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quarta-feira, 4 de junho de 2025

O Futebol e suas diferentes filosofias: o diferenciado Juventus e a inexplicável força da identidade

(Bairrismo é legal? Depende)

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”

Fernando Pessoa, sob o heterônimo Alberto Caeiro

 

Olá!

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Meus filhos nasceram na Aclimação. A patroa não é de São Paulo, nasceu na mesma São Caetano que meu filho mais velho, falecido ainda criança. Do pessoal do serviço, um é do Tatuapé e outra de Itaquera, os outros são de outras cidades. Nenhum deles tece loas ao lugar onde nasceu, nem mesmo onde mora. Não é costume nesta cidade arrotar com gosto ser do Cambuci, ou da Vila Penteado, ou ainda do Rio Pequeno. Essas coisas passam praticamente batidas, e você convive anos com uma pessoa sem saber bem de onde ela é. Mas eu sou da Mooca. Eu nasci na Mooca, na Rua Sebastião Preto, e tenho minha certidão no cartório que fica bem na frente da igreja do Bom Conselho. A parentegem estava lá em peso: a Tia Maria morava na Rua do Acre; o Tio Chico, na Rua Javari, e o Tio Rafa na Capitães-Mores. Já meu avô percorreu o bairro todo com sua casa e com sua oficina: Tamarataca, Madre de Deus, Caetano Pinto, Campineiros e terminando seus dias na Rua do Oratório, onde alugava o salão da Kathy, uma senhora alemã que mandava pacotes de doces divinos, melados a ponto de dar diabetes mentais. Sou da Mooca, e todo mundo que lá nasceu ou mora proclama o fato a alta voz.

Alguns moradores de Santa Cecília, Vila Madalena e Ipiranga se ufanam dos bairros em que nasceram. Um pouco pela tradição, muito pelo que representam, são lugares que carregam uma espécie de distintivo dos que lá habitam, como os apartamentos com chão de tacos, os becos grafitados e a vista para o Museu, respectivamente. Mas quando pensamos em São Paulo, e disso falamos de mais de doze milhões de habitantes, nenhum bairro é mais bairrista do que a Mooca.

Esse é o tipo de fenômeno que é difícil de explicar. De fato, a Mooca é um bairro ainda aprazível, com bons remanescentes dos seus tempos operários, como as casinhas da Rua do Hipódromo, as insistentes fábricas ao longo da ferrovia, os casarões da Paes de Barros e até mesmo dos cortiços da parte baixa, para onde a maior parte dos imigrantes acorreu em sua chegada ao Brasil. Mas que não é assim tão diferente de outros bairros para virar um distintivo tão peculiar.

A Mooca tem suas personalidades, seus edifícios, seus abundantes restaurantes, cantinas, pizzarias, trattorias, botecos, suas mazelas e suas venturas. Tudo isso há em outros lugares, mas a Mooca tem um time. A Mooca tem o Juventus.

A história do Juventus se mistura à própria história do bairro, e é um pequeno compêndio do que é a Mooca. A origem italiana dos proprietários do Cotonifício Crespi é o único ponto em comum com os operários que por lá fundaram um time com o beneplácito de seus patrões. Ainda hoje quem passa pelas bandas do pequeno estádio da Rua Javari vê os testemunhos das pequenas casinhas que ladeavam a imensa fábrica têxtil. A indústria, as casas e o campo eram o resumo da vida de uma população muito pobre, que ainda trabalhava praticamente sem legislação trabalhista e pouca proteção prática em serviços extenuantes e perigosos. Lembro de muitos dos meus velhos parentes que exibiam cicatrizes com um certo orgulho, porque eram, na verdade, sinais de sobrevivência, um certo heroísmo frente àqueles que sucumbiram, de quem contam fartas histórias. Isso ocorria em todos os bairros operários, mas a Mooca tinha essa espécie de comunhão de comunidades que a tornou singular.

O campo do cotonifício virou um tipo de refúgio único de lazer para onde desembocavam todos esses trabalhadores, e lá criaram um movimento forte de identidade. Havia outros campos, é verdade, mas o clube resultante, uma fusão dos times de Turim, com as cores de um e o nome do outro, virou um amálgama para as classes sociais que giravam em torno da fábrica. Afinal de contas, a Mooca é lembrada como bairro de italianos, mas lá havia os espanhóis, os armênios, os portugueses, os gregos, os alemães, os russos, os libaneses. Tudo isso porque lá estava a Hospedaria dos Imigrantes, hoje transformada em espaço cultural, primeiro abrigo daqueles que vinham do mundo todo para tentar sua sorte nos trópicos. Não encontraram o bairro vazio, entretanto, já que lá havia várias comunidades afrodescendentes que cercavam o centro e os nordestinos que habitavam cortiços “especializados” na beira do Tamanduateí.

Isso tem a ver com criação de identidades. Uma boa parte vem da nossa busca por distintivos pessoais, e outra por símbolos que nos moldam como somos. Um mooquense dificilmente é torcedor do Juventus como time principal, mas também dificilmente deixa de adotá-lo como uma referência à sua procedência. E por quê?

É que não somos unívocos. Temos uma identidade genética, mas também temos uma identidade adquirida. Da primeira, em geral não temos muito o que mudar, porque está em nossa constituição física, com hereditariedades imperativas. É aquela história de que não adianta comer fermento; o baixinho é baixinho e pronto. Já com relação ao ambiente que nos cerca, ele nos torna boa parte do que somos porque é desejável, ou mesmo necessário, ter conformidade. E isso faz com que tenhamos orgulho ou vergonha de acordo com que o consenso estabelece.

Quando você vem no domingo de manhã para a região da Javari, vê uma multidão de grená se encaminhando para o antiquíssimo estádio, com sua área coberta sui generis e arquibancada em concreto armado. É uma estrutura simples, que os apaixonados não querem modificar de jeito algum, embora fosse desejável que se tornasse mais hodierno, caso se queira evolução. Mas as faixas da torcida dizem “ódio eterno ao futebol moderno”, não porque não se queira que o time cresça, mas porque é o grande catalisador dessa identidade. É muito diferente estar lá, porque os adversários não são chamados para a briga. Pelo contrário até, nos botequins próximos juventinos se misturam a nacionalinos, lusos, interioranos dos mais diferentes locais e bebem seus gorós antes e depois das contendas, sem que isso vire um campo de batalha como acontece com torcidas maiores, e sem que isso represente ser menos aguerrido. É um diferencial que demonstra hospitalidade do clube e do bairro, e isso agrega. Os frequentadores observam isso e tomam como valor, de modo a arraigar mais e mais tal comportamento.

A torcida é como uma tropa de um exército de Brancaleone, aquele de quem pouco se espera, mas que muito entrega. O apelido do Juventus é Moleque Travesso não à toa. Não foi uma mascote forçada, como os leões espalhados Brasil afora, mas ganho pela torcida e pela imprensa, por aprontar suas artes contra os grandes e perturbar sua paz, principalmente no seu grund da Rua Paulo, a Rua Javari, o pequenino campo do cotonifício.

Minha identificação com a Mooca não poderia ser mais vinculada ao Juventus do que já é. Da rua em que nasci, são dez minutos a pé até o clube social, construído no antigo varjão conhecido como Tchipum. Já do campo, duas casas à direita e se chega ao lar do Zio Chico e da prima Nélide, onde volta e meia caem bolas chutadas pelos beques fazendeiros. Nos últimos tempos, enquanto o pessoal procurava lugares cada vez mais longe para estacionar, eu colocava o possante espertamente na porta da garagem da prima, quase zombeteiro, para depois pegar um macarrão com polpetta com a veneranda parenta. É certamente o estádio onde eu mais assisti futebol na vida, favorecido por todos esses fatores.

Dizem que a Mooca tem um time, mas também o Juventus tem um bairro, fenômeno raro nas terras de Pindorama. Um tem orgulho do outro, mesmo nos momentos de baixa, porque não é preciso sair da Mooca para encontrar o símbolo de guerra daquela gente. O Corinthians não é do Tatuapé, o Palmeiras não é da Água Branca, o São Paulo não é do Morumbi. Eles são da cidade, do país, quiçá do mundo, mas só o Juventus é da Mooca, e ela, coincidência ou não, é o bairro mais bairrista de São Paulo.

Há um porém oculto, que precisa ser tratado com cuidado. O bairrismo é uma aldeia que fica no meio do caminho que leva à xenofobia, e a estrada se alarga após passar pelo seu acesso. Isso porque o sentimento de identidade, por si só, não é ruim. O problema é quando adquirimos a sensação de que ninguém que vem de fora é digno de compartilhar o nosso espaço. A Mooca, assim como todo o Brasil, foi construída não só pelos imigrantes italianos, mas pelos índios que lá já estavam e pelos negros que foram trazidos na marra, assim como por outros europeus e pelos asiáticos, especialmente do Oriente Médio. Quem vem de fora, não percebe tanta diferença com relação a outros bairros tradicionais, então é na história e nas tradições que a Mooca se torna quem é. E ela se escreve nos ciclos de gente que vem e que vai, comprovando o dinamismo da existência humana, seja no plano individual, seja no âmbito das coletividades. Se o bairrismo do mooquense se mantiver nos limites identitários, teremos um povo que se orgulha, que é farrista, que fala alto e gosta de onde vive, que cuida de suas ruas e de sua vizinhança; se passar disso, será perdida toda aura de empatia que desemboca até mesmo no Juventus.

Tomados esses cuidados, e tirando o discurso passional tão típico dos italianos, algumas coisas nos fazem desconfiar dos elementos motivadores para o bairrismo deste local. A Mooca é muito antiga, com seus primeiros registros históricos surgindo apenas dois anos após a fundação de São Paulo. É povoada de fábricas e suas consequentes vilas operárias, o que dá um certo fechamento nas comunidades que se formam. Esse é um fato que se deu em outros bairros também, como o Brás e o Bom Retiro, mas, por diferentes motivos, as coletividades desses locais foram se esgarçando, modificando e dispersando, com remanescentes diferentes daqueles que lá estavam no processo de industrialização. Na Mooca, que se manteve fabril por mais tempo, e que não teve nenhum evento causador de diásporas (como a construção do metrô ou de alguma rodoviária inútil), as mesmas comunidades se mantiveram mais intocadas, e, com isso, aquele clima mais familiar, de todo mundo se conhecer há gerações. Além disso, e mais uma vez pela origem industrial do bairro, foi aqui que movimentos anarquistas e sindicalistas chegaram com mais força, o que reforça o sentimento de pertencimento que nasceu das células e se espraiou para os botequins e praças; para os pontos de convívio, em suma – indo parar no futebolzinho sagrado do fim de semana. E isso causa a sensação de um mundo à parte, de cidade dentro da cidade. Quem é da Mooca se considera mooquense antes de ser paulistano. Para os mais exaltados, antes de ser brasileiro. O Moleque subsiste porque agrega todos esses valores, é a bandeira grená que esse povo carrega para gritar “orra, meu” pela cidade toda.

Inclusive eu. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Publicação oficial patrocinada pelo clube:

AGARELLI, Ângelo; GALLUPPO, Fernando; ROMANO NETTO, Vicente. Glórias de um Moleque Travesso. São Paulo: BB Editora, 2012.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

A morte e a eternidade do rock’n’roll

(O rock morreu? Viva o rock!!!) 

“Pra que sofrer com despedida

Se quem parte não leva

Nem o sol, nem as trevas

E quem fica não se esquece

Tudo que sonhou?

Rita Lee

Olá! 

Vou começar o texto de hoje com uma notícia chata. A dona Madalena morreu. Ora (direis), a dona Madalena tinha 93 anos, vamos combinar que não se trata de uma manchete de repercussão nacional. Não, não é, de fato, mas o mundo é feito de pequenos mundos, e, por isso, há relevância naquele que eu vivo, especialmente pelo trabalhão que deu o seu encaminhamento. Obviamente, ela morreu de idade, como se diz por aí, mas o diagnóstico preciso foi uma embolia pulmonar. Vinha com uma tossinha chata, e a patroa a levou ao hospital, para dar uma olhada. É aquele momento em que os médicos ficam em uma encruzilhada quando deparam com o caso: não intervir é praticamente condenar a pessoa, intervir é ainda mais arriscado. Sendo assim, a alternativa é clinicar e observar, tentando ver onde vai dar. Deu onde deu.

A dona Madalena tinha o hábito de tirar uma soneca depois do almoço, e foi nesse momento que se deu o passamento. Uma morte de passarinho, como fala a patuleia. A patroa, como de hábito, desceu ao apartamento dela às 16 horas, e deu de frente com aquele corpo imóvel. “Tá dormindo ainda”, pensou ela, mas juntou lé com cré e se deu conta de que, apesar da boca aberta, o ronco nosso de cada dia não vinha. Aproximou-se lentamente e a chamou, sem resposta. Encostou a mão no corpo já frio e diagnosticou o fato. Daí por diante, aquela habitual correria se estabeleceu, com a consorte chamando o SAMU, que chamou a Polícia, que chamou o rabecão, que chamou a funerária, que chamou o andor, e daí para a carneira, o horroroso nome dado naquele cemitério à gaveta onde os cadáveres repousam.

Eu acompanhei a patroa desde o momento em que voltei para casa, incluindo delegacia e reconhecimento do cadáver. O IML* é meio seco com essa questão. Traz o corpo até a porta dos carros e chama o defunto pelo nome, para que os parentes venham ver se o boneco pertence a eles. Embora a dona Madalena não fosse nenhuma menininha, ela não era exatamente feia, mas estava com uma cara terrível: de boca aberta e dentes para fora, já naquela alegre coloração típica dos defuntos. Ao contrário da morte de passarinho precitada, tínhamos uma figuração de sofrimento nesse momento.

Na mesma hora lembrei da morte de um cachorro que eu tive, chamado Coronel. Ele sofria da mesma doença da dona Madalena: velhice. Tinha problemas do coração e um câncer, que, felizmente, era muito preguiçoso.  Na noite anterior à sua morte, passou a noite inteira andando para lá e para cá, sem conseguir dormir, com bastante dificuldade para respirar. Fui me arrumar para levá-lo ao veterinário, já pensando se valia a pena aquele sofrimento, mas ele mesmo resolveu a parada antes. Enquanto tomava um café para acordar, ele veio próximo à porta, arfando.  De repente, ele ficou paralisado e fez um esgar de forte dor, desmoronando de lado. Já no chão, um chorinho quase imperceptível foi a sua despedida do mundo, apesar de se manter de olhos abertos e boca repuxada. É feia a cara da morte.

Infelizmente (ou não), ainda não inventaram uma maneira de manter as coisas eternas. Isso não se aplica apenas a pessoas e bichos, mas também a povos, países, tendências e até mesmo ideias. Isso faz com que os costumes caiam na mesma vala comum, e com isso as modas e as correntes em geral, incluindo as musicais. Como sou velha guarda, gosto de acompanhar canais idem, e é meio recorrente a ideia de que velamos um morto. Dizem que o rock morreu. Será verdade?

Vou começar fazendo um relato empírico pessoal. Eu-jovem tinha muita sanha em montar minha própria banda, e o fiz por cinco vezes, fora as jams ocasionais com os amigos. Cinco tentativas frustradas, que se desvaneceram tão logo a realidade tenha sido posta às suas frentes. Eram tempos de vontades boas e instrumentos ruins, de letras que falavam de barreiras comunicativas, de desejos inalcançáveis, de protesto e de pessimismo, vide Legião, Engenheiros, Ira! e tantos outros, e eu queria também dar meus gritos. Como eu, tantos outros eus-jovens tinham os mesmos anseios e tentavam expressar isso no seu rock de garagem, básico e bem expresso, sem muitos volteios. Não havia comodismo: carregávamos nossa bateria em um Fusca, que não é notável pelo espaço disponível. Era o carro que tínhamos, e os outros instrumentos iam na mão mesmo. Alguns dos músicos vinham de longe, e sacrificávamos os domingos para ensaiar músicas próprias e de outrem. Isso se repetia em muitas garagens, quartos, quintais, salas e cômodos do bairro em que eu morava. Tinha grupos com nomes como Visão Natural, Opção, Gregs, Alma, Espermaloprados (que nome), a banda do Almir (que eu não lembro o nome), e as que eu passei: Carnívoro, Tropa de Choque, Sentença de Fogo, Mosaico e, principalmente, Exílio. Cada uma delas tem sua história, sua produção, suas ideias e ideais. Era bem comum andar pelas ruas e ouvir os rangidos das guitarras pobres e dos amplificadores rasteiros, aterrorizando as vizinhanças como fazem os batidões hoje em dia. Afinando bem os ouvidos, era possível notar talento e musicalidade, e principalmente uma indisposição com o mundo que nos cercava (e a vontade de pegar menininhas). Tínhamos medo da Guerra Fria, e também da penúria do país.

Hoje em dia, os computadores permitem fazer coisas que nem nos nossos mais róseos sonhos seria possível de realizar. Todos os pedais de efeitos que não podíamos comprar estão no clique de um botão na tela. Uma mesa de quatro canais, raridade quase impossível, é um conceito infinito em um dos Sound Forge da vida. Não dá para ter uma bateria? Tem programa para isso. A gravação da voz ficou xoxa, capenga, manca, anêmica, frágil e inconsistente? Há sempre um Autotune para fortalecer a amizade. Um apoio e tanto para quem tocava em pedaços de pau com arame, ou tambores que perdiam para Tupperwares.

Mas eu ando pelas mesmas ruas, mesmos bairros e mesmas garagens e não vejo mais bandas tocando. Ouço, sim, rapaziadas que se sentam na porta de casa com poderosas caixas acústicas que projetam a quilômetros aquele sertanejinho xexelento pelos quatro ventos, vingando-se da minha rebeldia juvenil. Há todos esses recursos, fora o barateamento dos instrumentos e sua melhor qualidade, e é muito difícil encontrar esse antigo entusiasmo. 

Bem, sertanejos não se ocupam mais de tocar suas violas e sanfonas, e basta aprender a “cantar” na terça acima ou abaixo para se proclamar cantor sertanejo. As letras você pega em poemas de segundanistas (do primário). Já os funkeiros precisam de maquininhas virtuais de gerar ritmo e aprender o máximo possível de palavrões. Cospem na cara da sociedade dessa forma e é suficiente para eles. Assim, o aprendizado de um instrumento ou passar mais de meia hora escrevendo uma letra não está na moda neste momento, e não significa necessariamente que a realidade vai se manter assim para sempre, mas essa é a realidade atual e é baixa a produção rockeira, muito longe do mainstream.

Há duas respostas comuns para essa questão: quem disse que não há produção e tal banda salvou o rock. São duas meias verdades. Existe, sim, gente fazendo sons novos e bons, assim como há ainda velhos lobos que não se limitam a viver das glórias passadas, mas não na quantidade que se praticava na década de 80, isso é objetivo e empírico. E dizer que tal banda salvou o rock é um lugar comum que usamos quando achamos alguma novidade que vai remexer nas gavetas da nossa memória e trazer algo semelhante aos “bons tempos”. Eu mesmo fiz isso aqui, sem um grande senso crítico, mas com a intenção de apresentar uma novidade que me empolgou, só isso.

O fato é que o rock não morre; ele subsiste por si só. E sabe por quê? Porque há limite no animismo, no sentido de que dizer que uma corrente morta é uma metaforização. As coisas vão e voltam, e o rock está em um momento em que ele foi. Daqui a pouco volta? É provável, já que a corrente foi muito impactante para simplesmente desaparecer. Dois exemplinhos de como as coisas voltam: o foxtrot era um ritmo da década de 30 da século passado, e ficou adormecido como música de velho até voltar como estilo de dança a partir dos anos 2000, com seu intenso deslizar e cruzar de pernas, porque acharam que se adaptava bem à música eletrônica de então. O outro é mais extremo: o canto gregoriano, surgido lá nos idos do século VI no mínimo, e que teve uma hype depois dos anos 2000, em combinação com a mesma música eletrônica.

Mas, se não voltar, ficará no registro, não há grandes dramas nisso. Há ondas que vem e que vão, assim como há águas que batem nas pedras e se desmancham na espuma. A vida é cíclica sem necessidade de um eterno retorno, e faz parte sabermos viver o hoje, colher o dia. O que é mais certo é que os sertanejos e os batidões aos quais me referi vão passar também, para serem substituídos por coisas que talvez consideremos ainda piores. Sabe-se lá como serão as coisas com inteligência artificial atuando, já que não há grandes problemas em desfiar a sutil poética existente nessas duas correntes. Pode ser que sejam construídas canções personalíssimas, que sirvam para um único contribuinte, quem sabe?

Para além da poética própria dos inícios e fins, entretanto, há uma vida prática onde comemos nosso arroz-com-feijão. Os festivais são, desde a época de Woodstock, símbolos de uma coletividade que se agrega em torno de ideais. Aí vem um tal de Rock in Rio e traz um de seus dias específico daquele mesmo sertanejo que tanto me provoca ojeriza. Que sentido tem isso? Uma hipótese que coloco é que o rock foi capaz de feitos históricos: festivais gigantescos que simbolizavam uma nova juventude, a união do mundo para salvaguardar a miséria, a revolta contra as guerras, uma vontade de mudança, a contraposição ao mundo estabelecido pelos adultos de plantão. Nenhum show de sertanejo foi capaz de mobilizações para além do próprio show, como faz o rock, e isso dá um selo de credibilidade semelhante ao da ciência –  toda pseudociência quer ser ciência para ganhar as credenciais que esta conseguiu por sua seriedade e capacidade de gerar confiança. Ou, no caso, de apontar para um sentido, para uma luta, para um ideal.

Por isso, mesmo que esteja morto, o tal do rock and roll, nas suas mais diferentes vertentes, carrega a função de ser porta-voz da juventude. Mortos deixam registros: fotos, histórias, e, no caso, músicas. É verdade que o rap continua carregando uma bandeira semelhante, e o funk, por incrível que pareça, faz o papel de contraposição ao que se empurra goela abaixo da rapaziada, mas vivemos o estranho fenômeno de adolescentes conservadores, o que é quase um contrassenso, e já não vemos bandeiras sendo carregadas. 

Dizem que banda x ou y salvaram o rock, o que não é verdade, se analisarmos calmamente a impressão que temos: o fato é o mainstream é de outras tendências agora. Então resta presentificar o passado ou fazer um trabalho de garimpagem, o que é muito tranquilo nos dias de hoje, com os Deezers e Spotifys. Na primeira hipótese, há milhares e milhares de opções, milhões e milhões de horas de músicas, que podem ser localizadas em terabytes de textos que trazem boas indicações, ao custo de uma conexão de internet. É tanto material que é impossível de conhecer tudo, e sempre fica no ar aquela pergunta: “como eu nunca tinha ouvido isso?”. Exemplifiquei uma experiência própria neste texto. Na segunda, há muita coisa boa surgindo a cada instante, embora não pululem no dial das rádios como outrora, e demanda do contribuinte uma disposição em encontrar. Algumas bandas muito boas, novas e antigas, estão a pleno vapor e produzindo material de primeira. o Big Big Train continua fazendo progressivo de primeira, os japoneses do Koenjihyakkei continuam fazendo suas maluquices e o Gojira faz seu metal pesadíssimo há quase trinta anos. As três meninas mexicanas do The Warning produzem um hard rock afiadíssimo, enquanto as inesperadas indonésias do Voice of Baceprot desmontam qualquer tipo de estereótipo. Material há.

Talvez a grande dificuldade que temos hoje em dia é se centrar no novo. É quase inevitável que comparemos o que as bandas velhas fazem de novo com o que elas faziam antes, geralmente em prejuízo. E as bandas novas, nós as olhamos como inferiores ou mesmo meras imitadoras. Observo, por exemplo, o caso da banda Greta van Fleet. A uma primeira audição, dizemos ser uma imitação servil e desditosa do Led Zeppelin, uma cópia escancarada até nos trejeitos vocais. Mas eu resolvi olhar por outro ângulo. Digamos que o van Fleet nunca tenha existido, e seus álbuns tenham sido lançados em um retorno do Led Zeppelin. Eu diria que estes seriam decepcionantes? Que consistiriam uma categoria de álbuns desgraçados? Não, eu diria que seria um retorno muito digno. Não seria o caso de colocá-los na mesma prateleira do II e do IV, mas dariam credenciais para não se dizer que os velhos membros deveriam estar jogando bocha e dominó.

Sendo assim, entendo que nós mesmos criamos o que se chama de morte do rock, porque nós nos tornamos rigorosos demais. U2, Metallica, Guns’n’Roses e tantas outras bandas lançaram materiais que diferiam de seus inícios de carreira, e que não foram bem acolhidos, porque os fãs queriam mais e mais e mais do mesmo. Pensem no seguinte: o mesmo nós já temos, e porque não queremos o mais, ele não vem. Não adianta reclamar: a morte do rock vem dos fãs.

Ou então não é nada disso e eu só estou devaneando pelo excesso de cadáveres. Bons ventos a todos!

Recomendação de canal:

O radialista Gastão Moreira faz um bom serviço pelas duas mãos em seu subestimado canal no YouTube: traz excelentes memórias e peneira ótimas novidades. Para quem se vê perdido como eu, pode ser um bom guia.

https://www.youtube.com/@kazagastao/featured

Imagem da guitarra retirada de:

https://www.izzo.com.br/guitarra-wgs-sunburst-winner/p


*Na verdade é o SVO - Serviço de Verificação de Óbitos, mas todo mundo chama lá de IML.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Navegações de cabotagem – o Parque do Campolim de Sorocaba, suas pedras e a evolução (?) das religiões

(Pedras tem memórias? Religiões evoluem sempre no mesmo sentido?)

“Um evento é sempre filho de outro, e não devemos nunca esquecer o parentesco” – esse foi o comentário feito por um chefe banto a Casalis, o missionário africano. Assim, em todos os tempos, os historiadores, na medida em que pretenderam ser mais que meros cronistas, fizeram o melhor possível para mostrar não meramente a sucessão, mas sim a conexão entre os eventos que registravam.

Tylor

Olá!

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A pandemia teve dessas coisas. Durante o transcurso dela, aprendemos a utilizar os meios digitais para tarefas que habitualmente faríamos em carne e osso. Isso incluiu muitas coisas, como reuniões de família, por exemplo. Em um aniversário, bem no momento mais crítico das indefinições, compramos um pedaço de bolo em cada casa e cantamos a famosa trovinha via Skype©, em um exercício de afeto que procurava resolver a distância pela tecnologia possível. Fosse a vinte anos atrás, não seria possível tanta sofisticação.

Outras coisas foram andando pelo mesmo caminho, o que nos colocou diante de médicos pela telinha do celular, o que tornava pouco importante o ponto geográfico que o doutor se encontrava, e outros quesitos passaram a significar mais, como disponibilidade e preço.

As coisas foram se normalizando paulatinamente, demorando muito mais do que os quinze dias previstos para a duração do primeiríssimo lockdown, a ponto de nos acostumarmos com os médicos com os quais nos tratamos, e, uns mais, outros menos, passamos a frequentar presencialmente.

Acontece que há o critério da distância, como falei. Consultava uma endocrinologista de Pouso Alegre que, alvíssaras, se mudou recentemente para São Paulo. Não fosse isso, teria que baixar minha ficha. Mas há um médico de Sorocaba que gostaria de receber a visita da patroa, um neurologista, para um exame físico presencial. Ora, Sorocaba está a 100 km, factível a consulta, portanto.

Peguei uma folga e fomos até lá em uma quinta-feira, tempo ameno e trânsito razoável. Nessas coisas de horário certo, é bom usar a teoria mineira e chegar às 06h da manhã para o compromisso às 06h da tarde. Exageros à parte, chegamos com antecedência de duas horas, já prevendo um almoço antes. Só que, por mais que pegasse a comida de grão em grão, não dava para demorar todo esse tempo na mesa. O jeito era dar um passeio pelas ruas, por algum shopping, ou até em um parque, por que não? É o que fizemos. Fomos gastar os solados e fazer o quilo por uma horinha no Parque Carlos Alberto de Souza, mais conhecido como Campolim, localizado no bairro de mesmo nome.

A pessoa que denomina o parque foi um cidadão emérito da cidade de Sorocaba que viveu entre 1933 e 1997, o que nos faz deduzir que ele não era nascido por aqueles lados. Não consegui maiores informações sobre sua importância histórica. Se alguém souber, por favor, mande notícias nos comentários.

O bairro do Campolim é de classe social privilegiada, com belas casas e cercado de clínicas estéticas e consultórios médicos, que se encontra em amplo processo de verticalização, como ocorre com o paulistano Pinheiros.


O parque foi construído nas margens de um córrego, de forma a produzir uma bacia de contenção à moda dos parques de Curitiba (vide), o que diminui muito os problemas de enchentes e ainda dá aproveitamento social à área.

Os lagos formados pelas barreiras têm também a função de manter alguma fauna na região altamente urbanizada, o que é representado pela quantidade de aves nas ilhotas, especialmente biguás…

… e nas encostas, onde havia muitas galinhas d'água e corós.

Bem na entrada do parque, há um Marco da Paz, semelhante ao que temos no Pátio do Colégio, em Sampa. Criado pelo italiano Gaetano Brancati Luigi, é um monumento que possui um sino e uma pomba, sendo que aqui é composta por duas mãos com os dedos entrelaçados, dando um ar diferenciado à obra. Está espalhado por vários lugares do Brasil e do mundo, e tem o intento de lembrar as agruras da guerra e a importância da paz entre os povos.

O parque em si é simples, funcional, ocupando uma área que seria pouco aproveitada de outra forma, principalmente com trilhas para caminhada em saibro e areia, seguindo o curso natural do córrego.

Há os espaços de brinquedos para as crianças, um cachorródromo e um paço para feiras e eventos artísticos. A própria prefeitura aproveita o parque para fazer festas diversas.

E há pedras, muitas pedras. Elas estão ali desde muito antes dos primeiros indígenas que aqui chegaram e deram a este lugar o nome de “terra fendida" (o significado de Sorocaba em Tupi-Guarani).

Aliás, antes mesmo de qualquer animal ou outra forma de vida, essas pedras são testemunhas da própria formação do território, e o viram sendo tomado e transformado no que é hoje, uma cidade de grande porte, com todas as suas glórias e escórias. São donas da história, ainda que incomunicáveis conosco.

São mesmo? Em uma visão puramente material, as pedras são somente pedras, nada mais. A atribuição de características espirituais não faz parte desse universo. Mas se observarmos as culturas e as estatísticas, veremos que esse materialismo é bem mais raro do que a proposta inversa, então não há motivos para chacotas.

Esse modo de ver a realidade como possuidora de subjacências invisíveis aos olhos não é novo, nem velho. É antiquíssimo, na verdade, e nasceu praticamente ao mesmo tempo que os mecanismos evolutivos fizeram com que os bípedes implumes formassem as primeiras culturas. Desde o começo, a observação dos seres em movimento fazia com que se acreditasse em uma presença de energia vital que fornecesse ânimo para esse giro (anima, em latim, significa alma). É meio óbvio que esse princípio fosse atribuído primeiramente aos animais, humanos inclusos, mas a força vegetativa das plantas e a movimentação dos demais objetos construiu uma visão mais acurada. As primeiras impressões de que o universo ia além do que era possível captar pelos sentidos formaram as intenções em se estabelecer uma conexão com esse outro mundo, principalmente para se obter explicações sobre coisas que não estavam à disposição dos intelectos de então. De fato, quando olhamos para as antigas pedras, ou para as árvores centenárias que cercavam a região das tribos que ali habitavam, vemos que elas têm uma permanência muito mais longa do que a vida dos indivíduos em si, mas, de toda forma, mesmo esses seres permanentes são afetados pela comunidade que lhes cerca. Uma árvore tem seus galhos cortados e sua casca maculada, e uma pedra pode ser lascada ou garimpada, de forma a existir uma influência mútua, muito embora uma tenha carga de fixidez muito maior que as outras. Outro bom exemplo vem das condições climáticas. Em um veleiro antigo, o vento fazia toda a diferença. Se ele apontava para a direção exata de onde se queria ir, dizia-se que ele estava generoso; por outro lado, se ele estava ausente, poder-se-ia pensar que estava desgostoso. Era atribuída uma vontade e uma agência a uma condição meramente física, que, hoje sabemos, depende de fatores igualmente físicos. Dessa forma, os humanos começam a acreditar que há uma espécie de imaterialidade nesses seres que não manifestam vida. Podemos pensar nisso como a primeiríssima forma de religião: o animismo.

É preciso esclarecer que nunca houve uma religião chamada de animismo, assim como nunca houve outra chamada de politeísmo ou de monoteísmo, porque o termo diz respeito a uma forma, e não um conjunto de doutrinas que sistematizasse um pensamento transcendente. Por isso, podemos prosseguir.

Com o tempo, o pensamento animista foi se dirigindo para formas de canalizar a comunicação com a porção transcendente do mundo circunstante. Afinal de contas, se há uma anima que rege o material, deve ser possível movê-la para um sentido ou para o outro, de modo a influenciar sua atuação. Uma destas formas foi a sintetização em objetos que simbolizavam o espírito que se queria agradar, e nisto nasceram amuletos e talismãs, dentre outros elementos de culto. O objeto em si poderia ser uma escultura de madeira, um sachê de ervas, um conjunto de pedras disposto de maneira específica e assim por diante. Esses objetos, mais tarde conhecidos como fetiches (a mesma raiz etimológica de “feitiço”), deram a origem mais primária aos ídolos, que seriam a representação magnificada da divindade, que davam um conceito mais abrangente ao animismo do pormenor. Dessa forma, o ídolo teria a capacidade de representar com tanto grau de proximidade a transcendência à qual se refere que passa, ele mesmo, a ser sacralizado.

Ocorre que houve um momento tal que esses ídolos foram se identificando cada vez mais aos elementos que distinguem a vida humana, a ponto de se tornarem pessoais. Os ídolos já não são mais representações, mas incorporações de um determinado domínio, e cada uma delas passa a ser, ela própria, uma divindade. Esse seria o que mais tarde ficou conhecido como politeísmo, que ficou eternizado com o paganismo grego. Lá, o trovão em si deixou de ser divinizado, para ser personificado em Zeus, que agora era o regente desse elemento.

Os grandes mecanismos universos, no entanto, parecem ter conduzido a visão de transcendência ainda para outro ponto. Embora catástrofes pudessem ainda denunciar uma espécie de descontentamento divino, o fato é que a harmonia entre os fenômenos dá menos a ideia de uma rivalidade entre deidades, e mais de pensamento unificado, como se uma única mente tivesse orquestrado tudo aquilo que existe. Esse seria o nascedouro do monoteísmo, que, se visto sob um prisma demográfico, é prevalente em boa parte da população mundial.

Pode-se perceber que, ainda que as concepções sobre quantidade e localização das deidades fossem fundamentalmente diferentes, em todas elas temos uma transferência de características humanas. Comunitariamente, projetamos nós mesmos em nossas divindades, dando a elas aspectos humanos. Os deuses podem ser irascíveis, bondosos, piedosos, severos, tudo ao máximo, mas tudo partindo de sentimentos que nós mesmos podemos ter. Não há sentimentos exclusivamente divinos - a diferença está apenas no grau atribuído.

Mas à medida que o tempo avança, avança também a ciência e a tecnologia, bem como os ideais democráticos vão tornando mais e mais antiquada a concepção de um regente universal. Certas concepções divinas vão se tornando mais difusas, onde estas vão tomando um aspecto mais espiritual e menos pessoal, na forma de energia, contrapondo-se à imagem do deus entronizado, semelhantemente ao que acontece com o poder fragmentado nas mãos do povo, como se pudesse ser reconhecido nas pequenas coisas.

A aproximação com uma visão mais científica do que é a divindade é inevitável. As inúmeras explicações conseguidas pela atividade científica despovoam o imaginário das fúrias divinas, e a própria natureza volta a ser reconhecida como força por trás de tudo, já sem o teor divinizante anteriormente atribuído a ela.

Essa corrente de pensamento apareceu bem tardiamente, no momento em que a modernidade impôs a sistematização do conhecimento como ciências, no caso, a antropologia. No auge do surgimento da evolução biológica, outras aplicabilidades para a mesma lógica surgiram, e os pensadores viam que a religião era uma dessas áreas, com Edward Tylor à frente. Sua principal ideia era a de que o pensamento humano tinha uma certa homogeneidade, nascendo de forma semelhante em diferentes culturas e sendo modificado na medida em que as “pressões seletivas” iam moldando-o. Como o homem é mais ou menos uniforme, seu pensamento também o é, e, sendo assim, práticas mais antigas pertenceriam a culturas mais primitivas. O animismo seria o nascedouro de qualquer religião, que evoluiria através da linha imaginada, até chegar ao seu ponto atual.

A questão toda é que guardamos uma visão muito ocidentalizada do que é a religião. Essa linha de animismo-politeísmo-monoteísmo e hipóteses posteriores refletem muito o que ocorreu na Europa e nas suas áreas de influência, mas não dão cabo de uma explicação geral de como se desenrola a antropologia da religião. O grande problema está na cara de “melhoramentos” que a teoria tem, com o politeísmo sendo um aperfeiçoamento do animismo, e o monoteísmo como um aperfeiçoamento do politeísmo, o que não acontece nem na evolução biológica. Minhocas dão origens às sanguessugas, e ambas convivem muito bem, obrigado. Isso se comprova não somente na inversão de ordem que encontramos na formação de religiões não-ocidentais, como na permanência de práticas próximas ao animismo nas ditas religiões modernas.

Um bom exemplo de animismo moderno é o feng shui, que não é propriamente novo, mas que reavivou com muita força a partir dos anos 2000. Posição dos móveis e da própria casa na busca de melhores energias nada mais são do que atribuir aos objetos uma força transcendente.

Há ainda que se pensar no quanto religiões monoteístas ainda carregam boa quota de animismo. São velas, imagens, incensos que são muito assemelhados aos antigos fetiches, porque não só parecem carregar em si um poder mágico, mas também são protegidos pela comunidade que se dirige a eles. Os católicos têm muito disso. Aqui mesmo onde moro, um prédio pertencente a uma ordem religiosa, as velhinhas tem um voto de estar sempre carregando um escapulário, uma espécie de colar contendo um pedaço de feltro com algumas imagens e orações. Elas acreditam que estar com esse objeto na hora da morte lhes garantirá ida sem escala para o céu.  É um desvirtuamento da própria fé cristã, mas o fato é que a Igreja aceita e até incentiva esse tipo de conduta.

Evangélicos dirão: nós não temos essas práticas idólatras. Experimente rasgar uma Bíblia perto de um deles. Objetivamente, é uma resma de papel com tinta, nada mais do que isso, e as palavras lá escritas não se perderão como se perde o exemplar. Mas, no mínimo, te chamarão de satanista ou macumbeiro (que para eles é a mesma coisa).

Tylor não era um cristão que tentava propor os monoteísmos como uma forma mais avançada de religião com relação a outras, muito pelo contrário. Sua intenção era provar que o Cristianismo veio de uma religião mais primitiva, que estaria na base de sua constituição, e que ele não poderia se arrogar o atributo de uma fé pura e original, como é bastante comum que os próprios se insinuem. Entretanto, é o caso flagrante de teoria que só tem importância no contexto histórico, o que já é o bastante para entender como se processa o desenvolvimento das ideias.

Voltando ao mundo imanente, ficamos tão sossegados olhando os pássaros e as pedras que por pouco não perdemos o horário, e lá se iria mais o testemunho de uma minúscula história. Bons ventos a todos!

Recomendações:

As ideias de Tylor praticamente caíram no esquecimento, e por essa razão é muito difícil encontrar traduções diretas de seus livros hoje em dia, razão pela qual indico o compilado de textos abaixo, onde ainda é possível ler alguma coisa direta dele.

CASTRO, Celso (org.). Evolucionismo Cultural. Textos de Morgan, Tylor e Frazer. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

 

Quanto ao parque, seguem suas referências.

Parque Carlos Alberto de Souza (Campolim)

Avenida Antônio Carlos Comitre, s/n

Campolim

Sorocaba/SP 

A aproximadamente 105 km do centro de São Paulo 

segunda-feira, 11 de março de 2024

Para lá da serra que eu vejo na janela – 6º episódio: Vale do Bom Jardim e o momento em que teremos uma quarta ferida narcísica

(Balançar na rede me afasta do meu mundo, e me leva a pensar qual será o próximo passo para que nos reconheçamos mais e mais inferiorizados)

É que Narciso acha feio o que não é espelho

Caetano

 

Olá!

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Eu me casei em um mês de janeiro e, por conta disso, sempre procuro fazer um agradinho para a patroa quando é chegado esse mês. Até não muito tempo atrás, dados os limites financeiros, costumávamos comer na pizzaria, ao invés de fazê-lo em casa. Hoje em dia, já dá para pensar em alguma coisa mais arrojada, e temos feito curtíssimas viagens, de três ou quatro dias, onde comemos, bebemos e celebramos a vida.

Não foi diferente neste ano. Como é viagem de tiro curto, não dá para errar, e o negócio é fazer uma reserva. Só que eu errei. Sendo janeiro, pensei em pular para o polo oposto e procurar um destino de inverno, e raciocinei: será que desta vez dá para fazer as trilhas de Monte Verde sem chuva? Eu já havia viajado para lá, e peguei um interessante contraste de chuva e sol, e gostaria de revê-la, desta vez a seco. Só que os aplicativos de hotéis não se limitam a pesquisar a localidade desejada, mas uma área ao seu redor com um raio generoso. Estupidamente, olhei uma oferta atraente, vi fotos do lugar e fechei questão. Só que fui parar 20 km de terra longe dali, ainda em Camanducaia, mas em um distrito chamado Vale do Bom Jardim.

“Você deve ter ficado puto”, pensará você. Pior que não. É um lugar muito bonito, tranquilíssimo, que ainda não está na crista da onda do turismo, afastado de excessos de rodas por causa da chegada exclusiva por estradas de terra, mas é inevitável que logo chegue lá, dada a quantidade de construções de casinhas e chalés pela redondeza. Dá para perceber claramente a estrutura geográfica que dá nome ao lugarejo ao observar a paisagem pela estradinha.

Sendo assim, não fiquei aborrecido, muito pelo contrário. O Vale é um lugarejo simples, cheio de morros e fundos, com um clima bem ameno e repleto de caminhos de chão.

Se temos um vale, é sinal de que temos um rio, e este é o Rio Jaguary, cuja nascente não está muito longe dali e que vem formando saltos e cachoeirinhas por todo o seu trajeto. Bem de frente ao chalé que aluguei havia uma, de água muito limpa.

Havia uma mesa esperta bem na beira do rio, e fui matar uma saudade que eu tinha desde o tempo em que as crianças eram pequenas: fazer um piquenique de café da manhã. Parece coisa de namoradinhos, mas ninguém disse que esses pequenos romantismos não dão colorido à vida.

Quando vamos a lugares assim, dizemos que presenciamos paisagens bucólicas. Esse é um termo muito típico do Arcadismo, a corrente literária que pregava um retorno à natureza. Temos muito disso aqui, como as aves pouco conhecidas nos centros urbanos (aqui, temos um coró-coró)...

… as castanheiras que emprestam o nome à colina e ao sítio que as contém…

… daquelas portuguesas, que comemos cozidas ou assadas, e que perfuram os dedos dos incautos…

… as plantações de marmelo típicas do Sul de Minas…

… a igrejinha à qual o povo acorre nos fins de semana e nas festas de guarda, com o sino que retine chamando os fiéis…


… e o sol que se põe atrás da serra, coisa tão rara de se ver em megalópoles como São Paulo.

Um pouco de tecnologia, entretanto, não vai nada mal.

Como estamos na Mantiqueira mineira, não dá para deixar de pensar em comida, naturalmente. A Casa Velha, sem qualquer patrocínio (estamos aceitando) é um daqueles lugares em que comemos gemendo, tamanho o sabor dos pratos ali servidos.

Mas à noite, o negócio é uma italianíssima parceria de pizza e vinho.

E, no fim da tarde, uma atitude simples e reconfortante… balançar na rede e olhar o tempo passando, o céu escurecendo e a noite chegando, enquanto as mariposas começam aos poucos a chegar.

É no balanço da rede que eu me percebo, pelo menos por alguns instantes, fora da grande rede em que se transformaram nossas vidas. E é assim que eu me percebo absorvido por elas: exatamente na sua ausência. Batemos recordes de moléstias mentais, não somente porque hoje elas são reconhecidas como tais, mas também porque vivemos em um mundo onde, como nunca, recebemos informações em quantidade que não conseguimos processar. Eu, que sou low profile em matéria de informática (até mesmo porque trabalho com essa desgraça), estaria recebendo notificações aos borbotões de sites que nunca ouvi falar, mensagens e status de WhatsApp, novos vídeos do YouTube e tantos outros acessórios da vida contemporânea, e certamente estaria tentado a vê-los todos, deixando para lá um contato mais íntimo com o mundo que me cerca.

Tentar achar os porquês das atitudes da vida contemporânea é um desafio que tem incomodado o pessoal das humanas atuais. Não foge muito, no meu entender, do nosso próprio narcisismo, e gostaria de fazer uma tentativa de discorrer sobre isso. Como em filosofia as coisas nunca são tão simples, vou ter que fazer um regresso à mitologia grega, e explicar um pouco como se desenhou o mito de Narciso, o personagem que deu substrato ao modo de vida que vivemos até hoje.

Tudo começa com a ninfa Eco, cuja história vai se entrecruzar com a do jovem mancebo. Uma ninfa era uma espécie de divindade que protegia algum aspecto da natureza, como já falei neste texto. No caso específico de Eco, ela era uma oréade, que estavam ligadas às montanhas e às grutas. Eco era regida por uma autoadmiração, voltada especialmente para sua melodiosa voz, e isso fazia com que ela falasse, falasse, falasse e falasse.

Certa feita, Zeus, um dos maiores especialistas em puladas de cerca que se tem história, estava andando pelo meio das oréades para conseguir um belo desfrute, mas não obtinha favores de Eco, que preferia ficar ouvindo sua própria voz. Entretanto, a ciumenta deusa Hera, desconfiada das longas ausências do marido, resolveu dar uma investigada pelos lados das montanhas. Para não permitir que Hera visse seu marido em pleno ato com suas colegas ninfas, Eco aproveitou de sua verborragia, puxando papos cada vez mais longos com a ciumenta deusa, a fim de permitir que Zeus escapasse. Mais tarde, quando se tocou da falcatrua, Hera condenou Eco a apenas repetir as últimas palavras de seus interlocutores, de modo a não mais praticar sua arte oral. Deprimida, Eco passou a viver isolada pelos bosques, onde ficou até seu encontro com o jovem Narciso.

Este jovem era filho do deus Cephisus com a ninfa Liríope. Sua principal característica era uma incrível beleza, além de uma autossuficiência sem igual. Como a visão da antiga Grécia sobre a sexualidade era muito diferente da que temos hoje em dia, Narciso era visto e desejado por todos, homens e mulheres, e também pelas ninfas, notadamente a já citada Eco. Entretanto, sua vaidade não lhe permitia se ver seduzido por ninguém, nem mesmo pela belíssima tagarela. O encontro dos dois se deu durante uma caçada na região onde a ninfa havia se refugiado. Vendo-o ao longe, a pequena entabulou um diálogo limitado pela sua maldição e, quando finalmente se aproximou, o amor-próprio de Narciso fez com que a pobre moça fosse repelida com duras palavras e soberba infinita. Envergonhada, a menina terminou por se ocultar no fundo das cavernas, e lá definhou até se transformar em pedra, restando viva unicamente sua voz, na forma das repetições tão comuns que encontramos dentro desses lugares.

A arrogância do jovem não passou despercebida da deusa Nêmesis, que, testemunhando a dor de Eco, estabeleceu uma vingança: Narciso pagaria seu ato através de um amor impossível -  a paixão por si mesmo. A concretização se deu em outro dia de caçada. Estando fatigado pela faina, Narciso se aproximou de uma fonte e sobre ela se debruçou, a fim de pegar água. Foi quando se deu a famosa cena da visão no reflexo, e o início de uma paixão irremediável. A cada vez que tocava a superfície, a imagem desaparecia, para se materializar novamente em segundos. Narciso tentava beijar sua imagem, mas o mesmo acontecia. Sem conseguir se distanciar e também sem alcançar seu objetivo, o jovem cada vez mais se depauperava, até perder toda sua força e morrer. No lugar de seu corpo, brotou a bela flor que leva seu nome.

Essa história simbolizava tantas outras na espécie humana que acabou por se tornar a narrativa da autoimagem que suplanta a própria visão que não consegue sair de si mesma, de forma a originar inúmeras inspirações poéticas, como o verso da epígrafe, ou a nominar princípios psicológicos, como fez Freud.

Quando Freud escreveu seu livro “O Mal-estar na Civilização”, as sociedades ocidentais viviam um momento em que se viram defronte a um paradoxo retumbante. No século XVIII, o Iluminismo removia o pensamento das superstições religiosas, enquanto no século XIX o Positivismo creditava à ciência um mundo de avanços em todas as dimensões. O que tínhamos no começo do século XX? A maior guerra que se teve notícia, com recursos tecnológicos nunca sonhados antes. A ciência que traria uma qualidade de vida nunca sonhada era a mesma que produzia os artefatos mais mortais jamais arquitetados. Essa encruzilhada em que a humanidade se colocou vinha agravada pelo descolamento das divindades, que agora não admitiam regresso, tendo em vista as descobertas que o próprio conhecimento científico trazia, e que a retirava do lugar especial que imaginava ter. A humanidade passava a se olhar em seu reflexo e, como Narciso, começa a definhar em sua imagem autoconstruída. Alguns desses eventos eram tão marcantes ao desmonte dessa imagem própria que Freud deu o nome de feridas narcísicas ao fruto dos golpes que os homens, vistos como coletividade, sofreram no seu eu, todas no âmbito científico.

A primeira delas se dá através de Copérnico. Resumidamente, cria-se que o planeta representava o centro do universo e, consequentemente, todos os astros giravam ao seu redor. Quando observados puramente no plano intuitivo, não tem erro. Observamos o Sol, a Lua e as estrelas descrevendo um círculo nos céus e concluímos fácil que estamos no meio. E o que isso significa? Que estamos em uma posição central, que somos agraciados por Deus, que o universo todo foi feito para nós. Se ainda não o temos todo em nossas mãos, é daqui do meio que poderemos alcançá-lo.

Mas, mesmo sendo intuitivo, um olhar um pouco mais atento via coisas inexplicáveis. Por que há estrelas que começam a andar para trás, contrariando todo o movimento típico de leste para oeste? Por que algumas dessas mesmas estrelas parecem maiores ou menores no firmamento, dependendo da época do ano? Para explicar esses fenômenos no contexto do geocentrismo, eram necessárias hipóteses estapafúrdias, como epiciclos e excentricidade. A resolução que Copérnico deu era de uma simplicidade irritante: não, não estamos no centro. Quem está no centro é o Sol. Nós estamos girando junto com os demais planetas, na periferia, em pé de igualdade com nossos irmãozinhos cósmicos.

Um pouco mais adiante, vieram Darwin e Wallace. A princípio, e por séculos, cria-se que todos os seres vieram prontos e acabados através de um criador, que os colocou no mundo de acordo com sua vontade para cumprir uma determinada função. O ápice era o ser humano, um ser mais próximo do que eram as próprias divindades, capaz de criar e de abstrair, que não vive só por viver, como qualquer outro ser.

Entretanto, a observação cuidadosa da realidade já fazia com que a emergente comunidade científica percebesse que os seres não eram estáveis, e que se transformavam no decorrer de longos lapsos de tempo. O que Darwin e Wallace notaram foi que essa transformação não se dava ao léu, mas através de pressões ambientais que levavam à seleção dos entes mais bem adaptados. Mais ainda: como essa pressão era exercida sobre indivíduos, as diferenciações não eram unívocas, gerando distinções dentro de uma mesma espécie. Isso faz surgir o conceito de ancestral comum, sendo que as espécies parentes eram aquelas que guardavam maiores semelhanças. Pepinos e melancias, minhocas e sanguessugas, gatos e leões, macacos e homens. O homem é um primata dentre outros, que um dia no passado foi um único animal, o tal ancestral comum entre nós e os macacos. Nós somos macacos. Nada mal para quem é a imagem e semelhança de deus.

A finalização veio no começo do século XX. Já fora do centro do universo, já um animal como outro qualquer, a humanidade ainda se arrogava a condição da racionalidade. O homem pode crescer como autêntico patrimônio universal porque tem a lógica como seu principal componente e o conhecimento como sua grande ferramenta. Sua genialidade pode ser resumida na fecundidade de seus inventos e descobertas, no avanço tecnológico e na criatividade artística. Nenhum outro animal tem qualquer semelhança com esse bolsão de benesses potenciais.

Entretanto, um esbarrão na rua, que qualquer lógica deduz a falta de intenção, já produz simulacros de MMA entre dois machos alfa. Aliás, a violência é espetáculo que atrai milhões, desde o tempo dos gladiadores até os ringues modernos. A lógica não vale nada diante dos afetos. Os lapsos fazem esquecimentos em momentos vitais. Os atos falhos fazem com que digamos aquilo que não queríamos, e nunca sonhamos o que queríamos, mas o que surge em nossa cabeça, bom ou ruim. Nós estamos sentados em um lugar pacífico, sem nenhuma preocupação aparente, e do nada vem os medos, as vergonhas, as aflições. Nossos afetos fazem com que tomemos atitudes que não têm como serem chamadas de racionais. O controle que temos sobre nossa mente é extremamente menor do que aquele que julgávamos ter. Nossa porção racional é ínfima dentro do conteúdo total da nossa psiquê. Freud descobre que o inconsciente é muito maior e mais atuante do que a consciência. Há uma guerra entre o instinto animal por um lado, e pela repressão socioambiental pelo outro, de forma não perceptível aos sentidos, mas que pressiona a porção consciente de forma muito difícil de lidar, e essa é uma usina de problemas emocionais, neuroses e psicoses à frente. Achávamo-nos racionais, mas não o somos.

Será que esses caras eram malvadões que queriam diminuir a humanidade, que é a pérola da criação divina? Não, nada disso. Eles quiseram uma visão mais realista, mais factual, menos transcendente do que é o universo. É aquela coisa: quando somos crianças, explicações do tipo cegonha são suficientes para satisfazer a curiosidade de como os bebês são encaminhados. Na medida em que crescemos, passamos a querer saber mais, a exigir mais, e estamos sempre aperfeiçoando nossos conhecimentos. Precisamos não só compreender a dinâmica dos nascimentos, mas como se formam os diferentes órgãos, os pulsos nervosos, e até mesmo em que momento exato começa esse fenômeno chamado vida. Foi assim com os novos saberes que resultaram nas feridas narcísicas, e ainda não pararam. Depois de Copérnico, vieram Brahe, Kepler, Hubble. Depois de Darwin, vieram Weiseman, De Vries, Dobzhansky. Depois de Freud, tivemos Wertheimer, Rogers, Gazzaniga.

Em resumo, o nosso narcisismo coletivo, marca de nossas sociedades, é profundamente afetado à medida que a ciência avança e descobre cada vez mais sobre nós mesmos. O homem é encapsulado por muito menos estruturas que pensava e é muito mais parelho a todo o resto da realidade circunstante. A cada golpe desses, o mundo deixa de ser um grande quintal feito sob medida para a humanidade, que passa a se tornar cada vez mais um ponto indefinido em um gigantesco universo. Sozinho. Pelado. Embaixo das pontes.

Estamos à espera da próxima ferida narcísica e isso deve ser um bom motivador para nossa busca incessante por informações, essencialmente para não ser pegos no contrapé, embora as outras feridas tenham demonstrado que isso é inevitável. Seria até possível defender que a quarta ferida já existia antes mesmo da terceira, com a constatação marxista de que os homens nunca conseguem ser neutros, sendo que toda sua ação é ideológica. Tudo o que você come, tudo o que você admira, tudo o que você quer, tudo o que você interpreta e percebe do mundo ao seu redor está banhado de ideologia, de preformatações que se constituíram a partir de uma cadeia de ações e reações vindas das disputas entre as diferentes classes sociais. A ideia não é exatamente nova, lembrando que já o velho Aristóteles dizia que o homem é um animal político. A novidade em Marx vem na forma de alienação, um conceito de Feuerbach aplicado à vida social, onde o homem aceita a condição imposta pelo seu lugar na escala social sem ao menos se dar conta disso.

Mas isso é uma espinha na virilha se comparada com as verdadeiras feridas, e penso que a próxima está em pleno desenvolvimento, paulatino como sempre, mas aparente como nunca, ainda exercendo seu fascínio, mas já despertando seus medos. Vamos a ela.

Eu nunca fui exatamente um entusiasta do xadrez, mas o noticiário fez muito barulho em meados da década de 90, quando o atual campeão mundial da época, o azerbaijano (então soviético) Garry Kasparov, foi convidado a enfrentar um computador em uma partida similar às que aconteciam entre grandes mestres. Não era exatamente uma novidade, que já ocorria desde a década de 80, sempre com vitória humana. Só que, naquele mês de maio de 1997, aconteceu. Era a segunda vez que Kasparov enfrentava o Deep Blue, uma máquina especificamente configurada para jogar xadrez, com ampla capacidade para processamento de cálculos. A vitória foi longe de ser confortável, e poderíamos considerar inúmeros fatores: algum vacilo do humano Kasparov em um dia especialmente ruim, a hiperespecialização do Deep Blue, preparado com um nível de especificidade que não lhe daria mais nenhuma aplicação ou algum tipo de trapaça, vá lá. Houve acusações de que a IBM, fabricante do computador, fez algum tipo de manipulação, porque, de fato, se recusou a fornecer os prints dos logs de cálculo do Deep Blue a Kasparov, alegando sigilo autoral. Houve até mesmo teorias da conspiração dizendo que havia um pool de jogadores assessorando o computador, para forçar a vitória e obter uma sobrevalorização do preço das ações da IBM no mercado. Mas o caso é que o fato foi um ponto de inflexão na maneira como olhamos essa tão comentada disciplina nos dias atuais: a inteligência artificial.

Eu dei pitacos sobre esse tema nesse humilde espaço (aqui e aqui), e imagino que, se for possível reduzir a mente a algoritmos, teremos uma grande possibilidade de construir máquinas que pensem por si. Não é que uma vitória em um torneio de xadrez ou a composição de um texto no ChatGPT, ou ainda um comercial que imite uma cantora famosa vá fazer com que nos consideremos superados em nossa inteligência, mas temos diante de nós um caminho inequívoco e do qual não vamos voltar atrás. Esse é um momento chave, em que reconheceremos em breve que não somos mais os seres que possuem a melhor capacidade cognitiva no planetinha azul já bastante acinzentado, e, nesse momento, teremos a quarta ferida completamente exposta às moscas da nossa inferioridade. Como vamos lidar com essa situação, é uma pergunta que não tenho como responder. Eu, de minha parte, vou fazer como faço com a morte: sem ter como especular, vou esperar, e é tudo.

Para finalizar, resolvi colocar esse texto no conjunto que escrevi que fui à região bragantina, não porque este pedaço de terra fique lá, mas porque falei de Monte Verde naquele contexto, então achei por bem agrupar tudo por lá. Bons ventos a todos!

Recomendações:

É um repeteco, mas não há problemas quanto a isso, principalmente porque é um tema que rende bem mais que um post.

FREUD, Sigmund. O Mal-estar na Civilização. São Paulo: Cia. Das Letras, 2011.

 

E a música da epígrafe, um grande clássico da MPB:

VELOSO, Caetano. Sampa. in: Muito - Dentro da Estrela Azulada. Rio de Janeiro: Phillips, 1978.