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quarta-feira, 11 de março de 2026

Navegações de cabotagem – o Museu Histórico e Pedagógico de Pindamonhangaba e a nossa servidão voluntária do quotidiano

(É certo que estamos exercitando a democracia, mas ainda nos entregamos a atitudes tirânicas)

“A borboleta que, esperando encontrar algum prazer, se atira ao fogo, vendo-o luzir, acaba por ser vítima de uma outra qualidade que o fogo tem: a de tudo queimar”.

Etienne de la Boétie

Olá!

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Como é de se esperar, para alguém que viveu anos a fio em uma cidade imensa como São Paulo, morar em Taubaté, ainda que se reconheça como uma cidade razoavelmente grande, não dá nível de comparação possível. Claro que isso é bom, porque é exatamente esse menor movimento que é um dos atrativos daqui. O efeito colateral é que você domina todo o cenário em pouco tempo, e eu já tenho toda a lógica viária traçada na minha cabeça, porque isso em SP é praticamente autodefesa, onde ter orientação especial pode te livrar a cara de encrencas grandes. Por isso, é preciso pensar Taubaté como o miolo de um grande cercado de cidades, que permite fácil chegada a qualquer momento. Isso inclui São José dos Campos, Santo Antônio do Pinhal, Tremembé, Campos do Jordão, Redenção da Serra e várias outras, que podem ser alcançadas em, no máximo, uma hora de deslocamento. Naturalmente, isso inclui Pindamonhangaba, que é quase um continuum de Taubaté.

Embora Pinda seja uma cidade do mesmo contexto histórico das outras do Vale do Paraíba, primariamente não foi por isso que vim para cá pela primeira vez na minha aventura no Vale, mas por motivo médico. Já não sou uma criança, e preciso saber para onde correr na hora do aperto. Como estou formando uma carteira médica novinha em folha, peguei uma indicação que fica nesse lugar, e lá fui para conhecer. Com tempo suficiente, fui tomar um café em um estabelecimento bem agradável e dar uma voltinha pelo Centro, onde achei o Museu Histórico e Pedagógico.

É um belíssimo casarão de estilo neoclássico, que pertenceu a Antônio Salgado da Silva, o Visconde de Palmeira, aristocrata do século XIX que construiu sua fortuna no ciclo do café, aquele período da história brasileira em que se pautou toda a vida econômica do Florão da América no cultivo e exportação da rubiácea. Todo o Vale do Paraíba era ocupado por fazendas de café, o que enriqueceu muita gente dessa classe.

Lá dentro, um grande acervo de objetos se espalha pelos vários cômodos e nos diferentes pavimentos erguidos em taipa de pilão como marcas dessa época e denotando usos e costumes.

O imóvel teve vários usos, incluindo como casa mesmo, para o tal Visconde e sua família, que guarnecia sua casa com diversas obras de arte, como estatuária dirigida para a mitologia grega e romana.

Outra função é a memória local, representada por fotografias de pessoas e eventos que eram marcos sociais da cidade, já que a quantidade de cômodos permite uma grande distribuição de objetos.

O prédio também foi utilizado como hospital durante a Revolução Constitucionalista, que teve muitos episódios ocorridos na região do Vale do Paraíba.

Como já mencionei neste texto, a Revolução é uma grande marca do estado de São Paulo como um todo, e possui a estranha imagem de ser uma derrota rememorada com orgulho.

Outro uso foi como escola normal e colégio estadual, onde se focava no ensino profissionalizante. Muitos utensílios de escritório se encontram lá expostos, inclusive alguns que eu cheguei a utilizar, o que prova que o tempo passa para mim também.

Há uns cômodos reservados para os povos que viviam na região, que incluíam imigrantes, negros escravos e índios, dos quais são exibidos vários utensílios.

Nos pavimentos inferiores, há ainda vários elementos interessantes. Um dos principais é uma magnífica charrete de quatro rodas, que parece prontinha para ser utilizada. Curiosidade é o amortecimento em feixe de molas, moderno para a época.

Outro cômodo abriga o maquinário da antiga gráfica da Tribuna do Norte, jornal quase sesquicentenário que ainda resiste nos dias de hoje na própria cidade de Pindamonhangaba.

E tem também um porão que foi montado à guisa de senzala. É um dos momentos mais pungentes da visita, porque dá uma ideia de sufoco e de repressão muito intensos, representados pelos sacrifícios dos escravos.

Não se limitando ao trabalho duro e ao cerceamento da liberdade, ainda havia amplo uso de tortura…

… e a morte humilhante, para controlar através do medo.


É realmente difícil compreender a escravidão, seja por qual lado ela for vista. Por mais que ela fosse costumeira e até mesmo chancelada por textos sagrados, não faz muito sentido que se ache natural a submissão de um ser humano por outro, como se fossem espécies distintas. Talvez seja o máximo de violência que se pode perpetrar contra alguém, pois envolve tudo: corpo, cultura, manifestação e, se descuidar, pensamento. A pessoa deixa de o ser, ainda que se mantenha viva.

O grande questionamento é se o simples fato de não se ter um senhor de papel passado nos tira da escravidão, ou, pior ainda, se nós não acabamos por nos entregar a ela. Eu olho para minha própria existência e concluo que não há grandes liberdades. É aquilo de todo mundo: ou trabalha, ou não vive. E isso significa seguir horários impostos, tarefas monótonas, imposições forçadas e até uma boa dose de assédio. É estrutural do sistema e não há muito por onde escapar. Claro que chegamos aqui à questão da opção, e, para isso, sou chamado por meu interlocutor imaginário favorito: ora (direis), é possível escolher um caminho diferente. Ninguém te obriga a ser um funcionário que marca cartão. Por que não trabalhas por conta?

É uma visão simplista da realidade, porque somos inseridos em uma estrutura muito maior, que não nos prescinde de obrigações seja lá qual for a senda seguida. Tenho vantagens em ter carteira assinada, assim como é falsa a assertiva de que cuidar do próprio nariz me dá liberdades tão maiores, sendo às vezes o exato contrário. Mais ainda: pesados alfas e ômegas, todos somos bem amarrados pelos próprios sistemas sociais e econômicos.

A coisa diz mais respeito à nossa passividade diante das situações que nos são postas. Em tempos de democracia, ainda que imperfeita, nossa cabeça baixa perde ainda mais sentido do que quando a tirania era companheira de governos aristocráticos e monárquicos. É neste momento em que podemos localizar uma das obras da filosofia mais efêmeras e insólitas, a tese da servidão voluntária de Étienne de La Boétie.

Caracterizado pela sua juventude e pela amizade profunda com o filósofo Michel de Montaigne, La Boétie vive em um tempo onde ainda temos a figura do tirano enraizada nas culturas. Regimes democráticos eram distantes e até mesmo indesejáveis, e só muito tempo depois viriam a ser constituídos e puderam moldar instituições. Entretanto, isso não significa que a tirania deixou de existir; não mais apenas nos governos, que ainda se servem do poder que é colocado em suas mãos, mas em outros aspectos das nossas vidas, tanto individualmente, quanto socialmente. Por isso sua mensagem continua atual.

A pergunta central de nosso jovem Étienne é muito simples. Olhando de modo direto, um tirano é um homem só. Não resistiria nem a dois homens, quanto mais a uma nação inteira. Mas o fato é que toleramos indefinidamente seus caprichos e seus desmandos, como se fôssemos amarrados por grilhões invisíveis.

Essas amarras somente podem ser psicológicas. A tentativa de resposta de La Boétie se dá em dois caminhos que se entrecruzam: uma vontade de obedecer inata e as camadas de burocracia que existem entre o tirano e o governado. Neste último caso, há uma série de paredes hierárquicas que nos tornam tão distantes do tirano (concreto ou simbólico) que não acreditamos ser possível sobrepujar a todas. E eis que a tirania vem em escala. Em uma forma de pirâmide, a rede de tirania nasce de um e vai descendo em níveis que agrupam cada vez mais indivíduos, até formar um aparato tão sólido que parece impossível de ultrapassar. O déspota tiraniza seus ministros, que tiranizam seus adjutores, que tiranizam seus feitores, até chegar à plebe, que só tem a mulher e os filhos para tiranizar e, desta forma, perpetuar dentro de casa a lógica existente fora dela. Só que esses patamares da pirâmide são exponenciais: crescem a cada um deles em quantidade de ocupantes. Assim, um herói que se propusesse a “pegar no braço” um por um, se vê amarrado diante da multiplicidade de subtiranos. Isso pode ser transposto a uma empresa: o presidente tiraniza os diretores, que tiranizam os coordenadores, que tiranizam os supervisores, que tiranizam os chefes, que tiranizam os peões, que tiranizam o cara do cafezinho, que, em resposta, se vinga cuspindo na água do café e mete a mão na esposa e nos filhos quando chega em casa. Ou seja, a tirania está na alma do homem e é transmitida em um efeito dominó, onde somente aquela pontinha mais fraca de todas não tem como reagir, mas mesmo assim tenta, nem que seja arrancando a cabeça de uma boneca. Ela não se desprende por causa da rede de favores, acima e abaixo, que se encadeia entre as camadas. Um favorecimento aqui garante uma fidelidade ali, e a interdependência que isso gera garante a manutenção do estado de coisas. Ainda que a base sinta efeitos pesados, ainda assim ela forma uma espécie de gratidão ao degrau imediatamente acima, por conceder uma benesse mínima. Podia ser pior: talvez nem isso poderíamos ter. Então está consolidada a rede de proteção à tirania – conformamo-nos com as migalhas. 

Mas, por outro lado, parece existir uma espécie de fetiche em ser obediente à tirania. Mesmo quando pensamos em regimes democráticos, e como temos visto em nossas últimas eleições, fechamos um culto a personalidades que não coadunam com a multiplicidade que os cenários verdadeiramente democráticos proporcionam. Escolhemos uma personalidade de estimação e fechamos com ela cegamente, de maneira irracional. A tirania paira sobre nossas cabeças, sem nos abandonar um único instante e ameaçando reaparecer a todo instante. Essa nossa vontade de obedecer é a verdadeira causa de nossa servidão voluntária, principalmente quando elegemos representantes que escancaradamente nos prejudicam, tiram-nos direitos, transferem nossos bens para poucos beneficiados. E ela existe porque nos acovardamos e damos fidedignidade a qualquer um que pareça mais forte do que nós mesmos, mesmo que na base da bravata. É bom pensar no que perdemos quando surge um candidato a déspota em nosso caminho. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Livro curtinho, curtinho, para ser lido em uma sentada de meia hora.

LA BOÉTIE, Etienne de. Discurso sobre a Servidão Voluntária. São Paulo: Edipro, 2017.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O café filosófico do quotidiano – como a existência precede a essência no ser humano

(Ser livre pode não ser tão encantador quanto parece)

“A escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo”.

Sartre

Olá!

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Meus poderes proféticos costumam ter o mesmo valor de uma receita de bêbado. Mas tem vezes que eu acerto algum palpite. Menos na loteria, onde seria de fato útil, mais na antevisão da vida. Digo isso porque previ, embora minha casa fosse sempre povoada de gente, que a debandada seria geral em algum momento, e não deu outra (vejam este texto). Hoje em dia, eu e a patroa, se quisermos, vivemos em perfeito isolamento, sem as interações incessantes que havia antigamente. Nada de chororô, no entanto.

Claro que não falo dos filhos, e acontece que, mesmo no atual estado, ocorre de vez em quando uma invasão no meu apê. Para estas horas, é cabível que eu sirva café. Afinal de contas, eu mesmo me autodeclaro um amante deste consumo, e não faria sentido não oferecer o mesmo para as pessoas que insistem em me ser caras. Só que, paradoxalmente, os métodos que eu tenho são todos para extrair três ou quatro xícaras por vez, no máximo. Isso dá um déficit meio sem graça, porque é preciso dividir o pessoal em turmas.

Para resolver o problema, a solução não é tão complicada: um método que permita extrações maiores, ora pois. Como estava bem barata, comprei uma cafeteira de dois compartimentos, que é apelidada de “econômica”.


Seu funcionamento é um misto de cafeteira italiana link e de cafeteira de sifão, sendo que seu processo é o de ferver a água no recipiente de baixo para que ela suba para o recipiente de cima, em um processo de sucção ocorrido por diferença de pressão, onde estará inserido o pó moído em ponto médio.

Uma vez tendo subido a água, basta que se desligue o fogo, para que o processo de filtragem inicie, sendo levado a cabo por uma tela metálica soldada no meio do trajeto.





Nome do utensílio: Cafeteira econômica

Tipo de técnica: percolação com subida a vácuo

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média/grossa

Dinâmica: A água é colocada para ferver no recipiente de baixo, enquanto o pó fica alocado no recipiente de cima, que receberá a água fervente por um processo de sucção. Após a cessação do processo de aquecimento, o café será percolado pela mesma via por onde a água ascendeu, com a filtragem ocorrendo por elemento metálico.  

Resíduos: Médios

Temperatura de saída: Alta

Nível de ritual: Médio


Eu fico observando aquele engenho simples e me deslumbro com a criatividade humana. Não é o método mais complexo que eu já vi, mas uma solução elementar obtida a partir de pequenas observações dos fenômenos físicos, que incluem a dinâmica da temperatura, da expansão dos corpos, da vedação e diferença de pressão e, no final das contas, da própria gravidade. E isso tudo para cumprir um propósito: obter café. As medidas são precisas. A base precisa de uma dimensão X para completar Y litros, e a vedação necessita de uma borracha específica, para suportar determinada temperatura. A gramatura do elemento filtrante tem que ter espaçamento justo para reter a borra sem impedir o fluxo, e così via.

Desde o momento em que o fabricante comprou a chapa de alumínio para forjar o corpo, as gaxetas de vedação, a baquelite do cabo, tudo já tinha um propósito, um destino, uma finalidade. A cafeteira nasceu para ser uma cafeteira. Filosoficamente, ela tem uma teleologia: um sentido existencial, um servir para algo. Evidentemente, se algo nasceu para um propósito, houve alguém que lhe desse esse sentido.

Mas e o homem? Para que serve um homem? Qual a finalidade de um homem, se ele não tem um artífice, como tem a cafeteira?

A primeira coisa que precisamos balizar diz respeito ao tal artífice. Em termos aristotélicos, ele não é a finalidade em si, mas a sua causa eficiente, a mente pela qual se engendrou um objeto, e a resposta mais óbvia e consagrada seria Deus. Só que essa é uma afirmação cheia de dificuldades.

A primeira de todas seria: qual deus? Dentre todos os panteões possíveis, podemos encontrar aqueles em que a criação é um mero fenômeno quase fisiológico, como se os deuses fizessem homens sem justificativas e os deixassem à própria sorte, como pensavam os estoicos. Nesse caso, não há de se falar em finalidade, já que ela necessita de alguma forma de intenção. Por outro lado, qualquer explicação para a intenção de um artífice, como o deus abraâmico, esbarra nos “para quês” subsequentes. Se Deus criou os homens para louvá-lo, parece a nós uma falta de autossuficiência. Se os criou para povoar o mundo, a pergunta retrocede - para que o mundo? Idem quando se diz que o objetivo era uma criatura que lhe administrasse as outras criaturas - para que as criaturas? E ainda que admitamos a interferência de uma divindade, de qual delas? Qual dos inúmeros mitos de criação seria o verdadeiro, se não temos nenhum tipo de condição de os trazermos novamente à atualidade? Sendo assim, vamos patinar e patinar, sem nenhum tipo de resposta satisfatória. 

Precisamos partir de uma premissa fundamental, portanto: somos fenômenos naturais, que não tem uma causa eficiente que passe dos nossos ascendentes e que delineie nosso destino, haja vista que uma finalidade pressupõe ações em uma direção específica. É possível que pensemos que o propósito reprodutivo é para os nossos pais, mas não para nós mesmos. Um dia eles irão, e, seguindo uma lógica natural, antes de nós (os meus já foram), daí que o propósito precisa estar em nós mesmos. E eis o problema que o existencialismo se propôs a enfrentar.

Se é verdade que não temos uma causa eficiente, também é possível inferir que não temos uma finalidade específica, como é o caso da tesoura usada por Sartre ou da cafeteira usada por mim. Uma cafeteira é uma cafeteira desde o momento em que esteve na mente do engenheiro que a projetou. É perfeitamente possível que ela deixe de ser uma cafeteira e vire um vaso, mas, neste caso, temos o mesmíssimo processo de engenho que cria um uso: há um propósito em lhe colocar terra e planta e, neste momento, há uma teleologia diversificada - um trânsito entre propósitos. Idem com uma tesoura usada como arma branca. Ainda que por insignificantes segundos, alguém vislumbrou um novo propósito para o utensílio, fazendo-o passar pelo crivo do engenho. Sendo assim, podemos inferir que tudo isso já tinha uma essência que, a partir do momento em que ganha concretude, passa a complementá-la, tendo agora uma existência. É perfeitamente possível que essa essência nunca se concretize e, nesses termos, a precedência dela sobre a existência ganha lógica.

Com o ser humano, não podemos dizer a mesma coisa. Uma pessoa nasce sem uma causa específica, e somente pela aquisição de sua subjetividade vai se tornar aquilo que ele é. Nada há a priori na constituição de um ser humano. Nele, a lógica se inverte e a existência precede a essência. Um ser humano se constrói a partir do seu mundo e dos propósitos que visa seguir. Os antigos metafísicos procuravam um tal de natureza humana, algo que preexistisse ao homem, exatamente aquilo que a concepção existencialista nega até a raiz da medula.

Pense no seguinte: por que consideramos qualquer escritor importante? Porque ele escreveu, vendeu seus livros, auferiu seus ganhos, obteve consagração. Isso somente é possível quando vinculado ao ato de escrever, à realidade do escritor, à existência do ato de escrever. Na essência, o escritor simplesmente não existe. É possível falar de conceitos que caracterizam um escritor, mas não o há sem a escrita concreta, existente. Essa lógica se aplica a qualquer atividade humana: professores, operários, jogadores de futebol, médicos. Eles não são nada disso na essência se não estão na concretude da existência. Cada um, a partir da própria subjetividade, realiza e concretiza, o que só é possível estando no mundo. É na vida que se molda o ser.

O sentido mais extenso dessa subjetividade está na projeção de um ser humano para toda a humanidade. Ao se fazer tal como é, uma pessoa não constrói apenas mais uma vida dentre outras, mas a sua própria visão de como a humanidade deve ser. É uma escolha que passa da individualidade, porque dizemos: isso que eu escolhi ser é aquilo que, dadas as condições em que estou, é o que há de melhor para a humanidade toda, e, nesse sentido, a formação da subjetividade é essencialmente ética. Por exemplo, quando eu opto por casar com uma pessoa do mesmo sexo, eu estou assumindo que essa é uma das possibilidades para toda a humanidade, e não somente para mim mesmo. É um belíssimo ponto de contato com o imperativo categórico kantiano. Leiam aqui para entender melhor.

Percebem o tamanho da responsabilidade que isso traz? Não só você é o artífice de si mesmo, como também é um legislador universal. E isso tudo se dá por um único motivo. O ser humano, ao contrário de qualquer ser cuja essência preceda a sua existência, é capaz de escolhas. Sua essência, ou seja, seus elementos constitutivos e característicos só vão se dar depois de sua livre construção. Não há como adquirir sua essência se ele não tem existência. Não adianta eu achar que meu filho será médico se ele não fizer a sua escolha; ao menos, de me obedecer.

Daí que temos o tão clássico desamparo dos existencialistas. Sem uma divindade a que possamos nos agarrar, sem uma moral preestabelecida para guiar nossos passos, sem uma metafísica que nos desenhe, mas possuidores da capacidade de escolha, somos plenos de liberdade. Não uma liberdade absoluta, física, porque isso é impossível, mas uma liberdade de opção, de formar o próprio futuro. Ora (direis), existe algo mais incerto do que o futuro? Pois é… é exatamente esse o motivo de tanta geração de angústia. Sartre diz que até ao procurarmos um aconselhamento sobre o rumo a seguir já constitui uma escolha: se você colocar sua situação a um padre, por exemplo, já escolheu o tipo de conselho que quer ouvir. Mais ainda: aceitar ou não o conselho é opção de quem o ouve. Portanto, cada passo que damos constitui uma escolha livre, e somos incertos do que teremos pela frente. “Ah, mas posso transgredir uma lei”, dirás. É uma escolha. “Ah, mas posso cometer um pecado”. É outra escolha. Vivemos fazendo escolhas, até mesmo quando escolhemos não escolher.

E o que isso tem a ver com a angústia? Só tudo. Desde o momento em que nos vemos defronte a uma escolha qualquer, somos obrigados a adotar uma responsabilidade. Obrigados, eu disse, e isso já é doloroso em muitas das vezes. Não precisa ser em grandes questões: escolher entre a picanha e a alface pode fazer toda a diferença para o prazer e para a saúde, respectivamente - a velha questão da vida breve e intensa confrontada com a vida longa e simplificada. Tudo, absolutamente tudo é fruto de decisões, e a angústia nada mais é do que um grito contra o desconforto que isso nos gera, porque ele acontece sempre, sem possibilidade de ser diferente.

É bem verdade que o ambiente onde vivemos interfere em muito nas nossas decisões, mas elas não deixam de ser decisões por causa disso. Elas podem nos levar para qualquer lugar e, avistando o paradigma de validade universal, é uma assunção única de responsabilidade. E isso é a companheira inseparável da liberdade: somos condenados a ser livres.

Bem pesado e bem medido, parece uma filosofia tão pessimista quanto a de Schopenhauer. Essa sensação se radicaliza quando Sartre afirma que “o inferno são os outros”, algo que, na casca, parece uma ode à solidão. A verdade é que, embora a subjetividade seja a característica humana mais marcante, é a interação entre a minha e a do outro que limita o exercício concomitante das liberdades, e é essa a forma com a qual se dá a existência da vida e das sociedades. É claro que, de uma perspectiva otimista de afirmar a liberdade como valor mais fundamental, deriva-se para uma liberdade obrigatória, punitiva, com peso de condenação, o arremate só poderia ser frustrante: todos têm liberdade e este é meu maior impedimento. Mas essa é a vida, com um sentido que precisa ser doado por nós mesmos, por mais absurdo que isso possa parecer.

Um bom café coado no vácuo bolado pelo engenho humano e bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Rápido e bem explicado, sem os rodeios tão típicos dos franceses do século XX.

SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. São Paulo: Vozes, 2014.



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Navegações de cabotagem – o Sítio do Pica-pau Amarelo de Taubaté e as oportunidades que não se podem deixar passar

(Ah, mas eu não perderia uma chance dessas...)

“O homem deve criar as oportunidades e não somente encontrá-las”.

Francis Bacon

Olá!

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Pelo tempo que frequento Taubaté, até que demorou. Esta terra se vangloria de ser a naturalidade de Monteiro Lobato, considerado até hoje o principal escritor infantil de Ilha da Vera Cruz, ainda que com uma boa dose de polêmica. O epíteto autoproclamado é “Capital Nacional da Literatura Infantil”, justamente pelo filho ilustre. Se o vínculo é efetivamente forte, eu não sei, já que o escritor em questão viveu em várias outras cidades, como a que lhe traz o nome ou Areias, onde foi procurador, e ambas também lhe rendem homenagens, mas o fato é que existe um parque na cidade que recebe o nome de sua magnum opus, Sítio do Pica-pau Amarelo.

O espaço está instalado no que era conhecido como “Chácara do Visconde”, pertencente a José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé, que veio a ser o avô de Monteiro Lobato. É uma construção típica dos grandes fazendeiros da época, feita em taipa de pilão e pau a pique, material mais comum das construções de então.

Esta casa concentra um acervo de objetos pertencentes a Monteiro Lobato e sua família, distribuídos pelos mais de dez cômodos existentes, incluindo uma certa ambientação de época e um posicionamento original dos móveis e utensílios, como a sala de jantar.

O “quintal” da casa é uma grande área de 20000 m2, que já foi muito maior no passado, e que era cercado de arvoredos. Hoje em dia, o que prepondera são as mangueiras, especialmente produtivas nesta época do ano.

O Sítio do Pica-pau Amarelo é uma série de histórias onde Monteiro Lobato retrata muito de sua infância e traz uma boa dose de sua visão de mundo. Evidentemente, os personagens do Sítio estão espalhados por toda parte, tanto dentro da casa…

… quanto fora dela, a maioria deles no que poderíamos chamar de “tamanho natural”.

A grande vedete, como se pode esperar, é a boneca Emília, alter ego do escritor e o pivô em torno do qual as histórias são contadas.

É através dessa personagem que Monteiro Lobato exterioriza uma boa parte de seus pensamentos e acaba por se inserir em pessoa nas próprias histórias, muitas vezes de forma um tanto polêmica.

Enfim, é um espaço cuja finalidade é contar um pouco sobre a vida do autor e dar informações sobre sua mais conhecida obra.

O espaço tem sua função e é uma daquelas ilhas de paz em uma cidade razoavelmente agitada, já salvaguardada minha origem paulistana. As informações são relevantes e, de fato, trazem um clima de Sítio do Pica-pau Amarelo para quem se acostumou a ler as histórias em tempos escolares. Mas eu sinto uma falta, e preciso falar sobre ela, sem querer que se traga sobre mim nenhuma espécie de ranço ou rancor.

Taubaté, a meu ver, lida muito mal com suas oportunidades turísticas. Não basta colocar um letreiro na entrada principal da cidade e uma estátua de três metros do escritor se não se vê mais nada a respeito da temática cinquenta metros depois. Quando eu viajava para estes lados e via esses artefatos, imaginava que a cidade toda era povoada de referências ao autor e à obra, que ganhou muito impulso a partir da década de 70, quando sua obra infantil virou um imenso sucesso televisivo. Mas não se vê quase nada, a não ser uma figura aqui, um nome de loja ali, uma homenagem acolá.

Outras cidades capitalizaram fatos e fizeram limonadas a partir de limões históricos, ou seja, transformaram situações que se mostravam jocosas ou humilhantes em oportunidades de mudar o transcurso da história. Penso em Itu, de quem já falei aqui, mas que reitero em apertada síntese: ainda na era do rádio, o humorista Francisco Flaviano de Almeida lançou o personagem Simplício, um homem do interior cujo principal mote era exagerar nos tamanhos das coisas de sua terra natal, a precitada Itu. A ironia estava no fato da cidade ser (então) pequena até no nome, e o sucesso da piada ressoou na fama do lugar. Ao invés de sentir humilhação, toda sorte de gigantismo foi sendo instalado: o semáforo, o orelhão, uma praça completa. O comércio veio junto e os souvenires são encontrados em toda parte: chinelos, chaveiros, sorvetes, fósforos e tudo o mais que se pensar. Quem vai a Itu hoje já vai em busca de um atrativo que a cidade não tinha, chegando até mesmo a esquecer sua importância republicana.

Outro caso diz respeito a Varginha, nas Minas Gerais. Uma história confusa, envolvendo três meninas que supostamente teriam avistado um ET, conciliada com uma mistura explosiva de fatos mal explicados e teorias da conspiração fizeram dessa cidade ao sul de Minas Gerais uma capital nacional da ufologia. A chance de cair na ridicularização era grande: parece que o tal do ET era um mendigo se aliviando. Hoje em dia, passados exatos 30 anos, a cidade absorveu toda a curiosidade que se voltou a ela e possui toda sorte de equipamentos que fazem referência a marcianos, naves espaciais e qualquer temática relacionada a OVNIs, incluindo até mesmo repartições públicas.

Taubaté não tem nada disso com relação ao Sítio. Resignada, a cidade tem se sujeitado a ser conhecida como a capital da mentira: tudo o que é de falsificado é “de Taubaté”, a Xuxa, o Batman, o parkour, tudo capitaneado pela célebre grávida e inaugurado pela Velhinha de Taubaté, a última cidadã brasileira a acreditar no governo da ditadura, criação do cronista Luís Fernando Veríssimo, antevendo uma credulidade ingênua dos habitantes desta terra. A cidade, segundo o autor, foi escolhida aleatoriamente por ser lugar pacato, mas é mais do que certo de que há uma sombra de Jeca Tatu nessa opção, mesmo que inconscientemente.

São Luís do Paraitinga e seu carnaval de chifre e rabo, São Thomé das Letras e suas bruxas… São muitos os exemplos de cidades que apareceram no mapa por conta de um pequeno episódio, de uma história perdida, de um evento qualquer que chamou a atenção do país, mas que foi aproveitado pelos governos e moradores para justificar sua existência e, melhor ainda, trazer dividendos.

Quer saber? Se eu fosse do corpo gestor (o atual prefeito se autodenomina gestor) de Taubaté, não somente daria uma estilingada na ênfase ao Sítio, mas também exploraria ao máximo essa história da grávida. Parece politicamente incorreto, mas ninguém precisaria passar por humilhação. Uma grande feira de roupas para gestantes poderia ser o pontapé inicial para uma divertida nova vocação para a cidade. A princípio, roupas vindas de polos produtores, para depois o próprio mercado se encarregar de trazer produção para cá. Isso seria uma espécie de impulso inicial, para que o próprio mercado se desenvolvesse na esteira. Afinal, a cidade tem tradição têxtil, tendo em vista o tradicional apito da Companhia Têxtil Industrial - CTI, que até hoje é disparado como se ainda chamasse seus funcionários.

E a grávida? Ela é viva e, pelo visto, não se sente disposta a fazer ressurgir essa história toda. Afinal de contas, Taubaté voltou para o mapa pela sua história surreal*, e se deu pela chave da ridicularização, o que é indigesto para quem vive aqui, e isso eu sinto ao abordar o tema com os mais antigos. No final das contas, se tudo for lidado com habilidade, ela pode ser a mais beneficiada de todos. Um acordo de uso de imagem traria tranquilidade financeira e reverteria a imagem negativa que ela possui até hoje, especialmente porque traria bom humor para um tema que é tratado com vergonha, por ela e pela população. Uma espécie de padroeira que estaria presente na feira e teria oportunidade única de se redimir com seus concidadãos, além de tirar todo o peso de seus atos. Limão, limonada, sacaram? Eu só não sou rico por preguiça.

Falando de maneira mais séria, é o custo de oportunidade sendo colocado como exemplo com toda a força. Esse é um dos poucos termos que eu lembro dos tempos em que estava na faculdade de contábeis, matéria que eu detestava a despeito do excelente professor Maurício, por conta de contas e mais contas. Ele diz respeito a tudo aquilo que deixamos de ganhar ao fazer opção por uma determinada atividade econômica. Os exemplos são fáceis, e vou tirá-los de mim mesmo. Ao renunciar continuar tocando em bandas, eu tive a oportunidade de melhorar meus estudos e aperfeiçoar meus conhecimentos, o que me deu melhores condições para encarar a própria vida, que segue claudicante, mas segue. Mas, embora fosse possível prever que a carreira musical não daria em nada, não é algo que podemos nos assegurar. Poderia dar um daqueles encaixes que acontecem de vez em quando no universo e hoje eu estivesse em um daqueles iates aportados em Mônaco, deitado nas glórias de uma carreira de sucesso.

Mas o custo de oportunidade não se dá em suposições vazias, como essa. Para ter uma efetiva dimensão do que se deixa de ganhar, é preciso compreender onde se pode chegar, e, para isso, é preciso ter uma melhor ideia dos recursos disponíveis e de sua aplicação. Uma garagem, por exemplo, comporta uma oficina ou um salão de beleza, nunca os dois. Compreender qual o melhor uso significa dimensionar os ganhos de um ou de outro, e isso é muito mais complexo do que pode parecer. Uma oficina pode parecer trazer maiores ganhos, mas isso se houver público suficiente para seu uso em tempo integral. Por outro lado, o valor agregado do salão pode ser melhor, e, mesmo tratando de cifras mais miúdas, produzam um resultado mais exuberante. O que importa é: quanto se deixará de ganhar com a oficina se instalarmos o salão? Esse é o custo de oportunidade, um valor implícito e de difícil aferição, mas que existe.

Ocorre que esse custo não é somente econômico, mas social, ambiental e qualquer outro aspecto em que uma opção implica em uma renúncia. Tudo o que poderia se deixar de ganhar com obtenção de empregos, por exemplo, faz parte do custo de oportunidade de deixar passar batido símbolos fortes que uma cidade carrega. E eu percebo o tamanho do que se deixa de lado, especialmente pelo fato de ter vindo recentemente de fora, e trago essas percepções justamente por afinidade a esta terra. Vim morar aqui por ter gostado do lugar, e quero vê-lo cada vez melhor. A oportunidade é uma limonada, o custo é o limão. 

Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Não sou muito versado nas artes da economia, então fui na biblioteca pegar umas referências melhores e encontrei esse livro, que me deu uma boa clareada nas ideias.

MANKIW, Gregory. Introdução à economia. Princípios de micro e macroeconomia. São Paulo: Atlas, 2001.

E tem também o parque, bem próximo da região central de Taubaté. É sempre melhor visitá-lo nas férias e nos finais de semana, em que as feirinhas e as apresentações teatrais acontecem.

Sítio do Pica-pau Amarelo - Museu Monteiro Lobato 

Avenida Monteiro Lobato, sem número 

Chácara do Visconde

Taubaté/SP 

A aproximadamente 130 km do centro de São Paulo.

*Para quem não sabe da história: em 2012, surgiu a história de uma grávida de quadrigêmeas em Taubaté. O insólito da situação não estava na gravidez em si, rara, mas não raríssima, mas do formato de bola de praia que a barriga da suposta gestante, evidentemente falsa, mas que rendeu horas e mais horas de reportagens na televisão de baixa seriedade. Eu, sinceramente, tenho uma opinião que beira a teoria da conspiração: a própria emissora que mais divulgou o caso foi a principal “armadora” da história toda, ao perceber os índices de audiência que poderia obter a partir do absurdo da situação.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Os verdes mares de onde não há mar – 14ª Parada: Paraisópolis, a terra do vento e a filosofia por trás dele

(A multiplicidade de significados do vento o torna uma das alegorias mais poderosas para um monte de coisas)

“E estas coisas acontecerão diante de ti todo dia e toda noite, no inverno e no verão, até que o homem seja capaz de tirar de si mesmo o sopro e de recolocá-lo, e ele será capaz disto até que seja privado de alguns destes fenômenos congênitos”.

Hipócrates

Olá!

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(Avertissement: O local para onde fui fica exatamente entre duas das séries de viagens que já fiz, esta e esta. Decidi pela segunda porque eu quis parece fazer um pouco mais do contexto das serras do sul de Minas do que da Mantiqueira paulista).

Um ruído estranho pode começar repentinamente e estrondoso, mas não é o caso do que acontece com a suspensão do meu carro neste momento. Misterioso, um ranger indefinível e sem lógica povoa meus tímpanos desde que começaram as correrias de fim de ano, e não consigo encostar a viatura no mecânico para obter um veredicto. A princípio, parece algo como uma borracha desgastada, mas eu e os “mecânicos” da casa não conseguimos achar nada*. Recomendação do Zé (esse sim, mecânico de profissão) é trocar a bomba de combustível. Pode ser ela, e mesmo que não, já está na hora de trocar. Isso me aflige, e eu tenderia a deixar o possante na garagem, mas eu tenho uma tradição e não a abandono sem estar de cama, que é fazer um passeio qualquer com a patroa por ocasião do aniversário de casamento. Como sempre, é curtinho, porque é momento de dureza excepcional, dados os gastos igualmente excepcionais das festas de fim de ano, bem como é momento tenso no trabalho, com trocas de gestões e relatórios de entregas. Então o negócio é pegar um dos finais de semana que guarnecem o casamento civil ou religioso, qualquer um serve.

Como é viagem de tiro curto, não arrisco partir de mochila nas costas, como gosto de fazer, mesmo que de maneira metafórica. Então vou em alguma pousadinha de preço convidativo e um mínimo de condições, normalmente razoavelmente próxima de casa, e sem grandes ousadias por trilhas e estradas de terra. Como o calor está senegalês nestes últimos dias, e também como a Mantiqueira está às vistas da minha janela, o negócio é subir as montanhas. Fui para Paraisópolis.

Da mesma forma que em Queluz, Redenção da Serra e da próxima Brazópolis, Paraisópolis é terra incrustada nos morros, mais do que outras cidades da região, razão pela qual é repleta de ladeiras calçadas com macadames.

Essas terras do Sul de Minas não são exatamente novas, e muitas tiveram suas histórias escritas pelos tropeiros, que caminhavam por estes lados trazendo víveres e correndo atrás de minérios para levar para a corte. Isso faz com que existam muitas construções históricas, a grande ênfase desta minha viagem com impedimentos para a combalida suspensão do monstrão. Um dos grandes clássicos é o Mercado Municipal, que, com recente reforma, está tinindo de novo.

Aqui há os produtos típicos da terra, que, em Minas, significam cachaça e queijo, além de muitas coisas mais, como o artesanato feito com escavação de madeiras.

Outro prédio histórico é o grupo escolar Bueno de Paiva, daquele estilo bem típico dos primeiros anos do século XX. O homenageado veio a ser vice-presidente do Brasil no período conhecido como café-com-leite (para saber mais, leia este texto).

Há também uma antiga estação de trem, muito comum por essas cidades e vilas serpenteadas pela rede mineira de viação, de quem tanto falei por aqui, e que hoje serve como um centro educacional. Os trilhos não existem mais e só um investimento meio pesado conseguiria trazer algum passeio turístico. Mas a estação está bem preservada e é utilizada para fins escolares.

Outra construção histórica é o casarão das Irmãs Carvalho, antiga sede de uma fazenda dos tempos em que o município ainda era a Vila de São José de Paraíso. Fica na parte mais baixa da cidade, próxima à entrada que vem da rodovia.

Hoje uma casa de cultura, abriga dois importantes acervos de filhos ilustres. O primeiro é do cantor Carlos Gonzaga, muito famoso na época da jovem guarda pela música Diana, que ouvi até a exaustão na época da novela Estúpido Cupido, uma espécie de revival dos então recentes tempos da Jovem Guarda.

O outro é do escultor Amílcar de Castro. Pertencente à escola do Neoconcretismo, cujo principal nome é o holandês Piet Mondrian, produziu obras em metal que estão espalhadas pelo Brasil afora. Como dizem os mandamentos da escola, o poder de síntese de um artista é o que de melhor ele pode externar para seu público.

A cidade possui um pequeno parque na área urbana que também é usado como praça esportiva e repouso nesses dias calcinantes.

Ele tem um curioso apelido que acabou se consagrando, e que faz entrever o fenômeno que ocorre nos finais de tarde. Provavelmente por sua posição geográfica, fica em uma região de acúmulo de águas pluviais, o que é atraente para os insetos.

Espalhados pelas diversas praças da cidade, os símbolos da fé local saltam os olhos. Estamos ainda na época natalina, e na praça temos o coreto montado com o trono do papai Noel e seus paramentos diversos.

O presépio na véspera do Dia dos Reis também está lá. Como todo católico deveria saber, este é o dia em que se diz haver chegado à manjedoura que serviu de berço para Jesus os três reis magos que lhes trouxeram dons. O episódio é todo cercado de simbologia, e não cabe aqui esmiuçá-lo. Procurem conhecer a história, é bem interessante para a constituição de uma religião.

A igreja matriz é dedicada a São José, padroeiro da localidade desde os tempos em que era ainda uma vila pertencente a Pouso Alegre.

Já esta antiga capela é dedicada a Nossa Senhora da Soledade, e fica na praça do Larguinho.

Nesta mesma praça há, pelo que consegui entender, um monumento que representa o Marco Zero da cidade, com os dizeres típicos do estado de Minas Gerais. Percebam a placa de revitalização pregada na própria peça, como se fosse um poste de luz qualquer. Ou o monumento não tem valor, ou não se dá importância ao fato histórico que se quer representar. Sem mais.

Algo digno de nota é a quantidade de pousadas em Paraisópolis destinadas a peregrinos do Caminho da Fé, uma rota que ruma para Aparecida e que atravessa a Mantiqueira, partindo de Águas da Prata.

A pousada em que estive hospedado é um dos pontos onde se obtém o carimbo comprobatório do ponto de passagem, uma chancela oficial ao peregrino que cumpre a rota, no mais das vezes por uma promessa.

Acho que o cálculo da caminhada prevê que um dos pousos será nesta cidade, o que virou um belo negócio. Para qualquer lugar que se olhe, é possível encontrar referências à Santa e à romaria.

Mas há uma referência ainda mais importante. A cidade tem o epíteto de “Terra do Vento”, e isso é perceptível em cinco minutos, especialmente no alto dos morros. Devido à sua posição geográfica, fica em uma espécie de canalização dos ventos da região, e o fluxo de ar é bem mais intenso do que costumamos ter em outras cidades. É difícil tirar fotos do vento, então precisamos de observações indiretas, como as roupas enroladas nos varais.

O vento tem uma representação metafórica das mais poderosas. Como eu disse acima, nós não o vemos, mas ele está presente e podemos senti-lo, muitas vezes de maneira dramática, como andou ocorrendo no final do ano passado em algumas cidades do oeste paranaense. São tempos de mudança climática, ainda que haja muita resistência em reconhecê-lo, e se torna imprevisível saber o que vai acontecer. Pode ser que Paraisópolis simplesmente “seque” de ventos e vire uma nova Cuiabá, ou pode se tornar a terra dos furacões, um novo Caribe, algo igualmente ruim. Mas vamos tentar tornar leve o tema, assim como foi leve a viagem.

Essa primazia do sentido visão é inerente à espécie, mas é esse o pior dos sentidos para perceber a sua presença, que só se faz pelo meio indireto. Os ouvidos captam seus zunidos e o olfato lhe pega bem cheiros e perfumes, mas é no tato que melhor percebemos sua presença, onde se dá sua forma de ação. É como em uma das poucas músicas que eu gosto do Biquini Cavadão, Vento Ventania: abrandar o calor do sol, emaranhar o cabelo das meninas, enroscar as pipas nos fios. O vento atua sem que saibamos, ou demonstrando toda sua força – derruba folhas e derruba árvores.

Às vezes eu olho pela janela de casa logo ao alvorecer, como tanta gente faz. Não é um momento de grandes descobertas: vemos o que é normal, com poucas mudanças em relação ao dia anterior. Mas elas existem. Hoje, por exemplo, está mais cheio de folhas que o normal, vindas especialmente das árvores das calçadas. Ainda que isso não represente nenhum fato que mude a história, demonstra como ela anda, como o tempo não pára. É o vento que levou embora as folhas mais velhas, trouxe as mais novas, misturou todas, levou algumas, deixou outras. No final das contas, como os eventos são caóticos, sempre me resta o quintal por varrer. Há uma ordem mesmo na mais profunda bagunça.

Quando Heráclito quis descrever o seu modelo de arché, quando quis especificar seu elemento fundamental, observou as mudanças constantes ocorridas no universo ao seu redor e deduziu ser o fogo que lhe consiste, exatamente por seu caráter transformador. Se sua intenção fosse meramente fazer uma alegoria, poderia confortavelmente referir-se ao vento, que transforma sem modificar. Nesse sentido, poderia ser até uma alegoria mais forte, porque demonstra como podemos ser outros mesmo que não nos caia um único fio de cabelo.

Mas a metáfora do vento carrega em si não só a transformação, mas a amostra de que essa transformação nem sempre é voluntária. Peguem-se as chuvas de verão: não são as águas que derrubam árvores, por maior que seja sua quantidade, mas o vento. Para além da incompetência das prefeituras, isso é a lembrança de que as forças da natureza são incontroláveis, e, com isso, o destino vai junto. Somos reféns do destino assim como a embarcação é refém dos ventos, e só nos resta um pálido desejo de que tudo vá bem: bom dia, boa tarde, boa noite. O desejo não depende do destino, mas de nossa própria força interior. Quando eu desejo bons ventos nos finais dos meus textos, é a isso que eu me refiro.

Mas só? Não. Por muito tempo, a força impulsionadora dos barcos no oceano eram basicamente duas - os remos e o vento. Os primeiros eram eficientes para aqueles pequenos percursos, embora houvesse imensas embarcações que lançavam mão de contingentes de escravos, e que serviam justamente para a falta do vento, este sim, o principal mecanismo dos primeiros tempos das artes náuticas. Uma força disponível que se colocava a serviço do engenho humano usado na sua melhor forma: a descoberta de que a mobilidade das velas poderia absorver essa energia para praticamente qualquer direção, com um esforço infinitamente menor.

Então pensamos que a direção do vento é o que importa. Sim, importa e muito, mas a ausência dele é a pior das desgraças. Percebem a força da alegoria? A vida estática é menos desejável que a vida atribulada, porque podemos sucumbir à borrasca, mas estacionar no meio do oceano é pior ainda, observando nosso próprio ressecamento em nós mesmos, primeiro no tédio, depois na absoluta fraqueza. Sempre tememos a idade, porque ela nos tira o ânimo, a vitalidade, o vento. Portanto, precisamos que os ventos nos empurrem não só por uma questão de sobrevivência, mas para dar sentido à vida. Não à toa, os divinistas falam em um sopro, a pneuma grega que representa esse impulso que cessa junto com a vida.

Se aprofundarmos nossa ideia, veremos que o vento, como sopro de vida, assemelha-se aos princípios filosóficos dos impulsos, como a dynamis aristotélica, a vontade schopenhaueriana, o conatus spinoziano, a vontade de potência nietzschiana, as pulsões freudianas, o élan vital bergsoniano, e provavelmente daquele que mais o vinculou organicamente à própria vida, o patrono dos médicos, Hipócrates, aquele do juramento. Para ele, a vida não se explicava somente por fenômenos mecânicos, mas por um sopro vital que impulsiona um todo dinâmico em cada um dos corpos, como parte representativa da própria natureza. Não se trata de uma interferência divina, mas de um todo regido por um princípio vital. Ele acreditava no fundamento do vis medicatrix naturae, ou seja, a natureza é o remédio de si mesma e tem o poder de se fazer retornar ao equilíbrio perdido, justamente pela ação desse princípio vital. O papel do médico na cura, nesse sentido, não estava em tentar magias, mas em ajudar o próprio corpo nessa tendência, desfazendo barreiras que o impeçam de resgatar sua própria natureza, resultando no restabelecimento da saúde. O elemento de impulso é uma força pertencente ao campo do instinto e da irracionalidade, que o próprio Hipócrates dá exatamente o nome de sopro.

Vejam como, portanto, quando queremos fazer aquele maravilhoso uso humano da linguagem, que permite condensar em uma única palavra tudo o que representa ação invisível, incerteza no destino, força interior, transformações bruscas ou contínuas, temos o vento ao nosso favor. Uma das metáforas mais belas que nosso intelecto já pode criar, por ser múltipla, poderosa, rica, poética. Paraisópolis tem esse nome também por conta dessa mercê. Bons ventos a todos. 

Recomendação de leitura:

Hipócrates vai muito além do juramento, mas é preciso cuidado na análise de suas premissas, que podem parecer tão extemporâneos a ponto de obnubilar seu modo de pensar. Recomendo esta edição abaixo, bilíngue, que pode até mesmo ajudar quem queira se versar em grego.

CAIRUS, Henrique F.; RIBEIRO JR., Wilson A. Textos Hipocráticos: o Doente, o Médico e a Doença. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005.

 

*Só para não deixar a história sem um desfecho, era apenas um coxim do amortecedor direito, para salvação do meu orçamento.