqui é: o processo de formação de uma língua se dá de maneira espontânea, seja qual for o mecanismo que se der.

E é aí que eu vou retomar uma daquelas polêmicas que eu gostava de lançar aos alunos nos primórdios deste blog. Ultimamente temos cada vez mais ouvido falar em gênero neutro. Trata-se de uma proposta de utilização de designativos que não determinem um gênero quando ele não é aplicável, notadamente pela característica majoritária de nossa língua em utilizar o gênero masculino quando há uma generalização, mormente nos casos de plural. O exemplo mais em voga é o “todas, todos, todes”.

A contestação se dá por conta da suposição de um sexismo na formação da língua portuguesa, já que a neutralidade de gênero é, com poucas exceções, indicada pelo masculino. Isso traz problemas interpretativos: enquanto um termo como “jogadoras” indica claramente que naquele conjunto só existem mulheres, o termo “jogadores” não permite fazer tal dedução, já que ele indica tanto presença mista, quanto presença exclusiva de homens.

A questão divide opiniões naquele mesmo esquema de Fla-Flu. Quem se diz de esquerda é favorável, quem se diz de direita é contrário, em geral. É a coisa do pacote pronto, mas as justificativas são, de um lado, o direito de se representar sem uma mácula sexista, e de outro a inutilidade de se mexer na língua por motivo fútil.

Eu sou um cara mais dado a ser progressista, como é possível observar nos diferentes textos deste blog, embora eu procure manter a impossível neutralidade quando a questão não é opinativa. Mas eu tenho pontos de conservadorismo, e este é um, ainda que haja pragmatismo nessa posição.

Em primeiro lugar, eu tenho uma chatice absolutamente decantada no quesito linguagem, sendo que já até a narrei aqui. Mas, além disso, por tudo o que expus até o presente momento, dá para perceber que a formação de uma língua não se dá por decreto. Forçar a utilização de termos neutros é praticamente uma garantia para seu fracasso.

É preciso apostar que a causa ganhará adeptos de forma orgânica. Eu mesmo já me peguei a utilizando de maneira informal, na base do “boa tarde para todes”, e é assim que as coisas nascem. Primeiro, parece engraçadinho, mas, aos poucos, vai caindo no uso comum, assim como certos termos deixam de ser utilizados por se tratar de mau gosto. Dependendo, isso nem leva tanto tempo assim, e não precisa de uma lei que os proíba.

Notem que toda disposição linguística nasce da fala, e não da escrita. Surge pela via da informalidade, e depois passa para os manuais. Conforme nos ensina Steven Pinker, linguista e psicólogo canadense, a linguagem pode ser considerada como uma característica inata dos seres humanos, ou seja, os mecanismos evolutivos desenharam a nossa espécie para conceber e utilizar meios de comunicação entre os seus membros. Portanto, os caminhos da natureza nos levaram a ter linguagem inerente, ainda que não seja de forma meramente falada, mas gestual, por exemplo. Entretanto, escrever não é um ato natural do ser humano. Uma criança balbucia os seus vagidos porque há um aparelho fonador apropriado para isso, além de um instinto voltado para a comunicação. Já as letras não representam nada para ela, não só porque não seja capaz de interpretá-las, mas porque é perfeitamente possível viver sem essa forma de expressão. A escrita é uma sistematização artificial de um objeto natural que é a fala. Portanto, a espontaneidade está nessa última. É nela que se constroem as comunicações, antes de serem trasladadas para a escrita. O “orra, meu” dos paulistanos nasce das bocas, e não das penas, para evitar o palavrão sem tirar a força da expressão, e é assim que fica eternizado. Construir a linguagem pela lei vai pelo caminho inverso, e aqui não falamos pela via matemática da ordem dos fatores que não alteram o produto, e sim pelo caminho inverso da divisão. É colocar o carro na frente dos bois, é fazer a linguiça comer o cachorro.

Qual seria a consequência da utilização de termos neutros através da legislação? Primeiro, um erro de estratégia. Imposições são sempre antipáticas, por mais que sejam calcadas em causas justas. Sabemos que pessoas estão sofrendo por conta disso, e são justamente elas que são alvo dos piores opositores dessa causa. O caminho da conscientização me parece ser o único factível, com seu lento, mas progressivo processo. Subsidiariamente, há que temos uma deficiência já muito grande com relação ao aprendizado da língua. Temos uma urgente necessidade de melhorar os índices escolares, passando por uma mudança cultural que comece já no berço. Aumentar a complexidade de uma língua que já é difícil de aprender dá ainda mais munição aos opositores da ideia.

Em tempo: os projetos de lei que tramitam hoje no Congresso versam todos sobre a proibição da utilização de gênero neutro em sala de aula ou documentos oficiais. Não há nenhum projeto concreto que vise tornar obrigatório tal uso, isso é importante frisar. Enquanto a adoção do gênero neutro ainda vaga no campo das ideias, já se correu legalmente para impedir seu uso. É mais uma demonstração do momento de neurose que temos vivido em nossos dias.

E é assim que um nome de cidade, daqueles mais ou menos difíceis de falar de cara, suscita uma discussão em mim mesmo sobre temas controversos do nosso quotidiano. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

É um livro que parece aqueles manuais de redação de jornal, mas que tem fundos filosóficos que nos fazem pensar bastante, e, daí, a sua recomendação.

PINKER, Steven. Guia de escrita. Como Conceber um Texto com Clareza, Precisão e Elegância. São Paulo: Contexto, 2016.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Os verdes mares de onde não há mar – 3ª parada: Congonhal e as duas realidades das duas cachoeiras

(Duas cachoeiras, duas realidades)

Olá!

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Se a esperança urbana se esvaiu em Santa Rita do Sapucaí (leia aqui para entender), o jeito é pensar em coisas mais óbvias. É bem verdade que o capitalismo permite coisas do tipo meter uma cerca ao redor de uma cachoeira, para gáudio e proveito de poucos, mas também é verdade que há gente de boa vontade e espaços públicos, então o negócio é se enfiar no meio do mato, porque sempre haverá a chance de encontrar coisas legais. Daí que eu fui para Congonhal, pequena cidade do circuito ao qual me propus a palmilhar nesta viagem.


Esta cidade era originalmente composta por sesmarias de posse do comendador José Ferreira de Mattos, que as doou para o poder público. Até então, as povoações eram compostas de pequenos grupamentos remanescentes da procura por ouro na região.

Como costuma acontecer nessas cidades do interior, há uma marca profunda da religiosidade, com a tradicional igrejona da praça, cujo padroeiro é São José Operário.

Esta praça é uma das passagens de uma das principais manifestações religiosas da região, o Caminho da Obediência.


Essa romaria tem origem nas relatadas aparições de Nossa Senhora da Obediência em uma capela na área rural, mais especificamente na Serra das Tronqueiras, onde há um bairro de nome São Domingos. Consta que um fiel teve a visão de Nossa Senhora em meio ao acende-e-apaga de uma lâmpada na tal capela, o que foi reputado por milagre entre os frequentadores, o que fez com que a pequena ermida começasse a receber grande número de visitantes.

O que tem de mais legal na cidade são as suas cachoeiras, cuja diferença entre elas dará o mote filosófico deste texto. Na mesma serra citada anteriormente, fica a Cachoeira das Quinze Quedas, formada majoritariamente por um conjunto de nascentes que desce para a planície na forma de cascatas.


São quinze quedas de fato. A cada degrau, a formação de poções e remansos dá boa balneabilidade ao local, que tem água mui limpa e fresca.


O acesso aos pontos mais altos se dá por trilhas e escadas que os proprietários, seo Simão e filhos, foram montando nas laterais da cachoeira. Embora facilite muito a vida, alguns pontos são bastante íngremes e escorregadios.


A subida completa traz como brinde uma visão de mirante, a 1600 metros de altitude, e os efeitos da rarefação do ar, aliados ao esforço da subida, de fato fazem com que precisemos puxar mais fôlego do que o normal.

Já nas margens do Rio Cervo, na outra ponta da cidade, fica uma cachoeira bem mais simples, do estilo escorregador, chamada de Cachoeira das Almas.


É um lugar bem mais próximo do núcleo urbano, onde há uma ducha que aproveita a água do rio e uma série de pedras para tomar sol.


Há mais diferenças entre as duas cachoeiras que a mera variedade geográfica pode fazer supor. O começo está no acesso. A Quinze Quedas custa 25 genocidas-de-saída a entrada, o que, convenhamos, não é pouco. Já a das Almas tem entrada franca. Quando estávamos na primeira, cruzamos com um casal e nós, latinissimamente, começamos a conversar como se vizinhos fôssemos. Pelo meio do papo, falei da minha intenção de ir às Almas, que foi contraindicada pelo par. Diziam ser bem mais feiosinha e, principalmente, mal frequentada. Acontece que eu, macaco velho da Sé e imediações, não iria me assustar com uma cidade que ficou mais de dez anos sem homicídios. Portanto, vamos até lá também, como não?

Bom, "feiosa'' é uma qualificação relativa. Para mim, é só uma questão de saber aproveitar o que cada uma tem de bom. Se por um lado a Quinze Quedas é mais deslumbrante aos olhos, a das Almas é mais divertida e segura, o que é ótimo para concentrações maiores e crianças. Mas a parte problemática está na segunda afirmação. Vamos por partes.

Quando eu fui à Cachoeira das Quinze Quedas, encontrei uma estrutura verdadeiramente melhor que nas Almas. Um bom vestiário, bons banheiros e áreas próprias para refeições, incluindo churrasqueiras de alvenaria. Na outra, dois banheiros e ça tout. As churrasqueiras vêm no porta-malas do Corsinha, bem como a farofa, a galinha e a vitrolinha, esta última substituída por malditas bazucas que valem mais que o combalido veículo. Notem como já vou forçando a mão nas tintas para chegar onde quero.

Hoje em dia eu tenho condições de ir à cachoeira de 25 moedas, mas juntar a patroa e os dois filhos já faria o orçamento saltar para cem pilas. Ainda é pagável no "de vez em quando", mas vai se tornando um programa para menos pessoas, já que o custo do ingresso concorre com o do piquenique.

Aí eu vou buscar algumas experiências do passado. Meu tio Salvador tinha uma Kombi, daquelas com cara de coruja, bem desgastada por sinal. De quando em quando, ele forrava a kombosa de gente e pegava a Estrada Velha de Santos, eu incluso no chiqueirinho que atendia por porta-malas. Uma Kombi comporta nove pessoas e, sem exagero, fazíamos com alguma frequência essa farofa com o dobro de pessoas: só lá de casa, já encheríamos o balouçante veículo. Escolhida a praia, meu tio enfiava o utilitário na areia que, tal qual um motorhome, servia de vestiário, de refeitório, de lavabo, de dormitório e de ambulatório, para quando houvesse algum enjoo a resolver. Isso era o máximo que se dava para fazer, algo impensável para os dias de hoje.

E agora eu me ponho a pensar em como as pessoas que moravam na baixada ou podiam alugar casas viam aquela turba na areia. É muito pouco provável que pensassem: "é só uma família tentando se divertir um pouco". Pelo contrário, deveriam se incomodar um bocado, querer que fôssemos para longe, sem sujar sua praia, sem fazer barulho.

Há um muro que nos divide, e ele é alto e sólido. Há uma barreira mais larga que faz entrever a divisão política que pousou entre nós e ameaça assentar perenidade. Mas esse é o aspecto mais recente e, até certo ponto, mais fácil de contornar. Muito mais complexo é o que está arraigado, e muito menos perceptível. O muro passa pelo abismo financeiro, segue pelo racial e étnico, anda pelo psicológico e desemboca até mesmo na linguagem, na maneira como os lados percebem o mundo. Nessas horas, vou pensar em um autor que tenho lido ultimamente, o norte-americano Willard Quine, e servirá de base para o que eu quero dizer.

Em um primeiro momento, pode parecer que falar outra língua se resume a trocar as palavras. Isso é alguma coisa semelhante a colocar etiquetas debaixo dos objetos a que queremos traduzir, e assim andaremos. O importante é intercambiar a referência, ou seja, o que eu chamo de alhos e bugalhos, um inglês chama de garlics and nut-galls, e um italiano de agli e ghiande, qualquer coisa assim.

"Tradutore, traditore", diziam nessa mesma Itália já há um bom tempo. O efeito dessa teoria do rótulo é a tremenda dificuldade de obter fidelidade nas traduções, mesmo quando feita por linguistas gabaritados. Não é preciso ir longe: a tradução de O Morro dos Ventos Uivantes feita por nada menos que Rachel de Queiroz é até hoje objeto de críticas, não porque lhe falte talento ou capacidade, mas pela dificuldade inerente. E por que isso acontece?

Para além da ausência de certas correspondências linguísticas, é preciso entender que existe uma intersubjetividade que subjaz no funcionamento de qualquer linguagem. Ninguém fala somente para si mesmo, e, mesmo que tente fazê-lo, estará fadado ao fracasso. Primeiro, porque ainda que eu queira falar sozinho, minha linguagem é fruto da comunicação que eu faço com meus circunstantes. Depois, a linguagem não tem serventia outra do que estabelecer contatos. Se a utilizamos na estruturação de nosso pensamento, é por derivação. A linguagem é a minha subjetividade se comunicando com a subjetividade do outro, e, por isso, Quine a classifica como arte social.

O problema da etiquetagem é que ele é uma passagem meramente fonética. De fato, é um aspecto importante, mas que não dá conta de resolver a questão semântica, central em uma relação intersubjetiva. Mais importante do que correlacionar palavras e objetos é encaixar a linguagem no seu contexto, porque há uma mobilidade de significado conforme a relação que se dá entre duas ou mais pessoas. E as chaves de leitura entre uma cultura e outra precisam estar tão claras quanto a vivência de cada um é para si mesmo… o que é praticamente impossível. Por isso, traduzir é um problema. É o que Quine chama de inescrutabilidade da referência.

Ele monta um exercício mental para fornecer um exemplo. Estando em uma terra com estranhos que não falam sua língua, surge um coelho e um dos nativos exclama "gavagai". A reação imediata é compreender que esse termo corresponde a coelho, mas temos aqui uma incerteza: qual é a função semântica de um coelho naquela cultura local? Pode ser apenas o bicho, mas pode corresponder a um alimento, a uma espécie de companhia, a uma raridade, a uma divindade, a um exemplo de ternura ou até mesmo a uma praga que dizima as lavouras. Mais ainda, o nativo pode estar se referindo não ao coelho como um todo, mas a uma parte dele, e, nesse caso, gavagai corresponderia a orelhudo ou dentuço. Percebam, portanto, que uma associação entre a palavra gavagai e o objeto coelho não dá conta do total de significados que essa relação pode ter. Imagine você indo à noite na casa de um desses nativos e perguntando se teremos fofura para o jantar. Ou que queira enaltecer um devastador bichinho peludo, dizendo como ele é lindinho, para alguém que tenha perdido sua horta para um desses.

Eis que a linguagem depende de um meio social para existir, e o mero referencialismo não é suficiente para produzir traduções. Se não possuirmos as chaves contextuais de uma linguagem, podemos ser um dicionário ambulante dela, mas, mesmo assim, não traduziremos nada.

Quine está se referindo, naturalmente, a aspectos muito mais profundos das diferenças das linguagens, mas eu notei uma coisa aqui. É bastante possível perceber como há diferenças referenciais dentro de um próprio idioma. Notem a diferença de significação que entre a cachoeira para a elite e para o proletário.

Quando se troca a língua, troca-se a visão de mundo, porque todo o seu pensamento é estruturado a partir da linguagem que você vive, mesmo que seja exatamente a mesma de outros estratos populacionais. Por exemplo: quando alguém de nível social mais elevado (não gosto dessa expressão) diz que vai à cachoeira, você pergunta: "qual?". Isso acontece porque está no espectro dessa pessoa uma variedade de destinos em função de seus ganhos. Então é possível que seja a cachoeira de 25 reais, ou alguma que eu pegue o carro para ir a outro estado, ou ir às Niagara Falls ou, até mesmo, ir à Cachoeira das Almas. Se não vai até esta última, é porque há um incômodo, e não uma impossibilidade. Já para os que estão além do muro, a possibilidade é única. Dizer que se vai até à cachoeira já faz subentender que o rumo é o possível, a Cachoeira das Almas. Neste círculo, falar em “ir à cachoeira”, já significa ir à cachoeira pobre.

Você que é paulistano como eu pode notar como nos orgulhamos do sotaque fortemente puxado do italiano, como acontece na Mooca, bairro em que nasci e do qual me orgulho, mas onde perceptivelmente se força a barra para ter uma fala mais cantada do que já se tem naturalmente, e esquecemos que há outro sotaque na própria cidade, um sotaque da periferia, duro, até mesmo soturno, a quem damos caráter pejorativo, e que é retratado nos raps do Racionais, do Emicida, do Xis. Esse é um sotaque autêntico e legítimo que só colocamos a claro quando queremos representar o banditismo, a favela, a pobreza. É duro, mas é isso: nosso salto social é tão grande que pode ser percebido até no modo como falamos, ou nas cachoeiras que frequentamos, especialmente quando não conseguimos nos comunicar com quem está em classe distinta.

Voltamos à noite para o hotel, já plenamente molhados e sem toalha, o que deu uma bela zoada no carro, matando um pouco de saudades daquele tempo da Kombi que subia a serra forrada de areia e sal em todos os bancos. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Esse é só o comecinho de Quine. Tenho lido e gostado bastante.

QUINE, Willard. Palavra e Objeto. São Paulo: Vozes, 2010.