Marcadores

Mostrando postagens com marcador Hermenêutica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hermenêutica. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (10 - Metafilosofia)

Olá!

Clique aqui para acessar os demais tópicos desta série

Quando falamos em Filosofia, temos em mente um termo um tanto genérico. Podemos pensar em coisas como "filosofia de vida", que indicam objetivos a serem perseguidos por uma pessoa qualquer, podemos achar que são os sistemas de relacionamentos que fazem com que as diferentes partes das corporações trabalhem em sincronia ou podemos fazer a grave confusão com a auto-ajuda. Todos esses usos são feitos de maneira permissiva, ainda que impropriamente, porque passam uma impressão inicial de "parar para pensar", que, no final das contas, está mesmo no substrato do pensamento filosófico. Portanto, passons, o negócio é tolerar para o bem do convívio. No entanto, Filosofia com "F" maiúsculo, feita a sério, não se faz a esmo, sem um mínimo de critério. Não se trata de praticar uma falácia do escocês de verdade, mas de defender uma diferença entre o uso próprio e o uso comum da palavra.

Isso porque não há uma prática da Filosofia que não olhe a si mesma como uma busca autêntica de conhecimento. Quando nossos petizes criam galos na cabeça, não estamos praticando medicina quando damos beijinhos sobre tais intumescências. Pelo contrário, fá-lo-emos se aplicarmos uma compressa sobre a lesão. Quando plantamos um vasinho de uma planta aleatória, não praticamos ecologia, mas fá-lo-emos se não comprarmos espécies em extinção. Da mesma forma, quando dizemos que pensar positivo é o segredo do sucesso não estamos praticando filosofia, mas fá-lo-emos se nos questionarmos o que é o sucesso e se ele pode ser considerado essencial à existência humana. Deu para perceber a diferença?

É justamente para que se defina o que é uma pergunta filosófica, quais são os critérios de pesquisa necessários para se estabelecerem hipóteses dignas de análise, para que se investigue o funcionamento da própria Filosofia é que nasceu a Metafilosofia, ou, em termos mais coloquiais, a Filosofia da Filosofia.



A coisa é mais ou menos assim: um mecânico hábil tem a capacidade de juntar adequadamente as peças e fazer um motor funcionar, para o gáudio do motorista inconsolável. Pode até mesmo compreender o funcionamento de tudo, sabendo com exatidão a necessidade de cada componente no conjunto. Mas é só compreendendo a totalidade de forças que atuam no ato motor, entendendo a dureza e a tenacidade dos materiais empregados, calculando giros, torques e pressões e analisando erros de projetos, fadiga dos materiais e excessos de atritos que o profissional poderá dar o salto de qualidade, melhorando a máquina. Discernir sobre isso e produzir motores melhores transformam o mecânico em engenheiro. Com a Filosofia é por aí. É preciso entender o funcionamento do conhecimento e da lógica para tratar do tema.

No fundo, é a velha questão de separar o que é conhecimento de achismo. É certo que a Filosofia possui uma ação mais livre do que a Ciência, que precisa de experimentos e provas para cumprir seu método, mas isso não significa que basta especular para filosofar. Isso é opinião, e não conhecimento. Para que a doxa se torne logos, é preciso que passe pelo crivo da lógica, sua exigência mínima. Sistemas filosóficos complexos e completos, como os de Aristóteles, Kant e Hegel foram consolidados sem provas, mas com muita coerência interna, mesmo que tenham sido várias e várias vezes refutados, já que, em Filosofia, não existem conclusões cabais.

Quando eu estava na faculdade, tinha uma disciplina que eu considerava brochante: Metodologia de Pesquisa Científica. Formatações, margens, parágrafos, bibliografia, abstracts, NBR, ABNT, isso, aquilo e o outro. Uma cagação de regras insuportável, com a necessidade de fontes a cada centímetro. Eu, louco para pôr minhas ideias e ideais no papel e o mestre perguntando: De onde você tirou essa concepção? Qual autor? Por que esse, e não aquele? Você não acha que o escopo está muito aberto? Qual obra? Qual página? Qual edição? Qual coleção? Qual tradução? Ao final das contas, não sei se convencido ou doutrinado, comecei a ser mais criterioso com essa questão de fontes. Como, modéstia à parte, comecei a ter alguns artiguinhos publicados, dois colegas de serviço me pediram para apreciar seus TCC's de especialização na área de Informática. Meu Deus, que merda completa (com todo respeito)... Um festival de informações colhidas ao léu, sem um plano diretivo, na sua maioria de buscas na internet, sem qualquer critério e lá colocadas apenas porque pareciam boas (parece aquela música do Língua de Trapo, que dizia que "esse coral não era prá ter, a gente pôs porque ficou legal"). Após um diálogo razoavelmente agressivo, forma meio torta de amizade que inclui mães e sexualidade, aceitei o desafio de fazer uma orientação informal, e a conclusão acabou sendo minimamente satisfatória, com a aprovação dos trabalhos. Mas a verdadeira satisfação foi concluir que eu peguei o espírito da coisa. Não dá para sair escrevendo com a pena solta e chamar aquilo de produção de conhecimento. É isso o que os seguidores de certos pretensos filósofos não entendem ao defender seu guru: ainda que uma ideia seja boa e inovadora, ela precisa ter um mínimo de base.

Mas, até aí, o método de pesquisa é comum a todas as disciplinas, já que qualquer trabalho digno de publicação precisa segui-lo. O diabo é que, em Filosofia, há uma segunda metodologia a ser seguida e declarada, que não se reduz aos ditames burocráticos da norma ou à profusa descrição das fontes. Foi o que nos foi ensinado em uma disciplina a parte, chamada de Metodologia da Pesquisa Filosófica, que cuida da abordagem com a qual tomamos o objeto da investigação. A pergunta guia para determinar qual método deveremos utilizar (além da evidente preferência pessoal) é a seguinte: "o que eu quero extrair desse objeto?". A resposta determinará o melhor caminho a seguir. Quero estudá-lo em si mesmo? Quero encaixá-lo no mundo que o rodeia? Quero entender o seu contexto histórico e social? Quero abordá-lo o mais cientificamente possível? Vamos dar um rápido passeio nas diferentes escolas metodológicas.

Poderíamos começar a falar em métodos filosóficos já a partir do velho Tales, que trocou a confabulação legendária por uma concepção racional dos elementos constituintes do cosmos, mas é preciso localizar os rudimentos mais formais para não nos perder em prolongadas caceteações. E que rudimentos!

Francis Bacon lança o método experimental, que vai dar base a toda filosofia de raiz empírica, e René Descartes fornece a dúvida hiperbólica, matriz de todo o seu método de verificação em quatro passos, que já esmiucei em minha teoria do gomo da mexerica, mas o fato é que, hodiernamente, os critérios e procedimentos de ambos já estão sobejamente abarcados pelas metodologias científicas consagradas. Dessa forma, é preciso dar uma olhadinha no que se aplica na pesquisa atual na academia.

Comecemos pela Fenomenologia, de quem já falei neste texto. Husserl, seu codificador, dava ênfase na posição do observador, que, através da intencionalidade de sua consciência, já voltava seu olhar para um objeto com a contaminação de uma carga de cultura. Quando analiso um pavão, por exemplo, tenho uma série de componentes simbólicos que são associados a ele, começando pelo próprio substantivo que o designa. A palavra "pavão" é desenvolvida em uma linguagem, um ato puramente cultural, e, no meu caso, em língua portuguesa. Além disso, há outras cargas que lhe são associadas, como a sua beleza natural, a utilização de suas penas em ornatos e adereços, seu rito reprodutivo, o fato de ser um dos grupos do jogo do bicho e etc. E há mais: pensamos na cultura como um todo, mas há, além disso, preferências e convicções pessoais de quem realiza a pesquisa, além de um arcabouço intelectual que varia de pesquisador para pesquisador. Dessa forma, dificilmente não há algum grau de atravessamento no modo como se observa o objeto. Na abordagem fenomenológica, tudo isso representa "cascas" que impedem a análise em profundidade do objeto pavão. A tarefa de pesquisa é fazer com que essas cascas culturais sejam removidas, na medida do possível, para que o pavãozinho seja apresentado puro à consciência. É um método interessante quando o objetivo de pesquisa for ontológico.

Outro método trilha o caminho oposto. É a Hermenêutica de Gadamer, sobre a qual também já me pronunciei. Nesta sistemática, as interveniências culturais que procuramos descartar na Fenomenologia são amplamente aproveitadas, porque o objetivo da Hermenêutica, mais do que explicar, é interpretar. Aqui, não se busca mais o isolamento do objeto. Tudo o que estiver colocado ao seu redor e que, de uma forma ou de outra ajuda a contextualizá-lo, deverá ser levado em conta pelo pesquisador. Um dos grandes cuidados da Hermenêutica está no campo da significação, ou seja, aquele pavão do exemplo precisa ser visto mais pelo seu aspecto simbólico do que concreto - interpretá-lo abstratamente e em articulação com os demais signos sociais: o que significa um pavão solto em um parque, o que representa suas penas no traje da passista, o que indica certas adaptações como o verbo "pavonear". Deve ser utilizado quando o aspecto linguístico for muito relevante na pesquisa, ou quando se queira discutir um contexto mais holístico e menos dirigido.

Temos também o método do Positivismo de Comte, também já campeado por estas plagas. O Positivismo é uma doutrina filosófica que floresceu na medida em que o pensamento empírico foi ganhando mais e mais primazia com relação ao racionalismo, principalmente por conta da visibilidade de seus resultados. Os avanços científicos obtidos a partir do século XVIII começaram a dar um estatuto de panaceia universal às ideias científicas, o que fez com que todo o conhecimento válido viesse revestido desse aspecto. No esteio dessa tendência, surgiram novas ciências, que antes ficavam adstritas à seara filosófica, como a Sociologia e a Antropologia. Dessa forma, o método positivista procura transformar todas as disciplinas filosóficas em Ciências, trazendo, tanto quanto possível, toda a especulação para o campo experimental, retirando seus aspectos metafísicos. É um método mais adequado no nascedouro de novas hipóteses científicas, onde poderão ser previstos meios empíricos para mensuração e investigação, mais ou menos como descrevi neste post.

Outra metodologia de pesquisa filosófica é a Dialética, antiquíssima, já utilizada por Sócrates e Platão, mas que, delineada como sistema, surge com Hegel, e também dela já deixei meus pitacos. Para nosso caro e complexo alemão, toda a realidade se encontra em permanente movimento, e há uma lógica que lhe dá rumo: um fenômeno qualquer já carrega em si mesmo sua própria contradição, e é na rota dela que o histórico do fenômeno se movimenta. No entanto, no meio do caminho entre essas posições antitéticas se encontra a síntese, que não tem aqui o significado de resumo mas, na verdade, uma espécie de meio-termo que dá origem a um novo fenômeno, e a outro, e outro, e outro, em um ciclo de repetições estruturais infinito, com cada ciclo enriquecendo o anterior. No que consiste esse método? Em analisar onde está cada um dos polos e detectar onde eles se sintetizam. Dessa forma, é possível descrever os processos de transformação de realidade.

Uma derivação bastante famosa da Dialética hegeliana é o Materialismo Histórico Dialético de Marx (tá aqui). O mais recente demônio que aterroriza almas e patrimônios deve ter percebido que a dinâmica por trás do movimento dialético era efetivamente um espelho da realidade, incluindo as oposições tese-antítese. O problema estava no motor dessas mudanças. Para Hegel, havia um tal de zeitgeist, o Espírito do Tempo, que fazia um polo se deslocar para o outro como um impulso de mudança, algo como as modas entre um verão e outro, ou seja, nada muito concreto. Para Marx, esta concepção estava equivocada. Havia um motor, sim, mas sob a égide de uma concepção materialista. Marx não acredita em ideias metafísicas, e, menos ainda, na existência de um Espírito Absoluto. O motor da realidade, que disparava o processo dialético, eram as condições materiais que levavam à luta de classes. Portanto, no método marxista, é preciso aferir de que maneira estão dispostos os meios materiais e perceber como isso influencia na inter-relação entre as classes sociais. O pavão que está no parque precisa ser analisado sob essa perspectiva - nos parques mais periféricos há bichos menos atraentes, ou ele está aqui porque as classes menos favorecidas não têm como vê-lo em habitat natural, para dar dois exemplos. Hegel avalia que a Dialética é a dinâmica da natureza, e a isso Marx acrescenta a mecânica da História sob a lente social. Por conta disso, os métodos dialéticos são mais apropriados quando se quer levar em consideração o tempo histórico na análise.

Já o método do Estruturalismo, consagrado por Lévi-Strauss (sim, também já falei sobre isso), procura, como o próprio nome diz, pelas estruturas fundantes de cada um dos menores atos cometidos pelos seres humanos, que, realizados em cadeia, possuem uma lógica subjacente originada justamente destas estruturas maiores, que, no seu entender, são presentes e semelhantes em todas as culturas humanas, que se aproximam entre si, ainda que revestidas de características próprias. Isso porque os estruturalistas acreditam que todas as culturas são diferentes na forma com as quais são construídas, mas, uma vez detectada sua estrutura, seu esqueleto, se verá que são todas muito semelhantes. Por exemplo: temos descrições de dilúvios universais em vários povos do Oriente Médio, incluindo a famosa narrativa bíblica, aquela do Noé e da arca. A proximidade geográfica é um bom fator aglutinante dos diferentes mitos da região mesopotâmica, mas acontece que também nas Américas há relatos de tal catástrofe, como pode ser lido no Popol Vuh dos maias. No entanto, longe de representar um efetivo cataclisma, essas narrativas denotam uma maneira universal com a qual o componente mítico explica a divindade: um ato que demonstra o poderio da deidade, sua ira e sua piedade. Esse esqueleto é praticamente igual em muitos dos mitos, e pretende estabelecer a ferramenta de poder ligada à religião - a fúria divina é devida à insubordinação humana, o que explica muito melhor a existência do mito do que um efetivo evento mundial que não consegue corroboração. A temática do dilúvio não se repete porque tenha ocorrido de fato, mas porque a estrutura por trás das sociedades faz com que esse mito seja escrito de maneira parecida e por motivos afins. E é isso o que busca este método: descascar as paredes das culturas para descobrir os pilares de sua edificação, o que o torna ótimo para pesquisas sociais e antropológicas.

Isso tudo é suficiente para demonstrar como a discussão sobre a Filosofia em si mesma é aberta e cheia de nuances. O método científico é muito mais bem delineado e dirigido: grosso modo, monta-se a hipótese e consegue-se provas. Todas as abordagens filosóficas que listei aqui, que podem inclusive ser utilizadas concomitantemente e de modo entrelaçado, e há outras ainda, são de uso corrente, o que demonstra o quanto o aprofundamento intelectual que se debruça sobre ela é intrincado e ramificado. Atentem que mesmo esta pequena série é toda metafilosófica, porque busco dar um pouco de luz às dúvidas que a galera me pede para dirimir, e vejam, no global da obra, quantas áreas são afeitas. Ponto para os filósofos, que sempre são acusados de serem viajandões a cuidarem de inutilidades. Chamem-nos assim, mas jamais de preguiçosos. Bons ventos a todos.

Recomendação de leitura:

Um bom livro para compreender a Metafilosofia e diferenciar a metodologia filosófica da científica é a obra do francês Granger:

GRANGER, Giles-Gaston. Por um Conhecimento Filosófico. Campinas: Papirus, 1989.

Já que mencionei a música do Língua de Trapo, segue abaixo sua referência completa:

LÍNGUA DE TRAPO. Régui Espiritual. In Língua de Trapo. São Paulo: Lira Paulistana, 1982.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Diário de bordo de uma nau sem rumo – 1º porto: Queluz, as ladeiras da memória

Olá!

Clique aqui para ler as outras folhas do diário de bordo

Pode parecer mentira, mas o fato é que tirei alguns dias de folga do serviço, o que é algo incrível, para quem conhece um pouco do meu quotidiano. E aproveitei para pegar a patroa e rodar mundo afora. Falando assim, dá a impressão que velejamos por verdes mares, planamos por céus de brigadeiro (a patente, não o doce) ou refizemos as trilhas dos primeiros missionários neste indômito país tupiniquim. Bem, não é verdade. Orçamento malvadamente estreito, limitamo-nos a trafegar por algumas pequenas cidades do próprio estado de São Paulo, indo de uma a outra a esmo, decidindo na hora onde passaríamos as noites e onde nossos vorazes apetites seriam saciados. Em suma, uma versão pós-moderna e motorizada dos mochileiros de ontem e hoje.
O objetivo do rolê era realmente dar uma descansada nos mal articulados ossos, mas a Filosofia é danadinha. Em cada objeto, em cada costume, em cada tradição, em cada história e em cada pessoa há um pequeno vento que quer fazer com que as asas da coruja de Minerva se abram, e seus olhos se agucem para a caça. Por conta disso, essa turnê não foi meramente turística, mas caiu também no escopo histórico-filosófico, e tive a ideia de narrar as minhas passagens juntamente às impressões e pensamentos que cada uma delas disparou em mim. Vamos nessa, é justo e necessário.
Havia já algum tempo que a cara-metade queria conhecer a cidade de Queluz, um tanto próxima da capital (220 Km, mais ou menos) e com pouco mais de 10.000 habitantes. Pequena, ora pois. Decidimos começar por lá nosso périplo, e depois veríamos o que fazer.
Queluz é a última cidade do estado de São Paulo antes de entrar no Rio de Janeiro pela via Dutra (BR-116), e fica encravada entre a serra da Mantiqueira e a serra da Bocaina, sendo a primeira cidade do chamado Vale Histórico, que, na verdade, é composto por uma pequena série de cidades que ficaram perdidas e com o progresso detido após a estrada que as enfileiram (Rodovia dos Tropeiros, antigo caminho de São Paulo para o Rio de Janeiro) deixar de ser um rumo entre as duas principais metrópoles do país. A sensação de que o tempo parou é real.
Queluz tem muito daquilo que é o padrão do que sabemos que vamos encontrar em uma cidade do interior, a começar pela igrejona de estilo barroco na praça central, muito embora, no caso, a igreja de São João Batista não esteja propriamente na região mais movimentada da cidade, mas em um dos seus incontáveis morros.

A cidade faz parte da riquíssima (mas não aqui) região do Vale do Paraíba, que tem esse nome por conta do rio que a atravessa de fora a fora, o Paraíba do Sul. Em Queluz, ele é presença constante e representa uma linha divisória. Toda a área urbana está construída em suas margens. Não chega a cheirar mal, mas infelizmente está já bem poluído neste pedaço.

Duas são as atividades básicas, pelo que pude perceber. O artesanato, baseado na confecção de peças em palha, taboa e couro, e a extração de madeira. A primeira é feita nas casas e galpões, de modo totalmente manual.

É bastante interessante verificar como o ser humano é dotado de paciência para ficar horas e mais horas manipulando as fibras para tecer uma intrincada trama que, no fim, vai lhe render meia dúzia de trocados.

 

A outra atividade, a extração de eucaliptos, tem uma história mais triste, que ficamos conhecendo com o depoimento que a coleguinha professora Heloísa Helena (nada a ver com a ex-candidata à Presidência) deu a nós. A área rural do município era, no passado, fartamente aproveitada por fazendas de café. Com o aumento da produtividade e a migração da produção para outros lugares, como o Oeste Paulista ou o sul de Minas Gerais, as terras passaram a ser ocupadas por plantações de eucalipto, utilizados pela indústria madeireira. Isso, por si só, não seria o grande problema. Mas o centro histórico da cidade passou a ser cada vez mais trafegado por enormes caminhões e treminhões. Evidentemente, as casinhas de taipa de pilão e pau-a-pique começaram a ser grandemente danificadas, e a sua manutenção tornou-se praticamente impossível. A cidade vive hoje em uma guerra judicial para que os caminhões acessem a via Dutra através da Rodovia dos Tropeiros, mas as empresas não querem aumentar o trajeto, o que tal medida obrigaria. Enquanto isso, um importante legado dos áureos tempos em que a cidade era parte da Estrada Real que levava das Minas Gerais à sede do império vai se tornando cada vez mais depreciado.

Uma boa parte do casario continua em bom estado, e tenho notícias de que este setor da cidade é eventualmente utilizado para gravações de filmes e novelas em que se quer retratar a época áurea das cidades cafeeiras do princípio do século passado...

 

... mas o fato é que os sinais de decadência são mais claros. Um deles é a sede da ainda existente banda Lira Queluzense, que vem lutando arduamente para manter sua sobrevivência. As marcas de degradação estão muito acentuadas no belo, porém simples prédio que abriga a corporação. É localizada em uma rua estreita e bastante tranquila, mas digna de meter medo em nós, assustadiços paulistanos. Imagine-se andando em uma travessinha dessas à meia-noite:


Mais grave é a situação do já desativado prédio da fábrica de laticínios Vigor, da qual restam poucas identificações. Aliás, para saber do que se tratava o prédio, precisei me socorrer da memória de seus moradores mais antigos, que contaram o quanto o encerramento das atividades desta fábrica levou de empregos embora.




Exemplo de um final um pouco mais feliz se deu com a antiga estação ferroviária, com o aproveitamento do espaço para a instalação de um centro de referência para idosos e de uma escola técnica. Obviamente, por se tratar de um equipamento público, a migração de funções se deu com mais facilidade, mas eu pude constatar o quanto a intensidade do tráfego de caminhões é nociva para estas construções antigas: o reboco é repleto de rachaduras e há fuligem para todos os cantos onde a mão alcança. Apesar da foto um tanto infeliz, é possível perceber a quantidade de remendos feitos nas paredes.

 
Mas o que minha mente mais vinculou à cidade é a quantidade de ladeiras. As casas estão distribuídas em região montanhosa, e, como é fácil supor, dão-nos conta da engenhosidade humana no quesito adaptação ao ambiente disponível. A ladeira da foto abaixo é a que leva da margem do rio ao largo da Matriz. Percebam que minha pouca coordenação motora fez com que o enquadramento esteja levemente inclinado. A ladeira é ainda mais íngreme!

Já as fotos abaixo mostram o aclive que leva a uma vila de artesãos. A primeira tem uma escada auxiliar para os transeuntes mais claudicantes evitarem quedas e rolagens diversas...

 
... enquanto a segunda exibe a pirambeira que leva à região central. Perceba-se que o calçamento mais ao alto (da ladeira, não da foto) utiliza pedras irregulares, mais antigas que os macadames visíveis apenas em um pequeno trecho do leito carroçável.

 

E entre essas ladeiras encontramos a grande riqueza da cidade: sua memória. De todas as que visitei nessa viagem, é a que mais está impregnada de história, e talvez é a que mais tenha sentido o impacto da desconstrução de seu passado.
A memória é uma coisa danada. Ela é o grande componente da identidade, e sua perda faz com que nunca mais saibamos explicar o que somos hoje. Cada fator que vivenciamos é um tijolinho na imensa construção de nossa história. Veja o que acontece com as pessoas que sofrem do mal de Alzheimer: são seres que, apesar da presença física e da manutenção das funções fisiológicas, não existem mais. Deixaram de ser a si mesmas, porque o passado e seus vínculos lhe fugiram. Os parentes, os lugares, as experiências... tudo se vai. Por isso mesmo, é uma das doenças mais tristes que existem.

O mesmo se aplica a uma cidade. Cada pequena lembrança ajuda a compreender o que ela é. Nossas cidades, sejam grandes ou pequenas, parecem viver em amnésia. Isso se aplica a Queluz, a São Paulo, ao Rio, até mesmo a cidades mais novas, como Brasília. Quando se decidiu construir a capital no Planalto, será que houve a devida preocupação em manter um registro digno de tudo o que se desenvolveu naquela região antes da guinada radical que foi dada em seu destino? Se a história de cada um é dinâmica, como poderemos revisitar o que nos tornou o que somos, se nem ao menos temos o quê olhar para trás?
E nisso entramos em Gadamer.

Hans-Georg Gadamer foi um filósofo alemão que se dedicou à interpretação e reinterpretação da história. Para tanto, lançou-se profundamente na hermenêutica, atividade que pretende compreender a realidade contida nos textos, expressos eles de modo escrito, verbal ou visual.
A hermenêutica já não era novidade no começo do século XX, época em que Gadamer deu seus sábios pitacos. Ela era (e ainda é) largamente usada pelos teólogos para buscar entender e traduzir os textos sagrados de suas religiões, bem como pelos doutores de Direito e causídicos em geral, para procurar absorver o sentido que os legisladores desejavam que fosse dado às suas sistematizações. A grande novidade de Gadamer é entendê-la como uma técnica de constante renovação, e a conclusão de que nenhuma interpretação é definitiva. A hermenêutica é cíclica. Cada interpretação comporta uma reinterpretação, e esta comporta outra, e mais outra, e outra ainda.
Esse processo se dá porque ninguém interpreta o mundo de forma totalmente isenta. Estamos imbuídos de todas as recordações e memórias que constroem nossos julgamentos, conceitos, juízos. Esses componentes moldam nossa forma de interpretar.
Dessa forma, a interpretação se dá em forma de “choques”. Na primeira vez que deparamos com um texto, por exemplo, este nos demanda a busca de um sentido que vamos montar com base no nosso conhecimento presente. Quando retomamos o texto, sentimos que a interpretação já não é a mesma, somos impelidos a rever a interpretação porque nosso equipamento cultural já está modificado. A cada novo conceito, novo juízo, novo entendimento, vem-nos a necessidade de mudar nosso relacionamento com ele. Passamos a dialogar com o texto e com a interpretação que demos a ele.
Isso acontece porque a cada nova apreensão que recebemos do mundo, modificamos conceitos e a nós mesmos, o que comporta uma auto-reinterpretação. O homem cresce sobre si mesmo cada vez que se reinterpreta. E reinterpretar-se significa reinterpretar o mundo.
Vou dar um exemplinho pessoal. Nos tempos em que eu trabalhava na indústria farmacêutica, conheci um homem que era muito malquisto por praticamente todos os colegas, eu inclusive. Não vou citar seu nome, não é relevante. Era um cara arredio, resmungão, chato de lidar. Uma pessoa de quem todos desconfiavam muito, porque tinha atitudes estranhas para quem convivia com um grupo. Um cara pernóstico, arrogante, cheio de bazófia e má vontade. Se nesse momento eu me lançasse a escrever uma crônica sobre nosso pobre-diabo, fatalmente eu o desancaria. Provavelmente diria que era uma má companhia, que era ensimesmado porque queria deter para si informações importantes e outras balelas.
Acontece que o tempo passou e eu, quase que por acaso, acabei tendo informações mais significativas sobre sua vida pessoal. Fiquei sabendo que ele adotou uma criança com seriíssimos problemas cerebrais, que a faziam viver como um legume, e que essa criança cresceu e se tornou um homem na faixa dos 30 anos. Fiquei sabendo que ele adotou essa criança livremente, e que já sabia de todos os percalços pelos quais passaria. Fiquei sabendo que ele cuidava pessoalmente de toda a higiene pessoal do filho adotivo, porque era o único da casa que tinha força suficiente para carregá-lo de um lado para o outro. Fiquei sabendo que não havia nenhum tipo de esperança de que o menino se tornaria uma pessoa normal (de acordo com as convenções), que para sempre seria incomunicável, não andaria, não reconheceria os pais e os familiares. E fiquei sabendo, principalmente, que ele ensinou seus filhos legítimos, mais novos que este adotivo, a amá-lo como um legítimo irmão. Conheci ambos os filhos de sangue, e, de fato, falavam do irmão mais velho com carinho.
Meu choque: a vergonha que senti no meu pré-julgamento. A consequência: uma completa reinterpretação do que eu pensava sobre o meu colega. Agora ele já não era um cara fechado, mas sim um homem amargurado. Ele não era mais um reclamão: era um homem que se sentia fisicamente cansado pelo peso literal que tinha a carregar. Nunca mais pude vê-lo com a repugnância inicial.
Era mais ou menos isso o que Gadamer queria dizer com a reinterpretação contínua que a hermenêutica deve cuidar. Um entendimento está sempre eivado de nossas convicções, e, na medida em que estas mudam, também são modificadas as balizas que dão base às nossas interpretações. E aí nós temos a pedra de toque gadameriana: a hermenêutica deve ser histórica, deve mudar com a nossa história.
É assim que vi Queluz, e espero rever. Ela contém em si sua interpretação e sua reinterpretação, porque tem a história escrita em seu espaço físico. Quem olha para seu casario baixo e antigo, entende-a de uma forma. Quem percebe os amplos espaços vazios e economia pobre, modifica seu entendimento e já a vê diferentemente. Olha para o alto de suas colinas, sente uma indefinição em seu futuro e traz um novo elemento para compreendê-la. Faz-nos sentir como uma parte da aventura humana inserido em outra parte da aventura universal. A história não nos pertence; nós pertencemos a ela. Assim ensina o mestre.

Recomendações de leitura:

Gadamer dá à hermenêutica um aspecto inédito, ao estabelecer a coerência entre os juízos e os momentos históricos do sujeito interpretador e do objeto interpretado. Sua obra mais interessante é a seguinte:

GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método. Petrópolis: Vozes, 1997.