(Nem sempre um mito é só uma historinha. Ele pode servir como concretização de sistemas de ideias complexos)
“E depois de obtermos as recompensas da justiça seremos como os vencedores que recolhem os prêmios. Tanto aqui, quanto no percurso de mil anos que acabamos de descrever”.
Platão
Olá!
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Eu nasci em um tempo de transformação. Ainda muita coisa
pertencia ao meio mais analógico da vida, mas já havia algumas coisas que
despontavam no mundo digital, como os relógios de cristal líquido e o apoio da
informática no mundo empresarial, ainda na forma de um computador que
armazenava todos os processos mais complexos, enquanto o trivial continuava na
base das fichas. E isso, de certa forma, era traspassado para a vida
quotidiana. É certo que o ressurgimento de LP’s demonstra que certos
retrocessos acabam por se tornar desejáveis, mas no cômputo geral a escala
tecnológica é um caminho sem volta. A não ser que surjam ondas de revival
e ressuscitem objetos que achávamos mortos. É o caso desse belo método
trapezoidal cerâmico, que achei bem barato numa dessas casas orientais.
Ele não é uma mera reprodução dos Melittões que usávamos para agilizar os coadores de pano na minha época de criança, mas um utensílio que teve alguns melhoramentos. Em primeiro lugar, seu material (cerâmica esmaltada) facilita a limpeza e favorece um escoamento com menos aderência.
Além disso, sua base possui três furos de calibre mediano,
que visa corrigir o problema clássico dessa arquitetura: a retenção da
filtragem e consequente aumento da adstringência e do amargor. Sem contar que é
bastante elegante.
Nome do utensílio: porta-filtro cerâmico trapezoidal
Tipo de técnica: percolação com filtragem por elemento de papel
Dificuldade: baixa
Espessura do pó: média
Dinâmica: introduz-se um filtro de papel de tamanho apropriado no porta-filtro, com dobra cruzada nas costuras, para depois realizar-se um escaldamento no mesmo. Deposita-se café moído em ponto médio no filtro. Despeja-se água suficiente apenas para umedecer todo o pó (blooming). Após cerca de trinta segundos, realizam-se ataques de modo a não ultrapassar o limite do filtro ou do porta-filtro.
Resíduos: nenhum
Temperatura de saída: média
Nível de ritual: baixo-médio
Diante do bombardeio de métodos baseados na estrutura V60 (Origami, Mugen, Waals, Fluire, Cone Coffee), talvez essas novas concepções de filtro trapezoidal representem uma espécie de novo ciclo para o método. Um sistema que funcionou bem por tanto tempo pode encontrar nova subsistência. É assim que o mundo gira, e, sendo assim, ele próprio é cíclico.
Essa ideia de universo cíclico já é muito antiga nos
conceitos filosóficos, e deriva da compreensão empírica de eternos reinícios. “Depois
da tempestade, vem a bonança”, diz um antigo ditado anônimo, que nos passa essa
noção de que sempre é possível prever a repetibilidade dos fenômenos. Como é
preciso que se obtenham explicações sobre os mais diversos deles, também a
ressurgência da vida se enxergou em formato circular. Como não é detectável por
meios empíricos, tomou aspecto religioso, e veio a claro na forma da mitologia
grega.
O mito de Er é um dos mais conhecidos no âmbito da
Filosofia. Veio a público especialmente pela letra de Platão. Antes de cuidar
de seu significado, é preciso contá-lo, e vou tentar fazê-lo da maneira mais
sintética possível, mas, antes ainda, é preciso pincelar um pouco sobre o
significado dos mitos nas narrativas platônicas, visto que as mesmas são
abundantes e parecem um contrassenso quando se lembra da objetividade requerida
pela razão.
Platão utiliza o mito pelo mesmo motivo que eu uso exemplos
e mais exemplos de minhas próprias aventuras neste humilde espaço. Embora toda
a racionalidade seja a melhor ferramenta para se obter a aproximação com a
realidade em si mesma, sempre se pode notar que ela pode ser um esqueleto, ou
uma estrutura, mas carece a ela uma característica: o real palpável. Todas as
vezes em que eu reduzir um fenômeno a fórmulas matemáticas, vai faltar uma
“carne” para revestir esses ossos, e o mito, ainda que não seja uma realidade
efetivamente existente, tem o condão de se apropriar da liberdade criativa para
emoldurar a realidade exatamente como queremos. Sendo assim, o mito em Platão
não tem o aspecto dogmático de quem se guia por uma fé, mas de
complementaridade ao raciocínio construído pelo logos, na função de adjutor. É
bem isso que se pode perceber no mito de Er, onde trataremos de aspectos
escatológicos e éticos. Mas passemos à sua sinopse.
Conta-se que Er era um soldado da Panfília (atual Armênia)
que morreu em combate, junto a diversos companheiros de espada. Restou junto da
carnificina de batalha, com outros também mortos, mas foi o único cujo corpo,
passados dez dias, permanecia incorrupto. Embora isso causasse admiração, foi
encaminhado para as exéquias da mesma forma. Sendo feitos os preparatórios para
sua cremação, eis que o gajo volta à vida, para a surpresa geral. Estando
acordado, passou a relatar tudo o que vira no seu sono profundo.
Assim que sua alma abandonou seu corpo jazente, foi para um
prado tranquilo onde se podia ver quatro aberturas, sendo duas no céu e duas na
terra, que tinham o propósito de permitir o ir e vir das almas. Aqueles que
eram justos, pegavam o caminho que subia aos céus, enquanto aos iníquos cabia
descer às profundezas da terra. Era o Hades, uma espécie de inferno regido pelo
deus de mesmo nome, no qual a parte mais profunda era o Tártaro, como uma
masmorra onde ficavam os criminosos mais graves.
Esse trabalho de despacho era feito por juízes que se
encarregavam de avaliar feitos e culpas de cada um que se lhe compareciam à
frente. Disseram a Er para registrar todos os fatos, porque caberia a ele
retornar à vida para contar aos outros homens como funcionava o além-vida.
Os recém mortos, portanto, seguiam pelas aberturas que
conduziam ao céu ou às profundezas, enquanto os seus respectivos pares serviam
para os regressos das almas. Estes que voltavam o faziam para reencarnar. Os
que subiam do subterrâneo lamentavam as agruras que passaram, os que desciam dos
céus cantavam seus dias felizes. Faziam-no porque ou cumpriam penas de mil
anos, ou porque completavam mil anos de regozijo, tudo em função da vida
anterior que haviam levado na terra.
Estes que regressavam carregavam consigo os rastros de suas
experiências extraterrenas. Os que vinham do céu diziam das maravilhas que lá
viveram, enquanto os que subiam do Hades davam graças por ter encerrado o
sofrimento. De volta ao prado, as almas que retornarão à vida terrena vão dar
de frente com as três Moiras, filhas da Necessidade, de quem sinto-me na
obrigação de redigir um texto mais específico, o que farei em breve. Elas são
Láquesis (passado), Cloto (presente) e Átropos (futuro), sendo que é a primeira
que professa às almas o que haverá de acontecer: serão apresentados a elas
vários modelos de destinos – vidas humanas e animais, com livre escolha de cada
uma delas. Cada alma escolherá o caminho que percorrerá em sua nova existência.
São vidas que tanto podem ser venturosas quanto pacíficas, tirânicas ou
pastoris, guerreiras ou filosóficas.
Após a escolha, Láquesis nomeava um daimon para
acompanhar a alma encarnante por toda a sua vida, que era urdida por Cloto e
tornada irreversível por Átropos. Esse daimon, cuja palavra é a origem do termo
demônio, não tem nada a ver com a visão cristã de espírito de maldade ou
assecla de Lúcifer. O daimon é uma espécie de guia espiritual que seguirá o
renascido em suas trilhas para garantir a execução do destino escolhido. Para
nos trazer uma imagem, o daimon estaria atuando naqueles momentos em que temos
uma intuição sobre o que devemos fazer nessas encruzilhadas da vida, de modo a
nos manter no destino por nós mesmos escolhido perante as moiras.
Após esse processo, as almas são encaminhadas para o Vale do
Esquecimento, onde tomarão as águas do Rio Âmelas antes de reencarnar. Essa
sorvedura tem o propósito de fazer esquecer as vidas passadas, para que a nova
vida não seja contaminada pelas experiências passadas. Quem bebia demais,
esquecia inclusive os vínculos com o Hiperurânio, tornando-se um tolo. Aqueles
que bebiam apenas um pouco mantinham boa parte do conhecimento adquirido
através das existências sucessivas.
A princípio, o mito de Er parece mais uma entre outras
mitologias religiosas sobre o post-mortem, e realmente o é. A escatologia
platônica está fortemente calcada na visão
órfica, que pressupõe um dualismo corpo-alma e a eternidade dessa última,
além da possibilidade de reencarnação e do tráfego entre planos distintos. A
ideia de regresso à vida vem da ideia das religiões de mistério que intuíam
muitos dos fenômenos humanos a partir da observação de acontecimentos naturais.
Assim como uma planta morre em um ciclo, ela renasce por intermédio de suas
sementes, o que também ocorreria com os seres sencientes. Inclusive, uma das
hipóteses de reencarnação segundo Platão é parecida com a metafísica budista –
há a possibilidade de se reencarnar como um animal. A ingestão das águas do Rio
Âmelas representaria a ausência de lembranças das vidas passadas, embora
aqueles que eram prudentes bebessem menos, o que lhes fazia manter uma tênue
recordação, não dos fatos em si, mas das estruturas sapienciais que podiam ser
revestidas por novas ocorrências, e este era o que poderia ser considerado o
sábio na sua vida atual.
Mas o que está efetivamente sedimentado no mito de Er são os
eixos éticos da filosofia clássica. Aqui, encontramos uma discussão bastante
profunda com relação ao peso da justiça, que veio refletir inclusive no
posterior Cristianismo. Qual é a responsabilidade moral que um indivíduo tem de
praticar a justiça? A resposta do mito se dá na forma de prêmio ou punição que
não são movidos pelo acaso, uma vez que eles são obtidos a partir de escolhas.
Não se pode atribuir à sorte ou a uma divindade o destino que se obteve, vez
que ele, desde a origem, é formatado por cadeias de causas e consequências
disparadas por nossas opções de vida. Ou seja, muito antes dos
existencialistas, Platão já colocava o peso das escolhas sobre o próprio
indivíduo. Tudo o que é imputado para alguém de fora – acaso, divindade, outras
pessoas – tem unicamente o encargo psicológico de tirar de si as culpas.
Percebam que os paradigmas colocados por Láquesis ao retornante são
proposituras, e não imposições. Embora não exista a opção de não reencarnar, é
perfeitamente possível à alma optar por condutas morais mais perfeitas do que
sua mera vontade pode guiar, já que a liberdade de escolha nesse caso é plena.
O daimon escolhido para companhia estará em função desta mesma escolha,
portanto não deverá ser a ele também imputada nenhuma responsabilidade pela
escolha. Esse é o modo com o qual Platão desenha sua ética individual – o
indivíduo é completamente responsável pelas suas escolhas, tem livre-arbítrio
para tanto e disso deriva sua sorte e seu destino.
O mito de Er sintetiza também uma teoria das reminiscências
platônica que não apenas casa com princípios de reencarnação que foram adotados
muito mais tarde por espíritas, mas é também uma alegoria sobre o funcionamento
de sua epistemologia. Relembrando do princípio geral de que os raciocínios
nascem a partir de contatos intelectuais com o mundo das ideias, onde todas as
formas são perfeitas, podemos nos perguntar por que não os retemos se estivemos
em outras existências. O fato de se beber demais da água do esquecimento
alegoriza justamente a atitude que não é filosófica: quem se embriaga com a
água sintetiza unicamente a força do momento e da necessidade, sem refletir
sobre a prudência da moderação e do cuidado intelectual. Dessa forma, a atitude
racional de se manter o máximo de reminiscências melhora o aporte intelectivo
em detrimento da supressão de uma necessidade ocasional. E com isso vem a
máxima platônica de que aprender é relembrar. Por isso, Platão era um
racionalista puro: tudo o que uma pessoa aprende já reside nela mesma, bastando
que esse conhecimento seja ativado através da escalada do raciocínio, como
Sócrates fez com o experimento intelectualidade do escravo (também vem texto
sobre isso por aí).
Sendo assim, crianças, podemos perceber como as aparências
enganam. Um mito não é só uma história da carochinha, nem uma mentirinha para
ajudar a aquietar as crianças, mas, sendo bem utilizado, é uma ferramenta
didática das mais efetivas. E também pudemos ver aqui como algo tão quotidiano
quanto um porta-filtros revisitado pode conduzir a discussões que estão nas
raízes dos problemas filosóficos há milênios. Bons ventos a todos!
Recomendação de leitura:
O Mito de Er está na célebre República, então a
recomendaremos novamente, sem qualquer constrangimento. Aprendam, jovens, que,
se vocês quiserem tomar contato mais íntimo com a filosofia ocidental, esta
leitura é inescapável.












