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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

De volta às águas e trilhos que ficaram para trás – 6º lugar: Águas de Contendas e a dialética que estrutura a realidade

(Com Hegel, a dialética deixa de ser um exercício de confronto de ideias para ser um espelho da própria realidade)

“A semente é, em si, a planta, mas ela deve morrer como semente e, portanto, sair fora de si, a fim de poder se tornar, desdobrando-se, a planta em si e para si”

Hegel

Olá!

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Prometi, cumpri. Em 2017, eu viajei pela região do Circuito de Águas do Sul de Minas Gerais, e, por lá, passei por todos os parques de águas disponíveis, onde me embebedei pelas mais variadas classes crenológicas, absorvendo sais minerais e oligoelementos a beça, como ferro, magnésio e enxofre. É uma aventura, porque nem todos são saborosos, como se pode supor. Sabor de prego, banana verde e ovo podre são contrapontos anti-hedonistas às propriedades medicinais, mas o espírito de curiosidade vale a aventura. De todos os parques, entretanto, havia um que estava todo abandonado, clamando por uma reforma urgente, e eu proclamei a intenção de aqui voltar para vê-lo recuperado, se fosse o caso. Hoje, seis anos depois, o momento chegou e vim apreciá-lo como se deve. É o distrito pertencente a Conceição do Rio Verde, conhecido como Águas de Contendas.

Águas de Contendas, nome que dá a impressão de se tratar exclusivamente do parque, na verdade é a denominação do pequeno distrito que o rodeia, que possui uma pequena população e comércio igualmente humilde, centralizados na capela de Nossa Senhora da Saúde, nome sugestivo para uma região que proclama as virtudes de suas águas.

O parque de águas daqui é o menor de todas as cidades da região. Entretanto, neste momento em que está todo refeito, ganhou novamente toda a sua dignidade.

As águas aqui disponíveis são bastante semelhantes às de todo o circuito, e foram canalizadas para nichos cobertos. Uma fornece água ferruginosa, com óbvio sabor reforçado de ferro, e boa para supressão de males anêmicos.

Outra contém água magnesiana, de sabor levemente adstringente, a quem a sabedoria popular (além de sabichões pseudocientíficos) atribui terapêutica estomacal, sendo que o que há, de fato, é um razoável poder diurético, o que, por tabela, pode melhorar a pressão arterial.

A bica mais curiosa é a de água gasosa, com alto teor de vanádio, mineral que, segundo se diz, potencializa a ação da insulina, o que seria vantajoso para nós, da turma do sangue doce. É de longe a mais procurada, mas que ninguém se iluda: a quantidade de gás não chega nem perto da de um refrigerante, nem mesmo de águas gaseificadas artificialmente, e também não são duradouras. O melhor é curtir o momento e tomar lá mesmo.

Há ainda uma “bica pública” que é onde os moradores do distrito vão coletar seu líquido do quotidiano, e que está sempre enfileirada. Era principalmente a eles que as mangueiras do tempo de fechamento serviam.

Com o remoçamento do parque, deixamos de ter um terreno próximo do baldio para haver um espaço de convívio e visitação, com parquinho para as crianças…

… e mesas de jogos para os idosos, tudo muito simples e agradável para quem quer passar umas horas de paz.

A reforma trouxe ainda o benefício de se compreender melhor aspectos geográficos e históricos que haviam ficado perdidos no estado em que se encontravam as coisas. Para os primeiros, tornou-se possível reviver o riacho que liga ao Rio Baependi…

… enquanto no outro temos a principal curiosidade do parque, uma pedra que virou monumento, pelo simples fato de que se conta que é nela que o imperador Pedro II se sentou para descansar na longa viagem que fez a região, que também trouxe reflexos na vizinha Caxambu, os quais citei por ocasião da viagem que fiz por lá (aqui).

Satisfeito em ver tinindo um espaço que há seis anos atrás encontrava-se completamente abandonado, imitei o proeminente político e refiz seus passos, enchendo minha garrafa d’água e se sentando na pedra (outra). Não para descansar, mas para refletir.

A palavra “contenda” significa o desajuste por alguma situação onde as partes não chegam a um acordo. Pode, sim, ter o significado direto de luta física, mas é aquele tipo de palavra que tem o sabor de querela que se dá nos cartórios e tribunais, mais feita na base dos argumentos do que dos punhos, como se fosse um debate. Ou seja, uma luta ideal, e não material.

Contendas no campo das ideias são fenômenos absolutamente comuns, que ocorreram reiteradas vezes no transcurso da história. Racionalismo versus empirismo, determinismo versus livre arbítrio, idealismo versus materialismo, dogmatismo versus ceticismo, são apenas alguns exemplos dos intensos debates que volta e meia populam as mesas acadêmicas no decorrer da história. Há uma tendência a um eterno antagonismo? De certa forma, sim, até mesmo porque desde os primórdios da filosofia houve pensadores que compreenderam que qualquer fato ou fenômeno no universo carrega consigo seu próprio oposto, sua própria contradição. Nos mais antigos, o jogo de oposições se dava no âmbito das qualidades: quente e frio, grande e pequeno, alto e baixo. Mais tarde, isso foi para os argumentos e, por fim, às próprias substâncias. Portanto, não temos só debates de ideias opostas, mas oposições que residem dentro das próprias ideias.

O nome disso é dialética, e embora ela exista pelo menos desde a antiguidade clássica, foi com Hegel que ela deixou de ser uma ferramenta filosófica para se tornar um espelho da estrutura real.

Eu já mencionei a dialética hegeliano aqui no blog, como pode ser lido aqui e aqui, mas é um conceito tão central na filosofia moderna que eu senti a necessidade de abordá-la de maneira mais profunda, o que farei agora.

Hegel era um idealista, como bem se sabe. Isso não significa, como pensaria o senso comum, que ele tinha objetivos claros e grandiosos na vida, mas sim que ele acreditava que o mundo existente depende da projeção que uma mente faz sobre ele. Não existe uma relação de conhecimento que exclua uma ideia que se faça presente, representada por um sujeito, um eu-pensante. Ou seja, a natureza só pode ser representada como tal se há uma consciência a observá-la. Por essa razão, Hegel privilegia sobremaneira os mecanismos com os quais se dá a apreensão da realidade e como eles se desenvolvem, não só no ato cognitivo, como também em seu próprio aspecto histórico.

A principal visão com a qual Hegel constrói suas teses é através da dialética. Tradicionalmente, a dialética se constitui pela oposição de polos, como eu já disse, e isso se concretizava pelo debate de ideias, ainda que feito por uma mesma pessoa, que botava ideias opostas para brigar, como fez muito Zenon de Eleia, por exemplo. Não se trata de uma concepção inédita, por conseguinte. A novidade em Hegel é que essa estrutura passa a ser vista em forma de tríades, ou seja, o movimento dialético se dá em três partes, normalmente chamadas de tese, antítese e tese.

Não há nada de errado em se conceber a dialética hegeliana desta forma, mas a questão é que essa apresentação é simples demais. Na verdade, ela é intelectualmente muito mais profunda, e eu estou em um ponto deste humilde espaço em que eu preciso aprofundar conceitos, como até já andei fazendo (exemplos aqui e aqui). Vamos tentar melhorar.

Observe um objeto qualquer. Ele está lá, paradinho, sem que nenhuma ação esteja sendo exercida sobre ele, a não ser a sua visão. Embora possa parecer modorrento, esse ato não está isento de algum tipo de juízo. Ao mirar sobre o objeto, você possui algum tipo de definição dele, e essa definição não precisa estar manifesta na sua voz ou na sua escrita, mas apenas no seu intelecto. Você sabe, por exemplo, características definitórias do objeto, que, sendo uma bola, por exemplo, é redonda, repleta de ar, que rola ao contato com o solo, que se aplica a alguns esportes e così via. Tem também alguns juízos - ela é útil, agradável, bela e outras coisas mais. De qualquer forma, tudo isso parte de um ato intelectivo, fruto de uma abstração: a bola está diante de mim e eu reconheço a relação que eu tenho com ela, de sujeito cognoscente e objeto conhecido.

Daí, o cenário se movimenta. Saindo de uma abstração estática, onde tudo permanece igual a si mesmo, surge uma contraposição. O juízo se movimenta para o seu contrário, iniciando o movimento dialético propriamente dito. Não se trata de uma mera oposição, mas de uma mudança de sinal que o objeto já carrega em si mesmo. A lógica se desloca para o seu negativo, para o contrário do que se tinha posto na consciência. Esse é o momento de propulsão do processo dialético, o momento negativo.

Ok. Pensar por oposição não é propriamente uma novidade, mas Hegel introduz o efeito intelectual sintético em seu sistema. O confronto entre o momento abstrato e o momento dialético “sai do outro lado” quando ambos produzem a síntese. Da oposição entre os dois conceitos, surge um terceiro, que sintetiza ambos, sem excluí-los, mas também sem repeti-los. Essa síntese, como habitualmente chamamos este terceiro momento, é ela mesma triádica, porque ela conserva a disposição inicial da abstração, nega essa mesma disposição e eleva-a a um novo conceito. Esse triplo sentido é conhecido pelo termo alemão aufheben, que pode significar tanto conservação, quanto negação, quanto elevação. É uma nova proposição, que conserva seu antigo teor, que nega o que afirmava anteriormente, e que traz novidade mantendo tanto o que estava na fase abstrata, quanto na fase dialética. Tanta complexidade só pode ser esmiuçada com exemplos, dados pelo próprio Hegel, e nós chegaremos neles.

A fase da tese, por se tratar de um juízo assentado, representa a essência daquilo a que lançamos nosso juízo inicial. Por se tratar de um estado inicial, é aquilo que conhecemos por Ser, residente no intelecto e expresso pelo logos, o conhecimento que temos de tudo aquilo que está em nosso universo circunstante. O movimento dialético nos leva à contradição do Ser, ao Ser destruído, ao Ser inexistente, à antítese do Ser, ou seja, ao Nada. É a presença da natureza que age sobre aquilo que reside no intelecto, representada substancialmente pelo movimento. Se pensamos em um mundo que se move constantemente, o que é que funde o Ser e o Nada? Onde o Ser já não mais é, mas que pode voltar a Ser? É no futuro, no vir-a-ser. A síntese entre o Ser, que já não é mais por seu confronto com o Nada, é o seu movimento através do tempo, o Devir. O Ser mantém sua essência, mas já não é mais o mesmo: seu devir é exatamente o que ele se torna após seu encontro com o Nada. O Ser que ressurge é representado pelo Espírito, não como sinônimo de alma, mas de atividade tipicamente humana, que é produzida a partir de um intelecto. Note que o início do processo dialético temos um logos “em repouso”, e, após a oposição dialética ele é movimentado e transformado. Esse é o sentido.

Confuso ainda? Vamos seguindo porque vai melhorar. O Ser, na fase de tese, portanto, é o que chamamos de ser-em-si, que Kant chamaria de coisa-em-si ou noumeno, o objeto em sua própria essência, conhecido por via da abstração. As coisas que concorrem para modificá-la estão fora do próprio objeto, contradizem o que ele é, e Hegel diz que a antítese é o fora-de-si. Por fim, o devir, que é a síntese entre Ser e Nada, entre essência e oposição, é o retorno-a-si. O Ser volta, no devir, a Ser, carregando o que ele era, modificado pelo que ele não era e retornando ao Ser, pronto para iniciar novamente o círculo dialético.

Vamos aos exemplos práticos. Imagine o trigo, o que é um exercício de abstração. É possível pensar em uma série de características dele: amarelado, em forma de espiga, delicado, produtivo em terras temperadas e assim por diante. Quando nós pensarmos na farinha, não é mais essas características do trigo que nós temos. Ele não é mais amarelado, mas branco; não está mais em espigas, mas triturado; não tem mais delicadeza, porque está empacotado em sacos grosseiros, e não se fala mais em produtividade, porque ele, assim moído, não produz mais. Mas ele agora pode vir a ser pão. O pão é a síntese do trigo, que não deixou de ser trigo porque entregou sua essência à sua negação, a farinha, o trigo contraposto, e seu devir é o alimento, o pão sintético que lhe devolve o ser. 

Vamos sair para algo menos concreto. Imagine um regime de tirania. Sua essência está em possuir os ditames de um indivíduo, que coloca toda uma nação ao seu serviço de acordo com sua vontade. A instância dialética da tirania é a liberdade, ou seja, a possibilidade de que todos exerçam livremente as suas vontades. Mas ela também possui problemas: liberdade absoluta garante que não se dará a cidadania plena, porque haverá invasão contínua entre os direitos das diferentes pessoas. Daí, a síntese entre a tirania e a liberdade é a legislação, que traz da tirania a obediência irrestrita, só que destinadas à lei; e da liberdade, a possibilidade de escolhas, agora balizadas pela lei, tirana no que diz respeito à sua obediência por toda a população, livre no que diz respeito às escolhas dentro de seu escopo.

Outra. Uma pessoa inocente é aquela que não possui maldade em seu coração, que não pratica atos desonrosos. O que é seu par antitético? O vício, a prática de atitudes que causam prejuízo a si e a outrem, como tão bem conhecemos. A síntese entre ambos é a virtude, a característica daquele que conheceu o mal e resistiu a ele. O inocente que conheceu o mal não é mais inocente, porque agora ele precisa exercer seu juízo e nisso consiste ser virtuoso; do contrário, permaneceria inocente.

Vocês devem estar se perguntando: todos esses exemplos parecem a nossa própria história e nossa própria natureza, sempre em constante transformação. E é exatamente isso que Hegel pretende fazer nos entender. A dialética filosófica nada mais é do que uma réplica estrutural da própria realidade. O nosso mundo e nossa vida se movem dialeticamente, em um ir e vir eterno, um fluxo que não se pode deter, de oposições e de devir, como já ensinava Heráclito no seu panta rhei.

Como foram as consequências do pensamento hegeliano? Tem cara que ri de boca escancarada, ridicularizando as ideias ao máximo, como Nietzsche, e tem cara que absorve essas ideias para construir toda uma filosofia da história calcada nessa mesma lógica, como Marx. Vamos e venhamos, não é coisa pequena.

E de lá da pedra que eu estava sentado fechei as contendas mentais que eu tinha e fui encher mais uma garrafinha, agora para pegar a patroa e ir embora, satisfeito em ver que, dialeticamente, o parque que se achava destruído agora renasce. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Compêndio das principais obras de Hegel:

HEGEL, Friedrich. Enciclopédia das Ciências Filosóficas. São Paulo: Loyola, 1995.

sábado, 13 de agosto de 2022

O autoflagelo que vem do caminho diário e as cadeias de influência que permeiam toda a História

(Nossa vida é uma rede infinita de influências. Isso pode ser visto em ponto grande na própria história da Filosofia)

Olá!

Desde a aurora dos tempos, os hominídeos se diferenciaram dos demais animais pela sua capacidade de abstração. Houve um dado momento em que essa característica atingiu um nível de sofisticação tal que o homem começou a reconhecer que existia algo além dos seus sentidos, como se houvesse um "lado de lá". A cultura que deu substrato a estes seres reuniu os sentimentos de transcendência e os sistematizou, fazendo nascer as religiões. 

Como esse é um termo latino que significa religar, há que se supor uma desconexão, algum tipo de afastamento, e esse pode ser por inúmeros motivos, alguns indetectáveis. Para que se restabeleça a ordem das coisas, os fiéis oferecem alguma forma de sacrifício individual às suas divindades. Não obrigatoriamente na forma de rituais cruentos, mas através de imposições a si mesmos, que muitas vezes partem para o físico. São jejuns, reclusões e outras mortificações, chegando ao extremo das autoflagelações, quando se realizam punições contra o próprio corpo, pela expiação dos pecados próprios e/ou de outrem.

Parece uma prática perdida nesses rincões mais afastados do planetinha azul, mas há no seio do próprio Cristianismo quem cometa tal ato. É como nas confrarias penitentes dos católicos. Por ocasião da Semana Santa, eles laceram suas carnes com açoites especialmente produzidos para tanto, o que os faz ficar recobertos de sangue e com as costas completamente raladas.

Embora eu seja contrário a esses costumes extremos, a verdade é que eu mesmo, de tempos em tempos, pratico também meus autoflagelos. A coisa é toda mais ou menos assim: para quem não é habitué deste espaço, sou morador do centro de SP, a Terra da Garoa, a Capital da Vertigem, a Metrópole da Solidão. Vim morar neste lugar inóspito por cansaço de viajar todo santo dia dentro da própria cidade, e não me arrependo. Ocorre que, mesmo trabalhando na mesma Sé em que resido, ainda assim é preciso dar minha caminhada. De dia, o movimento é intenso, tanto do povo quanto das lojas. Em muitas delas, chegou-se à conclusão de que colocar música sertaneja é uma boa ideia para atrair clientes. Deve ser mesmo, porque o fenômeno se dá em sequência, e pela rua muita gente cantarola o maior sucesso da última semana ao lado das caixas acústicas sobrecarregadas.

A mim, é um suplício. Como as coisas não andam seguras e me foi expressamente contrarrecomendado o uso de fones, vou de ouvidos abertos, praguejando contra céus e infernos. Mas sou democrata e me coloco no lugar de vencido, sem estardalhaço.

Acontece que esse mesmo espírito fica cutucando minhas convicções e dizendo para eu deixar de ser preconceituoso. “Preste atenção no que eles dizem, não é possível que tanta gente os aprecie e que eles não tenham nada a dizer”, diz meu fantasminha interior, em claro apelo à maioria. E é o que eu faço, de tempos em tempos. Desprezo as melodias perturbadoras e vou observar as letras, porque pode ser que haja um desnível entre ambas, e, mesmo estando longe do campo acadêmico, podem ser muito boas em sua simplicidade, como tantas vezes já aconteceu na música popular. Asa Branca é a perfeita síntese do que sente o retirante que é obrigado a deixar terra e família, Romaria demonstra a fé do não-religioso, Iracema é a fala daquele que só tem a própria memória para resgatar o passado, como tantas outras pérolas que não foram lançadas em orquestras sinfônicas, mas nos bares, nas rodas de toada, nos alpendres das casas perdidas no interior.

Só que o resultado é sempiterno: de onde nada se espera, é de lá que nada vem mesmo. As letras não contêm a mesma simplicidade formal mencionada nos exemplos que eu dei, mas um vazio dentro do vácuo. Monotemáticas, com rimas pobres, estrutura repetitiva e profundidade zero. Musicalidade não há, como poderei descrever melhor em outro texto, que já estou escrevinhando. Há atrevimentos piores, como aproveitar melodias oriundas de outros estilos e adaptá-las ao universo em questão, gerando heresias como a transformação de The Sound of Silence, de Simon and Garfunkel, em É por Você que Eu Canto, de Leandro e Leonardo. Essa adaptação nem é das piores, mas meu precitado instinto democrático se esvai quando penso em monumentos da arte, que deveriam ser tratados como patrimônio histórico e artístico. A canção em tela é de um lirismo ímpar, um clamor em um mundo que se comunica sem se compreender, cuja leitura já se justifica por si mesma, sem a necessidade de estar musicada. E olha que muito de sua poesia se perde por conta da tradução. Músicas assim não poderiam ser vilipendiadas dessa forma… Bom, vou voltar para a casinha.

Meu autoflagelo se consuma ao depurar o tempo perdido na empreitada e no arrependimento certo, mas o fenômeno se repete, nem sei bem o porquê. A qualidade de nossa principal corrente musical é coisa para ser discutida, sim, mas em outro momento. Por ora, basta reconhecer que, evidentemente, minha ojeriza a esse tipo de música não brota de um campo que não tenha sido adubado com repulsividade. A culpada, como pude descrever neste texto, foi minha mãe, pobre dela, já morta e sendo-lhe imputado o pecado. Só que fazer uma leitura simples desse texto não vai esclarecer muita coisa, e dar impressão de ranço despropositado por parte da defunta genitora. Assim, cabe fazer um rápido detalhamento.

Como acontece inúmeras vezes nesta vida, minha mãe não teve um casamento feliz. Ela era o oposto mais perfeito possível do meu pai, até mesmo na questão de horários. Minha mãe era noturna, gostava de ir dormir tarde; meu pai era madrugadeiro, talvez educado por seus anos de roça. Ela era um ser eminentemente urbano, dançava e ia a cinemas e teatros; meu pai gostava das coisas mais do campo, como pescar e chupar laranja no pé. E ele bebia, bebia de dar gosto. O mais grave é que a personalidade dele melhorava quando bebia. Era casmurro quando sóbrio, e só se soltava após algumas doses. Então havia o delicado equilíbrio entre o momento exato entre o início do contentamento e chegada ao porre. Essa linha era facilmente saltada, e só se resolvia depois do sono, com a consequente ressaca e assim por diante.

Ora (direis), por que sua mãe aceitou esse estado de coisas? Por que não cortou o mal pela raiz, antes de se casar? Eu responderia que a divergência entre expectativa e realidade, tão comum na vida da gente, aplicou-se ao caso dela também. Sabe aquela história? Ele vai melhorar, ele vai se emendar, depois que nascem os filhos a vida muda e a conduta também. Não, não muda. Era um homem cinco anos mais velho, com profissão fixa, em um tempo onde isso era o bastante para dar a uma mulher da classe social da minha mãe seu destino inexorável: o matrimônio e filhos para cuidar. Não havia nada de frustrante na essência daqueles tempos, que tantos insistem em chamar de bons, mas ter um bom companheiro ainda era o mínimo que se esperava.

Com o tempo, a esperança se esvai e tudo o que eram pequenos defeitos, que seriam toleráveis, vão se tornando irritantes: a toalha de mesa usada como guardanapo, o monte de cavacos preso nas botas, o radinho de pilha ligado o domingo inteiro, a música que se ouve… Se minha mãe já não gostava do estilo, ela passou a odiá-lo, por lhe trazer na mente um distintivo da presença que já não lhe trazia mais prazer. Estou falando em um tempo, meninos e meninas, em que o divórcio ainda não era permitido, e quando isso passou a ser possível, causava uma péssima imagem às mulheres.

Eu-menino não tinha um discernimento apurado o suficiente para diferenciar as coisas, e fui sendo mais e mais influenciado a detestar um estilo que, se não era brilhante, ao menos ainda guardava alguma pureza. Mas dá-lhe Duduca e Dalvan, dá-lhe Mato Grosso e Matias, dá-lhe Milionário e Zé Rico, dá-lhe Irídio e Irineu, dá-lhe Trio Parada Dura. As coisas da terra não são mais cantadas, só aquela lenga-lenga pseudo-romântica, que foi se agravando com o tempo e desembocando exatamente no ponto onde se dá minha tortura pessoal hodierna.

Não se pode negar o poder que as influências exercem na vida da gente. Por vezes, elas são tão poderosas que acabam por determinar rumos históricos. Ou filosóficos. A ponto de se promover divisões profundas.

O episódio que eu gostaria de contar aqui diz respeito a Friedrich Hegel, um dos mais fundantes filósofos alemães. Seu pensamento é de enorme complexidade, e já abordei ele mais de uma vez no blog. Sua maneira de desenvolver os raciocínios fez com que uma conclusão bastante polêmica viesse à tona. Vamos passo a passo.

Já falei sobre a dialética em Hegel, neste texto. Para fins do nosso objetivo, vou repisá-la um pouco. Hegel entendia que o pensamento humano funcionava na mesmíssima chave de todo o restante da realidade. Entretanto, ao contrário do que poderíamos pensar intuitivamente, a realidade não se processa de maneira linear. Tudo o que existe está em movimento constante, e esse movimento se dá na direção de sua contradição. Em nossa vida, caminhamos para a morte, seu oposto. Acontece que, enquanto não se morre, se vive, ora essa. O que eu era há vinte anos ruma para o que eu serei daqui a vinte, e eu sou a síntese do que há entre o jovem e o velho: o homem de meia-idade. O melhor exemplo de todos é o da planta: uma semente se transforma em broto. Sendo broto, ela já não é mais semente. É, de certa forma, uma negação de si mesma. Depois de ser um broto, era vai virar flor, que já não é mais o broto, e depois vai virar fruto, que já não é mais a flor, até voltar a ser semente. Esse movimento da realidade é, no dizer de Hegel, dialético.

Transposta para o pensamento, a dialética começa por uma tese, que se opõe a uma antítese, e desemboca em uma nova ideia, já transformada pela afirmação e sua oposição, a síntese. Acontece que, como eu disse, Hegel compreendeu que esse processo de pensamento nada mais é do que um reflexo da realidade. Tudo está na História e tudo é História, inclusive a maneira como nossa consciência se projeta sobre as coisas e sobre os fatos. Eu dizia, em uma música minha, algo que era vergonhosamente óbvio, mas surpreendentemente hegeliano:

Se hoje somos o que somos

Foi porque fomos o que fomos

O bem ou o mal foi consumado

Na vida dos filhos do passado

É exatamente isso. Nosso presente é a síntese de toda a história, não só no desenrolar dos acontecimentos, mas na maneira como olhamos para eles. Coloque alguém que viveu a 3000 anos atrás diante de nossos livros de História, e sua percepção seria completamente diferente da que temos hoje. Isso porque sua razão não passou pelas transformações que foram se dando durante o intervalo de tempo que há entre nós e ele.

Esse estudo das contradições é, inclusive, uma maneira de se definir o melhor modo de estudar Filosofia. Quando eu ainda era um estudante da área, tinha em mim que lecionar de maneira cronológica era uma chatice, porque teria que seguir uma linha predeterminada, por onde teria que passar em conjuntos de ideias arcaicas, desinteressantes. Contudo, é somente estudando a Filosofia através de sua história que conseguimos decifrar seu estado atual. A ética de hoje é a síntese das diversas éticas corridas nos tempos. A metafísica de hoje é a síntese do que se pensou em metafísica no passado, e é uma nova tese, que sofrerá nova antítese, até chegar, no devir, a uma novíssima síntese.

Essa espiral que representa a realidade parece eterna, vai subindo, subindo, subindo sem ter um limite. Acontece que Hegel estabelece um fim para esse ciclo: a chegada ao Espírito Absoluto. Cabe aqui esclarecer que "espírito" na filosofia de Hegel não significa um sinônimo para alma, mas uma espécie de metáfora para a vivacidade do racional, que vive por dentro das mentes e que repete o mesmíssimo ritmo dialético de toda a realidade. O Espírito Absoluto se dá quando o confronto entre tese e antítese resulta sempre na mesma síntese, ou seja, a realidade ganha estabilidade. E aqui vem a polêmica.

Se todo o processo dialético se encerra na estabilidade do Espírito Absoluto, é de se supor que também os elementos culturais e sociais sigam a mesma lógica. Portanto, haverá um momento tal em que uma determinada sociedade encontrará uma situação estável, e não mudará mais. Hegel vivia na Prússia, no território onde hoje se situa a Alemanha, e uma boa parte de seus contemporâneos entendia, à luz das suas ideias, ter atingido a sociedade prussiana seu ápice.

Aqui nós vamos ter uma grande cisão entre os discípulos de Hegel. Ele foi um professor de grande popularidade em seu tempo - a quantidade de anotações de aulas feitas por seus discípulos comprova essa afirmação. Só que um sistema estruturado de maneira tão complexa não poderia levar a um entendimento unívoco, gerando algumas correntes que lhe são subsidiárias. Fundamentalmente, esta divisão se dá com aproximada reprodução dos sistemas parlamentares da Assembleia Francesa, ou seja, uma direita conservadora e uma esquerda revolucionária. Em síntese, a direita hegeliana entendia que o Estado prussiano já tinha atingido o auge da estrutura dialética e que não havia nada mais a se evoluir, enquanto a esquerda raciocinava que havia ainda escalada a acontecer, com aperfeiçoamentos sociais e políticos a ocorrerem.

Os conservadores vieram primeiro, e são apelidados de velhos hegelianos. O Estado prussiano, no entender destes, escalou todos os pontos possíveis das realizações políticas, econômicas e sociais, estando no máximo da espiral dialética. Sem dúvida que a influência cultural exercida pela religião luterana ajudava muito a se chegar a esta conclusão, porque, segundo eles, os aperfeiçoamentos do cristianismo original, que passou pela fase católica, chega em perfeita racionalidade ao Luteranismo, e todo ciclo de tese, antítese e síntese faria resultar novamente no mesmo Luteranismo.

Acontece que esta é uma clara visão de quem já detinha poder e privilégios. Qualquer um que não se beneficiasse da mesma situação conseguiria observar que havia muitas aparas, arestas e pontas soltas na sociedade prussiana para que a ascendente dialética não pudesse requerer novos confrontos. É com essa dimensão que surge uma onda concorrente aos conservadores, os assim chamados jovens hegelianos.

Mais do que uma discrepância política, os dois grupos se debatiam no seguinte ponto: até que ponto o Cristianismo (mais especificamente o Luteranismo) harmoniza-se com o sistema hegeliano? Essa pergunta nasce essencialmente da tríade de conteúdos que corporificam o Absoluto: a Arte, a Religião e a Filosofia. A Arte é a apreensão do sensível, e não entra no debate. Já a Religião expressa o conteúdo pela forma de representação e a Filosofia pelo conceito. Para Hegel, a Religião deveria transitar para a Filosofia, porque os conceitos são mais ligados ao Absoluto do que uma representação, principalmente porque o conceito é mais definitivo do que as diversas formas que podem ser manifestas pelas diferentes religiões. O que afirmava a direita hegeliana? Que a religião cristã já é ela, por si só, uma expressão de conceitos, sendo ela mesma Filosofia, e que, portanto, não está ainda submetida ao regime dialético, atingindo sua plenitude. Estão nessa escola Karl Göschel, Johann Erdmann e Kasimir Conradi, para citar três autores.

Óbvio que os jovens hegelianos riam às escâncaras dessa tentativa de imobilizar o curso histórico proposto por Hegel. Para demonstrar sua oposição, colocavam em xeque não o Luteranismo, mas seu próprio nascedouro: Jesus visto como ser divino. São todos autores interessantes a quem poderei voltar quando tiver os estudado melhor. Para David Strauss, a colocação de Cristo como a fusão do humano com o divino produz uma unidade sintetizada em um indivíduo específico. Todavia, para ele, isso não inviabiliza que a união entre finito (homem) e infinito (deus) na própria humanidade. A humanidade como um todo não peca: quem o faz é o indivíduo. Centrar a união homem-Deus em um único indivíduo vai fazer o conceito padecer do mesmo mal. Ele é, portanto, uma das representações possíveis, como havia definido Hegel.

Bruno Bauer faz uma crítica ainda mais pungente, duvidando até mesmo da historicidade do ser humano Jesus. Ele nos diz que, apesar de todas as narrativas contando milagres e ensinamentos, nada há de prova para a existência de um filho de carpinteiro que confrontava as sinagogas, a não ser a representação de uma forma de pensar do povo, em clara antecipação a Ludwig Feuerbach. Ele diz ainda que a religião é um ato de profundo egoísmo, atribuindo destino salvífico a indivíduos, e menosprezando a realização humana como objetivação do mundo.

Max Stirner aprofunda a noção baueriana de egoísmo religioso. Ele entende que, quando criança, um indivíduo se apega ao real concreto, por não ter ainda suficiente capacidade abstrata, portanto apresentar um deus para ela significa fazer comparações com entidades concretas, como o pai ou o rei. Ao se tornar jovem, já aí consegue lançar mão de abstrações, de modo a transformar o concreto em conceito. E é aí que ocorre de se lançar adoração a um conceito: do que é bom, do que é justo, do que é generoso. O jovem pensa adorar a uma divindade, mas adora a um conceito, ou um conjunto deles. Este conceito, então, se transmuda em uma relação de poder, sempre vindo da transcendência em direção ao indivíduo, e nunca o contrário. É quando o jovem passa a crer de fato, a ter uma religião. Ele nota, no entanto, que invocar o conceito deus também lhe traz algum poder, só que sobre outros indivíduos: deus te castigará, deus te abençoe. Estas imprecações estão ao alcance do indivíduo, e são ferramentas para ele. Entretanto, ao chegar à idade adulta, o indivíduo percebe que o conceito nada mais é que uma palavra, uma invenção humana, que serve essencialmente para concretizar os seus desejos, e que ele mesmo usa para autoconforto, para exercício do poder. O conceito nada mais é do que uma palavra emancipada, que ganhou significado para além do seu próprio alcance. O universo do indivíduo, nesse sentido, encerra-se em si mesmo - nem deus, nem a humanidade é algo a se crer e ser idealizado. O homem se guia pelo egoísmo absoluto.

Notem como nenhum desses jovens hegelianos, embora concordem com a historicidade da razão e com o passo dialético da realidade, tem pensamento compatível com a ideia de uma sociedade prussiana em plenitude, especialmente no alinhamento da religião cristã luterana com a filosofia conceitual de Hegel, como queria a ala direita. Deles saiu uma cadeia de influências que foi parar em Marx, que foi parar no Existencialismo, na Escola de Frankfurt, em Zizek, e tanta gente mais, até os dias de hoje, sem contar tanta Filosofia que brotou exatamente para contrapô-lo. E mesmo Hegel trouxe a noção de devir de Heráclito, de continência da substância no ato e potência de Aristóteles, na oposição à razão apriorística de Kant e tantas outras influências.

Nós somos nossas influências, mesmo que seja um velho ressentimento materno. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Hegel não é nada fácil, mas não podemos nos furtar da tentativa. Pegue um bom manual, tome informações esquemáticas e parta para a tentativa. O livro abaixo é um bom começo.

HEGEL, Friedrich. Ciência da Lógica. Petrópolis: Vozes, 2018.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (10 - Metafilosofia)

Olá!

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Quando falamos em Filosofia, temos em mente um termo um tanto genérico. Podemos pensar em coisas como "filosofia de vida", que indicam objetivos a serem perseguidos por uma pessoa qualquer, podemos achar que são os sistemas de relacionamentos que fazem com que as diferentes partes das corporações trabalhem em sincronia ou podemos fazer a grave confusão com a auto-ajuda. Todos esses usos são feitos de maneira permissiva, ainda que impropriamente, porque passam uma impressão inicial de "parar para pensar", que, no final das contas, está mesmo no substrato do pensamento filosófico. Portanto, passons, o negócio é tolerar para o bem do convívio. No entanto, Filosofia com "F" maiúsculo, feita a sério, não se faz a esmo, sem um mínimo de critério. Não se trata de praticar uma falácia do escocês de verdade, mas de defender uma diferença entre o uso próprio e o uso comum da palavra.

Isso porque não há uma prática da Filosofia que não olhe a si mesma como uma busca autêntica de conhecimento. Quando nossos petizes criam galos na cabeça, não estamos praticando medicina quando damos beijinhos sobre tais intumescências. Pelo contrário, fá-lo-emos se aplicarmos uma compressa sobre a lesão. Quando plantamos um vasinho de uma planta aleatória, não praticamos ecologia, mas fá-lo-emos se não comprarmos espécies em extinção. Da mesma forma, quando dizemos que pensar positivo é o segredo do sucesso não estamos praticando filosofia, mas fá-lo-emos se nos questionarmos o que é o sucesso e se ele pode ser considerado essencial à existência humana. Deu para perceber a diferença?

É justamente para que se defina o que é uma pergunta filosófica, quais são os critérios de pesquisa necessários para se estabelecerem hipóteses dignas de análise, para que se investigue o funcionamento da própria Filosofia é que nasceu a Metafilosofia, ou, em termos mais coloquiais, a Filosofia da Filosofia.



A coisa é mais ou menos assim: um mecânico hábil tem a capacidade de juntar adequadamente as peças e fazer um motor funcionar, para o gáudio do motorista inconsolável. Pode até mesmo compreender o funcionamento de tudo, sabendo com exatidão a necessidade de cada componente no conjunto. Mas é só compreendendo a totalidade de forças que atuam no ato motor, entendendo a dureza e a tenacidade dos materiais empregados, calculando giros, torques e pressões e analisando erros de projetos, fadiga dos materiais e excessos de atritos que o profissional poderá dar o salto de qualidade, melhorando a máquina. Discernir sobre isso e produzir motores melhores transformam o mecânico em engenheiro. Com a Filosofia é por aí. É preciso entender o funcionamento do conhecimento e da lógica para tratar do tema.

No fundo, é a velha questão de separar o que é conhecimento de achismo. É certo que a Filosofia possui uma ação mais livre do que a Ciência, que precisa de experimentos e provas para cumprir seu método, mas isso não significa que basta especular para filosofar. Isso é opinião, e não conhecimento. Para que a doxa se torne logos, é preciso que passe pelo crivo da lógica, sua exigência mínima. Sistemas filosóficos complexos e completos, como os de Aristóteles, Kant e Hegel foram consolidados sem provas, mas com muita coerência interna, mesmo que tenham sido várias e várias vezes refutados, já que, em Filosofia, não existem conclusões cabais.

Quando eu estava na faculdade, tinha uma disciplina que eu considerava brochante: Metodologia de Pesquisa Científica. Formatações, margens, parágrafos, bibliografia, abstracts, NBR, ABNT, isso, aquilo e o outro. Uma cagação de regras insuportável, com a necessidade de fontes a cada centímetro. Eu, louco para pôr minhas ideias e ideais no papel e o mestre perguntando: De onde você tirou essa concepção? Qual autor? Por que esse, e não aquele? Você não acha que o escopo está muito aberto? Qual obra? Qual página? Qual edição? Qual coleção? Qual tradução? Ao final das contas, não sei se convencido ou doutrinado, comecei a ser mais criterioso com essa questão de fontes. Como, modéstia à parte, comecei a ter alguns artiguinhos publicados, dois colegas de serviço me pediram para apreciar seus TCC's de especialização na área de Informática. Meu Deus, que merda completa (com todo respeito)... Um festival de informações colhidas ao léu, sem um plano diretivo, na sua maioria de buscas na internet, sem qualquer critério e lá colocadas apenas porque pareciam boas (parece aquela música do Língua de Trapo, que dizia que "esse coral não era prá ter, a gente pôs porque ficou legal"). Após um diálogo razoavelmente agressivo, forma meio torta de amizade que inclui mães e sexualidade, aceitei o desafio de fazer uma orientação informal, e a conclusão acabou sendo minimamente satisfatória, com a aprovação dos trabalhos. Mas a verdadeira satisfação foi concluir que eu peguei o espírito da coisa. Não dá para sair escrevendo com a pena solta e chamar aquilo de produção de conhecimento. É isso o que os seguidores de certos pretensos filósofos não entendem ao defender seu guru: ainda que uma ideia seja boa e inovadora, ela precisa ter um mínimo de base.

Mas, até aí, o método de pesquisa é comum a todas as disciplinas, já que qualquer trabalho digno de publicação precisa segui-lo. O diabo é que, em Filosofia, há uma segunda metodologia a ser seguida e declarada, que não se reduz aos ditames burocráticos da norma ou à profusa descrição das fontes. Foi o que nos foi ensinado em uma disciplina a parte, chamada de Metodologia da Pesquisa Filosófica, que cuida da abordagem com a qual tomamos o objeto da investigação. A pergunta guia para determinar qual método deveremos utilizar (além da evidente preferência pessoal) é a seguinte: "o que eu quero extrair desse objeto?". A resposta determinará o melhor caminho a seguir. Quero estudá-lo em si mesmo? Quero encaixá-lo no mundo que o rodeia? Quero entender o seu contexto histórico e social? Quero abordá-lo o mais cientificamente possível? Vamos dar um rápido passeio nas diferentes escolas metodológicas.

Poderíamos começar a falar em métodos filosóficos já a partir do velho Tales, que trocou a confabulação legendária por uma concepção racional dos elementos constituintes do cosmos, mas é preciso localizar os rudimentos mais formais para não nos perder em prolongadas caceteações. E que rudimentos!

Francis Bacon lança o método experimental, que vai dar base a toda filosofia de raiz empírica, e René Descartes fornece a dúvida hiperbólica, matriz de todo o seu método de verificação em quatro passos, que já esmiucei em minha teoria do gomo da mexerica, mas o fato é que, hodiernamente, os critérios e procedimentos de ambos já estão sobejamente abarcados pelas metodologias científicas consagradas. Dessa forma, é preciso dar uma olhadinha no que se aplica na pesquisa atual na academia.

Comecemos pela Fenomenologia, de quem já falei neste texto. Husserl, seu codificador, dava ênfase na posição do observador, que, através da intencionalidade de sua consciência, já voltava seu olhar para um objeto com a contaminação de uma carga de cultura. Quando analiso um pavão, por exemplo, tenho uma série de componentes simbólicos que são associados a ele, começando pelo próprio substantivo que o designa. A palavra "pavão" é desenvolvida em uma linguagem, um ato puramente cultural, e, no meu caso, em língua portuguesa. Além disso, há outras cargas que lhe são associadas, como a sua beleza natural, a utilização de suas penas em ornatos e adereços, seu rito reprodutivo, o fato de ser um dos grupos do jogo do bicho e etc. E há mais: pensamos na cultura como um todo, mas há, além disso, preferências e convicções pessoais de quem realiza a pesquisa, além de um arcabouço intelectual que varia de pesquisador para pesquisador. Dessa forma, dificilmente não há algum grau de atravessamento no modo como se observa o objeto. Na abordagem fenomenológica, tudo isso representa "cascas" que impedem a análise em profundidade do objeto pavão. A tarefa de pesquisa é fazer com que essas cascas culturais sejam removidas, na medida do possível, para que o pavãozinho seja apresentado puro à consciência. É um método interessante quando o objetivo de pesquisa for ontológico.

Outro método trilha o caminho oposto. É a Hermenêutica de Gadamer, sobre a qual também já me pronunciei. Nesta sistemática, as interveniências culturais que procuramos descartar na Fenomenologia são amplamente aproveitadas, porque o objetivo da Hermenêutica, mais do que explicar, é interpretar. Aqui, não se busca mais o isolamento do objeto. Tudo o que estiver colocado ao seu redor e que, de uma forma ou de outra ajuda a contextualizá-lo, deverá ser levado em conta pelo pesquisador. Um dos grandes cuidados da Hermenêutica está no campo da significação, ou seja, aquele pavão do exemplo precisa ser visto mais pelo seu aspecto simbólico do que concreto - interpretá-lo abstratamente e em articulação com os demais signos sociais: o que significa um pavão solto em um parque, o que representa suas penas no traje da passista, o que indica certas adaptações como o verbo "pavonear". Deve ser utilizado quando o aspecto linguístico for muito relevante na pesquisa, ou quando se queira discutir um contexto mais holístico e menos dirigido.

Temos também o método do Positivismo de Comte, também já campeado por estas plagas. O Positivismo é uma doutrina filosófica que floresceu na medida em que o pensamento empírico foi ganhando mais e mais primazia com relação ao racionalismo, principalmente por conta da visibilidade de seus resultados. Os avanços científicos obtidos a partir do século XVIII começaram a dar um estatuto de panaceia universal às ideias científicas, o que fez com que todo o conhecimento válido viesse revestido desse aspecto. No esteio dessa tendência, surgiram novas ciências, que antes ficavam adstritas à seara filosófica, como a Sociologia e a Antropologia. Dessa forma, o método positivista procura transformar todas as disciplinas filosóficas em Ciências, trazendo, tanto quanto possível, toda a especulação para o campo experimental, retirando seus aspectos metafísicos. É um método mais adequado no nascedouro de novas hipóteses científicas, onde poderão ser previstos meios empíricos para mensuração e investigação, mais ou menos como descrevi neste post.

Outra metodologia de pesquisa filosófica é a Dialética, antiquíssima, já utilizada por Sócrates e Platão, mas que, delineada como sistema, surge com Hegel, e também dela já deixei meus pitacos. Para nosso caro e complexo alemão, toda a realidade se encontra em permanente movimento, e há uma lógica que lhe dá rumo: um fenômeno qualquer já carrega em si mesmo sua própria contradição, e é na rota dela que o histórico do fenômeno se movimenta. No entanto, no meio do caminho entre essas posições antitéticas se encontra a síntese, que não tem aqui o significado de resumo mas, na verdade, uma espécie de meio-termo que dá origem a um novo fenômeno, e a outro, e outro, e outro, em um ciclo de repetições estruturais infinito, com cada ciclo enriquecendo o anterior. No que consiste esse método? Em analisar onde está cada um dos polos e detectar onde eles se sintetizam. Dessa forma, é possível descrever os processos de transformação de realidade.

Uma derivação bastante famosa da Dialética hegeliana é o Materialismo Histórico Dialético de Marx (tá aqui). O mais recente demônio que aterroriza almas e patrimônios deve ter percebido que a dinâmica por trás do movimento dialético era efetivamente um espelho da realidade, incluindo as oposições tese-antítese. O problema estava no motor dessas mudanças. Para Hegel, havia um tal de zeitgeist, o Espírito do Tempo, que fazia um polo se deslocar para o outro como um impulso de mudança, algo como as modas entre um verão e outro, ou seja, nada muito concreto. Para Marx, esta concepção estava equivocada. Havia um motor, sim, mas sob a égide de uma concepção materialista. Marx não acredita em ideias metafísicas, e, menos ainda, na existência de um Espírito Absoluto. O motor da realidade, que disparava o processo dialético, eram as condições materiais que levavam à luta de classes. Portanto, no método marxista, é preciso aferir de que maneira estão dispostos os meios materiais e perceber como isso influencia na inter-relação entre as classes sociais. O pavão que está no parque precisa ser analisado sob essa perspectiva - nos parques mais periféricos há bichos menos atraentes, ou ele está aqui porque as classes menos favorecidas não têm como vê-lo em habitat natural, para dar dois exemplos. Hegel avalia que a Dialética é a dinâmica da natureza, e a isso Marx acrescenta a mecânica da História sob a lente social. Por conta disso, os métodos dialéticos são mais apropriados quando se quer levar em consideração o tempo histórico na análise.

Já o método do Estruturalismo, consagrado por Lévi-Strauss (sim, também já falei sobre isso), procura, como o próprio nome diz, pelas estruturas fundantes de cada um dos menores atos cometidos pelos seres humanos, que, realizados em cadeia, possuem uma lógica subjacente originada justamente destas estruturas maiores, que, no seu entender, são presentes e semelhantes em todas as culturas humanas, que se aproximam entre si, ainda que revestidas de características próprias. Isso porque os estruturalistas acreditam que todas as culturas são diferentes na forma com as quais são construídas, mas, uma vez detectada sua estrutura, seu esqueleto, se verá que são todas muito semelhantes. Por exemplo: temos descrições de dilúvios universais em vários povos do Oriente Médio, incluindo a famosa narrativa bíblica, aquela do Noé e da arca. A proximidade geográfica é um bom fator aglutinante dos diferentes mitos da região mesopotâmica, mas acontece que também nas Américas há relatos de tal catástrofe, como pode ser lido no Popol Vuh dos maias. No entanto, longe de representar um efetivo cataclisma, essas narrativas denotam uma maneira universal com a qual o componente mítico explica a divindade: um ato que demonstra o poderio da deidade, sua ira e sua piedade. Esse esqueleto é praticamente igual em muitos dos mitos, e pretende estabelecer a ferramenta de poder ligada à religião - a fúria divina é devida à insubordinação humana, o que explica muito melhor a existência do mito do que um efetivo evento mundial que não consegue corroboração. A temática do dilúvio não se repete porque tenha ocorrido de fato, mas porque a estrutura por trás das sociedades faz com que esse mito seja escrito de maneira parecida e por motivos afins. E é isso o que busca este método: descascar as paredes das culturas para descobrir os pilares de sua edificação, o que o torna ótimo para pesquisas sociais e antropológicas.

Isso tudo é suficiente para demonstrar como a discussão sobre a Filosofia em si mesma é aberta e cheia de nuances. O método científico é muito mais bem delineado e dirigido: grosso modo, monta-se a hipótese e consegue-se provas. Todas as abordagens filosóficas que listei aqui, que podem inclusive ser utilizadas concomitantemente e de modo entrelaçado, e há outras ainda, são de uso corrente, o que demonstra o quanto o aprofundamento intelectual que se debruça sobre ela é intrincado e ramificado. Atentem que mesmo esta pequena série é toda metafilosófica, porque busco dar um pouco de luz às dúvidas que a galera me pede para dirimir, e vejam, no global da obra, quantas áreas são afeitas. Ponto para os filósofos, que sempre são acusados de serem viajandões a cuidarem de inutilidades. Chamem-nos assim, mas jamais de preguiçosos. Bons ventos a todos.

Recomendação de leitura:

Um bom livro para compreender a Metafilosofia e diferenciar a metodologia filosófica da científica é a obra do francês Granger:

GRANGER, Giles-Gaston. Por um Conhecimento Filosófico. Campinas: Papirus, 1989.

Já que mencionei a música do Língua de Trapo, segue abaixo sua referência completa:

LÍNGUA DE TRAPO. Régui Espiritual. In Língua de Trapo. São Paulo: Lira Paulistana, 1982.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Sobre goleadas e a dialética que explica os vexames no futebol

Olá!

“Que traulitada!”, diria meu avô. “Que sacolada!”, diria meu pai. “Que chocolate!”, diria eu. “Que sacode!”, diria meu filho. “Que porra foi essa?”, dirão meus netos. “Que vexame!”, diremos todos nós.
Vergonha: a tristeza diante da incapacidade, o luto que tende à permanência diante do erro, da afronta. Vergonha é a palavra que mais li e ouvi nos últimos dias, reflexo dos indiscutíveis 7 x 1 aplicados pela Alemanha no Brasil nas semifinais da Copa do Mundo. Indiscutíveis em tese, aliás. Podia ter sido muito mais.

Gosto muito de futebol. Quando eu era criança, existiam dois campos de futebol na minha rua: no começo, na parte baixa, existia o campo do Disparada, time de várzea sustentado por uma casa de materiais de construção de igual nome; no final, no topo da ladeira, existia (existe ainda) a tubulação que leva água do Rio Claro até não sei qual parte da metrópole. Andando por sobre os canos, rapidamente chegava-se ao campo da Rua Deiz (assim mesmo, conforme estava escrito pelo indigitado que redigiu ambas as placas que a identificava). Era um local menos recomendável, porque pertencia à malandragem local (Vila Diva, no caso), mas como era plano, tinha suas partidas menos influenciadas por fatores “geográficos” e mais por fatores “sociológicos”, como brigas nos fins dos jogos, às vezes com alguns objetos perfuro-cortantes. O campo do Disparada tinha um leve, porém perceptível declive, mas o pessoal que jogava lá era composto de operários que moravam na Vila Ema e arredores, e que iam trocar a graxa pela lama no final de semana (rapidíssimos parênteses: o clima de São Paulo mudou demais nas últimas décadas. O inverno era gelado de verdade, e durava três meses. Hoje em dia, cai em um final de semana. No verão, sempre tinha chuva no final de tarde. E os níveis de umidade do ar nunca eram tão baixos – o epíteto “Terra da Garoa” não se justifica mais). Esse pessoal se reunia nos botecos e combinavam seus jogos, em meio a muitas cervejas e talagadas da “marvada”. Conhecia quase todos. Sentava na beira do campo e ficava assistindo o proletariado judiar da bola, enquanto comia os indigestos torresmos do seu Geraldo, fundidor de ofício que nas horas vagas fazia as vezes de barman. Cara curioso, esse seu Geraldo. Vivia coberto de fuligem, em qualquer hora que fosse visto, e transferia seus vestígios em todo lugar onde encostasse, inclusive nas garrafas de Caçulinha que nos eram servidas. Bom, nunca tivemos problemas com anemia.
Também costumava frequentar, com certa frequência, o Desafio ao Galo. Quem tem mais de 40, sabe do que estou falando. Tratava-se de um torneio de várzea, mais “requintado”, no CMTC Clube (onde hoje há o recomendável Museu do Transporte, na Ponte Pequena), e que era disputado no seguinte esquema: o time detentor da última vitória era chamado de “galo”, o dono do terreiro. A cada domingo, um time desafiante vinha enfrentá-lo. Se vencesse, era o novo “galo”, e voltava a jogar na semana seguinte, contra um novo desafiante. Se perdesse, abaixava a crista e ia esperar sua vez de novo. Em caso de empate, pênaltis. Quem fosse o galo por mais tempo no ano, ganhava um troféu adicional, se não me engano.

Conheci muitos times que participaram do torneio, quase todos extintos: Atlas, SDR, Botafogo do Imirim, Corinthinha do Sapopemba, Estrela do Sul, Parque da Mooca, Aliança de São Bernardo, A. A. da Penha, Portuguesinha da Água Rasa... Essa era a ponta mais visível do futebol de várzea, porque era transmitido pela TV. Passava na Record, que na época não tinha absolutamente nada a ver com a IURD. Na pequena arquibancada, era possível observar duas coisas: vários olheiros tentando caçar talentos (era fácil reconhecê-los, já que sempre tinham na mão algum bloquinho ou caderneta, e também costumavam ir a campo para abordar algum rapaz mais habilidoso) e meu avô berrando impropérios para pernetas que ele nem conhecia.
Também peguei gosto em ir a estádios, principalmente na década de 80. Apesar de ser corinthiano, o time profissional que eu mais assisti foi o Juventus. Explica-se: o campo da Rua Javari era perto de casa – meia hora de ônibus, o ingresso era muito barato, havia frequentes promoções para sócios do clube, eu pagava meia-entrada por ser estudante e havia ainda a ligação afetiva: mooquense que sou eu, mooquense que é o Juventus, bairrista que é o mooquense (sou-o de nascimento, não de residência).

O resultado é que hoje volta e meia me pego assistindo jogos como Batatais vs. Lemense na rede Vida. Se me interessa o futebol mais miúdo, quanto mais não me atrairá seu evento maior, a Copa do Mundo. É bem verdade que os brasileiros não têm mais a mesma ligação com a seleção que tinham antigamente. Na Copa de 70, todos os jogadores atuavam no Brasil. Na de 82, acho que só o Falcão jogava na Itália, mas tinha uma forte ligação com o Internacional de Porto Alegre. Dos jogadores da atual, não me lembro de ver jogar com camisas brasileiras os seguintes: Daniel Alves, David Luiz, Dante, Marcelo, Maxwell, Luiz Gustavo, Fernandinho, Hulk. Vi muito pouco do Maicon no Cruzeiro, do Tiago Silva no Fluminense e do próprio Willian no Corinthians. Nenhum dos jogadores atua no estado de São Paulo. A desvinculação se torna inevitável. Mas, mesmo assim, a vontade de enfiar a cabeça na areia é inexorável.
Por que o futebol nos afeta tanto assim? O que há nele, que a princípio é apenas um jogo, para fazer com que percamos o sono, choremos, soframos, até morramos? Lembro os inúmeros casos de enfarte e do torcedor vascaíno que precisou ser seguro para não se atirar quando seu time foi rebaixado pela primeira vez.

Vejo e ouço em muitos lugares a explicação de que o futebol é metáfora da vida, por isso nos perturba tanto. Não me convenci.
Uma metáfora é uma figura de linguagem em que uma característica concreta é substituída por outra, por um processo de semelhança e comparação. Vai aqui o exemplo do “mala sem alça”. Qual é o seu uso na linguagem coloquial? É o cara chato, difícil de suportar. Uma formação de frase para estabelecer a correlação entre o cara chato e a mala sem alça é a seguinte:

Ok, temos uma comparação clara, que não é uma metáfora, porque não há sentido figurado. Na metáfora, pegamos uma característica comum e a imiscuímos na relação. É possível representar graficamente.


Na metáfora, temos a fusão daquilo que é explícito na comparação:

Presto! O termo que medeia ambos some e enriquecemos nossa linguagem, trazendo um novo significado para uma expressão anteriormente unívoca, tomada apenas em seu sentido estrito:

Posto tudo isso, acho que não é possível traçar um paralelo tão próximo entre vida e futebol para considerar um metáfora do outro. Muitos são os motivos: o futebol tem tempo e espaço definidos, regras razoavelmente claras, acesso restrito, e outros que-tais. Para mim, o futebol é muito mais semelhante a uma metáfora da guerra. Eu acho isso até óbvio demais. Mas cabe explicação, e farei isso com as teses de um alemão, vejam vocês! Ninguém menos que Georg Wilhelm Friedrich Hegel, o pai do Idealismo moderno.

Nosso caro tedesco é bem conhecido. Formulou um sistema completo de Filosofia, que abarcou teoria do conhecimento, metafísica, lógica, ética e estética, entre outros, e influenciou gente à beça. Com tão vasto sistema, só posso brincar aos poucos, e me concentrarei em sua visão peculiar sobre a dialética neste texto.
A dialética sempre foi utilizada em Filosofia, lançando mão da linguagem como ferramenta para partir do particular ao universal, o que dá cientificidade ao método. Zenon, Sócrates e principalmente Platão, na sua alegoria da caverna, dão mostras de como é possível galgar uma escada em que se abandonam as imperfeições da sensibilidade para adquirir conhecimento seguro. Para Hegel, no entanto, o movimento dialético é um reflexo da própria motricidade da natureza e da história, no sentido de que um estado ou situação sempre caminha no sentido de algo que lhe opõe, e desse confronto é obtido um terceiro estado, que agrega algo de uma proposição e algo de sua negação. Este terceiro estado também é passível de uma nova negação, que gerará mais uma vez uma junção de opostos que se interpenetram, e assim por diante, ao infinito. O primeiro estado ou situação é a tese, sua negação é a antítese e o resultado de ambos é a síntese. Quando o intelecto aplica esse método na obtenção do conhecimento, nada mais faz do que plasmar um ciclo já existente em tudo ao seu redor.

Vamos dar um exemplinho rápido de procedimento dialético simples, que vi em algum livro. Interiorizei o exemplo, mas não encontro onde. Perdoe-me o autor. Em um estado absoluto, tudo é guiado pela vontade de um rei. Suas determinações podem ser justas ou não, podem se basear em seus caprichos ou na lógica, podem voltar-se para a população que rege ou exclusivamente em seu interesse. Essa é a tese. As pessoas desejam liberdade, porque não querem se submeter unicamente ao desejo régio, querem decidir suas causas coletivamente, querem escolher o que fazer da vida, sem depender de um poder central. Essa é a antítese. Pois bem. Se por um lado a tirania cria grilhões para as pessoas, a liberdade ilimitada é anárquica em seu pior sentido, porque ninguém tem garantias de que o desejo do outro não conflitará com o próprio. Para solucionar este problema, temos sua síntese: a lei. A lei impede que a tirania se estabeleça, porque dá balizas e limites ao exercício do poder. Faz o mesmo com o interesse individual, demarcando onde cada um pode chegar e o que cada um pode ou não fazer. Percebam que na lei há um elemento do absolutismo, que é sua propriedade de nada estar acima dela, mas também tem um elemento de liberdade, porque tira a coletividade do domínio da vontade de um só. E assim caminha a humanidade...
Vamos agora, e finalmente, aplicar toda essa parafernália à nossa inglória derrota. O ser humano tem algumas características básicas. Quer sobreviver instintivamente a todo o custo, quer preservar a própria espécie, vive em grupo, procura espalhar seus genes pelo mundo todo. Isso faz com que cada agrupamento procure expandir seu alcance ao maior território possível. Isso era bem simples quando o mundo era povoado por meia dúzia de tribos, mas na medida em que foram se reproduzindo mais e mais, os encontros começaram a ser inevitáveis. No dia em que o homem resolveu que queria entrar à força em um domínio alheio, nasceu a guerra. Ela esteve presente em todos os tempos, por conta dessa necessidade atávica de ampliar seus domínios. Criou armas e diversas táticas para isso, e, portanto, usou de violência e da morte em quantidades inimagináveis, por mais que a razão tentasse dissuadi-lo disso.

Acontece que as mortes geradas em uma guerra, que em última instância é uma ferramenta da preservação das espécies, vai também contrária a ela, porque se enfiar em uma aventura guerreira traz baixas para si; há sempre o risco de se perder uma batalha ou mesmo a guerra toda. Há o medo ancestral da morte, e a guerra é uma usina de morte e destruição, não só no combate direto, mas também na fome, na doença, no empobrecimento.
Temos então dois fatores que se imiscuem mutuamente. O instinto de sobrevivência traz a combatividade, mas também traz o medo da morte. Como podemos solucionar estas duas potências que tentam se anular? Como satisfazer o espírito de luta e o desejo de paz ao mesmo tempo? Qual é a síntese possível para estas duas necessidades contraditórias? Como podemos combater sem que haja perdas?

Sim, através do esporte.
Desse confronto dialético entre guerra e paz, temos o simulacro que satisfaz os desejos de combatividade e as garantias de que essa agressividade não terá como objetivo o extermínio do outro lado. E, de acordo com o meu entendimento, é no futebol que temos o exemplo mais bem acabado desta metáfora.

Não vou esgotar o assunto, mas vou exemplificar: no vôlei, no beisebol, não há contato físico; no basquete, o contato é mínimo e é repudiado quando existente; no tênis, nas lutas, na esgrima, o esporte é individual; no automobilismo, depende de máquinas; no remo, na canoagem, nas corridas atléticas, afere-se somente a velocidade ou a resistência. Já no futebol, temos um grupo grande, com funções bastante específicas (goleiro, zagueiro, atacante, armador, técnico, massagista, roupeiro, etc.). As cores do exército estão em evidência, há uma insígnia no peito e a torcida que rodeia é a população que a esquadra defende. O campo é amplo, as táticas são variadíssimas. As intempéries se fazem presentes: há jogos na chuva, no sol intenso, na noite, em dias sem umidade, até sob a neve. Joga-se na grama, na areia, no asfalto, no tablado, na terra, no cimento, no carpete. Não há riquezas – uma bola basta, com dois marcos fazendo as vezes de trave, se necessário. Não precisamos de cavalos ou iates. Há o general – o cartola; há o sargento – o técnico; há o cabo – o capitão do time; há os soldados – os jogadores. Há a retaguarda, que são o goleiro e a zaga; há a artilharia (termo militar), que é o ataque; há a reserva, que é o banco.
Aqui, temos espaço para os baixinhos e para os galalaus, para os delgados e para os espadaúdos, para os lentos e para os lépidos, até para os inábeis com força de vontade há utilidade. Vejam como é difícil uma “zebra” em qualquer esporte; só no futebol ela é frequente. É o inesperado, a força vence a inteligência e vice-versa. E, nestes caracteres todos, vemos reflexos da guerra. Só o futebol tem tantas características comuns com a guerra. Por isso, tanto somos afetados por uma derrota no futebol: é uma derrota na guerra, ainda que levada no plano do simbólico. Tanto pior na goleada acachapante. É a derrota fragorosa, algo como se todos nós fôssemos dizimados. É como se estivéssemos ameaçados de existir como nação, ou como sermos objetos de chacota para qualquer lugar que formos, de mãos amarradas, de cabeça baixa, com o chicote estalando em nossas costas, cidadãos de segunda linha – se é que mereceríamos essa denominação. Estaríamos mais próximos da escravidão e do cárcere, a nossa vergonha.

Quanto drama! Melhor que seja no esporte do que em uma guerra real. Mas dói. Principalmente quando nos consideramos melhores do que os outros.
Recomendação de leitura:
Abordei aqui apenas milimetricamente uma tese de Hegel. Para conhecer mais a fundo seu pensamento, recomendo a leitura de sua obra maior.

HEGEL, Friedrich. Fenomenologia do Espírito. São Paulo: Vozes, 2002.