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terça-feira, 28 de julho de 2026

O café filosófico do quotidiano – Como os mitos expressam suas verdades

(Nem sempre um mito é só uma historinha. Ele pode servir como concretização de sistemas de ideias complexos)

“E depois de obtermos as recompensas da justiça seremos como os vencedores que recolhem os prêmios. Tanto aqui, quanto no percurso de mil anos que acabamos de descrever”.

Platão 

Olá!

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Eu nasci em um tempo de transformação. Ainda muita coisa pertencia ao meio mais analógico da vida, mas já havia algumas coisas que despontavam no mundo digital, como os relógios de cristal líquido e o apoio da informática no mundo empresarial, ainda na forma de um computador que armazenava todos os processos mais complexos, enquanto o trivial continuava na base das fichas. E isso, de certa forma, era traspassado para a vida quotidiana. É certo que o ressurgimento de LP’s demonstra que certos retrocessos acabam por se tornar desejáveis, mas no cômputo geral a escala tecnológica é um caminho sem volta. A não ser que surjam ondas de revival e ressuscitem objetos que achávamos mortos. É o caso desse belo método trapezoidal cerâmico, que achei bem barato numa dessas casas orientais.


Ele não é uma mera reprodução dos Melittões que usávamos para agilizar os coadores de pano na minha época de criança, mas um utensílio que teve alguns melhoramentos. Em primeiro lugar, seu material (cerâmica esmaltada) facilita a limpeza e favorece um escoamento com menos aderência.

Além disso, sua base possui três furos de calibre mediano, que visa corrigir o problema clássico dessa arquitetura: a retenção da filtragem e consequente aumento da adstringência e do amargor. Sem contar que é bastante elegante.



Nome do utensílio: porta-filtro cerâmico trapezoidal

Tipo de técnica: percolação com filtragem por elemento de papel

Dificuldade: baixa

Espessura do pó: média

Dinâmica: introduz-se um filtro de papel de tamanho apropriado no porta-filtro, com dobra cruzada nas costuras, para depois realizar-se um escaldamento no mesmo. Deposita-se café moído em ponto médio no filtro. Despeja-se água suficiente apenas para umedecer todo o pó (blooming). Após cerca de trinta segundos, realizam-se ataques de modo a não ultrapassar o limite do filtro ou do porta-filtro.

Resíduos: nenhum

Temperatura de saída: média

Nível de ritual: baixo-médio

Diante do bombardeio de métodos baseados na estrutura V60 (Origami, Mugen, Waals, Fluire, Cone Coffee), talvez essas novas concepções de filtro trapezoidal representem uma espécie de novo ciclo para o método. Um sistema que funcionou bem por tanto tempo pode encontrar nova subsistência. É assim que o mundo gira, e, sendo assim, ele próprio é cíclico.

Essa ideia de universo cíclico já é muito antiga nos conceitos filosóficos, e deriva da compreensão empírica de eternos reinícios. “Depois da tempestade, vem a bonança”, diz um antigo ditado anônimo, que nos passa essa noção de que sempre é possível prever a repetibilidade dos fenômenos. Como é preciso que se obtenham explicações sobre os mais diversos deles, também a ressurgência da vida se enxergou em formato circular. Como não é detectável por meios empíricos, tomou aspecto religioso, e veio a claro na forma da mitologia grega.

O mito de Er é um dos mais conhecidos no âmbito da Filosofia. Veio a público especialmente pela letra de Platão. Antes de cuidar de seu significado, é preciso contá-lo, e vou tentar fazê-lo da maneira mais sintética possível, mas, antes ainda, é preciso pincelar um pouco sobre o significado dos mitos nas narrativas platônicas, visto que as mesmas são abundantes e parecem um contrassenso quando se lembra da objetividade requerida pela razão.

Platão utiliza o mito pelo mesmo motivo que eu uso exemplos e mais exemplos de minhas próprias aventuras neste humilde espaço. Embora toda a racionalidade seja a melhor ferramenta para se obter a aproximação com a realidade em si mesma, sempre se pode notar que ela pode ser um esqueleto, ou uma estrutura, mas carece a ela uma característica: o real palpável. Todas as vezes em que eu reduzir um fenômeno a fórmulas matemáticas, vai faltar uma “carne” para revestir esses ossos, e o mito, ainda que não seja uma realidade efetivamente existente, tem o condão de se apropriar da liberdade criativa para emoldurar a realidade exatamente como queremos. Sendo assim, o mito em Platão não tem o aspecto dogmático de quem se guia por uma fé, mas de complementaridade ao raciocínio construído pelo logos, na função de adjutor. É bem isso que se pode perceber no mito de Er, onde trataremos de aspectos escatológicos e éticos. Mas passemos à sua sinopse.

Conta-se que Er era um soldado da Panfília (atual Armênia) que morreu em combate, junto a diversos companheiros de espada. Restou junto da carnificina de batalha, com outros também mortos, mas foi o único cujo corpo, passados dez dias, permanecia incorrupto. Embora isso causasse admiração, foi encaminhado para as exéquias da mesma forma. Sendo feitos os preparatórios para sua cremação, eis que o gajo volta à vida, para a surpresa geral. Estando acordado, passou a relatar tudo o que vira no seu sono profundo.

Assim que sua alma abandonou seu corpo jazente, foi para um prado tranquilo onde se podia ver quatro aberturas, sendo duas no céu e duas na terra, que tinham o propósito de permitir o ir e vir das almas. Aqueles que eram justos, pegavam o caminho que subia aos céus, enquanto aos iníquos cabia descer às profundezas da terra. Era o Hades, uma espécie de inferno regido pelo deus de mesmo nome, no qual a parte mais profunda era o Tártaro, como uma masmorra onde ficavam os criminosos mais graves.

Esse trabalho de despacho era feito por juízes que se encarregavam de avaliar feitos e culpas de cada um que se lhe compareciam à frente. Disseram a Er para registrar todos os fatos, porque caberia a ele retornar à vida para contar aos outros homens como funcionava o além-vida.

Os recém mortos, portanto, seguiam pelas aberturas que conduziam ao céu ou às profundezas, enquanto os seus respectivos pares serviam para os regressos das almas. Estes que voltavam o faziam para reencarnar. Os que subiam do subterrâneo lamentavam as agruras que passaram, os que desciam dos céus cantavam seus dias felizes. Faziam-no porque ou cumpriam penas de mil anos, ou porque completavam mil anos de regozijo, tudo em função da vida anterior que haviam levado na terra.

Estes que regressavam carregavam consigo os rastros de suas experiências extraterrenas. Os que vinham do céu diziam das maravilhas que lá viveram, enquanto os que subiam do Hades davam graças por ter encerrado o sofrimento. De volta ao prado, as almas que retornarão à vida terrena vão dar de frente com as três Moiras, filhas da Necessidade, de quem sinto-me na obrigação de redigir um texto mais específico, o que farei em breve. Elas são Láquesis (passado), Cloto (presente) e Átropos (futuro), sendo que é a primeira que professa às almas o que haverá de acontecer: serão apresentados a elas vários modelos de destinos – vidas humanas e animais, com livre escolha de cada uma delas. Cada alma escolherá o caminho que percorrerá em sua nova existência. São vidas que tanto podem ser venturosas quanto pacíficas, tirânicas ou pastoris, guerreiras ou filosóficas.

Após a escolha, Láquesis nomeava um daimon para acompanhar a alma encarnante por toda a sua vida, que era urdida por Cloto e tornada irreversível por Átropos. Esse daimon, cuja palavra é a origem do termo demônio, não tem nada a ver com a visão cristã de espírito de maldade ou assecla de Lúcifer. O daimon é uma espécie de guia espiritual que seguirá o renascido em suas trilhas para garantir a execução do destino escolhido. Para nos trazer uma imagem, o daimon estaria atuando naqueles momentos em que temos uma intuição sobre o que devemos fazer nessas encruzilhadas da vida, de modo a nos manter no destino por nós mesmos escolhido perante as moiras. 

Após esse processo, as almas são encaminhadas para o Vale do Esquecimento, onde tomarão as águas do Rio Âmelas antes de reencarnar. Essa sorvedura tem o propósito de fazer esquecer as vidas passadas, para que a nova vida não seja contaminada pelas experiências passadas. Quem bebia demais, esquecia inclusive os vínculos com o Hiperurânio, tornando-se um tolo. Aqueles que bebiam apenas um pouco mantinham boa parte do conhecimento adquirido através das existências sucessivas.

A princípio, o mito de Er parece mais uma entre outras mitologias religiosas sobre o post-mortem, e realmente o é. A escatologia platônica está fortemente calcada na visão órfica, que pressupõe um dualismo corpo-alma e a eternidade dessa última, além da possibilidade de reencarnação e do tráfego entre planos distintos. A ideia de regresso à vida vem da ideia das religiões de mistério que intuíam muitos dos fenômenos humanos a partir da observação de acontecimentos naturais. Assim como uma planta morre em um ciclo, ela renasce por intermédio de suas sementes, o que também ocorreria com os seres sencientes. Inclusive, uma das hipóteses de reencarnação segundo Platão é parecida com a metafísica budista – há a possibilidade de se reencarnar como um animal. A ingestão das águas do Rio Âmelas representaria a ausência de lembranças das vidas passadas, embora aqueles que eram prudentes bebessem menos, o que lhes fazia manter uma tênue recordação, não dos fatos em si, mas das estruturas sapienciais que podiam ser revestidas por novas ocorrências, e este era o que poderia ser considerado o sábio na sua vida atual.

Mas o que está efetivamente sedimentado no mito de Er são os eixos éticos da filosofia clássica. Aqui, encontramos uma discussão bastante profunda com relação ao peso da justiça, que veio refletir inclusive no posterior Cristianismo. Qual é a responsabilidade moral que um indivíduo tem de praticar a justiça? A resposta do mito se dá na forma de prêmio ou punição que não são movidos pelo acaso, uma vez que eles são obtidos a partir de escolhas. Não se pode atribuir à sorte ou a uma divindade o destino que se obteve, vez que ele, desde a origem, é formatado por cadeias de causas e consequências disparadas por nossas opções de vida. Ou seja, muito antes dos existencialistas, Platão já colocava o peso das escolhas sobre o próprio indivíduo. Tudo o que é imputado para alguém de fora – acaso, divindade, outras pessoas – tem unicamente o encargo psicológico de tirar de si as culpas. Percebam que os paradigmas colocados por Láquesis ao retornante são proposituras, e não imposições. Embora não exista a opção de não reencarnar, é perfeitamente possível à alma optar por condutas morais mais perfeitas do que sua mera vontade pode guiar, já que a liberdade de escolha nesse caso é plena. O daimon escolhido para companhia estará em função desta mesma escolha, portanto não deverá ser a ele também imputada nenhuma responsabilidade pela escolha. Esse é o modo com o qual Platão desenha sua ética individual – o indivíduo é completamente responsável pelas suas escolhas, tem livre-arbítrio para tanto e disso deriva sua sorte e seu destino.

O mito de Er sintetiza também uma teoria das reminiscências platônica que não apenas casa com princípios de reencarnação que foram adotados muito mais tarde por espíritas, mas é também uma alegoria sobre o funcionamento de sua epistemologia. Relembrando do princípio geral de que os raciocínios nascem a partir de contatos intelectuais com o mundo das ideias, onde todas as formas são perfeitas, podemos nos perguntar por que não os retemos se estivemos em outras existências. O fato de se beber demais da água do esquecimento alegoriza justamente a atitude que não é filosófica: quem se embriaga com a água sintetiza unicamente a força do momento e da necessidade, sem refletir sobre a prudência da moderação e do cuidado intelectual. Dessa forma, a atitude racional de se manter o máximo de reminiscências melhora o aporte intelectivo em detrimento da supressão de uma necessidade ocasional. E com isso vem a máxima platônica de que aprender é relembrar. Por isso, Platão era um racionalista puro: tudo o que uma pessoa aprende já reside nela mesma, bastando que esse conhecimento seja ativado através da escalada do raciocínio, como Sócrates fez com o experimento intelectualidade do escravo (também vem texto sobre isso por aí).

Sendo assim, crianças, podemos perceber como as aparências enganam. Um mito não é só uma história da carochinha, nem uma mentirinha para ajudar a aquietar as crianças, mas, sendo bem utilizado, é uma ferramenta didática das mais efetivas. E também pudemos ver aqui como algo tão quotidiano quanto um porta-filtros revisitado pode conduzir a discussões que estão nas raízes dos problemas filosóficos há milênios. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

O Mito de Er está na célebre República, então a recomendaremos novamente, sem qualquer constrangimento. Aprendam, jovens, que, se vocês quiserem tomar contato mais íntimo com a filosofia ocidental, esta leitura é inescapável.

PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2014.



terça-feira, 21 de julho de 2026

Sobre patriotismo e refúgios de canalhas

(Samuel Johnson diz que “o patriotismo é o último refúgio do canalha”. É ruim ser patriota, portanto?)

“Uma família que frequenta a igreja não terá um comportamento muito melhor, caso um de seus membros se torne ateu. É a reação a uma deserção, até mesmo a um roubo. Alguém ou alguma coisa roubou ‘nosso’ menino (ou menina). Ele, que era um de nós, agora virou um deles. Com que direito fazem isso? Ele é nosso”.

C. S. Lewis

Olá!

Bem, bem… sacumé, né? O brasileiro já é tão acostumado com apertos e aperreios que, quando eles acontecem, vão consagrar mais uma chacota. Não seria diferente desta vez, quando as coisas trafegavam pelo óbvio. Um futebol chinfrim não ia chegar mais longe de onde escretes autenticamente bons não passaram, ainda mais levando em conta que nem todo ano é 2004*.

A Copa acabou e tem gente dizendo que foi a copa dos protagonistas, dos craques e outras bazófias. Para mim, foi a Copa do óbvio. A campeã era uma das óbvias, a vice também, assim como terceiros e quartos colocados. O craque era óbvio, bem como o artilheiro, além é claro, das decepções, Brasil inclusíssimo. Notem que o grande drama do futebol brasileiro continua sendo o Maracanazo de 1950**. Esse doeu de fato. Os 7x1 foram a maior humilhação, mas não a maior desgraça. O chocolate alemão faz parte da longa cadeia de fracassos que se arrastará por pelo menos 28 anos, o que já constituirá o maior jejum de copas do Onze Canarinho. Então a campanha deste ano será uma espécie de indignação que se transformará em peça de humor, progressivamente. Isso é típico do Patropi.

Eu faço aniversário justo no meio de uma Copa do Mundo, mais especificamente a de 70, gloriosa. Minha mãe contava que meu pai, completamente bêbado, comemorava às escâncaras em pleno hospital a vitória contra o Peru, pelas quartas de final, assim como outros pais completamente bêbados naquela Mooca festiva pelo mega time que tanto orgulhava os 90 milhões em ação. Ou seja, nasci bicampeão para virar tri poucos dias depois. Sendo assim, a cada quatro anos é fácil de me dar um presente. Eu ganhei uma camisa da seleção este ano, daquelas do Extremo Oriente, fornecida pelo filho mais velho. Teve quatro usos e já vai para o fundo da gaveta, esperando 2030.

Mas eu já ouvi algumas pessoas dizendo que a camisa terá uso antes, nas proximidades da eleição deste ano. Sim, eu sei e já falei sobre o sequestro da amarelinha neste humilde espaço (vide), mas, pelo visto, ela continuará a ser uma marca política ainda mais uma vez, e não sei mais quantas, para nosso desespero. Fazem isso por se dizerem patriotas, amar o país e se opor à ameaça vermelha, essas coisas que não se sustentam, mas que seduzem vastas camadas da população, como se pode ver há mais de dez anos no Impávido Colosso.

O grande problema é que se autodenominar patriota é uma mera palavra, uma ação sem significado quando você olhar pela lupa e perceber que tanto os tais patriotas prejudicam sua pátria, muito além do que fazem os tais vermelhos, que também gostam de futebol, mas ficam vetados de amar seu próprio país, nos dizeres desses outros.

E a vingança vem na forma de palavras também. Os que se opõe a essa cosmovisão vão buscar na era georgiana da Inglaterra uma frase que, colocada solta, é uma delícia de pronunciar contra os supostos amantes do verde e amarelo: “o patriotismo é o último refúgio do canalha”. Tem sido bastante usada essa frase.

Este é um aforismo que foi atribuído ao escritor inglês Samuel Johnson, através de sua biografia escrita por James Boswell. Johnson foi um dos mais célebres ensaístas e poetas ingleses do século XVIII, tendo escrito inúmeros artigos para jornais, além de sua especialidade maior, as biografias. Mas nada supera a sua frase lapidar.

Para entender um pouco melhor o que foi dito, é preciso compreender seu contexto, e, para isso, é preciso entender bem o que é o patriotismo e, mais ainda, o que é o amor storgé. Para tanto, vamos recorrer a outro pensador, o irlandês C. S. Lewis.

Eu não sou um dos maiores fãs deste escritor, mas é inegável que ele tenha desenvolvido bem as origens dos conceitos gregos de amor, e, por isso, caberá bem para o que quero discorrer aqui. O storgé é aquele amor que é inerente à espécie e que não depende diretamente de dispositivos racionais ou emotivos, sendo um tipo de instinto gravado na personalidade humana. Provavelmente ocorreu pelo nosso caráter gregário, já que uma predisposição a procurar companhia é um elemento favorável à sobrevivência de uma espécie que não se caracteriza por nenhum grande atributo físico que lhe possa garantir defesa. Dessa forma, surge um forte elo existente entre os membros de uma família, os membros da espécie mais próximos, que não depende de uma formação passional, mas de um convívio habitual. É como se meus genes dissessem que aquele meio é o lugar tranquilo onde eu posso estabelecer uma confiança mínima. Isso acontece em duas mãos. Um bebê tem necessidades que, sozinho, não consegue suprir por si mesmo. Então ele cria um laço afetivo por quem lhe supre essa necessidade. Por outro lado, o bebê é a continuidade da espécie de uma mãe que lhe deu à luz, então essa mãe lhe dá os cuidados como dádiva, e também forma laços poderosos com sua cria. Posto que sem esses nexos causais não haveria manutenção do ser humano, ele acaba sendo inerente à espécie.

Vamos pensar agora. Essa afeição interpessoal é extensível. Em uma comparação meio rústica, meu vizinho ajuda a vigiar meu quintal, e eu faço o mesmo, ampliando a segurança de ambas as casas. E, assim, outras pessoas vão sendo agregadas ao convívio familiar, e essas pessoas vem da sociedade que nos cerca. Esse amor-necessidade se estende à minha redondeza na medida em que eu tenho a necessidade de obter maior segurança, enquanto eu o devolvo na forma de amor-dádiva ao fazer a mesma coisa à minha vizinhança. Da mesma forma, idêntico sentimento se aplica em círculos cada vez maiores, por características que são compactuadas pelos grupos: a língua, o espaço físico, o governo, a bandeira, até o limite onde estes pontos comuns se quebram. Esse território afetivo, mais psicológico do que geográfico, é o que chamamos de pátria.

Podemos perceber que, em si, o patriotismo nada mais é do que uma afeição pelo espaço em que cada um de nós se irmana com aqueles que o condividem com a gente. E, em resumo, isso é quase que uma consequência natural do nosso instinto gregário. O problema, portanto, não está no patriotismo, mas no canalha. Não é o patriotismo que gera o canalha, mas o canalha que se aproveita do patriotismo.

Nestes tempos de Copa do Mundo, é notável a propensão em sentirmos um certo exacerbamento no sentimento patriótico, especialmente pela via de um dos raros ramos onde somos realmente competitivos internacionalmente. Isso enche de brios o povo, e dá sensação de unidade maior do que a que sentimos no quotidiano. Esse sentimento, apesar de legítimo, é facilmente manipulável, e não só por nós, auriverdes. Cansamos de ver o alaranjado presidente ianque interferir no evento, e ele não o faz porque é um amante de futebol, mas porque quer aproveitar cada minuto de destaque que a Copa dá. Nós estranhamos as suas atitudes, mas ele está bem consciente do que a sua comunidade, a sua sociedade, a sua pátria admira. Não à toa, foi eleito duas vezes, em que pese o insólito sistema eleitoral estadunidense. Ou seja, ele sabe mexer com as cruzetas que manipulam as marionetes políticas (ainda que nos causem congestão).

A questão da pátria vai no mesmo condão. Alegar ser um patriota, embora devesse ser uma mera platitude, nada mais é do que tocar em um ponto que é comum a praticamente todos, e isso costuma ser infalível no quesito populismo. Mas é exatamente aqui que entra a canalhice citada por Johnson. Se não tem reflexo na vida real de quem o profere, o patriotismo é um mero manto para interesses próprios. Imagine que você é um político cujas verdadeiras intenções não podem ser abertas a quem vai lhe eleger, sob pena de se ver despencar as intenções de voto. O que lhe restará de discurso? Duas coisas: falar de coisas bonitas, como Deus, pátria e família, e colocar seu adversário exatamente no ponto inverso, como se fosse impossível a ele ser cristão, ser patriota ou acreditar em valores familiares. Pior ainda quando se observa a sua prática, com valores que, a miúdo e sem manipulações, nada têm em comum com o discurso que se professa.

O sentido de refúgio do canalha é, portanto, o de uma casamata onde este pode se escorar todas as vezes em que o vazio de suas ideias se fizer evidente, ou a dubiedade de suas intenções se tornarem claras. Ele é canalha porque usa um sentimento comum como subterfúgio para manter seu meio de manter justamente aquilo que se opõe às suas próprias palavras. E isso desmerece o próprio sentimento de identificação.

Mas o discurso é eficiente, conforme se pode observar em Terra Brasilis.

Estranho esse país.

Bons ventos a todos!

Recomendações de leitura:

Esta é a obra onde Boswell eterniza o aforismo de Johnson:

BOSWELL, James. A Vida de Samuel Johnson. Volume I. Ebook. Brasil: José Filardo, 2019.


E o livro de C. S. Lewis a que me refiro é o seguinte:

LEWIS, C. S. Os Quatro Amores. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.


* 2004 foi um dos anos mais atípicos do futebol mundial. Não foi um ano de copa, mas talvez teríamos algum campeão absurdo se houvesse. Foi o ano em que o São Caetano foi campeão paulista; o Santo André, campeão da Copa do Brasil; o Once Caldas foi campeão da Libertadores e a cereja do bolo: Grécia, campeã da Eurocopa.

** Maracanazo foi um dos episódios mais relevantes do futebol mundial, uma perfeita alegoria dos efeitos das comemorações antecipadas e da decepção com um resultado inesperado. O Brasil era favorito disparado para ser campeão mundial da Cop de 50, por inúmeros fatores: a copa sendo jogada em casa, um estádio novinho em folha e com cerca de 200 mil presentes, uma equipe poderosa, um retrospecto invejável naquela competição, a vantagem do empate e saindo na frente no placar. Mas futebol é futebol e o Uruguai, um time ótimo, mas ainda assim amplamente inferior ao escrete tupiniquim, juntou forças suficientes para uma virada histórica. Todos esses elementos transformaram o improvável resultado no maior drama nacional do esporte. O impacto foi tão forte que até mesmo o uniforme da seleção foi mudado, e o bode expiatório eleito, o goleiro Barbosa, passou o resto de seus dias carregando o fardo de uma culpa que não foi sua.






quinta-feira, 25 de junho de 2026

O café filosófico do quotidiano – a Escola de Kyoto e suas aproximações e contraposições ao pensamento ocidental

(O que é a Escola de Kyoto, principal centro intelectual do Japão?)

“Alguns homens nunca tinham ouvido falar dos escritos asiáticos, e outros jamais se convenceram de que havia algo de valor neles. A todos convém desculpar ou encobrir nossa ignorância, e raras vezes estamos dispostos a permitir alguma excelência além dos nossos próprios limites, semelhantemente aos selvagens que imaginaram que o Sol subia e se punha apenas para eles, e não podiam imaginar que as ondas que rodeavam suas ilhas deixavam corais e pérolas em qualquer outra praia”.

William Jones

Olá!

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Não preciso perguntar se já aconteceu de você, eventual leitor, acordar atrasado para compromissos do quotidiano. Isso deve ter acontecido com certa frequência, neste mundo que não gira, antes capota, especialmente nas nossas metrópoles travadas e longínquas em termos de trânsito. E isso faz com que todo o seu planejado saia do eixo e tudo vire de ponta-cabeça. O reajuste das ações exclui preparos longos e mobiliza a adoção de atalhos. Com isso, aquele cafezinho feito com critério e detalhe precisa ser acelerado, para a infelicidade geral da nação.

Só que dá uma pena desgraçada de queimar vela boa em cima de defunto ruim, ou, melhor dizendo, café de primeira com processo açodado. Então, ao invés de se fazer um despejo único, como se fosse um balde, é possível usar um acessório que torna essa tarefa minimamente mais racional: um gotejador de acrílico que faz o fluxo de água ser feito de maneira contínua, sem a necessidade de se ficar debruçado sobre a tarefa.

A mecânica é simples. O gotejador possui um recipiente onde pode ser colocada água suficiente para uma extração de duas xícaras. Então basta colocá-lo por sobre um método compatível e despejar a água toda da operação.

Como os furos da base do gotejador são diminutos, o fluxo é controlado para que não haja um despejo imenso de uma vez só, o que costuma extrair menos do que um café pode te oferecer.

São combinadas, portanto, uma velocidade compatível para a decência do café e a necessidade de mãos livres para passar manteiga no pão, dentre outras tarefas, do tipo calçar meias e contar o dinheiro do ônibus.

Nome do utensílio: Gotejador acrílico

Tipo de técnica: Retenção de água para gotejamento lento 

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Não se aplica

Dinâmica: Coloca-se o gotejador sobre um método compatível com o café já devidamente alojado. Despeja-se toda a água necessária para a percolação no depósito e aguarda-se o escoamento total. 

Resíduos: Não se aplica, dependendo do método a ser utilizado

Temperatura de saída: Não se aplica, mas, sendo um estágio a mais, tende a torna a temperatura mais baixa

Nível de ritual: Baixo

Estamos diante de um objeto sobre o qual podemos lançar uma dupla visão. Por um lado, no nosso corrido dia-a-dia, é bastante interessante a possibilidade de manter algum controle sobre o sagrado café enquanto saímos correndo atrás de brincos e gravatas. Por outro, é uma espécie de reconhecimento de que não conseguimos dar conta de nossos rituais, lançando mão de expedientes fundeados pragmaticamente, e não no seu autêntico propósito: eu já falei aqui, inúmeras vezes, que o café deve ser feito com cuidado e atenção, e com isso ganhar um novo significado. Tire o café e coloque o que quiser no lugar. A partir do momento em que ele passa a ser um problema a ser resolvido, metade de seu sentido se perde.

É preciso perceber que o mundo é assim mesmo, que ganha velocidade na mesma medida em que se globaliza, ao mesmo tempo em que o trânsito metropolitano aumenta seu travamento a cada dia que se passa, e optamos pelo caminho de abrir mão da serenidade em nome da oportunidade. E é isso que esses fabricantes orientais percebem ao mirar o consumismo ocidental.

Não se trata de pensar somente em coisas ruins. Apenas somos mais agressivos em nosso consumismo e, por isso, somos bons para fazer negócios. Um belo dia, o lado direito do mapa-mundi olhou para nós com menos ojeriza, e viu que aqui havia o que ser absorvido, de modo a até mesmo influenciar em suas filosofias, a ponto de fundar escolas específicas de pensamento.

Escolas filosóficas não são fenômenos raros. Sempre temos uma tendência que capitaneia linhas de pensamento, da mesma forma que é possível observar desenhos táticos prevalentes em determinadas épocas no campo do futebol. Um futebol mais malemolente, apoiado no drible e na improvisação é característico da escola sul-americana. Uma organização tática rígida e muita força física está mais no contexto da escola alemã, assim como o esforço físico levado até a extenuação é a cara da escola italiana, e a escola inglesa se baseia em jogadores altos e inúmeros chuveirinhos. Ora, direis, isso tudo se aplicava ao passado, hoje as coisas estão quase que invertidas. É verdade, e isso demonstra como essa questão de escolas é variável no decorrer do tempo. Hoje os times sul-americanos têm mais que se defender do que os europeus, que lhes toma os melhores jogadores quase no berço. Mas, passons, o mundo gira e a lusitana roda, sem que possamos ter tanto controle assim.

Mas eu dei essa volta para dizer que há diversas escolas filosóficas, que vão desde de divisões dicotômicas, como os racionalistas e os empiristas, até divisões que se dão mais por geografia que por temática. Temos a Escola de Frankfurt, especializada na interpretação moderna do marxismo, o Círculo de Viena e seu positivismo lógico, a École des Annales e a nova historiografia francesa. E já que estamos nos referindo a um produto fabricado no leste do globo, temos aquela que é a primeira escola fundada no Oriente que obteve reconhecimento do mundo ocidental: a Escola de Kyoto.

Kyoto é uma cidade que forma, junto a Kobe e Osaka, a segunda maior região metropolitana do Japão, atrás apenas de Tóquio e adjacências. É uma região que guarda um pouco mais das tradições locais em relação à capital, mas que possui um dos maiores centros educativos do país, a Universidade de Kyoto, cujo principal diferencial está nos estudos das ciências humanas. Também é a terra onde se assinou o célebre protocolo de proteção ao meio ambiente, onde os países da ONU se comprometem, fundamentalmente, a baixar os níveis de emissão de carbono. Embora não tenha sido adotado por quem mais precisava, deixou um importante legado ao ser pela primeira vez colocada a hipótese de compras de créditos de carbono, uma maneira de compensar excessos de emissões e de tentar resolver o problema pela via do bolso, já que pela consciência está difícil.

O aspecto humanista verificado aqui tem a ver com a quantidade de templos da região. Compreende-se que Kyoto se manteve mais fiel do que Tóquio com relação às tradições milenares, e, levando em consideração que grande parte da filosofia praticada no Japão tem fundo religioso, até mesmo porque a religião nipônica tem correlação mais estreita com princípios filosóficos que a matriz abraâmica ocidental (vide), faz sentido que lá se desse o germe da imbricação intelectual com o ocidente.

A Universidade de Kyoto é célebre pela liberdade de pensamento, o que garantiu, desde seus primeiros anos no século XIX, que diversas correntes intelectuais se desenvolvessem concomitantemente. Pouco após sua fundação, seu corpo diretivo já era escolhido por consenso do corpo docente, ao invés de receber indicações do Ministério da Educação do governo central. E é dele que partiu a iniciativa de traduzir para o japonês moderno mais de 30 mil títulos da literatura ocidental, além de fazer o envio dos primeiros jovens estudantes para intercâmbio cultural na Europa. O próximo passo veio na forma de convite a professores de filosofia europeus para ministrarem aulas em solo japonês, o que foi, aos poucos, ampliando cada vez mais a interpenetração entre ambas as culturas acadêmicas.

Isso fez de Kyoto uma espécie de Sorbonne do Extremo Oriente. E, junto ao seu nome, criou-se a abstração que leva o nome de escola, no sentido de estabelecer uma corrente de pensamento que possui algumas características em comum. E a maior delas é a absorção de conteúdo ocidental e sua mescla com as ideias fundamentalmente nascidas do zen budismo.

É preciso, antes de mais nada, situar-se minimamente no tempo e no espaço. O Japão até hoje é ponto de referência quando queremos ter um exemplo de distância, mesmo em tempos de voos intercontinentais com aviões turbinados. E isso se dá há coisa de 100 anos, quando os primeiros aviões conseguiram autonomia suficiente para chegar em um ponto do Oceano Pacífico nem tão próximo da massa continental asiática. Portanto, o contato com o Japão era coisa muito precária até bem pouco tempo atrás. Some-se a isso uma diferença abissal da cosmovisão clássica oriental e as posições ocidentais: mesmo que não façamos juízos de valor, as diferenças de estrutura familiar, de acepção religiosa, de sistemas políticos e sociais e qualquer outra coisa que se possa pensar são tão opostos quanto os pontos de localização no globo.

A evolução dos transportes e das comunicações fizeram com que o contato entre as duas metades do mundo se tornasse mais intenso. E isso resultou em um novo modo de se olhar a maneira de pensar do ocidente. Antes de se tornar um desvirtuamento do pensamento nipônico, os estudiosos de Kyoto perceberam que eles eram complementares.

Embora a escola tenha gerado um número expressivo de pensadores e trabalhos filosóficos, podemos dizer que a tradição que foi criada a partir de seu nascimento possui um tripé composto por pensadores que vieram em sucessão: Kitaro Nishida, Hajime Tanabe e Kenji Nishitani. Cada um à sua forma, todos trilharam mais ou menos o mesmo caminho. A partir de uma matriz budista, fazer a releitura dos fundamentos ocidentais, sem que se tire valor deles por uma questão nacional.

A metafilosofia por trás do pensamento de Kyoto era a universalidade do pensamento. A aproximação ao ocidente se justifica pelo valor dado aos processos cognitivos e pela lógica em qualquer lugar do mundo, que para ter os atributos de universalidade e necessidade, precisavam valer em qualquer tempo e em qualquer lugar. Isso inclui Japão e Alemanha, o principal ponto de contato na Europa para os discentes de Kyoto. Esse posicionamento trouxe críticas de fundo político ao movimento. Por um lado, os nacionalistas afirmavam que, ao se render ao pensamento ocidental, os pensadores de Kyoto perdiam a pureza de uma intelectualidade puramente nipônica. Por outro, a adesão entre ambas as tendências filosóficas (o racionalismo ocidental e a religiosidade oriental) remove as liberdades da primeira, já que, mesmo diante de uma transcendência mais racional, ainda aqui temos posições dogmáticas.

Eu já mencionei aproximações de pensadores europeus ao budismo, e o que a escola de Kyoto fez foi exatamente o mesmo procedimento, porém do lado de lá. Objetivamente, foram mirados os pensadores alemães, exatamente aqueles que fundamentaram toda a filosofia contemporânea: Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger. Notem que são autores que tratam de temas absolutamente universais, ou de pensadores que já tinham um olhar sobre a filosofia oriental, o que, evidentemente, facilita tanto a compreensão, quanto o interesse. São momentos em que se pode perceber uma vontade em se desvincular daquela ideia de que há um conhecimento base do qual outras vertentes, de outros povos, deverão derivar. 

Certamente um dos principais ganhos da Escola de Kyoto foi a criação de um contraponto dialético ao pensamento ocidental, mas não na forma de antítese, e sim de complementaridade. Os ocidentais se preocuparam, via de regra, com o Ser, com a substância e sua maneira de se integrar ao universo. Já os pensadores de Kyoto trabalharam com o reverso da medalha, também considerado pelos ocidentais, mas sem o nível de profundidade que o tema merecia: o Nada. Para mencionar um exemplo, enquanto os existencialistas enxergam o vazio como ausência de sentido para a vida e daí como o grande motivador da angústia, os nipônicos não o veem nessa clave negativa, mas justamente no espaço onde a vida ocorre. Sem o Nada, não há o Ser, porque ele não teria onde subsistir.

Também o fenômeno da consciência tem lugar nos alfarrábios de Kyoto. A experiência é, para eles, tudo aquilo que está além da divisão entre sujeito e objeto, que se dá pela percepção imediata e irreflexiva diante de um fenômeno qualquer. É dessa forma que eles propõem uma solução para o problema da epoché fenomenológica proposta por Husserl: se extraída antes do processamento racional, a experiência ainda não sofrerá todos os efeitos da imersão cultural própria de um indivíduo, e poderá se apresentar mais purificada.

Ainda outro conceito caro à filosofia ocidental, o niilismo, encontra acolhida e aperfeiçoamento pelos nossos bravos estudiosos da Terra do Sol Nascente. O problema diz respeito à negação dos valores que se dá pela perda de sentido dos seus sustentáculos originais na cultura geral da humanidade. Enquanto Nietzsche propõe a supressão da subversão dos valores através da explosão da vontade de potência, os filósofos desta escola defendem o princípio budista da impermanência para o reconhecimento da transitoriedade universal, inclusive nesses mesmos valores que se perderam pela transformação em andamento do universo inteiro, inclusive dos seus valores.

Esses são alguns dos temas que são abordados por Kyoto, que eu já trouxe por aqui e pretendo fazê-lo mais, na medida em que der encaixe e eu me aprofunde um pouco mais em seus autores. Talvez aconteça como naquele dia em que o despertador falhou, ou como em um tranquilo de silêncio e paz, como em uma inspiração espiritual, nunca se sabe. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Para se aprofundar mais nesta interessante escola de pensamento, existe um livro muito completo, que indico logo abaixo.

FLORENTINO NETO, Antonio; GIACOIA JR., Oswaldo. O Nada Absoluto e a Superação do Niilismo. Os Fundamentos Filosóficos da Escola de Kyoto. Campinas: Phi, 2013.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O café filosófico do quotidiano – onde está e o que é o Nada?

(O contato aprofundado com o Japão tem trazido mais do que Jaspions e Jiraiyas)

Nesse sistema, cada coisa é ela mesma em não ser ela mesma, e não é ela mesma em ser ela mesma. Seu ser é ilusão em sua verdade e verdade em sua ilusão. Isso pode soar estranho na primeira vez que se ouve, mas, na verdade, nos permite, pela primeira vez, conceber uma força em virtude da qual todas as coisas são reunidas e trazidas em relação umas com as outras, uma força que, desde os tempos antigos, tem sido chamada de ‘natureza’”.

Kenji Nishitani

Olá!

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Esta história começa com um fato triste. Não se trata de nenhuma catástrofe que tenha ceifado vidas ou modificado destinos, mas de um método de extração de café transformado em cacos.

A coisa foi mais ou menos assim: Curitiba é quase tão boa quanto São Paulo no quesito cafeterias. Enquanto meu filho mais velho ainda morava lá, sempre procurávamos alguma casa diferente para provar os produtos e ganhar repertório. Em uma delas, no saguão de um hotel, pedimos nossos cafés e fomos nos sentar para esperar, até sermos sobressaltados pelo ruído de porcelana caindo no chão. E lá estava a mocinha desesperada com a meleca toda no balcão. Em um impulso, fiquei de pé e fui ajudar com o inútil recolhimento de um grande pedaço que havia saltado sobre o balcão. Quando o peguei, pensei comigo: que método é esse? Era um falecido Origami.

Trata-se de um utensílio muito semelhante ao brasileiro Koar, e segue aproximadamente o mesmo princípio geral: diminuir o contato do filtro com o porta-filtro, através da distribuição de ranhuras que permitem a livre passagem de ar. Porém, aqui as ranhuras têm arestas pontiagudas, enquanto o Koar as tem arredondadas.

Outro diferencial é um maior orifício na base, se comparado aos porta-filtros V60, da Hario. Como o objetivo do método é proporcionar uma passagem rápida da água, esta característica faz com que haja uma retenção menor. O controle deve ser feito através da moagem.

O material de confecção é nobre, sendo composto por porcelana recoberta de resina, com todo o charme que remete às dobraduras de papel tão caras aos japoneses. Há uma explicação para a aplicação da resina, além do efeito estético: a porcelana pura contém muita porosidade, o que provocaria uma retenção indevida de óleos e outros resíduos, com a dupla desvantagem de “roubar” componentes e mantê-las em oxidação, prejudicando o resultado final. 




Nome do utensílio: Origami

Tipo de técnica: percolação em porcelana resinada

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média

Dinâmica: O porta-filtro deve ser inserido em um suporte do tipo mancebo ou anel de madeira (não vem com o produto) e receber um filtro cônico. Após o habitual bloomig, realizar os despejos necessários conforme a receita escolhida. 

Resíduos: Baixos

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: Médio

O acidente foi infeliz, mas me trouxe uma série de reminiscências infantis. Eu tinha uma tia-avó chamada Antônia, espanhola de Cartagena, que tinha duas habilidades muito especiais. Ela era daquelas pessoas que contavam histórias com todo um colorido, que seduzia sua audiência, em especial as crianças. Seu sotaque fortemente marcado ajudava muito na tarefa, porque trazia uma certa aura de mistério, como uma pessoa que vinha de longe (vinha mesmo) e trazia um espírito cigano, de quem tinha visto muita coisa em seus vários anos de vida. E ela era pródiga em fazer dobraduras, que, muitas vezes, juntava às histórias que contava. Ela não apenas ensinava, mas construía todo um enredo através do ato. E não eram barquinhos ou aviõezinhos o que ela confeccionava, mas homens de ternos, cavalos que puxavam carruagens, personagens da commedia dell’arte, e com ela vinham os soturnos negociantes de metais preciosos, os cavalos que transportavam o sol e o Polichinelo falastrão espalhando segredos pela aldeia toda. Um espetáculo. É sério. Era a contação de histórias eleva a nível de bel’arte.

Muito pouco eu aprendi, tanto das histórias, quanto das dobraduras. Talvez o mais diferente sejam os barquinhos de capota, pouca coisa diversa daqueles que colocamos nas bacias de nossos bebês (ainda se usa colocar barquinho de papel nas bacias dos bebês?). Mas uma coisa é certa. O termo origami, tão caro à cultura japonesa e que hoje está no nosso léxico, era absolutamente incomum. Aliás, quando eu era criança, a cultura japonesa ainda era algo muito distante do nosso dia-a-dia. Sushis eram inexistentes fora da Liberdade. Animes e mangás eram raridades restritas aos Ultramens da vida, e muitos dos desenhos que passavam na TV nem davam noção direta de sua procedência nipônica (hentais também não eram populares, para gáudio de Carlos Zéfiro - entendedores entenderão). Tínhamos algumas ocupações mais presas a estereótipos do que a realidade permitiria deduzir: quitandas, tinturarias e “pasterarias” eram clássicas ocupações de japoneses e seus nisseis, sanseis e sucedâneos. Além, evidentemente, dos primeiros lugares em concursos e vestibulares. Mas ainda restava uma visão de colônia mais fechada, de cultura substancialmente própria, como se fosse impensável um japonês bicheiro ou cabulador.

Hoje em dia, a cultura japonesa abriu asas em terras tupiniquins, e encontramos tudo isso que falei em profusão, incluindo rodízios impensáveis outrora, bandejinhas bentô, refrigerantes que explodem na boca, lojas de quinquilharias e, claro, hentais.

O resultado é que não temos mais aquele ar exótico e fechado, embora seja ainda uma cultura inequívoca por suas características próprias. É até óbvio, já que usam língua que nem são de nosso tronco linguístico, tem religiosidade que foge do modelo abraâmico, são bem mais uniformes fenotipicamente e, com isso, não conseguimos ter a mesma proximidade que temos com os demais latino-americanos, por exemplo. Mas o mundo interligado nos permitiu ter um contato muito mais rico com seus valores e manifestações.

Mas não é só da cultura popular que encontramos cada vez mais intersecções com influências orientais, mas no próprio meio intelectual. Os japoneses têm a fama da sabedoria, muito por conta do modo reflexivo com os quais conduzem seus hábitos, religiões e doutrinas, dando um aspecto racional que nem sempre está presente nas tertúlias ocidentais, tidas como passionais e sanguíneas, menos dada a introspecção.

É a partir do século XX que veremos as duas frentes culturais se imbricando, com a abertura das ideias ocidentais penetrando no Japão, e, no caminho inverso, uma melhor compreensão dos fenômenos intelectuais japoneses cada vez mais se apresentando no dito pensamento ocidental. Esse ponto de contato se dá principalmente através da Escola de Kyoto, que funciona como uma espécie de porta de entrada para os filósofos europeus, especialmente alemães, como Kant, Hegel, Schopenhauer, Heidegger e Nietzsche.

Estava com vontade de escrever um texto mais genérico sobre essa escola, mas vou deixar para um segundo momento. Vou falar agora de um exemplo bem marcado de como ambos os modelos de pensamento se imiscuíram a partir desse momento, o que se deu com uma obra que tenho acompanhado nos últimos tempos.

O intelectual Keiji Nishitani faz uma conciliação interessante entre o conceito de niilismo e noções que atravessam a religião oriental, em especial a ideia de vacuidade do budismo.

O momento histórico de onde surgem seus pensamentos tem muito a ver com o fracasso das expectativas surgidas a partir do Iluminismo europeu. Sucessivamente, as tradições, as religiões e mesmo a razão se mostraram frustrantes para fornecer sentido à existência humana. A primeira representa a perpetuação dos estados de coisas que conduzem ao vazio, a segunda demonstrou com o tempo não trazer respostas e a terceira, ao fim e ao cabo, demonstrou que a confiança na ciência e na tecnologia levam ao seu efeito oposto: as guerras hoje podiam, pela primeira vez na história, levar todo o planeta à destruição. Nesse contexto, o niilismo floresce e se consolida: a vida é um grande absurdo em que nada faz sentido. Essa é uma afirmação muito recorrente no existencialismo, especialmente em Camus.

A condição do absurdo é desconfortável. Ninguém se agrada de não ver sentido na sua existência, de não ter qualquer tipo de suporte para sustentar suas motivações, e isso acaba tendo uma solução ilusória: o mundo moderno, fortemente baseado no individualismo, busca cada vez mais se esconder do nada, através da posse contínua e da sensação de uma vida incrível vendida pelas propagandas. O sentido da vida é a compra de passaportes contra o nada. As civilizações do hedonismo são construídas para fugir no niilismo.

Um dos exemplos mais simples está na atual incapacidade de se ver sem um celular na mão (estou digitando este texto em um celular). Com este aparelho, comunicamo-nos com o mundo todo instantaneamente, em um piscar de olhos. É um fenômeno contemporâneo? Nem tanto. Antes dele, havia a televisão, os toca-discos, os walkmen, os rádios… artifícios para desviar o pensamento de nós mesmos. Não são ruins por si mesmos, mas são ferramentas para criar uma cortina entre uma realidade no mínimo desconfortável e uma dimensão feita sob medida para nos mantermos iludidos.

Esse é o grande erro de toda uma sociedade, no parecer de Nishitani. O niilismo não é uma crise do mundo, mas a crise de um ego que busca evitar o vazio, quando, na verdade, deveria explorá-lo.

Toda a fonte de desespero que o humano enfrenta ao se deparar com suas incertezas está baseada no fato de que esse vazio não é absoluto, mas relativo: trata-se de um nada em relação com o próprio ego. As coisas não estão boas para mim, a falta de perspectiva é com relação ao meu futuro, é a minha vida que não avança. Sempre que se coloca algum tipo de problema ou dificuldade, o ponto de referência sou eu mesmo.

Ocorre que, utilizando o princípio de sunyata (vacuidade) do Budismo, Nishitani apresenta a solução ao niilismo de maneira próxima à de Nietzsche. O nada absoluto ocorre quando se consegue despir do próprio eu para se chegar à realidade em si mesma. O nada absoluto é semelhante a entrar em um espaço vazio onde tudo está por ser construído, em um autêntico despejo de criatividade para quem chega a esse estágio. O mundo vai além do ego.

O nada absoluto é uma tela vazia onde você pintará com suas próprias tintas. No dizer de Nishitani, é quando você caminha em uma estrada e perde a noção de destino e, ao olhar para trás, também já não enxerga a origem. No de Nitezsche, é quando se atira no abismo.

De uma forma ou de outra, é possível reconhecer como Nishitani acaba por se aproximar de noções dos fundamentos do próximo conhecimento. Se pensarmos na estética transcendental de Kant, lembraremos que a base mais profunda da relação cognitiva está naquilo que temos de inato: as noções de tempo e de espaço, que acabam por constituir o substrato por onde os conteúdos empíricos são colhidos do mundo. Ao se remover todo esse pacote inserido pelo mundo exterior, ainda assim continuamos a ter o fundamento, agora na forma de nada. Tempo e espaço são os elementos por onde tudo existe, não só na forma concreta, mas da possibilidade.

Portanto, Nishitani vê a vacuidade como um retorno ao inato, ao mais basilar de todos os mecanismos de apreensão do universo para que o ego daquele que se defronta com a angústia possa ter para si a realidade purificada e repleta de possibilidade de transformação. É ao se defrontar com o Ser das coisas que percebemos como elas estão interconectadas e relacionadas para formar a natureza como ela é, em cada um de seus componentes, e que somos parte desse todo, e não apenas nós mesmos. O mundo moderno, impulsionado pelo mercado, tenta nos conduzir para o lado oposto, do individualismo, mas é justo no nada que reencontramos tudo.

Este é o sentido mais autêntico de religião. Não se trata de uma necessidade de reencontro com um ser divino, porque a palavra em si significa “religar”. Mas religar com quê? Com a base que nos constitui, com o reconhecimento de que o universo transita sobre esse nada autêntico. É aqui que se constrói a vida e o sentido, inclusive nos pedaços que se partem ao chão. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Ser mais conhecido no ocidente não significa ter obras traduzidas para o português. É muito difícil achá-las, mas tem sempre um espanhol ou italiano para quebrar nosso galho.

NISHITANI, Kenji. La Religión y La Nada. Madrid: Siruela, 1999.



terça-feira, 5 de maio de 2026

Quindici anni fa: Os italianismos que colorem as coisas que escrevo nesses quinze anos de escrita

(Quinze anos não são quinze dias, mas também não são a eternidade)

“Talvez o dinheiro não compre a felicidade, mas pode comprar uma bela casinha na Toscana, e isso já me basta”.

Lois Greiman

Olá!

Há quinze anos, minha mãe era viva, meu pai também. Eu tinha outro cachorro, ainda tinha 20 passarinhos na gaiola, e meus filhos moravam comigo. Há quinze anos eu professava uma religião, eu não tinha air fryer, eu nem sonhava em trabalhar em home office. Eu tinha poucos cabelos brancos (aliás, tinha muitos cabelos), não tomava remédio para diabetes e só lia livros físicos. Por outro lado, eu já era corintiano, já fazia bons quiches, já morava no centro dessa cidade vertiginosa, embora ainda não a dividisse com Taubaté. O mundo muda e não muda em quinze anos.

Hoje, faz quinze anos que abri este boteco. Muito mudou: os temas, as abordagens, o público. Pouco mudou: o pano de fundo, o jeito de escrever, o próprio escriba. Não queria ser repetitivo, mas sempre é necessário fazer uma rápida reciclagem para quem não me acompanha há tempos. Este blog nasceu quando o formato já não era novidade, inclusive já estava na vazante da maré quando decidi iniciá-lo, como um projeto pedagógico: em pleno estágio acadêmico, eu precisava propor uma ideia que cumprisse a obrigação formativa. Não fui muito criativo, e propus o formato blog para lançar um questionamento partido do quotidiano para que meus alunos refletissem e respondessem em sala. Ora (direis), por que não usaste o próprio espaço de comentários para que os alunos fizessem seus apontamentos? Pois é, mais uma mostra de minha incompetência digital. Mas, uma vez passada a fase de projeto, continuei postando textos, um pouco mais elaborados, e virou uma espécie de repositório de pensamentos e aprendizados. Sendo um formato já ultrapassado, não sei até quando vai durar. Para mim, poderia durar para sempre, porque, nesse tipo de coisa, sou conservador – tenho dificuldade em me adaptar a novos ventos. Falaram para mim sobre o formato newsletter, onde meus textos chegariam aos leitores por e-mail e eu poderia até cobrar pelo serviço. Se ninguém lê o que escrevo de graça, por que pagariam pelo mesmo serviço? Mas não vou ficar com aquelas chorumelas de que não vou isso, não vou aquilo. No mínimo, fico aqui enquanto a plataforma deixar. Dopo, vedremo.

Mas é justamente sobre essas duas últimas palavrinhas que eu vou falar hoje. Nós temos maneiras próprias de nos expressar que nos dá alguma identidade. Uns usam longos períodos, outros repetem palavras com constância, outros ainda usam tantas referências que tornam o texto uma autêntica teia de aranha. Quem me lê com alguma constância, percebe que misturo formalidade com língua coloquial, e sou pródigo em utilizar expressões estrangeiras, não por um viralatismo explícito e assumido, mas porque, de fato, há muita coisa na filosofia que tem suas origens externas. Há os ethos gregos, as veritas latinas, os geists alemães, as durées francesas ou falsafas árabes, e é inevitável que façamos referências a origens etimológicas ou termos consagrados. Mas é evidente que não é isso que salta aos olhos, já que todos que lidam com o tema têm esses termos como matéria-prima. O que eu quero me reportar é aos inúmeros italianismos que venho usando desde o começo da empreitada.

Para começo de conversa, vivemos em um país de numerosos descendentes de italianos, em especial no Sul/Sudeste. Junte-se fatores que estimulavam o êxodo na península mais famosa do mundo, como a incerteza política, a fuga das guerras e a pobreza generalizada com a oportunidade de explorar um território imenso ainda desbravado, mas em franco crescimento, e teremos o alinhamento dos planetas que fizeram o Brasil o território com a maior quantidade de descendentes da bota do mundo. Isso está refletido nas ruas, nos negócios, na cultura e, claro, na minha vida pessoal.

Dia desses, eu estava dando aquele tapa nos documentos velhos, e encontrei um talão contendo os seguintes dizeres: E.E.P.G. Stefan Zweig – Formandos 1983. Era a minha turma do ginasial que encerrava seu ciclo naquela imensa escola da Zona Leste, cada um na busca de seu futuro. O bairro ainda era um repositório dos descendentes de europeus que já começavam a ser tocados para os cantos mais periféricos, onde iriam dividir com os descendentes de negros e indígenas as agruras de morar no que ainda era parte dos limites urbanos da cidade. Coloquei-me a folhear para ver de quais nomes eu conseguia me lembrar da pessoa, e como não dá para saber de qual Marcelo ou Sandra está se falando sem o sobrenome, comecei a compulsá-los. E veio a torrente de oriundi. Era Bartachini, Agnoletto, Beratta, Salerno, Tuzzi, Galletti, Favero, Andreazza, Buchi, Chiavegatti, Tagliatella, Colatti, Mortari, Cordoli, Boldrini, Fiorentini, Pignatti, Peretti, Gianchristofaro, Rizzon, Rompinelli, Tomazelo, Galassi, Quintale, Versutti, Zerbini, Mazziero, Cararetto, Gomeratti, Dovadoni, Giudice, Daneluci, Martinelli, Cescato, alguns já levemente aportuguesados, outros fiéis à escrita italiana, mas todos de origem inegável.

Meio admirado, resolvi fazer um exercício mais recente, puxando o nome da turma de TI do lugar onde trabalho, e lá vem o fenômeno se repetindo: Moretti, Gambarini, Belucci, Chelli, Fasolai, Ricci, Contini, Brandini, Frigoglietto, Morgantini, Breviglieri, Portela, Scarpone, Casarotti, Bertoni, Granato, Mastriani, Stroppa, Pecora, Bergamo, Azzolini, Canatto, Pieri, Girotto, Grassano, Pissolatto, Chinelato, Christianini, Venturini, Perazolo, Corcini, Cortesini, Villani, Paganini, Secco, Croce, Del Cioppo… adesso fermati! È già tanto.

Portanto, ainda que o auge da imigração italiana tenha se encerrado no começo do século passado, o fato é que ela foi tão numerosa que tem seus reflexos na cultura ainda nos dias de hoje, desde um simples ciao até trejeitos bandeirosos e voz alta.

Isso passa pela óbvia culinária: risoto, pizza, talharim e tanta comida que nem dá para se estender tanto, mas por toda a linguagem que foi construída em Terra Brasilis, que difere do português de Portugal justamente por essas influências externas, e o italiano traduz muitas dessas diferenças. São os italianismos, traços da língua italiana traspassados para nosso falar.

No português materno, por exemplo, é muito comum a aplicação de infinitivos, enquanto aqui somos mais adeptos do uso de gerúndios. Por exemplo, não dizemos comumente que estamos “a fazer” coisas, mas “fazendo”, o que é uma forma típica da Itália. Cuidado: não se trata do recente gerundismo que tomou conta dos manuais traduzidos diretamente do inglês e usados como forma de empolação ao falar. A influência italiana, no caso, é plenamente válida na norma culta do português, enquanto o gerundismo, não. Ainda não.

Outra construção típica do italiano que usamos no Brasil é a repetição enfática. Como exemplo, há um provérbio que diz que “Piano piano se va lontano”, um equivalente do nosso “devagar se vai ao longe”. Nós usamos essa repetição de palavras também, em frases do tipo “ele é bonzinho, mas é chato, chato”, “no meu salário este mês não veio nada, nada”, “consigo fácil, fácil”, como se este eco demonstrasse mais realce para a característica que se queira destacar.

Em São Paulo ainda temos o corte do designador de plural “s”, e falamos comumente “os mano” e “as mina”. Isso segue a lógica italiana de não designar plural com a letra “s”. Lá, há diferenças em fazer plural no masculino e no feminino. Assim, moço e moça se dizem ragazzo e ragazza, que no plural vão para ragazzi e ragazze. Sem o S, portanto, o que, no Brasil, vai desembarcar no seu corte puro e simples.

Também as construções do tipo “não me vai fazer errado de novo” são italianismos. Elas se devem ao uso da partícula ne, que não tem nenhum sentido em português, mas que em italiano substitui palavras como “dele” ou “disso”, assim: “Sono un tifoso del Corinthians. Non ne lasciarò mai”. Notem que a partícula não tem nenhuma função no português, mas os italianos recém-chegados acabaram a adaptando de um jeito meio arrevesado, mas que se tornou típico das Moocas da vida, a ponto de se tornar comum na cidade toda. Não me passa uma vergonha dessas, não me deixa a chave no serviço de novo.

A conclusão a que chegamos é que muito do que se pode chamar de influência italiana está imiscuído em nossa cultura, de maneira menos perceptível do que as tarantelas das festas de imigrantes podem fazer supor. Um certo gestual, um tom de voz, um sotaque cantado dos velhos da Mooca e do Bixiga fazem de fato perceber uma proximidade com o modelo de fala que se pratica até hoje na bota. Um derramamento no canto e um volume bastante elevado para outros padrões também são demonstrações inequívocas da influência.  É doloroso falar, mas dia desses, há tempos, eu estava ouvindo um progressivo italiano (I Dalton) quando minha agora defunta mãe perguntou se Bruno e Marrone tinham feito uma versão em italiano de uma de suas chorumelas. Imperdoável, ma non troppo, porque esse exagero é realmente típico dos italianos, e não tinha como evitar que ele fosse traspassado junto com tudo o mais que eles trouxeram para a cultura brasileira em geral.

Eu sou neto de italianos, e isso ficou fartamente comprovado no exame de hereditariedade que fiz há um tempo atrás. Está lá: praticamente 70% de “italianidade”, o que nem foi surpresa para mim, só confirmação. Não é motivo de orgulho, nem de vergonha, apenas a constatação daquilo que eu ouvia da tropa mais velha, aqueles termos sujos dos italianos pobres, que vinham das regiões agrárias fugindo da fome ou da guerra, como tantos daqueles que ostentam os sobrenomes sonoros que listei mais acima. Meus parentes se espalharam pelos bairros típicos de italianos, morando nos antigos cortiços ou nas casas operárias, além da quota de campesinos que fizeram parte da diáspora itálica, pelos interiores de São Paulo e Paraná.

Mas eu peguei bastante prática na língua por causa da faculdade de filosofia. Era época em que já não nos rastejávamos na internet, mas ainda havia pouco material disponível na Última Flor do Lácio. Com isso, era necessário pesquisar em língua estrangeira, o que era um desastre para um monoglota convicto como eu. Apelei para a língua da nonna e fui me aperfeiçoando, inclusive, confesso, aproveitando artigos inteiros para cumprir as obrigações acadêmicas (quem nunca?). Comecei a escavar livros inteiros nos sebos, e fui melhorando e melhorando a leitura, desvendando os mistérios e desfazendo de falsos amigos, até o ponto de fazer meu TCC baseado na maior parte da obra de Giovanni Guareschi na língua nativa, fruto dessas garimpagens e da conotação política havida na obra. Giovanni quem? Beh, Giovannino Guareschi foi um jornalista especialmente ativo na época da Segunda Guerra e, como sabemos, a Itália foi um dos grandes atores do palco de eventos. Ele não foi um autor da grande literatura, como Dante ou Ariosto, mas um cronista sem igual quando o tema é a colisão entre os costumes tradicionais religiosos e os novos tempos da esperança comunista e do aggiornamento católico. Por lá, peguei bastante do formal e do coloquial, da língua simples e do empolamento, porque há políticos e bispos na narrativa, e não apenas aldeães pobres da época da fome. Então eu fui pegando mais e mais o jeitão da coisa, a ponto de me virar muito bem quando o quesito é leitura. Para ouvir, um pouco de calma na interlocução faz maravilhas, mas tenho dificuldades quando a chiacchera pega ritmo. Agora, quando tem que sair de mim, seja falando, seja escrevendo, o buraco fica bem mais embaixo. Ainda sai aquela língua meio suja e rural dos parentes, inclusive com as sutilezas regionais. Mas eu vou tentando melhorar.

Então é por isso que uso tantos termos em italiano nos meus textos, um pouquinho pela influência da nossa linguagem mesclada, um bom tanto pela minha descendência e outro pedaço pelo pragmático uso que fiz da língua nas épocas acadêmicas. Já vi bastante gente fazendo uso de línguas estrangeiras também com outros idiomas, e acho elegante, por isso uso tanto. Não no sentido de substituir pura e simplesmente palavras existentes na língua mãe, mas de colocar um pouco de meus usos e costumes em uma escrita que procura traduzir um tanto de informalidade. Nem só dia-a-dia, nem só Filosofia, é o slogan de guerra do blog. É claro que tento me cuidar para fugir do pedantismo e, principalmente, para me fazer compreender sem perder o colorido da escrita, isso é o mais importante de tudo.

De resto, a pergunta mais comum que me fazem diz respeito à continuidade no formato, que já está bem ultrapassado. A resposta é curta e direta: não sei. Formatos como YouTube e Instagram são muito mais trabalhosos e não quero cair na armadilha de priorizar forma em detrimento do conteúdo. Talvez eu crie alguma forma de trazer remissões para este mesmo lugar, que também não durará para sempre. Não sei se virão mais quinze, sejam anos, meses ou até dias. No final das contas, o mundo gira e impulsiona nossos ciclos, e eles são impossíveis de medir. Mas não importa, porque continuaremos a tentar viver e o término é sempre o mesmo. Não nos importa começar tudo de novo, e de novo, e de novo, até porque… tutti i salmi finiscono in gloria. Buoni venti a tutti!!!

Recomendação de visita:

Vou indicar as três principais festas italianas da cidade de São Paulo, o que já dá a elas o estatuto de mais conhecidas do Brasil. Vão em ordem cronológica da época do ano em que acontecem.

Festa de São Vito Mártir 

Rua Polignano a Mare - Brás 

Ocorre entre maio e julho 

 

Festa de Nossa Senhora Achiropita

Rua Treze de Maio - Bela Vista (Bixiga)

Ocorre em agosto

 

Festa de San Gennaro

Rua San Gennaro - Mooca 

Ocorre entre setembro e outubro