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terça-feira, 8 de setembro de 2026

As fronteiras entre a sensibilidade e a intelecção no mundo de Platão – parte 3 (Santo Agostinho e a conversão das ideias divinas)

(As ideias de Platão não pararam nele mesmo, sendo que um dos seus grandes adaptadores foi Santo Agostinho)

“Pois as ideias são certas formas principais, ou razões estáveis e imutáveis das coisas, que elas mesmas não foram formadas e por isso são eternas e se mantêm sempre do mesmo modo, e que estão contidas na inteligência divina”

Santo Agostinho

Olá!

Esta não é uma série, mas um texto gigante que eu quebrei em três. Propus-me a descrever sinteticamente a teoria das formas de Platão, que durante a existência deste blog menciono à beça, mas essa é uma intenção que não se materializa, porque simplicidade não existe no mestre grego, razão pela qual, para não exceder o limite da chatice, resolvi particionar em módulos mais ou menos concisos e coerentes. Vamos ver o que vocês acham.

Primeira parte – a segunda navegação

Segunda parte – o Demiurgo

Existe uma lei fundamental da física que diz o seguinte: no universo nada se cria e nada se perde, tudo se transforma. É o princípio de Lavoisier, que pode ser percebido em qualquer fenômeno natural. O que se acha que é perdido, na verdade, é disperso ou vira outra coisa, muitas vezes de modo pouco perceptível, e se espalha até chegar em pequenos planetinhas azuis, como o nosso. Se caminhar pelas sendas do jocoso, chegaremos a uma espécie de corolário torto na voz do Chacrinha, o apresentador popular que fez muito sucesso entre as décadas de 50 e 80, como podem atestar seus pais e avós: nada de cria, tudo se copia. Como faria Nietzsche, não podemos tomar essa assertiva como verdade absoluta, mas que lhe assiste um fundo de razão…ah, isso há mesmo.

A questão é que isso não é obrigatoriamente ruim. Um corpus de ideias, por exemplo, pode ser aproveitado e transformado em outro, como se o anterior passasse a dica para o mais novo. É algo assim que aconteceu com a adaptação que Santo Agostinho fez com as ideias platônicas, o que, de certa forma, ajudou a consolidar o conhecimento que temos do mestre grego. Aliás, foi sob sua perspectiva que as ideias platônicas foram mais trazidas para a realidade do ocidente.

O Cristianismo adentrava seu quarto século de existência em uma posição que nunca tivera antes: a de religião oficial do Império Romano, posição obtida, com leves estrépitos, desde que o imperador Teodósio publicou o Édito de Tessalônica. Até então, vivia entre ameaças de expurgos e intervalos incertos de calmaria, de modo que seu interesse único era de sobrevivência. A partir da pacificação, foi possível organizar as ideias e se delinear um efetivo corpo filosófico de fundo, ou seja, o que fundamenta e dá substância àquilo em que se acredita.

Era evidente que o Judaísmo originário já devia lhe oferecer uma boa quantidade de doutrinas fundamentais, mas também era evidente que um bom pacote de mudanças precisava ser sistematizado, senão, ora essa, seria ainda o velho Judaísmo. Embora alguns concílios esparsos tenham dado algumas balizas iniciais, não se tinha um direcionamento filosófico mais preciso, que pudesse fundamentar o que se pensavam ser fatos divinos. Esses primeiros pensadores buscavam conciliar filosofia com teologia, ou seja, dar fundamento filosófico ao Cristianismo nascente e estudar mais acuradamente o fenômeno divino. Receberam o nome de Padres da Igreja, não porque fossem sacerdotes de fato (quase sempre eram), mas porque eram “pais” da intelectualidade primordial. Eram caracterizados por constituir a ortodoxia inicial, especialmente pelo combate às heresias – consideradas divergências que levariam à incorrência de erros doutrinários. Essa corrente foi, por conta desse termo, denominada Patrística.

O mais proeminente desses pensadores foi Santo Agostinho, bispo de Hipona, no norte da África. Já dono de um vasto repertório filosófico antes de sua conversão ao Cristianismo, o númida fez uma complexa adaptação das teorias de Platão, ajudando, inclusive, a dissolver algumas das aporias que elas carregavam. 

A metafísica de Platão se fundava em uma característica dualista. A realidade não estaria concentrada apenas no plano físico, dominado pelas imperfeições e apreendido pelos sentidos, mas também em uma dimensão inteligível, onde seria possível, através do exercício intelectual, chegar às formas ideais. Mas havia uma questão que ficou meio pendurada em uma explicação um tanto cambaia, que obrigatoriamente carregava um misticismo que fugia do autêntico espírito racional platônico. Não se consegue definir muito bem o que seria uma alegoria e o que seria efetivamente uma explicação definitiva. Trata-se da figura do Demiurgo.

Em rápidas palavras, o Demiurgo é uma divindade que fica em um caminho intermediário entre a sensibilidade e a intelecção, e sua grande tarefa é plasmar as formas perfeitas do Hiperurânio no universo sensível que nós tão bem conhecemos. O grande problema do Demiurgo é que ele não é onipotente, onisciente, onipresente, onibenevolente, oni-os-cambau, mas limitado em sua ação, tanto na utilização das formas, quanto na aplicação dos objetos.

Quais são estes limites? O Demiurgo trabalha com dois elementos que estão fora do seu pleno controle. O primeiro está acima dele, e é exatamente o Mundo das Ideias, já que ele as capta, mas não as cria. Não sendo um senhor absoluto, ele fica condicionado à preexistência de uma forma para dar ato ao seu labor. E o segundo, que está abaixo dele, são as limitações materiais da matéria amorfa que tem para lidar. Pensem naquelas gelecas infantis e tente fazer algo minimamente consistente: é uma má comparação do que há à disposição do Demiurgo para moldar o universo, e não dá bom – um objeto nunca é a reprodução exata de uma ideia. Dessa forma, mesmo movido pela ideia de que faz as materializações em nome do Bem, racional e livremente, é uma atividade de artífice, não de criador.

A transformação agostiniana se dará pela compreensão de uma via adicional da derivação de uma coisa em outra. Para o bispo, são três as possibilidades de que surjam realidades. A primeira é a geração, num processo óbvio: é de uma semente que surge uma flor, de um pai que surge um filho, onde há a doação de substância de um ser que a repassa a outro. A segunda é a fabricação, exatamente o que faz o Demiurgo: a partir de uma matéria-prima externa ao artífice é produzido um artefato, como qualquer peça ou artesanato manufaturados por mãos humanas. A terceira via é a da criação a partir do nada absoluto, dito ex nihilo em latim, que independe de qualquer preexistência, seja de uma unidade geradora ou fabricadora. Desta forma, sem necessitar de uma doação de si mesmo ou de manipulação de matéria externa, a criação é a premissa absoluta para explicar o surgimento do mundo sensível. É um conceito ligado diretamente à infinitude divina, porque há um salto causal na questão da preexistência, que, uma vez levada à regressão infinita, sempre necessitaria de uma causa original, o que se torna dispensável quando se obtém algo ex nihilo sui et subiecti, ou seja, a partir do nada, de si mesmo e do sujeito – da própria substância ou de substância alheia.

Mas o universo sensível permanece sendo imperfeito. Isso ocorre porque, em oposição à eternidade e imutabilidade de Deus, a obra criada degenera. Se as criaturas guardassem as mesmas características de Deus, seriam elas mesmas Deus, o que é absurdo. Portanto, elas possuem mutabilidade e limitações, embora, na composição do todo universal, elas representem a harmonia universal exatamente em suas imperfeições.

Notem que o encaixe é bastante confortável. Platão relaciona o Uno ao Bem, o que é facilmente acomodável com o conceito de um deus benevolente e que por motu proprio decide transpor sua perfeição ao universo palpável. Também com a solução do Uno, vem a concepção agostiniana de tempo. Como Deus é um Ser eterno, ele se desconecta da questão temporal, porque a justificativa para sua eternidade é exatamente a ausência de dependência de movimento. Sendo eternamente igual a si mesmo, o tempo vem como sustentação do movimento, desnecessária para Deus, mas imprescindível para os objetos criados, que não são eternos. Assim, juntamente com o restante do universo, Deus cria também o tempo.

Resta dimensionar o papel das ideias platônicas nos conceitos agostinianos. Como sabemos, Platão diferencia o mundo sensível do inteligível, de maneira a apartar um do outro. As fabricações do artífice, o Demiurgo, são reproduções imperfeitas do Mundo das Ideias por conta das limitações do material com o qual nossa aflita divindade precisa lidar. Ele lança mão das ideias existentes no Hiperurânio para as plasmar para que nós, caniços pensantes, possamos divertir nossas sensibilidades. O processo em Santo Agostinho é o mesmo? Quase isso, mas tem várias sutilezas.

Em primeiro lugar, o Mundo da Ideias platônico, o repositório de onde o Demiurgo retira as formas para as traduzir em objetos sensíveis é, em Santo Agostinho, transferido para a mente de Deus. De fato, o pensador de Tagaste concorda com Platão no sentido de que é incabível haver ideias únicas, porque não há como conceber, em seu próprio exemplo, que a ideia de homem e de cavalo tenham sido concebidas pelos mesmos princípios racionais. Isso indica que, estruturalmente, os conceitos de ideias em Platão encontram identidade com o Mundo das Ideias divinas de Agostinho, com a diferença de que não há instâncias distintas que criam as Ideias e que as plasmam na realidade, como acontece com o universo platônico. Mas não se trata de uma simples substituição, e sim por uma concepção que guarda sua originalidade.

Segundo pensava Agostinho, a criação divina não se dá aos poucos, mas toda ao mesmo tempo, junto com o tempo, com a racionalidade, com a lógica e tudo o mais que se pode perceber no universo sensível. Mas o fato concreto é que vemos o surgimento constante de novos objetos e novas vidas que nunca havíamos registrado anteriormente. Isso contradiz a ponderação de que tudo tenha sido criado concomitantemente.

A resposta está na forma de razão seminal. Segundo pensa Agostinho, no momento da criação, ao lado de tudo o que se construiu naquele momento, também foram criadas as possibilidades para que tudo o mais que pudesse surgir no universo tivesse “sementes” preestabelecidas que determinariam como esses objetos vão ser. Sendo assim, essa razão seminal é o que estabelece que de pássaros não nascerão lagartos. É uma potencialidade ativa que permite que o universo e a história tenham surgido no princípio dos tempos, ainda que só vejam a luz no seu momento certo, provocada pela movimentação da realidade.

Sendo assim, embora a criação tenha se dado toda de forma simultânea, ela não se concretizou toda instantaneamente. Além dos efetivos fenômenos, vieram juntas as infinitas possibilidades de concretização, o que explica toda a variabilidade que conseguimos observar na natureza. Não somente está colocado o mundo concreto, mas a totalidade do tempo, com tudo o que existiu, existe e existirá.

No final das contas, fico pensando se Santo Agostinho não faz um gigantesco ad hoc para forçar uma lógica teísta onde ela não existe. Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que ele vasculha nos gregos, cultura preponderante há pouco (no seu momento histórico) e de onde se poderia extrair ideias que já fossem boas o suficiente, ao invés de ficar maquinando todo um sentido complexo, e, no mais, o faz à luz de sua fé, o que não é condenável por si só. Eu mesmo já achei ótimas teses, principalmente porque incluíam parcelas importantes de um pensamento que precisava incluir uma divindade nas engrenagens universais, e isso é muito bem-feito pelo santo. E também não devemos esquecer que ele não está revertendo teses eminentemente científicas em uma nova teologia, em especial pelo fato de que Platão não prescinde de deidades para arquitetar sua teoria do conhecimento, e, com isso, a adaptação de Santo Agostinho nada mais faz do que adaptá-las (e aperfeiçoá-las em certo sentido) à sua fé, ao que ele acreditava e precisava de justificação. Não é preciso concordar, apenas compreender. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Este é um endereço eletrônico onde se pode encontrar os principais tópicos agostinianos relativos à sua epistemologia:

AGOSTINHO, Santo. Oitenta e Três Questões Diversas. Disponível em: https://www.liriocatolico.com.br/santo_agostinho/obras/exegeticas/83_questoes/apresentacao/ Acesso em 05.09.2026.



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