(A Teologia da Libertação é muito criticada na igreja justamente porque manda criticar)
“O sacerdote rompe seu ponto de inserção no mundo; sua missão identifica-se com a da Igreja: evangelizar e animar o temporal. Intervir diretamente na ação política é trair sua função. Quanto ao leigo, porém, a situação na Igreja não o faz abandonar sua inserção no mundo. A ele compete, pois, tanto edificar a Igreja quanto construir o mundo.”
Gutiérrez
Olá!
Terra Brasilis é um país predominantemente cristão, mais do
que parecia há não muitos anos atrás. O catolicismo praticado aqui era aquele
de estatísticas, e as pessoas não eram tão afiliadas como são os evangélicos
hoje em dia. Penso no meu pai, nos meus tios e tantos outros parentes e amigos
que são batizados coisa e tal, mas que pouco passam disso nas questões de
habitualidade, meio chegados a simpatias e superstições que não coadunam
exatamente com um riscado religioso. Mas eu não era bem assim.
Antes da minha “conversão”, eu era um frequentador assíduo
da Igreja Católica, e, diante da pouca proporção entre aqueles que frequentam e
aqueles que arregaçam as mangas, fui pescado para a messe, de modo que acabei
por me tornar uma espécie de faz-tudo: músico, catequista e especialmente
instrutor de coroinhas. Procuro ser realista, e minha modéstia não impede de
dizer: quando eu pego para fazer alguma coisa, sou dedicado e caprichoso. Para
ensinar liturgia aos fedelhos, fui me especializar, ora, em liturgia, e, para
tanto, fui a cursos e comprei livros, além de observar como as coisas eram
feitas em outros lugares, algo que a moderna administração deu o nome de benchmark.
Com isso, eu pude explicar tintim por tintim o que significavam velas e
incensos, porque fazê-los e seus momentos, para que as coisas não ficassem
naquela base meio industrial do “faça o que eu mando”, sem saber por quê. Hoje,
fora do âmbito religioso, posso afirmar com toda a certeza de que, dentro das
suas crenças, nada é vazio de sentido em uma celebração.
Uma das coisas que eu aprendi é que o serviço de altar tinha
uma espiritualidade, e que os acólitos precisavam penetrar neste mundo antes de
iniciar seus ofícios, o que era feito através de uma oração no momento da
formação da procissão de entrada. Eu confesso que nunca fui muito de rezar, por
achar um ato contraditório, mas deixei de usar uma fórmula batida e criei uma
oração própria, que dizia algo assim: “Senhor, dai-nos a força para combater o
bom combate; a sabedoria para bem te servir e a alegria de estar perto de ti,
porque sois o Pai, o Filho e o Espírito Santo”, riscando o rosto com a cruz
nestas últimas palavras. Curto e grosso, e ‘bora puxar a procissão. Eram tempos
em que eu queria transformar um simples grupo de coroinhas em um espaço de
convívio para a molecada que concluía a catequese, mas não tinha o que fazer
depois.
Virei a massa com gosto. Fazíamos visitas a outras paróquias, criávamos campanhas para arrecadar fundos, e com isso tínhamos roupas para todas as épocas litúrgicas, fizemos a festa dos coroinhas por ocasião da festa de São Tarcísio, criamos as investiduras dos novos coroinhas e renovação dos velhos, e até mesmo uma banda acabamos por montar, com tudo o que tem direito, e nos chamavam para tocar nos encontros arquidiocesanos. Nossa canção do grupo dizia:
“Ensina-me, Senhor
A lavar os seus pés pelos pés do meu irmão
Meu Pai, meu Rei, meu Senhor;
Ensina-me, Senhor
A servir teu altar ao servir meu irmão
Meu Pai, meu Rei, meu Mentor;
Ensina-me, Senhor
A beijar o teu rosto ao beijar meu irmão,
Meu pai, meu rei, Salvador
Para seguir, para sentir
A luz do teu olhar diante do teu altar”
A nave muitas vezes chorava emocionada com o coral, com uma
letra que era pura Teologia da Libertação, a camada renegada do pensamento
latino-americano religioso, por ser muito próxima aos movimentos populares na
década de 70. Não deixou de ser uma espécie de vingança minha, fazer os
conservas se emocionarem com minha cantilena de servir ao irmão. Mas vamos
deixar as coisas mais claras.
A Teologia da Libertação é um movimento que nasceu a partir
do Concílio Vaticano II, que ocorreu entre 1962 e 1965, dando um enorme
chacoalhão nas bases católicas. Embora o ponto mais visível dessa imensa
reforma tenha sido a adoção das línguas nacionais na Liturgia, em substituição
ao vetusto e incompreensível latim, o fato é que sua filosofia de fundo era bem
mais profunda.
Colocar as pessoas para entenderem o que era dito em uma
igreja já era um sinal de abertura para o mundo. O aggiornamento
proposto por João XXIII nascia pela própria comunicação, e, ao adotar uma
postura de opção preferencial pelos pobres, o Concílio sinalizou para os locais
onde a pobreza efetivamente ocorria que sua voz precisava ser ouvida.
Com isso, ganharam muita força as conferências episcopais,
reuniões de bispos de uma determinada região para estudar e propor ações com a
ótica local. O efeito mais imediato foi uma visão menos eurocêntrica, que
encarasse a realidade das próprias comunidades, porque é uma lógica simples: a
Itália e a França não têm a mesma realidade do Panamá ou da Argentina. O então
chamado Terceiro Mundo era a legítima parte para reconhecer a própria
realidade, e não os mais estáveis economicamente europeus. Além disso, o
poderio econômico e militar não garantiu a paz na terra. Pelo contrário, a
posição da Igreja Católica durante o teatro da Segunda Guerra foi algo
vexatório, dada a subserviência ao regime fascista e a quase indiferença
perante o genocídio nazista. Era preciso uma resposta e ela veio no formato de
um concílio onde se desse a aproximação com camadas populares.
É nesse seio que nasce a Teologia da Libertação (doravante
TL), uma proposta mais voltada à práxis que as antigas ideias tomistas de
espiritualidade e oração. A principal característica é a proposta de saída do
templo para as ruas: a comunhão não está apenas no altar, mas nos pobres e nos
necessitados em geral. Segundo a TL, o grande problema da igreja era cuidar de
um espírito, esquecendo que ele é indissociável do corpo, não em um sentido
profano, mas de reconhecer que existem necessidades básicas que precisam ser
supridas. Essa prática não pode ser dissociada de fatos concretos,
especialmente participação crítica na vida política.
Qual seria a caridade que um cristão deveria atingir? Elevar
uma pessoa não corresponde a elevar uma classe inteira, então de pouco valem
doações e assistências que não vão reverter situações sociais de injustiça. As
condições materiais, para além da pobreza, estabelecem quem terá níveis maiores
ou menores de liberdade. Só que os grilhões são invisíveis quando não há
condições de se criticar a própria condição. Por isso os teólogos da libertação
entendem que é pela conscientização que os fieis mais necessitados podem
encontrar o caminho salvífico como um todo, e não apenas em indivíduos.
É óbvio que a conjunção de ação e direcionamento aos
necessitados iria colidir com uma posição mais conservadora, de quem usa a
igreja como meio de espiritualidade, e não de suprimento de necessidades
materiais. A TL é acusada, na essência, de trazer o marxismo para as estruturas
dos altares, embora o motivo mais aparente seja exposto como uma negação da
importância do culto, uma espécie de voltar as costas para a religião em si
mesma. Outro fator que aproxima a TL do marxismo é uma espécie de adoção da Tese
Onze*. É preciso que o Cristianismo seja uma prática dos fiéis, e não só um
objetivo espiritual. Ou, melhor dizendo, na práxis espiritual do cristão deve
estar a práxis material, que lhe dá valor de verdade. Não deixa de ser realidade,
mas o próprio Vaticano reconhece o movimento libertário como algo
multifacetado, e não só uma versão comunista com uma cruz no pescoço.
A maneira concreta que foi posta em prática pela igreja latino-americana
foi a criação das CEB’s – Comunidades Eclesiais de Base, que utilizavam uma
metodologia bastante simples: fazer a leitura de trechos do Evangelho e
compará-lo com a vida real dos fiéis, de modo que pudesse ser possível traçar
paralelos e verificar se a mensagem bíblica estava sendo colocada em prática.
Eu estudei em escolinha de CEB e não virei um comunista comedor de criancinhas
por causa disso. Aprendi a rezar no começo das aulas e a ficar de pé quando o
padre entrava na sala, isso sim.
Eu, como um antigo frequentador da igreja, seja na nave ou
nos fundos do altar, posso dizer que a questão da TL nunca foi declaradamente
aberta, por isso consegui introduzir tema correlato a ela sem que o pessoal
percebesse, porque nunca foi um tema bem compreendido no próprio seio dos fiéis
comuns. Apenas se tinha a noção de que o Papa não gostava dela e era o
suficiente. A coisa só pegou mais relevo, de fato, quando o frei Leonardo Boff
teve um cala-boca oficial (silêncio obsequioso, em tucanês) decretado justo por
conta dos ideários da TL.
Pois bem. Uma das principais críticas à TL se dá no âmbito
da reinvenção da roda. Segundo esses críticos, a igreja já possuía muito do que
é preconizado pela TL através da doutrina social da igreja, desde a Rerum
Novarum expedida pelo papado em 1891. Sendo assim, há redundância de propostas
entre ambos, e daí bastaria se reiterar a importância de uma através da outra.
Não sei até onde a crítica faz sentido. Embora seja fato que
desde a Rerum Novarum já se fale em justiça social para os mais pobres, também
é fato que ela insta as classes mais abastadas a cuidarem daqueles mais
necessitados, mas trabalha muito pouco com o senso de conscientização dos
próprios necessitados. A TL prega o espírito crítico justamente para que quem
esteja na parte de baixo da tabela tome consciência de sua situação e não só
reze para Deus, mas que saiba reivindicar direitos.
Outra crítica pesada diz respeito à origem do conceito de
luta de classes, o marxismo, que é ateu e que vê a religião como um mal. Não há
como ser confiável uma doutrina que estabelece o confronto e que tem nas suas
bases uma contrariedade justamente contra aquilo que se é.
Há aqui também uma certa implicância, embora eu entenda o
princípio geral do temor. Colocar a luta de classes como motor da história
social de uma comunidade, independentemente de seu tamanho, não é um
desqualificador, de per si, porque ele não pressupõe uma caminhada para
o ateísmo, mas uma metodologia de pesquisa da realidade, que pode ocorrer sem
se levar em conta o substrato religioso, ou até mesmo ele. Desta forma, o
materialismo histórico-dialético não precisa forçosamente ser contrário à
religião. Eu mesmo acho que a luta de classes, isoladamente, não dá conta de
explicar todo e qualquer fenômeno histórico, porque ele sempre tende a
verticalizar as relações, e sabemos que elas também ocorrem na horizontal, com
disputas que ficam no âmbito da mesma classe social.
Enfim, eu até entendo a resistência que se faz a uma
politização excessiva das igrejas, que o espaço para o culto precisa existir de
fato, porque, se ele não existir, no âmbito religioso, de fato não fará sentido
se dizer que se professa uma religião, e sim uma atividade partidária ou coisa
semelhante. Mas eu não entendo a virulência e a demonização de uma abordagem
que, ao fim e ao cabo, tenta relembrar que Jesus, pelo que se diz, andava com
as prostitutas, com os aleijados, com os bêbados, com os cuspidos, escarrados,
pelados debaixo das pontes. Com os excluídos, enfim. Ele mesmo, pobre e em
terra dominada, era também um excluído, que pregava perdão e concórdia. Isso é
o que menos existe nesta história toda.
Bons ventos a todos!
Recomendação de leitura:
Não critique sem conhecer. O primeiro livro que trouxe o
assunto da TL à baila é muito simples de ler e compreender, e está disponível
gratuitamente na internet.
GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da Libertação.
Petrópolis: Vozes, 1975.
*A tese onze é a seguinte: “Os filósofos têm apenas
interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo”.







