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segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

De volta às águas e trilhos que ficaram para trás – 4º lugar: São Sebastião do Rio Verde e nossas tendências a fazer coleções

(Por que gostamos de coleções? E por que às vezes elas nos escravizam?)

“Acreditamos no óbvio. Mas quando o examinamos um pouco mais de perto, vemos que por trás do que chamamos de óbvio há uma porção de preconceitos, fé distorcida, crenças e assim por diante. Mas a fim de atingir e entender o óbvio, temos primeiro que nos agarrar ao óbvio, e esta é a maior dificuldade. Todos nós queremos ser sagazes ou secretos, ou tencionamos ser algo que valha a pena e assim por diante”.

Fritz Perls

Olá!

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No meu último texto, falei sobre a cidade de Virginia. Eu não passei o dia inteiro lá, principalmente porque o Google me mandou chegar através de um caminho de terra bem ruinzinho, e fiquei meio preocupado de fazer a volta em horas mais escuras, com poucos recursos. Experiência? Não, coisa de velho mesmo. Mas o fato é que eu podia fazer o percurso por asfalto, conforme pude verificar na volta. É aquela velha história de confiar cegamente: fé cega, faca amolada, já diziam Nascimento e Bastos. Porém, a nova proposta de rota me permitiu dar uma passada pela cidade de São Sebastião do Rio Verde, de quem começarei a falar agora.

A cidade tem esse nome pela junção de seu padroeiro, o santo soldado que, conforme se narra, preferiu morrer a abjurar sua fé (escrevi sobre o sincretismo que existe em torno dele quando falei sobre Senador José Bento)…


… com o rio que corta a região, importante não só aqui, mas também em outras plagas, que acabam por também levar seu nome, como Conceição do Rio Verde.


São Sebastião do Rio Verde virou sede da mais nova estação turística que recebe a Maria-Fumaça da antiga rede ferroviária de Minas Gerais, em uma composição que vem da cidade de São Lourenço. Isso fez com que praticamente se dobrasse a rede disponível para reviver o passado, considerando o trajeto que leva a Soledade de Minas, já inaugurado a mais tempo.

Quem pegar o trem e vier para cá, terá a oportunidade de conhecer a igreja dedicada a São Sebastião, que impera na praça já próxima aos baixios da cidade.

A praça é daquelas típicas, onde ocorre a maior parte da vida social da cidade, onde o povo se agrupa, toma suas cervejinhas e namora.


Como fica em um declive, toda a sua estrutura se baseia nas pequenas rampas sucessivas, o que dá um certo ar piramidal à construção.


A praça contém algumas edificações interessantes e bonitas, da época em que ainda era sede do município de Pouso Alto, antes de ser rebaixada a distrito. Isso explica a presença de prédios históricos, como o do Fórum, que hoje abriga instituições como os Correios.

Como curiosidade, e levando em consideração se tratar de uma das estações do Caminho Religioso da Estrada Real, há aqui um plano de altimetria em forma de placa e anexo a um mapa, de forma a orientar os romeiros o quanto devem reservar de forças à medida que avançam.

Bem no alto da cidade, antes de chegar na praça central, há um marco típico da Estrada Real. Não deu tempo de tirar uma foto, e também fiquei com um pouco de preguiça de voltar para fazê-lo, então peguei uma da internet mesmo, mais especificamente no Google Maps, nas coordenadas 22.2269089, -44.9771486, apenas para ilustrar.

Já passei por várias cidades que fazem parte dessa rota: Cunha, Baependi, Caxambu, Passa Quatro, Itamonte, Guaratinguetá, Aparecida e, principalmente, a precitada Pouso Alto, quando aproveitei para trazer mais elementos sobre os fatos históricos que a cercam. Estimulados pela associação que cuida dos interesses do roteiro, os turistas que têm mais recursos passaram a enumerar suas passagens com bibelôs, fotos e souvenires, de modo a recordar (ou ostentar) suas estadias. Essa tendência levou o Instituto da Estrada Real a criar uma cartela onde se pode recolher carimbos de passagem, de forma a completar esse passaporte como se fosse um álbum de figurinhas.

Eu nunca me incomodei com esse tipo de coisa. Passei por várias dessas cidades, como vocês puderam ver acima, e não sei até quando continuarei passando por elas. É um dado importante saber que a cidade pertence a esse circuito, pelo simples fato de que é um detalhe histórico importante para saber por onde você anda, e não tenho nenhum tipo de problema com quem preenche suas cartelas, só não acho isso tão significativo assim.

Eu sou um ET que não coleciona nada? Não, nada disso. Tenho duas coleções dignas desse nome e uma espécie de juntado que algumas pessoas também encaram como coleção. Vou contar rapidinho sobre cada uma delas.

A minha coleção mais antiga é de chaveiros, e também a mais barata. Ela partiu de uma coleção preexistente, que era da minha mãe. Eu, ainda criança, vi aquela caixa de sapatos cheia de chaveiros e a genitora me contou detalhes de cada um deles. Peguei gosto pela coisa, conseguindo novas peças na base da inconveniência infantil, muitas vezes obrigando meus parentes mais velhos a se privar de sua peça apenas para que eu parasse com minha chatice. Depois, comecei a comprar itens em viagens, ao invés de obter outros bibelôs. Hoje, com o acesso mais facilitado a viagens internacionais, encarrego meus amigos de me trazerem algum de onde vierem. Ofereço-me para pagá-los, mas nunca aconteceu de alguém me cobrar. Assim sendo, tenho chaveiros de Cuba, República Dominicana, México, Chile, Argentina, Canadá, Estados Unidos, Japão e outros lugares que não lembro agora. O armazenamento cresceu a ponto de se tornar um problema: para que eu exponha os chaveiros, preciso de um móvel de grandes dimensões, daqueles de custo exorbitante e alocação complicada, e os hoje organizadores que os contêm vão ficando encostados nas paredes das intenções nunca realizadas. Atualmente, meu objetivo é fazê-lo assim que me aposentar, daqui a alguns anos. A ver.

Outra coleção é bem mais onerosa, bem mais recente e anda bem mais devagar. São métodos para extração de café. Eles são tão presentes na minha vida que até criei uma série sobre eles e as reflexões a que me levam, que podem ser lidos neste link. A coisa começou quando eu quis provar um sistema de extração diferente do Melittão habitual e da máquina de espresso dos bares da vida. Comprei uma cafeteira italiana na loja da esquina e comecei a testar diferentes configurações de extração, e percebi que, embora sutis, era possível conseguir diferenças surpreendentes entre elas. Entretanto, um chaveiro custa uns dez reais, e um método pode valer várias moedas empilhadas, razão pela qual desloco minhas prioridades para coisas mais urgentes. Tenho até alguns objetos meio custosos, mas nada que fira o orçamento, como fariam equipamentos Gaggia, Bialetti, Delonghi, Breville e outros italianos de bolso cheio.

Por fim, tenho camisas de times de futebol. Eu, particularmente, não considero uma coleção, mas há quem a chame assim. Vou comprando de acordo com os jogos que vou assistir, sempre na base do artigo mais barato. Também ganho algumas de presente, porque é aquele que não tem como errar. Teve um texto em que estiquei na cama meu pequeno acervo, que acabou por crescer. Mas não se trata de algo sistemático, que eu tenha um mínimo de critério para comprar. Chegou em casa, vai para junto das demais, só isso. Como costumo circular por muitos estádios, tenho muitas camisas, punto e finito.

Sendo assim, não me é estranho o hábito de colecionar, mas o colecionador de verdade (dizem) é aquele que busca a totalidade dos seus objetos de desejo. Bem, para chaveiros, querer completude é uma espécie de probatio diabolica, porque todos os dias serão lançados novos elementos no mundo inteiro. Idem com métodos de café e mesmo camisas de clubes, mas há, de fato, aqueles casos em que é possível manter uma coleção completa, como os discos de um determinado artista ou, vejam vocês, a cartelinha das cidades da Estrada Real. A grande pergunta é: por que nos incomodamos com isso? O que nos leva a despender tempo, recursos e energia para encher o álbum de figurinhas?   

Vamos lá. Se nós formos partir do princípio de que existe uma realidade, é preciso fazer uma diferenciação: o que é a realidade em si mesma e qual é a forma com a qual ela é percebida. Essa distinção é importante porque ela racha o conceito ao meio, porque quem percebe a realidade sempre é uma consciência, e essa consciência é de cada um dos contribuintes deste malfadado e cada vez mais quente planetinha. Ou seja, mesmo que uma realidade exista, ela é uma para mim, outra para você, atípico leitor, mais uma ainda para meu vizinho e outra para o seu. Quero dizer com isso que ninguém apreende a realidade da mesma maneira que o amiguinho, porque nossas vidas podem se assemelhar, mas nunca são iguais. Idem ocorrerá com nossos sentidos, com nossa cultura, com nossos costumes. Tudo isso faz com que, mesmo que ainda seja possível dizer que há uma realidade, ela é incognoscível.

Parece que a volta vai ser longa, mas nem tanto. Se você conhece um pouco de filosofia, já sacará que eu falei de duas coisas no parágrafo anterior: do noumeno kantiano e da Fenomenologia, sua derivada metodológica. É com eles que a ideia de que tudo depende de uma consciência que absorva a realidade e que, por isso, é impossível que se chegue a uma conclusão definitiva sobre cada coisa-em-si. Acontece que essa particularização na forma de apreender o mundo não significa que não exista um padrão no modo em como a percepção se dá pelas diferentes consciências, muito pelo contrário. Se existem fronteiras para a mente, elas estão bem delimitadas pela maneira com a qual o intercâmbio entre o objeto posto e o objeto percebido são trabalhados pelo equipamento psíquico. Por exemplo, o roteiro deste processamento sempre se dá no sentido de fora para dentro, com o uso dos sentidos para concretizar esse trânsito. O que varia, como eu já disse, depende do aporte cognitivo de cada um dos indivíduos. A realidade é como é para nós mesmos porque ela se configurou desta forma.

A existência de padrões faz com que tenhamos tendências que são razoavelmente parecidas em cada uma de nossas mentes, apesar de o resultado final ser distinto para cada um. Um desses padrões é que sempre temos a propensão em buscar completudes para elementos onde faltam pedaços, de forma que sempre consigamos deduzir com a melhor precisão possível qual é o objeto que está à nossa frente. Sendo assim, projetamos continuidades onde elas faltam, acrescentamos números onde eles não existem, fechamos círculos abertos. Este é o princípio geral da psicologia da Gestalt, de quem já falei demoradamente neste texto link. Se o tema te interessa, leia lá, porque está cheio de bons (e futebolísticos) exemplos.

O fundamental é que o cérebro tem a faculdade de perceber totalidades, de modo que as partes isoladas precisam estar em relação entre si para compor um sentido completo. Uma absorção da realidade pode ser completamente distinta de outra, ainda que esteja composta pelos mesmíssimos elementos, porque há uma configuração que modifica todo o sentido daquilo que vemos. Mas é aí que temos o pulo do gato. A mente tem a faculdade, mas não a obrigação, de aceitar a totalidade que percebe. Quando olhamos a cartela de carimbos das cidades visitadas na Estrada Real, podemos justamente nos voltar para o buraco que falta, e não para os campos já preenchidos. Isso traz uma sensação incômoda de que falta alguma coisa naquela configuração, de que há alguma engrenagem que não gira e é justamente isso que nos move a completar aquela lacuna, o que nos trará a confortável dimensão de estabilidade.

Em certa medida, isso ajuda a explicar por que temos uma sanha interior de buscar as completudes, e há uma normalidade nisso, já que há seus propósitos biológicos e psicológicos no dimensionamento complementar da realidade que absorvemos. O propósito de fazer coleções fica razoavelmente fundamentado por esse princípio, além de outros fatores, como vaidade e aspectos afetivos. O problema está quando passamos do ponto, e o que era um hobby passa a ser um sofrimento de múltiplos aspectos.

Por exemplo: o carimbo que falta no passaporte da Estrada Real pode produzir um planejamento que me fará economizar dinheiro para obtê-lo nas próximas férias, o que é bom e normal. A questão chega quando ocorre uma compulsão que me leva a um endividamento para consegui-lo, ou faltas ao serviço, ou hospedagens perigosas. Imagine a situação de uma pessoa que chega ao posto de registro e o encontra fechado. Em níveis normais, nada mais ocorreria do que ficar levemente puto, e voltar outro dia. Uma pessoa acometida de um transtorno certamente terá sua viagem estragada, que por vezes é cara, pelo fato prosaico de não conseguir um canalha de um carimbo, estampado com tinta vagabunda (ou não). O mesmo ocorreria comigo se eu me pusesse a fazer carnês e deixasse de comprar meu feijãozinho sagrado para comprar os caríssimos métodos italianos. Há um ponto em que precisamos conter os nossos ímpetos, para o bem de nossa vida como um todo. Mas pode ser pior.

O extremo desses transtornos está naqueles que recentemente começaram a ser chamados de acumuladores. Eu já falei sobre acúmulos neste espaço, especialmente porque eu tenho uma pessoa bem próxima dada a esse hábito - minha sogra. Tudo quanto é cisco e caco sem importância ela guarda, achando que poderá ter serventia em algum momento, e isso a leva a preencher quartos, quintais, corredores, fundos de cama, mesa e qualquer espaço minimamente disponível de objetos que obviamente não terão utilidade alguma. Convencer uma pessoa com esse nível de transtorno a se livrar de alguma de suas porcarias é missão quase impossível. Meu sogro teve brigas homéricas porque jogou fora alguma coisa largada que achou ser lixo, e, para não esquentar a cabeça, simplesmente largou mão de tentar algum argumento. O caminho da cama para o guarda-roupa é uma picada por onde há ameaça de avalanche em qualquer esbarrão, que às vezes acontecem. Não adianta fazer menção a qualquer espécie de aconselhamento psicológico, porque sua já decantada fúria é imediatamente despertada.

Não vou discutir a terapêutica aplicada a esses casos, porque eu não tenho conhecimento para tanto, mas a própria teoria da Gestalt, a meu ver, oferece propostas de solução, tanto para a situação das compulsões, quanto dos acúmulos. Vamos então dar uma olhadinha nisso.

O psicólogo Fritz Perls é um crítico da Psicanálise, para quem o linguajar utilizado é tão hermético que impossibilita qualquer interessado em compreender suas teses. O problema é que, segundo ele, sob essa linguagem maquiada e pernóstica, há longas dissertações sobre o óbvio, e então era de maneira óbvia e simples que deveria se expressar. Além disso, ele discorda de que o inconsciente seja tão preponderante sobre o equipamento psíquico, a ponto de tornar a instância consciente um navegante de um barco sem leme. Vê que a mente funciona com um mecanismo de compensação semelhante ao que acontece com toda a parte fisiológica do corpo, e dá exemplos disso. Quando há qualquer desarranjo que provoque um mal para o organismo, ele mesmo procura, através dos mecanismos que têm disponíveis, recuperar seu equilíbrio. Isso acontece com alterações de pressão, ritmo cardíaco, níveis de açúcares e tantos outros fenômenos sujeitos a intempéries, que acontecem o tempo todo, porque outras ocorrências mais prosaicas, como satisfazer a fome, também causam um desequilíbrio que clama por normalização. A doença ocorre quando não é possível restabelecer seu status normal. Por exemplo, quando os níveis de glicose não são levados a certo nível após um período de jejum, temos a diabetes, que espalha desgraça por todo o corpo quando não tratada. Essa busca por estabilidade é chamada de homeostase e também pode ser incluída no nível mental.

Tá. Mas como a psique resolve seus desequilíbrios? A primeira coisa é que temos a tendência de perceber totalidades, mas isso não significa que esse processo se dê sem perturbações. Tudo vai depender das necessidades circunstanciais que temos em um momento, de modo a processar a realidade circunstante e satisfazer as nossas necessidades. Isso fará variar o conceito chave da Gestalt conhecido como figura-fundo, que nada mais é do que aquilo que nossos sentidos absorvem em primeiro plano em qualquer circunstância que demande sua atenção.

Eu vou usar como exemplo uma música. Imagine-se chegando no fim da tarde em sua casa e colocando os fones de ouvido, antes de deitar-se no sofá. Você escolhe uma música no LP que você acaba de colocar no prato, mais especificamente na faixa Time do álbum The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, bem conhecida para facilitar nossa dinâmica. Coloca a agulha no artefato e repousa o corpo sobre o sofá, já descalço e com as luzes apagadas. Lentamente, vai começando a penetrar uma massa sonora em seus ouvidos, mas ela não vem em um bloco estanque. A princípio, é fácil, apesar de assustador. O ribombar dos despertadores nos traz a um estado de alerta, sem que consigamos fixar um foco em nenhum deles, até que ouvimos a estranha percussão que simula as batidas de um coração, que puxa toda a atenção para si. A instrumentação começa espaçada, seguindo o ritmo já imposto. Neste momento, já perdemos parte da atenção na percussão e a levamos para o conjunto de baixo-guitarra-teclado. Quando a introdução acaba e o corpo da música irrompe, somos puxados pela parte vocal e pela poesia que carrega consigo. Isso vai persistir até o magnífico solo de David Gilmour, que chama para si todo o eixo atencional do audiente, até o retorno da melodia cantada e, enfim, sua conclusão. Pois bem. Tudo aquilo que chamou nossa atenção central é aquilo que chamamos de figura, e tudo o que ajudou a compor o ambiente, sem, no entanto, ficar no centro, é o fundo.

Notem duas coisas. Primeiro, é possível a qualquer um mudar a figura nessa configuração, bastando que lancemos conscientemente nosso foco para outro ponto. No momento do solo, por exemplo, podemos aguçar os ouvidos para absorver o trabalho de teclados que está sendo feito e, nesse caso, ele é a figura, enquanto a guitarra fará parte do fundo. Segundo, movido por interesse próprio, também é possível que a figura já seja outro instrumento, motivado, por exemplo, pelo fato de ser um baixista ouvindo a música e, nesse caso, a figura são as linhas de baixo, enquanto o solo vai para o fundo.

Essa relação figura-fundo, ou seja, de ênfase no que se percebe, pode ser uma boa explicação para as compulsões dos colecionadores. Enquanto você exibe a cartela cheia de carimbos, uma pessoa em situação de equilíbrio emocional verá como figura o monte de quadradinhos preenchidos, e os buracos estão no fundo. Eles somente serão notados secundariamente, em um momento de análise mais profunda. Já para quem não se conforma com os claros, são eles que constituem a figura, sendo que tudo o mais que foi realizado fica para o fundo. A percepção de totalidade dessa pessoa estará turvada pelo desequilíbrio, e a auto-regulação psicológica não consegue resolver o desequilíbrio, a homeostase não se dá, e aí temos a condição patológica. Idem com o acúmulo. Aquele monte de quinquilharia está suprindo algum tipo de desequilíbrio contra o qual o contribuinte não consegue lutar. Perls entende que é através do reconhecimento da maneira como se dá a configuração entre o contato que fazemos com nosso ambiente que permite assumir certas responsabilidades sobre nossas reações. Se eu sei que uma partida de futebol modorrenta me irrita, saber refazer a sua configuração é a solução para que o desconforto diminua: olhar o movimento da torcida, procurar algum anúncio novo, ou mesmo praticar um autocontrole, tudo isso ajuda. Nessa ótica, os próprios transtornados têm condições de mudar a configuração de suas compulsões, observando, por exemplo, o quanto a sua casa poderia ser mais espaçosa e confortável tendo menos acúmulos.

De uma forma ou de outra, repito que não me incomodo com quem tem suas coleções, desde que não se tornem grilhões. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

O principal papa da gestalt-terapia é o alemão Friedrich (Fritz) Perls, que levou as ideias da Gestalt para o consultório e lá fez interessantes observações.

PERLS, Fritz. A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. Rio de Janeiro: LTC, 1988.

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Sobre as conexões entre os quadros de nossos ambientes

(Caras e bocas traduzem uma cena como um todo? É possível ter uma expressão como componente de uma verdade local?)

Olá!

Tal qual a patroa, eu fiz minha primeira tatuagem em uma idade meio avançada para o padrão. Os motivos foram quase os mesmos: quando eu podia voltar o foco dos meus parcos tostões para fazer uma, tínhamos toda uma ojeriza social aos tatuados, trabalho incluso. Depois, a questão foi se tornando menos empregatícia e mais orçamentária mesmo, porque não se trata de serviço exatamente barato. Talvez a grande diferença entre nós foi o momento em que a vontade surgiu. Eu queria fazer uma ainda menor de idade, cuja aceitação nem passou em sonhos pela cabeça dos meus pais; já no caso dela a coisa veio bem mais tarde, já bem adulta, com os filhos já feitos.

Aconteceu de esses últimos tomarem seus rumos, e, embora ainda surja algum perrengue episódico, o fato é que eles vão se ajeitando e, com isso, algumas contas ficaram menos salgadas, permitindo projetar gastos dantes infactíveis. Além disso, a correlação entre tatuagem e mau-caratismo não faz mais o mesmo sentido, eu tenho emprego fixo e não sujeito a inspeções corporais e a ampla oferta fez com que os preços dessem uma razoável arrefecida. Taubaté, aliás, por trás da cara conservadora, tem uma proporção per capita de estúdios que aparenta a mim (sem nenhum critério estatístico) ser maior que a de São Paulo. É por lá que fiz os meus rabiscos.

Quando eu fiz minha tatuagem, a patroa estava lá, perguntando sarcasticamente se eu queria “dar a mãozinha”. Devo confessar que havia momentos que dava vontade mesmo. Eu fazia caras e bocas de colocar medo até em um lobo faminto, sempre segundo a consorte. Eu sei que eu sou meio careteiro mesmo, até porque as agulhadas atingem uns pontinhos de fato mais nevrálgicos, e aí o esgar é de rigor. Mas também não foi para tanto, a ponto de já ter feito uma segunda e estar a caminho da terceira. E acho que aí chega. Ou não.

Mas não é sempre que minhas expressões são exacerbadas. No próprio dia-a-dia, nós costumamos mudar de cara de acordo com as circunstâncias, até mesmo porque essa é uma forma involuntária (às vezes) de expressão. Acontece eventualmente de que tanto a patroa quanto a patroinha (o moleque mais velho nunca) olhem para minha cara e digam que algo não vai bem. Tem momentos em que é verdade. Como eu já disse por aqui, meu trabalho fundamentalmente consiste em tomar pressão no lombo, e, por vezes, isso é incômodo, ou aflitivo, ou provoca raiva, tédio, medo. Então é natural que a expressão mude. Mas tem vezes que não. Eu estou simplesmente na minha e vem a inquirição repentina. Segue um diálogo comum nessas ocasiões:

Patroa: “Você tá com a cara esquisita”

Eu: “Eu?”

Patroa: “É. Aconteceu alguma coisa?”

Eu: “Não… Eu tô com a cara esquisita?”

Patroinha: “Tá sim, eu também percebi”

Eu (começando a me incomodar): “Não. É coisa da cabeça de vocês”

Patroa: “Tá vendo?”

Patroinha: “É. O que aconteceu?”

Eu (já irritado): “Nada, gente. Tá tudo como sempre”

Patroa: “Bom, se você não quer falar, não tenho como ajudar”

(e assim por diante)

Mais do que irritado, eu fico bolado. Por que minha cara de judeu de todo santo dia causa espécie quando não há nenhum motivo para tanto? O que acontece para que as pessoas achem que você está calmo em plena borrasca ou nervoso quando está deitado na nuvem?

Eu reflito nessas coisas e, de repente, me pego olhando para a mesma patroa, que está cabisbaixa na poltrona da sala, e consigo vê-la daqui de minha bancada. Parece entristecida, como se estivesse nostálgica ou frustrada. Fico remexendo nos meus fantasmas e perguntando a mim mesmo se tenho cuidado bem dela, como me comprometi ao lhe tirar da casa do pai. Fico me questionando se tenho realmente sido um bom companheiro, se não sou mais estúpido do que o tolerável, se ela não tem frustrações com o amanhã sem perspectivas, se não se recorda dos bons tempos de juventude e não vê motivos para se alegrar com o que o futuro a reservou. Vou ficando meio depressivo, e estou a ponto de ir lá, conversar com ela, quase para pedir desculpas. No que me impulsiono, ela solta a gargalhada da piada que acabara de ler no celular, compenetrada. Sinto-me um pouco constrangido comigo mesmo, porque, mesmo que tenha tido um sentimento de compaixão, meu equívoco foi flagrante.  Ou seja, a brincadeira não acontece somente quando eu sou objeto contemplado, mas quando eu observo os outros também. E aprendo que o fenômeno não só ocorre comigo no polo passivo, mas também como uma pessoa que tem sua sensibilidade adulterada por um contexto que, muitas vezes, é somente imaginado.

Imaginado ou induzido? Essa é a grande questão. As coisas, como bem sabemos, não se encontram isoladas em um ambiente, como se estivessem enfiadas em um quartinho de cor neutra. São várias as interações que acontecem entre os objetos e o meio que os cercam, mesmo que todos os componentes estejam estáticos. Ora, vejam: nós somos objetos também, e, sendo assim, qualquer um que nos observe o fará com a influência das nossas cercanias. Uma expressão pode passar de serena a entediada pelo simples fundo em que está inserido – um campo florido ou um quarto semiescuro. Há um efeito teórico aplicado em cinematografia que explora muito desse conceito, o efeito Kuleshov.

O efeito Kuleshov foi sistematizado por Lev Kuleshov, um teórico de cinema e cineasta russo, que, fundamentalmente, dizia que a percepção das pessoas é influenciada pela sequência de imagens que lhe é apresentada em tela, o que pode mudar o sentido original do que é exibido anteriormente em função daquilo que é apresentado a posteriori. Em miúdos: eu só fecho um contexto quando tenho um conjunto de impressões maior do que uma imagem simples.

Tendo essa tese em mente, Kuleshov promoveu um experimento que se tornaria influente no cinema a partir de então. Como as imagens originais do experimento se perderam, há algumas versões correntes, todas com o mesmo suposto resultado, mas a mais clássica é a que segue: Kuleshov montou três sequências de três fotogramas, sendo que a sequência seria o close no rosto impassível de um ator, seguido por uma cena variável e pelo retorno ao close no ator. Na primeira sequência, o ator observa um prato de sopa; na segunda, um caixão com uma criança morta e, na terceira, uma mulher lúbrica. É importante reforçar que a expressão do close é sempre igual, nas três sequências. Perguntando a entrevistados que sentimentos eles achavam que o personagem tinha diante de cada uma das cenas, para a primeira falou-se em fome, para a segunda em luto e, para a terceira, em excitação.

Isso demonstra, segundo Kuleshov, a importância da montagem no universo do cinema. A maneira como as cenas se sequenciam são de vital importância para que o espectador construa mentalmente a narrativa, e o diretor precisa levar isso em conta se quiser participar desta formação ativamente. É possível brincar com o efeito. O que eu quero fazer com a faca que tenho em mãos? Cortar uma carne, ferir uma pobre transeunte ou colher um mamão?

A grande pergunta é: a expressão é sempre a mesma; como ela ganha o sentido que lhe é atribuído? Como ela faz “adivinhar” o que o protagonista pensa? Eu não sou da área de psicologia, mas sou curioso, e vou tentar uma resposta através de duas correntes. Quem quiser divergir e me ensinar alguma coisa, fique à vontade nos comentários.

A primeira é que fazemos associações por conta de estímulos que recebemos durante toda a nossa vida. Embora nossas reações imediatas sejam instintivas, o fato é que elas não são unívocas. Basta que se pense nas pessoas que caem na gargalhada nas situações mais dramáticas possíveis. É algo absolutamente inesperado, mas possível – o famoso rir de nervoso. Sendo assim, a expressão impassível fica dentro do escopo das possibilidades de reações. Afinal de contas, temos a sensação de que o ator está "travado" diante de qualquer uma das situações. Mas nós não fazemos essa associação porque a temos em nós espontaneamente, e sim porque as observamos nos outros. Então, a cada vez que vemos uma pessoa reagindo à fome, à morte ou à libido, registramos sua reação e a colocamos na nossa coletânea de possibilidades. Cada observação de reações é um estímulo para que reforcemos a maneira com a qual enxergamos o mundo. Como a impassividade está nesse rol, fazemos facilmente a associação do contexto, mesmo que seja a mera junção de recortes. Esse é o caminho que vem do behaviorismo.

O resumo então é muito simples. Julgamos as expressões das pessoas porque temos uma habitualidade que lhe dá base. Acostumamo-nos a ver as pessoas fazendo caras e bocas para determinadas situações, e, com isso, emprestamos esse sentido que temos guardados em nós para situações que, talvez, não sejam exatamente o que pensamos. Isso acontece porque podemos tentar prever comportamentos com base naquilo que constantemente observamos no mundo.

Por outro lado, temos que a realidade é toda constituída por um continuum. Os retratos são pinçados da realidade como quadros que fazem parte de uma cadeia de causas e consequências, um antes e um depois, em sucessão infinita. As fitas de cinema são um exemplo perfeito dessa continuidade - uma longa cadeia de fotogramas que se sucedem logicamente. Essa montagem lógica da realidade é esperada pelo cérebro, e, mais do que isso, é procurada por ele. Por isso, furos da realidade posta são desesperadamente supridos pela cabecinha oca para acomodá-los ao que ela aguarda. Isso possibilita que sejam vistas coisas que não existem de fato, como no desenho abaixo:

Quem bate o olho percebe que um ramo de grão está sobreposto por um banner. Só que, se você retirar este último, não verá a continuidade do galho, mas uma faixa de tinta amarela. Essa complementaridade mental que damos às coisas permitem fenômenos como as ilusões de ótica, a pareidolia e outros mais. Situacionalmente, temos o mesmo princípio. Em uma sucessão de imagens, procuramos formar um nexo causal entre elas, de modo a ter posta a tal continuidade. A expressão do ator pode ter sido extraída de qualquer uma das três situações, ou até de nenhuma, mas o fato é que pode ser associada a qualquer uma delas. Se estivesse fazendo uma pernacchia*, por exemplo, teríamos um alerta de estranheza ligado, justamente pelo desencaixe do contexto (o que exigiria de nós novas informações), mas sendo uma expressão neutra, facilmente dá continuidade às circunstâncias que lhe seguem, justamente por lhe dar sentido lógico. Esse engodo à mente através das percepções sensoriais, que traduzem um sentido que isoladamente não existiria é de estudo da psicologia da gestalt.

Novamente resumindo, temos que nosso cérebro procura fazer um link abstrato entre diferentes cenas e situações para estabelecer conexões causais entre elas, da mesma forma que tenta estender imaginariamente as imagens para conectá-las.

A conclusão é que, seja por uma via ou outra, ou até por ambas e até outras, é inevitável que haja um componente subjetivo na realidade. Há uma mente que faz as costuras entre os diferentes componentes que constroem um ambiente, e cada uma delas doa sentido próprio, formado pelo que há em seu interior. É por isso que o velho Kant ensinava que não há como se ter acesso à coisa-em-si: somos exclusivos no universo, e nós, somente nós, vemos a realidade da forma como vemos.

Como eu disse anteriormente, em matéria de psicologia sou um mero curioso, mas, como adepto da filosofia, gosto de especular, e estou aberto a explicações melhores sobre um fenômeno que é possível de perceber empiricamente, mesmo que não haja comprovações científicas definitivas sobre o mesmo. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Livro português que trata do efeito Kuleshov:

BERTHOLO, Joanna et al. Efeito Kuleshov. Lisboa: Dois Dias, 2014.

É muito fácil encontrar na internet exemplos do efeito Kuleshov. Segue um para quem quiser ver:

https://www.youtube.com/watch?v=_gGl3LJ7vHc&pp=ygUIa3VsZXNob3Y%3D

* é aquela brincadeira tipicamente italiana de imitar um flato colocando a língua entre os lábios e soprando fortemente.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Navegações de cabotagem – a Praça das Cabeças de Praia Grande e o espaço vital que precisamos para transformar o mundo

Olá!

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Era uma vez um freezer, e este freezer ficava em uma casa de veraneio no litoral paulista. Acontece que ele se transformou em contrapiso para poeira, e desligado que estava não exercia a função social preconizada na Carta Magna do Florão da América. Sendo assim, fazia muito sentido que fosse deslocado de sua cozinha inoperacional para um novo destino, lá pelos lados do Vale do Paraíba. Ou, sem regateios e chorumelas, meu sogro tinha um freezer em desuso na Praia Grande e minha filha mudou-se para Taubaté. Faz-lhe falta tal eletrodoméstico, e o velho o disponibilizou, meio na base do “te vira prá levar”. Cálculos:

Freezer novo – R$ 1.700,00
Usado em bom estado – R$ 1.000,00
Aluguel de uma picape + combustível + pedágios – R$ 300,00

A relação custo-benefício pareceu favorável ao último quesito, e foi por esse caminho que eu rumei, indo a uma dessas locadoras cheias de protocolos, garantias e burocracias, mas que fornecem o que eu preciso.

Bem, a carga em si coube a mim e à patroa. Um freezer vazio de seus 200 litros não é lá uma bigorna, então encaramos a tarefa de boas. Feita a carga e a amarração, ao invés de sair correndo para a estrada, resolvemos fazer um pedaço de beira-mar, para matar um pouco das saudades. Afinal de contas, o tempo estava bem bom, com aquele mormaço típico da costa, um diferencial em relação às terras altas da capital. Andamos um bom trecho, da Vila Mirim até o Boqueirão, mas não voltei à rota pela Costa e Silva, geralmente muito movimentada. Fi-lo um pouco antes, mais ou menos na altura da feira de artesanato, pela Avenida São Paulo.

Foi então que percebi o quanto de tempo já fazia que eu não rodava por este pedaço. No meio da via, uma praça bem larga desponta ao longe, cheia de cabeças metálicas, que eu ainda não tinha visto, independentemente de já ter passado por aqui.


O nome do logradouro é Praça Elos, mas o espaço expositivo é chamado de Praça da Paz, inaugurada em 2007 para homenagear algumas personalidades que fizeram algum tipo de ação relevante pela paz no mundo.

As estátuas retratam Jesus, sua mãe Maria, Gandhi, madre Tereza de Calcutá, São João Paulo II, Nelson Mandela e Sérgio Vieira de Melo, sendo que este último eu cheguei a confundir com o George Bush.

Todas as obras são revestidas em aço inox, e possuem em torno de 10 metros de altura cada uma.

O autor das esculturas é Gilmar Pinna, que se notabilizou por fazer obras semelhantes em Guarulhos e Ilhabela, especialista em produzir com o uso de material metálico de grandes dimensões.

Embora a praça tenha um nome oficial, o povo não deixou barato e a batizou informalmente como Praça das Cabeças. Vox populi, vox dei, e eu o adoto daqui por diante.

Pelo que andei vendo por aí, há polêmica na construção da praça. Tem gente que adorou a novidade, tem gente que achou desperdício de dinheiro público. Eu tendo a concordar com a primeira posição, desde que o montante se justifique e não haja indícios de desvios. Não que eu tenha ficado de queixo caído com as estátuas, mas não é em qualquer lugar que poderemos ter um Musée Rodin.

Mesmo não sendo unanimidade, a praça faz parte de um processo de melhorias e urbanização que já vem de longe, com o objetivo de mudar uma imagem renitente. A Praia Grande leva nas suas costas uma boa dose de preconceito. Certo: é uma cidade com índices de violência acima do desejável, embora não fuja da média do litoral. Mas o fato é que ela carrega um estigma que escapa da observação deste quesito. É que ela é considerada uma cidade para pobres, para farofeiros, para aqueles que não têm grana para gastar com hotéis de frente ao mar, como ocorre no Guarujá ou no Litoral Norte. Todas as vezes que alguém quer falar que passou o feriado em um lugar sem requinte, refere-se à PG, mesmo que não seja verdade.

Eu não tenho nenhum direito de falar mal da Praia Grande. É, de longe, a cidade da Baixada que eu mais frequentei na minha vida. Quando eu era criança, ao contrário da longa teia urbana que se vê hoje, havia grandes espaçamentos entre os diversos bairros, que eram ligados por vias de areia socada mesmo pela avenida principal. Chegávamos pela velha Ponte Pênsil, aguardando o tempo necessário para inversão da mão, sempre que preciso. Meu pai tinha um amigo com uma casinha próxima à Vila Caiçara, um tanto isolada e que, mesmo sendo meio distante da orla, dava para vê-la da janela lateral. A casa ficava mais cheia que um ovo cozido, porque a patota aproveitava a oportunidade e se organizava nos carros que estivessem à disposição. Mais tarde, meu sogro compartilhava um cômodo-e-cozinha com sua irmã, até que pode adquirir uma casa no Balneário Maracanã, de modo a esgotar suas verbas rescisórias de anos a fio, mas que o deixou muito feliz. Por este motivo, mais da metade das vezes em que fui para a área litorânea, o fiz para ir à Praia Grande. E, como pode ser percebido, éramos adeptos de pular no trem na hora em que ele passasse, sem se preocupar se o banco era estofado.

Não éramos só nós, operários e camponeses familiares, que nos despíamos de requintes. Toda uma camada da população via lá a opção possível de lazer. A Praia Grande começou a ficar cada vez mais atulhada de gente e lixo por conta das famosas excursões de um dia, com uma estrutura então muito precária, principalmente nos desembocadouros de esgoto. Da década de 80 para cá, muita coisa mudou, principalmente na organização do espaço público. A Praia Grande é outra, e qualquer pessoa que não tenha vindo para cá há pouco tempo, não reconhece a cara nova.

Mas a marca fica. Hoje, quem olha para a Praia Grande, vê uma orla muito bem estruturada*, embora a ausência dos quiosques tenha sido uma canelada indesculpável da prefeitura. Há ciclovia de fora-a-fora, há chuveiros, sinalização farta, via toda asfaltada. Está em melhor situação que outras cidades melhor cotadas na mente do povo.

O pior é que o estigma não fica na cabeça só de quem vem de longe, mas embutido até mesmo em quem está do lado de dentro. Não se trata de um complexo de vira-latas, como quereria Nelson Rodrigues, mas de uma condição psicológica de quem tanto ouve a mesma cantilena e que vê o ar de desprezo ou deboche do outro. E isso se espraia de mente em mente, marcando todo um povo, de modo que só há dois caminhos: a conformação ou a revisão. Como temos uma tendência à comodidade, na maioria das vezes acontece o primeiro, mas é possível pensar diferente, como ensina Kurt Lewin.

Este camarada foi o principal precursor da Psicologia Social, a área de conhecimento que trata dos fenômenos mentais das interações, de uma maneira a reconhecer que estes não ocorrem apenas na célula individual, mas que se compartilham com as comunidades que possuem elementos comuns em seus convívios. Na época em que começou a militar na área, havia duas vertentes que condividiam a Psicologia: a psicanálise, que operava nas entranhas mais profundas da mente, mais voltada para uma visão filosófica do assunto; e o behaviorismo, mais preocupado com os efeitos dos estímulos sobre o comportamento do indivíduo. Lewin procura uma terceira via, mais próxima à Gestalt, que se preocupava exatamente com a dinâmica social, que precisa levar em conta fatores muito externos às cabeças em si.

Lewin pega emprestado o conceito de campo na física para descrever suas ideias. Quando olhamos para um objeto qualquer, intuitivamente compreendemos que toda sua presença física se limita às fronteiras de seu corpo físico. Mas isso não corresponde à realidade. Ainda que não se toque com outros, esse objeto exerce influência e é influenciado pelo ambiente que o rodeia. Um campo gravitacional ou magnético, para citar exemplos, exerce uma interação com o ambiente ao seu redor. Pensando em um ímã, ele possui uma força de atração que aumenta ou diminui de acordo com a proximidade dos objetos que estão ao seu redor, transitando de um absoluto, que representa o toque, até um ponto em que sua capacidade de atrair é tão rarefeita que já não consegue produzir aproximação. Enfim, um campo é uma área estendida, que não corresponde unicamente à porção perceptível do corpo.

Segundo Lewin, o mesmo se aplica às relações sociais. O núcleo da interação é o self, que representa o indivíduo como centro convergente das percepções sobre o mundo. Seu campo é composto pelas forças que vem de fora, chamadas por Lewin de vetores, que podem interagir com o self de maneira positiva ou negativa, e que, de acordo com sua proximidade e importância, exercerão maior ou menor influência sobre o self.

O que é o espaço vital para Lewin? É exatamente essa área abrangida pelo campo. Trata-se de todo e qualquer fato que influencie o comportamento de uma pessoa. Isso já nos indica que o espaço vital não é meramente físico, e também não somente espacial, da mesma maneira que os campos tratados no ramo da Física, como exemplificado acima.

E é aqui que vemos como as considerações que se fazem sobre o ambiente em que se vive moldam o self. Uma cidade que vai ganhando infraestrutura mais robusta é um vetor positivo, que faz com que alguém se sinta mais bem representado e com anseios atendidos. Por outro lado, toda a carga de despeito que se lança sobre essa mesma cidade é um vetor negativo, que leva influências como um certo desconforto, ou, no limite, uma vergonha em ser partícipe de um lugar desprezado. É como se o lugar em que eu vivo não fosse digno e, por consequência, eu não fosse digno também.

Mas como se sai desse círculo vicioso? De acordo com Lewin, as pessoas possuem zonas de conforto que, mesmo incômodas, representam um modo de viver conhecido e razoavelmente seguro. É necessário vencer esse natural conservadorismo de um grupo, o que começa com o reconhecimento dos vetores negativos que penetram nos espaços vitais de cada indivíduo, com a observação da necessidade de mudanças e com a aposentadoria de crenças e hábitos. Como se trata de uma disposição coletiva, é preciso que existam lideranças dentre os membros que sirvam como porta-estandartes para o que Lewin chamou de descongelamento de padrões. Logo em seguida, vem a mudança em si, fruto de um desafio de transformação. É com essa predisposição que um sistema é entendido e modificado, de modo a eliminar os vetores negativos e maximizar os positivos, ou até mesmo de lhes mudar o sinal, passando o que era ruim a ser utilizado com proveito. Após a implementação de uma nova cultura, é a hora do recongelamento, ou seja, da absorção definitiva dos novos conceitos e práticas, e do novo espaço vital. Lewin usa um experimento com a utilização de miúdos pelas donas de casa no período de guerra, mas eu vou exemplificar com um modelo mais costumeiro para nós, tupiniquins: o futebol.

Imagine que seu time da esquina, glorioso pelos torneios da várzea, tenha entrado em uma modorra infinita. As tradições mandam que aquele velho 4-2-4 seja o padrão tático, com dois pontas abertos e um ponta-de-lança acompanhando o centroavantão clássico: alto, forte e lento. O técnico é das antigas, daqueles que ‘inda falam que “quem corre é a bola”. Acontece que o antigo desempenho foi aos poucos degradando. Aquele time outrora tão goleador passou a ser facilmente marcado, e, com as posições tão fixas e previsíveis, foi sendo mais e mais derrotado, a ponto de perder a antiga relevância. Depois de um bom tempo nessa condição, o vetusto técnico pega seu boné e vai criar peixe no interior de Goiás. O novo professor escolhido tenta embutir novas ideias na cabeça do elenco, mas é recebido com ceticismo. Para vencer a resistência, leva o time para assistir jogos em outras praças e trás vídeos de esquemas táticos alternativos, explicando aos atletas bissextos o que quer e o que espera deles. Não tendo muita alternativa, o time descongela. Os pontas agora recuam para ajudar os volantes, e os laterais avançam até a linha de fundo dos adversários. O centroavantão desce para a zaga para cortar os cruzamentos, e os beques fazem o oposto no ataque, para aproveitar a boa estatura. O resultado foi uma mudança na tendência às derrotas, conseguindo mais empates e algumas vitórias eventuais, que foram aumentando e se acumulando, na exata medida em que o time foi se adaptando mais e melhor às suas novas funções. Bem estabelecido, seu esquema tático torna-se um novo padrão, novamente congelado, mas agora eficiente, totalmente novo, mas capaz de retomar a antiga glória.

Já não parece que você ouviu falar desse papel das lideranças em algum lugar? Não te parecem aquelas dinâmicas de grupo que fazem os gestores para demonstrar quais são os novos papeis que se esperam de seus comandados? Pois é. A prática psicológica social de Lewin é uma das grandes vedetes dos modernos administradores e coaches, quânticos ou não. Sim, a vida é regada e adubada de contrassenso. Uma das teorias mais festejadas pelo mundo empreendedor tem origem em uma cabeça socialista, que se preocupava em fazer com que o próprio povo se reconhecesse com seus espaços vitais impregnados de vetores negativos, e que se reunisse em torno de suas lideranças para desenhar um novo futuro.

Talvez a chave para a autoimagem da Praia Grande esteja em atitudes semelhantes. Os tempos de cidade suja e que ninguém queria assumir como destino turístico (embora sempre houvessem assíduos frequentadores) fazem parte de um passado que precisa se descongelar. A novidade estética da Praça das Cabeças, embora nem se deva pretender uma unanimidade sobre o gosto, pode ser o marco de um lugar que se pensa diferente, que se assume como uma das cidades que mais mudou nas últimas décadas, para muito melhor. Espero que o mesmo empenho se dedique às camadas mais pobres da população. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Lewin olhou para a Gestalt que emergia naqueles dias para criar suas teses originais, tão repisadas hoje em dia que chegaram a perder seu sentido original. É bom buscar seu ideário na fonte primária, como é o livro abaixo.

LEWIN, Kurt. Teoria de Campo em Ciência Social. São Paulo: Pioneira, 1965.

Para quem quiser, a Praça das Cabeças é um lugar onde o pessoal vive tirando selfies. É bem fácil de estacionar, porque não fica colada na praia.

“Praça das Cabeças”
Praça Elos (cruzamento das Avenidas São Paulo e Brasil)
Boqueirão
Praia Grande
Aproximadamente 80 Km a partir do centro de São Paulo

* Não me esqueço de que há uma linha divisória muito clara na Praia Grande: a Avenida Presidente Kennedy. Tudo o que está para o lado do mar está mais bem situado, e à medida que se aproxima do morro, pior fica a miséria e a violência. Os termos são comparativos com as outras cidades da região.

quarta-feira, 4 de março de 2020

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 10ª mirada (2ª parte): o distrito de Luís Carlos evocando os princípios e leis da Gestalt

Olá!


Eu não poderia falar de Guararema e omitir a sua linha de ferro. Somente achei que tinha coisas demais para falar em um só texto. Por isso, entendi por bem quebrar a tarefa em duas e, calmamente, focar-me mais especificamente em temas bem distintos. Isso corrige meu defeito da prolixidade e encurta um pouco a conversa nestes tempos de aversão a textos longos. Desta forma, vamos nos afastar do centro da terra do pau d’alho e caminhar até o distrito de Luís Carlos, que existe justamente em função do trem.


Eu já andei de maria-fumaça em Jaguariúna, já conheci a linha de Passa Quatro e a de São Lourenço, sem esquecer do Memorial do Imigrante de São Paulo, e talvez eu fizesse o mesmo por aqui. Acontece que cheguei muito em cima da hora para comprar as passagens, pelo simples e óbvio motivo de que estava andando por aqui e por ali. Quando fui à bilheteria, já estava tudo esgotado. Passons, vamos fazer de carro o trajeto. Com relação à estação de Guararema, tem a mesma carinha de século XIX de tantas outras que já vi por aí. Ela funcionou durante o período de 1876 até a década de 70, quando a decadência da Central do Brasil a tornou inútil.


Ele somente voltou a operar em 2015, desta vez como trem turístico, ligando o Centro de Guararema ao distrito de Luís Carlos, distantes nove quilômetros um do outro, e que desde 1914 procurava levar imigrantes para aquela região então desprovida de habitantes.


Seu nome deriva de Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros, que, à época da inauguração, era chefe do segundo distrito da Estrada de Ferro Central do Brasil e foi um dos grandes entusiastas da construção desta estação.


É uma vila autenticamente cinematográfica, e foi utilizada por muitos diretores que precisavam criar uma ambientação que retomasse os princípios do século passado, em especial os tempos da chegada dos imigrantes às terras ainda pouco exploradas.


Uma homenagem a eles é feita por meio da área lateral da estação, chamada de Pátio dos Imigrantes. Vi lá nomes italianos, portugueses, espanhóis, alemães, árabes, ingleses e franceses, representativos dos trabalhadores da ferrovia e dos primeiros habitantes da pequena aldeia.


A reoperacionalização da estação levou à reforma não somente do prédio em si, mas de todo o entorno, com o antigo calçamento a macadame sendo completamente trocado e com um forte viés comercial, já que os trilhos trazem boa parte dos turistas que frequentam o Centro de Guararema.


No dia em que eu estava por lá, não vi a Velha Senhora, a locomotiva a vapor que é a vedete da linha. Talvez uma parte do trajeto seja feito com máquina a óleo, que não deixa de ser bastante antiga. Trata-se, no caso, de uma A. Gonigan australiana, de 1978.


A composição é menor que a de Jaguariúna, sendo utilizados três vagões de madeira, todos adaptados para necessidades de acesso. Antigamente, não se pensava muito nessas questões.


Por dentro, o perfil dos vagões é aquele menos popular, com bancos estofados e bastante espaço entre eles. Na inevitável comparação com Jaguariúna, lá os vagões não são de primeira classe, com bancos de madeira nua e mais apertadinhos. Aqui, portanto, temos mais conforto e menos reflexo histórico.


A principal diferença que temos aqui são os vagões caboose, que têm espaços abertos na terminação das composições, permitindo uma experiência diferenciada de viagem ao livre.


Pena que não deu tempo de pegar o trem, mas fica para outra. Até mesmo porque a própria vila é um espetáculo à parte. Absolutamente representativa no início do século XX, dá mostra completa do talento dos muratori italianos, os pedreiros detalhistas da simplicidade.


Um dos imóveis maiores é destinado a ser um espaço expositivo, onde, mais uma vez, o engenheiro Luís Carlos recebe reverência.


Ali, além das exposições transitórias (em minha passagem, havia uma série de reproduções de pinturas conhecidas por alunos da região), há também mostras permanentes com artigos da ferrovia, como esse belo painel de relógios de estação.


O outro prédio grande é utilizado como um receptivo turístico, onde se pode obter mapas da região e da cidade.


Entre os dois prédios, há uma viela que é dedicada a Elias Cecin Zoghbi, um imigrante libanês que foi um dos pioneiros do bairro. No final da ruela, há um grande painel com o desenho da Velha Senhora, uma locomotiva Baldwin de 1927.


No centro da pequena praça central, temos uma pequena capela dedicada a São Lourenço, padroeiro do local. É um dos tantos santos mártires que a igreja católica cultua, com uma curiosidade que já relatei neste texto: ele morreu queimado, mas, ao contrário da costumeira exposição direta ao fogo, aqui tivemos um santo "grelhado". Por isso, sua imagem costuma vir acompanhada de uma grade de churrasqueira.


De resto, toda a área é ocupada por restaurantes, bares e comércio de artesanatos.


A ordenação das casinhas deu meio que uma bugada na minha cabeça. Elas são dispostas de maneira tão bem encaixada entre si que em nada lembram o padrão Bombaim que costumamos ver em Terra da Garoa, onde cada um faz as coisas ao seu modo. Parece mais coisa de Piet Mondrian, o profeta do concretismo geométrico. Dei umas opiniões aqui.


É que eu tenho uma sensação de complementaridade tão forte ao ver as casinhas que a sua proximidade parece estender sua linha ao infinito, como se o ritmo das paredes fosse o mesmo dos trilhos: perdem-se nos confins do horizonte.


É claro que isso não é possível de obter com fotos, mas dá a impressão de que eu buscava uma sensação de totalidade que desse sentido ao contexto da vila. Resolvi o problema com a imagem disposta em um livro.


Isso tudo é loucura? Não. Isso tudo é Gestalt. Vamos falar sobre isso.

A psicologia da Gestalt surge em um momento de profunda divisão entre os adeptos da psicanálise, que exploram o inconsciente, e os behavioristas, cujo grande foco é o comportamento. Sua proposta é dirigida para a maneira como percebemos o mundo e de que maneira isso influencia nosso aprendizado.

A brincadeira toda começa com um insight interessante, quando Max Wertheimer, psicólogo tcheco, em uma viagem de trem, observou o semáforo de sinalização de uma estação que era composto por duas lâmpadas. Entretanto, como cada uma delas acendia e apagava em um momento específico, a impressão que passava era que a mesma luz rolava de um lado para o outro, como se fosse apenas uma. Isso o inspirou a realizar experiências com percepções sensoriais para dar base ao entendimento de como adquirimos elementos do mundo exterior. Em colaboração com Wolfgang Köhler e Kurt Koffka, elaborou um teste com base na alternância de pontos luminosos. Era muito simples: dois círculos instalados em uma superfície plana podiam ser acendidos e apagados, sem que ambos pudessem estar ligados ao mesmo tempo. Se estes pontos eram acesos com uma diferença muito grande de tempo, percebia-se claramente se tratar de dois elementos distintos, com uma transição muito evidente. Por outro lado, se alternância era muito rápida, a percepção era a de que havia dois círculos acesos ao mesmo tempo. Quando se chegava a uma determinada velocidade de alternância, a coisa acontecia – tínhamos a sensação de que o círculo se movimentava, ora para a esquerda, ora para a direita. Ao contrário do que pode parecer a princípio, não se trata de uma mera ilusão de ótica, mas de uma característica da percepção. É o que estes psicólogos denominaram de movimento aparente, produzido por aquilo que foi denominado como fenômeno phi.

Essa experiência por si só é bem interessante, mas, no fundo, levou apenas à constatação de que a percepção precisava ser estudada em sua estrutura, muito além do mecanicismo dos behavioristas ou da quase-metafísica dos freudianos. Nascia assim uma psicologia preocupada com as formas e modo como os objetos se apresentavam aos sentidos do homem que ganhou o nome de gestalt. Essa palavrinha alemã pode ser traduzida como totalidade ou estrutura, mas a melhor expressão possível, no meu entender, se dá com o termo configuração. Isso porque o fenômeno da gestalt se dá através da maneira com a qual os componentes de uma determinada sensação se relacionam entre si, de modo a haver uma configuração que faça o cérebro trabalhar de determinada maneira. Em outras palavras, aos olhos de quem vê, cada conjunto de elementos se constitui em uma gestalt, uma configuração. E essa “conversa” entre elementos é regida por princípios e leis que derivam de nossa atividade cerebral.

Dificilmente uma estrutura está desacompanhada em uma percepção. Uma gestalt é, primordialmente, uma configuração do todo perceptivo que normalmente é composta por outras gestalten*. Vamos para o exemplo. Este é um símbolo bastante conhecido para quem é do mundo do futebol:


Quando a observamos, estamos despreocupados com suas partes. Vemos o todo e resgatamos em nossa memória o seu significado. Entretanto, quando olhamos a imagem analiticamente, podemos perceber como ela é composta por partes, que, isoladamente, mantém algum tipo de sentido.


Ou seja, uma gestalt é um conjunto de gestalten, que podem ser focadas pormenorizadamente de modo a demonstrar como uma configuração apresenta sentido novo ao se relacionar com o espectro maior do todo. Vejam que, a partir de agora, teremos uma gestalt que, isolada do conjunto anterior, tem o significado de bandeira de São Paulo.


O processo de decomposição pode ser levado até o momento em que não haja mais sentido nos elementos remanescentes, ou que tenhamos uma gestalt composta por um único item, como podemos ver abaixo, no mapinha do Brasil já isolado, que ainda guarda seu significado próprio.


O que Wertheimer e colegas notaram é que o efeito phi nada mais era do que uma gestalt. É uma configuração tal que nosso cérebro percebe como movimento algo que, na verdade, é estático. Nada mais do que uma maneira com a qual a mente adquire informações do mundo exterior a partir da relação intrínseca entre os elementos que o compõe. Por esse motivo, sempre que estudamos a psicologia da forma, comete-se o equívoco de sermos bombardeados com ilusões de ótica. Isso não é um erro em si, mas uma visão meio limitada da realidade do que é o fenômeno perceptivo. Mas, por fim e por tudo, por que as coisas acontecem desse jeito?

A resposta está no isomorfismo psiconeural. O processo de aquisição dos sentidos se dá através de nossos órgãos destinados para tal, mas eles, por si só, apenas levam os estímulos ao cérebro. Cabe a este fazer as interpretações que, como é comum em uma espécie que vive do simbólico, podem não ser o sentido estrito do que observamos. É como o distintivo citado anteriormente, que não tem concreção alguma por si só, sendo uma espécie de “catado” de objetos se não houver um processo de construção de significado. As configurações que são apresentadas possuem uma forma de correspondência cerebral e é assim que a nossa massa cinzenta interpreta o que está sendo apreendido pelos sentidos. Trocando em miúdos, o cérebro “encaixa” o conteúdo dos sentidos em um conteúdo da consciência e com isso constrói a representação – há uma correspondência entre a configuração física e a lógica mental. Por isso o termo isomorfismo: “estrutura igual” em grego. E é através do aprendizado que aumentamos nosso acervo mental, dando mais possibilidades de correspondência com fenômenos do mundo exterior. Por isso a psicologia da gestalt é tão importante para a Pedagogia.

Essa é a hipótese fisiológica da coisa que, evidentemente, não é fácil de provar. Mais simples são as constatações fenomenológicas, que demonstram ter a Gestalt uma série de leis e princípios que são maciçamente utilizadas no âmbito da educação e, principalmente, da publicidade. Vou fazer o meu trabalho e trazer os principais itens, desde já lembrando que já foram descritos mais de cem. Como este não é um tratado, vou falar sobre um punhado deles, aqueles mais óbvios.

Princípio da pregnância – Alemães gostam de criar termos e isso nos dificulta a tradução, mas nós vamos sempre tentar. Pregnância é uma expressão que nos indica uma tendência a termos mais facilidade em reconhecer preferencialmente figuras bem estruturadas. Em outras palavras, o cérebro tende a interpretar com mais facilidade elementos visuais que nos são colocados com simplicidade e pouco paradoxo. Vamos fazer uma comparação:


Temos aqui os escudos dos dois principais times gaúchos da atualidade: Internacional e Grêmio. Percebam que, independentemente do valor estético de cada um deles, é extremamente mais simples ler o conteúdo do segundo do que do primeiro. Nele, está escrito “Grêmio” e acabou, sem deixar nenhum tipo de dúvida: é uma gestalt com alta pregnância. Com relação ao Inter, a elegância no entrelaçamento das iniciais faz com a pregnância abaixe, já que não é possível bater o olho e identificar a sequência das letras, e até mesmo o reconhecimento destas é mais complexo, por exemplo. Neste caso, temos um caso de baixa pregnância.

Princípio da super-soma – este é um dos fundamentos mais básicos de todos da teoria da gestalt. Ele indica que o todo não pode ser conhecido simplesmente pela observação de suas partes, já que há uma questão decisiva: a configuração destas partes faz com que se varie o significado do todo. Assim sendo, a soma das partes não significa o todo. O todo é algo diferente da soma das partes, é uma realidade própria. Vejam o seguinte exemplo: temos o distintivo do São Paulo, conhecido por sua simplicidade:


Apesar de não ter uma quantidade imensa de elementos, ainda assim possui partes próprias que podem ser visualizadas individualmente.


Se reunirmos novamente todos esses componentes de maneira aleatória, é evidente que não teremos o escudo do São Paulo, a não ser que respeitemos toda a configuração que o caracterize.


Nosso conhecimento prévio pode até fazer com que percebamos se tratar de um distintivo, mas que certamente não é o do clube que representava originalmente. Desta forma, podemos notar que há algo que vai além da soma das partes para garantir um determinado significado.

Princípio da segregação figura-fundo – quando observamos a totalidade de um estímulo sensório, percebemos que alguns elementos se destacam mais do que outros, pelas mais diferentes razões: centralidade de posição, nível de contraste entre os componentes, colorações mais fortes ou mais fracas, movimento, texturas e muitas outras. Essa capacidade de isolar e evidenciar certos objetos em detrimento de outros é o que se chama de segregação figura-fundo. Figura, no caso, é o elemento de identificação mais forte, enquanto fundo é todo o horizonte que cerca a figura.

Não é tão fácil quanto parece estabelecer qual elemento exercerá a função de figura e qual será seu fundo. Cores berrantes tendem a chamar mais atenção dos sentidos, mas nem sempre isso é verdadeiro. Vejam, por exemplo, o escudo do Lille, clube francês da cidade homônima:


Ele é todo composto por cores fortes, mas é nítido que acabam por formar o fundo, ainda que a figura seja de uma cor normalmente neutra, o branco. Do cão mascote do clube, somente temos a silhueta monocromática. Isso demonstra como a forma, por vezes, prepondera na percepção em relação a outros fatores.

Princípio da tendência à estruturação – pelo que falamos até agora, podemos ter a impressão de que as gestalten somente estimulam o cérebro estaticamente, ou seja, que todas as correspondências isomórficas já estão prontas lá, só esperando ser acionadas. A questão é que os nossos neurônios não são passivos desse jeito, e estão sempre em busca da melhor configuração possível, de forma a compreender uma estrutura como algo inteligível. E dá-lhe correr para aproximar, unir, assemelhar e agrupar os elementos perceptivos de uma forma. Observemos uma das camisas mais bonitas do futebol brasileiro, a do Cruzeiro (peguei a imagem no Mercado Livre):


A dinâmica aqui é muito simples: a camisa azul escuro representa o céu noturno onde a constelação do Cruzeiro do Sul, à guisa de distintivo, tem destaque absoluto. Só que nós conseguimos fazer essa interpretação justamente por termos a propensão a estruturar nossas observações, como fazemos com as estrelas neste caso. Não são simplesmente astros soltos, mas agrupamentos por proximidade e semelhança que, inclusive, remetem a uma estruturação que não está explícita – a forma de cruz que empresta o nome à constelação.

Princípio da constância perceptiva – se estamos falando em elementos que são percebidos pela mente sempre da melhor maneira possível, é possível deduzir que os gabaritos isomórficos saberão se defender de certas variações que, mesmo mudando a configuração apresentada, representam o mesmo objeto. Só com um exemplo para ficar mais compreensível. Vejam a foto das camisas do São Caetano abaixo:


Elas são irmãs gêmeas, compradas no mesmo dia e local, a porta do estádio Anacleto Campanella. Tanto eu como você podemos facilmente perceber isso, mas, se olharmos apenas e tão somente a foto, oticamente poderíamos achar que uma tem a metade do tamanho da outra. Entretanto, este princípio nos diz que saberemos compensar esse tipo de diferença, e que o objeto é o mesmo. Isso vale para quando vemos alguém se afastando, ou algum objeto de ponta-cabeça – apesar da configuração diferente, nossa percepção sobre o elemento é constante.

Princípio da transponibilidade – é a primazia da forma com relação aos demais elementos, e o fato de que esta independe do material com o qual é feita. Essa relação de dominância permite que estabeleçamos o que é prioritário em uma gestalt – uma casa é uma casa, seja de madeira, de pedra, de alvenaria, grande, pequena, longínqua, próxima e etc. Vamos de exemplo:


Estes dois distintivos tem uma diferença fundamental na composição de cores. Na camisa de São Jorge, vemos o escudo original do Corinthians, com sua configuração habitual. Na homenagem a Ayrton Senna, temos o mesmo escudo totalmente dourado. A materialidade da cor não importa. É a forma do escudo que nos identifica se tratar do símbolo maior do clube em tela.

Princípio da unidade – embora seja importante compreender que uma gestalt é constituída por gestalten menores, também precisamos entender que há uma quantidade mínima de elementos necessária para que possamos compreender um objeto como tal, distinto dos demais. Isso é o que denominamos de unidade. Vamos pegar como exemplo uma camisa do simpático Nacional, repleta de anúncios:


Compreendo a necessidade de produzir meios para a sobrevivência, mas esse monte de anúncios enfeia a camisa à beça. Notem, no entanto, que cada um dos elementos é distinguível dos demais por conta da lei da unidade, que reconhece cada um deles isoladamente nesse oceano publicitário, incluindo o quase perdido distintivo tricolor. E a própria camisa pode ser reconhecida como uma unidade em si, apesar de tantos elementos diferentes que a compõe.

Lei da unificação – tem a ver com a harmonia na distribuição dos elementos de uma percepção, em contraposição a arranjos pouco confortáveis. É derivada dos princípios da pregnância e da unidade, e pode ser bem exemplificada por conjuntos simétricos e com balanceamento bem construídos das formas e cores. Caso do distintivo do Botafogo:


Eu não sou botafoguense, mas esse escudo tem tudo de bom. É simples, com linhas bem definidas, poucos penduricalhos, perfeita simetria lateral, cores firmemente contrastantes com fácil segregação de figura-fundo e proporções corretamente arranjadas, de modo a lembrar, de fato, um escudo de guerra.

Lei da proximidade – elementos próximos em uma estrutura tendem a se agrupar em nossa percepção, ao invés de serem vistos como objetos dispersos. Vamos analisar o novo escudo da Juventus de Turim:


É fácil de notar como há dois traços recurvos pretos na forma de jota formando a figura. No fundo, há um terceiro jota meio que escondido entre ambos, na cor branca. Os três se unem para formar a percepção. Além disso, o conjunto parece formar um escudo, usando a lei do fechamento, que veremos já, já.

Lei da semelhança – objetos com características semelhantes entre si tendem a se agrupar no plano perceptivo. É uma tendência nossa fazer categorizações, de modo a enxergar os membros distintos como sendo mais próximos do que podem efetivamente ser. Apelarei para o distintivo do equatoriano Emelec.

Temos aqui dois pontos de semelhança a serem considerados. As vinte e quatro estrelas na barra superior de fato são semelhantes, o que reforça a percepção de agrupamentos, mas as letras bicolores são contrastantes com relação à cor, dando uma sensação de segregação, que só é vencida pela forma. Mas há algo a agrupá-las: a linha de corte imaginária agrupa as metades superiores e inferiores pela cor do conjunto, e não pelas letras individuais. Portanto, a semelhança pode se dar por uma gama relativamente grande de fatores.

Lei do fechamento – se tem alguma coisa que causa um incômodo em nossa mente é a sensação de incompletude. Procuramos desesperadamente dar sentido a formas que insinuam alguma coisa, ainda que falte algo para completá-la, em um processo um tanto semelhante ao que acontece com a pareidolia. Essa é a tendência ao fechamento de formas abertas tão utilizada na publicidade e, pasmem, em escudos de times de futebol! Vejam o do Ajax da Holanda:


A rigor, temos alguns meros rabiscos pretos dentro de um círculo vermelho. Embora sejam traçados que simplesmente insinuam uma forma, nossa mente vai procurar completá-los de modo a formar o barrete, o rosto barbudo e os ombros do guerreiro mitológico grego que doou seu nome ao clube de Amsterdam.

Lei da continuidade – outra tendência de nossa mente é tentar prever os movimentos que uma determinada forma pode ter. Interrupções bruscas prejudicam a fluidez e parecem tornar mais difíceis as compreensões de uma forma. A sucessão de elementos, ainda que sofra descontinuidades, traz consigo uma propensão em torná-los contínuos, e aí eu posso enquadrar meu bug com os predinhos do distrito. Além disso, alongamentos de partes fazem sugerir uma rota dos movimentos, como no símbolo do Red Bull Leipzig:


Percebam os riscos laterais nos tourinhos. Eles dão a impressão do movimento circular de um salto para o ataque, além de sugerir uma certa velocidade no encontrão futuro. Percebam que os movimentos propendentes à circularidade são mais pregnantes do que angulaturas muito agudas. De fato, quando viramos uma esquina, mesmo que a trajetória tenha a forma de um cotovelo, não mudamos de direção simplesmente virando o corpo, como se fôssemos robozinhos. Há uma certa gradualidade na linha imaginária que produzimos que demonstram uma naturalidade nos movimentos arredondados.

Lei do caráter de participação – Uma parte dentro de um todo tem características definidas pelo seu contexto. Nem sempre uma parte terá a mesma participação em diferentes gestalten, como o raio que significa mau tempo em sentido estrito, mas pode representar ódio em um sentido figurado. Além disso, um eventual mau posicionamento de um único elemento não desvirtua o sentido geral do todo. Olhem com atenção esse antigo escudo do Bragantino:


Apesar da troca das letras do nome, não há nenhum tipo de dúvida com relação ao que ele representa. Conseguimos interpretar perfeitamente o que está escrito, sem a necessidade rigorosa de ter tudo no seu lugar. Além disso, nossa pressa faz com que tendamos a produzir uma “leitura dinâmica” artificial, o que é uma armadilha em provas de lógica ou de português.

Ufa! Que texto gigantesco, mas acho que valeu a pena. A vila do seo Luís Carlos, engenheiro, funcionário da companhia ferroviária, traz não só uma revisita ao passado, mas a possibilidade de compreender um pouco melhor o modo como observamos o mundo ao nosso redor. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

A Gestalt tem sido mais bem considerada pela Publicidade do que pela Psicologia. Não sei se isso não é um equívoco, mas em Pedagogia é vital. Na minha faculdade, eu estudei através desse livro:

KÖHLER, Wolfgang. Psicologia da Gestalt. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.

* plural de gestalt