(Uma viagenzinha de ônibus pode ser agradável e nos levar a filosofar)
“Considero-me um jornalista, na medida em que aquilo pelo que me interesso é a atualidade, isso que acontece ao nosso redor, isso que somos, o que vem ao mundo.”
Foucault
Olá!
Eu tenho um carro. Quando eu era pequeno, embora amasse meus
carrinhos de plástico, meu pai não tinha nem um fusquinha, que só foi chegar
quando eu já era um rapazola. Ou seja, no rigor, meu pai tinha, eu não. Era
comum isso na época, no âmbito do proletariado. O que eu tinha mesmo era a
passagem do busão.
Era ônibus para tudo quanto é lado: trabalho, escola, lazer,
parentagem, até na namorada. Isso tudo porque a vida era assim: mesmo o metrô
era escasso, longe de casa, e, para chegar em um, precisava do outro – do
bumba, busão, baú, coletivo, bate-lata, cata-bêbado, autocarro, ônibus.
Eu tenho um carro, mas eis que estou em um revival
involuntário, enquanto a barca está no estaleiro, hospitalizada por um mal
súbito ocorrido em seu câmbio. E o enrosco é grande. Como um goleiro pego no
contrapé na final do campeonato, a dona da casa onde eu morava em Taubaté a
pediu de volta, o que me deflagrou um processo inesperado de mudança, e isso me
impede de ficar recostado no sofá aguardando a recuperação da prejudicada
viatura, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. Sem
outro remédio, resta ele, o pão de forma, e a ele recorreremos. Afinal, saber
usá-lo eu sei. Só não tem a praticidade que eu precisava no momento.
Compro as passagens via aplicativo, o que já é um conforto
frente às bilheterias do passado, o que, por si só, já demandava viagem
adicional. Eu sei, é verdade, que destinos de grande fluxo, como o Vale do
Paraíba, tem saídas frequentes, mas há momentos em que é preciso ser certeiro.
É provável que eu encontrasse alguma vaga no tempo para buscar as passagens com
alguma antecedência. Mas o fato é que o mundo se modernizou e não abro mão da
benesse.
Ônibus convencional, porque o orçamento não é de ferro. Acho
que o trajeto é tão curto que nem existem acomodações mais nababescas do que
essa, que já tem banco fofo e reclinável. Pegar um beco até Três Lagoas/MS,
onde mora meu consogro, já é bem mais dolorido para costas e bolsos. Então nem
há tanto do que reclamar.
Transcorrido o trajeto de três horas, aporto na rodoviária
de destino já meio alquebrado pelo tempo decorrido, além da expectativa de quem
ainda tem que pegar outro ônibus, desta vez da municipalidade, para ainda
chegar em casa. Bom de lembrar que Taubaté tem duas rodoviárias: uma
espertamente na beira da estrada, outra enfiada lá para o centro, que acabou
virando terminal intermunicipal. É na primeira que alongo minhas doloridas
pernas.
Até desenrolar tanto a mudança, quanto o conserto, foram bem
umas dez idas e voltas. Arrepia meus poucos cabelos perceber que gastei algo em
torno de 300 pilas por cabeça. Mas aí relembro que esse valor enche uns quatro
tanques da viatura ora danificada, o que corresponde a umas oito idas e vindas.
Mas aí eu lembro também que a carga possível tem uma diferença tendente ao
infinito, além dos bancos disponíveis a mais. Daí eu tento tolamente espaventar
com as mãos esses pensamentos inúteis, porque o gasto já se deu, e continuo,
ora, indo e vindo. Mas em uma dessas chegadas, há algo de diferente na
rodoviária normalmente modorrenta da terra de Seo
Lobato. Bancas, um palco, muitos e muitos livros: é a Fliart - Feira do
Livro e Amizade da Rodoviária Tarobá, em sua terceira edição.
A Fliart é aquilo que seu nome denuncia: uma feira de
literatura, com suas habituais bancas de livros. A novidade aqui é que a mesma
é promovida pela administradora do terminal e pela editora existente no mesmo,
e não uma prefeitura ou outra entidade. O proveito se dá pelo fato de que ainda
há resistentes que compram livros para entreter dias de viagens, coisa que era
de hábito meu, por exemplo, que cansei de estudar no chacoalho do tempo do
bumba.
Neste ano, o fenômeno Copa do Mundo fez com o tema de fundo
do evento seja o futebol, uma prova de que não somente eu uso o esporte bretão
como máquina de exemplos filosóficos, mas que muita gente sabe como é possível
cruzar a importância aparentemente desproporcional que muitos dão a ele.
Não é só de venda de livros que vive este evento, mas dos
bate-papos e mesas redondas que versam sobre o assunto base. Eu tive a sorte de
pegar entrevistas com alguns jogadores importantes com passagem pelo EC
Taubaté, sob o tema “A bola me abriu portas”: Paulo Castilho, Toninho Taino e
Gilsinho Rezende.
Eu lembrei dos tempos em que o Taubaté ainda jogava na
primeira divisão do Paulista, e puxei pela memória os nomes do goleiro Vagner
“Gão” e do voluntarioso quarto-zagueiro Botu. São jogadores rememorados até
hoje pelos torcedores do Burro
da Central. Embora o Taubaté não seja um dos grandões da capital, é um dos
tradicionais do interior, e compete com o São José a primazia do Vale do
Paraíba.
Como é costume nesses eventos, há um homenageado, e como a
temática é futebol, a escolha recaiu sobre José Trajano, um dos principais
decanos do esporte bretão ainda em atividade.
Embora seja uma personagem polêmica, especialmente por seus
posicionamentos políticos, é inegável sua importância histórica para o
jornalismo esportivo. Quando o conceito de TV paga ainda engatinhava no Brasil,
ele constituiu toda a estrutura da ESPN, que se tornou célebre como o primeiro
canal de esportes realmente bem formado, com campeonatos diversos, programas de
debates consagrados, reportagens especiais e pautas bem definidas. Virou uma
espécie de referência para o jornalismo esportivo tupiniquim, a ponto de seus
livros virarem objetos de pesquisa, mesmo que autobiográficos.
Isso acontece porque ele passou por todas aquelas fases que
hoje não existem mais: o repórter que sai às ruas, o redator que traduz os
fatos em palavras, o chefe de setor que termina seu trabalho tarde da noite,
antes de enviar as palavras para o papel, para produzir os hoje quase
inexistentes jornais, que precisavam estar na banca fresquinhos na manhã
seguinte.
José Trajano têm uma característica sui generis. Ele
é um dos últimos torcedores do América Futebol Clube, ao lado de Alex Escobar e
alguns poucos outros, outrora a quinta força do Rio de Janeiro, com seu
uniforme rubro e mascote diabólica, e se tornou uma espécie de símbolo da
resistência e do amor espontâneo por uma agremiação. Para nós, paulistas, o
América tem alguma correspondência com a Portuguesa, embora o escrete carioca
tenha uma situação ainda mais precária, mas com peso histórico equivalente.
Trajano é daqueles jornalistas que passaram por todas as
funções de uma redação, e, já octogenário, praticou o jornalismo de uma forma
diferente do que se pratica hoje, muito mais “analógico”. Era o tempo em que as
reportagens eram anotadas em bloquinhos, as notícias eram datilografadas e a
tipografia era composta por tipos móveis, com todos os horários bem marcados.
Talvez ele pareça anacrônico nos dias de hoje, e por isso mesmo ele caminha
agora pelas sendas das análises e da literatura, além do jeitão pseudo-mal-humorado
que empresta aos debates esportivos.
Ele vem de um jornalismo que, portanto, está em franca
extinção, que vem sendo praticado mais e mais pulverizadamente, repleto de
vieses que são colocados aos filtros do leitor, e não do próprio jornalista. Aliás,
reclama-se muito da imparcialidade no âmbito jornalístico, mas é impossível que
ela exista. Eu, particularmente, acho melhor que se declare abertamente uma
tendência ideológica do que pagar de isentão sem o ser, na realidade. Há
realmente bastante recursos para se maquiar uma ideologia e, sendo assim, temos
mais dificuldades em lidar com a informação dada.
A filosofia e o jornalismo não são dissociados entre si.
Ambos têm como matéria-prima a busca pela verdade, ainda que as vias sejam
distintas e tenham objetivos laterais diferentes. Por este ponto de semelhança,
pode-se perceber que ambos se imiscuem. Ora (direis), a filosofia está sempre
na base do conhecimento, e se o jornalismo se pretende possuidor da verdade,
não há como escapar desse imbricamento. E é verdade, imaginário interlocutor.
Por esse motivo, criaram-se teorias sobre o desenvolvimento jornalístico. Vamos
ver como essa coisa começou.
Quando olhamos as notícias dadas em tempo real nos dias de
hoje, temos a sensação de que um sonho antigo vem sendo realizado: a
interligação instantânea com o mundo inteiro. Por outro, mais tacitamente,
entretanto, nos dá a sensação de que tudo é uma imensa fofoca, porque os fatos
descritos necessitam de apuração, e isso significa tempo, um tempo que a
mensagem imediata não tem. Percebam como, contraditoriamente, temos uma velha
solução e um novo problema, porque esperamos, de certa forma, que o jornalista
seja nossos olhos perante um fato que não temos condições de acompanhar. Se o
fato chega rápido, também chega cambaio, cheio de arestas por aparar. E isso é
uma autêntica fonte de falsificações, diretas ou indiretas. E a discussão não é
nova.
Quando o jornalismo se consolidou como atividade, estávamos
no período do Positivismo,
corrente de pensamento que via a aplicação de métodos científicos nas
atividades humanas como solução para os problemas do progresso. A comunicação e
produção de informações precisariam deixar de ser uma tarefa meramente empírica
e ter suas estruturas e processos descritos e bem definidos, de maneira a
separar o joio do trigo. Sendo assim, para que o jornalismo ganhasse na
necessária objetividade científica, era necessário que a imprensa separasse o
que era opinião (subjetiva) do que é notícia, o fato objetivo, trazido ao
noticiário o máximo possível sem as adições de quem o descreve. Nada de se
utilizar qualificativos que expressem qualquer forma de juízo moral, como horrível,
interessante, atraente ou qualquer outro designativo que denote valores, apenas
o ontológico, o indissociável, o factual. A qualificação deve ser criteriosa,
reportando-se o tanto que possível a números mensuráveis. A notícia, como uma
mercadoria, deveria ser dada como a exata descrição do que ela é, sem tirar nem
pôr.
Qual é o objeto que utilizamos quando queremos ver a nós
mesmos, perceber nossas olheiras e cabelos despenteados, nossas características
distintivas, notar o desenho de nossos lábios para passar batom, dar aquela
penteadinha final no cabelo elegantemente besuntado de gel? Ora, é o espelho.
Ele reflete exatamente aquilo que somos, e, por extensão, qualquer coisa que
lhe é colocada à frente. O jornalismo, para cumprir o rigor científico de sua
época, precisaria retratar com exatidão nas palavras o que foram os
acontecimentos e trazer uma distinção muito clara entre o que é fato e o que é
opinião. O jornalista, em especial o repórter, deve ser os olhos da sociedade
sobre os fatos, desinteressado e neutro, sem filtros.
Acontece que é impossível reportar tudo o que acontece no
mundo, e, por mais que se procure ser isento, a própria seleção do que se
noticia já é ideológica. Ou, na mais inofensiva das hipóteses, não é neutra. É
muito fácil entender isso. Fatos são fatos, são a realidade em si mesma e
qualquer atribuição de valor parte de uma pessoa contraria a base da teoria do
espelho, porque selecionar as matérias é dizer o que é importante ou não. Mas
quem somos nós para identificar o que é importante para uma sociedade ou não?
A metáfora do espelho se mostra perfeita de uma maneira que
a teoria não é. Embora o reflexo tenha toda aparência de reproduzir a realidade
perfeita, a real é que nenhum espelho o faz sem distorções, por mínimas que
sejam. Tanto o espelho de moldura laranja que meu pai se barbeava com sua
suspeita navalha, quanto a parede reflexiva irretocável da mais celebrada das
blogueiras distorcem a imagem, seja uma leve coloração, um detalhezinho
superficial ou mesmo imensos desvios, que fazem ver-se como não se é. Pior, nem
sempre voluntariamente, mas às vezes sim.
Exemplo bastante prosaico, e que, por isso mesmo, é próximo
à nossa realidade miúda. Na rua em que eu morava, ocorreram duas mortes no
mesmíssimo dia: uma senhora quase nonagenária e um rapaz de seus vinte e poucos
anos, conhecidíssimo na região por suas atividades pouco republicanas, se é que
me entendem. A velhinha apagou como os velhos apagam; já o homem teve uma morte
repentina em um jogo de futebol. Tudo isso posto, minha participação na
história consistiu em chegar à casa de minha então namorada, atual patroinha, e
ver o grande rebuliço na rua. A pergunta inevitável- o que aconteceu? Morreu o
N… coitado, levou uma bolada na boca do estômago e foi morrer no hospital.
“Ursa estuporada”, como o vulgo chama a perfuração de úlcera péptica, onde o
estômago despeja seu conteúdo no restante do organismo. Acidíssimo, faz um mal
do cacete, podendo levar à morte, como se viu, ainda mais quando a teima em não
se admitir a necessidade de socorro faz postergar o inevitável atendimento
médico. Tudo o que se passou girou em torno do desencarne do moço. A pobre
senhorinha ficou restrita à despedida de seus poucos familiares. Tudo isso dá
duas ideias: a de que os interesses são vinculados à popularidade dos temas e
que há uma hierarquia de importâncias entre as notícias dos fatos, mesmo que
não exista essa mesma hierarquia entre os fatos em si. Afinal de contas, um
fato é um fato, e a importância que cada um deles tem não diz respeito apenas
às pessoas que atingem, mas COMO as atingem. Podemos trazer inúmeros outros
exemplos: Senna e Ratzenberger, Mariele e motorista, Teori Zavascki e piloto,
Rick e empresário, etc. Ocorre que há interesses movimentando a ênfase e a
importância dada, bem como ao volume de exposição ofertado. Por mais que se
queira exercitar o desinteresse, não há como evitar um crivo subjetivo.
E vamos e venhamos… Jornais são empresas, que, além de tudo,
possuem o componente lucro a lhes mover. É romantizar demais que uma reportagem
contrária a si mesmo seria fornecida com o mesmo fervor com que se faria ao
amiguinho do lado, seu concorrente. Por isso mencionei que uma posição tomada é
sempre melhor do que uma atitude sub-reptícia, como faz o homenageado da
vez.
Por isso, e levando em consideração que uma teoria no âmbito
científico deve ser a descrição do que se observa na realidade, a teoria do
espelho não pode receber tal valor, sendo, no máximo, um guia de intenções ou
um código de ética, aquelas coisas raras de se aplicar na prática. Outras teses
foram levantadas nesse universo, e são igualmente interessantes. Vou abordá-las
quando for conveniente.
Por fim, aproveitei a minha passagem pela Feira e fiz lá
minhas comprinhas, dei meus pitacos nos debates e fiquei feliz de ver alguém da
área esportiva sendo laureado. Soube que o velho Trajano esteve por lá na
abertura do evento, e gostaria de ter estado nesse momento. Quem sabe no ano
que vem? Bons ventos a todos.
Recomendações:
Comprei esse livrinho em uma das bancas. É muito pessoal e
honesto com relação às memórias, agradável de ler. Ideal para viagens de
ônibus.
TRAJANO, José. 1960: Quando as Estrelas Ficaram Vermelhas.
São Paulo: Onze Cultural, 2024.
Já a FLIART ocorre anualmente desde 2024, sempre no mês de
maio. Para acompanhar as programações do evento, há o seu Instagram, que traz
as novidades.
https://www.instagram.com/fliarttaroba/
O endereço da Rodoviária Nova de Taubaté é o seguinte:
Terminal Rodoviário de Taubaté
Rua Benedito da Silveira Moraes, s/n, Jardim Ana
Emília
Taubaté/SP
A aproximadamente 130 Km do centro de São Paulo







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