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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O café filosófico do quotidiano – como a existência precede a essência no ser humano

(Ser livre pode não ser tão encantador quanto parece)

“A escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo”.

Sartre

Olá!

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Meus poderes proféticos costumam ter o mesmo valor de uma receita de bêbado. Mas tem vezes que eu acerto algum palpite. Menos na loteria, onde seria de fato útil, mais na antevisão da vida. Digo isso porque previ, embora minha casa fosse sempre povoada de gente, que a debandada seria geral em algum momento, e não deu outra (vejam este texto). Hoje em dia, eu e a patroa, se quisermos, vivemos em perfeito isolamento, sem as interações incessantes que havia antigamente. Nada de chororô, no entanto.

Claro que não falo dos filhos, e acontece que, mesmo no atual estado, ocorre de vez em quando uma invasão no meu apê. Para estas horas, é cabível que eu sirva café. Afinal de contas, eu mesmo me autodeclaro um amante deste consumo, e não faria sentido não oferecer o mesmo para as pessoas que insistem em me ser caras. Só que, paradoxalmente, os métodos que eu tenho são todos para extrair três ou quatro xícaras por vez, no máximo. Isso dá um déficit meio sem graça, porque é preciso dividir o pessoal em turmas.

Para resolver o problema, a solução não é tão complicada: um método que permita extrações maiores, ora pois. Como estava bem barata, comprei uma cafeteira de dois compartimentos, que é apelidada de “econômica”.


Seu funcionamento é um misto de cafeteira italiana link e de cafeteira de sifão, sendo que seu processo é o de ferver a água no recipiente de baixo para que ela suba para o recipiente de cima, em um processo de sucção ocorrido por diferença de pressão, onde estará inserido o pó moído em ponto médio.

Uma vez tendo subido a água, basta que se desligue o fogo, para que o processo de filtragem inicie, sendo levado a cabo por uma tela metálica soldada no meio do trajeto.





Nome do utensílio: Cafeteira econômica

Tipo de técnica: percolação com subida a vácuo

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média/grossa

Dinâmica: A água é colocada para ferver no recipiente de baixo, enquanto o pó fica alocado no recipiente de cima, que receberá a água fervente por um processo de sucção. Após a cessação do processo de aquecimento, o café será percolado pela mesma via por onde a água ascendeu, com a filtragem ocorrendo por elemento metálico.  

Resíduos: Médios

Temperatura de saída: Alta

Nível de ritual: Médio


Eu fico observando aquele engenho simples e me deslumbro com a criatividade humana. Não é o método mais complexo que eu já vi, mas uma solução elementar obtida a partir de pequenas observações dos fenômenos físicos, que incluem a dinâmica da temperatura, da expansão dos corpos, da vedação e diferença de pressão e, no final das contas, da própria gravidade. E isso tudo para cumprir um propósito: obter café. As medidas são precisas. A base precisa de uma dimensão X para completar Y litros, e a vedação necessita de uma borracha específica, para suportar determinada temperatura. A gramatura do elemento filtrante tem que ter espaçamento justo para reter a borra sem impedir o fluxo, e così via.

Desde o momento em que o fabricante comprou a chapa de alumínio para forjar o corpo, as gaxetas de vedação, a baquelite do cabo, tudo já tinha um propósito, um destino, uma finalidade. A cafeteira nasceu para ser uma cafeteira. Filosoficamente, ela tem uma teleologia: um sentido existencial, um servir para algo. Evidentemente, se algo nasceu para um propósito, houve alguém que lhe desse esse sentido.

Mas e o homem? Para que serve um homem? Qual a finalidade de um homem, se ele não tem um artífice, como tem a cafeteira?

A primeira coisa que precisamos balizar diz respeito ao tal artífice. Em termos aristotélicos, ele não é a finalidade em si, mas a sua causa eficiente, a mente pela qual se engendrou um objeto, e a resposta mais óbvia e consagrada seria Deus. Só que essa é uma afirmação cheia de dificuldades.

A primeira de todas seria: qual deus? Dentre todos os panteões possíveis, podemos encontrar aqueles em que a criação é um mero fenômeno quase fisiológico, como se os deuses fizessem homens sem justificativas e os deixassem à própria sorte, como pensavam os estoicos. Nesse caso, não há de se falar em finalidade, já que ela necessita de alguma forma de intenção. Por outro lado, qualquer explicação para a intenção de um artífice, como o deus abraâmico, esbarra nos “para quês” subsequentes. Se Deus criou os homens para louvá-lo, parece a nós uma falta de autossuficiência. Se os criou para povoar o mundo, a pergunta retrocede - para que o mundo? Idem quando se diz que o objetivo era uma criatura que lhe administrasse as outras criaturas - para que as criaturas? E ainda que admitamos a interferência de uma divindade, de qual delas? Qual dos inúmeros mitos de criação seria o verdadeiro, se não temos nenhum tipo de condição de os trazermos novamente à atualidade? Sendo assim, vamos patinar e patinar, sem nenhum tipo de resposta satisfatória. 

Precisamos partir de uma premissa fundamental, portanto: somos fenômenos naturais, que não tem uma causa eficiente que passe dos nossos ascendentes e que delineie nosso destino, haja vista que uma finalidade pressupõe ações em uma direção específica. É possível que pensemos que o propósito reprodutivo é para os nossos pais, mas não para nós mesmos. Um dia eles irão, e, seguindo uma lógica natural, antes de nós (os meus já foram), daí que o propósito precisa estar em nós mesmos. E eis o problema que o existencialismo se propôs a enfrentar.

Se é verdade que não temos uma causa eficiente, também é possível inferir que não temos uma finalidade específica, como é o caso da tesoura usada por Sartre ou da cafeteira usada por mim. Uma cafeteira é uma cafeteira desde o momento em que esteve na mente do engenheiro que a projetou. É perfeitamente possível que ela deixe de ser uma cafeteira e vire um vaso, mas, neste caso, temos o mesmíssimo processo de engenho que cria um uso: há um propósito em lhe colocar terra e planta e, neste momento, há uma teleologia diversificada - um trânsito entre propósitos. Idem com uma tesoura usada como arma branca. Ainda que por insignificantes segundos, alguém vislumbrou um novo propósito para o utensílio, fazendo-o passar pelo crivo do engenho. Sendo assim, podemos inferir que tudo isso já tinha uma essência que, a partir do momento em que ganha concretude, passa a complementá-la, tendo agora uma existência. É perfeitamente possível que essa essência nunca se concretize e, nesses termos, a precedência dela sobre a existência ganha lógica.

Com o ser humano, não podemos dizer a mesma coisa. Uma pessoa nasce sem uma causa específica, e somente pela aquisição de sua subjetividade vai se tornar aquilo que ele é. Nada há a priori na constituição de um ser humano. Nele, a lógica se inverte e a existência precede a essência. Um ser humano se constrói a partir do seu mundo e dos propósitos que visa seguir. Os antigos metafísicos procuravam um tal de natureza humana, algo que preexistisse ao homem, exatamente aquilo que a concepção existencialista nega até a raiz da medula.

Pense no seguinte: por que consideramos qualquer escritor importante? Porque ele escreveu, vendeu seus livros, auferiu seus ganhos, obteve consagração. Isso somente é possível quando vinculado ao ato de escrever, à realidade do escritor, à existência do ato de escrever. Na essência, o escritor simplesmente não existe. É possível falar de conceitos que caracterizam um escritor, mas não o há sem a escrita concreta, existente. Essa lógica se aplica a qualquer atividade humana: professores, operários, jogadores de futebol, médicos. Eles não são nada disso na essência se não estão na concretude da existência. Cada um, a partir da própria subjetividade, realiza e concretiza, o que só é possível estando no mundo. É na vida que se molda o ser.

O sentido mais extenso dessa subjetividade está na projeção de um ser humano para toda a humanidade. Ao se fazer tal como é, uma pessoa não constrói apenas mais uma vida dentre outras, mas a sua própria visão de como a humanidade deve ser. É uma escolha que passa da individualidade, porque dizemos: isso que eu escolhi ser é aquilo que, dadas as condições em que estou, é o que há de melhor para a humanidade toda, e, nesse sentido, a formação da subjetividade é essencialmente ética. Por exemplo, quando eu opto por casar com uma pessoa do mesmo sexo, eu estou assumindo que essa é uma das possibilidades para toda a humanidade, e não somente para mim mesmo. É um belíssimo ponto de contato com o imperativo categórico kantiano. Leiam aqui para entender melhor.

Percebem o tamanho da responsabilidade que isso traz? Não só você é o artífice de si mesmo, como também é um legislador universal. E isso tudo se dá por um único motivo. O ser humano, ao contrário de qualquer ser cuja essência preceda a sua existência, é capaz de escolhas. Sua essência, ou seja, seus elementos constitutivos e característicos só vão se dar depois de sua livre construção. Não há como adquirir sua essência se ele não tem existência. Não adianta eu achar que meu filho será médico se ele não fizer a sua escolha; ao menos, de me obedecer.

Daí que temos o tão clássico desamparo dos existencialistas. Sem uma divindade a que possamos nos agarrar, sem uma moral preestabelecida para guiar nossos passos, sem uma metafísica que nos desenhe, mas possuidores da capacidade de escolha, somos plenos de liberdade. Não uma liberdade absoluta, física, porque isso é impossível, mas uma liberdade de opção, de formar o próprio futuro. Ora (direis), existe algo mais incerto do que o futuro? Pois é… é exatamente esse o motivo de tanta geração de angústia. Sartre diz que até ao procurarmos um aconselhamento sobre o rumo a seguir já constitui uma escolha: se você colocar sua situação a um padre, por exemplo, já escolheu o tipo de conselho que quer ouvir. Mais ainda: aceitar ou não o conselho é opção de quem o ouve. Portanto, cada passo que damos constitui uma escolha livre, e somos incertos do que teremos pela frente. “Ah, mas posso transgredir uma lei”, dirás. É uma escolha. “Ah, mas posso cometer um pecado”. É outra escolha. Vivemos fazendo escolhas, até mesmo quando escolhemos não escolher.

E o que isso tem a ver com a angústia? Só tudo. Desde o momento em que nos vemos defronte a uma escolha qualquer, somos obrigados a adotar uma responsabilidade. Obrigados, eu disse, e isso já é doloroso em muitas das vezes. Não precisa ser em grandes questões: escolher entre a picanha e a alface pode fazer toda a diferença para o prazer e para a saúde, respectivamente - a velha questão da vida breve e intensa confrontada com a vida longa e simplificada. Tudo, absolutamente tudo é fruto de decisões, e a angústia nada mais é do que um grito contra o desconforto que isso nos gera, porque ele acontece sempre, sem possibilidade de ser diferente.

É bem verdade que o ambiente onde vivemos interfere em muito nas nossas decisões, mas elas não deixam de ser decisões por causa disso. Elas podem nos levar para qualquer lugar e, avistando o paradigma de validade universal, é uma assunção única de responsabilidade. E isso é a companheira inseparável da liberdade: somos condenados a ser livres.

Bem pesado e bem medido, parece uma filosofia tão pessimista quanto a de Schopenhauer. Essa sensação se radicaliza quando Sartre afirma que “o inferno são os outros”, algo que, na casca, parece uma ode à solidão. A verdade é que, embora a subjetividade seja a característica humana mais marcante, é a interação entre a minha e a do outro que limita o exercício concomitante das liberdades, e é essa a forma com a qual se dá a existência da vida e das sociedades. É claro que, de uma perspectiva otimista de afirmar a liberdade como valor mais fundamental, deriva-se para uma liberdade obrigatória, punitiva, com peso de condenação, o arremate só poderia ser frustrante: todos têm liberdade e este é meu maior impedimento. Mas essa é a vida, com um sentido que precisa ser doado por nós mesmos, por mais absurdo que isso possa parecer.

Um bom café coado no vácuo bolado pelo engenho humano e bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Rápido e bem explicado, sem os rodeios tão típicos dos franceses do século XX.

SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. São Paulo: Vozes, 2014.



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Navegações de cabotagem – o Sítio do Pica-pau Amarelo de Taubaté e as oportunidades que não se podem deixar passar

(Ah, mas eu não perderia uma chance dessas...)

“O homem deve criar as oportunidades e não somente encontrá-las”.

Francis Bacon

Olá!

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Pelo tempo que frequento Taubaté, até que demorou. Esta terra se vangloria de ser a naturalidade de Monteiro Lobato, considerado até hoje o principal escritor infantil de Ilha da Vera Cruz, ainda que com uma boa dose de polêmica. O epíteto autoproclamado é “Capital Nacional da Literatura Infantil”, justamente pelo filho ilustre. Se o vínculo é efetivamente forte, eu não sei, já que o escritor em questão viveu em várias outras cidades, como a que lhe traz o nome ou Areias, onde foi procurador, e ambas também lhe rendem homenagens, mas o fato é que existe um parque na cidade que recebe o nome de sua magnum opus, Sítio do Pica-pau Amarelo.

O espaço está instalado no que era conhecido como “Chácara do Visconde”, pertencente a José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé, que veio a ser o avô de Monteiro Lobato. É uma construção típica dos grandes fazendeiros da época, feita em taipa de pilão e pau a pique, material mais comum das construções de então.

Esta casa concentra um acervo de objetos pertencentes a Monteiro Lobato e sua família, distribuídos pelos mais de dez cômodos existentes, incluindo uma certa ambientação de época e um posicionamento original dos móveis e utensílios, como a sala de jantar.

O “quintal” da casa é uma grande área de 20000 m2, que já foi muito maior no passado, e que era cercado de arvoredos. Hoje em dia, o que prepondera são as mangueiras, especialmente produtivas nesta época do ano.

O Sítio do Pica-pau Amarelo é uma série de histórias onde Monteiro Lobato retrata muito de sua infância e traz uma boa dose de sua visão de mundo. Evidentemente, os personagens do Sítio estão espalhados por toda parte, tanto dentro da casa…

… quanto fora dela, a maioria deles no que poderíamos chamar de “tamanho natural”.

A grande vedete, como se pode esperar, é a boneca Emília, alter ego do escritor e o pivô em torno do qual as histórias são contadas.

É através dessa personagem que Monteiro Lobato exterioriza uma boa parte de seus pensamentos e acaba por se inserir em pessoa nas próprias histórias, muitas vezes de forma um tanto polêmica.

Enfim, é um espaço cuja finalidade é contar um pouco sobre a vida do autor e dar informações sobre sua mais conhecida obra.

O espaço tem sua função e é uma daquelas ilhas de paz em uma cidade razoavelmente agitada, já salvaguardada minha origem paulistana. As informações são relevantes e, de fato, trazem um clima de Sítio do Pica-pau Amarelo para quem se acostumou a ler as histórias em tempos escolares. Mas eu sinto uma falta, e preciso falar sobre ela, sem querer que se traga sobre mim nenhuma espécie de ranço ou rancor.

Taubaté, a meu ver, lida muito mal com suas oportunidades turísticas. Não basta colocar um letreiro na entrada principal da cidade e uma estátua de três metros do escritor se não se vê mais nada a respeito da temática cinquenta metros depois. Quando eu viajava para estes lados e via esses artefatos, imaginava que a cidade toda era povoada de referências ao autor e à obra, que ganhou muito impulso a partir da década de 70, quando sua obra infantil virou um imenso sucesso televisivo. Mas não se vê quase nada, a não ser uma figura aqui, um nome de loja ali, uma homenagem acolá.

Outras cidades capitalizaram fatos e fizeram limonadas a partir de limões históricos, ou seja, transformaram situações que se mostravam jocosas ou humilhantes em oportunidades de mudar o transcurso da história. Penso em Itu, de quem já falei aqui, mas que reitero em apertada síntese: ainda na era do rádio, o humorista Francisco Flaviano de Almeida lançou o personagem Simplício, um homem do interior cujo principal mote era exagerar nos tamanhos das coisas de sua terra natal, a precitada Itu. A ironia estava no fato da cidade ser (então) pequena até no nome, e o sucesso da piada ressoou na fama do lugar. Ao invés de sentir humilhação, toda sorte de gigantismo foi sendo instalado: o semáforo, o orelhão, uma praça completa. O comércio veio junto e os souvenires são encontrados em toda parte: chinelos, chaveiros, sorvetes, fósforos e tudo o mais que se pensar. Quem vai a Itu hoje já vai em busca de um atrativo que a cidade não tinha, chegando até mesmo a esquecer sua importância republicana.

Outro caso diz respeito a Varginha, nas Minas Gerais. Uma história confusa, envolvendo três meninas que supostamente teriam avistado um ET, conciliada com uma mistura explosiva de fatos mal explicados e teorias da conspiração fizeram dessa cidade ao sul de Minas Gerais uma capital nacional da ufologia. A chance de cair na ridicularização era grande: parece que o tal do ET era um mendigo se aliviando. Hoje em dia, passados exatos 30 anos, a cidade absorveu toda a curiosidade que se voltou a ela e possui toda sorte de equipamentos que fazem referência a marcianos, naves espaciais e qualquer temática relacionada a OVNIs, incluindo até mesmo repartições públicas.

Taubaté não tem nada disso com relação ao Sítio. Resignada, a cidade tem se sujeitado a ser conhecida como a capital da mentira: tudo o que é de falsificado é “de Taubaté”, a Xuxa, o Batman, o parkour, tudo capitaneado pela célebre grávida e inaugurado pela Velhinha de Taubaté, a última cidadã brasileira a acreditar no governo da ditadura, criação do cronista Luís Fernando Veríssimo, antevendo uma credulidade ingênua dos habitantes desta terra. A cidade, segundo o autor, foi escolhida aleatoriamente por ser lugar pacato, mas é mais do que certo de que há uma sombra de Jeca Tatu nessa opção, mesmo que inconscientemente.

São Luís do Paraitinga e seu carnaval de chifre e rabo, São Thomé das Letras e suas bruxas… São muitos os exemplos de cidades que apareceram no mapa por conta de um pequeno episódio, de uma história perdida, de um evento qualquer que chamou a atenção do país, mas que foi aproveitado pelos governos e moradores para justificar sua existência e, melhor ainda, trazer dividendos.

Quer saber? Se eu fosse do corpo gestor (o atual prefeito se autodenomina gestor) de Taubaté, não somente daria uma estilingada na ênfase ao Sítio, mas também exploraria ao máximo essa história da grávida. Parece politicamente incorreto, mas ninguém precisaria passar por humilhação. Uma grande feira de roupas para gestantes poderia ser o pontapé inicial para uma divertida nova vocação para a cidade. A princípio, roupas vindas de polos produtores, para depois o próprio mercado se encarregar de trazer produção para cá. Isso seria uma espécie de impulso inicial, para que o próprio mercado se desenvolvesse na esteira. Afinal, a cidade tem tradição têxtil, tendo em vista o tradicional apito da Companhia Têxtil Industrial - CTI, que até hoje é disparado como se ainda chamasse seus funcionários.

E a grávida? Ela é viva e, pelo visto, não se sente disposta a fazer ressurgir essa história toda. Afinal de contas, Taubaté voltou para o mapa pela sua história surreal*, e se deu pela chave da ridicularização, o que é indigesto para quem vive aqui, e isso eu sinto ao abordar o tema com os mais antigos. No final das contas, se tudo for lidado com habilidade, ela pode ser a mais beneficiada de todos. Um acordo de uso de imagem traria tranquilidade financeira e reverteria a imagem negativa que ela possui até hoje, especialmente porque traria bom humor para um tema que é tratado com vergonha, por ela e pela população. Uma espécie de padroeira que estaria presente na feira e teria oportunidade única de se redimir com seus concidadãos, além de tirar todo o peso de seus atos. Limão, limonada, sacaram? Eu só não sou rico por preguiça.

Falando de maneira mais séria, é o custo de oportunidade sendo colocado como exemplo com toda a força. Esse é um dos poucos termos que eu lembro dos tempos em que estava na faculdade de contábeis, matéria que eu detestava a despeito do excelente professor Maurício, por conta de contas e mais contas. Ele diz respeito a tudo aquilo que deixamos de ganhar ao fazer opção por uma determinada atividade econômica. Os exemplos são fáceis, e vou tirá-los de mim mesmo. Ao renunciar continuar tocando em bandas, eu tive a oportunidade de melhorar meus estudos e aperfeiçoar meus conhecimentos, o que me deu melhores condições para encarar a própria vida, que segue claudicante, mas segue. Mas, embora fosse possível prever que a carreira musical não daria em nada, não é algo que podemos nos assegurar. Poderia dar um daqueles encaixes que acontecem de vez em quando no universo e hoje eu estivesse em um daqueles iates aportados em Mônaco, deitado nas glórias de uma carreira de sucesso.

Mas o custo de oportunidade não se dá em suposições vazias, como essa. Para ter uma efetiva dimensão do que se deixa de ganhar, é preciso compreender onde se pode chegar, e, para isso, é preciso ter uma melhor ideia dos recursos disponíveis e de sua aplicação. Uma garagem, por exemplo, comporta uma oficina ou um salão de beleza, nunca os dois. Compreender qual o melhor uso significa dimensionar os ganhos de um ou de outro, e isso é muito mais complexo do que pode parecer. Uma oficina pode parecer trazer maiores ganhos, mas isso se houver público suficiente para seu uso em tempo integral. Por outro lado, o valor agregado do salão pode ser melhor, e, mesmo tratando de cifras mais miúdas, produzam um resultado mais exuberante. O que importa é: quanto se deixará de ganhar com a oficina se instalarmos o salão? Esse é o custo de oportunidade, um valor implícito e de difícil aferição, mas que existe.

Ocorre que esse custo não é somente econômico, mas social, ambiental e qualquer outro aspecto em que uma opção implica em uma renúncia. Tudo o que poderia se deixar de ganhar com obtenção de empregos, por exemplo, faz parte do custo de oportunidade de deixar passar batido símbolos fortes que uma cidade carrega. E eu percebo o tamanho do que se deixa de lado, especialmente pelo fato de ter vindo recentemente de fora, e trago essas percepções justamente por afinidade a esta terra. Vim morar aqui por ter gostado do lugar, e quero vê-lo cada vez melhor. A oportunidade é uma limonada, o custo é o limão. 

Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Não sou muito versado nas artes da economia, então fui na biblioteca pegar umas referências melhores e encontrei esse livro, que me deu uma boa clareada nas ideias.

MANKIW, Gregory. Introdução à economia. Princípios de micro e macroeconomia. São Paulo: Atlas, 2001.

E tem também o parque, bem próximo da região central de Taubaté. É sempre melhor visitá-lo nas férias e nos finais de semana, em que as feirinhas e as apresentações teatrais acontecem.

Sítio do Pica-pau Amarelo - Museu Monteiro Lobato 

Avenida Monteiro Lobato, sem número 

Chácara do Visconde

Taubaté/SP 

A aproximadamente 130 km do centro de São Paulo.

*Para quem não sabe da história: em 2012, surgiu a história de uma grávida de quadrigêmeas em Taubaté. O insólito da situação não estava na gravidez em si, rara, mas não raríssima, mas do formato de bola de praia que a barriga da suposta gestante, evidentemente falsa, mas que rendeu horas e mais horas de reportagens na televisão de baixa seriedade. Eu, sinceramente, tenho uma opinião que beira a teoria da conspiração: a própria emissora que mais divulgou o caso foi a principal “armadora” da história toda, ao perceber os índices de audiência que poderia obter a partir do absurdo da situação.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Os verdes mares de onde não há mar – 14ª Parada: Paraisópolis, a terra do vento e a filosofia por trás dele

(A multiplicidade de significados do vento o torna uma das alegorias mais poderosas para um monte de coisas)

“E estas coisas acontecerão diante de ti todo dia e toda noite, no inverno e no verão, até que o homem seja capaz de tirar de si mesmo o sopro e de recolocá-lo, e ele será capaz disto até que seja privado de alguns destes fenômenos congênitos”.

Hipócrates

Olá!

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(Avertissement: O local para onde fui fica exatamente entre duas das séries de viagens que já fiz, esta e esta. Decidi pela segunda porque eu quis parece fazer um pouco mais do contexto das serras do sul de Minas do que da Mantiqueira paulista).

Um ruído estranho pode começar repentinamente e estrondoso, mas não é o caso do que acontece com a suspensão do meu carro neste momento. Misterioso, um ranger indefinível e sem lógica povoa meus tímpanos desde que começaram as correrias de fim de ano, e não consigo encostar a viatura no mecânico para obter um veredicto. A princípio, parece algo como uma borracha desgastada, mas eu e os “mecânicos” da casa não conseguimos achar nada*. Recomendação do Zé (esse sim, mecânico de profissão) é trocar a bomba de combustível. Pode ser ela, e mesmo que não, já está na hora de trocar. Isso me aflige, e eu tenderia a deixar o possante na garagem, mas eu tenho uma tradição e não a abandono sem estar de cama, que é fazer um passeio qualquer com a patroa por ocasião do aniversário de casamento. Como sempre, é curtinho, porque é momento de dureza excepcional, dados os gastos igualmente excepcionais das festas de fim de ano, bem como é momento tenso no trabalho, com trocas de gestões e relatórios de entregas. Então o negócio é pegar um dos finais de semana que guarnecem o casamento civil ou religioso, qualquer um serve.

Como é viagem de tiro curto, não arrisco partir de mochila nas costas, como gosto de fazer, mesmo que de maneira metafórica. Então vou em alguma pousadinha de preço convidativo e um mínimo de condições, normalmente razoavelmente próxima de casa, e sem grandes ousadias por trilhas e estradas de terra. Como o calor está senegalês nestes últimos dias, e também como a Mantiqueira está às vistas da minha janela, o negócio é subir as montanhas. Fui para Paraisópolis.

Da mesma forma que em Queluz, Redenção da Serra e da próxima Brazópolis, Paraisópolis é terra incrustada nos morros, mais do que outras cidades da região, razão pela qual é repleta de ladeiras calçadas com macadames.

Essas terras do Sul de Minas não são exatamente novas, e muitas tiveram suas histórias escritas pelos tropeiros, que caminhavam por estes lados trazendo víveres e correndo atrás de minérios para levar para a corte. Isso faz com que existam muitas construções históricas, a grande ênfase desta minha viagem com impedimentos para a combalida suspensão do monstrão. Um dos grandes clássicos é o Mercado Municipal, que, com recente reforma, está tinindo de novo.

Aqui há os produtos típicos da terra, que, em Minas, significam cachaça e queijo, além de muitas coisas mais, como o artesanato feito com escavação de madeiras.

Outro prédio histórico é o grupo escolar Bueno de Paiva, daquele estilo bem típico dos primeiros anos do século XX. O homenageado veio a ser vice-presidente do Brasil no período conhecido como café-com-leite (para saber mais, leia este texto).

Há também uma antiga estação de trem, muito comum por essas cidades e vilas serpenteadas pela rede mineira de viação, de quem tanto falei por aqui, e que hoje serve como um centro educacional. Os trilhos não existem mais e só um investimento meio pesado conseguiria trazer algum passeio turístico. Mas a estação está bem preservada e é utilizada para fins escolares.

Outra construção histórica é o casarão das Irmãs Carvalho, antiga sede de uma fazenda dos tempos em que o município ainda era a Vila de São José de Paraíso. Fica na parte mais baixa da cidade, próxima à entrada que vem da rodovia.

Hoje uma casa de cultura, abriga dois importantes acervos de filhos ilustres. O primeiro é do cantor Carlos Gonzaga, muito famoso na época da jovem guarda pela música Diana, que ouvi até a exaustão na época da novela Estúpido Cupido, uma espécie de revival dos então recentes tempos da Jovem Guarda.

O outro é do escultor Amílcar de Castro. Pertencente à escola do Neoconcretismo, cujo principal nome é o holandês Piet Mondrian, produziu obras em metal que estão espalhadas pelo Brasil afora. Como dizem os mandamentos da escola, o poder de síntese de um artista é o que de melhor ele pode externar para seu público.

A cidade possui um pequeno parque na área urbana que também é usado como praça esportiva e repouso nesses dias calcinantes.

Ele tem um curioso apelido que acabou se consagrando, e que faz entrever o fenômeno que ocorre nos finais de tarde. Provavelmente por sua posição geográfica, fica em uma região de acúmulo de águas pluviais, o que é atraente para os insetos.

Espalhados pelas diversas praças da cidade, os símbolos da fé local saltam os olhos. Estamos ainda na época natalina, e na praça temos o coreto montado com o trono do papai Noel e seus paramentos diversos.

O presépio na véspera do Dia dos Reis também está lá. Como todo católico deveria saber, este é o dia em que se diz haver chegado à manjedoura que serviu de berço para Jesus os três reis magos que lhes trouxeram dons. O episódio é todo cercado de simbologia, e não cabe aqui esmiuçá-lo. Procurem conhecer a história, é bem interessante para a constituição de uma religião.

A igreja matriz é dedicada a São José, padroeiro da localidade desde os tempos em que era ainda uma vila pertencente a Pouso Alegre.

Já esta antiga capela é dedicada a Nossa Senhora da Soledade, e fica na praça do Larguinho.

Nesta mesma praça há, pelo que consegui entender, um monumento que representa o Marco Zero da cidade, com os dizeres típicos do estado de Minas Gerais. Percebam a placa de revitalização pregada na própria peça, como se fosse um poste de luz qualquer. Ou o monumento não tem valor, ou não se dá importância ao fato histórico que se quer representar. Sem mais.

Algo digno de nota é a quantidade de pousadas em Paraisópolis destinadas a peregrinos do Caminho da Fé, uma rota que ruma para Aparecida e que atravessa a Mantiqueira, partindo de Águas da Prata.

A pousada em que estive hospedado é um dos pontos onde se obtém o carimbo comprobatório do ponto de passagem, uma chancela oficial ao peregrino que cumpre a rota, no mais das vezes por uma promessa.

Acho que o cálculo da caminhada prevê que um dos pousos será nesta cidade, o que virou um belo negócio. Para qualquer lugar que se olhe, é possível encontrar referências à Santa e à romaria.

Mas há uma referência ainda mais importante. A cidade tem o epíteto de “Terra do Vento”, e isso é perceptível em cinco minutos, especialmente no alto dos morros. Devido à sua posição geográfica, fica em uma espécie de canalização dos ventos da região, e o fluxo de ar é bem mais intenso do que costumamos ter em outras cidades. É difícil tirar fotos do vento, então precisamos de observações indiretas, como as roupas enroladas nos varais.

O vento tem uma representação metafórica das mais poderosas. Como eu disse acima, nós não o vemos, mas ele está presente e podemos senti-lo, muitas vezes de maneira dramática, como andou ocorrendo no final do ano passado em algumas cidades do oeste paranaense. São tempos de mudança climática, ainda que haja muita resistência em reconhecê-lo, e se torna imprevisível saber o que vai acontecer. Pode ser que Paraisópolis simplesmente “seque” de ventos e vire uma nova Cuiabá, ou pode se tornar a terra dos furacões, um novo Caribe, algo igualmente ruim. Mas vamos tentar tornar leve o tema, assim como foi leve a viagem.

Essa primazia do sentido visão é inerente à espécie, mas é esse o pior dos sentidos para perceber a sua presença, que só se faz pelo meio indireto. Os ouvidos captam seus zunidos e o olfato lhe pega bem cheiros e perfumes, mas é no tato que melhor percebemos sua presença, onde se dá sua forma de ação. É como em uma das poucas músicas que eu gosto do Biquini Cavadão, Vento Ventania: abrandar o calor do sol, emaranhar o cabelo das meninas, enroscar as pipas nos fios. O vento atua sem que saibamos, ou demonstrando toda sua força – derruba folhas e derruba árvores.

Às vezes eu olho pela janela de casa logo ao alvorecer, como tanta gente faz. Não é um momento de grandes descobertas: vemos o que é normal, com poucas mudanças em relação ao dia anterior. Mas elas existem. Hoje, por exemplo, está mais cheio de folhas que o normal, vindas especialmente das árvores das calçadas. Ainda que isso não represente nenhum fato que mude a história, demonstra como ela anda, como o tempo não pára. É o vento que levou embora as folhas mais velhas, trouxe as mais novas, misturou todas, levou algumas, deixou outras. No final das contas, como os eventos são caóticos, sempre me resta o quintal por varrer. Há uma ordem mesmo na mais profunda bagunça.

Quando Heráclito quis descrever o seu modelo de arché, quando quis especificar seu elemento fundamental, observou as mudanças constantes ocorridas no universo ao seu redor e deduziu ser o fogo que lhe consiste, exatamente por seu caráter transformador. Se sua intenção fosse meramente fazer uma alegoria, poderia confortavelmente referir-se ao vento, que transforma sem modificar. Nesse sentido, poderia ser até uma alegoria mais forte, porque demonstra como podemos ser outros mesmo que não nos caia um único fio de cabelo.

Mas a metáfora do vento carrega em si não só a transformação, mas a amostra de que essa transformação nem sempre é voluntária. Peguem-se as chuvas de verão: não são as águas que derrubam árvores, por maior que seja sua quantidade, mas o vento. Para além da incompetência das prefeituras, isso é a lembrança de que as forças da natureza são incontroláveis, e, com isso, o destino vai junto. Somos reféns do destino assim como a embarcação é refém dos ventos, e só nos resta um pálido desejo de que tudo vá bem: bom dia, boa tarde, boa noite. O desejo não depende do destino, mas de nossa própria força interior. Quando eu desejo bons ventos nos finais dos meus textos, é a isso que eu me refiro.

Mas só? Não. Por muito tempo, a força impulsionadora dos barcos no oceano eram basicamente duas - os remos e o vento. Os primeiros eram eficientes para aqueles pequenos percursos, embora houvesse imensas embarcações que lançavam mão de contingentes de escravos, e que serviam justamente para a falta do vento, este sim, o principal mecanismo dos primeiros tempos das artes náuticas. Uma força disponível que se colocava a serviço do engenho humano usado na sua melhor forma: a descoberta de que a mobilidade das velas poderia absorver essa energia para praticamente qualquer direção, com um esforço infinitamente menor.

Então pensamos que a direção do vento é o que importa. Sim, importa e muito, mas a ausência dele é a pior das desgraças. Percebem a força da alegoria? A vida estática é menos desejável que a vida atribulada, porque podemos sucumbir à borrasca, mas estacionar no meio do oceano é pior ainda, observando nosso próprio ressecamento em nós mesmos, primeiro no tédio, depois na absoluta fraqueza. Sempre tememos a idade, porque ela nos tira o ânimo, a vitalidade, o vento. Portanto, precisamos que os ventos nos empurrem não só por uma questão de sobrevivência, mas para dar sentido à vida. Não à toa, os divinistas falam em um sopro, a pneuma grega que representa esse impulso que cessa junto com a vida.

Se aprofundarmos nossa ideia, veremos que o vento, como sopro de vida, assemelha-se aos princípios filosóficos dos impulsos, como a dynamis aristotélica, a vontade schopenhaueriana, o conatus spinoziano, a vontade de potência nietzschiana, as pulsões freudianas, o élan vital bergsoniano, e provavelmente daquele que mais o vinculou organicamente à própria vida, o patrono dos médicos, Hipócrates, aquele do juramento. Para ele, a vida não se explicava somente por fenômenos mecânicos, mas por um sopro vital que impulsiona um todo dinâmico em cada um dos corpos, como parte representativa da própria natureza. Não se trata de uma interferência divina, mas de um todo regido por um princípio vital. Ele acreditava no fundamento do vis medicatrix naturae, ou seja, a natureza é o remédio de si mesma e tem o poder de se fazer retornar ao equilíbrio perdido, justamente pela ação desse princípio vital. O papel do médico na cura, nesse sentido, não estava em tentar magias, mas em ajudar o próprio corpo nessa tendência, desfazendo barreiras que o impeçam de resgatar sua própria natureza, resultando no restabelecimento da saúde. O elemento de impulso é uma força pertencente ao campo do instinto e da irracionalidade, que o próprio Hipócrates dá exatamente o nome de sopro.

Vejam como, portanto, quando queremos fazer aquele maravilhoso uso humano da linguagem, que permite condensar em uma única palavra tudo o que representa ação invisível, incerteza no destino, força interior, transformações bruscas ou contínuas, temos o vento ao nosso favor. Uma das metáforas mais belas que nosso intelecto já pode criar, por ser múltipla, poderosa, rica, poética. Paraisópolis tem esse nome também por conta dessa mercê. Bons ventos a todos. 

Recomendação de leitura:

Hipócrates vai muito além do juramento, mas é preciso cuidado na análise de suas premissas, que podem parecer tão extemporâneos a ponto de obnubilar seu modo de pensar. Recomendo esta edição abaixo, bilíngue, que pode até mesmo ajudar quem queira se versar em grego.

CAIRUS, Henrique F.; RIBEIRO JR., Wilson A. Textos Hipocráticos: o Doente, o Médico e a Doença. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005.

 

*Só para não deixar a história sem um desfecho, era apenas um coxim do amortecedor direito, para salvação do meu orçamento.



terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O café filosófico do quotidiano – o clinamen nos inspira a pensar sobre arbítrio e criatividade

(Um pequeno desvio pode explicar uma gigantesca mudança?)

“Não há nenhum lugar onde os corpos, quando estão reunidos, possam, perdida a força do peso, ficar imóveis no vazio, nem, por outro lado, aquilo que é vazio deve suster alguma coisa, mas, pelo contrário, como exige a sua natureza, apressar-se a dar-lhe passagem”

Lucrécio

Olá!

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Depois de tanto tempo indo e vindo, é natural que a gente fique meio cansado. Ainda que seja perto, um lugar aonde vamos muito acaba se tornando cansativo. Não o local em si, mas sua rota. Eu tenho um piloto automático tão acionado no caminho Ayrton Senna - Carvalho Pinto (antiga Trabalhadores) que nem reparo mais nos morros, nas plantações, nas casinhas, nas vacas, nos postes de luz, somente na faixa de asfalto que parece mais e mais infinita, a ponto de causar um certo “barato”, onde a alma parece abandonar o corpo e flanar por aí, enquanto a pobre massa física vai girando o volante para lá e para cá ao sabor da habitualidade, o que é perigoso.  Redundar em distração a 120 km/h não é exatamente o que mais querem os legisladores de trânsito, nem os mantenedores da saúde pública. Afinal de contas, o corpo que está presente ao volante precisa da alma* para lhe dar vigilância e atenção. Por isso, e como já falei por aqui, resolvi alugar uma casinha em Taubaté, ainda que não seja para ficar lá cem por cento do tempo. Afinal de contas, a modernidade permite trabalho remoto, mas o chefe não, e isso me obriga a manter a base SP, para ficar em formato híbrido.

Alugar uma casa significa estruturá-la, o que não é muito módico. Sorte que o espólio da Dona Madalena me disponibilizou um monte de móveis e utensílios, e isso possibilitou economizar uma grana e viabilizar a empreitada. Geladeira, fogão, armários, cômodas… tudo isso e outras coisas mais permitiram a este escriba alugar a casa e não dormir no chão, nem comer comida fria. Não fosse isso, na verdade, e eu não conseguiria aluguel algum. É casa pequena, parece um trenzinho, mas, para mim, está de ótimo tamanho.

Mas é óbvio que a macróbia defunta não tinha um kit mudança pronto, e, para complementar, precisei comprar um monte de miudezas. Uma das mais óbvias era um método para o santo cafezinho de toda manhã, do qual não abro mão. Para isso, juntei o leve ar interiorano do campo com a praticidade da cidade e comprei um método misto, manufaturado pela Fabrikafé, uma empresa pernambucana que atua com baristas para produzir objetos ecologicamente sensatos: coadores de pano que se assentam em porta-filtros de mercado.

São produzidos com tecido do tipo saco de farinha, em algodão grosso. Eles vêm em vários modelos, e eu comprei um cônico e um trapezoidal, para encaixar nos porta-filtros V60 e Melitta, respectivamente.

Aqui a ideia é dupla: a primeira é de dar um certo ar de nostalgia, para que os coadores de pano modernizados possam relembrar as velhas “calcinhas” que nossas avós usavam para escoar café nas manhãs agitadas e nos domingões modorrentos. A outra é mais ecológica. Ao utilizar um coador reaproveitável, economiza-se muito papel que seria descartado imediatamente após o uso nos métodos mais costumeiros.

Depois de alguns dias de uso, e usando as recomendações de limpeza, consegui concluir que, de fato, funciona muito parecido com as velhas mariquinhas, dando aquele saborzinho de nostalgia. O segredo é o enxágue pós uso e o escaldamento no momento da extração.




Nome do utensílio: Coador de pano adaptável

Tipo de técnica: percolação

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média/fina

Dinâmica: Como outros métodos de percolação com filtro. É importante fazer a higienização adequada do artefato.  

Resíduos: Baixos

Temperatura de saída: Média/alta

Nível de ritual: Médio

Muitas vezes o que temos de mais esperto a fazer é exatamente a juntada de características fortes, para sair lá na frente com um objeto melhor. Isso não se restringe a coisas, mas também a ideias, incluindo o combate entre elas. E isso também pode ter uma coloração de nostalgia, onde ideias há muito esquecidas retornam com força, demonstrando como a racionalidade é poderosa.

Claro que não me refiro a pensamentos estapafúrdios, como terraplanismos e geocentrismos, mas a questões que pareciam aposentadas, que são reavivadas pelas descobertas científicas mais recentes, e voltam à discussão na academia, para depois cair nas discussões de boteco. Algumas dessas conversas são milenares, e pareciam que fariam unicamente parte dos compêndios históricos. Um bom exemplo é a questão da não-linearidade dos eventos, coisa que já se discutiu há um bocado de tempo, mas que hoje é rediscutida em eventos que parecem trazer metafísica para o mundo palpável, como o efeito borboleta e outros. É assim que funciona a ciência. E a filosofia também.

Bom, vamos lá. A ideia de atomismo nasceu a partir do pensamento de Lêucipo e seu aluno mais famoso Demócrito, que descreveram a hipótese da formação do universo a partir das interações entre as partículas fundamentais da matéria, os átomos, e o vazio, espaço onde absolutamente nada existia. Anteriormente, na pesquisa racional para a descoberta de um princípio geral da formação do universo e do que se mantinha no seu substrato, sempre tínhamos alguma espécie de vetor físico definido, como água, ar, terra, fogo e da combinação de todos eles, ou de elementos menos figurativos e mais abstratos e moldáveis, como o ápeiron e as homeomerias, ou até mesmo matemáticos, a tal da arché. No entanto, em consórcio com todos eles, havia alguma espécie de moção metafísica, como a ação divina ou impulso volitivo, porque se entendia que era necessária alguma forma de impulso para a coisa funcionar. Faltava a aposta em um fundamento puramente material, e é nisso que reside o atomismo, já que não há nada que gire o universo a não ser ele mesmo.

O que seria então esse tal de átomo? Seriam partículas mínimas puramente materiais e a combinação entre elas, de modo que cada uma delas fosse indivisível. É uma ideia parcialmente intuitiva, já que podemos partir um bolo em pedaços cada vez menores, inclusive no âmbito micrométrico, até o ponto em que essa divisão se torne impossível, e essa seria um “átomo” de bolo. Sempre lembrando que Demócrito anteviu que a tipagem de átomos era bastante limitada, e a imensidão de substâncias se dava pela combinação entre eles, o que poderíamos atualizar para as moléculas.

Mas como se dava o processo de construção dos corpos? Os atomistas entendiam que, observada a existência da gravidade, os átomos caíam no vazio em queda livre, até que um acabasse colidindo com o outro, porque os mais pesados terminariam encontrando os mais leves pelo caminho, o que poderia causar uma agregação (do tipo enganche) e isso ocasionaria sucessivas formações maiores, desde poeirinhas até planetas.

A estruturação dessa ideia parecia poderosa, mas Aristóteles resolveu jogar água nesse chope. Em primeiro lugar, ele não concordava que havia alguma coisa trafegando no vazio, porque não existia vazio. Aquilo que assim parecia, na verdade, era algum dos quatro elementos em estado desvanecido, mas não em algo rigorosamente sem nada, como o vácuo absoluto. E segundo, ainda que assim fosse, pelo funcionamento da própria racionalidade, Aristóteles concluiu acertadamente que, não havendo nenhum material a interpor resistência, não havia por que uma partícula mais pesada cair mais rapidamente do que uma mais leve. Estando em caminhos rigorosamente verticais e paralelos, jamais uma partícula atingiria outra, e o fenômeno da agregação atômica nunca se daria, e essa explicação sobre o funcionamento do universo era furada. Outra coisa: uma perspectiva puramente material desafiava a tese teleológica aristotélica. Dentre as famosas quatro causas, uma era a causa final, um motivo para que todas as coisas existam. No universo puramente material de Demócrito, não haveria propósitos, nem causas, nem finalidades, e isso contradizia o pensamento aristotélico que, como demonstrei, não gostou nada dessa explicação. 

É neste contexto que aparece o romano Lucrécio. Fundado no Epicurismo, e observados os inúmeros fenômenos do acaso que ocorrem incessantemente no mundo e no universo, teorizou que, sem nenhum tipo de determinação, ocorriam minúsculos desvios na trajetória de certos átomos, o que levaria à colisão pensada por Demócrito. Seria essa, e não o peso dos átomos, a responsável pelas colisões que realizaram as agregações necessárias à construção dos corpos. É daí que surge o termo clinamen, ou inclinação, em latim.

Aparentemente, temos aqui um argumento ad hoc dos mais clássicos: se não tem explicação, eu arrumo uma. Mas também Lucrécio não tira sua hipótese do nada. O princípio geral da ideia é que, caso a teoria dos atomistas estivesse completamente correta, teríamos um mundo determinístico, completamente previsível e imutável. Mas não é o que temos na prática. Nem somente as coisas mudam ao menor sabor de variáveis, bem como também as próprias linhas de pensamento não seguem um caminho reto. Como os materialistas dos átomos achavam que tudo era composto por estes, também os pensamentos e abstrações seriam, e isso vai incluir livre arbítrio e criatividade. Vamos cuidar dessa questão.

Quando falamos em arbítrio, automaticamente pensamos em julgamentos e escolhas. Isso pode incluir opções simples, como resolver a janta, ou decisões delicadas, como planejar a economia de um país, o que, naturalmente, implica em uma série de consequências, algumas mensuráveis, outras nem tanto, outras ainda absolutamente imprevisíveis. O que temos de certo é que o arbítrio é uma decisão diante de uma questão. Ele tem uma anterioridade: nosso conhecimento, nossas condições psicológicas, nossas necessidades materiais. Uma vez colocados diante de uma questão, todas essas condições são fatores que vão influenciar nas escolhas. A discussão é se todos esses fatores são capazes de fixar uma escolha - se aquilo que eu optar poderia ser de outra forma ou se eu de fato opto livremente. Se entendermos que há determinação na escolha, ou seja, ela está escrita nas estrelas, então não há que se falar em liberdade. Mas, se ela houver, o que faz o desvio das condições que, em tese, faria algo ser decidido como foi? O que é essa vontade própria que contraria o curso natural dos acontecimentos?

Outra questão: um mundo determinístico pressupõe uma ordenação muito menos mutável que a que enxergamos ao nosso redor. A teoria da evolução, por exemplo, preconiza que as espécies surgem através de descendência com modificação. Isso não quer dizer que um pelo dia nascerá um humano com asas, mas com sutilíssimas, porém vantajosas mudanças com relação aos seus ascendentes. Um membro minimamente mais flexível, um osso um pouquinho mais resistente, um olho que enxergue em níveis de luminosidade um trisco mais baixos podem trazer vantagens que, oferecidos no atacado, parecem de pouca monta, mas no varejo fazem toda a diferença. A própria palavra mutação carrega consigo uma aura de desvantagem, resultando em perdas, não em ganhos. Quando eles ocorrem, são esse pequeno desvio, essa minúscula inclinação que tornam a sobrevivência ligeiramente mais apta.

Mais uma coisa ainda. Como se explica a criatividade? Artistas traçam um mundo que não veem, que vai além do alcance do mero ato empírico. Sim, é perfeitamente possível reproduzir situações em uma tela ou uma pedra, mas, mesmo estas, são frutos de abstrações, e da sensação inicial surge algo novo, modificado com relação à natureza, criado. Se não houver alguma forma de desvio, não há como surgir o novo, porque só teremos a eterna reprodução daquilo que já tínhamos antes, e de novo, de novo, de novo. 

O clinamen de Lucrécio, portanto, surge como contraponto à tendência cada vez maior de se estabelecer um determinismo tão marcante que parece impossibilitar o livre arbítrio. Se um pequeníssimo desvio é capaz de gerar novos mundos, novas espécies, fazer furacões através de movimentos de asa de uma borboleta, então não parece ser plausível que não seja possível optar sem chance de que a escolha fosse outra.

Em resumo, a grande questão se transforma no seguinte: se o universo é determinístico, por que raios ele varia de modo imprevisível? Talvez nosso grande problema seja a dificuldade de enxergar processos, e, quando os enxergamos, pensemos neles como estruturas lineares, que seguem roteiros invariáveis e caminhem em uma só direção, ainda que tremendamente complexos. Pode até ser que os deterministas estejam certos, e por detrás do liame irresolvível dos fatos tenhamos eventos que são como são e não poderiam ser de outra forma, mas não é assim que a realidade se apresenta a nós, e essa linearidade se mostra inconsistente. Saltos quânticos, mutações e outros desvios são percebidos como acaso de difícil encadeamento lógico, ainda que haja uma ordem em seu substrato.

Duas observações finais, para além do próprio assunto em si. Notamos como a mente é uma ferramenta poderosa, que, mesmo sem possuir instrumentos técnicos, consegue dispor os fatos de maneira lógica a ponto de se aproximar muito da realidade em si mesma de maneira muito sofisticada. Demócrito, Leucipo, Aristóteles e Lucrécio, para ficar apenas nos citados neste texto, falaram sobre coisas difíceis com grande percentual de acerto. Não são risíveis suas deduções. Levaram a lógica ao esplendor por se tratar da única ferramenta disponível para compreender o mundo naquela época, e é invejável o modo como conseguiram ao menos tangenciar coisas que hoje a ciência explica com sofisticadíssimos equipamentos.

Mais ainda: isso tudo demonstra como o pensamento científico deixou de andar desde os sofistas até mais ou menos o tempo dos Bacons, Roger e, especialmente, Francis, quando novamente se passou a olhar para o universo em si com um espírito de descoberta. Sabe-se lá como estaríamos hoje sem esta interrupção milenar. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Lucrécio faz parte daquela leva de pensadores romanos que trouxe a base grega ao centro decisório do mundo de então. Seus escritos são curtinhos e rápidos de ler.

LUCRÉCIO. Da Natureza das Coisas. Lisboa: Relógio d’Água, 2015.

 

*Antes que algum chato me pergunte, “alma”, aqui, tem o sentido de consciência.