(O corpo não está fora da relação de conhecimento)
“Gostaria de uni-las [N. do A.: a arte e a natureza]. A arte é uma apercepção pessoal. Coloco esta apercepção na sensação e peço à inteligência transformá-la em obra”.
Cézanne apud Merleau-Ponty
Olá!
Aconteceu. Demorou, mas aconteceu. O médico olhou, olhou e
olhou os números nos meus exames e franziu o cenho. Olhava para mim e olhava
para os números, para as curvas, para os mapas. Olhava para mim e para a
anamnese na tela do computador, com o histórico familiar denunciando a genética
desprivilegiada. Por fim, olha para mim e entrecruza os dedos sobre a
escrivaninha, proclamando a sentença: você tem duas escolhas – incluir
atividades físicas na sua rotina ou já fazer as encomendas típicas de um
enfarte. Nem preciso dizer quais são.
Os exercícios especificamente de Pilates são estranhos. Como
é de se esperar, há poucos homens fazendo suas torções, enquanto as mulheres se
desenrolam em ginásticas que se assemelham a acrobacias, com muitas piruetas
nas barras e pranchas, além de técnicas que lembram yoga e balé. Com isso, há
um certo ar feminino que nosso preconceito nos faz olhar de bico torto para uma
atividade que nada tem a ver com o sexo e a sexualidade do contribuinte.
Prometo dar uma boa estudada na história da técnica para trazer a vocês o que
ela pode sustentar de filosofia.
Fato é que todos os médicos com os quais conversei após
começar a treinar o corpo acudiram com beneméritos à atitude. A verdade é que
nós vamos deixando nosso físico para trás à medida que os aperreios da vida nos
distanciam de coisas que reputamos como secundárias. Ou, melhor dizendo, que
vamos colocando na caixinha de secundárias, porque, na realidade, secundárias
elas nunca foram. É claro que passei apertos que simplesmente me impediam de
sonhar com o custeio de uma academia, e o tempo disponível era utilizado para
trabalhar, e trabalhar, e trabalhar, sempre na esperança de receber um trocado
a mais para limpar a longa lista de desafios financeiros. Com isso, veio o
costume pela lei do menor esforço e o engordamento, a dificuldade cada vez
maior de fazer trabalhos duros e, nessa roda-viva do círculo vicioso, as
ateromatoses, as pressões altas, as palpitações e ela, sempre ela, a diabetes
mellitus.
Refazer tudo o que ficou para trás é duro e, principalmente,
limitado. É muito pouco provável que eu atinja um nível minimamente parecido ao
que eu tinha com vinte anos, por força dos abusos e do envelhecimento, mas é
preciso tentar, e é isso que eu estou fazendo agora.
Tudo é muito doloroso, até mesmo simples agachamentos,
porque meu corpo é um bocado pesado, então nos primeiros dias tudo o que eu
fazia era tentar levar as séries até o final. Com o decorrer do tempo e do
esforço, as coisas foram melhorando um pouco, a ponto de se poder colocar
atenção em outras coisas, como a exata parte do corpo que é ativada nos
movimentos. Alguns dos exercícios têm me provocado reações contraditórias. Como
a única atividade mínima que eu fazia era andar, esperava que as pernas me doessem
menos, o exato oposto do que me ocorre, com autênticos frangalhos pós-treino.
Já os braços têm se mostrado resistentes e rijos, justo onde eu esperava dores
e mais dores. Por ora, algum incômodo e é só. Isso se dá porque os exercícios
físicos causam microlesões e suas consequentes inflamações, que, ao
regenerarem-se, acabam por causar o fortalecimento do músculo. Nos exercícios
mais pesados, há ainda o acúmulo de ácido lático, que causa aquela sensação
impossível de queimação, que não é agradável, mas que também é esperada.
O que eu tenho achado de mais filosófico nesses primeiros
meses de treino é a consciência de corpo, de como não a temos até sentir cada
uma das fibras sendo repuxadas por aparelhos e exercícios. De fato, nas pausas
suadas entre um exercício e outro, repuxo as molas da parede girando os pulsos,
e percebendo como cada uma das posições retesa um músculo diferente. Mão virada
para baixo ativa o músculo X; virada para cima, mexe com o músculo Y e, para os
lados, outro ainda. Você lentamente vai percebendo como cada puxada afeta uma
parte diferente do corpo e praticamente consegue desenhá-lo mentalmente. Essa
consciência também é treinada na medida em que os instrutores berram suas
correções: “mantém o abdômen contraído”, “apruma a coluna”, “abre o peito”,
“sinta suas escápulas, escápulas, escápulas, escápulas…” em um longo eco que
parece mesclar algo de sonho com uma palavra da moda, ou como se entrássemos em
uma caverna na busca da pequena ninfa Eco.
No meu tempo de rapaz, dizíamos: omoplata. Numa dessas viradas de nomenclatura,
a coisa virou escápula e precisei reaprender tudo isso, menos quando caí do
muro empinando pipa e quebrei a dita cuja, seja omoplata ou escápula. Foram
dois meses de gesso com o braço esquerdo cruzado sobre o peito. Dizem que tive
sorte por não ser o direito, que me consumiria muito tempo de aula. Não sei se
concordei com isso na época.
Entretanto, independentemente do meu posicionamento pessoal,
o fato é que essa consciência de corpo era praticamente uma lenda tanto dentro
do âmbito filosófico, quanto do científico. Se por um lado a consciência parte
de um sujeito, ela precisa do caminho dúbio dos sentidos para ser trazida “para
dentro”; por outro, a roupagem pessoal de cada uma das consciências deturpa o
objeto analisado de como ele efetivamente é.
Estamos em um momento em que está bem estabelecida a divisão
entre filosofia e ciência com relação ao quesito “homem” na relação do
conhecimento. O principal fundamento da fenomenologia e sua grande novidade
está no papel da consciência de quem observa os fenômenos, ou seja, as
ocorrências reais que se desenrolam no universo. Sem uma consciência, nada se
registra e o ato cognitivo, evidentemente, não acontece. Portanto, a primazia
do conhecimento, nesse sentido, está no sujeito, na razão que processa a realidade,
e esse é um parecer filosófico.
Já a ciência se baseia na oportunidade empírica de se
observar os fenômenos e deles tirar conclusões sobre suas causas e suas
consequências. Ao contrário do que pensa a filosofia, não há processos
cognitivos sem um fenômeno a ser observado, dando a precedência ao objeto nessa
relação: uma consciência nada observa se nada acontece.
Sendo assim, o corpo seria um mero suporte por onde corre a
consciência, sem nenhuma função além de “segurar” a mente que capta o exterior.
Ocorre que há um preconceito metafísico nessa dicotomia. Onde fica o corpo
nessa história toda? Por que nos esquecemos de que a entrada de toda e qualquer
sensação se dá por via dele?
É uma questão muito simples. Não há erro em atribuir
importância para a razão. É efetivamente por ela que se dá sentido ao
conhecimento que se adquire. Mas acontece que a mente pura não existe – ela
reside em um corpo como um de seus componentes e não alguma coisa à parte. É
tão influenciada por ele, quanto o influencia.
Eu já citei Merleau-Ponty por
aqui e vou fazê-lo novamente, por sua abordagem original com relação à
participação dos corpos na matriz do conhecimento. A principal crítica do
mestre francês se dirige ao pensamento racionalista de Descartes, mas ele
detecta que vem desde Platão um certo menosprezo pelo corpo, quando pensamos
que é nele que residem os sentidos. O padroeiro grego dizia com todas as letras
que o mundo dos sentidos, o mundo corpóreo, era eivado de erros, justamente
porque eles eram facilmente enganados por toda sorte de defeito. E é exatamente
sob esse signo que o fenomenólogo em tela cria um de seus grandes exemplos de
importância da corporeidade.
Platão despreza a arte. Ele o faz porque, para ele, todas as
coisas do mundo sensível são meras reproduções imperfeitas dos objetos
existentes no racional mundo das ideias. Dessa forma, qualquer paisagem que se
possa visualizar nada mais é do que a paisagem obtida através do intelecto na
perfeição matemática e geométrica das formulações, e que é plasmada para as
formas imperfeitas verificáveis na natureza e com os distúrbios dos sentidos.
Ao se reproduzir a paisagem em tela, nada mais se faz do que aumentar o nível
de discrepância entre o objeto intelectual e o objeto sensível: uma cópia da
cópia. Descartes sacramenta a divisão através da dualidade res cogitans
- res extensa, sendo que o corpo é colocado no âmbito da matéria como
uma pedra ou um pau qualquer, jogados no caminho. E Ponty se opõe
vertiginosamente a essa posição. Para ele, corpo e mente são simbiontes que têm
cada um a sua função própria no processo de absorver o mundo. De fato, as
reações corporais advindas de qualquer processo de interação com o ambiente são
prova de que tal interação é influente no caminho cognitivo, nosso modo pessoal
de dar suporte à consciência. Eu sinto raiva, e meus níveis de adrenalina e
cortisol são de uma determinada maneira; sinto alegria, e os mesmos hormônios
se dosam de maneira diferente. São instâncias corpóreas que influenciam
decisivamente na maneira com a qual eu desenvolvo minha percepção, provando que
o corpo importa, e muito. Dependendo do meu estado emocional, vejo as coisas de
maneiras diferentes.
Em contraposição a Platão, Merleau-Ponty entende que a mão
do artista reproduz exatamente aquilo que está na relação entre a mente e o
corpo, ou seja, a realidade que a mente do pintor processa ao se defrontar com
a paisagem é traduzida pelos seus dedos no trabalho na tela. A obra do pintor é
a tradução da consciência que não está além do corpo, e que é traduzida por
ele. Como exemplo, ele tenta criar uma relação entre a visão e a reprodução da
realidade realizada por Paul Cézanne, pintor pós-impressionista francês que
traz uma absoluta originalidade na sua obra.
O grande distintivo da obra de Cézanne é a distorção de
perspectivas, levada a cabo pela simplificação das formas. Para um olhar mais
descuidado, pode parecer uma falha de técnica, uma inabilidade no trato com os
pincéis, mas a existência de obras mais convencionais desfaz essa impressão e
nos trazem a pergunta: por que ele está pintando dessa forma?
A questão é a seguinte: se olhamos para um círculo
obliquamente, vemos uma elipse. Sabemos se tratar de um círculo, e nossa mente
se encarrega de corrigir essa percepção, mas o fato concreto, efetivo e real é
que vemos uma elipse, que varia de forma dependendo do ângulo que a captamos.
Vejam a obra abaixo, chamada “natureza morta: jarra e frutas em uma mesa”
(disponível em https://paul-cezanne.org/Still-Life-Jug-And-Fruits-On-A-Table.html):
Notem que as formas não são precisas como se esperaria de uma reprodução fiel. Há várias referências à esfericidade das frutas, aos pontos de fuga da linha do horizonte e aos paralelismos congruentes, que são todos imprecisos, da mesma forma que é imprecisa nossa sensibilidade voltada para o mundo. O objetivo de Cézanne não é reproduzir os objetos como eles são, mas como ele os percebe.
Cézanne tinha uma dúvida. Será que sua vocação não era uma
mera falsidade, e que sua obra peculiar não era advinda de alguma moléstia
visual? Será que todo o seu talento não é originado de um mero acidente da
vida?
Merleau-Ponty entende que a dúvida nada mais é que a
confusão para uma ideia que vai além do mero alcance imediato. O que Cézanne
faz é deixar aflorar sua percepção, e, a partir dela, traduzir o que seus
sentidos apreendem da maneira mais brusca, mais pura. Não se trata de uma obra
puramente racional, em que a mente se encarrega de corrigir as distorções dos
sentidos, mas com os objetos sendo traduzidos da maneira exata com a qual são
apreendidos, nas suas formas mais elementares. É a tradução perfeita de como o
corpo, o intermédio dos sentidos, é parte integrante da relação da consciência
com o mundo.
Essa questão da distorção, sendo traduzida para nossa vida
presente, demonstra como a intuição inicial passa por processos de correção em
nossa mente, mas ocorre de pararem no ponto da opinião, e de se ficar sem
querer que haja continuidade no mecanismo racional. O problema, muitas vezes, é
que nós mesmos não acreditamos muito nas recomendações mais abalizadas, por um
simples motivo de… nada. Posição pessoal, em resumo. Muitas vezes influenciadas
por opiniões arraigadas, fincadas em convicções apoiadas nas nuvens.
Eu mesmo tinha um exemplo de conduta. Desde 1999 foram
iniciadas campanhas de vacina contra a gripe no Brasil. Quando o acesso foi
franqueado para a população ampla, fui lá tomar minha dose, ofertada pela
prefeitura. Eu passei muito mal, com os piores sintomas possíveis: febre alta,
corpo mole, coriza e dor de cabeça. Eu pensei comigo mesmo ter tomado uma
vacina PARA gripe, e não CONTRA. Desde então, parei por completo de tomar a
dita cuja. Só após a crise da pandemia, convencido pelo conhecimento maior acerca
das vacinas e já com a explicação médica de que eu não tinha uma espécie de
restrição, mas apenas o efeito de receber uma carga viral muito alta e de cepas
variadas, que eu voltei a receber as mesmas.
É aí que colidem conhecimento e opinião. Por mais que uma
coincida com a outra, a última tem um estatuto de verdade ainda menor que a
primeira. Como assim? Todo conhecimento é o conhecimento que temos no momento
atual, podendo ser modificado na medida em que se aprofunda um estudo sobre o
tema em questão. Já a opinião é composta mais por carga cultural e convicção
pessoal, que, justamente por isso, são mais nossas, e as amamos mais.
Não é incomum que alguém diga que “para mim”, tal coisa é
verdadeira ou falsa baseada meramente em convicções. E isso é evidentemente
falacioso. A falácia da incredulidade pessoal se baseia na assertiva de
que minha opinião é tão válida quanto qualquer teoria científica. Há milhões de
cientistas que compõem uma academia (agora no sentido de conhecimento) que
guarda tudo o que se pesquisou nos observatórios, laboratórios e nos campos, e
uma opinião baseada em qualquer tipo de achismo não tem o mesmo valor. O fato
de que eu não acreditei em uma teoria científica não a torna inválida,
simplesmente isso. As vacinas continuam a funcionar mesmo que eu creia em algum
maluco que diz que há chips sendo injetados em mim.
A incredulidade pessoal dispersa o foco do argumento porque
traz um confronto entre realidade cognoscível e mensurável e opinião, uma
espécie de lalalalá das crianças frente a qualquer coisa que ela não goste ou
não queira ouvir, e, sendo assim infantil, é também irrelevante para um debate
levado à sério.
E entre falácias, pintores em dúvida e gordos na academia
vamos entrelaçando nossas realidades com a percepção que temos dela, seja em nossos
corpos, seja em nossas mentes. Bons ventos a todos!
Recomendação de leitura:
A Dúvida de Cézanne é um artigo publicado inicialmente na
revista da universidade onde Merleau-Ponty lecionava, e que foi parar em
diversas coletâneas. Segue uma indicação:
MERLEAU-PONTY, Maurice. A Dúvida de Cézanne. In Os Pensadores.
São Paulo: Abril Cultural, 1980.

