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terça-feira, 28 de outubro de 2025

O Futebol e suas diferentes filosofias: o insólito Santos e a incerteza do alvo para onde apontar os canhões

(Tem momentos em que não sabemos muito bem para onde ir, e a opção de ser ousado ou ser cuidadoso influenciam para sempre o que teremos para nós. Por que não para um time consagrado?)

“A vida é a soma de todas as suas escolhas”

Camus

Olá!

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O ano era 1974. As casinhas da Vila Diva eram iguais e diferentes entre si. Diferentes nos formatos, iguais na simplicidade operária de um bairro afastado para uma família vinda da Mooca. Muitas com o reboco caindo, várias com canteiros que serviam de horta, algumas com galinhas no quintal, davam um ar misturado de pobreza e ruralidade, e, com poucas exceções, denunciavam se tratar da periferia da Pauliceia Desvairada daquele complexo momento histórico. Havia as casinhas geminadas feitas em um bloco só, havia o cortiço comprido desembocando na rua de trás, havia cômodos-e-cozinhas em terrenos grandes, mas a mais simples de todas daquela rua era a casa da Maria, na verdade um barraco de madeira nos fundos do terreno ao lado da fabriquinha de rolamentos. Ela morava lá com o marido e os três filhos, todos, à moda de Macunaíma, pretos retintos e filhos do medo da noite. Não eram exatamente miseráveis, mas se sujeitavam a morar num canto extremamente precário para acelerar as obras da casinha, agora de alvenaria, em Itaquera. Naquela época, era quase o equivalente a ir para o interior, mas o terreninho era deles e representava uma conquista e tanto. Não tardaram muito a ir embora, satisfeitos com o teto mais sólido.

Das três crianças, lembro só do nome da Sabrina, a menina que deveria ter uns dois anos a mais do que eu, e que fritava minhocas à guisa de macarrão em suas brincadeiras infantis. Nojento e cruel, mas criativo. Minha mãe dizia que eles eram bonzinhos, embora serelepes, e a Maria era cliente dela nas costuras. Por isso, volta e meia eles estavam lá em casa. Eles achavam engraçada a minha brancura Omo Total, notável até mesmo quando eu me encardia no terrenão onde moravam, e tinham muita paciência com meu infante mau humor, não sei por quê.

Eu sei dessas coisas mais pelo que minha mãe contava do que propriamente pelas lembranças próprias, mas há algo marcante relacionado a esse quesito: é da Maria que eu ganhei o presente mais antigo do qual eu me recordo: duas caixinhas de jogos de futebol de botão, uma do meu Corinthians, e outra do Santos do marido dela, que eu tentei a custo lembrar do nome, mas não consegui. Eram daqueles botões que tinham a foto dos jogadores, e não o escudo do time. Levando em conta o branco dos uniformes de ambos, era meio difícil de diferenciar um do outro; mas falávamos de um molequinho de quatro para cinco anos, e não dá para cobrar primores de propriocepção de uma criatura dessas.

O Corinthians de então era uma banda de um único virtuose. Embora houvesse bons jogadores, é inegável que o mundo parque-são-jorgiano girava em torno do habilíssimo Rivellino, enquanto o Santos ainda era uma seleção completa. Carlos Alberto, Marinho Peres, Clodoaldo, Edu, Brecha, Cejas e o então garoto Cláudio Adão compunham a orquestra do maestro Pelé, majestoso ainda nos seus 34 anos, mas prestes a partir para sua aventura ianque, onde multiplicou a fortuna e arrefeceu o ímpeto. O Santos era uma verdadeira máquina de futebol, conhecido em todo o mundo que tinha o futebol como esporte relevante.

O Santos não é somente o maior do momento em que eu nasci, mas é também o time do sogrão e da patroa, motivo que me levou a assistir vários jogos do time da dita vila mais famosa do mundo in loco, inclusive na própria, um estádio pequeno e bom de ver jogos, com o devido silêncio de quem forma fileiras inimigas. Vi bons jogos: contra a Ponte Preta, contra o Flamengo e contra o América Mineiro, dos que me lembro, sempre com a característica que construiu o Peixe: dois ou três experientes dando guarida para a molecada formada na casa. Essa camisa é da cara-metade, que lhe dei em um aniversário, a mais bela do Peixe:

Esse time, assim como é muito comum, leva o nome da cidade onde sua sede está estabelecida. No momento de sua fundação, Santos (cidade) era a segunda maior em importância no estado de São Paulo. Dona do maior porto do país, ponto de chegada de inúmeros imigrantes que chegaram a Terra Brasilis para cultivar a própria sorte, rica em história e natureza, era um local de excelência, conhecida como Terra da Caridade e da Liberdade. E Santos (clube) tratou de levar seu nome para o mundo. Daí, seus vínculos são viscerais.

Santos (cidade) era provavelmente o principal destino turístico do estado nos meus tempos de criança. Casais faziam lua de mel lá, famílias se juntavam para farofar no final de semana ou concentravam esforços para esticar uma temporada. Exceção feita à região portuária, a cidade é razoavelmente bonita e bem estruturada, com ótimo patrimônio histórico, e tem o mar, por óbvio. Sendo muito próxima à capital, ainda é um passeio relativamente barato. Mas Santos (cidade) tem um problema: não tem mais para onde crescer. Sua área é composta por terrenos ocupados ou protegidos, e os cantos onde poderiam ser construídos novos bairros já estão em regiões de outros municípios. Santos (cidade) virou um local espremido.

O mesmo pode se dizer com relação ao clube. Ele é o estádio, o velho campo da Vila Belmiro, onde pouca coisa mais há. A não ser que se derrube as casas do entorno, com um dinheiro que o Santos (clube) não tem, e o que Santos (cidade) provavelmente não quer, não há como construir um novo estádio que seja maior do que já é o Urbano Caldeira, com amplos estacionamentos (arena do Corinthians) e anexos que atraiam um público novo, como um shopping (arena do Palmeiras). Ainda que o projeto esteja nos seus princípios, e por melhor que seja conduzido, o Santos tem uma arapuca: não há como crescer. Santos (clube) é espremido como Santos (cidade).

A situação do Santos (clube) é sui generis. Mesmo que esteja passando por uma fase um tanto escassa, não deixa de ser um dos maiores times do futebol tupiniquim, mas, ao contrário de seus concorrentes mais diretos, fica situado em uma cidade mediana, se comparada a São Paulo, Rio, Belo Horizonte ou Porto Alegre. Isso faz com que sua maior torcida não esteja na própria cidade, um fenômeno do qual o clube se orgulha, porque transcende a limites, mas que traz esse sufoco. Tem muita gente que coloca como solução o deslocamento da sede principal para São Paulo, onde poderia apresentar o renovado Pacaembu, um neo-elefante branco que implora por ocupação desde que o Corinthians, seu principal inquilino, abriu seu boteco próprio. Na Pauliceia, o Santos teria espaço suficiente para tentar reexpandir sua torcida e sua capacidade de engajamento, haja vista a diferença de tamanho entre ambas as cidades. Poderia ser uma boa ideia, mesmo considerando que abandonar a praia pode não trazer os novos barcos esperados, ao mesmo tempo em que os antigos podem pegar o alto-mar e aportar em outros cantos, mas eu não creio que isso aconteça.

Conto mais uma história. Logo que me casei, fui morar no porão da casa do meu sogro. Era isso ou pagar aluguel. Ficamos bons sete anos lá, tempo suficiente para nascerem os três filhos, suficiente também para comprar um terreninho típico ZL, de 5 x 25, próximo do Jardim Elba, então um grande morro pelado. Era preciso expandir, porque o porãozinho de três cômodos já estava apertado demais. Minha filha mais nova, por exemplo, não dormiu em berço, indo direto para a parte de baixo de um beliche. Eu, um jovem assalariado, não vislumbrava dias tranquilos, mas era preciso dar o passo: construir o que seria o andar de baixo do sobrado e se mudar para lá, a fim de acumular novos recursos e depois erguer os cômodos de cima, no momento em que as crianças não fossem mais crianças. O primeiro passo foi dado, mas não o segundo, porque não havia pernas para dá-lo. Financiamentos estavam fora de cogitação, porque eu já precisava pagar o que havia ficado do andar de baixo. Eu dependia de algum fator externo que nunca veio. A mudança para o Centro foi outra história, para contar em momento mais propício.

Não sou favorável a fazer loucuras. Já tive minha época de falsificar documentos para tocar minha bateria na noite, usar cigarros de altos teores, zerar garrafas de bebida barata e outras pequenas ilicitudes que, somadas, poderiam trazer encrencas. E isso já não cabe mais para quem tem filhos a ensinar não fazerem nada disso. Temos limites razoáveis até mesmo para sermos ousados, para não dizer que sou um conservador bundão. Isso explica por que hoje tenho minhas contas razoavelmente controladas, obrigo-me a vestir paletós em dias saarauís e passo perfumes de preço mediano: o mundo lá fora me quer assim, e eu tenho que atendê-lo ao menos algumas vezes. Triste, mas calcado na realidade. Não posso aconselhar nada diferente para um time como o Santos. Afinal de contas, dá sempre vontade de meter o louco, mas nessas coisas de responsabilidade coletiva, não se arca sozinho com as consequências.

É um momento em que o Santos (clube) precisa lidar com cuidado a questão de sua expansão e continuidade. Não é sempre que brotará uma geração que vai resolver seus problemas imediatos. Não acredito em obras do acaso, mas em competência para gerar bons jogadores, mas é certo que existem safras, como de bons vinhos e de excelentes cafés. Por motivo A ou motivo B, há momentos em que os talentos não surgirão, e um clube com base sólida não poderá se fiar em soluções transitórias. Mas ele tem margem de manobra maior do que Santos (cidade). Não dá para a Terra da Caridade e da Liberdade simplesmente levantar acampamento e procurar terreno maior: ela É o seu território. Já o clube não tem esse mesmo limitador. Pelo menos não nesse sentido, já que ele carrega as cores, a história e a vontade de continuar representativo, e isso pode ser em mais de um lugar.

Notem que o laço não pode se transformar em grilhão. Em um sonho idealista, Santos (clube) ficaria em Santos (cidade), especialmente se fosse possível dois fatores: não eliminar patrimônio histórico e ambiental, e estar bem próximo da rodovia, para facilitar acesso dos torcedores vindos da metrópole. Como sabemos que terrenos não dão em árvores, e árvores dão em terrenos, temos a dimensão do problema: não vai dar para construir sem destruir.

Então eu acho que há um momento talvez em que nada resta a não ser baixar a cabeça e aceitar o próprio destino. Reformar a Vila não me parece uma boa ideia, sendo o ideal pegar o prontíssimo Pacaembu e tentar fechar um acordo razoável com seus arrendadores. Basta lembrar que o bairro é protegido por lei dos excessos de ruídos, o que fará com que não sejam os shows sua principal fonte de renda. Como palco de futebol, um acordo com o Santos seria seu melhor caminho, com sua grande torcida, sua certa familiaridade com o time e com a falta de alternativas, visto que os times do trio de ferro já possuem suas casas. Parece a mim que é possível fixar ótimas bases para esse uso, tornando o reavivado estádio da Capital sua sede oficial. Com isso, toda a sua atividade, incluindo diretoria e demais esportes viriam a reboque, e a velha Vila permaneceria lá, para jogos menores, para os momentos de reforma do gramado, para lembrar da sua origem.

A vida é isso, um eterno encarar de muros erguidos por ela mesma, e é preciso saber fazer limonadas com os limões que temos. Lá da praia ainda é possível pegar bons ventos, que impulsionam para o alto da serra e permitem que a história se mantenha, tão grande quanto for possível, quanto já foi um dia. E que esses bons ventos sejam para todos!

Recomendação de leitura:

É um livro que eu dei para o sogrão por ocasião do centenário do Peixe.

JATENE, Celso. 10 Décadas. A História do Santos Futebol Clube. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2012.

E um post-scriptum: ficou chato à beça esse negócio de Santos, cidade e clube. Mas eu tentei tirar e ficou tão confuso que eu resolvi manter, sacrificando a fluidez do texto para obter um pouco mais de clareza entre os sujeitos. Desculpem-me se ficou maçante. A gente vive e aprende.



terça-feira, 22 de julho de 2025

O Futebol e suas diferentes filosofias: a injustiçada Portuguesa e os símbolos deixados de lado

(É bom se atualizar, mas sem que isso apague nossas origens)

“O senhor afasta muitos homens da velha tripulação para embarcar outros na outra margem: tenha cuidado para que não lhe aconteça perder os velhos sem encontrar os novos”.

Giovanni Guareschi

Olá!

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Quando eu era pequeno, morei por um brevíssimo tempo na vila do Manito, um imigrante português que veio para o Brasil em fuga da pobreza e das peripécias de Salazar, lá pela década de 40, em uma dessas travessas perdidas pela então semi-agrícola Vila Ema. Era um lugar curioso, porque não se tratava de um cortiço, mas de um beco sem saída em forma de “S”, todo feito de casinhas de cômodo e cozinha, iniciando pela venda do Manolo (outro português, ora pois), e terminando em uma pracinha onde ficava a casa maior, do próprio Manito. Uma passagem pela lateral garantia acesso à chácara do seo João, lindeira ao Córrego da Mooca, onde hoje reina o asfalto precário da Anhaia Melo. Bem ao fundo, havia um galpãozinho encimado por um tabique onde nosso herói criava pombos, e tudo isso ficava ao lado de uma fábrica de brinquedos, a Bandeirante. Acho que todo mundo já teve um brinquedinho de plástico dessa fábrica. Era evidente que sua intenção era ter uma vila de casas operárias com aluguel de baixo custo, para abastecer a tal fábrica.

Eu ainda era beeeeem criança, e, desse tempo, não lembro de quase nada. A questão é que minha nonna morava na rua paralela, e da laje de onde ela criava suas codornas e estendia suas roupas dava para ver todo o complexo do Manito, e, mais tarde, lá eu praticava uma rara atividade contemplativa: as revoadas dos pombos do nosso caro senhorio lusitano. Eles ficavam circulando toda a área que ia da fábrica à beira do córrego, por cima das chácaras. Faziam traçados que incluíam curvas suaves e repentinas, subidas e descidas, trocas de lideranças, em uma coreografia que me deixava dúvidas de seus motivos, mas que me encantava pela orquestração, que terminava com o pouso no barracão, todos juntos, como se fosse a esquadrilha da fumaça (sem fumaça). Ali, logo ao lado, um puxadinho permitia à dona Rosa, esposa do Manito, estender suas roupas, e daí ambos provavam suas origens e predileções: os coletes e bombachas do bailarico que participavam e as camisas da Portuguesa, a sua grande paixão.


A Portuguesa era, então, um dos grandes times de São Paulo. Uma mistura folclórica de azares inexplicáveis e má vontade arbitral fazia com que os títulos fossem raros, mas a Lusa estava sempre no topo das tabelas, formando esquadrões respeitáveis e, principalmente, disponibilizando muitos jogadores para o futebol brasileiro. Seus jogos contra os papa-títulos eram considerados clássicos, ou seja, a Portuguesa era um deles, um dos grandes, capaz de fornecer jogadores para a Seleção Brasileira e conquistar títulos mundiais, embora fosse atribuída a ela uma espécie de síndrome de Robin Hood: roubar pontos dos maiores para entregar aos pequenos. São pequenas coisas de um grande futebol, já diria Ary Silva.

Estranhamente, entretanto, as camisas que eu via nos varais do Manito não eram comuns de se ver por aí. Nos botecos que meu pai frequentava não se viam, nem na escola, nem nas ruas em que eu brincava. Nos jogos que meu avô me levava no Canindé, a torcida era sempre pequena, muitas vezes superada pelo adversário que a visitava. No Pacaembu, onde meu pai me levava, ela sumia, restrita a um cantinho do tobogã. E isso foi uma das perguntas que eu me fazia nos meus primórdios futebolísticos: por que ninguém gosta da Portuguesa?

Na verdade, a pergunta pós maturidade mudou um pouco, até mesmo porque eu gosto da Portuguesa, sempre fui bastante frequente em seus jogos, e vi gerações diferentes de ótimos jogadores, como Enéas, Toninho, Edu Marangon e outros, até mesmo em sua fase de derrocada, ocorrida após 2013. E, sim, já escrevi sobre ela. A pergunta passa a ser: por que a torcida lusa é tão pequena?

Eu tenho minhas teorias, muitas delas já pensadas por outras pessoas (poucos títulos, concorrência com times maiores, nicho imigratório), mas a principal delas diz respeito a uma contradição de identidade: ao mesmo tempo em que há um vínculo evidente com uma colônia específica, há também uma perda de tradições que faziam sua magia. Vamos detalhar.

As coisas são únicas não apenas porque se distinguem das demais, mas porque se mantêm assim ao longo do tempo. Mais: embora possa se compreender que a identidade é uma relação que se tem consigo mesmo, ela é rigorosamente necessária para que se estabeleça relações com os outros. Aquele que é único carrega consigo a característica de ser distinguível entre os demais, e oferecer justamente isso em suas relações. Afinal de contas, a maneira com a qual eu me apresento em uma relação já diz sobre mim. Pois bem.

A Portuguesa tem símbolos pesados, como as cores da bandeira portuguesa e seu próprio nome, mas que, volta e meia, pensa-se em mexer neles. Houve algumas vezes em que se pensou em mudar seu nome, ideia cretina na opinião deste pouco humilde escriba. Acabou não acontecendo, mas algo teria que sofrer respingos da tentativa de popularizar a equipe. A Lusa tinha como um de seus principais símbolos a Severa, sua mascote humana, coisa rara neste mundo que adota bichos e mais bichos para esta função. É uma dançarina de vira* com todos os trajes típicos, como o lenço na cabeça, o xale, o avental com o distintivo e as tamancas. Representa, portanto, uma das manifestações culturais mais típicas da comunidade portuguesa e mais distinguíveis dentre tantas etnias que temos em Terra Brasilis. Sempre que você for a uma festa das nações, é dessa forma que a comunidade portuguesa se apresentará, indefectivelmente. Sendo assim, a Severa é indubitável.

Acontece que a Portuguesa resolveu mudar sua mascote, passando a utilizar um prosaico, ordinário, trivial, corriqueiro, consueto, banal, comezinho leão, mais um dentre tantos. Há incontáveis times cuja mascote é um leão: Sport, Vitória, Fortaleza, Jabaquara, Remo, Bragantino, Mirassol, Avaí, Inter de Limeira, Cianorte, Comercial de Ribeirão, Villa Nova, Nacional de Manaus, Peñarol de Manaus, Baraúnas, Jacuipense, Hercílio Luz, Potyguar, Capivariano, Bandeirante, Taquaritinga, Inter de Lages, União Barbarense, entre tantos outros que não tive paciência para pesquisar. Fora os estrangeiros, como o Chelsea, Estudiantes, Bologna, dentre muitos outros. Nada contra os simpáticos leõezinhos, que representam força, reinado e tantos outros atributos associáveis ao futebol, até mesmo porque os motivos para a doação são diferentes para cada um deles, mas é que a Portuguesa trocou um elemento forte de identificação por outro muito menos concatenado às suas origens. A dançarina compartilhava unicamente seus dotes com sua coirmã do litoral, a Cachopa da Briosa, o que fazia todo o sentido do mundo. Com o leão, é um entre outros.

A ideia parece dupla: criar uma mascote popular e puxar o saco homenagear sua principal torcida, a Leões da Fabulosa. Essa organizada tem fama de ser pequena (quando comparada a uma Gaviões da Fiel da vida), mas extremamente engajada e, às vezes, meio brusca nas cobranças. Na verdade, conversando no miúdo, a ideia é tripla. Há também um fator muito mais doloroso, que já debati no texto sobre a coirmã santista. A Severa não é reconhecida por este nome pelas demais torcida, mas como “burra”, fruto do preconceito arraigado e tão conhecido contra os portugueses. Ou seja, o terceiro sentido está em uma ocultação, o que, se for verdade, é um erro desditoso. Mas vamos partir da premissa dupla, para não gerar polêmicas.

Ora (direis), símbolo é símbolo. O que resta de efetivo é o concreto, então é lícito que os símbolos sejam mudados e adequados a uma realidade distinta. Certo, interlocutor imaginário, símbolos mudam como a própria vida, mas a questão é que se mira a cabeça e não se acerta nem o pé se a escolha não for ponderada. Vemos milhares de leõezinhos tatuados em braços e pernas hoje em dia, demonstrando o quanto o símbolo de realeza e força é potente e popular**. Perguntado sobre o assunto, o tatuador que me traça rabiscos disse ser, de longe, a mais pedida de todas as figuras contemporâneas, a quilômetros de distância da segunda colocada. Portanto, leões são símbolos bem acolhidos sob vários aspectos. Mas o mascote não é um mero símbolo, e sim uma representação de uma marca com valor intrínseco, o que traz uma espécie de “promessa” fundamental, de que há algo nela que a distingue das demais. A marca marca, e é um elemento tão forte que, por vezes, é o ativo mais valioso que uma empresa possui. Pergunte à fábrica dos Sucrilhos© se você pode usar o tigre dela para fazer sua publicidade – você terá um sonoro “não” sucedendo uma gostosa gargalhada, ou, no mínimo, um orçamento impagável. Mascotes não são objetos que se trocam, como os bibelôs das estantes, porque carregam significados inapagáveis para quem os adota. A não ser em casos especialíssimos. E este não me parece um deles.

A mascote é um símbolo, e, como tal, traslada um sentido abstrato através de sua materialidade. Em outras palavras, seu valor concreto deixa provisoriamente de ser o que é para adquirir um novo significado. E nós não somos só nosso corpo material, mas também tudo o que nós queremos transmitir aos outros e a nós mesmos. Sentimos orgulho em vestir a camisa de nosso time e incorporar em nós toda a chuva de significados que ela nos traz, e dizer ao mundo que aqueles valores são nossos. Dizemos muito através dos símbolos, como a cruz pendurada no pescoço, o círculo pacifista dos hippies, as camisas pretas dos rockeiros. Tudo isso transmite uma mensagem ao mundo que nos rodeia, dizendo como gostaríamos de ser reconhecidos, e sua escolha, mesmo que feita de modo espontâneo, precisa de uma carga de intencionalidade. Até mesmo uma cruz gamada diz muito sobre o que alguém pensa.

É bem verdade que a Portuguesa vem tentando resgatar a Severa, mas não sei até que ponto pode ser tarde. Já há bastante problemas a resolver, embora a recente adoção do modelo SAF possa ser o sopro esperado para resolver o que parecia insanável. Eu faria fortes campanhas de reparação nesse aspecto simbólico também. Deixem o leão para a torcida, onde ele está em bom lugar.

Sendo assim, embora eu não me considere um conservador, tenho reservas a guinadas que, por um lado não conduzem a nada, por outro abandonam o que tínhamos de mais importante. A um mascote, é atribuído um poder semelhante ao de um talismã, ou seja, a atribuição de se trazer boas energias, de atrair sorte, e isso vai além da mera crendice. É o resumo de um sistema de valores e, sendo assim, não se troca assim como se muda de camisa. Não se muda de camisa de um time.

Mas, pensando aqui, um talismã, se atrai boa sorte, não atrairá seu oposto se abandonado? A se pensar***.

Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Esse eu tenho autografado. É um livro de rememoração da maior campanha dos tempos recentes da Portuguesa, que chegou à final do campeonato brasileiro de 1996, que levou consigo toda a torcida da cidade. Comprei em uma feira de camisas na estação São Bento, antes da pandemia, diretamente com o autor, colunista do site www.netlusa.com.br. Nem sei se fazem esses eventos ainda.

ZORZI, André Carlos. Para Nós és Sempre o Time Campeão. A Portuguesa de Desportos no Ano de 1996. São Paulo: Edição do Autor, 2017.

* Ao lado do fado, o vira é uma das expressões musicais mais típicas de Portugal. São como duas faces da mesma moeda: enquanto o fado é mais introspectivo, o vira é mais comemorativo, evocando as chegadas das épocas de colheita e abundância.

** E o quanto temos de evangélicos hoje em dia, especialmente com uma certa flexibilização do lastro moral que norteia a vaidade. A figura do Leão de Judá, uma das designações mais populares para Jesus nos meios cristãos, cresceu na mesma medida em que as referências explícitas à religiosidade do contribuinte se tornaram mais importantes. Quem sabe eu não escreva mais sobre isso?

*** Mera brincadeirinha. Não acredito em poderes metafísicos, mas não quis perder a oportunidade.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

O Futebol e suas diferentes filosofias: o diferenciado Juventus e a inexplicável força da identidade

(Bairrismo é legal? Depende)

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”

Fernando Pessoa, sob o heterônimo Alberto Caeiro

 

Olá!

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Meus filhos nasceram na Aclimação. A patroa não é de São Paulo, nasceu na mesma São Caetano que meu filho mais velho, falecido ainda criança. Do pessoal do serviço, um é do Tatuapé e outra de Itaquera, os outros são de outras cidades. Nenhum deles tece loas ao lugar onde nasceu, nem mesmo onde mora. Não é costume nesta cidade arrotar com gosto ser do Cambuci, ou da Vila Penteado, ou ainda do Rio Pequeno. Essas coisas passam praticamente batidas, e você convive anos com uma pessoa sem saber bem de onde ela é. Mas eu sou da Mooca. Eu nasci na Mooca, na Rua Sebastião Preto, e tenho minha certidão no cartório que fica bem na frente da igreja do Bom Conselho. A parentegem estava lá em peso: a Tia Maria morava na Rua do Acre; o Tio Chico, na Rua Javari, e o Tio Rafa na Capitães-Mores. Já meu avô percorreu o bairro todo com sua casa e com sua oficina: Tamarataca, Madre de Deus, Caetano Pinto, Campineiros e terminando seus dias na Rua do Oratório, onde alugava o salão da Kathy, uma senhora alemã que mandava pacotes de doces divinos, melados a ponto de dar diabetes mentais. Sou da Mooca, e todo mundo que lá nasceu ou mora proclama o fato a alta voz.

Alguns moradores de Santa Cecília, Vila Madalena e Ipiranga se ufanam dos bairros em que nasceram. Um pouco pela tradição, muito pelo que representam, são lugares que carregam uma espécie de distintivo dos que lá habitam, como os apartamentos com chão de tacos, os becos grafitados e a vista para o Museu, respectivamente. Mas quando pensamos em São Paulo, e disso falamos de mais de doze milhões de habitantes, nenhum bairro é mais bairrista do que a Mooca.

Esse é o tipo de fenômeno que é difícil de explicar. De fato, a Mooca é um bairro ainda aprazível, com bons remanescentes dos seus tempos operários, como as casinhas da Rua do Hipódromo, as insistentes fábricas ao longo da ferrovia, os casarões da Paes de Barros e até mesmo dos cortiços da parte baixa, para onde a maior parte dos imigrantes acorreu em sua chegada ao Brasil. Mas que não é assim tão diferente de outros bairros para virar um distintivo tão peculiar.

A Mooca tem suas personalidades, seus edifícios, seus abundantes restaurantes, cantinas, pizzarias, trattorias, botecos, suas mazelas e suas venturas. Tudo isso há em outros lugares, mas a Mooca tem um time. A Mooca tem o Juventus.

A história do Juventus se mistura à própria história do bairro, e é um pequeno compêndio do que é a Mooca. A origem italiana dos proprietários do Cotonifício Crespi é o único ponto em comum com os operários que por lá fundaram um time com o beneplácito de seus patrões. Ainda hoje quem passa pelas bandas do pequeno estádio da Rua Javari vê os testemunhos das pequenas casinhas que ladeavam a imensa fábrica têxtil. A indústria, as casas e o campo eram o resumo da vida de uma população muito pobre, que ainda trabalhava praticamente sem legislação trabalhista e pouca proteção prática em serviços extenuantes e perigosos. Lembro de muitos dos meus velhos parentes que exibiam cicatrizes com um certo orgulho, porque eram, na verdade, sinais de sobrevivência, um certo heroísmo frente àqueles que sucumbiram, de quem contam fartas histórias. Isso ocorria em todos os bairros operários, mas a Mooca tinha essa espécie de comunhão de comunidades que a tornou singular.

O campo do cotonifício virou um tipo de refúgio único de lazer para onde desembocavam todos esses trabalhadores, e lá criaram um movimento forte de identidade. Havia outros campos, é verdade, mas o clube resultante, uma fusão dos times de Turim, com as cores de um e o nome do outro, virou um amálgama para as classes sociais que giravam em torno da fábrica. Afinal de contas, a Mooca é lembrada como bairro de italianos, mas lá havia os espanhóis, os armênios, os portugueses, os gregos, os alemães, os russos, os libaneses. Tudo isso porque lá estava a Hospedaria dos Imigrantes, hoje transformada em espaço cultural, primeiro abrigo daqueles que vinham do mundo todo para tentar sua sorte nos trópicos. Não encontraram o bairro vazio, entretanto, já que lá havia várias comunidades afrodescendentes que cercavam o centro e os nordestinos que habitavam cortiços “especializados” na beira do Tamanduateí.

Isso tem a ver com criação de identidades. Uma boa parte vem da nossa busca por distintivos pessoais, e outra por símbolos que nos moldam como somos. Um mooquense dificilmente é torcedor do Juventus como time principal, mas também dificilmente deixa de adotá-lo como uma referência à sua procedência. E por quê?

É que não somos unívocos. Temos uma identidade genética, mas também temos uma identidade adquirida. Da primeira, em geral não temos muito o que mudar, porque está em nossa constituição física, com hereditariedades imperativas. É aquela história de que não adianta comer fermento; o baixinho é baixinho e pronto. Já com relação ao ambiente que nos cerca, ele nos torna boa parte do que somos porque é desejável, ou mesmo necessário, ter conformidade. E isso faz com que tenhamos orgulho ou vergonha de acordo com que o consenso estabelece.

Quando você vem no domingo de manhã para a região da Javari, vê uma multidão de grená se encaminhando para o antiquíssimo estádio, com sua área coberta sui generis e arquibancada em concreto armado. É uma estrutura simples, que os apaixonados não querem modificar de jeito algum, embora fosse desejável que se tornasse mais hodierno, caso se queira evolução. Mas as faixas da torcida dizem “ódio eterno ao futebol moderno”, não porque não se queira que o time cresça, mas porque é o grande catalisador dessa identidade. É muito diferente estar lá, porque os adversários não são chamados para a briga. Pelo contrário até, nos botequins próximos juventinos se misturam a nacionalinos, lusos, interioranos dos mais diferentes locais e bebem seus gorós antes e depois das contendas, sem que isso vire um campo de batalha como acontece com torcidas maiores, e sem que isso represente ser menos aguerrido. É um diferencial que demonstra hospitalidade do clube e do bairro, e isso agrega. Os frequentadores observam isso e tomam como valor, de modo a arraigar mais e mais tal comportamento.

A torcida é como uma tropa de um exército de Brancaleone, aquele de quem pouco se espera, mas que muito entrega. O apelido do Juventus é Moleque Travesso não à toa. Não foi uma mascote forçada, como os leões espalhados Brasil afora, mas ganho pela torcida e pela imprensa, por aprontar suas artes contra os grandes e perturbar sua paz, principalmente no seu grund da Rua Paulo, a Rua Javari, o pequenino campo do cotonifício.

Minha identificação com a Mooca não poderia ser mais vinculada ao Juventus do que já é. Da rua em que nasci, são dez minutos a pé até o clube social, construído no antigo varjão conhecido como Tchipum. Já do campo, duas casas à direita e se chega ao lar do Zio Chico e da prima Nélide, onde volta e meia caem bolas chutadas pelos beques fazendeiros. Nos últimos tempos, enquanto o pessoal procurava lugares cada vez mais longe para estacionar, eu colocava o possante espertamente na porta da garagem da prima, quase zombeteiro, para depois pegar um macarrão com polpetta com a veneranda parenta. É certamente o estádio onde eu mais assisti futebol na vida, favorecido por todos esses fatores.

Dizem que a Mooca tem um time, mas também o Juventus tem um bairro, fenômeno raro nas terras de Pindorama. Um tem orgulho do outro, mesmo nos momentos de baixa, porque não é preciso sair da Mooca para encontrar o símbolo de guerra daquela gente. O Corinthians não é do Tatuapé, o Palmeiras não é da Água Branca, o São Paulo não é do Morumbi. Eles são da cidade, do país, quiçá do mundo, mas só o Juventus é da Mooca, e ela, coincidência ou não, é o bairro mais bairrista de São Paulo.

Há um porém oculto, que precisa ser tratado com cuidado. O bairrismo é uma aldeia que fica no meio do caminho que leva à xenofobia, e a estrada se alarga após passar pelo seu acesso. Isso porque o sentimento de identidade, por si só, não é ruim. O problema é quando adquirimos a sensação de que ninguém que vem de fora é digno de compartilhar o nosso espaço. A Mooca, assim como todo o Brasil, foi construída não só pelos imigrantes italianos, mas pelos índios que lá já estavam e pelos negros que foram trazidos na marra, assim como por outros europeus e pelos asiáticos, especialmente do Oriente Médio. Quem vem de fora, não percebe tanta diferença com relação a outros bairros tradicionais, então é na história e nas tradições que a Mooca se torna quem é. E ela se escreve nos ciclos de gente que vem e que vai, comprovando o dinamismo da existência humana, seja no plano individual, seja no âmbito das coletividades. Se o bairrismo do mooquense se mantiver nos limites identitários, teremos um povo que se orgulha, que é farrista, que fala alto e gosta de onde vive, que cuida de suas ruas e de sua vizinhança; se passar disso, será perdida toda aura de empatia que desemboca até mesmo no Juventus.

Tomados esses cuidados, e tirando o discurso passional tão típico dos italianos, algumas coisas nos fazem desconfiar dos elementos motivadores para o bairrismo deste local. A Mooca é muito antiga, com seus primeiros registros históricos surgindo apenas dois anos após a fundação de São Paulo. É povoada de fábricas e suas consequentes vilas operárias, o que dá um certo fechamento nas comunidades que se formam. Esse é um fato que se deu em outros bairros também, como o Brás e o Bom Retiro, mas, por diferentes motivos, as coletividades desses locais foram se esgarçando, modificando e dispersando, com remanescentes diferentes daqueles que lá estavam no processo de industrialização. Na Mooca, que se manteve fabril por mais tempo, e que não teve nenhum evento causador de diásporas (como a construção do metrô ou de alguma rodoviária inútil), as mesmas comunidades se mantiveram mais intocadas, e, com isso, aquele clima mais familiar, de todo mundo se conhecer há gerações. Além disso, e mais uma vez pela origem industrial do bairro, foi aqui que movimentos anarquistas e sindicalistas chegaram com mais força, o que reforça o sentimento de pertencimento que nasceu das células e se espraiou para os botequins e praças; para os pontos de convívio, em suma – indo parar no futebolzinho sagrado do fim de semana. E isso causa a sensação de um mundo à parte, de cidade dentro da cidade. Quem é da Mooca se considera mooquense antes de ser paulistano. Para os mais exaltados, antes de ser brasileiro. O Moleque subsiste porque agrega todos esses valores, é a bandeira grená que esse povo carrega para gritar “orra, meu” pela cidade toda.

Inclusive eu. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Publicação oficial patrocinada pelo clube:

AGARELLI, Ângelo; GALLUPPO, Fernando; ROMANO NETTO, Vicente. Glórias de um Moleque Travesso. São Paulo: BB Editora, 2012.

terça-feira, 6 de maio de 2025

O Futebol e suas diferentes filosofias: a histórica Portuguesa Santista e as exclusões que estão carimbadas em nossas cabeças

(É bom ter orgulho das origens, e não podemos ser culpados por causa disso)

“Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!”

Fernando Pessoa

Olá!

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No prédio que habito, há um senhor português. Fiquei sabendo disso quase que por acaso. No entra-e-sai constante e no trafegar dos corredores, já havia o visto, mas era aquela coisa do bom-dia, boa-tarde, boa-noite e pouco mais do que isso. Entretanto, ele me viu com uma determinada camisa no corredor de entrada e ficou quase emocionado, puxando bem meia hora de papo. Contou-me sobre a infância na comuna de Boticas, na região de Trás-os-Montes, ao norte, onde se fala com um certo puxadinho do espanhol. Falou de como seu pai fugiu da ditadura de Salazar e se estabeleceu na zona norte de São Paulo, abrindo um botequim próximo do Campo de Marte, onde os recrutas da aeronáutica iam gastar seus parcos soldos com linguiças e cachaças. Contou ainda como conheceu sua patroa, igualmente portuguesa, e vinda de Penafiel, igualmente no Norte, mas mais próxima do Porto. Contou dos filhos, dos gatos e dos peixes, e viramos amigos, um dos poucos que tenho no prédio. Já comi de sua realmente saborosa bacalhoada e lhe trouxe taiadas e licor de cambuci do Vale do Paraíba, e, com isso, vamos enfrentando o mau cheiro do centro de São Paulo.

Mas que misteriosa camisa foi essa, que despertou tantas lembranças doces e fez nascer uma amizade? É essa aí embaixo:

A Portuguesa Santista é mais uma das equipes fundadoras da Federação Paulista de Futebol, prima-irmã da sua homônima da capital, nascida da colônia portuguesa da cidade de Santos, ao verem que os espanhóis da cidade fundaram seu clube Hespanha, hoje Jabaquara, já discorridos por aqui.

Não tem sido bons os últimos tempos da Briosa. Ela foi rebaixada à terceira divisão do Campeonato Paulista e agora vai ter que penar para recomeçar sua missão de voltar aos melhores tempos. Estrutura ela tem, já que se trata de um belo clube, que, como tal, é até mais robusto que seu vizinho célebre, o Santos. Mas ela padece dos males de vários outros fundadores da Federação. Ela cumpre a dura missão de compartilhar a cidade com um dos grandalhões, que cresceu muito exatamente no momento em que as torcidas se amalgamavam, além de ser muito marcadamente próxima de uma colônia específica, que, mesmo numerosa, cada vez mais tem se mesclado com a população geral. Isso faz com que o clube caia na mesma roda de seu conterrâneo, o precitado Jabaquara. E o círculo vicioso é muito difícil de sair.

Isso tudo não tira as suas virtudes. Além da tradição, houve momentos em que a Santista esteve mais próxima dos seus rivais, e mesmo hoje ela tem na sua história um dos principais patrimônios. Como não é possível que um torneio termine empatado, mesmo onde há o maior equilíbrio possível, sempre há quem leve e quem apanhe, ou seja, há o primeiro e há o último. Como o Santos foi acumulando títulos e revelando jogadores meia-boca do tipo Pelé, Juary, Pita, Coutinho e Edu, a Briosa foi ficando para trás, até atingir o lugar onde está hoje: um ponto intermediário no futebol paulista.

Entretanto, a Briosa tem uma dor um pouco mais oculta, que incomoda mais. Não são poucos que a chamam de “burrinha”, em razão do estereótipo que se formou de que os portugueses são simplórios, faltos de inteligência, tardos de pensamento. É diferente do que acontece com o Taubaté, burrinho da Central, em que o animal representa os tropeiros que povoavam a região. Neste caso, o símbolo é exibido com orgulho, porque traz uma série de adjetivos positivos e tem conotação histórica. Diferentemente, a origem remota da atribuição aos portugueses diz respeito, provavelmente, à dificuldade de compreensão de certos termos utilizados pelo vulgo brasileiro. Como sabemos, na formação do povo do Brasil há muitos ingredientes que não estão presentes na cultura portuguesa, especialmente elementos africanos e indígenas. Isso tudo sem contar que a distância estabelece uma realidade muito distinta entre a antiga metrópole e colônias, com diferentes usos, costumes e necessidades. Desta forma, os portugueses interpretam termos forjados no Brasil com literalidade, enquanto o campo semântico coloquial se desloca para outro sentido. Inúmeras expressões que utilizamos corriqueiramente em nosso quotidiano são recebidas com estranheza pelo luso nativo, que pergunta, por exemplo, como é possível “matar tartarugas a beliscão”, quando queremos, de fato, dizer que temos poucos recursos para enfrentar dificuldades. Os coloniais aproveitam, e deitam e rolam, alimentados pelo ressentimento decorrente da situação de dominação. Vingam-se do grandalhão pisando em sua sombra. São os ingredientes para o caldo problemático.

A principal questão é entender por que a ofensa se mantém mesmo após perder seu sentido original, dada uma inversão nas relações. Hoje, os portugueses reclamam do abrasileiramento dos seus linguajares, o que é um distintivo da mudança de direção nas influências culturais. O diabo é que começamos a fazer as coisas sem nem perceber direito porque as fazemos. É aquela mesma coisa de tentar explicar a origem de um olho. Depois de tantas transformações, é óbvio que os elementos presentes atualmente não se explicam por si só, e parece que as coisas sempre foram do jeito que são agora. Mas o olho um dia foi um mero nervo sensível à luminosidade, para depois ganhar um abaulamento que lhe permitiu captar luz de partes distintas, e ganhar membranas, e contratilidade, e esfericidade, até se tornar irreconhecível para o que foi sua origem mais remota. Hoje em dia, não faz mais sentido pensar em uma relação de dominante e dominado. Não é mais justificável a vingança possível, porque os motivos palpáveis sumiram, mas o vestígio ficou, e a ridicularização que sobrou se dirige a quem não a merece.

Meu amigo português se melindra dessa mesma pecha que lhe é imposta no particular. Eu, contemporizador, digo-lhe para não ligar, para entender que a tendência diminui a cada dia e, politicamente incorreto, que as loiras têm dividido a inglória com eles. Mas ele ainda insiste que não há conforto em ser chamado de burro a vida inteira. Concordo.

A situação é de exclusão. Ser burro é coisa de quem está alijado da intelectualidade, e está ligado a uma pretensa incapacidade de até mesmo pensar por si só, quanto mais gerir coisas importantes. O subterfúgio de dizer que é só uma brincadeira não se sustenta quando você recebe a notícia de que o professor que te ensinará é um português e os ponteiros do seu desconfiômetro são acionados. Isso vale para qualquer forma de preconceito.

Ser excluído não é fácil, e eu, homem, branco, paulistano, classe média baixa, heterossexual e cisgênero, tenho dificuldades para me encaixar em situações de real exclusão para assumir o ponto de vista de quem sofre o preconceito. É bem verdade que minha posição não-religiosa é boa candidata, mas eu não milito nessas questões, e pouca gente sabe do meu ateísmo. Mas, de tanto raciocinar, achei um bom exemplinho caseiro, que vem da minha condição de diabético.

Se há algo que posso falar sobre minha parentagem é que as palavras planejamento e organização não fazem sentido para os seus membros. É extremamente comum que só decidamos coisas de Natal, Páscoa, Dia das Mães e outras festividades na véspera (ou até no próprio dia). Isso vai influenciar em tudo - se não sabemos nem onde vamos comer, obviamente não sabemos o que vamos comer. Só que a vida caótica pode até ser divertida, porque gera muitas histórias para contar, mas tem seu preço.

Eu sou diabético, já contei para vocês. Isso significa que é preciso um pouco mais de cuidado no preparo de minhas comidas, como é óbvio. No meio do pandemônio, é um pratinho minúsculo que precisa ser feito para atender minha necessidade, e que normalmente acaba ficando para o final, para quando a anarquia já houver ganho governo. Faz sentido até, porque fazer uma panela de doce rende para muita gente, basicamente todo mundo, fora eu. Mas quase todo ano acontece de não dar tempo de fazer a minha tacinha, o meu pratinho, a minha sobremesinha. Como normalmente o estado é de balbúrdia, falo para deixar para lá, pego uma fruta, como só um pedacinho, porque prefiro a paz possível ao doce impossível. Mas, ainda que eu procure não me importar, fato concreto é que eu sobro no dopopranzo. E não há como dizer que não fico na condição de excluído, que eu não sinta isso. Não que eu quisesse um doce a qualquer custo. O que eu queria mesmo é não ser diabético para não dar trabalho a ninguém e não me fazer passar vontades.

Essa condição é tão arraigada que eu acabo tendendo a achá-la natural. É básico em um pensamento utilitarista que o melhor benefício deve ser distribuído para o maior número de pessoas possível, então fazemos associações. O maior benefício possível certamente não vem de doces dietéticos, muito mais caros. Portanto, a maior distribuição possível está para os não diabéticos. 

O mercado precifica os produtos diet de acordo com a necessidade dos consumidores, porque o custo não é uma justificativa plena. Um bom exemplo é o das bananadas que tem ingredientes a menos nos artigos zero, e mesmo assim custam mais. Leia as composições e veja que nada há a mais no produto mais caro, mas a menos.

No final, é coisa assim: só dá para fazer um doce zero, então nem basta para todo mundo. Já do doce padrão pode ser feito dois ou três, atingindo todos, menos um. Eu entendo e me conformo, mas é óbvio que, se eu levar de cabo e a rabo, há uma lógica excludente aí.

Não dá para dizer que uma vida inteira levada na exclusão é fácil, é justa. Então sou obrigado a me alinhar com meu amigo português, e concordar que há tempos que começam e tempos que se encerram, como diz sabiamente o Eclesiastes, aquele livro completamente fora da curva na Bíblia. Idem com o time que tem uma mascote tão criativa e representativa, a Cachopinha, uma dançarina de bailarico com seus trajes típicos, cabelos morenos e cores do país e do time, um time cuja história ora é um fado, com sua poesia triste, e ora é um vira, celebrante da alegria, o que, no final das contas, é um espelho da vida de todos nós. Alguém tão igual a nós não pode ser considerada maior ou menor por conta de sua procedência. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

É o livro do centenário da Portuguesa Santista, que relata suas aventuras e desventuras década a década.

SILVEIRA, Álvaro; ROGÉRIO, Paulo. 100 anos: Sou Mais Briosa. Santos: Realejo, 2017.

segunda-feira, 17 de março de 2025

O Futebol e suas diferentes filosofias: o veterano Nacional e a estranheza de quem não vê a importância de nosso universo refletida no mundo inteiro

(Sabe quando você acha que seu mundo é o mundo de todo mundo?)

“É impossível para um homem ser enganado por outra pessoa que não seja ele próprio”

Ralph Waldo Emerson

Olá!

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Eu já falei sobre ferrovias neste meu blog em algumas ocasiões, muito por força de meus passeios por Minas Gerais ou de cidades paulistas que preservam suas relíquias ferroviárias (aqui e aqui), mas bem poucas vezes de minha relação pessoal com elas. Eu nunca fui um usuário muito frequente das linhas férreas*, exceção feita a dois momentos bem marcados. O primeiro deles foi lá pelo meio da década de 80. Eu trabalhava no centro de São Caetano do Sul e estudava na Vila Prudente. Olhando no mapa, são regiões bastante próximas, mas o ônibus que ligava ambas dava uma volta daquelas que parecem a avó contando uma história. A linha reta da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí tornava o trem muito mais elegível, inclusive mais barato.

Por que a questão, então? Bom… quem chora loas ao passado simplesmente não sabe o que está fazendo. Os trens da EFSJ eram pocilgas sujas, cheias de buracos nos vidros e que recendiam àquele divertido cheiro de pano queimado, tão típico dos cigarrinhos “envenenados”. Eram dias em que ainda era encrenca ser pego com um desses, e minha tática era simples: tão logo o trem andasse, acendia eu mesmo o meu caretíssimo Marlboro. Se os hômi baixassem o baculejo na galera, eu já tinha a desculpa entre os dedos: não tenho nada com isso. O pior que aconteceria seria ter que jogar o cigarro fora, ou, no limite, ter que descer da composição. Mas, como era muito mais rápido e descomplicado do que ter de explicar, eu-rapazola, que não tinha nada a ver com a marola alheia, achava que valia o risco.

O segundo era anterior, nos finais de semana em que visitávamos meus primos que moravam na Barra Funda, filhos da tia Júlia. Eles tinham um ferro-velho na Rua da Várzea, bem perto da linha, e quando íamos lá meu avô já tinha seus planos: pegar o trem e andar uma estação** até a estação Água Branca, onde ficava o campo do Nacional, o time dos ferroviários.

Eu continuei dando meus pulos no velho campo da Rua Comendador Souza até os dias de hoje, para acompanhar as desventuras do tradicional time. É uma daquelas empreitadas absolutamente tranquilas, em que você pode se sentar na arquibancada coberta e comer seus amendoins e até apreciar um bom futebol de vez em quando.

O Nacional, a despeito de seus atuais passeios pelas divisões inferiores do futebol paulista, é de uma tradição inigualável. Embora não possa ser considerado o clube de futebol mais antigo do país, tem uma conexão direta com o primeiro jogo de futebol praticado com registro em Terra de Santa Cruz. Afinal, foram os ferroviários da São Paulo Railway que enfrentaram os funcionários da Gaz Company naquele longínquo 1895, em um campo perdido na Várzea do Carmo, aqui perto de casa. Charles Miller, o inaugurador do esporte bretão em São Paulo, trouxe as bolas e as regras do esporte para começar nossa longa saga dentro das quatro linhas. O time dos ferroviários manteve-se jogando partidas isoladas e participando de pequenos torneios incipientes, até que resolveu se organizar em um clube em 1919, a verdadeira data de fundação. O nome original foi mantido até o término da concessão da ferrovia em 1946, quando foi nacionalizada, o que inspirou a adoção do nome atual. Sendo assim, o escudo da porta da federação é diferente daquele do momento da fundação. O mascote do time, um baixinho com um apito e cap típico dos controladores de rotas, ainda relembra os tempos em que os trens eram empreitadas que contratavam muita gente.

O Nacional nunca esteve na crista da onda do futebol brasileiro, embora tenha revelado muitos craques que se destacaram em clubes maiores, como Dodô, Deco, Cafu, Magrão, Sérgio Manoel e outros. Seu campo faz parte do Triângulo do Futebol, junto dos CTs do Palmeiras e do São Paulo, naquela região da Barra Funda onde antes vicejava as várzeas do Tietê e as fábricas da família Matarazzo. Recentemente, a arquibancada do estádio foi tombada pelo patrimônio público, em vista do avanço da especulação imobiliária sobre a região. O clube ganhou algum interesse para os praticantes de futebol society, no espaço onde antes havia outras práticas, mas o time em si continua na semi-obscuridade. 

Há um sentimento estranho. O espírito das partidas, a agitação da pequena Almanac**, os contornos dramáticos da sua existência fazem com que os confrontos ali ensejados tenham uma dimensão muito maior do que tem na verdade, como se fossem acontecimentos no mínimo municipais, quando, de fato, pouco saem do espectro da própria Barra Funda. Mas a sensação não é essa. Vocês já não tiveram a impressão de que um fato ou acontecimento marcante em suas vidas era de conhecimento ou compartilhamento muito mais geral com o mundo aos seus redores?

Na vida de todas as pessoas há coisas que nos igualam como seres humanos, e há coisas que nos diferenciam. Como o comportamento de espécie é atavicamente muito forte, nós temos uma tendência a buscar um certo nível de conformidade. Quem está distante do paradigma tem aquela incômoda fama de diferentão. Por esta razão, quando saltamos do nosso âmbito privado, vamos procurar no universo ao nosso redor confirmações para nossas crenças e costumes mais privados, mais individuais, ou, no máximo, dos grupos menores, mais fechados.

A questão é que certos comportamentos individuais se tornam arraigados, e procuramos nos aprofundar nessas pequenas coisas que nos são caras. E, no caso do apreciador do time menor, redunda na busca de informações que não dão em árvores. Coisas sobre Corinthians, Palmeiras e os outros grandões dão em árvores, e não demandam nenhum tipo de esforço. Já para saber mais sobre o Nacional, é preciso ir às fontes mais diretas, conversar com os poucos torcedores, com os velhos frequentadores, com os funcionários clássicos. E isso carrega nossa consciência para muito perto do objeto a ser conhecido.

A coisa ser tão envolvente acaba por trazer transformações em nós mesmos. Todas as vezes em que saio do Nicolau Alayon com a camisa listrada tenho a sensação de que todo mundo sabe muito bem qual é aquele time, sua escalação completa com reservas e comissão, seus títulos e posições nos torneios que disputa. A verdade é que não é nada disso, nem perto. Talvez os mais jovens até pensem que é a camisa do Porto, e é de estranheza quase geral minha disposição em acompanhar um time da A4, que não joga uma divisão nacional há muito tempo.

Isso não acontece somente no âmbito do indivíduo, mas dos grupos pequenos, que compartilham interesses que fogem do terreno mais comum. Eu, por exemplo, recitava as formações de minhas bandas favoritas álbum a álbum, dando lista completa das músicas e detalhes mais técnicos, como engenheiros de som e produtores, ou até mesmo estúdio de gravação e ateliê de design das capas. As pessoas às vezes me perguntavam de onde eu tinha tirado tanta informação e porque eu tinha tanto interesse. A coisa é tão mais difícil de entender quanto mais jovem for a pessoa, pelo óbvio motivo da diferença de mídias. Meu aprendizado se deu com os amigos mais velhos dos meus primos: Heber, Tuco, Daily, Serginho e outros que nem lembro mais, todos na faixa de 5-7 anos mais velhos que eu-fedelho, que ficava flanando pelas salas enquanto meus companheiros mais velhos ouviam e discutiam sobre música, o que é didático. O ritual era sempre semelhante. Um dos rapazes comprava um disco novo e todo o proletariado se juntava para escutar a peça, na maioria das vezes já com fitas cassete para levar sua cópia para casa. O mais frequente era o precitado Daily***, que morava no porão de uma quitanda e gastava todos os seus cobres com discos e derivados. O ambiente subterrâneo já dava um ar literalmente underground em sua saleta forrada de pôsteres, que retumbava com os potentes alto-falantes comprados a peso de ouro e consequente miséria indumentária pelo indigitado, o que lhe fazia parecer um misto de hippie e mendigo. Não falavam só dos grandalhões, como Led Zeppelin e Deep Purple, mas de coisas verdadeiramente difíceis de se ouvir, como o bizarro krautrock tedesco do Can, dos discos mais progressivos da Electric Light Orchestra ou dos então recém-surgidos grupos da New Wave of British Heavy Metal, até então desconhecidos.

Esse pequeno universo, para aquele grupo e para mim, parecia tão definidor do que era a música, a própria sociedade e o universo, que dava a sensação de que eu sairia do porão do Daily e veria todo mundo cabeludo e descabelado, roupas velhas e tênis sujos, rabiscando na parede nomes com AC/DC, Rock Goddess ou Judas Priest. Mas não. A realidade era Olivia Newton-John, ABBA, Bee Gees, além dos mega-ídolos nacionais, como Roberto Carlos e Amado Batista.

Não se trata de pensar em humanos estruturalmente diferentes dos demais, mas de interesses comuns substituídos. Fossem vocês àquela época para me perguntar sobre novelas e eu nem ao menos saberia a emissora que as estivesse transmitindo. Mas um imenso público conhecia atores, diretores, trama, capítulos, personagens e demais que-tais com a mesma vivacidade que eu sabia de minhas bandas. Por isso, somos iguais, diferentes em nossas particularidades.

Mas o que explica a sensação de que o mundo deveria saber tudo o que sei? Bem, Freud explica e a nova psicologia aperfeiçoa a explicação, com minhas associações feitas por conta própria.

A projeção, no espectro psicanalítico, é um mecanismo de defesa psíquica que visa proteger a mente de uma pessoa ao atribuir a outrem as falhas que lhe podem causar incômodo ou desconforto. Isso acontece porque o conflito interno pela admissão do fracasso é maior que o subterfúgio do repasse pela responsabilidade. A admissão da falibilidade é especialmente danosa ao ego, que não processa a possibilidade de que ele é defectível, por isso esse processo é feito inconscientemente: ao encarar a frustração, a psique procura desesperadamente algo fora de si, e projeta sobre ele a sua causa. Quando chega a nível consciente, o fenômeno já aconteceu - sou tão responsável pelos meus sucessos, quanto inocente pelos meus fracassos. Devem ser inúmeras as vezes em que você ouviu alguém dizendo que sua vida está amarrada porque há quem lhe coloque olho gordo, e pouquíssimas onde alguém admite erros de conduta, como preguiça, teimosia e congêneres.

A projeção é deslavadamente visível no efeito ator/observador, de quem já falei neste texto, mas não só. Ainda que a projeção freudiana diga respeito a sentimentos pesarosos e negativos, dessa ideia podemos depreender que temos a característica de imputar aos outros coisas que são nossas. A questão aqui é que talvez não seja somente o caso de projetar por mecanismo de defesa, mas justamente pelo sentimento de conformidade, incluindo aí visões positivas ou neutras sobre a realidade.

Nós sabemos que vivemos em sociedade e que isso representa um todo distinguível dos próprios indivíduos, mas também sabemos que é a partir de nós como indivíduos que parte nossa visão sobre esta mesma sociedade. Desta forma, ainda que a sociedade como um todo possa ser considerada uma entidade autônoma, ela só existe pelo ponto de vista da percepção das pessoas que a compõem. Essa percepção é enviesada, porque nós não temos o universo inteiro dentro de nós - interpretamos o ambiente a partir de nossas crenças, de nossas opiniões, de nossos valores e de nossos costumes, o que faz com que esses fatores “contaminem” a nossa visão. Enquanto eles estão plenamente aderentes àqueles comumente assumidos no meio, nada a contestar. Mas, a partir do momento em que eu entenda que mesmo meus hábitos mais estranhos e preferências mais incomuns são subsumidos na mesma proporção pela sociedade, ou seja, que eu os projete para o ambiente onde eu convivo, eu sinto a estranheza de não encontrar reflexo real no mundo. Eu saio do campo do Nacional achando que vou encontrar inúmeros torcedores com a camisa listrada por aí, e não encontro, da mesma forma que eu saía da casa da rapaziada mais velha achando que ouviria Magma ou Faust a cada esquina, mas o que havia era disco music. É o efeito do falso consenso, um viés cognitivo de atribuição que nos faz entender que os nossos hábitos e valores são de boa aceitação e de farto uso pelo mundo inteiro. É o famoso “mundo que gira ao redor do umbigo”.

É mais uma prova do quanto somos naturalmente egocêntricos, e somente depois de muito convívio e confronto que nossos eus se adaptam melhor a uma vida em comum. Como tendemos a perceber nossos conjuntos de valores como preciosos, vamos procurar grupos que os confirmem, o que reforça ainda mais essa percepção, de modo a atribuir uma ideia de consenso que se estende para além dos limites desse grupo. Só que não.

Isso traz, por outro lado, a sensação de exclusividade. É como se a estranheza com que os outros lhe encaram fosse transformada em um sonoro “você não sabe o que está perdendo”. Acompanhar o Nacional é para poucos, e isso porque somente quem tem verdadeiro interesse pelas raízes do futebol e do futebol como esporte entendem o sentido de se sentar na arquibancada memorial. Os outros gostam de grife, não de futebol. Bons ventos a todos!

PS: você acha que esse viés não te atinge? Leia sobre isso no meu texto sobre o viés de ponto cego.

Recomendação de leitura:

Lançado como comemoração pelo centenário do clube, o livro abaixo traz histórias e fotos dos principais momentos do clube, escritos por um dos raros torcedores e prefaciado por ninguém menos que Mauro Beting.

ILHÉU, Leandro Massoni. Nacional: Nos Trilhos do Futebol Brasileiro. São Paulo: Martins Fontes, 2019.

*Cumpre distinguir aquilo que chamamos de trem do que denominamos metrô, que é, no final das contas, um trem também, mas que tem toda uma cadeia própria de construção e utilização. Então é sobre o primeiro que estou falando.

** Almanac é a torcida organizada do Nacional

** Pronuncia-se Dailí

quarta-feira, 12 de março de 2025

O Futebol e suas diferentes filosofias: o pequeno Jabaquara e a lógica que amarra as pernas dos pequenos

(É possível alguém das beiradas ir parar no centro? Difícil)

“Em questões de dinheiro, todos temos a mesma religião”

Atribuído a Voltaire

Olá!

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Jabaquara é um bairro daqui de São Paulo. Ele ficou especialmente célebre a partir da década de 70, quando virou a última estação da banda sul do metrô e seu pátio de manobras, aquele misterioso local onde os dorminhocos vão passear ao fim das viagens, para acordar perdidos. Essa notabilidade foi acentuada quando foi criado o terminal rodoviário, que substituiu com vantagem a velha rodoviária do Glicério, despejando o mar de ônibus que vai para a Baixada Santista diretamente na Rodovia dos Imigrantes. Isso tudo colocou no mapa um bairro outrora distante, daqueles que demoravam horas e horas de ônibus para chegar. Fiquei mais íntimo de lá quando trabalhei na região, na Água Funda, e volta e meia precisava ir a algum banco ou repartição.

Jabaquara, palavra de origem tupi, significa algo como “esconderijo de negros fugitivos”, e isso explica a função inicial do bairro. Com o decorrer do tempo, acabou se tornando uma espécie de pouso para as pessoas que trafegavam entre a porção central de São Paulo e o extinto município de Santo Amaro de um lado, e a região da Borda do Campo (atual ABC) do outro. Só deixou de ser uma região rural a partir de meados do século XX.

Se você perguntar a um paulistano inespecífico, a primeira resposta à pergunta “o que é Jabaquara” será semelhante a essa, com algumas informações a mais ou a menos. Se a pergunta for a alguém muito letrado, poderá ser acrescido o segundo parágrafo. Mas Jabaquara não é só isso.

Jabaquara é um dos times fundadores da Federação Paulista de Futebol, o primeiro desta série de textos que ainda está na ativa. Vem passeando há décadas pelas divisões inferiores do Estadual, tendo, inclusive, alguns períodos de licenciamento, sempre por apuros financeiros. Seu nome original era Hespanha, pelo óbvio fato de ter sido fundado por imigrantes espanhóis da cidade de Santos, colônia bastante significativa por lá. Sim, o Jabaquara do futebol não tem nada a ver com o bairro paulistano, o que foi um grande engano deste escriba em seus primeiros anos de compreensão futebolística. Foi obrigado a mudar de nome em 1940, por força da legislação que proibiu a utilização de nomes referentes às forças beligerantes na Europa por ocasião da Segunda Guerra Mundial, mesmo ato que obrigou os Palestras Itálias mineiro e paulista a se transformarem em Cruzeiro e Palmeiras, respectivamente, ou o Germânia a virar Pinheiros. Por esta razão, já consta da famosa entrada da federação com seu nome novo, mas as mesmas velhas cores aurirrubras da bandeira espanhola.

O Jabaquara nunca foi campeão paulista, e ostenta apenas os títulos obtidos na região da Baixada Santista. É lembrada mais por ter sido o berço de um dos principais goleiros da história, Gylmar dos Santos Neves, que depois flanou seu talento por Corinthians, Santos e Seleção Brasileira. É o terceiro time da cidade de Santos, uma espécie de xodozinho que todo mundo gosta, mas ninguém leva a sério. Quer dizer… todo mundo que conhece, o que já é mais raro. Claro que os moradores de Santos sabem da existência daquele pequeno estádio na Caneleira, bairro de morros e mangues que não lembram uma cidade praiana, para onde o clube se mudou ao vender a sede do Macuco, esta de fato próxima ao mar, mas todo mundo se pergunta até quando ele dura. Sua estrutura é o mínimo que se espera para não ser um time de várzea, e é quase inacreditável que ainda exista profissionalmente.

O Jabaquara está como está por causa do capitalismo, sem nenhuma crítica direta ao sistema. Vou explicar meu ponto.

O capitalismo é um sistema econômico cuja principal característica está na liberdade de mercado, ou seja, as relações comerciais são regidas por movimentações de dinheiro circulante, que se dão sob uma espécie de algoritmo que faz com que a economia se equilibre e reequilibre espontaneamente, sem a necessidade de intervenções exteriores, notadamente de governos. Isso é proporcionado por alguns pilares básicos: livre iniciativa, livre concorrência, admissibilidade e incentivo ao lucro e acúmulos de capital.

Seu nome deriva do latim caput. Literalmente, esse termo significa “cabeça”, mas é utilizado em seu sentido figurado de “primeiro”, ou de “líder”. Capitalista é, nesse sentido, aquele que detém os meios econômicos para liderar os processos industriais e comerciais, de fazer a roda da economia girar. A interveniência de governos passa a ser considerada prejudicial à economia, por dirigir políticas, retirar fundos da economia e desequilibrar o mercado, de modo a produzir teratologias financeiras, por seu imenso tamanho. O mercado deve se pautar pela lei de oferta e procura, que funciona mais ou menos como alguns princípios da seleção natural. Quando há excessos de um determinado produto, ele tende a ficar mais barato, e isso faz com que seu consumo aumente, até o ponto em que há uma inflexão e, de tanto ser consumido, ele passe a ficar escasso, o que movimentará seu preço para cima, o que fará com que menos pessoas consigam adquiri-los, e, com isso, haja um excesso de produção e os preços novamente baixem, em um movimento pendular infinito. Portanto, enquanto nos seres vivos o impulsionamento da seleção se dá pela necessidade de sobrevivência, no capitalismo a movimentação se dá pelo dinheiro. E, surpresa, em ambos os casos são os melhores adaptados que sobrevivem.

O capitalismo, como o próprio nome diz, favorece aqueles que detêm capital, mormente na forma de acúmulo. E os demais? Como se inserem neste sistema? Com o seu trabalho. Ou trabalha para um capitalista que tem terra, fábrica ou comércio, ou tem algum pequeno negócio onde todas as tarefas são desempenhadas por ele mesmo. Suas ações isoladas não são capazes de modificar a realidade da economia e, por isso, em tese, precisariam atuar em conjunto, algo difícil sem uma guia (como sindicatos e governos). O livre mercado defendido pelos capitalistas, nesse sentido, possui uma certa quantidade de pessoas naturalmente excluídas. São aqueles que estão nas franjas do sistema, que não se adaptam bem a esse modelo de realidade. Eles se encontram até mesmo nos países mais avançados do mundo. Não é preciso ser alguém que não tenha dinheiro ou não goste de trabalhar.

Acho que um dos melhores exemplos que eu posso dar é o pintor que morava no prédio em que habito, o José Camargo. Ele fazia pinturas de um preciosismo ímpar, como sói acontecer com os espíritos mais cuidadosos. Cada tracinho era visto e revisto e apagado e repintado até chegar àquilo que ele julgava ser a sua perfeição. Fazia um estilo majoritariamente impressionista, ao agrado dos transeuntes da Praça da República*, que admiram muito, especulam mais ainda e compram pouco. Para quem anda a esmo, um quadro a trezentos dinheiros é caro, artigo de luxo que se compra uma vez na vida e outra na morte. Para o pintor, é uma pechincha, pois quanto mais esmero se dá na sua produção, menor o tempo restante para fazer mais obras. O Camargo fazia os pequenos quadros de flores e casinhas com raiva, porque era isso o que saía, e ele precisava comprar o seu feijão, mas estava longe de ser a maneira que ele gostava de se expressar. Há uma alma artística e um corpo pragmático, que chora por comida. Ele amava as encomendas em que o comprador apenas dava uma temática, dando-lhe liberdade para criar em cima da ideia geral. Mas essas eram raridade, principalmente quando era dado o orçamento.

Em um exemplo, o Zé cobrava mil reais em um quadro que iria lhe tomar o mês inteiro. À parte do custo dos materiais, imagine-se tendo um salário desses. Dá para viver? Para quem iria comprar, é um objeto caro, cujo único propósito é estético, e que pode ser empurrado ad infinitum. Para quem faz, é praticamente uma miséria, um ganha-pão ingrato que demanda esforço físico e intelectual, mas que não dá sustento. Esqueçam dos renomados: eles são uma ínfima parcela daqueles que têm o talento recompensado. E renome não é sinônimo de talento: Romero Brito, podre de rico, é tão criticado quanto um Paulo Coelho na literatura. Mas seus gatos estilizados vendem como água.

Existe um ponto tal em que o que vende é o nome que assina, não a obra em si. Fui a uma exposição de esculturas que tinha peças do estadunidense Jeff Koons, célebre por flertar com o brega o tempo todo, e esse foi o construtor de seu elevado conceito. Ele mesmo lançou a si um desafio: “tudo o que eu faço é reverenciado pela crítica e pelo público. Vamos ver o que acontece se eu pegar anões de jardim e fadas, daqueles que as pessoas compram em lojas baratas, e reproduzi-las igual-que-nem, como se eu as tivesse criado”. O resultado: “Koons revoluciona mais uma vez”, “o kitsch purista de Koons renovando a academia” e outras bravatas semelhantes. Chega um ponto em que o nome se empurra sozinho. São fenômenos do capitalismo.

Quando o Camargo chegou à conclusão de que seu trabalho estava desvinculado do cumprimento de qualquer sonho, foi pragmaticamente ganhar a vida como faxineiro de um prédio. É uma lástima que as coisas cheguem a esse ponto, mas lá também sua verve artística e seu apuro nos detalhes veio trazer problemas. Ele via seu ofício como uma obra de arte, e limpava escadas e corredores com o mesmo critério que utilizava em suas pinturas: qualquer cantinho ficava impecável sob sua alçada, com madeiras polidas, cromos brilhantes, chão e paredes indefectíveis. Isso é uma qualidade, não? No aspecto prático, não. O síndico apreciava o edifício reluzente, mas a velocidade da faxina era inversamente proporcional ao capricho, e isso colidia com a necessidade de uma limpeza mínima em todos os andares. O Camargo era cobrado, mas não conseguia se desvencilhar de seu preciosismo, e o resultado foi sua substituição por alguém mais medíocre, mas que resolvia o problema da limpeza com mais objetividade**.

O Camargo é isso que falamos ser um desencaixe do modelo capitalista. Não é um vagabundo que não quer trabalhar, e sim alguém que não produz em escala comercial, mas, mesmo que fosse, teríamos apenas outra forma de exclusão que se baseia na comercialização de produtos, sendo que um deles é o labor.

Percebam que eu estou evitando juízos de valores. O Zé Camargo existiu, como existem mendigos, e vivia nesse sistema. Não estou dizendo que o capitalismo é bom, nem ruim, apenas fazendo constatações empíricas. Haverá quem diga que tudo no universo tem esse substrato de Lei da Selva, e que o capitalismo nada mais é do que isso transposto à economia, e que faz aperfeiçoar produtos e serviços. Mas, se é uma lei de seleção, ela tem seu percentual de crueldade inerente.

A condição do Jabuca demonstra, plasmando a situação dos marginalizados, como funciona esse sistema também no mundo futebolístico. No estado de São Paulo temos quatro “grandões”, sendo que um deles fica na cidade de Santos, Terra da Liberdade e da Solidariedade. Os meninos que querem começar a carreira procuram primeiro a Vila Belmiro, e não a Caneleira. Vão para lá aqueles que não passaram nas peneiras do Santos, nem da Portuguesa Santista (de quem chegará a vez aqui na série). Resta para o Leão aqueles que ainda não explodiram, ou que nunca vão explodir, e vão procurar ofícios em outras atividades, a grande maioria. Isso acontece porque o Santos atrai mais, pela fama, pela estrutura e, principalmente, pela grana. O Santos, mesmo em percalços financeiros, tem muito mais visibilidade, agentes internacionais, infraestrutura, nome na praça, e uma possibilidade de crescer que o Jabaquara só terá se algum mecenas quiser fazer caridade esportiva, algo muito raro. Quem tem dinheiro, quer uma vitrine mais ampla, e times com a corda no pescoço existem aos borbotões, inclusive já encaminhados em alguma divisão nacional. O Jabaquara está na quarta divisão do Paulista. Não me parece que vá ter atenção de algum endinheirado.

A realidade é que nosso querido Leão da Caneleira só existe ainda porque estamos no Brasil, justamente com seu capitalismo imperfeito. Associações não estarem sujeitas à lei das falências é uma jabuticaba jurídica daquelas exemplares, e, por conta disso, ainda podemos ver a tradição amarela e vermelha em campo. Mas isso não muda o fato de que o Jabaquara está naquela borda mais externa, aquela parte do bolo em que pouco resta além das migalhas que caíram no chão. A realidade é triste, porque se trata de um daqueles onze fundadores, um dos que não sucumbiram por pura teimosia, um dos times que eu mais gosto no futebol, mas a realidade é esta, no futebol e no mundo, e no futebol como espelho do mundo. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Escrito por um apaixonado, bancado pelo próprio bolso, é um livro de histórias esparsas e emocionantes, e, apesar de já ser meio antiguinho, faz jus a um time que tem como principal patrimônio a sua história.

SILVEIRA, Sérgio dos Santos. Jabuca dos nossos corações. Santos: Edição do autor, 2002.

* Para quem não é de São Paulo, a tradicionalíssima Praça da República é onde se realiza a feira de artes todos os finais de semana.

** Para não deixar a história sem uma conclusão: o Camargo terminou seus dias ao lado de seu companheiro Luiz, que lhe deu liberdade para compor suas obras. A última delas, inacabada, veio parar em minhas mãos e está hoje na sala de casa. Ele morreu de repente e, romanticamente, seu companheiro se foi um mês depois. Contornos tristes do que, no final das contas, foi um final feliz.