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quinta-feira, 28 de março de 2019

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (25 – Psicologia)

Olá!


Uns tempos atrás, comecei a sentir engulhos recorrentes. Não chegava a ser aquelas ânsias com iminência de se botar os bofes para fora, mas um enjoo constante, que tirava o ânimo de comer até a porcaria mais apetitosa. Era uma coisa estranha, imotivada. Cheguei a perder uns bons quilinhos com a brincadeira, mas era preciso fazer alguma coisa. A princípio, lembrei que havia trocado de medicamentos para a diabete, e talvez a resposta viesse por aí. A médica dra. Ana Júlia achou improvável, mas, de toda forma, eu podia voltar às mezinhas anteriores, com a recomendação de procurar um gastro. Não deu certo, nem um, nem outro. Os engulhos continuavam, e a consulta só para trinta dias. Havia uma sobrevivência a ser tentada, e o jeito foi apelar para uma dieta à base de legumes e verduras sem tempero. Melhorei bastante, mas o desconforto voltava ocasionalmente, de maneira especial pela manhã, rumo ao batente.

Dia desses, eu estava perfeitamente bem, quando chega a ligação, lá pelo meio da tarde: reunião urgente, traga relatórios, mas eu não tenho, se vira, a chapa tá quente. Foi automático, ou melhor, somático. O enjoo voltou na hora, como se eu tivesse tomado um litro de chá de louro. Daí por diante, foi possível estabelecer todas as correlações que levavam à suposta patologia – acúmulo de stress, derivado da tensão no trabalho. A recomendação médica foi o mesmíssimo Plasil© que eu vinha tomando para controlar a náusea, tirar um bom período de férias e procurar um psicólogo. Na prática, como bom assalariado, só cumpri a primeira, com a promessa interior de me desligar o tanto quanto possível do mundo laborativo.

Essas ocorrências ajudam a reforçar algumas lições que aprendemos no curso da vida, especialmente em momentos nos quais nosso ímpeto por descobertas nos faz tirar conclusões apressadas e equivocadas, na maioria das vezes. Lembro-me muito bem do quanto eu ridicularizava a profissão de psicólogo, dizendo que quem se dispunha a estudar a matéria o fazia por ter conflitos interiores a resolver. Em outras palavras, o psicólogo tinha problemas psicológicos. É o que dá acreditar em estereótipos: o audiente soturno instalado atrás do divã, que parece pensar na janta enquanto o paciente verbaliza seus mais inconfessáveis recônditos da memória. A história da pessoa que se interessa por Psicologia por ter problemas psicológicos é uma das mais retumbantes bobagens que eu já pensei na minha vida. Afinal de contas, não é a dor de dente que leva ao interesse pela Odontologia, nem o carro quebrado pela Engenharia, mas uma inclinação a conhecer mais e melhor cada uma dessas áreas, a entender com mais propriedade um conhecimento específico, ao qual tínhamos uma predisposição mais sólida. É a mesma coisa comigo: eu não estudei Filosofia porque sou um lunático que passa o dia inteiro ensimesmado, pensando sobre o Ser e o não-Ser (chavão primeiro – mais clássico), ou um esquerdista petista comunista gayzista do globalismo muçulmano-gramsciano empunhando bandeiras vermelhas para dominar o mundo (chavão segundo – mais recente), mas pura e simplesmente porque gosto de Filosofia, punto e finito. O mesmo se aplica ao psicólogo, que não é um louco que procura se entender, mas um profissional que tem um campo de estudo como outro qualquer. Vamos entender, então, o que é essa tal de Psicologia.



Vocês que me acompanham com alguma frequência já leram inúmeras vezes textos nos quais eu me refiro a autores da Psicologia. Isto se dá pela estreita ligação que esta guarda com a Filosofia, talvez até mais que outras ciências em geral. De fato, é meio difícil discernir até onde vai a Gnosiologia e a Epistemologia, áreas filosóficas, transitando pela Filosofia da Mente, e onde começa a Psicologia, linha muito borrada que divide áreas interpenetradas. Gente importante, como o neurocientista Michael Gazzaniga (de quem lancei mão neste texto), considera que, à medida que o conhecimento sobre os processos fisiológicos nervosos avançarem, a Psicologia mais e mais será arremessada ao campo da pseudociência; não como uma simples crendice, mas como registro histórico superado, assim como a alquimia ajudou a química moderna a se estabelecer, para depois sair de cena.

Verdade é que a profecia de Gazzaniga parece exagerada e ainda vai longe de se cumprir. Os processos mentais são muitíssimo subjetivos, partindo da premissa que temos instrumentos que medem a temperatura, a pressão e o fluxo elétrico do cérebro, mas não há uma maquininha que reproduza as imagens que lá transcorrem. Dessa forma, o que temos ao nosso dispor são as interpretações, que passam pela capacidade descritiva de quem tem as impressões e pelo discernimento de quem as recebe. É tudo muito subjetivo para passar pelo filtro científico. Ou não?

É nesse ponto que a Psicologia difere da Filosofia: na obtenção dos resultados. A Filosofia não tem o compromisso de chegar a resultados empiricamente observáveis e mensuráveis, apenas de se manter em uma linha de lógica e racionalidade. Quando acontece uma eventual comprovação, a Filosofia vira Ciência, como tantas vezes já aconteceu na história. A Psicologia lida com disciplina que a arrasta bastante para o campo especulativo, já que, como falamos, é muito difícil traduzir com precisão os fenômenos mentais. No entanto, se eu não consigo “ler a mente” de um contribuinte qualquer, ainda me resta alguns métodos indiretos – observar os resultados das pesquisas que explicam os processos mentais, especialmente quando estendidas a um volume considerável de análises. Desse viés empírico, é possível medir a cientificidade da Psicologia. Em primeiro lugar, ela tem um objeto claro de estudo: as funções mentais. Esse estudo é feito de maneira racional, desconsiderando instâncias metafísicas que não possam ser experimentadas. Também possui métodos bem definidos, incluindo o estudo de casos clínicos, estatísticas, comparativos e etiologia; do bojo de suas hipóteses é possível estabelecer sistemas teóricos que permitem fazer previsões, que, por sua vez, tem resultados verificáveis. E, o mais importante de tudo, na medida em que uma afirmação é falseável, ela passa pela principal premissa do método científico. E estes dois últimos itens a diferenciam da Filosofia e a enquadram como Ciência. Simples assim.

Mas a Psicologia está no âmbito das Ciências Humanas, o que a coloca naqueles perigosos pântanos de discussão infinita. Ela não é tão afiliada à Matemática como a Física e a Química, que são mais redutíveis a fórmulas. Justamente por não lidar com um campo de estudo facilmente delineável, e por não ter bases unanimemente aceitas, a Psicologia trabalha com várias abordagens diferentes, o que faz um candidato à carreira ficar maluco (epa!) na escolha de sua filosofia de trabalho. Ora voltada para o funcionamento mental, ora para as suas manifestações, a Psicologia se origina de um tempo bem recente, nos fins do século XIX, quando Wilhelm Wundt lança as bases do estudo dos fenômenos que intermedeiam a natureza e a cultura, ou seja, como o homem atua no mundo e por quais motivos o faz. Seu nome significa “estudo do pensamento”, já que o termo grego psiqué significa alma, que, para aquele povo, era a sede dos pensamentos. Daí por diante, as escolas de Psicologia foram variando, tanto no tempo quanto no enfoque, e nós vamos falar rapidamente sobre as principais. Como já falei sobre várias delas em meu post sobre Filosofia da Educação, a pincelada será rápida.

Em um momento onde se convenceu da necessidade de se estudar a Psicologia, surge a primeira e mais fundamental de todas as perguntas: o que é a mente e como ela se organiza? Dada sua inegável complexidade, a mente se erige em uma estrutura, onde estão compartimentalizados os seus diferentes componentes. Neste momento, a preocupação da investigação científica está no funcionamento dos processos de consciência, como, por exemplo, como o indivíduo se reconhece em meio ao mundo no qual habita; nas memórias, seu armazenamento e resgate; na intencionalidade, ou seja, no modo como a mente volta sua atenção a um objeto; nas emoções e no próprio conteúdo dos pensamentos. Em síntese, a Psicologia tem uma orientação inicial de procurar o “esqueleto do prédio” mental, e por esse motivo essa escola ficou conhecida como Estruturalismo. Sua principal ferramenta era a introspecção, que é a observação dos fenômenos mentais do próprio pesquisador. Como esse método tem uma carga de subjetividade muito alta, esta escola teve muita resistência em ter reconhecimento como científica, embora adotasse uma prática laboratorial onde resultados eram coligidos e comparados.

Uma alternativa ao Estruturalismo veio com o Funcionalismo. Nessa linha de pensamento, a mente é investigada como um órgão do corpo. Da mesma forma que os pulmões realizam trocas gasosas, o estômago processa alimentos e a bexiga armazena e retém urina, a mente também possui uma especificidade para o conjunto harmônico do organismo, ou seja, uma função. Fortemente ligada à Teoria da Evolução, o grande interesse desta corrente estava no estudo dos processos psíquicos como ferramentas de adaptação ao meio, ou seja, como a mente fazia para realizar interações que lhe garantiriam não só a sobrevivência, mas maneiras melhores de viver. Dessa forma, o Funcionalismo já não se mostra muito preocupado com o trabalho interno da mente, mas em como o restante do organismo reage à sua função. Essa exterioridade do objeto de pesquisa a tornou muito mais objetiva que o Estruturalismo, e compôs a alternativa que veio a abrir os dois ramos que vieram daí para frente: um foco nos processos internos era derivado do Estruturalismo; nas manifestações exteriores, por sua vez, do Funcionalismo.

Mas a primeira grande escola a causar real burburinho nos meios acadêmicos foi o Behaviorismo, termo derivado do inglês behavior, que significa comportamento. Da mesma maneira que o Funcionalismo, os processos subjetivos estão fora do campo de interesse dos behavioristas, que se ocupam essencialmente do estudo dos comportamentos humanos. A mecânica básica é a investigação de como alguém responde a um estímulo, e como o faz quando este for positivo ou negativo. A grande linha de pesquisa do Behaviorismo foi também sua maior polêmica. Como uma pessoa reage a estímulos, é possível conduzir sua personalidade a um caminho determinado. Isso dá muita margem a manipulações, que vão desde uma simples chantagem emocional até a implantação de reforços ideológicos. Que medo!

Ao lado do estudo comportamental, nasceu na Europa a corrente que talvez seja a mais célebre desta ciência: a Psicanálise. Bebendo na fonte do Estruturalismo, e ainda mais subjetivo que este, os psicanalistas se aprofundaram nos recônditos da alma humana, para descobrir que a consciência nada mais era do que o aspecto perceptível de um arcabouço muito maior, que fugia do controle do indivíduo. A Psicanálise tinha um foco essencialmente terapêutico: essa abordagem construía suas teses principalmente sobre as patologias psíquicas. Fortissimamente calcada em ponderações filosóficas, a Psicanálise sempre teve dificuldades em convencer a academia de sua plena cientificidade, embora possua amplo cabedal de casos clínicos para apresentar como patrimônio empírico e experimental. É da sua formulação de escuta que nasceu o grande clichê do divã e do bloquinho.

Outra corrente de origem europeia veio trazer mais luzes sobre a interação do homem com o ambiente. Fundamentada na Fenomenologia, a Gestalt estuda a forma com a qual o mundo se apresenta à nossa consciência, ou seja, o núcleo de sua atenção está na percepção. Gestalt significa algo como “configuração” em alemão, e ela diz que nos apercebemos da realidade sempre como um todo, sendo que as partes isoladas possuem menos significado do que como participantes da totalidade. Nossa consciência procura desesperadamente por contextos que justifiquem um objeto visto isoladamente. Segundo seus pensadores, o cérebro possui esquemas simplificados do que é a configuração ideal de um todo, e, se alguma parte está em desacordo com o esquema, a mente se encarrega de suprir a falta ou desalinho. Por exemplo, não deixamos de reconhecer uma pessoa se a vemos em uma foto rasgada, porque nossa consciência trata de “costurar” sua imagem e fazer-se reconhecê-la.

A escola do Cognitivismo, por sua vez, refuta o mecanicismo estímulo-resposta do Behaviorismo e propõe que a obtenção do conhecimento é feita de modo muito mais complexo. O uso da inteligência não se limita apenas a receber recompensas ou evitar castigos, mas a organizar internamente os conceitos que são obtidos a partir de experiências novas e agregá-las ao acervo preexistente, e por isso esta corrente investiga todos os processos de memorização, de apreensão e de processamento de informações. Em resumo, os psicólogos cognitivos tentam compreender como se dá o aprendizado. Os cognitivistas estudaram com muito detalhe a destreza mental que cada indivíduo tem em diferentes etapas de sua vida, de modo a estabelecer uma classificação do que é possível a cada uma das faixas etárias conhecer, de acordo com a evolução de seu equipamento mental.

Por fim, vamos pincelar a vertente do Humanismo. Preocupada com a maquinização radical das demais escolas psicológicas, os humanistas estavam preocupados em tornar o analisando em um protagonista na sua relação com o mundo, de modo a não se fechá-lo como um mero fruto do ambiente ou como um possuidor de patologias. Estas ocorrem, em especial, justamente quando há uma incompreensão com a realidade circunstante. Esta é tão móvel quanto a história, que nunca é a mesma, e esse é o princípio que norteia a autorrealização: a consciência de que vivemos a cada dia com um conjunto não estanque de circunstâncias. De cunho mais otimista, os humanistas focavam-se em buscas de significações para a vida, trabalhando a motivação dos indivíduos. Tem cheirinho de auto-ajuda? Tem, mas a escola é séria. O seu uso posterior não é de responsabilidade de seus criadores.

Muitas outras correntes derivaram destas que mencionei, mas vai ficar chato e arrastado se eu ficar discutindo sutilezas. Por ora, dou por cumprida a missão de alimentar este humilde guia, trazendo um mínimo sobre uma área fascinante, que busca sistematizar algumas das questões mais recorrentes que fazemos desde que nos entendemos por gente. Bons ventos a todos!

Recomendações de canais:

As recomendações de hoje serão de alguns dos muitos canais que eu acompanho no YouTube que, evidentemente, tratam do assunto. Para quem quer uma visão rápida sobre diversos conceitos, a boa pedida é o canal Minutos Psíquicos:

Para quem quer uma visão mais próxima da interação que há entre Psicologia e Filosofia, indico o canal do João Vitor Wrobleski, o Filosofia da Psique:

E, finalmente, para tratar mais diretamente sobre temas da prática psicológica, a recomendação vai para o canal Mente Aberta, capitaneado pela Ana Carla.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (22 – Antropologia)

Olá!


Quase todos os dias eu desço a Rua da Consolação, por motivos trabalhistas. Para quem não conhece São Paulo, trata-se de uma via muito movimentada, que liga o centro à região da Avenida Paulista, além de se imiscuir por área chique da cidade. É possível vê-la na TV por ocasião da parada LGBT e da corrida de São Silvestre, por ser parte do percurso de ambas. Tem um sem-fim de logradouros conhecidos, como a universidade Mackenzie, o Tribunal do Trabalho, a Advocacia Geral da União, o Cine Belas Artes e o Cemitério da Consolação, o mais antigo ainda em uso na Terra da Garoa. Mas o foco aqui vai ser voltado para duas casas espelhadas, um pouco para baixo da caixa d’água. São duas construções que claramente tiveram seus dias de glória, mas que hoje têm propósitos bem distintos da habitação original. Uma foi virou um cortiço, e a outra foi ocupada por coletivos de artistas jovens. Tentei uma foto minimamente decente, mas há muitas árvores na frente, de modo que, para entender bem o contexto, só olhando presencialmente.

Seria de se supor que a casa ocupada por sem-tetos seria mais objeto de conflitos do que a outra. Muito embora ninguém ali tenha vida fácil, o fato é que basta uma ordem judicial para que os despejos ocorram, o que se dá vez por outra. Mas a encrenca está mesmo na assim chamada Casa Amarela, o ateliê coletivo. Os moradores dos arredores alegam que os artistas, na verdade, desrespeitam seguidas vezes as leis do silêncio e provocam muita sujeira, além de não filtrar a presença de menores em meio a consumidores de drogas as mais várias. Já os agitadores culturais erguem a bandeira do preconceito e da sombra da indefinição do poder público.

No final das contas temos uma guerra cultural. Os moradores dizem que se pratica qualquer coisa ali, menos arte. Os atelieristas dizem que a redondeza é elitista e que não compreende uma arte ao mesmo tempo popular e inovadora. Quem tem razão?

A explicação passa, sem dúvida, pelos jogos de interesse, mas não sejamos simplistas. Em uma mesma cidade, ou melhor dizendo, em um mesmo quarteirão, não há consenso sólido sobre o valor da arte e sobre a preponderância ou não da manifestação coletiva sobre a vontade individual. Na natureza, teríamos um embate de forças físicas e a coisa estaria resolvida. Mas entre nós as coisas não podem ser assim. Somos seres humanos, e guiamo-nos por anseios e desejos tão distintos entre si que há momentos em que parece não haver unidade na espécie. Mas ainda assim somos humanos, estranhos nos caminhos que traçamos, merecedores nós mesmos de sermos estudados. É o que tenta fazer a Antropologia.


Anthropos, em grego, significa “homem”, o homem-espécie. No bojo filosófico, o humano é colocado sob o holofote logo em seguida à filosofia da physis. Deixou-se de pensar no universo e passou-se a olhar para aquele que pensa o universo. Isso começa com os sofistas e não se dá gratuitamente. Com o modelo democrático ateniense, que cria a cidadania, o desenrolar da existência já não depende dos deuses diretamente e dos reis subsidiariamente. Os homens da polis participam das decisões e são responsáveis por elas, de forma a constituir um parâmetro para explicar a realidade, cada um com seus próprios pontos de vista, experiências, preferências, preconceitos. “O homem é a medida para todas as coisas”, dizia Protágoras de Abdera.

Este é o ponto em que a Ética, a área filosófica que analisa os comportamentos e as escolhas dos seres humanos, tomará o timão da nau intelectiva, e, de certa forma, temos aqui o nascedouro da Antropologia, até porque, com a devida vênia de quem pensa o contrário, os animais não-humanos são aéticos (o que é diferente de antiéticos). Portanto, quando falamos em Ética, estamos compulsoriamente falando dos bípedes implumes. Só que, da mesma forma que a Sociologia e pelos mesmos mecanismos, a Antropologia tem a intenção de ser uma Ciência, cujo objeto é estudar o humano em si mesmo, na sua relação com sua comunidade e com seu ambiente, atribuindo-lhe um papel. E, para isso, precisa de uma metodologia que lhe dê rumo e guarida.

Por ser uma Ciência jovem, a Antropologia ainda não possui o mesmo nível firme de concordância em sua estruturação das Exatas, havendo quem a divida em várias subáreas. Nós aqui vamos nos deter na mais simples de suas taxonomias, que a divide em dois: Antropologia Física e Antropologia Cultural. A primeira vê o ser humano como organismo, e deixaremos esse papo para os biólogos. Melhor será estancarmo-nos na segunda, o que já é o bastante.

Tudo tem que começar pela noção de cultura, o que nos remete à questão “Casa Amarela vs. Redondezas”: ainda que definir cultura não seja a tarefa mais hercúlea, atribuir-lhe valor é o grande busílis. Mas sempre vamos tentar. Cultura, em latim, significa a ação de cultivar. Sabemos que o homem desenvolveu suas cidades justamente porque dominou as técnicas agrícolas, que lhe permitiram a fixação na terra. Dessa forma, a cultura ganhou o sinônimo de produção humana. Tudo o que tem o dedo do homem é cultura, sendo este um dos seus principais diferenciadores dos demais animais. Certo: o homem faz muitas coisas que outros bichos fazem, mas, para investigar a cultura, não ligamos para O QUE o homem faz, mas COMO faz. Comer, dormir e trepar são ações orgânicas, que um cachorro ou um camelo também fazem. Isso não é cultura. Ela entra quando resolvemos arriscar fazer sushi, quando optamos por lençóis de seda ou quando quebramos a rotina em um motel. Aí temos cultura, um conjunto de usos e costumes que reflete nossa vida como humanos – nossas religiões, nossas artes, nossas técnicas, nossos lazeres, nossos artefatos, nossas comunidades e tudo o mais que for “cultivado”, incluindo nossas filosofias.

Sim, tudo bem. Cultura é a produção humana que nos destaca do meio natural, como já pude escrever neste texto, mas é preciso entender como ela se forma e como funciona, e, para isso, a Antropologia possui várias linhas de estudos, que acabaram por constituir diferentes escolas de pensamento. Vamos rabiscar um pouco sobre as principais.

Comecemos pelo Evolucionismo. Esse nome não é estranho. Uma das principais descobertas do século XIX, que impulsionou a cientifização do conhecimento, foi a evolução das espécies através de processos de seleção natural, em teses elaboradas por Charles Darwin e Alfred Wallace (leiam mais aqui). Em resumo resumidíssimo, a evolução enuncia que as espécies atuais originam-se de outras anteriores, cujas modificações se deram por uma melhor adaptação às condições ambientais disponíveis à época. Quanto melhor a adaptação, mais facilmente a espécie se reproduz e se mantém. Darwin e Wallace não chegaram a essa conclusão em um papo de boteco, mas através de muita observação. Com o correr do tempo, a evolução ganhou muitas evidências, como o registro fóssil, as convergências evolutivas, as estruturas vestigiais, as distribuições e isolamentos geográficos, a embriologia comparativa, a filogenética e, mais recentemente, o estudo de DNA.

Edward Tylor e outros pensadores do evolucionismo cultural seguiram o mesmo raciocínio geral. Seus defensores, empolgados com a descrição do funcionamento evolutivo, entendiam que, da mesma forma que uma espécie, um ato cultural também prepondera quando tem melhores condições de adaptação do que outros, tornando a cultura cada vez mais aperfeiçoada. Isso dá uma perspectiva histórica à cultura, porque explica seu surgimento e desenvolvimento. Vejamos: da mesma forma que a evolução biológica converge para soluções semelhantes em espécies diferentes, como é o caso das asas de morcegos e aves, o mesmo acontece culturalmente, como no caso das pirâmides egípcias e astecas. Da mesma forma que as aves continentais guardam semelhanças entre si e diferenças com pássaros ilhéus, também povos isolados diferem bastante de etnias fronteiriças. Da mesma forma que os fósseis dão o registro de como eram espécies ancestrais, é nos achados arqueológicos que se acham referências passadas da cultura. Através do estudo destas inflexões evolutivas é possível desenhar o desenvolvimento de um determinado traço cultural, assim como podemos compreender como surgiram caracteres biológicos.

O problema maior na antropologia evolucionista é que ela ignora uma regra básica da própria teoria da evolução. Para esta, todas as espécies existentes atualmente estão igualmente evoluídas, sem uma distinção de avanço. O critério é existencial – se a espécie está hoje no mundo, é porque está adaptada a ele, não importando se é uma cianobactéria ou uma baleia azul. É o caso das minhocas, uma espécie antiquíssima, que tem espécies derivadas e mais complexas, como é o caso das sanguessugas. Mas o fato de haver derivações não indica que não existam mais minhocas, ora essa, ou mesmo que minhocas sejam mais retrógradas que sanguessugas. Ambas existem, portanto ambas estão no mesmo nível evolutivo. Já em termos de cultura, cria-se em uma hierarquia etnocêntrica. A cultura evoluía em ritmos distintos em cada um dos locais do globo, sendo que (que surpresa!) aquela desenvolvida no hemisfério norte estaria em estágio mais avançado, ainda a ser alcançado por latinos, subsaarianos, austral-asiáticos e demais “primitivos”, que seriam fósseis culturais a serem estudados para se compreender a linha histórica da cultura. Aqui, o pressuposto da existência contemporânea é deixado de lado, e que as necessidades culturais de cada povo tinham diferenças fundamentais para explicar seu estágio. Havia algo como uma meta cultural comum, cujo caminho estava trilhado em mais milhas pelos europeus e vizinhos hemisféricos. Essa vertente, mais tarde conhecida como darwinismo social, foi propugnada por Herbert Spencer e tinha uma conotação que era, no final das contas, marcadamente racista. Por isso, essa escola foi muito criticada.

Como alternativa, foi desenvolvida a corrente do Difusionismo, que, embora também tivesse foco na historicidade da cultura, de certa forma inverteu a lógica da pesquisa evolucionista. Esta última tinha como pano de fundo a seguinte pergunta: “Por que as culturas possuem diferenças entre si?”. Já os difusionistas perguntam “por que as culturas possuem semelhanças entre si”. Sua resposta geral se dá pelo contato dos diferentes povos. Ao estabelecer o convívio entre culturas distintas, ocorre a difusão de alguns conhecimentos, trazidos por quem chega ou recebidos por quem espera. Toscamente falando: eu sei fazer churrasco e Fulano sabe fazer feijoada. Vou na casa dele e assisto, maravilhado, todo o ritual de feitura da iguaria, compreendendo os pontos onde seu método é melhor que o meu: as quantidades de tempero, tempo de cozimento, os acompanhamentos. O mesmo se dá no sentido inverso, com o corte das carnes, a intensidade da chama, a distância exata para o ponto ideal. O processo de absorção se dá em uma medida na qual minha feijoada e o churrasco do Fulano tornar-se-ão mais próximos entre si, até se tornarem indistinguíveis de sua origem. Eu difundi o churrasco para Fulano e Fulano difundiu a feijoada para mim. Esse é um exemplo reduzido de um processo de aculturação, ou seja, de absorção de conhecimentos e elementos antropológicos de uma cultura por outra. Ela pode ser feita gradualmente, como ocorre nas imigrações incentivadas e pacíficas, como ocorreu em países jovens, e aqui temos uma assimilação cultural, que costuma manter os propósitos originais dos usos e costumes nos seus novos praticantes. Mas é claro que nem sempre o processo de difusão se dá sem conflitos. Em invasões e conquistas territoriais, a cultura dos invadidos é sobreposta pela cultura invasora. O mesmo se dá nos casos de imperialismo econômico, onde a cultura do povo dominante impõe os seus elementos ao povo subalterno, e, quando não suprime sua cultura original, absorve-a para si em outros termos, descolados do seu uso anterior. É o que acontece com os artigos rituais que são transformados em enfeites. São casos de apropriação cultural, que já discuti aqui.

Percebam como no Difusionismo a ênfase do estudo das origens dos fenômenos culturais está muito mais ligada à maneira com a qual as diferentes culturas interagem entre si do que na relação hierárquica do Evolucionismo, o que lhe retira o ranço etnocêntrico. Mas é uma escola que tem defeitos que a outra não tem. Em linhas gerais, essa corrente acredita que a difusão sempre se dá a partir de um ponto para daí se espalhar ao mundo. Acha que o homem tem uma tendência à acomodação que torna rara a aparição de grandes revoluções culturais. Isso não é uma mera preguiça, mas uma propensão a repetir indefinidamente coisas que já deram certo, sem se arriscar muito com “novidades”, e empreendimentos significativos não dariam em árvores. Apesar desta ideia de cultura conservadora ter sua lógica, imaginar que grandes descobertas não podem ser concomitantes é algo difícil de se aceitar. Vejamos novamente o problema das pirâmides. Apesar da soberba fama das egípcias, há pirâmides núbias, centro-americanas, chinesas, templos piramidais e zigurates babilônicos e sumérios, contemporâneos ou até anteriores aos mausoléus faraônicos. É preciso uma ginástica desproporcional para explicar uma rota de difusão com esse traçado, e sabemos que a construção das pirâmides é complexa o suficiente para não ser considerada um elemento cultural grandioso. Pelo princípio da navalha de Ockham, é mais fácil supor que nem todo processo cultural é difusório, podendo ocorrer espontaneamente em diferentes locais e épocas. Eis um dos motivos pelos quais brotou o Relativismo Cultural, que, nas mãos de gente como Franz Boas, diz não ser possível enxergar a cultura alheia pelos olhos de nossa própria cultura, já que sistemas antropológicos precisam levar em conta valores locais que nascem por contingências próprias. Atribuir valor de melhor ou pior corresponde a ter um ângulo só da questão.

Tanta preocupação com a história das formações culturais foi fundamental para o estabelecimento da disciplina, mas se o intuito é ter uma visão horizontal sobre a questão, onde a cultura de um determinado povo fosse focada holisticamente, a briguinha entre evolucionistas e difusionistas revela-se uma interminável e inútil caceteação. Afinal de contas, a história pregressa de qualquer coisa pode ser importante para entender como essa coisa se tornou o que ela é, mas não responde como ela funciona, algo tão importante de se saber quanto. Neste sentido, nasce o Funcionalismo, de Bronislaw Malinowski e congêneres, que tem o objetivo de compreender a cultura como um organismo, em que cada parte isolada tem uma determinada função para benefício do todo (daí o nome da corrente). De certa forma, o Funcionalismo é muito imiscuído com a Sociologia, por uma relação de dependência: uma sociedade se caracteriza como um imenso organismo, cujas instituições existem para executar funções específicas e cuidar de um aspecto da vida social. A maneira como essa função é executada corresponde ao papel da cultura. Por exemplo: toda sociedade possui determinadas instituições que provêm lazer aos seus membros, e isso é um membro do grande organismo social. Agora, se as pessoas utilizarão esta instituição jogando futebol, empinando pipa, dançando, assistindo filmes, rezando terços ou simplesmente cultuando ócio, isso faz parte da cultura. A mesma analogia pode ser feita na equiparação entre natureza e cultura. O corpo é um todo que possui partes, cada uma com suas tarefas que visam suprir necessidades orgânicas. Isso é determinístico, não há como fugir de supri-las. A cultura, no entanto, não é unívoca e isso é fácil de perceber. Diferentes culturas se alimentam de forma diferente, vestem-se, divertem-se, locomovem-se... A cultura representa um modo de atender uma necessidade, de maneira peculiar a cada povo.

Essa é a principal distinção que fazem os funcionalistas: a cultura é sempre artificial, e, por isso, distinta da natureza humana que, a princípio, clama por seu uso, por uma maneira de resolver um determinado problema. Mas é preciso alguns critérios científicos para distinguir o que é um fenômeno cultural, e o funcionalismo indica que o mesmo deve preencher os seguintes requisitos: estatuto, pessoal, normas, aparelhagem material, atividade e função. Vamos dar um exemplo, obviamente. Para que a sociedade possa se sustentar, há uma instituição chamada “ocupação”. O estatuto empregatício consiste em uma relação produtiva que desemboca em algo que pode ser comprado e vendido, gerando giro e renda. O pessoal são os atores que participam desta relação, como o patrão e o empregado. As normas são aquelas ditadas pelo governo e pelo dono do negócio, que estabelecem o quanto e quando pagar. A aparelhagem material diz respeito aos locais e ferramentas necessários ao desempenho das tarefas que concretizarão o objeto da relação. A atividade é o desenrolar propriamente dito daquilo que precisa ser feito para a obtenção do produto ou do serviço, enquanto a função corresponde à necessidade da existência de toda essa parafernália, ou seja, gerar sustento para o trabalhador e lucro para o empresário. Notem como o estudo sociológico e antropológico são fortemente imbricados na escola funcionalista, e esta acaba se tornando uma das principais críticas contra a metodologia: uma indistinção de objeto quase irresolvível, embora tenha sido com ela que os pesquisadores saíram de verdade dos gabinetes para fazer o estudo direto e vivencial com diferentes culturas, porque o estudo das instituições deve ser feito in loco, contrariamente ao que faziam as correntes anteriores.

Por fim, temos a escola do Estruturalismo. É uma corrente que lança mão de um forte psicologismo em suas bases, como veremos. A estrutura que dá nome à corrente é aquilo que está por baixo da casca de cultura que pode ser colhida empiricamente. Claude Lévi-Strauss e demais membros da tendência percebiam que a estrutura cultural de qualquer sociedade é essencialmente a mesma. Temos como comparativo a construção civil: uma ponte, por exemplo, pode ser pênsil, estaiada, cantilever, treliça contínua, em arco, em vigas ou uma simples pinguela, mas sua estrutura é a mesma: um tablado que percorre por sobre um meio aquático sustentado em algum apoio. A manufatura e seus detalhes, estes sim, são extremamente variáveis, mas o objetivo é sempre o mesmo: atravessar de uma margem à outra, e algo chamado “ponte” tem as características acima. Se colocarmos um cipó amarrado em uma árvore ou uma rampa para saltar de um lado para o outro, teremos outra estrutura que não uma ponte.

Da mesma forma funciona a sociedade. Um conjunto de normas rege um determinado agrupamento de pessoas que pretendem ter vida em comum, com uma liderança bem definida e tarefas bem especificadas para cada um dos estratos que a compõe, de forma a obter um mínimo de colaboração mútua. Seja em uma comunidade indígena, seja em uma nação industrializada, a estrutura de uma sociedade é essencialmente essa. Se a cultura se desenvolve tendo como eixo uma sociedade, ela também obedece a uma estrutura.

E por que isso acontece? Os estruturalistas entendem que a mente humana tem, em qualquer lugar onde esteja, uma espécie de esqueleto que lhe dá também uma estrutura. Vistos como indivíduos, todos os seres humanos possuem conteúdos próprios que lhe dão características subjetivas, mas a estrutura mental é comum a todos. Temos todos um aparelho instintivo que nos permite dar uma resposta rápida a uma necessidade premente, temos todos uma memória que nos possibilita armazenar informações e conhecimentos, temos todos uma inteligência que nos faz processar a razão, temos todos critérios subjetivos de gosto e preferências e, se Freud estiver correto, temos divisões na consciência, com uma parte animal sendo refreada pela moral introjetada pelo meio em que se habita. Esta estrutura psíquica se plasma pela humanidade inteira e isso termina por se espraiar para os meios externos de convívio, começando pela sociedade e pela respectiva cultura. Essa é uma linha de pensamento que fere de morte o racismo do darwinismo social, porque coloca não só todas as culturas e sociedades em pé de igualdade, mas também toda a humanidade. Estruturalmente, somos todos iguais. Lévi-Strauss falou sobre essas coisas, e eu já falei sobre Lévi-Strauss e estruturas, como neste texto.

É isso por enquanto. Há outras correntes, e mesmo estas se mesclam muito, mas as questões da Antropologia são tão extensas que eu extrapolei bastante sobre o que queria falar. Faz parte. Bons ventos a todos.

Recomendação de leitura:

Nada como um pequeno manual para entender um pouco melhor sobre o tema. O que eu mais usei na faculdade foi o seguinte:

MELLO, Luiz Gonzaga de; Antropologia Cultural. Iniciação, Teoria e Temas. São Paulo: Vozes, 2007.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (10 - Metafilosofia)

Olá!

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Quando falamos em Filosofia, temos em mente um termo um tanto genérico. Podemos pensar em coisas como "filosofia de vida", que indicam objetivos a serem perseguidos por uma pessoa qualquer, podemos achar que são os sistemas de relacionamentos que fazem com que as diferentes partes das corporações trabalhem em sincronia ou podemos fazer a grave confusão com a auto-ajuda. Todos esses usos são feitos de maneira permissiva, ainda que impropriamente, porque passam uma impressão inicial de "parar para pensar", que, no final das contas, está mesmo no substrato do pensamento filosófico. Portanto, passons, o negócio é tolerar para o bem do convívio. No entanto, Filosofia com "F" maiúsculo, feita a sério, não se faz a esmo, sem um mínimo de critério. Não se trata de praticar uma falácia do escocês de verdade, mas de defender uma diferença entre o uso próprio e o uso comum da palavra.

Isso porque não há uma prática da Filosofia que não olhe a si mesma como uma busca autêntica de conhecimento. Quando nossos petizes criam galos na cabeça, não estamos praticando medicina quando damos beijinhos sobre tais intumescências. Pelo contrário, fá-lo-emos se aplicarmos uma compressa sobre a lesão. Quando plantamos um vasinho de uma planta aleatória, não praticamos ecologia, mas fá-lo-emos se não comprarmos espécies em extinção. Da mesma forma, quando dizemos que pensar positivo é o segredo do sucesso não estamos praticando filosofia, mas fá-lo-emos se nos questionarmos o que é o sucesso e se ele pode ser considerado essencial à existência humana. Deu para perceber a diferença?

É justamente para que se defina o que é uma pergunta filosófica, quais são os critérios de pesquisa necessários para se estabelecerem hipóteses dignas de análise, para que se investigue o funcionamento da própria Filosofia é que nasceu a Metafilosofia, ou, em termos mais coloquiais, a Filosofia da Filosofia.



A coisa é mais ou menos assim: um mecânico hábil tem a capacidade de juntar adequadamente as peças e fazer um motor funcionar, para o gáudio do motorista inconsolável. Pode até mesmo compreender o funcionamento de tudo, sabendo com exatidão a necessidade de cada componente no conjunto. Mas é só compreendendo a totalidade de forças que atuam no ato motor, entendendo a dureza e a tenacidade dos materiais empregados, calculando giros, torques e pressões e analisando erros de projetos, fadiga dos materiais e excessos de atritos que o profissional poderá dar o salto de qualidade, melhorando a máquina. Discernir sobre isso e produzir motores melhores transformam o mecânico em engenheiro. Com a Filosofia é por aí. É preciso entender o funcionamento do conhecimento e da lógica para tratar do tema.

No fundo, é a velha questão de separar o que é conhecimento de achismo. É certo que a Filosofia possui uma ação mais livre do que a Ciência, que precisa de experimentos e provas para cumprir seu método, mas isso não significa que basta especular para filosofar. Isso é opinião, e não conhecimento. Para que a doxa se torne logos, é preciso que passe pelo crivo da lógica, sua exigência mínima. Sistemas filosóficos complexos e completos, como os de Aristóteles, Kant e Hegel foram consolidados sem provas, mas com muita coerência interna, mesmo que tenham sido várias e várias vezes refutados, já que, em Filosofia, não existem conclusões cabais.

Quando eu estava na faculdade, tinha uma disciplina que eu considerava brochante: Metodologia de Pesquisa Científica. Formatações, margens, parágrafos, bibliografia, abstracts, NBR, ABNT, isso, aquilo e o outro. Uma cagação de regras insuportável, com a necessidade de fontes a cada centímetro. Eu, louco para pôr minhas ideias e ideais no papel e o mestre perguntando: De onde você tirou essa concepção? Qual autor? Por que esse, e não aquele? Você não acha que o escopo está muito aberto? Qual obra? Qual página? Qual edição? Qual coleção? Qual tradução? Ao final das contas, não sei se convencido ou doutrinado, comecei a ser mais criterioso com essa questão de fontes. Como, modéstia à parte, comecei a ter alguns artiguinhos publicados, dois colegas de serviço me pediram para apreciar seus TCC's de especialização na área de Informática. Meu Deus, que merda completa (com todo respeito)... Um festival de informações colhidas ao léu, sem um plano diretivo, na sua maioria de buscas na internet, sem qualquer critério e lá colocadas apenas porque pareciam boas (parece aquela música do Língua de Trapo, que dizia que "esse coral não era prá ter, a gente pôs porque ficou legal"). Após um diálogo razoavelmente agressivo, forma meio torta de amizade que inclui mães e sexualidade, aceitei o desafio de fazer uma orientação informal, e a conclusão acabou sendo minimamente satisfatória, com a aprovação dos trabalhos. Mas a verdadeira satisfação foi concluir que eu peguei o espírito da coisa. Não dá para sair escrevendo com a pena solta e chamar aquilo de produção de conhecimento. É isso o que os seguidores de certos pretensos filósofos não entendem ao defender seu guru: ainda que uma ideia seja boa e inovadora, ela precisa ter um mínimo de base.

Mas, até aí, o método de pesquisa é comum a todas as disciplinas, já que qualquer trabalho digno de publicação precisa segui-lo. O diabo é que, em Filosofia, há uma segunda metodologia a ser seguida e declarada, que não se reduz aos ditames burocráticos da norma ou à profusa descrição das fontes. Foi o que nos foi ensinado em uma disciplina a parte, chamada de Metodologia da Pesquisa Filosófica, que cuida da abordagem com a qual tomamos o objeto da investigação. A pergunta guia para determinar qual método deveremos utilizar (além da evidente preferência pessoal) é a seguinte: "o que eu quero extrair desse objeto?". A resposta determinará o melhor caminho a seguir. Quero estudá-lo em si mesmo? Quero encaixá-lo no mundo que o rodeia? Quero entender o seu contexto histórico e social? Quero abordá-lo o mais cientificamente possível? Vamos dar um rápido passeio nas diferentes escolas metodológicas.

Poderíamos começar a falar em métodos filosóficos já a partir do velho Tales, que trocou a confabulação legendária por uma concepção racional dos elementos constituintes do cosmos, mas é preciso localizar os rudimentos mais formais para não nos perder em prolongadas caceteações. E que rudimentos!

Francis Bacon lança o método experimental, que vai dar base a toda filosofia de raiz empírica, e René Descartes fornece a dúvida hiperbólica, matriz de todo o seu método de verificação em quatro passos, que já esmiucei em minha teoria do gomo da mexerica, mas o fato é que, hodiernamente, os critérios e procedimentos de ambos já estão sobejamente abarcados pelas metodologias científicas consagradas. Dessa forma, é preciso dar uma olhadinha no que se aplica na pesquisa atual na academia.

Comecemos pela Fenomenologia, de quem já falei neste texto. Husserl, seu codificador, dava ênfase na posição do observador, que, através da intencionalidade de sua consciência, já voltava seu olhar para um objeto com a contaminação de uma carga de cultura. Quando analiso um pavão, por exemplo, tenho uma série de componentes simbólicos que são associados a ele, começando pelo próprio substantivo que o designa. A palavra "pavão" é desenvolvida em uma linguagem, um ato puramente cultural, e, no meu caso, em língua portuguesa. Além disso, há outras cargas que lhe são associadas, como a sua beleza natural, a utilização de suas penas em ornatos e adereços, seu rito reprodutivo, o fato de ser um dos grupos do jogo do bicho e etc. E há mais: pensamos na cultura como um todo, mas há, além disso, preferências e convicções pessoais de quem realiza a pesquisa, além de um arcabouço intelectual que varia de pesquisador para pesquisador. Dessa forma, dificilmente não há algum grau de atravessamento no modo como se observa o objeto. Na abordagem fenomenológica, tudo isso representa "cascas" que impedem a análise em profundidade do objeto pavão. A tarefa de pesquisa é fazer com que essas cascas culturais sejam removidas, na medida do possível, para que o pavãozinho seja apresentado puro à consciência. É um método interessante quando o objetivo de pesquisa for ontológico.

Outro método trilha o caminho oposto. É a Hermenêutica de Gadamer, sobre a qual também já me pronunciei. Nesta sistemática, as interveniências culturais que procuramos descartar na Fenomenologia são amplamente aproveitadas, porque o objetivo da Hermenêutica, mais do que explicar, é interpretar. Aqui, não se busca mais o isolamento do objeto. Tudo o que estiver colocado ao seu redor e que, de uma forma ou de outra ajuda a contextualizá-lo, deverá ser levado em conta pelo pesquisador. Um dos grandes cuidados da Hermenêutica está no campo da significação, ou seja, aquele pavão do exemplo precisa ser visto mais pelo seu aspecto simbólico do que concreto - interpretá-lo abstratamente e em articulação com os demais signos sociais: o que significa um pavão solto em um parque, o que representa suas penas no traje da passista, o que indica certas adaptações como o verbo "pavonear". Deve ser utilizado quando o aspecto linguístico for muito relevante na pesquisa, ou quando se queira discutir um contexto mais holístico e menos dirigido.

Temos também o método do Positivismo de Comte, também já campeado por estas plagas. O Positivismo é uma doutrina filosófica que floresceu na medida em que o pensamento empírico foi ganhando mais e mais primazia com relação ao racionalismo, principalmente por conta da visibilidade de seus resultados. Os avanços científicos obtidos a partir do século XVIII começaram a dar um estatuto de panaceia universal às ideias científicas, o que fez com que todo o conhecimento válido viesse revestido desse aspecto. No esteio dessa tendência, surgiram novas ciências, que antes ficavam adstritas à seara filosófica, como a Sociologia e a Antropologia. Dessa forma, o método positivista procura transformar todas as disciplinas filosóficas em Ciências, trazendo, tanto quanto possível, toda a especulação para o campo experimental, retirando seus aspectos metafísicos. É um método mais adequado no nascedouro de novas hipóteses científicas, onde poderão ser previstos meios empíricos para mensuração e investigação, mais ou menos como descrevi neste post.

Outra metodologia de pesquisa filosófica é a Dialética, antiquíssima, já utilizada por Sócrates e Platão, mas que, delineada como sistema, surge com Hegel, e também dela já deixei meus pitacos. Para nosso caro e complexo alemão, toda a realidade se encontra em permanente movimento, e há uma lógica que lhe dá rumo: um fenômeno qualquer já carrega em si mesmo sua própria contradição, e é na rota dela que o histórico do fenômeno se movimenta. No entanto, no meio do caminho entre essas posições antitéticas se encontra a síntese, que não tem aqui o significado de resumo mas, na verdade, uma espécie de meio-termo que dá origem a um novo fenômeno, e a outro, e outro, e outro, em um ciclo de repetições estruturais infinito, com cada ciclo enriquecendo o anterior. No que consiste esse método? Em analisar onde está cada um dos polos e detectar onde eles se sintetizam. Dessa forma, é possível descrever os processos de transformação de realidade.

Uma derivação bastante famosa da Dialética hegeliana é o Materialismo Histórico Dialético de Marx (tá aqui). O mais recente demônio que aterroriza almas e patrimônios deve ter percebido que a dinâmica por trás do movimento dialético era efetivamente um espelho da realidade, incluindo as oposições tese-antítese. O problema estava no motor dessas mudanças. Para Hegel, havia um tal de zeitgeist, o Espírito do Tempo, que fazia um polo se deslocar para o outro como um impulso de mudança, algo como as modas entre um verão e outro, ou seja, nada muito concreto. Para Marx, esta concepção estava equivocada. Havia um motor, sim, mas sob a égide de uma concepção materialista. Marx não acredita em ideias metafísicas, e, menos ainda, na existência de um Espírito Absoluto. O motor da realidade, que disparava o processo dialético, eram as condições materiais que levavam à luta de classes. Portanto, no método marxista, é preciso aferir de que maneira estão dispostos os meios materiais e perceber como isso influencia na inter-relação entre as classes sociais. O pavão que está no parque precisa ser analisado sob essa perspectiva - nos parques mais periféricos há bichos menos atraentes, ou ele está aqui porque as classes menos favorecidas não têm como vê-lo em habitat natural, para dar dois exemplos. Hegel avalia que a Dialética é a dinâmica da natureza, e a isso Marx acrescenta a mecânica da História sob a lente social. Por conta disso, os métodos dialéticos são mais apropriados quando se quer levar em consideração o tempo histórico na análise.

Já o método do Estruturalismo, consagrado por Lévi-Strauss (sim, também já falei sobre isso), procura, como o próprio nome diz, pelas estruturas fundantes de cada um dos menores atos cometidos pelos seres humanos, que, realizados em cadeia, possuem uma lógica subjacente originada justamente destas estruturas maiores, que, no seu entender, são presentes e semelhantes em todas as culturas humanas, que se aproximam entre si, ainda que revestidas de características próprias. Isso porque os estruturalistas acreditam que todas as culturas são diferentes na forma com as quais são construídas, mas, uma vez detectada sua estrutura, seu esqueleto, se verá que são todas muito semelhantes. Por exemplo: temos descrições de dilúvios universais em vários povos do Oriente Médio, incluindo a famosa narrativa bíblica, aquela do Noé e da arca. A proximidade geográfica é um bom fator aglutinante dos diferentes mitos da região mesopotâmica, mas acontece que também nas Américas há relatos de tal catástrofe, como pode ser lido no Popol Vuh dos maias. No entanto, longe de representar um efetivo cataclisma, essas narrativas denotam uma maneira universal com a qual o componente mítico explica a divindade: um ato que demonstra o poderio da deidade, sua ira e sua piedade. Esse esqueleto é praticamente igual em muitos dos mitos, e pretende estabelecer a ferramenta de poder ligada à religião - a fúria divina é devida à insubordinação humana, o que explica muito melhor a existência do mito do que um efetivo evento mundial que não consegue corroboração. A temática do dilúvio não se repete porque tenha ocorrido de fato, mas porque a estrutura por trás das sociedades faz com que esse mito seja escrito de maneira parecida e por motivos afins. E é isso o que busca este método: descascar as paredes das culturas para descobrir os pilares de sua edificação, o que o torna ótimo para pesquisas sociais e antropológicas.

Isso tudo é suficiente para demonstrar como a discussão sobre a Filosofia em si mesma é aberta e cheia de nuances. O método científico é muito mais bem delineado e dirigido: grosso modo, monta-se a hipótese e consegue-se provas. Todas as abordagens filosóficas que listei aqui, que podem inclusive ser utilizadas concomitantemente e de modo entrelaçado, e há outras ainda, são de uso corrente, o que demonstra o quanto o aprofundamento intelectual que se debruça sobre ela é intrincado e ramificado. Atentem que mesmo esta pequena série é toda metafilosófica, porque busco dar um pouco de luz às dúvidas que a galera me pede para dirimir, e vejam, no global da obra, quantas áreas são afeitas. Ponto para os filósofos, que sempre são acusados de serem viajandões a cuidarem de inutilidades. Chamem-nos assim, mas jamais de preguiçosos. Bons ventos a todos.

Recomendação de leitura:

Um bom livro para compreender a Metafilosofia e diferenciar a metodologia filosófica da científica é a obra do francês Granger:

GRANGER, Giles-Gaston. Por um Conhecimento Filosófico. Campinas: Papirus, 1989.

Já que mencionei a música do Língua de Trapo, segue abaixo sua referência completa:

LÍNGUA DE TRAPO. Régui Espiritual. In Língua de Trapo. São Paulo: Lira Paulistana, 1982.