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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Navegações de cabotagem – o Sítio do Pica-pau Amarelo de Taubaté e as oportunidades que não se podem deixar passar

(Ah, mas eu não perderia uma chance dessas...)

“O homem deve criar as oportunidades e não somente encontrá-las”.

Francis Bacon

Olá!

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Pelo tempo que frequento Taubaté, até que demorou. Esta terra se vangloria de ser a naturalidade de Monteiro Lobato, considerado até hoje o principal escritor infantil de Ilha da Vera Cruz, ainda que com uma boa dose de polêmica. O epíteto autoproclamado é “Capital Nacional da Literatura Infantil”, justamente pelo filho ilustre. Se o vínculo é efetivamente forte, eu não sei, já que o escritor em questão viveu em várias outras cidades, como a que lhe traz o nome ou Areias, onde foi procurador, e ambas também lhe rendem homenagens, mas o fato é que existe um parque na cidade que recebe o nome de sua magnum opus, Sítio do Pica-pau Amarelo.

O espaço está instalado no que era conhecido como “Chácara do Visconde”, pertencente a José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé, que veio a ser o avô de Monteiro Lobato. É uma construção típica dos grandes fazendeiros da época, feita em taipa de pilão e pau a pique, material mais comum das construções de então.

Esta casa concentra um acervo de objetos pertencentes a Monteiro Lobato e sua família, distribuídos pelos mais de dez cômodos existentes, incluindo uma certa ambientação de época e um posicionamento original dos móveis e utensílios, como a sala de jantar.

O “quintal” da casa é uma grande área de 20000 m2, que já foi muito maior no passado, e que era cercado de arvoredos. Hoje em dia, o que prepondera são as mangueiras, especialmente produtivas nesta época do ano.

O Sítio do Pica-pau Amarelo é uma série de histórias onde Monteiro Lobato retrata muito de sua infância e traz uma boa dose de sua visão de mundo. Evidentemente, os personagens do Sítio estão espalhados por toda parte, tanto dentro da casa…

… quanto fora dela, a maioria deles no que poderíamos chamar de “tamanho natural”.

A grande vedete, como se pode esperar, é a boneca Emília, alter ego do escritor e o pivô em torno do qual as histórias são contadas.

É através dessa personagem que Monteiro Lobato exterioriza uma boa parte de seus pensamentos e acaba por se inserir em pessoa nas próprias histórias, muitas vezes de forma um tanto polêmica.

Enfim, é um espaço cuja finalidade é contar um pouco sobre a vida do autor e dar informações sobre sua mais conhecida obra.

O espaço tem sua função e é uma daquelas ilhas de paz em uma cidade razoavelmente agitada, já salvaguardada minha origem paulistana. As informações são relevantes e, de fato, trazem um clima de Sítio do Pica-pau Amarelo para quem se acostumou a ler as histórias em tempos escolares. Mas eu sinto uma falta, e preciso falar sobre ela, sem querer que se traga sobre mim nenhuma espécie de ranço ou rancor.

Taubaté, a meu ver, lida muito mal com suas oportunidades turísticas. Não basta colocar um letreiro na entrada principal da cidade e uma estátua de três metros do escritor se não se vê mais nada a respeito da temática cinquenta metros depois. Quando eu viajava para estes lados e via esses artefatos, imaginava que a cidade toda era povoada de referências ao autor e à obra, que ganhou muito impulso a partir da década de 70, quando sua obra infantil virou um imenso sucesso televisivo. Mas não se vê quase nada, a não ser uma figura aqui, um nome de loja ali, uma homenagem acolá.

Outras cidades capitalizaram fatos e fizeram limonadas a partir de limões históricos, ou seja, transformaram situações que se mostravam jocosas ou humilhantes em oportunidades de mudar o transcurso da história. Penso em Itu, de quem já falei aqui, mas que reitero em apertada síntese: ainda na era do rádio, o humorista Francisco Flaviano de Almeida lançou o personagem Simplício, um homem do interior cujo principal mote era exagerar nos tamanhos das coisas de sua terra natal, a precitada Itu. A ironia estava no fato da cidade ser (então) pequena até no nome, e o sucesso da piada ressoou na fama do lugar. Ao invés de sentir humilhação, toda sorte de gigantismo foi sendo instalado: o semáforo, o orelhão, uma praça completa. O comércio veio junto e os souvenires são encontrados em toda parte: chinelos, chaveiros, sorvetes, fósforos e tudo o mais que se pensar. Quem vai a Itu hoje já vai em busca de um atrativo que a cidade não tinha, chegando até mesmo a esquecer sua importância republicana.

Outro caso diz respeito a Varginha, nas Minas Gerais. Uma história confusa, envolvendo três meninas que supostamente teriam avistado um ET, conciliada com uma mistura explosiva de fatos mal explicados e teorias da conspiração fizeram dessa cidade ao sul de Minas Gerais uma capital nacional da ufologia. A chance de cair na ridicularização era grande: parece que o tal do ET era um mendigo se aliviando. Hoje em dia, passados exatos 30 anos, a cidade absorveu toda a curiosidade que se voltou a ela e possui toda sorte de equipamentos que fazem referência a marcianos, naves espaciais e qualquer temática relacionada a OVNIs, incluindo até mesmo repartições públicas.

Taubaté não tem nada disso com relação ao Sítio. Resignada, a cidade tem se sujeitado a ser conhecida como a capital da mentira: tudo o que é de falsificado é “de Taubaté”, a Xuxa, o Batman, o parkour, tudo capitaneado pela célebre grávida e inaugurado pela Velhinha de Taubaté, a última cidadã brasileira a acreditar no governo da ditadura, criação do cronista Luís Fernando Veríssimo, antevendo uma credulidade ingênua dos habitantes desta terra. A cidade, segundo o autor, foi escolhida aleatoriamente por ser lugar pacato, mas é mais do que certo de que há uma sombra de Jeca Tatu nessa opção, mesmo que inconscientemente.

São Luís do Paraitinga e seu carnaval de chifre e rabo, São Thomé das Letras e suas bruxas… São muitos os exemplos de cidades que apareceram no mapa por conta de um pequeno episódio, de uma história perdida, de um evento qualquer que chamou a atenção do país, mas que foi aproveitado pelos governos e moradores para justificar sua existência e, melhor ainda, trazer dividendos.

Quer saber? Se eu fosse do corpo gestor (o atual prefeito se autodenomina gestor) de Taubaté, não somente daria uma estilingada na ênfase ao Sítio, mas também exploraria ao máximo essa história da grávida. Parece politicamente incorreto, mas ninguém precisaria passar por humilhação. Uma grande feira de roupas para gestantes poderia ser o pontapé inicial para uma divertida nova vocação para a cidade. A princípio, roupas vindas de polos produtores, para depois o próprio mercado se encarregar de trazer produção para cá. Isso seria uma espécie de impulso inicial, para que o próprio mercado se desenvolvesse na esteira. Afinal, a cidade tem tradição têxtil, tendo em vista o tradicional apito da Companhia Têxtil Industrial - CTI, que até hoje é disparado como se ainda chamasse seus funcionários.

E a grávida? Ela é viva e, pelo visto, não se sente disposta a fazer ressurgir essa história toda. Afinal de contas, Taubaté voltou para o mapa pela sua história surreal*, e se deu pela chave da ridicularização, o que é indigesto para quem vive aqui, e isso eu sinto ao abordar o tema com os mais antigos. No final das contas, se tudo for lidado com habilidade, ela pode ser a mais beneficiada de todos. Um acordo de uso de imagem traria tranquilidade financeira e reverteria a imagem negativa que ela possui até hoje, especialmente porque traria bom humor para um tema que é tratado com vergonha, por ela e pela população. Uma espécie de padroeira que estaria presente na feira e teria oportunidade única de se redimir com seus concidadãos, além de tirar todo o peso de seus atos. Limão, limonada, sacaram? Eu só não sou rico por preguiça.

Falando de maneira mais séria, é o custo de oportunidade sendo colocado como exemplo com toda a força. Esse é um dos poucos termos que eu lembro dos tempos em que estava na faculdade de contábeis, matéria que eu detestava a despeito do excelente professor Maurício, por conta de contas e mais contas. Ele diz respeito a tudo aquilo que deixamos de ganhar ao fazer opção por uma determinada atividade econômica. Os exemplos são fáceis, e vou tirá-los de mim mesmo. Ao renunciar continuar tocando em bandas, eu tive a oportunidade de melhorar meus estudos e aperfeiçoar meus conhecimentos, o que me deu melhores condições para encarar a própria vida, que segue claudicante, mas segue. Mas, embora fosse possível prever que a carreira musical não daria em nada, não é algo que podemos nos assegurar. Poderia dar um daqueles encaixes que acontecem de vez em quando no universo e hoje eu estivesse em um daqueles iates aportados em Mônaco, deitado nas glórias de uma carreira de sucesso.

Mas o custo de oportunidade não se dá em suposições vazias, como essa. Para ter uma efetiva dimensão do que se deixa de ganhar, é preciso compreender onde se pode chegar, e, para isso, é preciso ter uma melhor ideia dos recursos disponíveis e de sua aplicação. Uma garagem, por exemplo, comporta uma oficina ou um salão de beleza, nunca os dois. Compreender qual o melhor uso significa dimensionar os ganhos de um ou de outro, e isso é muito mais complexo do que pode parecer. Uma oficina pode parecer trazer maiores ganhos, mas isso se houver público suficiente para seu uso em tempo integral. Por outro lado, o valor agregado do salão pode ser melhor, e, mesmo tratando de cifras mais miúdas, produzam um resultado mais exuberante. O que importa é: quanto se deixará de ganhar com a oficina se instalarmos o salão? Esse é o custo de oportunidade, um valor implícito e de difícil aferição, mas que existe.

Ocorre que esse custo não é somente econômico, mas social, ambiental e qualquer outro aspecto em que uma opção implica em uma renúncia. Tudo o que poderia se deixar de ganhar com obtenção de empregos, por exemplo, faz parte do custo de oportunidade de deixar passar batido símbolos fortes que uma cidade carrega. E eu percebo o tamanho do que se deixa de lado, especialmente pelo fato de ter vindo recentemente de fora, e trago essas percepções justamente por afinidade a esta terra. Vim morar aqui por ter gostado do lugar, e quero vê-lo cada vez melhor. A oportunidade é uma limonada, o custo é o limão. 

Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Não sou muito versado nas artes da economia, então fui na biblioteca pegar umas referências melhores e encontrei esse livro, que me deu uma boa clareada nas ideias.

MANKIW, Gregory. Introdução à economia. Princípios de micro e macroeconomia. São Paulo: Atlas, 2001.

E tem também o parque, bem próximo da região central de Taubaté. É sempre melhor visitá-lo nas férias e nos finais de semana, em que as feirinhas e as apresentações teatrais acontecem.

Sítio do Pica-pau Amarelo - Museu Monteiro Lobato 

Avenida Monteiro Lobato, sem número 

Chácara do Visconde

Taubaté/SP 

A aproximadamente 130 km do centro de São Paulo.

*Para quem não sabe da história: em 2012, surgiu a história de uma grávida de quadrigêmeas em Taubaté. O insólito da situação não estava na gravidez em si, rara, mas não raríssima, mas do formato de bola de praia que a barriga da suposta gestante, evidentemente falsa, mas que rendeu horas e mais horas de reportagens na televisão de baixa seriedade. Eu, sinceramente, tenho uma opinião que beira a teoria da conspiração: a própria emissora que mais divulgou o caso foi a principal “armadora” da história toda, ao perceber os índices de audiência que poderia obter a partir do absurdo da situação.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Os verdes mares de onde não há mar – 14ª Parada: Paraisópolis, a terra do vento e a filosofia por trás dele

(A multiplicidade de significados do vento o torna uma das alegorias mais poderosas para um monte de coisas)

“E estas coisas acontecerão diante de ti todo dia e toda noite, no inverno e no verão, até que o homem seja capaz de tirar de si mesmo o sopro e de recolocá-lo, e ele será capaz disto até que seja privado de alguns destes fenômenos congênitos”.

Hipócrates

Olá!

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(Avertissement: O local para onde fui fica exatamente entre duas das séries de viagens que já fiz, esta e esta. Decidi pela segunda porque eu quis parece fazer um pouco mais do contexto das serras do sul de Minas do que da Mantiqueira paulista).

Um ruído estranho pode começar repentinamente e estrondoso, mas não é o caso do que acontece com a suspensão do meu carro neste momento. Misterioso, um ranger indefinível e sem lógica povoa meus tímpanos desde que começaram as correrias de fim de ano, e não consigo encostar a viatura no mecânico para obter um veredicto. A princípio, parece algo como uma borracha desgastada, mas eu e os “mecânicos” da casa não conseguimos achar nada*. Recomendação do Zé (esse sim, mecânico de profissão) é trocar a bomba de combustível. Pode ser ela, e mesmo que não, já está na hora de trocar. Isso me aflige, e eu tenderia a deixar o possante na garagem, mas eu tenho uma tradição e não a abandono sem estar de cama, que é fazer um passeio qualquer com a patroa por ocasião do aniversário de casamento. Como sempre, é curtinho, porque é momento de dureza excepcional, dados os gastos igualmente excepcionais das festas de fim de ano, bem como é momento tenso no trabalho, com trocas de gestões e relatórios de entregas. Então o negócio é pegar um dos finais de semana que guarnecem o casamento civil ou religioso, qualquer um serve.

Como é viagem de tiro curto, não arrisco partir de mochila nas costas, como gosto de fazer, mesmo que de maneira metafórica. Então vou em alguma pousadinha de preço convidativo e um mínimo de condições, normalmente razoavelmente próxima de casa, e sem grandes ousadias por trilhas e estradas de terra. Como o calor está senegalês nestes últimos dias, e também como a Mantiqueira está às vistas da minha janela, o negócio é subir as montanhas. Fui para Paraisópolis.

Da mesma forma que em Queluz, Redenção da Serra e da próxima Brazópolis, Paraisópolis é terra incrustada nos morros, mais do que outras cidades da região, razão pela qual é repleta de ladeiras calçadas com macadames.

Essas terras do Sul de Minas não são exatamente novas, e muitas tiveram suas histórias escritas pelos tropeiros, que caminhavam por estes lados trazendo víveres e correndo atrás de minérios para levar para a corte. Isso faz com que existam muitas construções históricas, a grande ênfase desta minha viagem com impedimentos para a combalida suspensão do monstrão. Um dos grandes clássicos é o Mercado Municipal, que, com recente reforma, está tinindo de novo.

Aqui há os produtos típicos da terra, que, em Minas, significam cachaça e queijo, além de muitas coisas mais, como o artesanato feito com escavação de madeiras.

Outro prédio histórico é o grupo escolar Bueno de Paiva, daquele estilo bem típico dos primeiros anos do século XX. O homenageado veio a ser vice-presidente do Brasil no período conhecido como café-com-leite (para saber mais, leia este texto).

Há também uma antiga estação de trem, muito comum por essas cidades e vilas serpenteadas pela rede mineira de viação, de quem tanto falei por aqui, e que hoje serve como um centro educacional. Os trilhos não existem mais e só um investimento meio pesado conseguiria trazer algum passeio turístico. Mas a estação está bem preservada e é utilizada para fins escolares.

Outra construção histórica é o casarão das Irmãs Carvalho, antiga sede de uma fazenda dos tempos em que o município ainda era a Vila de São José de Paraíso. Fica na parte mais baixa da cidade, próxima à entrada que vem da rodovia.

Hoje uma casa de cultura, abriga dois importantes acervos de filhos ilustres. O primeiro é do cantor Carlos Gonzaga, muito famoso na época da jovem guarda pela música Diana, que ouvi até a exaustão na época da novela Estúpido Cupido, uma espécie de revival dos então recentes tempos da Jovem Guarda.

O outro é do escultor Amílcar de Castro. Pertencente à escola do Neoconcretismo, cujo principal nome é o holandês Piet Mondrian, produziu obras em metal que estão espalhadas pelo Brasil afora. Como dizem os mandamentos da escola, o poder de síntese de um artista é o que de melhor ele pode externar para seu público.

A cidade possui um pequeno parque na área urbana que também é usado como praça esportiva e repouso nesses dias calcinantes.

Ele tem um curioso apelido que acabou se consagrando, e que faz entrever o fenômeno que ocorre nos finais de tarde. Provavelmente por sua posição geográfica, fica em uma região de acúmulo de águas pluviais, o que é atraente para os insetos.

Espalhados pelas diversas praças da cidade, os símbolos da fé local saltam os olhos. Estamos ainda na época natalina, e na praça temos o coreto montado com o trono do papai Noel e seus paramentos diversos.

O presépio na véspera do Dia dos Reis também está lá. Como todo católico deveria saber, este é o dia em que se diz haver chegado à manjedoura que serviu de berço para Jesus os três reis magos que lhes trouxeram dons. O episódio é todo cercado de simbologia, e não cabe aqui esmiuçá-lo. Procurem conhecer a história, é bem interessante para a constituição de uma religião.

A igreja matriz é dedicada a São José, padroeiro da localidade desde os tempos em que era ainda uma vila pertencente a Pouso Alegre.

Já esta antiga capela é dedicada a Nossa Senhora da Soledade, e fica na praça do Larguinho.

Nesta mesma praça há, pelo que consegui entender, um monumento que representa o Marco Zero da cidade, com os dizeres típicos do estado de Minas Gerais. Percebam a placa de revitalização pregada na própria peça, como se fosse um poste de luz qualquer. Ou o monumento não tem valor, ou não se dá importância ao fato histórico que se quer representar. Sem mais.

Algo digno de nota é a quantidade de pousadas em Paraisópolis destinadas a peregrinos do Caminho da Fé, uma rota que ruma para Aparecida e que atravessa a Mantiqueira, partindo de Águas da Prata.

A pousada em que estive hospedado é um dos pontos onde se obtém o carimbo comprobatório do ponto de passagem, uma chancela oficial ao peregrino que cumpre a rota, no mais das vezes por uma promessa.

Acho que o cálculo da caminhada prevê que um dos pousos será nesta cidade, o que virou um belo negócio. Para qualquer lugar que se olhe, é possível encontrar referências à Santa e à romaria.

Mas há uma referência ainda mais importante. A cidade tem o epíteto de “Terra do Vento”, e isso é perceptível em cinco minutos, especialmente no alto dos morros. Devido à sua posição geográfica, fica em uma espécie de canalização dos ventos da região, e o fluxo de ar é bem mais intenso do que costumamos ter em outras cidades. É difícil tirar fotos do vento, então precisamos de observações indiretas, como as roupas enroladas nos varais.

O vento tem uma representação metafórica das mais poderosas. Como eu disse acima, nós não o vemos, mas ele está presente e podemos senti-lo, muitas vezes de maneira dramática, como andou ocorrendo no final do ano passado em algumas cidades do oeste paranaense. São tempos de mudança climática, ainda que haja muita resistência em reconhecê-lo, e se torna imprevisível saber o que vai acontecer. Pode ser que Paraisópolis simplesmente “seque” de ventos e vire uma nova Cuiabá, ou pode se tornar a terra dos furacões, um novo Caribe, algo igualmente ruim. Mas vamos tentar tornar leve o tema, assim como foi leve a viagem.

Essa primazia do sentido visão é inerente à espécie, mas é esse o pior dos sentidos para perceber a sua presença, que só se faz pelo meio indireto. Os ouvidos captam seus zunidos e o olfato lhe pega bem cheiros e perfumes, mas é no tato que melhor percebemos sua presença, onde se dá sua forma de ação. É como em uma das poucas músicas que eu gosto do Biquini Cavadão, Vento Ventania: abrandar o calor do sol, emaranhar o cabelo das meninas, enroscar as pipas nos fios. O vento atua sem que saibamos, ou demonstrando toda sua força – derruba folhas e derruba árvores.

Às vezes eu olho pela janela de casa logo ao alvorecer, como tanta gente faz. Não é um momento de grandes descobertas: vemos o que é normal, com poucas mudanças em relação ao dia anterior. Mas elas existem. Hoje, por exemplo, está mais cheio de folhas que o normal, vindas especialmente das árvores das calçadas. Ainda que isso não represente nenhum fato que mude a história, demonstra como ela anda, como o tempo não pára. É o vento que levou embora as folhas mais velhas, trouxe as mais novas, misturou todas, levou algumas, deixou outras. No final das contas, como os eventos são caóticos, sempre me resta o quintal por varrer. Há uma ordem mesmo na mais profunda bagunça.

Quando Heráclito quis descrever o seu modelo de arché, quando quis especificar seu elemento fundamental, observou as mudanças constantes ocorridas no universo ao seu redor e deduziu ser o fogo que lhe consiste, exatamente por seu caráter transformador. Se sua intenção fosse meramente fazer uma alegoria, poderia confortavelmente referir-se ao vento, que transforma sem modificar. Nesse sentido, poderia ser até uma alegoria mais forte, porque demonstra como podemos ser outros mesmo que não nos caia um único fio de cabelo.

Mas a metáfora do vento carrega em si não só a transformação, mas a amostra de que essa transformação nem sempre é voluntária. Peguem-se as chuvas de verão: não são as águas que derrubam árvores, por maior que seja sua quantidade, mas o vento. Para além da incompetência das prefeituras, isso é a lembrança de que as forças da natureza são incontroláveis, e, com isso, o destino vai junto. Somos reféns do destino assim como a embarcação é refém dos ventos, e só nos resta um pálido desejo de que tudo vá bem: bom dia, boa tarde, boa noite. O desejo não depende do destino, mas de nossa própria força interior. Quando eu desejo bons ventos nos finais dos meus textos, é a isso que eu me refiro.

Mas só? Não. Por muito tempo, a força impulsionadora dos barcos no oceano eram basicamente duas - os remos e o vento. Os primeiros eram eficientes para aqueles pequenos percursos, embora houvesse imensas embarcações que lançavam mão de contingentes de escravos, e que serviam justamente para a falta do vento, este sim, o principal mecanismo dos primeiros tempos das artes náuticas. Uma força disponível que se colocava a serviço do engenho humano usado na sua melhor forma: a descoberta de que a mobilidade das velas poderia absorver essa energia para praticamente qualquer direção, com um esforço infinitamente menor.

Então pensamos que a direção do vento é o que importa. Sim, importa e muito, mas a ausência dele é a pior das desgraças. Percebem a força da alegoria? A vida estática é menos desejável que a vida atribulada, porque podemos sucumbir à borrasca, mas estacionar no meio do oceano é pior ainda, observando nosso próprio ressecamento em nós mesmos, primeiro no tédio, depois na absoluta fraqueza. Sempre tememos a idade, porque ela nos tira o ânimo, a vitalidade, o vento. Portanto, precisamos que os ventos nos empurrem não só por uma questão de sobrevivência, mas para dar sentido à vida. Não à toa, os divinistas falam em um sopro, a pneuma grega que representa esse impulso que cessa junto com a vida.

Se aprofundarmos nossa ideia, veremos que o vento, como sopro de vida, assemelha-se aos princípios filosóficos dos impulsos, como a dynamis aristotélica, a vontade schopenhaueriana, o conatus spinoziano, a vontade de potência nietzschiana, as pulsões freudianas, o élan vital bergsoniano, e provavelmente daquele que mais o vinculou organicamente à própria vida, o patrono dos médicos, Hipócrates, aquele do juramento. Para ele, a vida não se explicava somente por fenômenos mecânicos, mas por um sopro vital que impulsiona um todo dinâmico em cada um dos corpos, como parte representativa da própria natureza. Não se trata de uma interferência divina, mas de um todo regido por um princípio vital. Ele acreditava no fundamento do vis medicatrix naturae, ou seja, a natureza é o remédio de si mesma e tem o poder de se fazer retornar ao equilíbrio perdido, justamente pela ação desse princípio vital. O papel do médico na cura, nesse sentido, não estava em tentar magias, mas em ajudar o próprio corpo nessa tendência, desfazendo barreiras que o impeçam de resgatar sua própria natureza, resultando no restabelecimento da saúde. O elemento de impulso é uma força pertencente ao campo do instinto e da irracionalidade, que o próprio Hipócrates dá exatamente o nome de sopro.

Vejam como, portanto, quando queremos fazer aquele maravilhoso uso humano da linguagem, que permite condensar em uma única palavra tudo o que representa ação invisível, incerteza no destino, força interior, transformações bruscas ou contínuas, temos o vento ao nosso favor. Uma das metáforas mais belas que nosso intelecto já pode criar, por ser múltipla, poderosa, rica, poética. Paraisópolis tem esse nome também por conta dessa mercê. Bons ventos a todos. 

Recomendação de leitura:

Hipócrates vai muito além do juramento, mas é preciso cuidado na análise de suas premissas, que podem parecer tão extemporâneos a ponto de obnubilar seu modo de pensar. Recomendo esta edição abaixo, bilíngue, que pode até mesmo ajudar quem queira se versar em grego.

CAIRUS, Henrique F.; RIBEIRO JR., Wilson A. Textos Hipocráticos: o Doente, o Médico e a Doença. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005.

 

*Só para não deixar a história sem um desfecho, era apenas um coxim do amortecedor direito, para salvação do meu orçamento.



terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O café filosófico do quotidiano – o clinamen nos inspira a pensar sobre arbítrio e criatividade

(Um pequeno desvio pode explicar uma gigantesca mudança?)

“Não há nenhum lugar onde os corpos, quando estão reunidos, possam, perdida a força do peso, ficar imóveis no vazio, nem, por outro lado, aquilo que é vazio deve suster alguma coisa, mas, pelo contrário, como exige a sua natureza, apressar-se a dar-lhe passagem”

Lucrécio

Olá!

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Depois de tanto tempo indo e vindo, é natural que a gente fique meio cansado. Ainda que seja perto, um lugar aonde vamos muito acaba se tornando cansativo. Não o local em si, mas sua rota. Eu tenho um piloto automático tão acionado no caminho Ayrton Senna - Carvalho Pinto (antiga Trabalhadores) que nem reparo mais nos morros, nas plantações, nas casinhas, nas vacas, nos postes de luz, somente na faixa de asfalto que parece mais e mais infinita, a ponto de causar um certo “barato”, onde a alma parece abandonar o corpo e flanar por aí, enquanto a pobre massa física vai girando o volante para lá e para cá ao sabor da habitualidade, o que é perigoso.  Redundar em distração a 120 km/h não é exatamente o que mais querem os legisladores de trânsito, nem os mantenedores da saúde pública. Afinal de contas, o corpo que está presente ao volante precisa da alma* para lhe dar vigilância e atenção. Por isso, e como já falei por aqui, resolvi alugar uma casinha em Taubaté, ainda que não seja para ficar lá cem por cento do tempo. Afinal de contas, a modernidade permite trabalho remoto, mas o chefe não, e isso me obriga a manter a base SP, para ficar em formato híbrido.

Alugar uma casa significa estruturá-la, o que não é muito módico. Sorte que o espólio da Dona Madalena me disponibilizou um monte de móveis e utensílios, e isso possibilitou economizar uma grana e viabilizar a empreitada. Geladeira, fogão, armários, cômodas… tudo isso e outras coisas mais permitiram a este escriba alugar a casa e não dormir no chão, nem comer comida fria. Não fosse isso, na verdade, e eu não conseguiria aluguel algum. É casa pequena, parece um trenzinho, mas, para mim, está de ótimo tamanho.

Mas é óbvio que a macróbia defunta não tinha um kit mudança pronto, e, para complementar, precisei comprar um monte de miudezas. Uma das mais óbvias era um método para o santo cafezinho de toda manhã, do qual não abro mão. Para isso, juntei o leve ar interiorano do campo com a praticidade da cidade e comprei um método misto, manufaturado pela Fabrikafé, uma empresa pernambucana que atua com baristas para produzir objetos ecologicamente sensatos: coadores de pano que se assentam em porta-filtros de mercado.

São produzidos com tecido do tipo saco de farinha, em algodão grosso. Eles vêm em vários modelos, e eu comprei um cônico e um trapezoidal, para encaixar nos porta-filtros V60 e Melitta, respectivamente.

Aqui a ideia é dupla: a primeira é de dar um certo ar de nostalgia, para que os coadores de pano modernizados possam relembrar as velhas “calcinhas” que nossas avós usavam para escoar café nas manhãs agitadas e nos domingões modorrentos. A outra é mais ecológica. Ao utilizar um coador reaproveitável, economiza-se muito papel que seria descartado imediatamente após o uso nos métodos mais costumeiros.

Depois de alguns dias de uso, e usando as recomendações de limpeza, consegui concluir que, de fato, funciona muito parecido com as velhas mariquinhas, dando aquele saborzinho de nostalgia. O segredo é o enxágue pós uso e o escaldamento no momento da extração.

Muitas vezes o que temos de mais esperto a fazer é exatamente a juntada de características fortes, para sair lá na frente com um objeto melhor. Isso não se restringe a coisas, mas também a ideias, incluindo o combate entre elas. E isso também pode ter uma coloração de nostalgia, onde ideias há muito esquecidas retornam com força, demonstrando como a racionalidade é poderosa.

Claro que não me refiro a pensamentos estapafúrdios, como terraplanismos e geocentrismos, mas a questões que pareciam aposentadas, que são reavivadas pelas descobertas científicas mais recentes, e voltam à discussão na academia, para depois cair nas discussões de boteco. Algumas dessas conversas são milenares, e pareciam que fariam unicamente parte dos compêndios históricos. Um bom exemplo é a questão da não-linearidade dos eventos, coisa que já se discutiu há um bocado de tempo, mas que hoje é rediscutida em eventos que parecem trazer metafísica para o mundo palpável, como o efeito borboleta e outros. É assim que funciona a ciência. E a filosofia também.

Bom, vamos lá. A ideia de atomismo nasceu a partir do pensamento de Lêucipo e seu aluno mais famoso Demócrito, que descreveram a hipótese da formação do universo a partir das interações entre as partículas fundamentais da matéria, os átomos, e o vazio, espaço onde absolutamente nada existia. Anteriormente, na pesquisa racional para a descoberta de um princípio geral da formação do universo e do que se mantinha no seu substrato, sempre tínhamos alguma espécie de vetor físico definido, como água, ar, terra, fogo e da combinação de todos eles, ou de elementos menos figurativos e mais abstratos e moldáveis, como o ápeiron e as homeomerias, ou até mesmo matemáticos, a tal da arché. No entanto, em consórcio com todos eles, havia alguma espécie de moção metafísica, como a ação divina ou impulso volitivo, porque se entendia que era necessária alguma forma de impulso para a coisa funcionar. Faltava a aposta em um fundamento puramente material, e é nisso que reside o atomismo, já que não há nada que gire o universo a não ser ele mesmo.

O que seria então esse tal de átomo? Seriam partículas mínimas puramente materiais e a combinação entre elas, de modo que cada uma delas fosse indivisível. É uma ideia parcialmente intuitiva, já que podemos partir um bolo em pedaços cada vez menores, inclusive no âmbito micrométrico, até o ponto em que essa divisão se torne impossível, e essa seria um “átomo” de bolo. Sempre lembrando que Demócrito anteviu que a tipagem de átomos era bastante limitada, e a imensidão de substâncias se dava pela combinação entre eles, o que poderíamos atualizar para as moléculas.

Mas como se dava o processo de construção dos corpos? Os atomistas entendiam que, observada a existência da gravidade, os átomos caíam no vazio em queda livre, até que um acabasse colidindo com o outro, porque os mais pesados terminariam encontrando os mais leves pelo caminho, o que poderia causar uma agregação (do tipo enganche) e isso ocasionaria sucessivas formações maiores, desde poeirinhas até planetas.

A estruturação dessa ideia parecia poderosa, mas Aristóteles resolveu jogar água nesse chope. Em primeiro lugar, ele não concordava que havia alguma coisa trafegando no vazio, porque não existia vazio. Aquilo que assim parecia, na verdade, era algum dos quatro elementos em estado desvanecido, mas não em algo rigorosamente sem nada, como o vácuo absoluto. E segundo, ainda que assim fosse, pelo funcionamento da própria racionalidade, Aristóteles concluiu acertadamente que, não havendo nenhum material a interpor resistência, não havia por que uma partícula mais pesada cair mais rapidamente do que uma mais leve. Estando em caminhos rigorosamente verticais e paralelos, jamais uma partícula atingiria outra, e o fenômeno da agregação atômica nunca se daria, e essa explicação sobre o funcionamento do universo era furada. Outra coisa: uma perspectiva puramente material desafiava a tese teleológica aristotélica. Dentre as famosas quatro causas, uma era a causa final, um motivo para que todas as coisas existam. No universo puramente material de Demócrito, não haveria propósitos, nem causas, nem finalidades, e isso contradizia o pensamento aristotélico que, como demonstrei, não gostou nada dessa explicação. 

É neste contexto que aparece o romano Lucrécio. Fundado no Epicurismo, e observados os inúmeros fenômenos do acaso que ocorrem incessantemente no mundo e no universo, teorizou que, sem nenhum tipo de determinação, ocorriam minúsculos desvios na trajetória de certos átomos, o que levaria à colisão pensada por Demócrito. Seria essa, e não o peso dos átomos, a responsável pelas colisões que realizaram as agregações necessárias à construção dos corpos. É daí que surge o termo clinamen, ou inclinação, em latim.

Aparentemente, temos aqui um argumento ad hoc dos mais clássicos: se não tem explicação, eu arrumo uma. Mas também Lucrécio não tira sua hipótese do nada. O princípio geral da ideia é que, caso a teoria dos atomistas estivesse completamente correta, teríamos um mundo determinístico, completamente previsível e imutável. Mas não é o que temos na prática. Nem somente as coisas mudam ao menor sabor de variáveis, bem como também as próprias linhas de pensamento não seguem um caminho reto. Como os materialistas dos átomos achavam que tudo era composto por estes, também os pensamentos e abstrações seriam, e isso vai incluir livre arbítrio e criatividade. Vamos cuidar dessa questão.

Quando falamos em arbítrio, automaticamente pensamos em julgamentos e escolhas. Isso pode incluir opções simples, como resolver a janta, ou decisões delicadas, como planejar a economia de um país, o que, naturalmente, implica em uma série de consequências, algumas mensuráveis, outras nem tanto, outras ainda absolutamente imprevisíveis. O que temos de certo é que o arbítrio é uma decisão diante de uma questão. Ele tem uma anterioridade: nosso conhecimento, nossas condições psicológicas, nossas necessidades materiais. Uma vez colocados diante de uma questão, todas essas condições são fatores que vão influenciar nas escolhas. A discussão é se todos esses fatores são capazes de fixar uma escolha - se aquilo que eu optar poderia ser de outra forma ou se eu de fato opto livremente. Se entendermos que há determinação na escolha, ou seja, ela está escrita nas estrelas, então não há que se falar em liberdade. Mas, se ela houver, o que faz o desvio das condições que, em tese, faria algo ser decidido como foi? O que é essa vontade própria que contraria o curso natural dos acontecimentos?

Outra questão: um mundo determinístico pressupõe uma ordenação muito menos mutável que a que enxergamos ao nosso redor. A teoria da evolução, por exemplo, preconiza que as espécies surgem através de descendência com modificação. Isso não quer dizer que um pelo dia nascerá um humano com asas, mas com sutilíssimas, porém vantajosas mudanças com relação aos seus ascendentes. Um membro minimamente mais flexível, um osso um pouquinho mais resistente, um olho que enxergue em níveis de luminosidade um trisco mais baixos podem trazer vantagens que, oferecidos no atacado, parecem de pouca monta, mas no varejo fazem toda a diferença. A própria palavra mutação carrega consigo uma aura de desvantagem, resultando em perdas, não em ganhos. Quando eles ocorrem, são esse pequeno desvio, essa minúscula inclinação que tornam a sobrevivência ligeiramente mais apta.

Mais uma coisa ainda. Como se explica a criatividade? Artistas traçam um mundo que não veem, que vai além do alcance do mero ato empírico. Sim, é perfeitamente possível reproduzir situações em uma tela ou uma pedra, mas, mesmo estas, são frutos de abstrações, e da sensação inicial surge algo novo, modificado com relação à natureza, criado. Se não houver alguma forma de desvio, não há como surgir o novo, porque só teremos a eterna reprodução daquilo que já tínhamos antes, e de novo, de novo, de novo. 

O clinamen de Lucrécio, portanto, surge como contraponto à tendência cada vez maior de se estabelecer um determinismo tão marcante que parece impossibilitar o livre arbítrio. Se um pequeníssimo desvio é capaz de gerar novos mundos, novas espécies, fazer furacões através de movimentos de asa de uma borboleta, então não parece ser plausível que não seja possível optar sem chance de que a escolha fosse outra.

Em resumo, a grande questão se transforma no seguinte: se o universo é determinístico, por que raios ele varia de modo imprevisível? Talvez nosso grande problema seja a dificuldade de enxergar processos, e, quando os enxergamos, pensemos neles como estruturas lineares, que seguem roteiros invariáveis e caminhem em uma só direção, ainda que tremendamente complexos. Pode até ser que os deterministas estejam certos, e por detrás do liame irresolvível dos fatos tenhamos eventos que são como são e não poderiam ser de outra forma, mas não é assim que a realidade se apresenta a nós, e essa linearidade se mostra inconsistente. Saltos quânticos, mutações e outros desvios são percebidos como acaso de difícil encadeamento lógico, ainda que haja uma ordem em seu substrato.

Duas observações finais, para além do próprio assunto em si. Notamos como a mente é uma ferramenta poderosa, que, mesmo sem possuir instrumentos técnicos, consegue dispor os fatos de maneira lógica a ponto de se aproximar muito da realidade em si mesma de maneira muito sofisticada. Demócrito, Leucipo, Aristóteles e Lucrécio, para ficar apenas nos citados neste texto, falaram sobre coisas difíceis com grande percentual de acerto. Não são risíveis suas deduções. Levaram a lógica ao esplendor por se tratar da única ferramenta disponível para compreender o mundo naquela época, e é invejável o modo como conseguiram ao menos tangenciar coisas que hoje a ciência explica com sofisticadíssimos equipamentos.

Mais ainda: isso tudo demonstra como o pensamento científico deixou de andar desde os sofistas até mais ou menos o tempo dos Bacons, Roger e, especialmente, Francis, quando novamente se passou a olhar para o universo em si com um espírito de descoberta. Sabe-se lá como estaríamos hoje sem esta interrupção milenar. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Lucrécio faz parte daquela leva de pensadores romanos que trouxe a base grega ao centro decisório do mundo de então. Seus escritos são curtinhos e rápidos de ler.

LUCRÉCIO. Da Natureza das Coisas. Lisboa: Relógio d’Água, 2015.

 

*Antes que algum chato me pergunte, “alma”, aqui, tem o sentido de consciência.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Sobre a complexidade das memórias e como o envelhecimento lhes coloca em xeque

(Os processos mentais estão entre os grandes mistérios da humanidade. E a memória é uma espécie de musa dentre eles)

“Memórias são retratos na parede

Que não se cansam de mudar de lugar”

Picumã - Eu

Olá!

Começo a digitar essas mal traçadas linhas no dia seguinte ao Natal do ano da graça de 2025, e vou concluí-lo no último. No dia de hoje, a patroa recebeu a notícia de que uma tia dela morreu. Era informação que podia demorar dias antigamente, com o favor de um telefone local ligando para um número que recebia o recado como um favor, mas hoje os aplicativos de mensagem instantânea fazem uma transmissão praticamente ao vivo. Morava na pequena cidade de Ibiporã, no norte do Paraná, e não era exatamente uma visita constante, porque não gostavam do agito de São Paulo. Nós também não íamos muito para aquelas redondezas, um pouco por desleixo, um pouco por desinteresse. Mas a tia era cozinheira de mão cheia, e isso tornava sua casa uma atração turística. Como faltava a ela dois dedos abaixo para ser chamada de anã, recebeu o maledicente apelido de Botija, posto pelo próprio marido, esse sim um tio de sangue da consorte, ainda vivo.

Evitamos contar o passamento para minha sogra, para não transformar o ato em pantomima. Ela é daquelas que transformam um evento triste, porém corriqueiro, na encenação de uma tragédia grega, com coro e tudo. Isso inclui pressentimos, galos que cantam tristes e outras mandingas, além da necessidade peremptória de viajar correndo para acompanhar o enterro. Não se faz necessário esse movimento todo, especialmente no intervalo entre as festas. Afinal de contas, o falecimento de uma idosa de 86 anos não deveria causar estrépitos superiores à natural tristeza pela perda, mas até ameaças de desmaio já testemunhamos, então é melhor deixar passar. É mais fácil controlar a raiva posterior da senhora pela intempestividade do comunicado do que seus impulsos teatrais.

Morreu de Alzheimer, dizem os parentes mais diretos. Bem, não se morre de Alzheimer, mas que ele atrapalha muito, atrapalha. As perdas progressivas de importantes funções cognitivas vão levando a quadros de disfagia e imobilidade, que, por sua vez, favorecem a aquisição de infecções e de desnutrição, o que é pedra de campa para quem já tem os problemas típicos da idade. É uma doença misteriosa, cujo principal ataque se dá à memória.

Quem já teve algum avô com Alzheimer sabe o quanto a condição é triste. São pessoas que você ama e quem não tem mais condições de reconhecê-lo, nem aos outros, nem a si próprios. É uma morte que ocorre antes da morte, porque a pessoa só está lá fisicamente, sem sua história e aquelas lembranças que tanto gostamos de ouvir dos mais velhos, como vieram parar aqui, porque tomaram as decisões que tomaram, como conheceram fulano e sicrano, e essas coisas que dão um sabor extra ao jantar de Natal. Mas, para além do sentimentalismo da situação, existe um processo orgânico que deixa de funcionar a contento, e provoca o tão indesejado efeito.

Na minha família, não costumamos precisar de lidar com este mal, por um motivo de pouco alento: a turma morre cedo, antes de se ver acometido por doenças neurológicas. São cânceres e enfartes que puxam a galera para a barca antes que haja tempos de esquecimentos. Então não sei se é um infortúnio ou um privilégio. O único caso que sei foi da exceção: a Tia Antônia, irmã do meu avô, por um curtíssimo período viveu seus dias de demência, exatamente pela morte algo prematura dele, que, sendo temporão, era bem mais jovem e inverteu a lógica dos falecimentos. Nos oito meses entre a morte dos dois, la vieja saiu de uma perfeita lucidez para tudo aquilo que está no paradigma do Alzheimer – perda da memória recente, falta de reconhecimento de parentes, lembrança de gente dos tempos em que ela ainda vivia na Espanha. Foram formas diferentes de agonia, com os tumores expostos do meu avô sendo sucedidos pelo desvanecimento psíquico de sua irmã, minha tia. Tudo triste, mas, segundo os médicos, explicável.

A memória é colocada no cérebro pela ativação de neurônios especializados na retenção de informações. Eles ficam armazenados de acordo com uma série de circunstâncias: a atenção que damos ao fato, sua repetição, as impressões que nos deixam, sua utilidade e assim sucessivamente. Sua relação com o conhecimento é tão íntima que são praticamente sinônimos, porque não basta que as lembranças façam o papel de tijolinhos do saber, mas os próprios nexos causais são frutos da memória. Ou seja, nós não nos lembramos apenas de nomes, fatos ou objetos, mas das maneiras com as quais eles se ligam uns aos outros. O que significa isso? Que o aprendizado se dá pelas cadeias de causa e consequência que extraímos do mundo.

Um exemplo simples para compreender. Quando somos crianças pequenas e ganhamos a famosa primeira bola de nossos pais, procuramos desmioladamente chutá-las com a maior força possível para nossas perninhas, achando que isso aumentará as chances de superar nosso avô-goleiro. Isso se dá pela observação simplista dos jogos que assistimos na tevê ou no campo, sem passar pelo crivo de nossa própria experiência. Entretanto, a percepção de que a banda não toca nesse tom faz com que experimentemos um melhor controle se usarmos chutes mais brandos. Notaremos que às vezes é a boa colocação que leva ao sucesso, e não uma mera pancada. Essa estrutura maior-força-menor-controle estará causalmente colocada para outros esportes, como o vôlei e o basquete e, mais ainda, para inúmeras ações do quotidiano, como o prosaico ato de enfiar um prego na parede com um martelo. Notem que as conexões causais independem dos objetos utilizados e, se estes últimos são os tijolos, a causalidade é a argamassa que liga tudo. Quando algo de diferente acontecer, temos o aprendizado (ou uma dissonância cognitiva).

Acontece que nosso cérebro funciona de maneira parecida (forçando um pouco a barra) de um dos modernos HDs de nossos computadores. A informação é armazenada em um disco através de minúsculos pontos magnetizáveis, que recebem singelos dados: ativo/inativo, ligado/desligado, sensível/insensível, zero ou um. Isoladamente, não significam nada, tendo que estar em um conjunto para ganhar sentido. Também não estão em uma sequência física, podendo existir parte da informação em um canto, e o restante em um setor remoto, no lado oposto, ou completamente fragmentada pelo disco todo. Tudo depende do mapeamento que se faz das localizações da informação pulverizada. A grande questão é que, uma vez perdido um desses pontos, a informação inteira fica ameaçada. Existem mecanismos de recuperação que podem resgatar a informação, com riscos de distorções, no entanto. Só que, uma vez que determinadas quantidades de pontos sejam perdidas, a recuperação se torna inviável. E isso não acontece apenas nos registros dos dados, mas no próprio mapeamento.

Transporte tudo isso para o cérebro. O ponto sensibilizável é o neurônio, menor unidade da guarda de informação. Tanto os dados que coletamos da realidade, quanto os encadeamentos causais estão armazenados neles. Ocorre que eles vão morrendo durante toda a existência de uma pessoa, com a infeliz característica de não serem células que se repõe. Isso é a causa das lentidões mentais típicas dos idosos, mesmo dos mais saudáveis. Se ela tiver um processo degenerativo mais acelerado, como ocorre no Alzheimer, não há como realocar as informações em outros lugares, e o resultado é esse que conhecemos: a perda progressiva das memórias.

Não se enganem com a simplicidade do exemplo, que é meramente didático. O cérebro tem processos extremamente mais complexos que o mapeamento das posições de dados de um HD. É capaz de suprimir faltas de memória através de encadeamentos lógicos, de modo a reconstruir um objeto perdido, ainda que de forma imperfeita, a ponto de formar memórias falsas tão perfeitas que são indiscerníveis da verdade para quem as têm. Por isso comecei este texto com a epígrafe da letra de uma música de minha autoria, que fala mais ou menos sobre isso mesmo: como nossas memórias nos enganam, como nos atormentam e como vão parar em um canto perdido, semelhante àquelas teias de aranha recobertas de poeira, o tal picumã. Se pensarmos nessas trocas imperfeitas, temos uma boa explicação para lapsos que vão se tornando cada vez mais frequentes, até o ponto em que haja completa perda de sentido nos conteúdos mentais.

De certa forma, é por isso que dizemos que os velhos voltam a se tornar crianças. Enquanto estas últimas ainda não tem a cognição completa, nos primeiros ela está perdida, com a evidente desvantagem de não ter mais recuperação. As crianças ainda não têm o equipamento cognitivo todo, e por isso montam suas engraçadas falas desconexas, enquanto os idosos fazem o mesmo pela perda dos mesmos elementos que faltam às crianças. Só que o processo não é exatamente dessa forma. O cérebro do idoso procura desesperadamente solucionar os desencontros por aproximação, e substitui o que seria a informação correta por outra semelhante, e aí acontecem aquelas famosas trocas, onde o velhinho te chama pelo nome de um parente mais antigo, por encontrar algum ponto em comum entre as duas pessoas, e que ainda remanesce em sua memória.

O primado da memória é tão importante que tendemos a valorizá-la em um ponto máximo, admirando quem tem conteúdos de cor, chamando essas pessoas de prodigiosas e outras coisas. O esquecimento é sempre tido como um defeito: é o mal dos distraídos, dos ingratos, daqueles que não ligam para momentos de suma importância para outras pessoas. Mas, conforme já especifiquei neste texto, o esquecimento é tão importante quanto a retenção para nosso correto funcionamento mental. Já imaginou se você conseguisse repetir passo a passo, minuto a minuto, instante a instante tudo o que você fez no dia de ontem? Se não, Jorge Luís Borges já o fez, em seu conto “Funes, o Memorioso”. Ele conta a história de Irineu Funes, um rapaz que passou a recordar mínimos detalhes de tudo o que lia e vivia após sofrer um acidente com um cavalo. O grau de minudência de suas lembranças contrastava com sua incapacidade de abstrair, de generalizar, de correlacionar fatos e lógicas, o que demonstra a inutilidade de um conhecimento meramente enciclopédico. Recordar um dia na íntegra significa revivê-lo na íntegra. O que é melhor? Reviver o ontem como se fosse hoje ou viver o hoje como mais um dia na vida? Extrair (puxar para fora na origem da palavra) um entendimento significa esquecer o que ele tem de particular e reter o que ele tem de universal, e isso é o autêntico conhecimento, não se perdendo em minúcias que só são relevantes para a formação de um contexto eventual.

Não maltratemos o esquecimento como um peso a carregar, porque ele tem suas necessidades. O mal ocorre quando mesmo o conhecimento extraído de nosso contato com o mundo se perde, como acontece com a doença de Alzheimer. Aí, sim, podemos lamentar o destino.

E é exatamente na memória de todos que a conheceram que a pobre tia vai continuar a existir. As pessoas podem acreditar em vida após a morte, em um lugar de benesses e no repouso de um lugar mais tranquilo que essa maluquice chamada de mundo, mas é na memória dos que ficam e nos legados que se deixam que as pessoas materialmente continuam a viver. Deuses são hipóteses, a memória é uma realidade. Os parentes contarão aos seus filhos e seus netos os feitos daquela baixinha que fazia uma carne de sol como ninguém, que era um verdadeiro laudamus no coro de sua igreja e que era referência na cidade inteira, até mesmo no campo do Estrela, o principal time da pequena cidade, que ficava do lado de sua casa. Que tenhamos um 2026 melhor. Bons ventos a todos! 

Recomendação de leitura:

Jorge Luís Borges é um dos grandes escritores latino-americanos, daqueles que não falam de coisas fáceis. O livro que recomendo abaixo contém o conto mencionado e vários outros.

BORGES, Jorge Luís. Ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 



terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O estoicismo que nos resta quando achamos o tempo breve demais

(As coisas acabam, é assim que a vida é. Nada de crises com isso)

“Quanto é tardio começar a viver só quando é hora de terminar”

Sêneca 

Olá!

Nem só de progressivo o homem viverá. É bem verdade que as explorações sonoras extremas da vertente o fizeram meu gênero favorito de sempre, mas, especialmente para minhas limitações técnicas, é no hard rock que eu repouso uma boa parte das minhas audições, o que vai se traduzir nas músicas que componho (cada vez menos). E por isso estou sempre ligado ao som da década de 70 e seus principais mandachuvas.

É óbvio que tenho decorada toda a produção do trio de ferro*, mas eles tiveram filhotes e alguns deles são verdadeiramente bons. Um deles teve o anúncio da aposentadoria de seu líder bem recentemente. Sem dúvida uma das maiores vozes que tivemos no movimento, David Coverdale anunciou que está deixando os palcos e, com isso, o Whitesnake fecha oficial e definitivamente as suas portas.

Fez bem, o notável vocalista. Se ele sente que seus limites físicos e artísticos foram atingidos, é digno que ele curta a vida da melhor maneira que lhe convier a partir de agora. Alguns de seus shows tiveram de ser cancelados por problemas em sua voz, e, se é exatamente ela que lhe caracteriza o talento, pode ser que os registros gravados em abundância lhe façam mais bem do que as extenuantes rotinas das turnês.

Coverdale está para o rock’n’roll assim como Annie Haslam está para o rock progressivo: na minha opinião, são os representantes máximos dos vocalistas. Embora estejam em ótima companhia, tem aptidões extras, e isso os eterniza. Mas eu preciso delinear um pouco melhor o momento de minha preferência em uma carreira muito heterogênea, movida, em certo momento, mais por sucesso do que por moções artísticas.

A banda nasce a partir do desmonte do Deep Purple original, já com as devidas trocas de componentes. Livre no mercado, Coverdale começa por uma carreira solo mais calcada em um repertório leve, com canções de inspiração soul, e com isso lança dois álbuns de algum sucesso, mas que decepcionaram fãs que esperavam uma continuidade na pauleira da banda anterior, como se mesmo ela já não estivesse em flerte com o som da motown. A partir daí, a sua fase de ouro, com forte influência do blues e o diálogo dos seus geniais guitarristas, Micky Moody e Bernie Marsden. A excelência estava em suas melodias, como faziam Eric Clapton e David Gilmour, e não na velocidade de suas escalas, o que virou uma maldição mais tarde. Ambos eram muito cuidadosos na composição de seus arranjos, traçando uma sintonia que mais tarde se tornaria célebre em uma vertente mais pesada, a New Wave of British Heavy Metal, que tinha como nomes de proa o Iron Maiden, o Judas Priest e o Saxon, todos eles usando muito a técnica de duas guitarras solo se alternando ou trabalhando em conjunto. Tudo isso já existia na formação chapéu-e-bigode, símbolo dado pela indumentária de Moody, mestre dos slides. Lançaram cinco excelentes álbuns nessa fase, incluindo um duplo ao vivo que captou toda a energia da banda no palco. Pouco depois, dois álbuns de transição trouxeram mais distorção ao som da banda, buscando alguma aproximação ao mercado ianque, ainda assim de ótima qualidade, até a virada em 1987, quando se transformou em mais uma banda de metal farofa. Agora se adaptam plenamente ao formato de agrado aos estadunidenses, enfatizaram os cabelões, a performance de guitar hero e uma sensualização meio andrógina, em um pacote que dava muita importância ao imaginário das fãs e pouca às origens rockeiras. Tenho todos os álbuns até esse, que comprei mais pela curiosidade da formação completamente nova. A partir daí, entretanto, perdi inteiramente meu interesse, porque os diferenciais que me atraiam estavam perdidos, exceção feita à vocalização, que continuou ótima. Mas para ouvir um Bon Jovi de voz grossa, prefiro continuar com o Bon Jovi de voz fina. Detalhe para o esplêndido álbum que gravou com Jimmy Page em 1993, que parecia reconduzir as ovelhas ao redil. Mas não.

Daí para frente, não tenho mais condições de expedir meus pitacos. Espero que nosso caro David curta muito suas pescarias e o churrasquinho na laje, porque seu legado está gravado para todo o sempre. Merece repousar na glória que construiu, mesmo que tenha ido para caminhos que não tenham me agradado tanto. Afinal de contas, o mundo não gira em torno do meu umbigo, mas os discos de minha vitrola, esses sim.

Também eu tenho meus projetos de aposentadoria, que são diametralmente opostos ao do nosso caro inglês. Enquanto ele decide se afastar, eu quero me aproximar. Suma ironia do destino seria se ele passasse a descrever requisitos como hobby. Na minha juventude, eu tinha bandas e músicas, um monte delas, mas a vida me impediu de prosseguir, enfiando-me em um escritório para eu destilar minhas frustrações. Tudo ficou gravado na memória, mas eu ganhei o objetivo de gravá-las em formato mp3, e virou uma espécie de hobby antecipado para os dias que me restarem. Espero que desta vez dê certo, como não deu da outra vez.

A ideia é aproveitar as benesses da tecnologia e gravar tudo eu mesmo. Algumas coisas já estão disponíveis: tenho uma boa bateria, alguns microfones e duas guitarras para pegar emprestado. O violão eu também tenho e o software para gravar é livre. Nestes quatro anos que me separam da aposentadoria, pretendo juntar o suficiente para comprar um baixo minimamente bom e um teclado, que eu ainda preciso aprender a tocar. Não precisa ser grande coisa, só as coberturas para dar elegância e um certo ar de pesquisa.

Na verdade, eu já comecei paulatinamente o trabalho. Embora eu tenha uma boa fornada prontinha, prontinha, também é verdade que muitas músicas ainda estão cruas, só com letra e melodia, mas sem um arranjo definitivo, porque ainda não tinham ido para ensaio, e tenho pensado bastante nisso. Também tenho ajustado algumas letras, aproveitando a maturidade para encaminhar melhor minhas mensagens.

Não tenho me concentrado em escrever nada novo, porque quero me livrar primeiro do estoque. Se tudo der certo, talvez eu passe a compor mais um pouco, quem sabe.

O que eu vou fazer com essas músicas se eu conseguir cumprir meu objetivo? Apresentar para alguma gravadora? Montar uma banda e sair tocando pelos bares? Nada disso. Quero dar uma cópia para cada filho, para que mostrem aos eventuais netos e tenham o registro da “genialidade” do vovô. Encher o saco dos velhos amigos para relembrar, e dos novos para impressionar são possibilidades. Também eu mesmo vou me ouvir, da mesma forma que faço com este blog. Talvez eu me enleve com algumas, e me envergonhe com outras, mas tudo para marcar o pensamento que eu tive em diferentes épocas da minha vida. Se conseguir isso, me dou por satisfeito e dou por fechada minha existência com chave de ouro.

E se não conseguir? Se o corpo não corresponder mais, se eu não me entender com a tecnologia, ou se tudo for tão cansativo que eu desista? Ou, pior ainda, se aparecerem os mesmos problemas que me impediram de continuar no passado, os mesmos impedimentos, a mesma vida que seleciona as suas necessidades?

Certamente ficarei frustrado, porque tenho consciência de que não terei meios para subir numa moto e cortar estradas, ou viajar para países exóticos. Também não tenho a menor intenção de ficar em um sítio, tendo ainda mais trabalho do que já tenho hoje. Do barco eu já desisti ainda cedo.

Mas eu tenho a hipótese de continuar vivendo, e com isso eu tenho que lidar. Embora tenhamos alguma espécie de governo sobre nossas ações e não possamos simplesmente ficar encostando em um barranco esperando o tempo passar, o fato é que somos senhoreados pelo destino. Planos e mais planos submergem no vinagre por meio de uma veia entupida. Nem precisamos ser tão dramáticos: um chefe mal-humorado, uma paixão mal resolvida, tudo muda o lado para onde o vento assopra, a maioria das vezes sem que possamos fazer grandes coisas.

Há maneiras e maneiras de lidar com a situação, e a filosofia já trabalhou das mais diversas com a questão da imprevisibilidade do futuro. Em algumas, coloca-se tudo nas mãos de uma divindade; em outras, conclui-se pelo absurdo da existência e desiste-se de encontrar uma razão e uma solução. Em outras ainda, vê o fracasso como um impulso da vontade para buscar ainda mais. Mas há certas formas de fatalismo ativo, em que a resistência à dor é a principal escolha ética para enfrentar a derrota da felicidade.

Nos dias de hoje, frente a um mundo em que noções de fracasso estão muito mais próximas a nós, é notável como a corrente estoica está cada vez mais reavivada. Há livrinhos e videozinhos falando sobre essa corrente como se fosse uma grande novidade, mas que não era nova nem para o Cristianismo, que absorveu muitos de seus princípios gerais. Mas eu já falei sobre ele, em um texto bastante abrangente, razão pela qual vou pegar um pouco do chamado estoicismo imperial, a vertente romana dos estoicos, mais especificamente a partir de Sêneca.

Sêneca é um pensador romano proveniente da Espanha, que veio a ser senador e preceptor de Nero, e, embora pareça contraditório, pregou ativamente o desprendimento como fórmula de atingir a virtude e a felicidade.

Mas quais princípios pregava Sêneca? Fundamentalmente, o estoicismo reside na ataraxia, ou seja, a ausência de perturbações diante das dificuldades da vida. Isso não é um simples “deixar para lá” apático, mas uma atitude de busca constante da felicidade através da virtude. O que  é basilar especificamente em Sêneca é o entendimento de que somente devemos exercer controle sobre aquilo que é possível controlar. Não temos como conter uma avalanche ou impedir que venha uma tempestade, mas é possível evitar o baixio de uma montanha no inverno ou se colocar a público quando as nuvens fecham. Da mesma forma, nós conseguimos controlar nossa conduta, mas não a opinião que os outros tem de nossas atitudes. O foco para onde devemos aplicar nossos esforços é no aperfeiçoamento de nossa sabedoria.

Talvez o melhor exemplo esteja na gestão do tempo. Em um mundo onde estamos constantemente reclamando da falta dele, temos a clara sensação de que a vida é curta demais. De fato, quando penso que já vivo a meio século e meia década, quando vejo que me aproximo do momento de aposentar, chego a me horrorizar. Certas coisas parecem ter ocorrido ontem, mas quando se enumera tudo o que ocorreu entre elas e o momento atual, tenho em conta o quanto já se passou. A resposta estoica é que essa sensação de brevidade do tempo é inautêntica. O tempo não é tão breve quanto parece, a questão está no seu uso. Desperdiçamos o tempo com coisas fúteis, preocupações vãs, alta expectativa para objetivos pouco importantes, procura incessante de posses e prazeres e com as suas consequentes angústias e ansiedades.

Não adianta lutar contra leis naturais, esse é o cerne do pensamento de Sêneca. Só é desejável procurar mudar aquilo que é possível mudar. Tudo o mais, é exatamente o campo da frustração e suas consequências. E isso está no nosso quotidiano. Não seguraremos a avalanche. Não controlaremos nosso chefe.

Pense, por exemplo, nos dias que antecedem a grande final do campeonato. Eu mesmo sinto um frio no estômago que acaba se espalhando para todos os dias anteriores, às vezes na forma de angústia sem objeto, um sentimento incômodo de que nada vai dar certo, sabe? É um medo infundado, porque não muda o preço do dólar, não nos trará méritos pessoais e, no final das contas, não entramos em campo para influenciar no resultado. Quem se entrega a medos vazios acaba criando medos reais, sofrimento inútil que nos afasta da felicidade.

Tendo estas “instruções” como guia, entendo que somente no momento em que acontecerem impedimentos ou impossibilidades para minhas ideias e projetos que eu vou me incomodar com eles. Sofrer por antecipação é sofrer dobrado e, se pararmos para pensar, é nossa grande usina de desesperos. Se as coisas vão dar certo ou não dependem menos de mim do que do destino. O que é da minha alçada eu estou fazendo, arranjando, rearranjando, refazendo trechos, tentando manter minimamente a forma e a vontade. Eu conto quando chegar. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

É um livrinho que explodiu no mercado editorial nos últimos tempos, especialmente porque os estoicos entraram na vibe de coachs. Injustiça com eles.

SÊNECA. Sobre a Brevidade da Vida. São Paulo: Penguin & Companhia das Letras, 2017.

*Para quem é muito novo, ou aportou de Marte recentemente, são as bandas Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple, os principais sustentáculos do que se convencionou chamar de rock pesado.