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segunda-feira, 27 de abril de 2026

O café filosófico do quotidiano – a família tradicional brasileira é o único modelo válido de família?

(Papai, mamãe e filhinhos não estão errados, mas não são só eles que estão certos)

“Nesse país [nota minha: o território do Havai, ainda não integrante dos EUA], todos os filhos de irmãos e irmãs, sem exceção, são irmãos e irmãs entre si e são considerados filhos comuns, não só de sua mãe e das irmãs dela, ou de seu pai e dos irmãos dele, mas também de todos os irmãos e irmãs de seus pais e de suas mães, sem distinção”.

Engels

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Convicções são uma ratoeira na mão de criança. Quando confiamos cegamente em uma coisa qualquer, perdemos o juízo e tendemos a fazer bobagens por força de uma inocência forçada ou da lei do menor esforço. Diz meu sogro: “não confio nem nas minhas calças, porque elas podem rasgar e mostrar meu traseiro”, justo ele que já teve problemas por confiança em conselhos alheios (leiam) e que já teve a calça rasgada. Mas o princípio geral é justo.

Uma das minhas convicções está calcada no preparo do café, que podem até ser ousadas, mas sempre colocando os parênteses do risco e da bebida que pode levar outro nome. Café é café, punto, finito. Por esta razão, ou se percola, ou se infunde. Tudo o mais são fenômenos de circo.

Exageros à parte, os métodos gerais de percolação são vários, sendo que alguns são mais tradicionais do que outros, mas todos seguem o mesmo princípio da gravidade. Sendo assim, os diferenciais estão mais ligados à velocidade de escoamento, potencialização dos óleos e assim por diante.

O Bodum Pour Over é um método de nome feio com resultados bonitos. O nome vem de seu criador Peter Bodum, um dinamarquês que fundou uma fábrica de utensílios domésticos na Suíça. Além de reproduzir métodos para extração consagrados, criou um próprio, baseado em outros já existentes, para juntar melhores dos mundos.


É uma combinação do decanter Chemex com filtros econômicos. Do primeiro, traz o formato de vidraria química e uma pega removível feita em cortiça. É mais fácil de remover e de lavar do que a própria Chemex, favorecendo sua higienização.


Já para filtrar, ele possui um filtro metálico de rigor bastante alto, com as vantagens de permitir um corpo mais denso, já que há menor retenção de óleos. Isso reflete na textura na boca e no buquê ao olfato.

O resultado final produz um café encorpado, com um pouco de resíduos, é fato, mas com ótima qualidade, sendo que já estava dentre meus favoritos há algum tempo, embora seja meio raro de encontrar nas cafeterias espalhadas por aí.


Nome do utensílio: Bodum Pour Over

Tipo de técnica: percolação em filtro metálico

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média/grossa

Dinâmica: O filtro metálico recebe o café em espessura não muito fina, para evitar excesso de resíduos. A água deverá ser despejada cuidadosamente, em movimentos circulares, também para evitar a transposição de resíduos. Após o escoamento, tapar com o utensílio próprio e evitar despejar nas xícaras até o final. O ideal é dar um descanso de uns cinco minutos para uma boa decantação.  

Resíduos: Médios

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: Médio

 

É uma boa combinação de modernidade e tradição, valendo-se das virtudes do vidro borossilicato e do metal como economizador de filtros, o que, exceção feita a puristas muito raivosos, supre bem a necessidade de se consumir filtros de papel de uso único. É, assim, um bom tanto ecológico este método. E desminto a mim mesmo no quesito tradicionalismo, ao menos no aspecto dogmático. Mas, como disse logo na primeira frase, dogmas são coisas complicadas. E tenho histórias sobre esse tema.

A Dona Madalena era possuidora de uma verve crítica que muitas vezes até passava do ponto. Casmurra, não costumava dar fé de muitas coisas que falavam para ela, muito diferentemente do que é habitual nas tertúlias divertidas entre vizinhos. Mas ela se derretia quando se via à frente de manifestações que exaltavam valores ditos conservadores, catolicona alla Jorge de Burgos que era. Não admitia que moças suspeitas se casassem de branco, a ponto de fazer escândalo com o padre que admitisse tal liberalidade. Não aceitava católicos de conveniência, e explodia contra a maçonaria dentro da igreja, ou dos comunistas da Teologia da Libertação, fanfarrões da libertinagem, no dizer dela. Foi com esse espírito que ela foi visitada pela patroa, certa feita, para cuidar de uma “ferida arruinada”, nome popular para úlcera varicosa que sazonalmente lhe visitava.

Enquanto recebia o curativo, ela contou para a patroa, toda entusiasmada, que uma bancada à frente da Catedral da Sé estava coletando assinaturas de um abaixo-assinado. Eu não tenho boas lembranças desse tipo de manifesto. Neste mesmo prédio, de propriedade de uma igreja daqui do centro de SP, o pessoal começou a se mobilizar para pedir a instalação de câmeras na porta, em vista da violência tão típica desta região. Reclamavam de boca solta que ninguém se incomodava com a segurança dos moradores e que era preciso providências. Só que, das senhorinhas, nenhuma tinha uma impressora. Eu tinha, e me propus a imprimir a ficha, achando justa a causa e insignificante o incômodo. Quando o documento chegou ao proprietário, o nome que tremeluzia era o meu, pelo pecado de haver imprimido o dito cujo, que ousadia. Acabei ficando como autor da acintosa contenda, principalmente porque, obviamente, não houve boa alma cristã que explicasse o fato ao priorado, diante da sua reação de pouco humor, preferindo o assovio de cantigas vetustas ou comentar sobre o clima. Ganhei o estatuto de idealizador da revolta octogenária, e ganhei uma pecha na testa, a ponto de precisar dar explicações. “Nunca mais”, estabeleci a mim mesmo, e tenho cumprido à risca essa minha autodeterminação. Voltando para a história, uma mesinha no meio do fervo da Praça da Sé coletava assinaturas enquanto um grupo entoava hinos antigos. Não é tão raro de ver cena semelhante nessas cercanias.

Mas do que se tratava o manifesto que mereceu tão entusiástica adesão da mencionada senhora? Nem ela mesma sabia ao certo. Era uma espécie de moção pela família tradicional brasileira, mas que a macróbia não absorveu se era para alguma lei, alguma reclamação contra uma lei, se ia ao congresso, à assembleia ou à câmara. Não sabia se era contra casamento gay, contra o aborto, educação sexual nas escolas, validade de uniões estáveis ou qualquer outra dessas poucas vergonhas ligadas ao sexo, esse caminho da perdição que Deus criou só para trollar suas criaturas, gostoso e proibido. As palavras-chaves eram família e tradição, tão caras a uma determinada camada da população. A questão é que ela contou tudo isso heroica para a patroa, como se fosse uma paladina desses valores, e estivesse, com isso, salvando o país da praga do… do… do… não sabia o que, apenas que eram emissários do diabo.

Como assim? Ora, se ela não sabia bem o que assinou a favor, não sabia o que assinou contra, além de não saber exatamente quem estava conduzindo o pleito. Mas sabia que colocou o RG e o CPF na lista, ao que a patroa, que tinha momentos de impaciência educada com ela, redarguiu tratar-se de risco. “Dona Madalena, a senhora deu seus dados assim, sem nem saber a quem”?

A velhinha não se tocou disso, empolgada pelo discurso agudo e pelo fardamento tão impressionante, quanto extemporâneo. Parecia uma certidão das melhores intenções daquele povo enfezado, que jura louvores diante do sacrário. Todavia, a patroa fez questão de lhe informar que, da mesma forma que se pode perjurar diante do altar, também é possível colocar uma roupa de soldadinho da Idade Média e levar a engodo seu público-alvo. Afinal de contas, não é nenhuma novidade que os velhinhos são alvo preferencial de golpistas, frente à confusão que lhes causam as modernidades do quotidiano. E, além disso, o diabo não é feio; aliás, deve ser belíssimo. Do contrário, não inspiraria confiança em tanta gente. Quem seria capaz de acreditar em um chifrudo vermelho com rabo de seta e para de cabra?

Nossa impávida velhinha parou por alguns segundos olhando a cara da consorte, e mais alguns olhando o vazio, até se dar conta do risco de fornecer números a desconhecidos. Daí começou a pira: vou ter que mudar a conta do banco, a senha do cartão, fazer um BO, essas coisas de quem é assaltado. “Nem tanto a Deus, nem tanto ao diabo”, retrucou a patroa. Não torne o prejuízo maior do que ele é. Acalme-se e seja cuidadosa com as ligações que receber. E reze, aconselhou sarcástica.

É estranho que a Dona Madalena fosse tão defensora da família, sendo que ela morreu sem que sequer houvesse um único parente conhecido para ajudar no enterro, ou para assinar a papelada. Foi muito complicado desembaraçar todas as legalidades e dar as baixas necessárias, não fosse uma procuração dada à cara-metade, e seguiríamos o mandato cristão de deixar os mortos cuidar dos seus mortos (Lc 9:60). Mas passamos nossas oito horas na delegacia, sete horas no IML e ainda outras tantas de velório e enterro, além dos trâmites burocráticos post mortem, para deixar a reputação da defunta imaculada. Mas o fato concreto e real é que a macróbia era defensora da tal família tradicional.

Ultimamente, temos visto uma escalada na discussão sobre valores familiares. Eu acho que estes são meio que indisputáveis, e a dificuldade maior não está em aceitá-los como válidos, porque dificilmente alguém é contrário ao conceito, mas a quem eles se dirigem. A questão é quem é legítimo representante de uma família e quem não é – o que pode ser considerado como família e o que não pode. Como é um assunto recorrente em termos de polarização, é preciso ter uma palavrinha sobre o assunto. Só que eu pretendo dar um passo atrás, e menos discutir o que é certo ou o que é errado, e mais entender como se formou a ideia em si. Vamos tentar.

Cartesianamente, a primeira coisa que deveremos fazer é separar os termos para analisá-los individualmente, para depois sintetizar tudo em uma só explicação. Começando pela família, na definição de dicionário temos que se trata da união de pessoas através de um vínculo afetivo, curto e grosso. É normal dentro de nossa sociedade que esse vínculo afetivo seja formado com maior vigor dentro do modelo judaico-cristão, por ser aquele que predominava em nossos colonizadores europeus, mas que, mesmo aqui, foram defrontados com modelos um pouco diferentes, pré-existentes através dos indígenas. Certas tribos possuem um conceito mais amplo de parentesco, abarcando como familiar a totalidade ou partes consideráveis da tribo, mesmo com inexistência de laços sanguíneos. Já na América do Norte, sabemos através de Morgan (apud Engels) que os índios iroqueses tinham um tratamento cruzado entre membros da família, sendo que os filhos dos irmãos são igualmente considerados filhos, enquanto os filhos das irmãs são chamados de sobrinhos. Portanto, ainda que sob a lógica do colonizador o conceito de família seja menos variável, o fato é que, se não assumirmos essa estrutura como verdade absoluta, teremos uma variação expressiva na conceituação do que é família, ainda que ela não escape do aspecto endêmico.

Ocorre que mesmo na lógica europeia o conceito de família não era exatamente igual ao que se considera a família nuclear, e também modernamente já se escala desse mesmo modelo. Como sabemos, a previdência social é uma invenção recente, necessária com o aumento do tempo de vida dos habitantes do planetinha, mas sempre existiram os velhos, ainda que em menor número. Como se fazia para sustentá-los quando o corpo já não respondesse às necessidades e não houvesse um pé-de-meia para sustentá-los? Tínhamos os clãs, agrupamentos familiares em que a vida comum visava fornecer todos os elementos de uma tribo, incluindo o cuidado com os mais velhos. Quanto maior a prole, mais simples a manutenção dos mais velhos, que, de resto, não duravam tanto em tempos passados. É preciso ainda informar que a própria origem da palavra família (do latim famulus) está relacionada ao pater familias, que era a pessoa a quem um grupo inteiro estava subordinada, o que agrupava a esposa, os filhos, os servos e escravos. Sendo assim, o laço sanguíneo não é unívoco para explicar o conceito, mas é um derivativo muito forte quando queremos passar uma designação mais moderna.

Por outro lado, uma maior absorção da lei civil perante os ditames religiosos levou à aceitação do divórcio, a dissolução dos laços matrimoniais que não possuem solução de continuidade na igreja. Isso faz com que as estruturas familiares se tentacularizem: um filho oriundo de pais divorciados passa a conviver com a família do pai e a família da mãe, que podem vir a ter meios-irmãos e um núcleo muito mais pulverizado. São novos costumes que foram sendo implantados aos poucos, num processo de secularização que é visto como poeira nos olhos de religiosos mais conservadores.

Já a tradição diz respeito à transmissão que se faz de qualquer coisa a alguém. Pode ser um bem, pode ser um objeto, pode ser um uso ou um costume, mas o que caracteriza a tradição é passar algo que é seu para outrem. Quando vendemos uma casa, ou a doamos para uma fundação, ou a passamos por herança aos nossos filhos, estamos concretizando uma tradição. Mas, embora o termo seja afeito e correto, não é seu uso comum. Ele diz mais respeito a valores de uma determinada comunidade, que são importantes o suficiente para serem mantidos através das gerações. Isso inclui uma gama imensa de coisas: identidade cultural, memórias, fazeres comunitários, sistemas simbólicos, linguajares e indumentárias, manifestações artísticas, saberes ancestrais e muito mais. Notem que tradição, nesse sentido, está mais ligada a importâncias afetivas do que materiais, beirando e até mesmo absorvendo o espiritual, razão pela qual a religião é um dos seus componentes mais significativos. O que vai ter tudo a ver com o próximo item.

Por fim, quando falamos em família tradicional brasileira, é preciso fazer um ajustamento para que coloquemos as coisas em pratos limpos, porque “brasileiro” são os índios e seus animismos, os negros e seus candomblés, os orientais e seus budismos, os árabes e seus islamismos, mas a cultura preponderante é de matriz europeia, predominantemente cristã. Portanto, vamos tratar a família tradicional brasileira como família tradicional cristã, porque este é seu sentido real.

O Cristianismo possui um corpus teórico ao redor da família onde o núcleo é constituído por pai, mãe e filhos, com essa ordem de precedência, segundo seus cânones. O casamento é indissolúvel e deve ser realizado entre homem e mulher, sob pena de concretização do pecado e da ausência de chancela do sacramento do matrimônio, selo de legitimidade dado por eles. Até bem pouco tempo atrás, mais valia o casamento na igreja do que no âmbito estatal, sendo que a lei reconhece valor legal para o primeiro, se cumpridas as cerimônias de registro. Embora somente reconheça o casamento monogâmico, é preciso recordar que ela vem de substrato judaico antigo, que admitia relações de concubinato e de perpetuação da descendência com a participação de terceiras, sempre com a preocupação do componente marital. O principal propósito do sexo dentro do casamento cristão é reprodutivo, sendo que várias vertentes consideram meios de impedimento à gravidez uma atitude pecaminosa. O sexo com propósito de prazer é visto com maus olhos, e subordinado ao propósito principal.

Enfim, juntando as peças, família tradicional brasileira é aquela que une homens e mulheres cujo principal propósito é manter a estrutura social através da transmissão de valores a uma descendência, e cujo esteio axiológico é o cristianismo. Ainda que se admitam variações, o cerne duro é o de família nuclear monogâmica. Até aqui, falamos de fatos.

Agora, um certo viés opinativo. Quem não estiver interessado em saber o que penso, pode parar por aqui mesmo, senão, andiamo avanti. Há um grande problema na maneira como o termo é colocado nas discussões. Há um sequestro do conceito ao se discutir uma forma padrão de como deveria se constituir uma família. Há quem imponha um formato fechado e que atribua a este toda a realidade que é como chegamos até hoje, e, por outro lado, um certo desprezo por quem não se vincula ao modelo preponderante vigente. Por um lado, um modelo familiar considera os outros como opostos a si mesmos. Para o tradicional, a família nova é errada, imoral, prejudicial para o modelo social implantado; no vice-versa, temos uma família quadrada, careta, paralisada no tempo, inapropriada para quaisquer relações que não sejam aquelas de convenção e, portanto, excludente. Essas posições trazem muita dificuldade para qualquer tipo de diálogo, e o que vemos é a questão se perpetuando sem solução de continuidade.

Eu não posso me considerar contrário à família tradicional, porque eu mesmo constituí uma. Casei-me nos papéis e na igreja, com noiva mulher de sexo e gênero, de branco e com os cursos prestados, como manda o figurino. Tive filhos que também tiveram seus casamentos no mesmo modelo, e deu certo. Vamos vivendo bem, na medida do possível. Portanto, é um modelo que funciona, mas funciona para mim. Outros modelos funcionam igualmente bem, e igualmente mal. Porque o grande problema da família tradicional brasileira não está no modelo em si, um dentre outros, mas na espécie de imposição que se quer fazer sobre os demais modelos. E a hipocrisia.

O casamento na família tradicional pressupõe uma relação de fidelidade entre seus membros, especialmente entre marido e mulher. Ocorre que esta fidelidade, não sejamos nós também cínicos, é culturalmente mais exigida para o lado feminino. Os rapazolas são levados pelos próprios pais para “conhecer a vida”, enquanto das filhas se exige discrição e pureza. É verdade que essa moral está em declínio, mas o redivivo conservadorismo se opõe à liberdsde sexual, em especial de moçoilas. e isso tem um componente perverso.

Sexo anal e felações não eram coisas para serem feitas por mulheres de bem, ainda que dentro do casamento. Depilação de pelos pubianos também não eram bem-vistas. A cama não podia ser o palco onde o livre exercício da sexualidade levasse às fronteiras do prazer sexual. As esposas ficavam na incômoda posição de se manterem honradas, mas sabedoras das escapadas dos maridos, justamente para obter essas benesses às quais não deveriam receber em casa, coisas de puta.

A coisa é até mais profunda, com coisas muito sutis sendo descartadas para uso respeitável. Autênticas bobagens, como correntinhas de tornozelo ou tatuagens de borboleta (até a década de 90 qualquer tatuagem) são ditos como identificadores de promiscuidade, algo que é sempre ruim para a mulher, uma ofensa mais pontiaguda.

Acontece que, vistas por um lado mais físico, essas coisas de puta são aquilo que dá um colorido diferente ao ato, pelo simples fato de aumentarem as opções do cardápio sexual. Uma das frases mais comuns para justificar a traição é que “ninguém vive somente de arroz com feijão”, e como a picanha apimentada não pode ser feita em casa, eis que ela é buscada em outras mesas, porque, ora essa, ela é saborosa. Priva-se a esposa de provar outros sabores e o marido de manter sua fidelidade. Impedir-se-ia a pulada de cerca? Não, mas haveria bons elementos para melhorar a resistência preconizada pela ideologia. O resto, é pura hipocrisia banhada de misoginia.

Portanto, não vejo nenhum tipo de problema em quem tem sua opção familiar pelo caminho mais tradicional, mas que não se impeça de se reconhecer que os demais modelos, respeitados os limites legais (que já são bastante banhados de fundo cristão), tenham igual valor, concedam iguais direitos e exijam iguais deveres. Tudo o mais vem recheado de uma visão exclusivista que, aliás, se traveste de moralismo sem o ser de fato. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Fico desta vez com a citada de raspão obra de Engels, que desenha o caminho da formação das famílias até chegar no Estado.

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. São Paulo: Escala, 2009.



segunda-feira, 23 de março de 2026

Sobre monumentos involuntários e indesejados indo ao chão (parece) e sentidos de frases usados um pouco melhor

(Nada é permanente nos dias de hoje… como, aliás, nunca foi)

“Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado e o homem é obrigado por fim a encarar com serenidade suas condições reais de vida e suas relações com seus semelhantes”.

Marx

Olá!

Bem ao contrário da vista da Mantiqueira que eu tenho em Taubaté, da janela do meu quarto no centro de São Paulo eu tenho uma velha visão do descaso. Do meu ponto de visada, bem no caminho onde eu poderia enxergar o Parque Dom Pedro, há um colossal esqueleto de um prédio que deveria ter sido uma garagem vertical. É o que a cidade conhece como Caveirão.

Ele é célebre, sempre citado como exemplo quando se quer demonstrar a velocidade de lesma com que as coisas se desenrolam em Terra Papagalli. Trata-se de um antigo projeto de prédio-estacionamento, imaginado quando a questão vagas passou a ser problemática por estas bandas. Não sendo projetada para a maluquice urbana que temos hoje, por sua idade avançada em termos de Brasil, São Paulo se ressente de bolsões competentes de estacionamento, ainda mais que, sendo terra da grana (na mão de poucos), é de carro que a cidade faz seu negocial, e esse tipo de aberração tem sido imaginado já há tempos. Não teria sido muito melhor esteticamente se este armatoste tivesse chegado ao seu uso inicial: seria feio, continuaria encobrindo a visão, reinaria como um marco à miséria do centro da cidade mais rica do país, imperando sobre o Glicério dos cortiços e da Várzea do Carmo das enchentes. Há coisas que nascem mal e não tem muito para onde correr. Mas o fato é que esse entulho armado está embargado desde a década de 70, quando as obras do metrô colocaram em risco suas estruturas. Entre trocas de proprietários e disputas judiciais, esse lugar foi ocupado diversas vezes, infelizmente por pessoas intimamente ligadas ao tráfico e abuso de menores, como bem sabemos nós, moradores das redondezas. Então tínhamos um caldeirão de problemas sociais reunidos em um só lugar, ele mesmo um problema urbano prestes a desabar, fazendo sucumbir as vidas daqueles que procuravam um lugar para morar, para se esconder, para cometer crimes ou, simplesmente, para ficar de chiacchera na calçada enquanto a vida passa.

Depois de décadas de imbróglio, parece que as coisas começam finalmente a tomar um rumo. São incríveis 60 anos que demoraram para um desfecho, que ainda poderiam ter se arrastado por mais tempo ainda. O judiciário, frente ao risco de desabamento, expediu ordem judicial ao proprietário para que ele procedesse a demolição do imóvel, o que foi sucessivamente descumprido, sob a alegação de ausência de recursos, cada vez piorada pelas multas não pagas. Diante disso, a justiça intimou a prefeitura a realizar o serviço e a autorizou a cobrar do proprietário os custos, o que certamente se dará pela desapropriação da área. Pelo projeto inicial, virá um conjunto de prédios de uso misto, o que significa lojas no térreo e moradias acima.

Alguns meses ainda se passaram dessa omelete jurídica, até a coisa ganhar concretude, e ela veio na forma do cercamento da entrada da estrutura, pela frente e pelos fundos, bem como do despejo dos cortiços que lhes são lindeiros. A igreja evangélica foi poupada desse último, mas isso é história para outro momento. E, nestas últimas semanas, finalmente foi possível ver ação: uma equipe da prefeitura começou a instalar os patamares que servirão para dar sustentação à operação de demolição, que, dado ao fato de estar a coisa toda logo acima do túnel do metrô, precisará ser feita na marretada. Perdi a chance de ver uma implosão ao vivo e em cores. Droga…

Pena que o jacarandá que resiste no topo do prédio deve ser a primeira coisa a vir abaixo. Eu o removeria com cuidado e plantaria na frente da obra que for construída no lugar, como prova da tenacidade da natureza e de como é possível surgir beleza dentre os abrolhos. O Caveirão já está há tantos anos não só no meu campo de visão, mas de todo aquele que chega ao centro de SP, que já parecia um espetáculo a ser candidato a patrimônio histórico. Quem vem pela Avenida do Estado ou pela Radial Leste já o vê ao longe, com sua estranha imponência asquerosa, armadura exposta e apodrecida, fruto de um misto inexplicável de pobreza da intenção estética, falta de imaginação na solução urbana e surreal lentidão burocrática. Quem o vê, não entende como é possível que se quisesse erguer um prédio tão horrível, ao mesmo tempo que se assombra com o fato de que tal edifício tenha sido condenado por ameaçar cair há tanto tempo e tenha ficado lá, esperando virar desgraça. É o tipo de coisa que nos faria acreditar que Deus sustenta aquela tralha e evita a hecatombe que seria sua queda, se não fôssemos tão firmes na nossa falta de fé. 

Fosse uma implosão, e tudo iria ao solo em segundos, como ocorreu com prédios vizinhos na praça Clóvis, com nuvens de poeira invadindo as salas e filas de caminhões para remover o entulho. Seria o fim espetacular de algo que, no final das contas, parecia que iria desafiar eternamente as regras da engenharia. E eu lembro de uma frase usada meia solta por aí: “tudo o que é sólido desmancha no ar”, como sinônimo da transitoriedade daquilo que acreditávamos imutável. Ela é uma frase de Karl Marx, usada no conhecidíssimo Manifesto do Partido Comunista*, e é preciso deixar algumas coisas um pouco mais claras sobre ela.

O Manifesto Comunista é uma obra que divide opiniões. Para alguns, um panfletão sindicalista; para outros, a base de uma nova sociedade, ambas defendidas e atacadas com as mesmas altas doses de rancor e reverência. Não dá para conversar com esses ânimos, mas é possível tentar esquecer das dicotomias atuais e chegar a um didatismo desapaixonado. Olhado por um prisma o mais isento possível, o texto é baseado numa análise do processo de Revolução Industrial, ponto culminante da implantação do Capitalismo, passando pelas fases anteriores e com comparações sociais do que seriam as classes dominantes, com a qual se pode concordar ou não. O cerne do livro é detectar no processo histórico a repetição de uma mesma lógica de dominação, passando desde os primórdios da organização política até a chegada da burguesia ao poder. Entretanto, a divisão entre burgueses e proletários, ainda que reproduzindo a mesma estrutura da realidade, tem suas sutilezas que trazem um cenário único: movidos pela expansão do comércio e pela expansão industrial, nunca uma divisão entre classes foi tão acentuada.

A burguesia é revolucionária. Ela transformou o mundo de uma maneira tão radical quanto as guerras e invasões, de modo a modificar todas as relações econômicas e sociais como nunca se viu antes. Sua principal virtude foi desmontar a lógica hereditária dos antigos reinados e a estrutura baseada no sentimentalismo sustentada pela religião. Tudo, absolutamente tudo, virou um conjunto de relações comerciais.

A grande questão é que esse modo de produção capitalista, segundo os autores, precisa se retroalimentar continuamente. A cada vez em que uma transformação do sistema se instala, junto com ela vem uma revolução social. A expansão marítima tornou necessária imensa quantidade de recursos para viagens cada vez mais distantes. A Revolução Industrial transferiu para a fábrica a lenta produção artesanal. A linha de produção hiperespecializou e simplificou tarefas que eram realizadas mais lentamente por funcionários que precisavam conhecer o produto como um todo. E assim andou pela época de Marx, e assim anda até hoje.

Essa contínua transformação impede que as coisas se tornem perenes, mas não as impedem de se afigurar como tendências irrefreáveis. Um produto fabricado com altíssima tecnologia terá sucedâneos que aparentam não ter substitutos. Um celular hoje em dia é tudo, menos um telefone, e cada vez menos há pessoas com linhas fixas em casa, como é meu caso mesmo. Para se obter essas maravilhas eletrônicas a um preço que esteja ao alcance de um número cada vez maior de pessoas, é peremptório que os custos sejam diminuídos em algum canto, e ele se dá exatamente pelo aproveitamento cada vez menor de recursos humanos. 

Parando para pensar, as novas formas de produção são uma constante na linha evolutiva do modo de produção capitalista, e sentimos isso em nossas mãos. Nos tempos dos inícios da indústria, a grande preocupação era produzir mais e mais, com um custo cada vez menor. Essa lógica não mudou, mas a forma como esse objetivo é perseguido muda muito rapidamente. Vivemos nos dias de hoje algo que os sociólogos chamam de desemprego estrutural. Não se trata mais das inúmeras crises que fazem com que a produção encolha e a desocupação expanda, para logo depois ser retomada a trilha costumeira, mas de um nível tão avançado de automação que o trabalhador se tornou desnecessário. Lembro muito bem de quando fui, aos quatorze anos, trabalhar de office boy em uma grande rede varejista. Os relatórios que buscávamos na matriz para levar ao RH hoje são extraídos de um celular. As inúmeras cartas de cobrança encaminhadas ao correio viraram ameaçadores e-mails. Tudo é virtual e não serviríamos para mais nada nos dias de hoje, com nossas perninhas ágeis e nossas cabecinhas distraídas. Em outra empresa, aos dezesseis, éramos nove no departamento de contabilidade. Pessoas destinadas exclusivamente para fazer faturamento, para calcular correção de patrimônio, para operar a máquina contábil (eu), para cuidar do arquivo, para preencher fichas de lançamentos estão todas hoje subjugadas pelo toque de um botão, que integra todas as informações financeiras de uma empresa instantaneamente. Folha de pagamento, contas pagas, duplicatas a receber, baixas de estoque, absolutamente tudo é integrado nos livros contábeis no exato momento em que acontecem, e ao contador resta somente a parte analítica, quando muito. Mas cuidado, vem vindo mais.

Hoje temos a inteligência artificial que ameaça fazer sucumbir toda a indústria de desenvolvimento de software como conhecemos até hoje. Em um processo de autofagia, a cibernética decreta seu próprio fim e faz desmoronar tudo aquilo que parecia ter vindo para ficar. O contador, que olhava com preocupação a queda nos índices de liquidez, agora tem que olhar com preocupação a necessidade de seu trabalho, frente à capacidade infinita de coligir dados de uma IA que, se ainda não é perfeita, mostra que o horizonte é novo. Até que outro processo inimaginável neste momento vai superar a tão decantada IA, sempre na busca de aperfeiçoamentos para o sistema de acumulação de capital, sempre maximizando ganhos através da economia proporcionada com a mão de obra. O desemprego estrutural é a demonstração de que mesmo um sistema exploratório encontra seu término. Nas épocas de Marx, o pequeno produtor, o artesão e o comerciante miúdo eram transformados em proletários porque não tinham outro caminho a não ser vender sua própria força de trabalho. Hoje, perguntamo-nos se haverá empregos amanhã. Nada é para sempre.

Só que muitas das vezes em que essa frase é usada, há um sentido meio que puxado para o estoico, como, por exemplo, trata Sêneca no seu famoso texto “Sobre a Brevidade do Tempo”, sobre o qual já dei meus pitacos. Neste, a questão das transformações inesperadas se dá em um âmbito ético, mais no sentido de não se desperdiçar momento vivido com sonhos irrealizáveis, mais para o tempus fugit, carpe diem.

Marx dá uma ideia mais de destruição. O Capitalismo funciona sob uma lógica de que todas as relações são efêmeras e podem mudar ao sabor da sua necessidade de se reinventar continuamente. Não são só as artes e ofícios que se transformam, mas as tradições e relações sociais vão na mesma esteira. Reis e sua vassalagem eram um fato tão concreto na Idade Média que nada pareceria romper essas relações tão cheias de mística. O próprio fenômeno burguês surge como uma quebra de hierarquia política: o poder sai das mãos de quem tem direito “divino” para ir para os que têm recursos.

A expansão contínua toma proporções planetárias, extinguindo fronteiras; a natureza é subjugada ao máximo, em uma medida que seus ciclos não mais dão conta, fazendo áreas inteiras modificar-se irremediavelmente. Tudo precisa ser grandioso e rápido, e, no fim, mesmo que velada por uma atmosfera conservadora, para a manutenção do status quo, só resta o reconhecimento de que todas as relações humanas se baseiam no negócio, nas relações comerciais e, no limite, no desigual confronto de classes.

Então percebam como o sentido da famosa frase se dá no âmbito político e econômico, sendo menos genérico do que seu uso “profano” pode fazer crer. Mas esse uso pode ser considerado ilegítimo? Não, né?

O sentido de efemeridade é aplicável a praticamente tudo na vida. Sempre temos situações que achamos hoje serem imutáveis, mas que giram 180 graus de um minuto para o outro. Um prédio vai pelos ares em segundos. Pode parecer insignificante em uma cidade com milhões deles, mas, se eles forem torres gêmeas, mudam o destino do mundo. Ídolos incontestes sucumbem em uma colisão. Era inimaginável que isso acontecesse, e vocês sabem de quem estou falando, mas a solidez não resiste ao vento do acaso. Só que, como podemos ver, embora seja uma interpretação válida da frase em sentido genérico, ela escapa do real contexto para o qual ela foi criada.

Portanto, é uma questão mais de se saber do que se está falando do que vetar seu uso por um capricho ideológico. O importante é saber o que se faz na cozinha para não passar vergonha na sala. E lembremos que nada impede que novas firulas judiciais façam com que os pedaços de concreto não comecem a cair e que a afirmação objeto deste texto seja mais uma vez falseada em nosso insólito país. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Critique somente o que você conhece. O Manifesto Comunista é curtinho e não exige grande ciência para ser lido, além de poder ser baixado de graça na internet.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2000.

*Pois é… você usa uma frase marxista e nem sabia disso.



quarta-feira, 11 de março de 2026

Navegações de cabotagem – o Museu Histórico e Pedagógico de Pindamonhangaba e a nossa servidão voluntária do quotidiano

(É certo que estamos exercitando a democracia, mas ainda nos entregamos a atitudes tirânicas)

“A borboleta que, esperando encontrar algum prazer, se atira ao fogo, vendo-o luzir, acaba por ser vítima de uma outra qualidade que o fogo tem: a de tudo queimar”.

Etienne de la Boétie

Olá!

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Como é de se esperar, para alguém que viveu anos a fio em uma cidade imensa como São Paulo, morar em Taubaté, ainda que se reconheça como uma cidade razoavelmente grande, não dá nível de comparação possível. Claro que isso é bom, porque é exatamente esse menor movimento que é um dos atrativos daqui. O efeito colateral é que você domina todo o cenário em pouco tempo, e eu já tenho toda a lógica viária traçada na minha cabeça, porque isso em SP é praticamente autodefesa, onde ter orientação especial pode te livrar a cara de encrencas grandes. Por isso, é preciso pensar Taubaté como o miolo de um grande cercado de cidades, que permite fácil chegada a qualquer momento. Isso inclui São José dos Campos, Santo Antônio do Pinhal, Tremembé, Campos do Jordão, Redenção da Serra e várias outras, que podem ser alcançadas em, no máximo, uma hora de deslocamento. Naturalmente, isso inclui Pindamonhangaba, que é quase um continuum de Taubaté.

Embora Pinda seja uma cidade do mesmo contexto histórico das outras do Vale do Paraíba, primariamente não foi por isso que vim para cá pela primeira vez na minha aventura no Vale, mas por motivo médico. Já não sou uma criança, e preciso saber para onde correr na hora do aperto. Como estou formando uma carteira médica novinha em folha, peguei uma indicação que fica nesse lugar, e lá fui para conhecer. Com tempo suficiente, fui tomar um café em um estabelecimento bem agradável e dar uma voltinha pelo Centro, onde achei o Museu Histórico e Pedagógico.

É um belíssimo casarão de estilo neoclássico, que pertenceu a Antônio Salgado da Silva, o Visconde de Palmeira, aristocrata do século XIX que construiu sua fortuna no ciclo do café, aquele período da história brasileira em que se pautou toda a vida econômica do Florão da América no cultivo e exportação da rubiácea. Todo o Vale do Paraíba era ocupado por fazendas de café, o que enriqueceu muita gente dessa classe.

Lá dentro, um grande acervo de objetos se espalha pelos vários cômodos e nos diferentes pavimentos erguidos em taipa de pilão como marcas dessa época e denotando usos e costumes.

O imóvel teve vários usos, incluindo como casa mesmo, para o tal Visconde e sua família, que guarnecia sua casa com diversas obras de arte, como estatuária dirigida para a mitologia grega e romana.

Outra função é a memória local, representada por fotografias de pessoas e eventos que eram marcos sociais da cidade, já que a quantidade de cômodos permite uma grande distribuição de objetos.

O prédio também foi utilizado como hospital durante a Revolução Constitucionalista, que teve muitos episódios ocorridos na região do Vale do Paraíba.

Como já mencionei neste texto, a Revolução é uma grande marca do estado de São Paulo como um todo, e possui a estranha imagem de ser uma derrota rememorada com orgulho.

Outro uso foi como escola normal e colégio estadual, onde se focava no ensino profissionalizante. Muitos utensílios de escritório se encontram lá expostos, inclusive alguns que eu cheguei a utilizar, o que prova que o tempo passa para mim também.

Há uns cômodos reservados para os povos que viviam na região, que incluíam imigrantes, negros escravos e índios, dos quais são exibidos vários utensílios.

Nos pavimentos inferiores, há ainda vários elementos interessantes. Um dos principais é uma magnífica charrete de quatro rodas, que parece prontinha para ser utilizada. Curiosidade é o amortecimento em feixe de molas, moderno para a época.

Outro cômodo abriga o maquinário da antiga gráfica da Tribuna do Norte, jornal quase sesquicentenário que ainda resiste nos dias de hoje na própria cidade de Pindamonhangaba.

E tem também um porão que foi montado à guisa de senzala. É um dos momentos mais pungentes da visita, porque dá uma ideia de sufoco e de repressão muito intensos, representados pelos sacrifícios dos escravos.

Não se limitando ao trabalho duro e ao cerceamento da liberdade, ainda havia amplo uso de tortura…

… e a morte humilhante, para controlar através do medo.


É realmente difícil compreender a escravidão, seja por qual lado ela for vista. Por mais que ela fosse costumeira e até mesmo chancelada por textos sagrados, não faz muito sentido que se ache natural a submissão de um ser humano por outro, como se fossem espécies distintas. Talvez seja o máximo de violência que se pode perpetrar contra alguém, pois envolve tudo: corpo, cultura, manifestação e, se descuidar, pensamento. A pessoa deixa de o ser, ainda que se mantenha viva.

O grande questionamento é se o simples fato de não se ter um senhor de papel passado nos tira da escravidão, ou, pior ainda, se nós não acabamos por nos entregar a ela. Eu olho para minha própria existência e concluo que não há grandes liberdades. É aquilo de todo mundo: ou trabalha, ou não vive. E isso significa seguir horários impostos, tarefas monótonas, imposições forçadas e até uma boa dose de assédio. É estrutural do sistema e não há muito por onde escapar. Claro que chegamos aqui à questão da opção, e, para isso, sou chamado por meu interlocutor imaginário favorito: ora (direis), é possível escolher um caminho diferente. Ninguém te obriga a ser um funcionário que marca cartão. Por que não trabalhas por conta?

É uma visão simplista da realidade, porque somos inseridos em uma estrutura muito maior, que não nos prescinde de obrigações seja lá qual for a senda seguida. Tenho vantagens em ter carteira assinada, assim como é falsa a assertiva de que cuidar do próprio nariz me dá liberdades tão maiores, sendo às vezes o exato contrário. Mais ainda: pesados alfas e ômegas, todos somos bem amarrados pelos próprios sistemas sociais e econômicos.

A coisa diz mais respeito à nossa passividade diante das situações que nos são postas. Em tempos de democracia, ainda que imperfeita, nossa cabeça baixa perde ainda mais sentido do que quando a tirania era companheira de governos aristocráticos e monárquicos. É neste momento em que podemos localizar uma das obras da filosofia mais efêmeras e insólitas, a tese da servidão voluntária de Étienne de La Boétie.

Caracterizado pela sua juventude e pela amizade profunda com o filósofo Michel de Montaigne, La Boétie vive em um tempo onde ainda temos a figura do tirano enraizada nas culturas. Regimes democráticos eram distantes e até mesmo indesejáveis, e só muito tempo depois viriam a ser constituídos e puderam moldar instituições. Entretanto, isso não significa que a tirania deixou de existir; não mais apenas nos governos, que ainda se servem do poder que é colocado em suas mãos, mas em outros aspectos das nossas vidas, tanto individualmente, quanto socialmente. Por isso sua mensagem continua atual.

A pergunta central de nosso jovem Étienne é muito simples. Olhando de modo direto, um tirano é um homem só. Não resistiria nem a dois homens, quanto mais a uma nação inteira. Mas o fato é que toleramos indefinidamente seus caprichos e seus desmandos, como se fôssemos amarrados por grilhões invisíveis.

Essas amarras somente podem ser psicológicas. A tentativa de resposta de La Boétie se dá em dois caminhos que se entrecruzam: uma vontade de obedecer inata e as camadas de burocracia que existem entre o tirano e o governado. Neste último caso, há uma série de paredes hierárquicas que nos tornam tão distantes do tirano (concreto ou simbólico) que não acreditamos ser possível sobrepujar a todas. E eis que a tirania vem em escala. Em uma forma de pirâmide, a rede de tirania nasce de um e vai descendo em níveis que agrupam cada vez mais indivíduos, até formar um aparato tão sólido que parece impossível de ultrapassar. O déspota tiraniza seus ministros, que tiranizam seus adjutores, que tiranizam seus feitores, até chegar à plebe, que só tem a mulher e os filhos para tiranizar e, desta forma, perpetuar dentro de casa a lógica existente fora dela. Só que esses patamares da pirâmide são exponenciais: crescem a cada um deles em quantidade de ocupantes. Assim, um herói que se propusesse a “pegar no braço” um por um, se vê amarrado diante da multiplicidade de subtiranos. Isso pode ser transposto a uma empresa: o presidente tiraniza os diretores, que tiranizam os coordenadores, que tiranizam os supervisores, que tiranizam os chefes, que tiranizam os peões, que tiranizam o cara do cafezinho, que, em resposta, se vinga cuspindo na água do café e mete a mão na esposa e nos filhos quando chega em casa. Ou seja, a tirania está na alma do homem e é transmitida em um efeito dominó, onde somente aquela pontinha mais fraca de todas não tem como reagir, mas mesmo assim tenta, nem que seja arrancando a cabeça de uma boneca. Ela não se desprende por causa da rede de favores, acima e abaixo, que se encadeia entre as camadas. Um favorecimento aqui garante uma fidelidade ali, e a interdependência que isso gera garante a manutenção do estado de coisas. Ainda que a base sinta efeitos pesados, ainda assim ela forma uma espécie de gratidão ao degrau imediatamente acima, por conceder uma benesse mínima. Podia ser pior: talvez nem isso poderíamos ter. Então está consolidada a rede de proteção à tirania – conformamo-nos com as migalhas. 

Mas, por outro lado, parece existir uma espécie de fetiche em ser obediente à tirania. Mesmo quando pensamos em regimes democráticos, e como temos visto em nossas últimas eleições, fechamos um culto a personalidades que não coadunam com a multiplicidade que os cenários verdadeiramente democráticos proporcionam. Escolhemos uma personalidade de estimação e fechamos com ela cegamente, de maneira irracional. A tirania paira sobre nossas cabeças, sem nos abandonar um único instante e ameaçando reaparecer a todo instante. Essa nossa vontade de obedecer é a verdadeira causa de nossa servidão voluntária, principalmente quando elegemos representantes que escancaradamente nos prejudicam, tiram-nos direitos, transferem nossos bens para poucos beneficiados. E ela existe porque nos acovardamos e damos fidedignidade a qualquer um que pareça mais forte do que nós mesmos, mesmo que na base da bravata. É bom pensar no que perdemos quando surge um candidato a déspota em nosso caminho. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Livro curtinho, curtinho, para ser lido em uma sentada de meia hora.

LA BOÉTIE, Etienne de. Discurso sobre a Servidão Voluntária. São Paulo: Edipro, 2017.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O café filosófico do quotidiano – como a existência precede a essência no ser humano

(Ser livre pode não ser tão encantador quanto parece)

“A escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo”.

Sartre

Olá!

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Meus poderes proféticos costumam ter o mesmo valor de uma receita de bêbado. Mas tem vezes que eu acerto algum palpite. Menos na loteria, onde seria de fato útil, mais na antevisão da vida. Digo isso porque previ, embora minha casa fosse sempre povoada de gente, que a debandada seria geral em algum momento, e não deu outra (vejam este texto). Hoje em dia, eu e a patroa, se quisermos, vivemos em perfeito isolamento, sem as interações incessantes que havia antigamente. Nada de chororô, no entanto.

Claro que não falo dos filhos, e acontece que, mesmo no atual estado, ocorre de vez em quando uma invasão no meu apê. Para estas horas, é cabível que eu sirva café. Afinal de contas, eu mesmo me autodeclaro um amante deste consumo, e não faria sentido não oferecer o mesmo para as pessoas que insistem em me ser caras. Só que, paradoxalmente, os métodos que eu tenho são todos para extrair três ou quatro xícaras por vez, no máximo. Isso dá um déficit meio sem graça, porque é preciso dividir o pessoal em turmas.

Para resolver o problema, a solução não é tão complicada: um método que permita extrações maiores, ora pois. Como estava bem barata, comprei uma cafeteira de dois compartimentos, que é apelidada de “econômica”.


Seu funcionamento é um misto de cafeteira italiana link e de cafeteira de sifão, sendo que seu processo é o de ferver a água no recipiente de baixo para que ela suba para o recipiente de cima, em um processo de sucção ocorrido por diferença de pressão, onde estará inserido o pó moído em ponto médio.

Uma vez tendo subido a água, basta que se desligue o fogo, para que o processo de filtragem inicie, sendo levado a cabo por uma tela metálica soldada no meio do trajeto.





Nome do utensílio: Cafeteira econômica

Tipo de técnica: percolação com subida a vácuo

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média/grossa

Dinâmica: A água é colocada para ferver no recipiente de baixo, enquanto o pó fica alocado no recipiente de cima, que receberá a água fervente por um processo de sucção. Após a cessação do processo de aquecimento, o café será percolado pela mesma via por onde a água ascendeu, com a filtragem ocorrendo por elemento metálico.  

Resíduos: Médios

Temperatura de saída: Alta

Nível de ritual: Médio


Eu fico observando aquele engenho simples e me deslumbro com a criatividade humana. Não é o método mais complexo que eu já vi, mas uma solução elementar obtida a partir de pequenas observações dos fenômenos físicos, que incluem a dinâmica da temperatura, da expansão dos corpos, da vedação e diferença de pressão e, no final das contas, da própria gravidade. E isso tudo para cumprir um propósito: obter café. As medidas são precisas. A base precisa de uma dimensão X para completar Y litros, e a vedação necessita de uma borracha específica, para suportar determinada temperatura. A gramatura do elemento filtrante tem que ter espaçamento justo para reter a borra sem impedir o fluxo, e così via.

Desde o momento em que o fabricante comprou a chapa de alumínio para forjar o corpo, as gaxetas de vedação, a baquelite do cabo, tudo já tinha um propósito, um destino, uma finalidade. A cafeteira nasceu para ser uma cafeteira. Filosoficamente, ela tem uma teleologia: um sentido existencial, um servir para algo. Evidentemente, se algo nasceu para um propósito, houve alguém que lhe desse esse sentido.

Mas e o homem? Para que serve um homem? Qual a finalidade de um homem, se ele não tem um artífice, como tem a cafeteira?

A primeira coisa que precisamos balizar diz respeito ao tal artífice. Em termos aristotélicos, ele não é a finalidade em si, mas a sua causa eficiente, a mente pela qual se engendrou um objeto, e a resposta mais óbvia e consagrada seria Deus. Só que essa é uma afirmação cheia de dificuldades.

A primeira de todas seria: qual deus? Dentre todos os panteões possíveis, podemos encontrar aqueles em que a criação é um mero fenômeno quase fisiológico, como se os deuses fizessem homens sem justificativas e os deixassem à própria sorte, como pensavam os estoicos. Nesse caso, não há de se falar em finalidade, já que ela necessita de alguma forma de intenção. Por outro lado, qualquer explicação para a intenção de um artífice, como o deus abraâmico, esbarra nos “para quês” subsequentes. Se Deus criou os homens para louvá-lo, parece a nós uma falta de autossuficiência. Se os criou para povoar o mundo, a pergunta retrocede - para que o mundo? Idem quando se diz que o objetivo era uma criatura que lhe administrasse as outras criaturas - para que as criaturas? E ainda que admitamos a interferência de uma divindade, de qual delas? Qual dos inúmeros mitos de criação seria o verdadeiro, se não temos nenhum tipo de condição de os trazermos novamente à atualidade? Sendo assim, vamos patinar e patinar, sem nenhum tipo de resposta satisfatória. 

Precisamos partir de uma premissa fundamental, portanto: somos fenômenos naturais, que não tem uma causa eficiente que passe dos nossos ascendentes e que delineie nosso destino, haja vista que uma finalidade pressupõe ações em uma direção específica. É possível que pensemos que o propósito reprodutivo é para os nossos pais, mas não para nós mesmos. Um dia eles irão, e, seguindo uma lógica natural, antes de nós (os meus já foram), daí que o propósito precisa estar em nós mesmos. E eis o problema que o existencialismo se propôs a enfrentar.

Se é verdade que não temos uma causa eficiente, também é possível inferir que não temos uma finalidade específica, como é o caso da tesoura usada por Sartre ou da cafeteira usada por mim. Uma cafeteira é uma cafeteira desde o momento em que esteve na mente do engenheiro que a projetou. É perfeitamente possível que ela deixe de ser uma cafeteira e vire um vaso, mas, neste caso, temos o mesmíssimo processo de engenho que cria um uso: há um propósito em lhe colocar terra e planta e, neste momento, há uma teleologia diversificada - um trânsito entre propósitos. Idem com uma tesoura usada como arma branca. Ainda que por insignificantes segundos, alguém vislumbrou um novo propósito para o utensílio, fazendo-o passar pelo crivo do engenho. Sendo assim, podemos inferir que tudo isso já tinha uma essência que, a partir do momento em que ganha concretude, passa a complementá-la, tendo agora uma existência. É perfeitamente possível que essa essência nunca se concretize e, nesses termos, a precedência dela sobre a existência ganha lógica.

Com o ser humano, não podemos dizer a mesma coisa. Uma pessoa nasce sem uma causa específica, e somente pela aquisição de sua subjetividade vai se tornar aquilo que ele é. Nada há a priori na constituição de um ser humano. Nele, a lógica se inverte e a existência precede a essência. Um ser humano se constrói a partir do seu mundo e dos propósitos que visa seguir. Os antigos metafísicos procuravam um tal de natureza humana, algo que preexistisse ao homem, exatamente aquilo que a concepção existencialista nega até a raiz da medula.

Pense no seguinte: por que consideramos qualquer escritor importante? Porque ele escreveu, vendeu seus livros, auferiu seus ganhos, obteve consagração. Isso somente é possível quando vinculado ao ato de escrever, à realidade do escritor, à existência do ato de escrever. Na essência, o escritor simplesmente não existe. É possível falar de conceitos que caracterizam um escritor, mas não o há sem a escrita concreta, existente. Essa lógica se aplica a qualquer atividade humana: professores, operários, jogadores de futebol, médicos. Eles não são nada disso na essência se não estão na concretude da existência. Cada um, a partir da própria subjetividade, realiza e concretiza, o que só é possível estando no mundo. É na vida que se molda o ser.

O sentido mais extenso dessa subjetividade está na projeção de um ser humano para toda a humanidade. Ao se fazer tal como é, uma pessoa não constrói apenas mais uma vida dentre outras, mas a sua própria visão de como a humanidade deve ser. É uma escolha que passa da individualidade, porque dizemos: isso que eu escolhi ser é aquilo que, dadas as condições em que estou, é o que há de melhor para a humanidade toda, e, nesse sentido, a formação da subjetividade é essencialmente ética. Por exemplo, quando eu opto por casar com uma pessoa do mesmo sexo, eu estou assumindo que essa é uma das possibilidades para toda a humanidade, e não somente para mim mesmo. É um belíssimo ponto de contato com o imperativo categórico kantiano. Leiam aqui para entender melhor.

Percebem o tamanho da responsabilidade que isso traz? Não só você é o artífice de si mesmo, como também é um legislador universal. E isso tudo se dá por um único motivo. O ser humano, ao contrário de qualquer ser cuja essência preceda a sua existência, é capaz de escolhas. Sua essência, ou seja, seus elementos constitutivos e característicos só vão se dar depois de sua livre construção. Não há como adquirir sua essência se ele não tem existência. Não adianta eu achar que meu filho será médico se ele não fizer a sua escolha; ao menos, de me obedecer.

Daí que temos o tão clássico desamparo dos existencialistas. Sem uma divindade a que possamos nos agarrar, sem uma moral preestabelecida para guiar nossos passos, sem uma metafísica que nos desenhe, mas possuidores da capacidade de escolha, somos plenos de liberdade. Não uma liberdade absoluta, física, porque isso é impossível, mas uma liberdade de opção, de formar o próprio futuro. Ora (direis), existe algo mais incerto do que o futuro? Pois é… é exatamente esse o motivo de tanta geração de angústia. Sartre diz que até ao procurarmos um aconselhamento sobre o rumo a seguir já constitui uma escolha: se você colocar sua situação a um padre, por exemplo, já escolheu o tipo de conselho que quer ouvir. Mais ainda: aceitar ou não o conselho é opção de quem o ouve. Portanto, cada passo que damos constitui uma escolha livre, e somos incertos do que teremos pela frente. “Ah, mas posso transgredir uma lei”, dirás. É uma escolha. “Ah, mas posso cometer um pecado”. É outra escolha. Vivemos fazendo escolhas, até mesmo quando escolhemos não escolher.

E o que isso tem a ver com a angústia? Só tudo. Desde o momento em que nos vemos defronte a uma escolha qualquer, somos obrigados a adotar uma responsabilidade. Obrigados, eu disse, e isso já é doloroso em muitas das vezes. Não precisa ser em grandes questões: escolher entre a picanha e a alface pode fazer toda a diferença para o prazer e para a saúde, respectivamente - a velha questão da vida breve e intensa confrontada com a vida longa e simplificada. Tudo, absolutamente tudo é fruto de decisões, e a angústia nada mais é do que um grito contra o desconforto que isso nos gera, porque ele acontece sempre, sem possibilidade de ser diferente.

É bem verdade que o ambiente onde vivemos interfere em muito nas nossas decisões, mas elas não deixam de ser decisões por causa disso. Elas podem nos levar para qualquer lugar e, avistando o paradigma de validade universal, é uma assunção única de responsabilidade. E isso é a companheira inseparável da liberdade: somos condenados a ser livres.

Bem pesado e bem medido, parece uma filosofia tão pessimista quanto a de Schopenhauer. Essa sensação se radicaliza quando Sartre afirma que “o inferno são os outros”, algo que, na casca, parece uma ode à solidão. A verdade é que, embora a subjetividade seja a característica humana mais marcante, é a interação entre a minha e a do outro que limita o exercício concomitante das liberdades, e é essa a forma com a qual se dá a existência da vida e das sociedades. É claro que, de uma perspectiva otimista de afirmar a liberdade como valor mais fundamental, deriva-se para uma liberdade obrigatória, punitiva, com peso de condenação, o arremate só poderia ser frustrante: todos têm liberdade e este é meu maior impedimento. Mas essa é a vida, com um sentido que precisa ser doado por nós mesmos, por mais absurdo que isso possa parecer.

Um bom café coado no vácuo bolado pelo engenho humano e bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Rápido e bem explicado, sem os rodeios tão típicos dos franceses do século XX.

SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. São Paulo: Vozes, 2014.