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terça-feira, 28 de julho de 2026

O café filosófico do quotidiano – Como os mitos expressam suas verdades

(Nem sempre um mito é só uma historinha. Ele pode servir como concretização de sistemas de ideias complexos)

“E depois de obtermos as recompensas da justiça seremos como os vencedores que recolhem os prêmios. Tanto aqui, quanto no percurso de mil anos que acabamos de descrever”.

Platão 

Olá!

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Eu nasci em um tempo de transformação. Ainda muita coisa pertencia ao meio mais analógico da vida, mas já havia algumas coisas que despontavam no mundo digital, como os relógios de cristal líquido e o apoio da informática no mundo empresarial, ainda na forma de um computador que armazenava todos os processos mais complexos, enquanto o trivial continuava na base das fichas. E isso, de certa forma, era traspassado para a vida quotidiana. É certo que o ressurgimento de LP’s demonstra que certos retrocessos acabam por se tornar desejáveis, mas no cômputo geral a escala tecnológica é um caminho sem volta. A não ser que surjam ondas de revival e ressuscitem objetos que achávamos mortos. É o caso desse belo método trapezoidal cerâmico, que achei bem barato numa dessas casas orientais.


Ele não é uma mera reprodução dos Melittões que usávamos para agilizar os coadores de pano na minha época de criança, mas um utensílio que teve alguns melhoramentos. Em primeiro lugar, seu material (cerâmica esmaltada) facilita a limpeza e favorece um escoamento com menos aderência.

Além disso, sua base possui três furos de calibre mediano, que visa corrigir o problema clássico dessa arquitetura: a retenção da filtragem e consequente aumento da adstringência e do amargor. Sem contar que é bastante elegante.



Nome do utensílio: porta-filtro cerâmico trapezoidal

Tipo de técnica: percolação com filtragem por elemento de papel

Dificuldade: baixa

Espessura do pó: média

Dinâmica: introduz-se um filtro de papel de tamanho apropriado no porta-filtro, com dobra cruzada nas costuras, para depois realizar-se um escaldamento no mesmo. Deposita-se café moído em ponto médio no filtro. Despeja-se água suficiente apenas para umedecer todo o pó (blooming). Após cerca de trinta segundos, realizam-se ataques de modo a não ultrapassar o limite do filtro ou do porta-filtro.

Resíduos: nenhum

Temperatura de saída: média

Nível de ritual: baixo-médio

Diante do bombardeio de métodos baseados na estrutura V60 (Origami, Mugen, Waals, Fluire, Cone Coffee), talvez essas novas concepções de filtro trapezoidal representem uma espécie de novo ciclo para o método. Um sistema que funcionou bem por tanto tempo pode encontrar nova subsistência. É assim que o mundo gira, e, sendo assim, ele próprio é cíclico.

Essa ideia de universo cíclico já é muito antiga nos conceitos filosóficos, e deriva da compreensão empírica de eternos reinícios. “Depois da tempestade, vem a bonança”, diz um antigo ditado anônimo, que nos passa essa noção de que sempre é possível prever a repetibilidade dos fenômenos. Como é preciso que se obtenham explicações sobre os mais diversos deles, também a ressurgência da vida se enxergou em formato circular. Como não é detectável por meios empíricos, tomou aspecto religioso, e veio a claro na forma da mitologia grega.

O mito de Er é um dos mais conhecidos no âmbito da Filosofia. Veio a público especialmente pela letra de Platão. Antes de cuidar de seu significado, é preciso contá-lo, e vou tentar fazê-lo da maneira mais sintética possível, mas, antes ainda, é preciso pincelar um pouco sobre o significado dos mitos nas narrativas platônicas, visto que as mesmas são abundantes e parecem um contrassenso quando se lembra da objetividade requerida pela razão.

Platão utiliza o mito pelo mesmo motivo que eu uso exemplos e mais exemplos de minhas próprias aventuras neste humilde espaço. Embora toda a racionalidade seja a melhor ferramenta para se obter a aproximação com a realidade em si mesma, sempre se pode notar que ela pode ser um esqueleto, ou uma estrutura, mas carece a ela uma característica: o real palpável. Todas as vezes em que eu reduzir um fenômeno a fórmulas matemáticas, vai faltar uma “carne” para revestir esses ossos, e o mito, ainda que não seja uma realidade efetivamente existente, tem o condão de se apropriar da liberdade criativa para emoldurar a realidade exatamente como queremos. Sendo assim, o mito em Platão não tem o aspecto dogmático de quem se guia por uma fé, mas de complementaridade ao raciocínio construído pelo logos, na função de adjutor. É bem isso que se pode perceber no mito de Er, onde trataremos de aspectos escatológicos e éticos. Mas passemos à sua sinopse.

Conta-se que Er era um soldado da Panfília (atual Armênia) que morreu em combate, junto a diversos companheiros de espada. Restou junto da carnificina de batalha, com outros também mortos, mas foi o único cujo corpo, passados dez dias, permanecia incorrupto. Embora isso causasse admiração, foi encaminhado para as exéquias da mesma forma. Sendo feitos os preparatórios para sua cremação, eis que o gajo volta à vida, para a surpresa geral. Estando acordado, passou a relatar tudo o que vira no seu sono profundo.

Assim que sua alma abandonou seu corpo jazente, foi para um prado tranquilo onde se podia ver quatro aberturas, sendo duas no céu e duas na terra, que tinham o propósito de permitir o ir e vir das almas. Aqueles que eram justos, pegavam o caminho que subia aos céus, enquanto aos iníquos cabia descer às profundezas da terra. Era o Hades, uma espécie de inferno regido pelo deus de mesmo nome, no qual a parte mais profunda era o Tártaro, como uma masmorra onde ficavam os criminosos mais graves.

Esse trabalho de despacho era feito por juízes que se encarregavam de avaliar feitos e culpas de cada um que se lhe compareciam à frente. Disseram a Er para registrar todos os fatos, porque caberia a ele retornar à vida para contar aos outros homens como funcionava o além-vida.

Os recém mortos, portanto, seguiam pelas aberturas que conduziam ao céu ou às profundezas, enquanto os seus respectivos pares serviam para os regressos das almas. Estes que voltavam o faziam para reencarnar. Os que subiam do subterrâneo lamentavam as agruras que passaram, os que desciam dos céus cantavam seus dias felizes. Faziam-no porque ou cumpriam penas de mil anos, ou porque completavam mil anos de regozijo, tudo em função da vida anterior que haviam levado na terra.

Estes que regressavam carregavam consigo os rastros de suas experiências extraterrenas. Os que vinham do céu diziam das maravilhas que lá viveram, enquanto os que subiam do Hades davam graças por ter encerrado o sofrimento. De volta ao prado, as almas que retornarão à vida terrena vão dar de frente com as três Moiras, filhas da Necessidade, de quem sinto-me na obrigação de redigir um texto mais específico, o que farei em breve. Elas são Láquesis (passado), Cloto (presente) e Átropos (futuro), sendo que é a primeira que professa às almas o que haverá de acontecer: serão apresentados a elas vários modelos de destinos – vidas humanas e animais, com livre escolha de cada uma delas. Cada alma escolherá o caminho que percorrerá em sua nova existência. São vidas que tanto podem ser venturosas quanto pacíficas, tirânicas ou pastoris, guerreiras ou filosóficas.

Após a escolha, Láquesis nomeava um daimon para acompanhar a alma encarnante por toda a sua vida, que era urdida por Cloto e tornada irreversível por Átropos. Esse daimon, cuja palavra é a origem do termo demônio, não tem nada a ver com a visão cristã de espírito de maldade ou assecla de Lúcifer. O daimon é uma espécie de guia espiritual que seguirá o renascido em suas trilhas para garantir a execução do destino escolhido. Para nos trazer uma imagem, o daimon estaria atuando naqueles momentos em que temos uma intuição sobre o que devemos fazer nessas encruzilhadas da vida, de modo a nos manter no destino por nós mesmos escolhido perante as moiras. 

Após esse processo, as almas são encaminhadas para o Vale do Esquecimento, onde tomarão as águas do Rio Âmelas antes de reencarnar. Essa sorvedura tem o propósito de fazer esquecer as vidas passadas, para que a nova vida não seja contaminada pelas experiências passadas. Quem bebia demais, esquecia inclusive os vínculos com o Hiperurânio, tornando-se um tolo. Aqueles que bebiam apenas um pouco mantinham boa parte do conhecimento adquirido através das existências sucessivas.

A princípio, o mito de Er parece mais uma entre outras mitologias religiosas sobre o post-mortem, e realmente o é. A escatologia platônica está fortemente calcada na visão órfica, que pressupõe um dualismo corpo-alma e a eternidade dessa última, além da possibilidade de reencarnação e do tráfego entre planos distintos. A ideia de regresso à vida vem da ideia das religiões de mistério que intuíam muitos dos fenômenos humanos a partir da observação de acontecimentos naturais. Assim como uma planta morre em um ciclo, ela renasce por intermédio de suas sementes, o que também ocorreria com os seres sencientes. Inclusive, uma das hipóteses de reencarnação segundo Platão é parecida com a metafísica budista – há a possibilidade de se reencarnar como um animal. A ingestão das águas do Rio Âmelas representaria a ausência de lembranças das vidas passadas, embora aqueles que eram prudentes bebessem menos, o que lhes fazia manter uma tênue recordação, não dos fatos em si, mas das estruturas sapienciais que podiam ser revestidas por novas ocorrências, e este era o que poderia ser considerado o sábio na sua vida atual.

Mas o que está efetivamente sedimentado no mito de Er são os eixos éticos da filosofia clássica. Aqui, encontramos uma discussão bastante profunda com relação ao peso da justiça, que veio refletir inclusive no posterior Cristianismo. Qual é a responsabilidade moral que um indivíduo tem de praticar a justiça? A resposta do mito se dá na forma de prêmio ou punição que não são movidos pelo acaso, uma vez que eles são obtidos a partir de escolhas. Não se pode atribuir à sorte ou a uma divindade o destino que se obteve, vez que ele, desde a origem, é formatado por cadeias de causas e consequências disparadas por nossas opções de vida. Ou seja, muito antes dos existencialistas, Platão já colocava o peso das escolhas sobre o próprio indivíduo. Tudo o que é imputado para alguém de fora – acaso, divindade, outras pessoas – tem unicamente o encargo psicológico de tirar de si as culpas. Percebam que os paradigmas colocados por Láquesis ao retornante são proposituras, e não imposições. Embora não exista a opção de não reencarnar, é perfeitamente possível à alma optar por condutas morais mais perfeitas do que sua mera vontade pode guiar, já que a liberdade de escolha nesse caso é plena. O daimon escolhido para companhia estará em função desta mesma escolha, portanto não deverá ser a ele também imputada nenhuma responsabilidade pela escolha. Esse é o modo com o qual Platão desenha sua ética individual – o indivíduo é completamente responsável pelas suas escolhas, tem livre-arbítrio para tanto e disso deriva sua sorte e seu destino.

O mito de Er sintetiza também uma teoria das reminiscências platônica que não apenas casa com princípios de reencarnação que foram adotados muito mais tarde por espíritas, mas é também uma alegoria sobre o funcionamento de sua epistemologia. Relembrando do princípio geral de que os raciocínios nascem a partir de contatos intelectuais com o mundo das ideias, onde todas as formas são perfeitas, podemos nos perguntar por que não os retemos se estivemos em outras existências. O fato de se beber demais da água do esquecimento alegoriza justamente a atitude que não é filosófica: quem se embriaga com a água sintetiza unicamente a força do momento e da necessidade, sem refletir sobre a prudência da moderação e do cuidado intelectual. Dessa forma, a atitude racional de se manter o máximo de reminiscências melhora o aporte intelectivo em detrimento da supressão de uma necessidade ocasional. E com isso vem a máxima platônica de que aprender é relembrar. Por isso, Platão era um racionalista puro: tudo o que uma pessoa aprende já reside nela mesma, bastando que esse conhecimento seja ativado através da escalada do raciocínio, como Sócrates fez com o experimento intelectualidade do escravo (também vem texto sobre isso por aí).

Sendo assim, crianças, podemos perceber como as aparências enganam. Um mito não é só uma história da carochinha, nem uma mentirinha para ajudar a aquietar as crianças, mas, sendo bem utilizado, é uma ferramenta didática das mais efetivas. E também pudemos ver aqui como algo tão quotidiano quanto um porta-filtros revisitado pode conduzir a discussões que estão nas raízes dos problemas filosóficos há milênios. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

O Mito de Er está na célebre República, então a recomendaremos novamente, sem qualquer constrangimento. Aprendam, jovens, que, se vocês quiserem tomar contato mais íntimo com a filosofia ocidental, esta leitura é inescapável.

PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2014.



terça-feira, 21 de julho de 2026

Sobre patriotismo e refúgios de canalhas

(Samuel Johnson diz que “o patriotismo é o último refúgio do canalha”. É ruim ser patriota, portanto?)

“Uma família que frequenta a igreja não terá um comportamento muito melhor, caso um de seus membros se torne ateu. É a reação a uma deserção, até mesmo a um roubo. Alguém ou alguma coisa roubou ‘nosso’ menino (ou menina). Ele, que era um de nós, agora virou um deles. Com que direito fazem isso? Ele é nosso”.

C. S. Lewis

Olá!

Bem, bem… sacumé, né? O brasileiro já é tão acostumado com apertos e aperreios que, quando eles acontecem, vão consagrar mais uma chacota. Não seria diferente desta vez, quando as coisas trafegavam pelo óbvio. Um futebol chinfrim não ia chegar mais longe de onde escretes autenticamente bons não passaram, ainda mais levando em conta que nem todo ano é 2004*.

A Copa acabou e tem gente dizendo que foi a copa dos protagonistas, dos craques e outras bazófias. Para mim, foi a Copa do óbvio. A campeã era uma das óbvias, a vice também, assim como terceiros e quartos colocados. O craque era óbvio, bem como o artilheiro, além é claro, das decepções, Brasil inclusíssimo. Notem que o grande drama do futebol brasileiro continua sendo o Maracanazo de 1950**. Esse doeu de fato. Os 7x1 foram a maior humilhação, mas não a maior desgraça. O chocolate alemão faz parte da longa cadeia de fracassos que se arrastará por pelo menos 28 anos, o que já constituirá o maior jejum de copas do Onze Canarinho. Então a campanha deste ano será uma espécie de indignação que se transformará em peça de humor, progressivamente. Isso é típico do Patropi.

Eu faço aniversário justo no meio de uma Copa do Mundo, mais especificamente a de 70, gloriosa. Minha mãe contava que meu pai, completamente bêbado, comemorava às escâncaras em pleno hospital a vitória contra o Peru, pelas quartas de final, assim como outros pais completamente bêbados naquela Mooca festiva pelo mega time que tanto orgulhava os 90 milhões em ação. Ou seja, nasci bicampeão para virar tri poucos dias depois. Sendo assim, a cada quatro anos é fácil de me dar um presente. Eu ganhei uma camisa da seleção este ano, daquelas do Extremo Oriente, fornecida pelo filho mais velho. Teve quatro usos e já vai para o fundo da gaveta, esperando 2030.

Mas eu já ouvi algumas pessoas dizendo que a camisa terá uso antes, nas proximidades da eleição deste ano. Sim, eu sei e já falei sobre o sequestro da amarelinha neste humilde espaço (vide), mas, pelo visto, ela continuará a ser uma marca política ainda mais uma vez, e não sei mais quantas, para nosso desespero. Fazem isso por se dizerem patriotas, amar o país e se opor à ameaça vermelha, essas coisas que não se sustentam, mas que seduzem vastas camadas da população, como se pode ver há mais de dez anos no Impávido Colosso.

O grande problema é que se autodenominar patriota é uma mera palavra, uma ação sem significado quando você olhar pela lupa e perceber que tanto os tais patriotas prejudicam sua pátria, muito além do que fazem os tais vermelhos, que também gostam de futebol, mas ficam vetados de amar seu próprio país, nos dizeres desses outros.

E a vingança vem na forma de palavras também. Os que se opõe a essa cosmovisão vão buscar na era georgiana da Inglaterra uma frase que, colocada solta, é uma delícia de pronunciar contra os supostos amantes do verde e amarelo: “o patriotismo é o último refúgio do canalha”. Tem sido bastante usada essa frase.

Este é um aforismo que foi atribuído ao escritor inglês Samuel Johnson, através de sua biografia escrita por James Boswell. Johnson foi um dos mais célebres ensaístas e poetas ingleses do século XVIII, tendo escrito inúmeros artigos para jornais, além de sua especialidade maior, as biografias. Mas nada supera a sua frase lapidar.

Para entender um pouco melhor o que foi dito, é preciso compreender seu contexto, e, para isso, é preciso entender bem o que é o patriotismo e, mais ainda, o que é o amor storgé. Para tanto, vamos recorrer a outro pensador, o irlandês C. S. Lewis.

Eu não sou um dos maiores fãs deste escritor, mas é inegável que ele tenha desenvolvido bem as origens dos conceitos gregos de amor, e, por isso, caberá bem para o que quero discorrer aqui. O storgé é aquele amor que é inerente à espécie e que não depende diretamente de dispositivos racionais ou emotivos, sendo um tipo de instinto gravado na personalidade humana. Provavelmente ocorreu pelo nosso caráter gregário, já que uma predisposição a procurar companhia é um elemento favorável à sobrevivência de uma espécie que não se caracteriza por nenhum grande atributo físico que lhe possa garantir defesa. Dessa forma, surge um forte elo existente entre os membros de uma família, os membros da espécie mais próximos, que não depende de uma formação passional, mas de um convívio habitual. É como se meus genes dissessem que aquele meio é o lugar tranquilo onde eu posso estabelecer uma confiança mínima. Isso acontece em duas mãos. Um bebê tem necessidades que, sozinho, não consegue suprir por si mesmo. Então ele cria um laço afetivo por quem lhe supre essa necessidade. Por outro lado, o bebê é a continuidade da espécie de uma mãe que lhe deu à luz, então essa mãe lhe dá os cuidados como dádiva, e também forma laços poderosos com sua cria. Posto que sem esses nexos causais não haveria manutenção do ser humano, ele acaba sendo inerente à espécie.

Vamos pensar agora. Essa afeição interpessoal é extensível. Em uma comparação meio rústica, meu vizinho ajuda a vigiar meu quintal, e eu faço o mesmo, ampliando a segurança de ambas as casas. E, assim, outras pessoas vão sendo agregadas ao convívio familiar, e essas pessoas vem da sociedade que nos cerca. Esse amor-necessidade se estende à minha redondeza na medida em que eu tenho a necessidade de obter maior segurança, enquanto eu o devolvo na forma de amor-dádiva ao fazer a mesma coisa à minha vizinhança. Da mesma forma, idêntico sentimento se aplica em círculos cada vez maiores, por características que são compactuadas pelos grupos: a língua, o espaço físico, o governo, a bandeira, até o limite onde estes pontos comuns se quebram. Esse território afetivo, mais psicológico do que geográfico, é o que chamamos de pátria.

Podemos perceber que, em si, o patriotismo nada mais é do que uma afeição pelo espaço em que cada um de nós se irmana com aqueles que o condividem com a gente. E, em resumo, isso é quase que uma consequência natural do nosso instinto gregário. O problema, portanto, não está no patriotismo, mas no canalha. Não é o patriotismo que gera o canalha, mas o canalha que se aproveita do patriotismo.

Nestes tempos de Copa do Mundo, é notável a propensão em sentirmos um certo exacerbamento no sentimento patriótico, especialmente pela via de um dos raros ramos onde somos realmente competitivos internacionalmente. Isso enche de brios o povo, e dá sensação de unidade maior do que a que sentimos no quotidiano. Esse sentimento, apesar de legítimo, é facilmente manipulável, e não só por nós, auriverdes. Cansamos de ver o alaranjado presidente ianque interferir no evento, e ele não o faz porque é um amante de futebol, mas porque quer aproveitar cada minuto de destaque que a Copa dá. Nós estranhamos as suas atitudes, mas ele está bem consciente do que a sua comunidade, a sua sociedade, a sua pátria admira. Não à toa, foi eleito duas vezes, em que pese o insólito sistema eleitoral estadunidense. Ou seja, ele sabe mexer com as cruzetas que manipulam as marionetes políticas (ainda que nos causem congestão).

A questão da pátria vai no mesmo condão. Alegar ser um patriota, embora devesse ser uma mera platitude, nada mais é do que tocar em um ponto que é comum a praticamente todos, e isso costuma ser infalível no quesito populismo. Mas é exatamente aqui que entra a canalhice citada por Johnson. Se não tem reflexo na vida real de quem o profere, o patriotismo é um mero manto para interesses próprios. Imagine que você é um político cujas verdadeiras intenções não podem ser abertas a quem vai lhe eleger, sob pena de se ver despencar as intenções de voto. O que lhe restará de discurso? Duas coisas: falar de coisas bonitas, como Deus, pátria e família, e colocar seu adversário exatamente no ponto inverso, como se fosse impossível a ele ser cristão, ser patriota ou acreditar em valores familiares. Pior ainda quando se observa a sua prática, com valores que, a miúdo e sem manipulações, nada têm em comum com o discurso que se professa.

O sentido de refúgio do canalha é, portanto, o de uma casamata onde este pode se escorar todas as vezes em que o vazio de suas ideias se fizer evidente, ou a dubiedade de suas intenções se tornarem claras. Ele é canalha porque usa um sentimento comum como subterfúgio para manter seu meio de manter justamente aquilo que se opõe às suas próprias palavras. E isso desmerece o próprio sentimento de identificação.

Mas o discurso é eficiente, conforme se pode observar em Terra Brasilis.

Estranho esse país.

Bons ventos a todos!

Recomendações de leitura:

Esta é a obra onde Boswell eterniza o aforismo de Johnson:

BOSWELL, James. A Vida de Samuel Johnson. Volume I. Ebook. Brasil: José Filardo, 2019.


E o livro de C. S. Lewis a que me refiro é o seguinte:

LEWIS, C. S. Os Quatro Amores. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.


* 2004 foi um dos anos mais atípicos do futebol mundial. Não foi um ano de copa, mas talvez teríamos algum campeão absurdo se houvesse. Foi o ano em que o São Caetano foi campeão paulista; o Santo André, campeão da Copa do Brasil; o Once Caldas foi campeão da Libertadores e a cereja do bolo: Grécia, campeã da Eurocopa.

** Maracanazo foi um dos episódios mais relevantes do futebol mundial, uma perfeita alegoria dos efeitos das comemorações antecipadas e da decepção com um resultado inesperado. O Brasil era favorito disparado para ser campeão mundial da Cop de 50, por inúmeros fatores: a copa sendo jogada em casa, um estádio novinho em folha e com cerca de 200 mil presentes, uma equipe poderosa, um retrospecto invejável naquela competição, a vantagem do empate e saindo na frente no placar. Mas futebol é futebol e o Uruguai, um time ótimo, mas ainda assim amplamente inferior ao escrete tupiniquim, juntou forças suficientes para uma virada histórica. Todos esses elementos transformaram o improvável resultado no maior drama nacional do esporte. O impacto foi tão forte que até mesmo o uniforme da seleção foi mudado, e o bode expiatório eleito, o goleiro Barbosa, passou o resto de seus dias carregando o fardo de uma culpa que não foi sua.