(Samuel Johnson diz que “o patriotismo é o último refúgio do
canalha”. É ruim ser patriota, portanto?)
“Uma família que frequenta a igreja não terá um comportamento muito melhor, caso um de seus membros se torne ateu. É a reação a uma deserção, até mesmo a um roubo. Alguém ou alguma coisa roubou ‘nosso’ menino (ou menina). Ele, que era um de nós, agora virou um deles. Com que direito fazem isso? Ele é nosso”.
C. S. Lewis
Olá!
Bem, bem… sacumé, né? O brasileiro já é tão acostumado com
apertos e aperreios que, quando eles acontecem, vão consagrar mais uma chacota.
Não seria diferente desta vez, quando as coisas trafegavam pelo óbvio. Um
futebol chinfrim não ia chegar mais longe de onde escretes autenticamente bons
não passaram, ainda mais levando em conta que nem todo ano é 2004*.
A Copa acabou e tem gente dizendo que foi a copa dos
protagonistas, dos craques e outras bazófias. Para mim, foi a Copa do óbvio. A
campeã era uma das óbvias, a vice também, assim como terceiros e quartos
colocados. O craque era óbvio, bem como o artilheiro, além é claro, das
decepções, Brasil inclusíssimo. Notem que o grande drama do futebol brasileiro
continua sendo o Maracanazo de 1950**. Esse doeu de fato. Os 7x1 foram a maior
humilhação, mas não a maior desgraça. O chocolate alemão faz parte da longa
cadeia de fracassos que se arrastará por pelo menos 28 anos, o que já
constituirá o maior jejum de copas do Onze Canarinho. Então a campanha deste
ano será uma espécie de indignação que se transformará em peça de humor,
progressivamente. Isso é típico do Patropi.
Eu faço aniversário justo no meio de uma Copa do Mundo, mais
especificamente a de 70, gloriosa. Minha mãe contava que meu pai, completamente
bêbado, comemorava às escâncaras em pleno hospital a vitória contra o Peru,
pelas quartas de final, assim como outros pais completamente bêbados naquela
Mooca festiva pelo mega time que tanto orgulhava os 90 milhões em ação. Ou
seja, nasci bicampeão para virar tri poucos dias depois. Sendo assim, a cada
quatro anos é fácil de me dar um presente. Eu ganhei uma camisa da seleção este
ano, daquelas do Extremo Oriente, fornecida pelo filho mais velho. Teve quatro
usos e já vai para o fundo da gaveta, esperando 2030.
Mas eu já ouvi algumas pessoas dizendo que a camisa terá uso
antes, nas proximidades da eleição deste ano. Sim, eu sei e já falei sobre o
sequestro da amarelinha neste humilde espaço (vide),
mas, pelo visto, ela continuará a ser uma marca política ainda mais uma vez, e
não sei mais quantas, para nosso desespero. Fazem isso por se dizerem
patriotas, amar o país e se opor à ameaça vermelha, essas coisas que não se
sustentam, mas que seduzem vastas camadas da população, como se pode ver há
mais de dez anos no Impávido Colosso.
O grande problema é que se autodenominar patriota é uma mera
palavra, uma ação sem significado quando você olhar pela lupa e perceber que
tanto os tais patriotas prejudicam sua pátria, muito além do que fazem os tais
vermelhos, que também gostam de futebol, mas ficam vetados de amar seu próprio
país, nos dizeres desses outros.
E a vingança vem na forma de palavras também. Os que se opõe
a essa cosmovisão vão buscar na era georgiana da Inglaterra uma frase que,
colocada solta, é uma delícia de pronunciar contra os supostos amantes do verde
e amarelo: “o patriotismo é o último refúgio do canalha”. Tem sido bastante
usada essa frase.
Este é um aforismo que foi atribuído ao escritor inglês
Samuel Johnson, através de sua biografia escrita por James Boswell. Johnson foi
um dos mais célebres ensaístas e poetas ingleses do século XVIII, tendo escrito
inúmeros artigos para jornais, além de sua especialidade maior, as biografias.
Mas nada supera a sua frase lapidar.
Para entender um pouco melhor o que foi dito, é preciso
compreender seu contexto, e, para isso, é preciso entender bem o que é o
patriotismo e, mais ainda, o que é o amor storgé. Para tanto, vamos
recorrer a outro pensador, o irlandês C. S. Lewis.
Eu não sou um dos maiores fãs deste escritor, mas é inegável
que ele tenha desenvolvido bem as origens dos conceitos gregos de amor, e, por
isso, caberá bem para o que quero discorrer aqui. O storgé é aquele amor que é
inerente à espécie e que não depende diretamente de dispositivos racionais ou
emotivos, sendo um tipo de instinto gravado na personalidade humana.
Provavelmente ocorreu pelo nosso caráter gregário, já que uma predisposição a
procurar companhia é um elemento favorável à sobrevivência de uma espécie que
não se caracteriza por nenhum grande atributo físico que lhe possa garantir
defesa. Dessa forma, surge um forte elo existente entre os membros de uma
família, os membros da espécie mais próximos, que não depende de uma formação
passional, mas de um convívio habitual. É como se meus genes dissessem que
aquele meio é o lugar tranquilo onde eu posso estabelecer uma confiança mínima.
Isso acontece em duas mãos. Um bebê tem necessidades que, sozinho, não consegue
suprir por si mesmo. Então ele cria um laço afetivo por quem lhe supre essa
necessidade. Por outro lado, o bebê é a continuidade da espécie de uma mãe que
lhe deu à luz, então essa mãe lhe dá os cuidados como dádiva, e também forma
laços poderosos com sua cria. Posto que sem esses nexos causais não haveria
manutenção do ser humano, ele acaba sendo inerente à espécie.
Vamos pensar agora. Essa afeição interpessoal é extensível.
Em uma comparação meio rústica, meu vizinho ajuda a vigiar meu quintal, e eu
faço o mesmo, ampliando a segurança de ambas as casas. E, assim, outras pessoas
vão sendo agregadas ao convívio familiar, e essas pessoas vem da sociedade que
nos cerca. Esse amor-necessidade se estende à minha redondeza na medida em que eu
tenho a necessidade de obter maior segurança, enquanto eu o devolvo na forma de
amor-dádiva ao fazer a mesma coisa à minha vizinhança. Da mesma forma, idêntico
sentimento se aplica em círculos cada vez maiores, por características que são
compactuadas pelos grupos: a língua, o espaço físico, o governo, a bandeira,
até o limite onde estes pontos comuns se quebram. Esse território afetivo, mais
psicológico do que geográfico, é o que chamamos de pátria.
Podemos perceber que, em si, o patriotismo nada mais é do
que uma afeição pelo espaço em que cada um de nós se irmana com aqueles que o
condividem com a gente. E, em resumo, isso é quase que uma consequência natural
do nosso instinto gregário. O problema, portanto, não está no patriotismo, mas
no canalha. Não é o patriotismo que gera o canalha, mas o canalha que se
aproveita do patriotismo.
Nestes tempos de Copa do Mundo, é notável a propensão em
sentirmos um certo exacerbamento no sentimento patriótico, especialmente pela
via de um dos raros ramos onde somos realmente competitivos internacionalmente.
Isso enche de brios o povo, e dá sensação de unidade maior do que a que
sentimos no quotidiano. Esse sentimento, apesar de legítimo, é facilmente
manipulável, e não só por nós, auriverdes. Cansamos de ver o alaranjado
presidente ianque interferir no evento, e ele não o faz porque é um amante de
futebol, mas porque quer aproveitar cada minuto de destaque que a Copa dá. Nós
estranhamos as suas atitudes, mas ele está bem consciente do que a sua
comunidade, a sua sociedade, a sua pátria admira. Não à toa, foi eleito duas
vezes, em que pese o insólito sistema eleitoral estadunidense. Ou seja, ele
sabe mexer com as cruzetas que manipulam as marionetes políticas (ainda que nos
causem congestão).
A questão da pátria vai no mesmo condão. Alegar ser um
patriota, embora devesse ser uma mera platitude, nada mais é do que tocar em um
ponto que é comum a praticamente todos, e isso costuma ser infalível no quesito
populismo. Mas é exatamente aqui que entra a canalhice citada por Johnson. Se
não tem reflexo na vida real de quem o profere, o patriotismo é um mero manto
para interesses próprios. Imagine que você é um político cujas verdadeiras
intenções não podem ser abertas a quem vai lhe eleger, sob pena de se ver
despencar as intenções de voto. O que lhe restará de discurso? Duas coisas:
falar de coisas bonitas, como Deus, pátria e família, e colocar seu adversário
exatamente no ponto inverso, como se fosse impossível a ele ser cristão, ser
patriota ou acreditar em valores familiares. Pior ainda quando se observa a sua
prática, com valores que, a miúdo e sem manipulações, nada têm em comum com o
discurso que se professa.
O sentido de refúgio do canalha é, portanto, o de uma casamata onde este pode se escorar todas as vezes em que o vazio de suas ideias se fizer evidente, ou a dubiedade de suas intenções se tornarem claras. Ele é canalha porque usa um sentimento comum como subterfúgio para manter seu meio de manter justamente aquilo que se opõe às suas próprias palavras. E isso desmerece o próprio sentimento de identificação.
Mas o discurso é eficiente, conforme se pode observar em
Terra Brasilis.
Estranho esse país.
Bons ventos a todos!
Recomendações de leitura:
Esta é a obra onde Boswell eterniza o aforismo de Johnson:
BOSWELL, James. A Vida de Samuel Johnson. Volume I. Ebook. Brasil:
José Filardo, 2019.
E o livro de C. S. Lewis a que me refiro é o seguinte:
LEWIS, C. S. Os Quatro Amores. Rio de Janeiro: Thomas
Nelson Brasil, 2017.
* 2004 foi um dos anos mais atípicos do futebol mundial. Não
foi um ano de copa, mas talvez teríamos algum campeão absurdo se houvesse. Foi
o ano em que o São Caetano foi campeão paulista; o Santo André, campeão da Copa
do Brasil; o Once Caldas foi campeão da Libertadores e a cereja do bolo: Grécia,
campeã da Eurocopa.
** Maracanazo foi um dos episódios mais relevantes do
futebol mundial, uma perfeita alegoria dos efeitos das comemorações antecipadas
e da decepção com um resultado inesperado. O Brasil era favorito disparado para
ser campeão mundial da Cop de 50, por inúmeros fatores: a copa sendo jogada em
casa, um estádio novinho em folha e com cerca de 200 mil presentes, uma equipe
poderosa, um retrospecto invejável naquela competição, a vantagem do empate e
saindo na frente no placar. Mas futebol é futebol e o Uruguai, um time ótimo, mas
ainda assim amplamente inferior ao escrete tupiniquim, juntou forças
suficientes para uma virada histórica. Todos esses elementos transformaram o
improvável resultado no maior drama nacional do esporte. O impacto foi tão
forte que até mesmo o uniforme da seleção foi mudado, e o bode expiatório
eleito, o goleiro Barbosa, passou o resto de seus dias carregando o fardo de
uma culpa que não foi sua.











