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quinta-feira, 28 de março de 2019

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (25 – Psicologia)

Olá!


Uns tempos atrás, comecei a sentir engulhos recorrentes. Não chegava a ser aquelas ânsias com iminência de se botar os bofes para fora, mas um enjoo constante, que tirava o ânimo de comer até a porcaria mais apetitosa. Era uma coisa estranha, imotivada. Cheguei a perder uns bons quilinhos com a brincadeira, mas era preciso fazer alguma coisa. A princípio, lembrei que havia trocado de medicamentos para a diabete, e talvez a resposta viesse por aí. A médica dra. Ana Júlia achou improvável, mas, de toda forma, eu podia voltar às mezinhas anteriores, com a recomendação de procurar um gastro. Não deu certo, nem um, nem outro. Os engulhos continuavam, e a consulta só para trinta dias. Havia uma sobrevivência a ser tentada, e o jeito foi apelar para uma dieta à base de legumes e verduras sem tempero. Melhorei bastante, mas o desconforto voltava ocasionalmente, de maneira especial pela manhã, rumo ao batente.

Dia desses, eu estava perfeitamente bem, quando chega a ligação, lá pelo meio da tarde: reunião urgente, traga relatórios, mas eu não tenho, se vira, a chapa tá quente. Foi automático, ou melhor, somático. O enjoo voltou na hora, como se eu tivesse tomado um litro de chá de louro. Daí por diante, foi possível estabelecer todas as correlações que levavam à suposta patologia – acúmulo de stress, derivado da tensão no trabalho. A recomendação médica foi o mesmíssimo Plasil© que eu vinha tomando para controlar a náusea, tirar um bom período de férias e procurar um psicólogo. Na prática, como bom assalariado, só cumpri a primeira, com a promessa interior de me desligar o tanto quanto possível do mundo laborativo.

Essas ocorrências ajudam a reforçar algumas lições que aprendemos no curso da vida, especialmente em momentos nos quais nosso ímpeto por descobertas nos faz tirar conclusões apressadas e equivocadas, na maioria das vezes. Lembro-me muito bem do quanto eu ridicularizava a profissão de psicólogo, dizendo que quem se dispunha a estudar a matéria o fazia por ter conflitos interiores a resolver. Em outras palavras, o psicólogo tinha problemas psicológicos. É o que dá acreditar em estereótipos: o audiente soturno instalado atrás do divã, que parece pensar na janta enquanto o paciente verbaliza seus mais inconfessáveis recônditos da memória. A história da pessoa que se interessa por Psicologia por ter problemas psicológicos é uma das mais retumbantes bobagens que eu já pensei na minha vida. Afinal de contas, não é a dor de dente que leva ao interesse pela Odontologia, nem o carro quebrado pela Engenharia, mas uma inclinação a conhecer mais e melhor cada uma dessas áreas, a entender com mais propriedade um conhecimento específico, ao qual tínhamos uma predisposição mais sólida. É a mesma coisa comigo: eu não estudei Filosofia porque sou um lunático que passa o dia inteiro ensimesmado, pensando sobre o Ser e o não-Ser (chavão primeiro – mais clássico), ou um esquerdista petista comunista gayzista do globalismo muçulmano-gramsciano empunhando bandeiras vermelhas para dominar o mundo (chavão segundo – mais recente), mas pura e simplesmente porque gosto de Filosofia, punto e finito. O mesmo se aplica ao psicólogo, que não é um louco que procura se entender, mas um profissional que tem um campo de estudo como outro qualquer. Vamos entender, então, o que é essa tal de Psicologia.



Vocês que me acompanham com alguma frequência já leram inúmeras vezes textos nos quais eu me refiro a autores da Psicologia. Isto se dá pela estreita ligação que esta guarda com a Filosofia, talvez até mais que outras ciências em geral. De fato, é meio difícil discernir até onde vai a Gnosiologia e a Epistemologia, áreas filosóficas, transitando pela Filosofia da Mente, e onde começa a Psicologia, linha muito borrada que divide áreas interpenetradas. Gente importante, como o neurocientista Michael Gazzaniga (de quem lancei mão neste texto), considera que, à medida que o conhecimento sobre os processos fisiológicos nervosos avançarem, a Psicologia mais e mais será arremessada ao campo da pseudociência; não como uma simples crendice, mas como registro histórico superado, assim como a alquimia ajudou a química moderna a se estabelecer, para depois sair de cena.

Verdade é que a profecia de Gazzaniga parece exagerada e ainda vai longe de se cumprir. Os processos mentais são muitíssimo subjetivos, partindo da premissa que temos instrumentos que medem a temperatura, a pressão e o fluxo elétrico do cérebro, mas não há uma maquininha que reproduza as imagens que lá transcorrem. Dessa forma, o que temos ao nosso dispor são as interpretações, que passam pela capacidade descritiva de quem tem as impressões e pelo discernimento de quem as recebe. É tudo muito subjetivo para passar pelo filtro científico. Ou não?

É nesse ponto que a Psicologia difere da Filosofia: na obtenção dos resultados. A Filosofia não tem o compromisso de chegar a resultados empiricamente observáveis e mensuráveis, apenas de se manter em uma linha de lógica e racionalidade. Quando acontece uma eventual comprovação, a Filosofia vira Ciência, como tantas vezes já aconteceu na história. A Psicologia lida com disciplina que a arrasta bastante para o campo especulativo, já que, como falamos, é muito difícil traduzir com precisão os fenômenos mentais. No entanto, se eu não consigo “ler a mente” de um contribuinte qualquer, ainda me resta alguns métodos indiretos – observar os resultados das pesquisas que explicam os processos mentais, especialmente quando estendidas a um volume considerável de análises. Desse viés empírico, é possível medir a cientificidade da Psicologia. Em primeiro lugar, ela tem um objeto claro de estudo: as funções mentais. Esse estudo é feito de maneira racional, desconsiderando instâncias metafísicas que não possam ser experimentadas. Também possui métodos bem definidos, incluindo o estudo de casos clínicos, estatísticas, comparativos e etiologia; do bojo de suas hipóteses é possível estabelecer sistemas teóricos que permitem fazer previsões, que, por sua vez, tem resultados verificáveis. E, o mais importante de tudo, na medida em que uma afirmação é falseável, ela passa pela principal premissa do método científico. E estes dois últimos itens a diferenciam da Filosofia e a enquadram como Ciência. Simples assim.

Mas a Psicologia está no âmbito das Ciências Humanas, o que a coloca naqueles perigosos pântanos de discussão infinita. Ela não é tão afiliada à Matemática como a Física e a Química, que são mais redutíveis a fórmulas. Justamente por não lidar com um campo de estudo facilmente delineável, e por não ter bases unanimemente aceitas, a Psicologia trabalha com várias abordagens diferentes, o que faz um candidato à carreira ficar maluco (epa!) na escolha de sua filosofia de trabalho. Ora voltada para o funcionamento mental, ora para as suas manifestações, a Psicologia se origina de um tempo bem recente, nos fins do século XIX, quando Wilhelm Wundt lança as bases do estudo dos fenômenos que intermedeiam a natureza e a cultura, ou seja, como o homem atua no mundo e por quais motivos o faz. Seu nome significa “estudo do pensamento”, já que o termo grego psiqué significa alma, que, para aquele povo, era a sede dos pensamentos. Daí por diante, as escolas de Psicologia foram variando, tanto no tempo quanto no enfoque, e nós vamos falar rapidamente sobre as principais. Como já falei sobre várias delas em meu post sobre Filosofia da Educação, a pincelada será rápida.

Em um momento onde se convenceu da necessidade de se estudar a Psicologia, surge a primeira e mais fundamental de todas as perguntas: o que é a mente e como ela se organiza? Dada sua inegável complexidade, a mente se erige em uma estrutura, onde estão compartimentalizados os seus diferentes componentes. Neste momento, a preocupação da investigação científica está no funcionamento dos processos de consciência, como, por exemplo, como o indivíduo se reconhece em meio ao mundo no qual habita; nas memórias, seu armazenamento e resgate; na intencionalidade, ou seja, no modo como a mente volta sua atenção a um objeto; nas emoções e no próprio conteúdo dos pensamentos. Em síntese, a Psicologia tem uma orientação inicial de procurar o “esqueleto do prédio” mental, e por esse motivo essa escola ficou conhecida como Estruturalismo. Sua principal ferramenta era a introspecção, que é a observação dos fenômenos mentais do próprio pesquisador. Como esse método tem uma carga de subjetividade muito alta, esta escola teve muita resistência em ter reconhecimento como científica, embora adotasse uma prática laboratorial onde resultados eram coligidos e comparados.

Uma alternativa ao Estruturalismo veio com o Funcionalismo. Nessa linha de pensamento, a mente é investigada como um órgão do corpo. Da mesma forma que os pulmões realizam trocas gasosas, o estômago processa alimentos e a bexiga armazena e retém urina, a mente também possui uma especificidade para o conjunto harmônico do organismo, ou seja, uma função. Fortemente ligada à Teoria da Evolução, o grande interesse desta corrente estava no estudo dos processos psíquicos como ferramentas de adaptação ao meio, ou seja, como a mente fazia para realizar interações que lhe garantiriam não só a sobrevivência, mas maneiras melhores de viver. Dessa forma, o Funcionalismo já não se mostra muito preocupado com o trabalho interno da mente, mas em como o restante do organismo reage à sua função. Essa exterioridade do objeto de pesquisa a tornou muito mais objetiva que o Estruturalismo, e compôs a alternativa que veio a abrir os dois ramos que vieram daí para frente: um foco nos processos internos era derivado do Estruturalismo; nas manifestações exteriores, por sua vez, do Funcionalismo.

Mas a primeira grande escola a causar real burburinho nos meios acadêmicos foi o Behaviorismo, termo derivado do inglês behavior, que significa comportamento. Da mesma maneira que o Funcionalismo, os processos subjetivos estão fora do campo de interesse dos behavioristas, que se ocupam essencialmente do estudo dos comportamentos humanos. A mecânica básica é a investigação de como alguém responde a um estímulo, e como o faz quando este for positivo ou negativo. A grande linha de pesquisa do Behaviorismo foi também sua maior polêmica. Como uma pessoa reage a estímulos, é possível conduzir sua personalidade a um caminho determinado. Isso dá muita margem a manipulações, que vão desde uma simples chantagem emocional até a implantação de reforços ideológicos. Que medo!

Ao lado do estudo comportamental, nasceu na Europa a corrente que talvez seja a mais célebre desta ciência: a Psicanálise. Bebendo na fonte do Estruturalismo, e ainda mais subjetivo que este, os psicanalistas se aprofundaram nos recônditos da alma humana, para descobrir que a consciência nada mais era do que o aspecto perceptível de um arcabouço muito maior, que fugia do controle do indivíduo. A Psicanálise tinha um foco essencialmente terapêutico: essa abordagem construía suas teses principalmente sobre as patologias psíquicas. Fortissimamente calcada em ponderações filosóficas, a Psicanálise sempre teve dificuldades em convencer a academia de sua plena cientificidade, embora possua amplo cabedal de casos clínicos para apresentar como patrimônio empírico e experimental. É da sua formulação de escuta que nasceu o grande clichê do divã e do bloquinho.

Outra corrente de origem europeia veio trazer mais luzes sobre a interação do homem com o ambiente. Fundamentada na Fenomenologia, a Gestalt estuda a forma com a qual o mundo se apresenta à nossa consciência, ou seja, o núcleo de sua atenção está na percepção. Gestalt significa algo como “configuração” em alemão, e ela diz que nos apercebemos da realidade sempre como um todo, sendo que as partes isoladas possuem menos significado do que como participantes da totalidade. Nossa consciência procura desesperadamente por contextos que justifiquem um objeto visto isoladamente. Segundo seus pensadores, o cérebro possui esquemas simplificados do que é a configuração ideal de um todo, e, se alguma parte está em desacordo com o esquema, a mente se encarrega de suprir a falta ou desalinho. Por exemplo, não deixamos de reconhecer uma pessoa se a vemos em uma foto rasgada, porque nossa consciência trata de “costurar” sua imagem e fazer-se reconhecê-la.

A escola do Cognitivismo, por sua vez, refuta o mecanicismo estímulo-resposta do Behaviorismo e propõe que a obtenção do conhecimento é feita de modo muito mais complexo. O uso da inteligência não se limita apenas a receber recompensas ou evitar castigos, mas a organizar internamente os conceitos que são obtidos a partir de experiências novas e agregá-las ao acervo preexistente, e por isso esta corrente investiga todos os processos de memorização, de apreensão e de processamento de informações. Em resumo, os psicólogos cognitivos tentam compreender como se dá o aprendizado. Os cognitivistas estudaram com muito detalhe a destreza mental que cada indivíduo tem em diferentes etapas de sua vida, de modo a estabelecer uma classificação do que é possível a cada uma das faixas etárias conhecer, de acordo com a evolução de seu equipamento mental.

Por fim, vamos pincelar a vertente do Humanismo. Preocupada com a maquinização radical das demais escolas psicológicas, os humanistas estavam preocupados em tornar o analisando em um protagonista na sua relação com o mundo, de modo a não se fechá-lo como um mero fruto do ambiente ou como um possuidor de patologias. Estas ocorrem, em especial, justamente quando há uma incompreensão com a realidade circunstante. Esta é tão móvel quanto a história, que nunca é a mesma, e esse é o princípio que norteia a autorrealização: a consciência de que vivemos a cada dia com um conjunto não estanque de circunstâncias. De cunho mais otimista, os humanistas focavam-se em buscas de significações para a vida, trabalhando a motivação dos indivíduos. Tem cheirinho de auto-ajuda? Tem, mas a escola é séria. O seu uso posterior não é de responsabilidade de seus criadores.

Muitas outras correntes derivaram destas que mencionei, mas vai ficar chato e arrastado se eu ficar discutindo sutilezas. Por ora, dou por cumprida a missão de alimentar este humilde guia, trazendo um mínimo sobre uma área fascinante, que busca sistematizar algumas das questões mais recorrentes que fazemos desde que nos entendemos por gente. Bons ventos a todos!

Recomendações de canais:

As recomendações de hoje serão de alguns dos muitos canais que eu acompanho no YouTube que, evidentemente, tratam do assunto. Para quem quer uma visão rápida sobre diversos conceitos, a boa pedida é o canal Minutos Psíquicos:

Para quem quer uma visão mais próxima da interação que há entre Psicologia e Filosofia, indico o canal do João Vitor Wrobleski, o Filosofia da Psique:

E, finalmente, para tratar mais diretamente sobre temas da prática psicológica, a recomendação vai para o canal Mente Aberta, capitaneado pela Ana Carla.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (15 – Filosofia da Educação)

Olá!


Estamos nos aproximando mais uma vez das eleições neste desacreditado país, e os velhos mantras vão se repetindo, vazios como sempre. “Educação é a solução para o país”, “não se faz uma nação sem educação”, “educação é prioridade para qualquer programa de governo”, educação, educação, educação... O resultado é aquele que bem conhecemos: muita fala e pouco efeito prático. De fato, como eu já falei neste texto, muito se desperdiça com ideias capengas nesta terra, mas, ao contrário do que consta lá, há nos dias de hoje uma pretensa politização mais na base da falsa dicotomia do que propriamente de um debate maduro.

É claro que a discussão descamba facilmente para o lado da ideologia favorita, em ambos os sentidos possíveis para a palavra, de ideário e de alienação. É óbvio que isso limita demais qualquer escopo que se pretenda dar ao assunto. Talvez fosse necessário trazer para a conversa uma visão um pouco mais profunda, levantando questões sobre o ato de ensinar e o ato de aprender, o que os favorece e atrapalha, o quanto tem de coletivo ou de individual. Em suma, é preciso perguntar o que é educação. Essa é a tarefa para a Filosofia da Educação.


Como eu já disse no meu texto sobre a Teoria do Conhecimento, as relações cognitivas são características de nós, bípedes implumes. Os animais não-humanos conhecem? Sim, mas limitados à concretude instintiva que lhes caracteriza. Por esse motivo, dizemos que os homens são racionais, que usam a massinha cinzenta para construir correlações que vão além do real palpável. Só que nossos aportes individuais de conhecimento seriam muito menores se não pudéssemos lançar mão do arcabouço intelectual comunitário, que, em certa medida, não só supera a capacidade de nossos poucos bilhões de neurônios, mas também passa pelo filtro crítico de pessoas e gerações, dando-lhe qualidade (em tese). É para dar e ter acesso a esse patrimônio intelectivo, que está no substrato de toda cultura humana, que nasce a figura da Educação – a transmissão do conhecimento feita de forma intencional, ou, como quereriam os antigos latinos, o ato de “guiar para fora”, tanto de si mesmo quanto do mundo aparente.

Sempre que falamos em Educação, mentalizamos as figuras do professor e da escola, mas o fato é que tal atividade vai muito além disso. Todas as vezes em que procuramos conhecimento estamos realizando um ato de aprendizagem. Isso ocorre quando lemos um livro, assistimos a uma peça, participamos de uma palestra, reunimo-nos com um grupo de pessoas. De todo conhecimento exposto, fazemos avaliações críticas. O que não sabíamos, absorvemos; o que já sabíamos, reforçamos. Se nesse momento existe oposição, refutamos ou ajustamos nosso conhecimento anterior. Resumindo, a exposição ao conhecimento nunca é improdutiva e sempre produz um efeito em nós. Mas isso já nos conduz a dois problemas: 1. Se a Educação é transmissão intencional, ela carrega consigo a ideologia de um dos polos da relação de aprendizagem; 2. Ainda que se aprenda por toda a existência, o fato é que o momento onde a relação cognitiva é mais intensa ocorre na infância, justamente quando o juízo crítico ainda não está bem formado. Vamos tratar destas causas.

Primeiro. Sim, a Educação é ideológica, como é ideológico até seu cafezinho. Acha que não? Pois saiba que o pretinho básico que fumega à sua frente não é erva nativa desta Terra de Santa Cruz. Passamos a ser produtores em escala planetária por conta de uma predisposição em obter produtos primários (commodities, em linguajar tucano) e de terra boa, apta a florescer em quantidade os produtos que serão industrializados em outras partes do planetinha azul, donos de maiores recursos tecnológicos e know-how fabril. Essa é a divisão internacional do trabalho, uma forma de estipular tarefas para cada um dos países de acordo com sua vocação, e isso é ideologia. Portanto, toda relação educativa é carregada de ideologia, e fenômenos como Escola sem Partido são bobagens sem tamanho – representa uma troca de ideologia por outra, no más. Isso posto, resta perguntar por que isso acontece. É que toda Educação tem por propósito melhorar a vida das pessoas, e, ainda que pensemos egoisticamente no aperfeiçoamento individual apenas, o fato é que o aperfeiçoamento de vários e vários indivíduos redunda no aperfeiçoamento social. Por isso, é intrínseco à Educação que ela seja ideológica, que ela tenha um propósito. Como dela redunda muito do que está espelhado no desenho social (o que as pessoas desejam, a consciência do que podem atingir, o modo como enxergam umas às outras), a educação formal fica impregnada da ideologia de plantão, o que não é necessariamente ruim. Em democracias maduras, aliás, é bom, porque a Educação oferecida será baseada no projeto eleito (claro que o Brasil não está nesta lista). Achar que um sistema escolar será neutro é uma ilusão, como de resto é ilusória qualquer possibilidade de neutralidade absoluta em qualquer coisa. O que há é uma neutralidade possível, onde fossem seguidas as lições de Rousseau e de Kant, a saber e respectivamente: que a criança não seja ensinada em conteúdos estanques, mas que aprenda a pensar por si mesma; e que o princípio geral da Educação não seja uma acomodação ao vivenciamento contemporâneo, mas um projeto futuro de mundo melhor. De uma forma ou de outra, a visão é utópica, mas no melhor de seus sentidos – não como algo irrealizável, mas a ser perseguido para se tornar existente.

Segundo. Uma criança tem uma cabeça mais “vazia”, ou seja, menos conteúdos para fazer comparações, e um juízo crítico incipiente. Como um bichinho, opera mentalmente muito na base do concreto, e tende a acreditar mais facilmente naquilo que lhe é ensinado. A criança não sabe muito bem o que fazer com a torrente de informações que recebe, e confunde muito facilmente aquilo que é ensinado com a forma com a qual é ensinada, especialmente com uma questão de satisfação e prazer. Portanto, a educação formal que lhe é aplicada precisa utilizar de técnicas apropriadas para obter melhores resultados, e isso é tarefa da Pedagogia, que será abordada em momento propício. Mas a Educação não se resume a ensino. Na verdade, desde os tempos socráticos e platônicos a Educação tem um propósito axiológico: aperfeiçoar o homem para a virtude. Essa predisposição ética visa afastar o homem do embrutecimento e torná-lo cidadão, ou seja, capaz de viver em sociedade, o que, gregários que somos, é-nos inerente.

Só que o tema é muito complexo. Ensinar virtude depende de se estabelecer o que é ela dentro do meio em que se vive, e há concepções incrivelmente diferentes de um grupo social para outro, de uma época para outra, fazendo com que o alvo a ser atingido educacionalmente se desloque em dois eixos: valores na China são diferentes de valores na Islândia, e virtude era uma coisa na Idade Média e outra em nossos tempos. É nesse último caso que enxergamos as dificuldades dos confrontos entre tradição e progresso: a resistência a mudanças pode dificultar a evolução no relacionamento social, enquanto o avanço nas mudanças pode custar perda de valores. Diante dessa aporia, a pretensão do ato de educar precisa de um norte, e aí damos a volta no círculo da ideologia: o que a nossa sociedade espera? No que aposta nosso sistema político?

Mas vamos retornar à linha reta. As crianças, quando nascem, são um autêntico poço disposto a engolir todo tipo de informação, e o faz em profusão. A princípio, falta-lhes maturidade para saber o que fazer com tudo isso, e cometem equívocos típicos desta fase, como meter a mão em tomadas e enfiar tudo na boca. Isso faz parte da aprendizagem, mas Educação em sentido estrito vai além. Ela começa com os rudimentos do “não” dos pais e das festinhas quando elas fazem alguma gracinha, e vão evoluindo cada vez mais, até o ponto em que é superada essa fase sensório-motora, e a criança ganha condições de estabelecer correlações que vão além do instintivo. O aparelho neurológico da criança ganha uma sofisticação que lhe permite associar realidade e símbolo, e os conteúdos de sua memória podem ser cada vez mais traduzidos em linguagem, o que lhe facilitará sobejamente uma otimização no armazenamento e na organização das suas informações internas, bem como a expressão e a interação com o mundo exterior.

Percebam como lentamente o papo filosófico vai se aproximando de uma abordagem psicológica, e não há como fugir disso: a Educação vai se tornar mais e mais científica, baseada na Psicologia, na medida em que aumenta o conhecimento sobre o funcionamento mental humano. É na compreensão destes fenômenos que os processos pedagógicos vão se aperfeiçoando, e a Filosofia da Educação se torna um balizador para onde os estudos psicológicos apontam. É natural que assim seja, já que a cognição se dá a nível mental, ora bolas. Vou pincelar rapidamente sobre as correntes psicológicas que nasceram para descrever o funcionamento da psique, que, uma vez construídas para compreender como se absorve informação do mundo e o que nos faz procurar pelas mesmas, redundaram em orientação educacional, mesmo que indiretamente, e oportunamente detalharei melhor cada uma delas quando me der na telha.

Vamos lá. A Filosofia da Educação parte do pressuposto de que a pergunta sobre a possibilidade do conhecimento, tão cara à Gnosiologia, está positivamente respondida. Sim, é possível conhecer, é o que se pressupõe no ato educativo. Afinal de contas, de nada adiantaria se dar ao trabalho de transmitir saberes se nada poderá ser feito com eles, o que também se presta a responder à Epistemologia sobre o valor do conhecimento, e entendemos que é proveitoso transmitir aquilo que apreciamos como verdadeiro. Mas há métodos que parecem mais eficientes que outros, e há pessoas que parecem se dar melhor que outras com cada um deles. A resposta está lá onde as informações trafegam – na cabeça do contribuinte. Há diferentes aptidões, assim como há diferentes modalidades de inteligência. Pelé não é chamado de gênio porque elaborou grandes teorias cosmológicas ou compôs sonatas inebriantes. Pelé foi um gênio do uso do corpo e da interpretação dos espaços, do movimento que se executa neles. É o tipo de inteligência que se chama de corporal-cinestésica, tão necessária a dançarinos, mímicos e esportistas. Essa categoria de conhecimento não se desenvolve da mesma forma que em indivíduos inteligentes em lógica e matemática, ou em linguística, e isso explica em parte porque é difícil ser unívoco nesta questão. Entretanto, há teses.

O Behaviorismo, corrente cujos maiores expoentes são Thorndike, Watson e Skinner, busca seu foco na modelação de comportamentos (tradução do termo behavior, em inglês). Com vistas às experiências do russo Pavlov, que conseguiu condicionar o comportamento de cães através de um mecanismo de estímulo*, os behavioristas começaram a pensar o aprendizado em termos de estímulo e resposta, ou seja, certos atos seriam condicionadores, que estimulariam uma absorção do indivíduo. Esses estímulos são chamados de reforços e podem ser positivos ou negativos, funcionando na base do prêmio ou castigo. Em suma, eu faço determinada coisa porque quero obter recompensa ou evitar sofrimento.

No entanto, o reforço negativo, quando aplicado sob o prisma educacional, tem efeitos que não se encaixam na lógica estímulo-resposta. Basta que se perceba como se comportam os alunos na presença e na ausência do professor que os ameaça de castigo – basta o docente estar fora da sala para termos um pandemônio. O comportamento adequado, nestas circunstâncias, é contingencial, e o ambiente entediante/aterrorizante, antes de promover, refrata o aprendizado. Esse é o problema do método tradicional, baseado na exposição de conteúdos e na memorização forçada: ao aluno, é oferecido um belo zero no fracasso, ou seja, um reforço negativo que, aplicado de forma contumaz, tira o sentido do aprendizado justamente no polo mais frágil, e daí será moldado o mau aluno. Já o reforço positivo, com o elogio no bom desempenho e a compreensão no mau, esse sim é buscado pelo aluno, que se dedica ao aperfeiçoamento pelo simples motivo de que ele espera que o estímulo se repita, ao contrário da punição.

Outra escola que busca explicar os processos de aprendizagem é a Gestalt de Wertheimer, Köhler e Perls. Nesta corrente, temos a ideia de que a percepção do mundo e da realidade não se faz por peças isoladas, mas por uma visão holística, porque temos a tendência de fazer encaixes em contextos. Neste momento, por exemplo, estou na sala de espera de um hospital, e vejo uma senhora em cadeira de rodas, o que se explica por si só. Se eu a estivesse vendo em outra situação, poderia estar diante de um grande estranhamento. Pensemos que ela está na plataforma de uma corda bamba. O que temos aqui? Uma situação de dissonância com o que é esperado, que me põe em situação de desequilíbrio cognitivo. Segundo a Gestalt (que, em alemão, significa algo como estrutura), essa é a necessidade da visão integrada: fornecer elementos para explicar os fenômenos. A senhora na cadeira de rodas nada significa isoladamente. Ela vai ganhar sentido na medida em que se relacione com o ambiente que a cerca, formando uma estrutura cognitiva. Mas é só a situação de desequilíbrio que me afeta a buscar o conhecimento – não me move tanto a curiosidade hospitalar quanto a circense. Da primeira, eu já tenho informações suficientes; é da segunda que brota algo a ser conhecido. Será um desafio? Um delírio de minha parte? Uma ilusão de ótica? Esse é o ponto de aplicação da Gestalt na educação: na problematização. Todas as vezes que deslocamos um objeto do seu eixo comum, estamos fazendo com que ele escape de sua trivialidade, e, com isso, aprendemos sobre ele. É por isso que as perguntas dos professores às vezes parecem desafiadoras. É fora da zona de conforto que o aprendizado acontece, e isso mesmo quando perguntamos coisas que parecem óbvias.

Mais um conjunto de subsídios à educação é dado pelo Humanismo de Rogers, Fromm e Maslow. Aqui, temos uma modificação de polo na relação educativa, e o aluno sai de sua habitual posição passiva para ser reconhecido como partícipe do processo de aprendizagem. Segundo Rogers, o aluno aprende com mais facilidade quando pode atuar no processo e quando o escolhe espontaneamente. Em outras palavras, o aluno tem mais condições de aprender sobre um determinado assunto se puder presenciá-lo e se, melhor ainda, puder interagir com ele. É por isso que as aulas em laboratório costumam ser tão eficientes. Nelas, o aluno não só ouve um professor falar, mas manipula elementos e instrumentos, e obtém resultados que lhe são tangíveis. Com relação à espontaneidade, não se trata de uma mera escolha do aluno, mas um respeito à sua individualidade, incluindo aí seu tempo de resposta ao aprendizado. Rogers entende que todos os lados da relação de aprendizagem devem se despir de papeis. O professor precisa se apresentar como ele é, e não adotar em classe uma conduta que divirja do que ele faz em casa, e isso para que o aluno faça o mesmo. Diante de indivíduos, e não de alunos, o professor não deve ser um expositor de conteúdos, mas um facilitador do aprendizado. Ele deve observar os anseios de sua classe e buscar meios para realizar a experiência educativa. A grande pergunta que esta abordagem nos causa é: como estabelecer um currículo mínimo se o ensino estará condicionado aos anseios do aluno? Eu, por exemplo, penso que não quereria olhar para a cara de um logaritmo nunca. Os humanistas acreditam de forma mais otimista no indivíduo do que as demais abordagens. É certo que o indivíduo responde por si mesmo, mas o meio em que ele vive é, por si só, desafiador. A busca pelo aperfeiçoamento é algo inerente ao pacote psíquico dos seres humanos, e o indivíduo procurará saber o que o grupo como um todo sabe. Desta forma, a equalização dos conteúdos se dará naturalmente, sem que seja necessário forçar um currículo estabelecido.

Mais uma abordagem é a psicanalítica, de Freud, Jung e Lacan, entre outros. Para estes pesquisadores, a psique é composta de três partes, como já descrito neste texto. No caso, a parte inconsciente que é moldada pelo mundo exterior é o superego, um conjunto de predisposições morais que refreiam as peripécias instintivas do id. O primeiro canal a operar na modelagem do superego são os pais, que ensinam premissas básicas de certo e errado. Evidentemente, o que há de mais impactante são as recusas, as contraposições, os nãos. E isso é o que desenha o superego para que o mesmo consiga reter a impulsividade do id. É um processo absolutamente natural e desejável, do contrário seríamos puro impulso, como acontece com os demais animais. Entretanto, algumas das impressões gravadas no superego são mais profundas do que o normal, gerando uma neurose, um tipo de anormalidade psíquica que é contornável racionalmente. Imagine que, por exemplo, uma fobia qualquer é desenvolvida em uma criança: por excesso de cuidados, com barreiras para varandas e redes para janelas, que, aliás, são mantidas fechadas independentemente da temperatura, além de uma persecução e repressão desproporcional em qualquer aproximação, uma criança desenvolva uma neurose fóbica. Mais tarde, já jovem, ela se vê à frente de uma ponte estreita. Racionalmente, não há nenhum perigo real, já que a ponte é firme e possui anteparos que tornam quase impossível acidentes. Mesmo assim, a pessoa terá dificuldade em executar o atravessamento da ponte, e não o fará sem suores e tremedeiras. Algumas dessas neuroses não são voltadas para o ambiente, mas para pessoas, e é passível de ocorrer um processo de transferência, ou seja, as aflições infantis são transferidas dos pais para outras pessoas (numa relação educativa, para o professor). Se há um grande medo da brutalidade do pai, digamos, o processo de transferência fará o mesmo com relação ao professor, ainda que isso não fique evidente. Isso será explicitado na criança arredia, que parece ter um medo injustificado no trato com seus mestres. Neste processo de transferência, o aluno atribui uma espécie de “poder” ao seu professor, que terá em mãos uma ferramenta para influenciá-lo: o aluno deposita nele uma importância semelhante que dá aos pais, inconscientemente. O tal poder, portanto, não está no professor em si, mas na imagem que o processo de transferência do aluno fez dele. Isso é mais um cuidado a ser tomado do que um uso a ser feito pelos docentes.

Como eu já disse, todas essas escolas da psicologia não nasceram para se voltar à Educação, mas como tratam do ato cognitivo mais ou menos diretamente, acabam por influenciar o moderno pensamento educacional. Há psicólogos célebres que trataram diretamente da Educação, como Piaget, Vigostky, Bandura e Dewey, que prefiro tratar com mais calma, mas há sempre o pano de fundo dado pela Filosofia para que se traduza não apenas o que o cérebro pode fazer, mas o que se tem como objetivo o que ele faça. Afinal, a Psicologia nos diz como; quem vai dizer porque e para que é a corujinha de Minerva.

Recomendações de leitura:

Mencionei estes dois filósofos mais acima. O Emílio de Rousseau é uma obra-prima do Iluminismo, que demonstra um respeito inédito pela figura da criança como ser humano já pleno em sua condição, e não como um projeto de adulto. É um clássico da Filosofia da Educação e da Pedagogia.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou da Educação. São Paulo: Difel, 1979.

Já Kant tem a Educação como ferramenta para aperfeiçoamento da humanidade. É a materialização da ideia iluminista de uma sociedade erigida sobre bases que não sejam meras relações de poder, mas de conhecimento.

KANT, Immanuel. Sobre a Pedagogia. Piracicaba: Unimep, 1996.

* O experimento de Ivan Pavlov é simples. Ele tocava uma campainha todas as vezes que ia alimentar um cão. Após algum tempo de condicionamento, o cão começava a salivar tão logo ouvisse o som da campainha, ainda que não visse ou farejasse o alimento.