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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Sobre as peculiaridades da visão de Xenófanes sobre o cosmos e a arché

(Sempre que falamos sobre os primeiros filósofos, esquecemos de Xenófanes, mas sua visão era bastante própria e interessante)

Olá!

Os campinhos do Disparada e dos Veteranos, o quarteirão da Doces Santa Fé, as chácaras nas margens do Córrego da Moóca, as bordas da ferrovia Santos-Jundiaí, o caminho que acompanhava a adutora do Rio Claro, o quintal da Dona Lúcia, a rua da minha casa. Estes eram os lugares onde eu-menino respectivamente jogava bola, empinava pipas, roubava amoras, cortava caminho, ia para a escola, buscava ovos e, claro, saía de casa. De comum, todos estes lugares tinham o piso: terra, a terra batida típica das cidades que transitam de um ar ainda rural para a definitiva metropolização. Aquela terra já pobre, dura, cheia de formigueiros, e que criam uma espécie de camada saponificada quando cai a garoa, dando a ilusão de rinque de patinação indesejado a quem sai por compromisso.

Minha casa ‘inda tinha daqueles raspa-barros no portão, peça encontrável nos bairros mais antigos até hoje como um monumento aos incidentes de outrora, e minha mãe mantinha um pano de chão bem ao lado da torneira, para eu dar uma “tirada no excesso” assim que chegasse da rua com terra além dos sapatos. Fazia isso para evitar o rastro que chegava até o banheiro, e também não ter que me aplicar um dos seus inúmeros corretivos.

Naquelas pegadas, havia histórias de vida, como essas que eu conto agora. Era a terra que veio sendo cada vez mais afastada de nossos pés imundos, sempre sujeitos a cortes e vermes, mas que hoje estão protegidos por camadas de impermeabilização e tênis de marca. A mesma terra socada está embaixo do asfalto e do cimento, isolada das calçadas por muros tão altos que nem conseguimos supor se ainda há alguma flor que se plante nela, fora dos vasos que ficam nos parapeitos das janelas.

Esse é o painel que já meus filhos tinham para se relacionar com a terra, embora ainda na infância deles houvessem alguns poucos terrenos que hoje estão com prédios em cima. Essa terra que ainda é muito visível nas cidades do interior virou quase um artigo de exposição em Terra da Garoa e outras capitais, e é óbvio que esta relação tão telúrica em outros tempos está completamente diferente hoje em dia.

Sinto falta da terra? Olha, sinto falta é da minha infância, mas não posso deixar de sopesar custos e benefícios. Por um lado, era o inferno quando chovia e precisávamos chegar de aventais brancos na escola, porque os respingos eram inevitáveis, mas isso garantia matéria-prima para as boas guerras de lama no retorno. Asfalto representa piso decente para colocar o carro, assim como aumenta o perigo de atropelamentos de nós-crianças brincando nas ruas. Era garantia de espaço para brincar, assim como das doenças de barriga, que nos obrigavam ao dia do “salamargo”, uma mistura de ritual com higiene, quando nossas avós deixavam o medicamento exposto ao sereno, para no dia seguinte fazer a purgação. Não estão entendendo? Tinha um dia todo santo ano em que éramos vermifugados, com sal amargo, licor de cacau ou limonada purgativa, qualquer um dos três, que funcionavam de maneira similar: o purgante dava uma caganeira daquelas, o que fazia com que os intestinos ficassem “depurados”, ou seja, tudo se esvaísse das tripas, incluindo os vermes. Acho que funcionava, porque eu estou vivo até hoje.

Então é muito complexo dizer se era melhor ou não o tempo da terra nas barras das calças. Tudo vai depender de se achar isso uma sujeira indesejável ou um romântico distintivo dos tempos. Tendo a acompanhar o tempo que passa, e prefiro as coisas como estão, desde que preservados os devidos espaços para o equilíbrio pluvial de nossas cidades.

Falo tudo isso porque estou inspirado pela terra e pelo irrigador de plástico que instalei no meu quintal. É a prova maior de que coisas baratas não são sinônimos de coisas ruins. Gastei exatos vinte reais em um treco desses, que fica espetado na terra e girando de acordo com as regulagens, o que é uma autêntica mão na roda. É ligar a mangueira e contar dez minutos para que todo o projeto de horta fique devidamente molhado, sem qualquer tipo de esforço.


Vendo que deu certo, vou colocar mais uma dessas na diagonal oposta do quintal e cobrir o terreno com mais precisão e menos força necessária, economizando água. Aproveitei o calorão infernal do Vale e tomei um banho de aspersão, como não fazia há muito tempo.

Ficar na chuva simulada, enchendo os pés do antigo barro da minha infância me fez passar pela cabeça pensamentos igualmente infantis, como aquela velha assertiva bíblica – tu és pó e ao pó tornarás. Como seria se desmanchássemos ao contato com a água? Fiquei pensando nos filósofos da physis, aqueles cujo grande propósito era encontrar a arché, o fundamento de toda a realidade, conforme esmiucei aqui. É sempre fácil lembrar de Tales, Empédocles, Anaximandro, Demócrito e outros, mas poucos mandam de cara Xenófanes de Cólofon, talvez porque ele tenha eleito a terra como elemento primordial, o mais simples de todos, o mais ordinário, o mais, digamos, sem graça. Só que seu pensamento foi muito mais sofisticado do que essa constatação pode fazer crer, a ponto de ser uma espécie de pioneiro do monoteísmo. Vamos falar sobre ele.

A questão da arché em nosso herói ficará para o final. Seu principal pensamento tem a ver com a concepção que os antigos gregos tinham sobre suas divindades. A religião pública grega era caracterizada por deuses idênticos aos humanos, com duas diferenças fundamentais: a imortalidade e o poderio. De resto, tudo igualzinho, seja no físico, seja nos temperamentos, seja nos costumes e por aí vai. O deus grego é tal e qual um grego. Xenófanes observa que os deuses etíopes são negros e com os narizes largos, assim como os deuses trácios são ruivos e de olhos azuis, repetindo o mesmo fenômeno que ocorria na Grécia: os deuses locais são reproduções dos homens locais. Ele chegou à conclusão de que, se os animais possuíssem discernimento suficiente para moldar seus deuses, também o fariam à sua imagem e semelhança, com poucos diferenciais.

Isso tudo levou Xenófanes a se contrapor às teogonias de Hesíodo e de Homero, que nada mais faziam do que sistematizar o pensamento teológico do grego comum: os deuses nada mais são do que homens privilegiados, e que assim são porque cada cultura molda seu deus, como sintetizaria muitos séculos mais tarde o alemão Ludwig Feuerbach, que afirmava ser a Teologia uma forma de Antropologia, onde os deuses de uma cultura dizem muito sobre a consistência dos homens desta mesma cultura. Sendo que este último influenciou decisivamente na tese marxista da alienação, poderíamos dizer que Xenófanes era um pré-comunistão?

É forçar muito a barra, né? Até mesmo porque, se Xenófanes era contrário ao pensamento teológico helênico, isso não queria dizer que ele mesmo não tivesse suas próprias ideias com relação ao assunto. É um pensamento bastante inovador para a época, que abandonava a antropomorfização dos fenômenos e descarregava das divindades as paixões humanas e seus consequentes defeitos, dando rumo a uma forma de monoteísmo por um lado, de panteísmo por outro.

As réguas humanas são ineficazes para mensurar os deuses. Uma coletânea de deuses feitas a partir dos fenômenos que observamos no cosmos, como era de rigor no paganismo grego, era uma simples forma de suprimir a falta de reconhecimento que a divindade está em outra espécie de dimensão. Isso acontece porque, segundo Xenófanes, o universo é uno e deus é uno, identificando-se um com o outro. Não uma magna comitante caterva olímpica, como diriam os gregos, ou uma Asgard nórdica, ou qualquer outra forma de residência divina, porque a deidade não está aqui ou ali, ela se espraia pelo universo inteiro e é o próprio universo inteiro, ideia que mais tarde veio trazer problemas a gente como Giordano Bruno e Espinoza.

Notem que a proposta de Xenófanes é ao mesmo tempo monoteísta, porque preconiza que apenas um deus existe, e não vários; e panteísta, porque sendo deus o universo inteiro, tudo é deus, imutável porque pleno, irremovível porque alocado nos fundamentos. Esse é o principal ponto do frágil vínculo que os historiadores da Filosofia fazem com os demais eleatas, Parmênides à frente. Entretanto, os filósofos de Eleia eram fundamentalmente ontológicos, enquanto Xenófanes busca uma resposta cosmológica, como veremos adiante.

Diferenciar o monoteísmo do panteísmo parece simples, mas não é. Pelo ordinário estudo etimológico, um seria significado de “deus único”, enquanto o outro seria "tudo é deus", mas é plenamente possível fazer coincidir ambas as visões. Se esse tudo que significa o pan grego se referir a um único deus que se revela em vários aspectos e de múltiplas formas, então teremos uma coincidência de significados. Isso pode parecer estranho porque estamos acostumados a monoteísmos com um deus que se aparta – ele cria o universo e os homens, mas não se identifica com nenhum deles. Já esse panteísmo de um deus só é uma inovação clara, na medida em que a própria substância divina é a arché: tudo emana dela e permanece nela. Esse é o modelo de deidade tremendamente mais sofisticado que os deuses antropomórficos dos gregos, fortemente vinculados às características físicas e psicológicas dos humanos.

O que não está explícito atrás dessa maneira de pensar é uma epistemologia. Não é dado ao homem compreender toda a dimensão do universo, e por este motivo ele tem necessidade de fazer adaptações. A majoração das propriedades humanas para emular deuses é uma mostra de que temos um impulso em cobrir buracos cognitivos, o que fazemos até hoje (vide aqui e aqui). Essas teses que criamos tem a aparência de verdade, mas são apenas opiniões. O universo como algo imóvel e imutável é impossível de perceber, e somente pode ser deduzido através do intelecto. Olhando através dos sentidos sempre se terá a sensação de mudança e transformação, no que é o principal ponto de contato de Xenófanes com os eleatas.

Xenófanes ainda tinha uma concepção original com relação à arché. Diferentemente dos demais filósofos-físicos, o elemento que ele entendia ser a essência primordial limitava-se ao próprio planeta, distinguindo-se do uno no sentido de que, dentro de sua esfera, era o princípio originador. Nisso não há contradição, porque o uno dá origem a essa arché, que, por sua vez, é basilar na constituição de tudo o que existe nesta combalida bola azul. Esse elemento era a terra.

E por que ela? Xenófanes faz observações muito interessantes para chegar a esta conclusão. Primeiramente, observa que, apesar da imensa área marítima que circundava o mundo conhecido, sempre ela era fundeada por terra, por mais profunda que se encontrasse. O fundo de um rio era terra, de um lago, de um poço, do oceano. A água se fazia misturar com a terra, até o limite onde somente ela existia. Além disso, e o que é mais astuto, nosso amigo de Cólofon observava que era possível encontrar conchas e fósseis de peixes em lugares muito distantes das margens oceânicas. Isso o fazia concluir que esses lugares um dia estivessem cobertos de água, e por isso esses fragmentos se encontravam lá. A presença destes restos de seres vivos era uma maneira de antever seu retorno para o elemento fundamental, o que reforçava sua tese.

E é isso. Vou aproveitar o calorão e relembrar um pouco mais dos tempos de criança. Agora no cair da noite é o momento ideal para regar o quintal e tomar um banhão com essa nova mangueira coxinha que eu arrumei. Bons ventos a todos!

Recomendação de canal:

Vou recomendar o canal Parabólica, do professor Pedro Rennó, que contém boas séries sobre Filosofia, incluindo os pré-socráticos que costumo abordar neste blog.

https://www.youtube.com/c/Parab%C3%B3lica

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Eu parei para pensar se há vida em outros planetas, e dei de cara com o Grande Filtro

Olá!

Começo este texto domingo à noite e estou em Taubaté. Vim trazer a mudança da filha mais nova, que finalmente conseguiu passar em um concurso e vem mudando de mala e cuia com o namorado, para tentar sua vida. Não é um grande salário, nem dela, nem do rapaz, mas a maior das caminhadas começou pelo primeiro passo, na manjadíssima frase atribuída a Confúcio. Quando eu casei, comparativamente ganhava bem menos, e eu me virei, ainda mais tendo os filhos para criar. Ao que me consta, não há netos a caminho, apenas o inefável Homem-Cueca, a quem dei a conhecer neste texto. Então, boa sorte aos dois!

Ela sabe dos meus projetos, e quer que eu já os leve a cabo, para ficar um pouco mais perto. Realmente, já estou bem prestes a procurar um recanto tranquilo, e tenho começado a procurar mais seriamente uma casa para mudar. Há entraves: a indefinição pelo home office permanente no trabalho e os sogros, mas penso que qualquer lugar onde eu possa chegar no máximo em quatro horas a São Paulo já satisfaça essa condição. Da lista de lugares que tenho pesquisado, as mais próximas de Taubaté são Santo Antônio do Pinhal e São Luiz do Paraitinga, e a mais longe é São Thomé das Letras. Puxa, tudo nome de santo.

Movido pela combinação entre a vida nos céus atribuída aos santos e pelo certo ar místico que estas cidades carregam, lembro dos relatos das visões de óvnis que tanto povoam o imaginário de quem procura esses lugarejos, assim como Curvelo, Corinto, Prudentópolis, Varginha, Peruíbe e mesmo Brasília. Embora não seja uma relação obrigatória, há uma certa associação com consumo de substâncias onde se relatam muitos avistamentos, principalmente pelos detratores das duas ideias.

Tudo isso é bobagem, evidentemente. Nunca vi óvnis, com ou sem substâncias. Mas o encantamento gerado por essas cidades revela uma grande curiosidade que se funde a um tanto de gosto pelo perigo. Afinal de contas, não foi só um filme que retratou os extraterrestres como forasteiros que tentam nos colonizar, pobres e inocentes terráqueos.

Existe uma área de pesquisa chamada ufologia. Dependendo de quem a exerce, pode ser plenamente científica, ou pode ser puro engodo, ou ainda aqueles claros casos em que o viés de confirmação está a milhão, aproveitando tudo o que confirma teses e descartando o que contradiz. É comum, né?

O que eu acho disso tudo? Bem…


Nesse momento é preciso se colocar no humilde posto de ser humano e tentar se quantificar como o mínimo átomo que sou. Pensando no universo como uma imensa bolha finita, porém tão gigante que foge à minha possibilidade de compreensão, parece a mim muito tentadora a suposição de que o planetinha não tem nada de especial que não possa ser reproduzido alhures. Não vou conseguir propor exemplos, porque nada do que eu conseguir pensar vai dar algum tipo de dimensão das possibilidades de números tão incomensuráveis. Mas sou teimoso e vamos lá.

Imagine que você é uma mocinha padrão, e haverá uma festa à noite. Mocinhas geralmente não gostam de se confrontar com roupas iguais às de suas confreiras, porque existe aquela história de liquidações e baciadas. Então digamos que você escolha uma cor que não seja tão comum, nem tão démodé. Digamos que você escolhe uma peça solferino, que fica entre o vermelho e o roxo, cujo nome se origina da comuna de Solferino, na Itália, onde se travou uma das mais sangrentas batalhas da Guerra de Independência Italiana. Na sua festinha, pode ser que a estratégia funcione às mil maravilhas, e você brilhe sozinha em sua cor inusitada. Mas supondo agora que você more em uma cidade grande, imagine se seria possível o mesmo sucesso em ser única em todas as festas desta mesma cidade. Já aqui teremos uma exclusividade mais difícil. Alongue sua imaginação e pense em todas as festas de seu estado. Não, não… pense nas festas do seu país inteiro,  de cada pequeno rincão até as mais populosas metrópoles. Será que mais ninguém usará algo semelhante ao seu alegre vestidinho solferino? Estenda o exercício mental ao continente e, finalmente, ao mundo inteiro. A possibilidade de que sua roupa seja um fenômeno único, irrepetível, sem igual vai se tornando muito, muito menor, a ponto de se achar impossível que mais ninguém tenha usado exatamente o mesmo estratagema, ou que seja comum uma peça deste gênero em outras plagas. E olha que eu estou usando uma amostra absolutamente desproporcional, ridícula em termos de comparação com o universo inteiro.

Serve bem para imaginar o quanto é uma visão egoísta supor que a vida seja um atributo único deste combalido planetinha azul, cercado das nuvens cada vez mais maléficas do efeito estufa. Em tanta extensão espacial, não existirá nenhum outro recanto onde haveria condições de se reproduzir as condições para o surgimento da vida?

No entanto, o fato é que não a vemos. Tirante os relatos episódicos e as falsificações grosseiras, não há nada materialmente concreto que possamos confiar sobre visitas à Terra. Por outro lado, nossas escapadinhas espaciais também não resultaram em descobertas. Julio Verne previu, ainda no século XIX, a chegada do homem à Lua, de um modo bastante próximo ao que de fato se deu, mas não achamos selenitas por lá. Os tão decantados marcianos também não, nem jupiterianos, saturninos, etc. Já não se buscam homenzinhos verdes, mas vestígios de micróbios, ainda que fósseis. Miram-se agora os satélites dos planetas exteriores, que parecem conter água e fumarolas, ingredientes que fundamentaram o surgimento da vida cá em planetinha.

Esse é o paradoxo de Fermi, ou o “Grande Silêncio”. Esse cara era um físico italiano importantíssimo na área das reações nucleares e da física de partículas, incluindo no âmbito teórico que levou às bombas atômicas, mas que não estava em um laboratório quando lançou exatamente essa questão, e sim em uma mesa de bar, filosofando com os colegas. Se temos um universo inimaginavelmente gigantesco, deve haver mais vida por aí. Mas cadê? Em que diabos de lugar estão nossos vizinhos cósmicos, que não fazem barulho, não acendem luzes radiantes, não martelam em nossa laje?

Eu faço a mesmíssima pergunta, sob os mesmos fundamentos. E a resposta que eu mesmo me dou tem mais de Filosofia do que de Ciência, pelos mais óbvios motivos: sou professor de Filosofia e a coisa ainda vai mais pelo campo da especulação do que das evidências.

É preciso dividir o problema em duas partes. Se levarmos em consideração qualquer forma de vida, coloco-me na posição da menina que escolhe a roupa da exótica cor. É praticamente inimaginável que não haja algum tipo de molécula que tenha se agrupado com outras e, por meio das reações químicas adequadas, tenha conseguido se multiplicar. Mas elas não dão em árvores, e tudo será muito diferente do que podemos comparar conosco. Já com relação a civilizações com um mínimo de semelhança à terráquea, coloco-me no posto rigorosamente cético. Não o ceticismo "dogmático" de alguns, que batem o martelo sobre a questão da inexistência, mas na dúvida quase infantil de quem aprende. E o que temos de empírico hoje sobre civilizações tecnológicas consiste apenas novamente nele, o planetinha azul cada vez menos verde. Para imaginar o que seria uma sociedade extraterrestre, temos somente nós mesmos como referência.

E o que isso significa? Que o tempo que levamos para chegar onde chegamos deve ser aproximadamente o mesmo tempo que outra civilização levará para chegar ao mesmo ponto. Em algum outro canto do universo, alguma forma de vida inteligente estará olhando para o céu e enviando coisas parecidas com foguetes para seu sistema local, imaginando que à distância sideral haverá povoação semelhante, talvez com os mesmos problemas filosóficos (garotas com vestidos solferino?). Eles estarão cercados da mesma impossibilidade de comunicação que nós temos hoje. Poderão estar mais avançados? Sim, mas isso não dá para adivinhar, e o fato continua sendo um só: não temos nenhuma evidência de vida extraterrena, nem porque nossos instrumentos foram incapazes de detectá-la, nem porque tenhamos recebido qualquer visita comprovada. Enquanto isso, eu vou me pondo na turma dos incréus.

O economista estadunidense Robin Hanson escreveu um interessante artigo que parece lançar um pouco de luz à ausência dos vizinhos espaciais. Há alguns marcos no desenrolar daquilo que chamamos de vida que são decisivos no destino de uma espécie. Um deles, ou mesmo vários, podem constituir autênticas barreiras para a expansão a longas distâncias, e, como as mesmas são sucessivas e dependentes do bom termo de uma para o início da outra, a dificuldade estaria na própria conjunção desses fatores, o que tornaria a vida e sua manifestação fenômenos muito raros.

Hanson enumera várias dessas barreiras, mas como ele mesmo não as coloca em um escopo fechado, tomo a liberdade de selecionar as mais importantes. A primeira é o próprio surgimento de alguma coisa que se pode chamar de vida: um tipo especial de agrupamento de moléculas que consegue reproduzir a si mesmo e trocar energia com o ambiente. É preciso que o astro em questão reúna algumas condições básicas para que os coacervados e aminoácidos possam se catalisar em algum tipo de meio (considerando, claro, condições semelhantes à Terra). O próximo salto é o aparecimento de microestruturas que vão tornar o agrupamento uma célula autêntica. Por exemplo, é preciso que haja algo como uma membrana para reter todos os elementos juntos, algo como organelas para exercer funções orgânicas e algo como um núcleo para reter as informações de reprodução. O próximo filtro é que essas coisas semelhantes a células possam se organizar e se agrupar, de forma a constituir organismos maiores e mais complexos. O que vem em seguida? Que alguma das espécies geradas por esses organismos cada vez mais complexos consiga adquirir consciência e reconhecer a si mesma como existente. Em resumo: vida inteligente. Por fim, no filtro seguinte temos a necessidade que essa vida inteligente seja movida a se organizar com seus semelhantes, de modo a formar uma sociedade, que ainda por cima olhe para o céu e sinta a mesma vontade de explorar o espaço que nós temos.

Pode ser que um ou vários desses fatores seja o Grande Filtro, uma etapa que seja absolutamente insuperável para qualquer forma de vida se dar a conhecer. Esse imenso obstáculo pode ser ainda alguma etapa que nem sabemos qual seria. E aí vem a grande pergunta: onde nós mesmos, seres humanos e planeta Terra, estamos com relação a este filtro? Se nós os ultrapassamos, é possível que outra civilização ainda o faça, e poderemos ainda ter algum tipo de comunicação, ou também pode ser que em outro sistema planetário onde a sonda Pioneer chegar e puder ser capturada, os nossos irmãos de cosmos leiam e interpretem os elementos distintivos lá colocados*, e, quem sabe, tenham referências para nos encontrar ou ao menos mandar sinais. Por outro lado, se nós ainda não enfrentamos o Grande Filtro, temos a notícia segura de que arcaremos com problemas como espécie. A pior delas é meio óbvia: não há estabilidade suficiente em uma vida planetária para que haja tempo de se desenvolver a tecnologia necessária para a comunicação com outras civilizações. Também é possível que haja um limite na evolução biológica, que faz com que o tempo de vida seja eternamente insuficiente para empreender viagens espaciais verdadeiramente longas, já que o silêncio de Fermi abrange certamente os astros mais próximos, e somente das distâncias menos mensuráveis é que viriam os tais sinais. Há também a expectativa de problemas no meio físico. Haverá materiais que resistirão a intempéries imprevisíveis quando vistas daqui da Terra? Haverá tecnologia de armazenamento ou meios de coleta de energia em todos os pontos do caminho para outras terras habitadas?

Sendo assim, temos duas dificuldades: a de assegurar a existência de outras civilizações e a de poder conhecê-las, e é exatamente aí onde encaixo meu ceticismo. Não se trata de duvidar que a vida exista fora daqui, ou, pior ainda, cair na falácia fácil da poça d’água, e achar que somos mais especiais do que realmente somos, e sim de que não temos como saber, mui simplesmente. Por isso, de um ponto de vista mais filosófico do que científico, creio ser altamente provável existir vida, mas não posso me tirar da dúvida que ela seja minimamente semelhante à que temos em nossa casa de paredes descascadas.

Bons ventos a todos!

Recomendações de leitura:

Como se diz por aí, Júlio Verne era um visionário. Em vários dos seus livros, ele acabou por dar predições do que viria pelo futuro, com um bom grau de acerto. Porém, diferentemente dos Nostradamus da vida, seus prognósticos se baseavam na evolução da Ciência que ele via no seu tempo, e não em transes místicos. Além disso, é ótima literatura.

VERNE, Júlio. Da Terra à Lua. Barcelona: RBA, 2018.

O artigo sobre o Grande Filtro, de Robin Hanson, está disponível na internet para que quiser consultar. Segue a citação.

HANSON, Robin. The Great Filter. Are We Almost Past It? Disponível em <https://mason.gmu.edu/~rhanson/greatfilter.html>. Acesso em 27.04.2021.

 

* Pioneer é o nome de um programa de sondas estadunidenses cujo objetivo era investigar o espaço sem a necessidade de levar astronautas a bordo. Uma delas se tornou célebre por carregar uma placa com uma série de dicas para ajudar uma eventual civilização a ter referências sobre nós. Na imagem acima, coloco uma cópia desta placa.

Ela tem as seguintes representações:

  • A transição do hidrogênio
  • Modelos de corpos humanos em tamanho comparativo com a sonda
  • A posição relativa do Sol através de pulsares
  • O Sistema Solar

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (27 – Cosmologia)

Olá!


Poucos dias na vida de uma criança costumam ser de contemplação, mas, por outro lado, a abertura inocente para a contação de histórias e as reservas bem disponíveis para a aquisição de conhecimento dão uma compensação à atenção pouco focada. Estou falando tudo isso porque não faz nada de tempo que eu me encontrava balançando na rede em uma pousadinha no interior de São Paulo. Era tarde da noite, e toda a redondeza estava escura, incluindo o quarto e a varanda onde eu me encontrava hospedado, enquanto a cara consorte tomava seu banho pré-nupcial. A costumeiramente longa incursão da patroa em suas aventuras hídricas já me proporcionou extensos momentos de devaneio, e este foi mais um. Não a culpo. Cada um tem seu modo de lavar a alma. O dela é este, o meu é aproveitar o vai-e-vem da rede para olhar ao céu, e ver aquela estranha faixa leitosa que o corta de fora a fora. Era comum de vê-la na infância, quase como se fosse um bibelô que mal notamos na estante, e impossível hoje em dia. Da capital da garoa, vê-se meia dúzia de estrelas, que às vezes nem mesmo as são, mas algum planeta vagando pela sua posição zodiacal, ou um maroto satélite orbitando por sobre minha desprotegida cabeçorra. Aqui, não. Sem a poluição luminosa a que tanto me habituei, faço uma rápida viagem ao passado, quando esta paisagem passava praticamente desapercebida, mas agora com o pensamento mais concentrado no que vejo.

Sem medo de criar verrugas na ponta do dedo, talvez para distingui-lo das hordas de vagalumes, indico para mim mesmo aquele traçado sinuoso, que os antigos gregos diziam ser o esguicho de leite da deusa Hera, ao descobrir, horrorizada, que o bebê a quem amamentava era fruto de uma pulada de cerca de seu marido Zeus. O rebento é muito conhecido: Hércules, o protótipo do homem divinizado. Com o dedo idiotamente em pé, fico pensando até onde seguiria minha criatividade se eu dispusesse dos mesmíssimos recursos daquela gente helênica – nenhum. Como seriam as histórias que eu contaria a meus filhos, quando me perguntassem, em uma noite especialmente aberta, que diabos era aquele rastro? Eu não sei, na verdade... Sempre procurei me apoiar em conhecimento prévio, mas hoje ele está à minha disposição, então perdi todo o meu senso lírico. Creio que eu não seria um dos grandes contadores de causos da antiguidade.

É que o ceticismo é uma praga. Começa com uma desconfiança quase inocente, que vai se enevoando cada vez mais. Quando você vê, aquele relato em que você confiava tanto vai se tornando cada dia mais e mais contraditório, principalmente quando posto diante de uma realidade que se autoexplica muito melhor, até você se convencer que a verdade não reside em um livro. A Mitologia, como eu já falei alhures, diz muito mais sobre a cultura e o modo de pensar do povo que a cria do que sobre uma verdade revelada a um vate especialmente escolhido. Este é provavelmente o processo que ocorreu na alvorada da Filosofia, quando a verdade pronta da Mitologia incomodava pela sua imprecisão poética.

Esses primeiros filósofos olhavam para as próprias coisas, e tentavam tirar delas suas causas e efeitos, suas razões de ser, suas origens e seus destinos. Com poucas réguas para medir, era da lógica que vinham suas tentativas de explicação, as famosas especulações. E o que eles viam e buscavam compreender era, primordialmente, aquele imenso universo que os cercavam, seja na proximidade que podiam tocar, perguntando a si mesmo qual era o elemento basilar de tudo, seja na incalculável distância dos mais diáfanos pontos de luz perdidos na escuridão. Estas últimas, sem dúvida, eram o maior desafio que existia para o pensamento. Para além da interpretação religiosa, os primeiros filósofos enxergavam uma ordem e uma estrutura na tela do firmamento, e tentavam explicações sem que fosse necessária a introdução de justificativas ad hoc, como faziam as diferentes mitologias. A Filosofia nasceu como Física, e, especialmente, como Cosmologia.


Tá, mas afinal de contas o que é essa tal de Cosmologia? A palavra grega kósmos significa alguma coisa como organização ou ordenamento, e isso já faz entrever que o conceito de universo passa já no seu nascedouro uma noção de que as coisas não estão onde estão por acaso ou pela vontade aleatória de uma divindade. De certa forma, é a parte mais ontológica da Astronomia, parte da Física que a abarca. Isto porque a principal pergunta da Cosmologia é: o que é o universo?

Basicamente, isso significa responder qual sua linha de vida, do que é feito e como ele se arranja no espaço. Só que o nosso espectro visível é terrivelmente diminuto quando precisamos enxergar além do alcance, porque tudo é muito grande, tudo é muito pequeno, tudo é muito longínquo, tudo é muito antigo para os padrões da nossa pobre mente descontínua. E resta-nos as obscuras sendas da elucubração para tatear algumas hipóteses.

Para que se tenha ideia de como a gênese de ideias é profícua no campo da Cosmologia, basta que se tente responder qual é a origem do universo. Melhor ainda: há uma origem ou tudo sempre existiu? Aqui temos o célebre argumento cosmológico, uma elegante aplicação da Lógica para tentar encontrar alguma solução. A tese geral é o princípio da causalidade, que diz que sempre um fenômeno é decorrência de outro. Não há gol sem chute, não há pênalti sem infração. Dessa forma, podemos regredir no tempo buscando a causa de um determinado efeito. O X da questão é se essa regressão tem fim. Se sim, podemos dizer que chegamos à origem do universo. O Primeiro Motor Imóvel de Aristóteles e a Teoria do Big Bang são dois exemplos de aplicação do argumento cosmológico com um início para o cosmos. Há quem veja, como São Tomás de Aquino, uma prova da existência de Deus neste argumento, mas não fiquem bravos se eu disser que esta assertiva é falaciosa, mais especificamente um argumentum ad ignorantiam, já que a causa primeira não precisa ser uma divindade. Aqui, entra a fé do argumentador, e não uma sequência lógica necessariamente válida. Além disso, mesmo as hipóteses de universo com início esbarram na regressão: o que havia antes do Big Bang? O que dá origem ao Primeiro Motor? Que divindade criou Deus? Notem como as perguntas referentes à Cosmologia sempre estão impregnadas de Filosofia, para muito antes de chegar ao campo observacional, e por isso mesmo toda Ciência traz consigo uma carga metafilosófica, como já discorri neste texto.

Outro questionamento que parte da Cosmologia é estrutural. O universo possui um limite ou não? Se pensarmos em um Big Bang, é possível pensar que sim, já que a expansão acelerada, que impropriamente chamamos de explosão, faz com que tenhamos a tendência em supor um avanço contínuo, da mesma forma que a marola produzida pela pedra jogada no lago vai se expandindo até chegar à borda. O que ainda fica no campo especulativo é se a “beirada do lago” universal existe: há uma margem para até onde os limites do universo poderão avançar? E o que haveria para além do “paredão”? Os físicos tem teorizado que não há um espaço para onde o universo se expande – o próprio espaço se expande com o universo. Mas, de qualquer forma, parece que há um ponto tal em que tudo possa chegar.

Ou a solução é ainda outra? A resposta pode estar na gravidade. Quando observamos o modo com o qual o universo é estruturado, podemos perceber que há uma diferença substancial entre as nossas vizinhanças e as distâncias maiores. Quando vemos os céus a olho nu, como eu fazia naquela noite balouçante, não temos a dimensão exata do que temos acima de nós. São pontos brilhantes e ça tout. No entanto, a utilização de aparelhagem cada vez mais avançada permite experimentar sutilezas imperceptíveis a partir da prosaica rede de renda de bilro. Um dos exemplos é que seu tamanho e brilho tem menos a ver com sua distância do que é possível supor. Muitas vezes, um ponto específico no céu não é uma estrela solitária, mas uma galáxia inteira. Mais do que isso: é possível observar que, a uma distância relativamente curta*, as diferentes galáxias tendem a se aproximar, formando grupos locais que possuem grandes vazios entre eles. À medida que obtemos dados de objetos situados a distâncias maiores, somente detectáveis por instrumentos muito sofisticados, percebemos que os mesmos estão distribuídos de modo muito mais homogêneo, sem os grandes claros notados anteriormente. Isso pode fazer entrever que a ação gravitacional do momento em que estas informações chegaram a nós ainda não havia operado da mesma maneira que ao nosso redor. E aqui temos a bifurcação. Pode ser que a gravidade, a distâncias verdadeiramente grandes, não consiga mais exercer sua ação, e o universo continuará a se expandir, sabe-se lá até onde. No entanto, se a gravidade possuir força suficiente, em algum momento a contínua expansão cessará, e a atração fará com que os conglomerados de corpos celestes comecem um caminho de retorno, aproximando-se sempre e sempre mais, de forma a multiplicar sua interação gravitacional e sua atratividade, até que tudo o que exista se colida em um único ponto, produzindo o que temos chamado de Big Crunch, o retorno ao átomo primordial de tudo.

Ultimamente, o novo santo graal da Cosmologia é a energia escura, ainda no campo da hipótese, e que serviria para se contrapor ao encolhimento previsto na teoria do Big Crunch. Como eu disse há pouco, caso esta estiver correta, tudo voltará a se condensar em um único ponto, em um movimento que se tornará cada vez mais acelerado, dado o aumento de energia gravitacional ao redor de um núcleo cada vez mais denso. Se isso não ocorrer e o universo continuar se expandindo, haverá um momento tal que não haverá mais energia para o prosseguimento da movimentação, e então o universo se tornará estático. A tese da energia escura lida com a hipótese de que o universo não esteja se expandido inercialmente, pela força gerada pela expansão do Big Bang, mas que esta expansão seja acelerada. É uma alternativa puramente no âmbito hipotético, porque não há elementos suficientes que possam determinar qual modelo expansivo/retrativo está correto, mas o que poderia estar por trás da sua confirmação? Seria necessária a existência de uma energia para justificar a repulsão dos objetos em oposição à força da gravidade, uma energia cuja natureza é desconhecida, e chamada de “escura” pelo motivo de não ser detectável por nada além da capacidade racional dos cientistas. Um dia, será possível determinar com exatidão um método para detectá-la, e, neste momento, ela sairá do âmbito filosófico para se tornar Cosmologia com “C” maiúsculo.

Uma outra grande pergunta da Cosmologia nos faz pensar em qual fornalha foram geradas todas as coisas que existem. Sabemos que os objetos são feitos de átomos, que são compostos por ínfimas partículas. Tudo é tão pequenino que nos faz intuir que, se agruparmos os átomos dispersos por aqui e por ali teremos volumes significativamente menores. Entretanto, a teoria do Modelo Cosmológico Padrão (nada mais do que Big Bang falado em tucanês) nos diz que o universo original anterior à expansão se concentrava em área exígua, menor que a cabeça de um alfinete. Isso dá nó na cabeça. De onde veio tudo o que existe?

Uma hipótese boa é que compactar tudo em um minúsculo ponto só é possível porque a própria matéria é uma forma de energia, como descrito na Teoria das Cordas. Ainda assim, essa é uma circunstância muito difícil de intuir. É certo que nossa dificuldade com este tipo de dúvida resida nas limitações dos nossos sentidos. De fato, dependemos deles para trazer informações para serem processadas em nossas admiráveis, porém restritas cabeças. Dessa forma, primeiramente lidamos com aquilo que vemos, e necessitamos de observações indiretas para sacarmos aquilo que não vemos. Notem como falamos em estrelas, planetas, cometas, asteroides... coisas visíveis. Sempre procuramos por elas para justificar nossas crenças, e tudo o que lhes escapa é candidato a cair nas armadilhas das lacunas. Todavia, o que você diria se eu lhe contasse que, descontados todos os órgãos e ossos do seu corpo, ainda restaria peso em uma balança, muito peso, aliás? Que há uma alma e que ela tem peso? Ou que há alguma outra coisa em sua composição que não conseguimos ver, mas que os instrumentos detectam? É exatamente isso que os astrônomos têm obtido desde meados do século XX, especialmente com os trabalhos do astrônomo Fritz Zwicky. Tomando o peso total de uma galáxia e descontando o peso individual de cada um dos seus componentes ainda resta muito peso que, aparentemente, está ligado a nada, o que é absurdo. Por não ser detectável diretamente, essa estranha diferença ganhou o nome de matéria escura, um dos principais objetos de busca cosmológica desde sua descoberta, e que vem ganhando mais métodos de aferição, ainda indiretos, mas cada vez mais precisos. Isso tudo nos faz supor que há muito mais no cosmos do que conseguimos detectar.

Em suma, a Cosmologia é hoje a parte da Ciência provavelmente mais prenhe de Filosofia que podemos imaginar, como já a é desde o seu próprio nascimento, como se um mega tatatatatataravô meu estivesse deitado em algo semelhante a uma rede, riscando o céu com o dedo, enquanto aguardava vovó se banhar no rio mais próximo. Bons ventos a todos.

Recomendação de série:

É um clássico da divulgação científica que foi renovado em época razoavelmente recente. Trata-se da série Cosmos, a obra-prima de Carl Sagan, que me maravilhava na virada da infância para a juventude, e que foi remoçada brilhantemente através da voz de seu sucessor, Neil deGrasse Tyson. Tem na Netflix. Para curtir a beça.

BRAGA, Bannon; DRUYAN, Ann; POPE, Bill. Cosmos: Uma Odisséia do Espaço-tempo. Filme. Série em 13 episódios. Cor. 44 min por episódio. EUA: Cosmos Studios, 2014. Disponível em: https://www.netflix.com/title/80004448

* É preciso lembrar que “distância curta” em termos siderais sempre é algo relativo. A unidade básica para mensurações espaciais é o ano-luz, ou seja, a distância que a luz percorre em um ano. Pensemos que o Sol, que aquece o planetinha, está a oito minutos-luz daqui, para ter uma parca noção de que medidas tentamos exprimir.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Sobre nossos elementos primordiais e a evolução do pensamento filosófico rumo à Ciência

Olá!

É inevitável. A curiosidade infantil sempre leva à pergunta clássica sobre o nascimento dos bebês. Como a cegonha requereu aposentadoria e os repolhos estão estéreis após os pesticidas, a explicação dada aos pimpolhos tem que ser cada vez mais calcadas na realidade. Mas, como bem sabemos, explicar todo o ciclo que leva à gravidez e ao nascimento dá um trabalho imenso para quem ainda não tem um aporte muito significativo de conhecimentos. E então entram em cena aquelas pantomimas que falam sobre como o-papai-começou-a-namorar-a-mamãe-e-então-eles-se-casaram-depois-o-papai-plantou-uma-sementinha-dentro-da-mamãe-que-cresceu-cresceu-cresceu-até-ficar-tão-grande-que-não-cabia-mais-na-barriga-da-mamãe-e-por-isso-precisou-sair-o-papai-levou-a-mamãe-para-o-hospital-e-então-o-médico-puxou-você-para-fora-e-você-nasceu, ou seja, uma bela série de malabarismos didáticos.

Mas não é só isso que desperta a insaciável curiosidade dos nossos queridos fedelhos. A própria humanidade, em sua infância, carregava consigo o ônus de não saber de onde veio, do que eram feitas todas as coisas, porque existiam igualdades e diferenças, entre outras aporias.

Como eu já disse em outros momentos, o homem tinha dois focos nos quais poderiam lançar suas especulações: no universo que o rodeava ou em forças superiores, que eram desconhecidas dele. Esta era a saída mitológica, e a primeira era o que, mais tarde, chamaríamos de Física.

Claro que a mitologia tem mais facilidades. Sua principal arma é a tradição oral, aquelas histórias que se contam de pais para filhos, de patriarcas para aldeães, de sacerdotes para crentes, e assim por diante. Não há o rigor da observação empírica, mas um acúmulo de histórias que buscam, em última instância, uma resposta para a agonia da dúvida. Este tipo de narrativa sobre a origem do universo é o que conhecemos em Filosofia como cosmogonia.

Mas o método mitológico tem seus problemas e dificuldades inerentes. Para que uma explicação minimamente razoável oriunda da mitologia pudesse ser produzida, era preciso não explicar somente a origem do cosmos, já que esta era a parte fácil de explicar – os deuses deram origem a tudo o que existe. Para tanto, era necessário retroceder ainda mais. Era preciso, de alguma forma, narrar a origem dos deuses, que chamamos de Teogonias (theos=deus + gonos=origem). Elas eram muitas, a maioria transmitida oralmente, mas algumas delas se tornaram especialmente célebres, como aquelas escritas por Homero e Hesíodo, que chegaram aos nossos dias. Transcrevo abaixo um pequeno trecho da Teogonia de Hesíodo, descrevendo como todos os deuses brotam do caos, também este devidamente deificado.

Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também
Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,
dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado,
e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,
e Eros: o mais belo entre Deuses imortais,
solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos
ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.

Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.
Terra primeiro pariu igual a si mesma
Céu constelado, para cercá-la toda ao redor
e ser aos Deuses venturosos sede irresvalável sempre.

Pariu altas Montanhas, belos abrigos das Deusas
ninfas que moram nas montanhas frondosas.
E pariu a infecunda planície impetuosa de ondas
o Mar, sem o desejoso amor. Depois pariu
do coito com Céu: Oceano de fundos remoinhos
e Coios e Crios e Hipérion e Jápeto
e Teia e Réia e Têmis e Memória
e Febe de áurea coroa e Tétis amorosa.

E após com ótimas armas Crono de curvo pensar,
filho o mais terrível: detestou o florescente pai.
Pariu ainda os Ciclopes de soberbo coração:
Trovão, Relâmpago e Arges de violento ânimo
que a Zeus deram o trovão e forjaram o raio.

Eles no mais eram comparáveis aos Deuses,
único olho bem no meio repousava na fronte.
Ciclopes denominava-os o nome, porque neles
circular olho sozinho repousava na fronte.

Vigor, violência e engenho possuíam na ação.
Outros ainda da Terra e do Céu nasceram,
três filhos enormes, violentos, não nomeáveis.
Cotos, Briareu e Giges, assombrosos filhos.

Deles, eram cem braços que saltavam dos ombros,
improximáveis; cabeças de cada um cinqüenta
brotavam dos ombros, sobre os grossos membros.
Vigor sem limite, poderoso na enorme forma...

Podemos perceber, portanto, que a criação do mundo é dependente da criação dos deuses. Evidentemente, as descrições dos mitos de criação sempre contém mais poesia do que propriamente história. O mito teogônico de Hesíodo é apenas um exemplo, assemelhado com tantos outros, oriundos de tantas outras culturas.

Ocorre que, mesmo com tanta riqueza criativa na construção deste mito, chegou um momento em que o grego antigo olhou para o universo que o rodeava e percebeu que o observável não era a ação destes deuses, mas os próprios fenômenos em si. Não havia um contato direto com as suas divindades, apesar da atribuição de todos os acontecimentos à vontade de um dos deuses. Mesmo não se desvinculando por completo das explicações transcendentes, o grego começou a procurar no próprio universo a sua origem e os seus princípios comuns. Deste modo, a Cosmogonia migrava para a Cosmologia. Não se queria mais entender apenas a origem das coisas, mas entender as coisas em si mesmas, e a partir de si mesmas. Em suma, querem se ver de frente ao real palpável, e não apenas ao suposto.

Mas haveria a possibilidade de se alcançar o real palpável? Talvez não, haja vista às limitações tecnológicas da época, mas desde então se notou que os poucos elementos disponíveis possuíam uma harmonia e uma regularidade que podiam ser vistos como indicativos de uma regra geral. E a partir daí inicia-se a busca por um elemento primordial, presente em tudo o que existe, que justificasse a origem e a composição de cada coisa que há no universo: a arché. E isso tudo se utilizando da melhor ferramenta disponível ao homem: o seu próprio raciocínio, tendo a lógica por estrutura.



Como volta e meia eu volto à questão da arché, achei por bem elaborar um texto onde eu pudesse explanar todas as teorias encontradas no período anterior a Sócrates. Em primeiro lugar, porque é muito interessante verificar como a humanidade sempre procurou saídas inteligentes para suas dúvidas. E depois para que todos nós possamos perceber como o pensamento humano evolui, partindo de teses mais simples, agregando conhecimento e tornando-as mais e mais complexas e plausíveis. Vamos nessa (com paciência, porque o texto ficou longo).

Tales e a água

Tudo começa com Tales, mas já falei dele em duas oportunidades, aqui e aqui, e não o farei de novo, porque senão vão achar que sou tiete. Ou chato de galochas. Portanto, leiam os dois links em questão. Para fins didáticos, vou apenas esclarecer que a arché, para Tales de Mileto, era a água.

De qualquer forma, pincelada rápida: Tales, pela primeira vez registrada, olha para a natureza  para investigar sua própria gênese e dá primazia aos gregos naquilo que concebemos como Filosofia no ocidente. A originalidade dos gregos está na eleição de um objeto a ser estudado, na formação de um conceito e na utilização de um método, ainda que possamos chamá-los de primitivos.

Anaximandro e o apeiron

A segunda proposta introduz pela primeira vez um elemento que não poderia ser percebido a olhos nus. Entra em cena Anaximandro, na mesma cidade grega (hoje turca) de Mileto onde surgiu Tales. Sua proposta supõe que a água, elemento imaginado por Tales, já é uma derivação de algo ainda mais primitivo. A água, por mais elástica que possa ser, e por mais que possa navegar por diversos estados, ainda assim assume uma forma. Ou melhor, é compelida a ter uma forma, ainda que seja a de uma etérea névoa, um transparente e quase invisível vapor.

O princípio fundamental deveria ser outro. Algo que pudesse permear o universo inteiro e adotar qualquer forma, com base nas condições existentes nos diferentes ambientes por onde ele passasse. Algo que pudesse ser encontrado além das fronteiras do nosso conhecimento, já que os elementos existentes no planeta Terra não poderiam representar a totalidade daqueles que estão espalhados por todo o cosmos. Algo que pudesse conter em si todas as oposições dos estados observáveis na natureza, como o quente-frio, mole-duro, seco-úmido, compacto-poroso.

Esse elemento não seria propriamente uma substância, mas teria a capacidade de se transformar em qualquer uma, justamente por sua indefinição de matéria e forma. Era a massa generativa de tudo o que existe. Tudo surge a partir deste mesmo elemento, que – novamente – por sua indefinição, e também por sua infinitude, pode moldar absolutamente qualquer coisa.

Anaximandro chama esse elemento primordial de apeiron, originado da fusão das palavras gregas a (sem) e péiron (limite). Mais tarde, alguns autores identificaram o apeiron com o éter, uma espécie de quinto elemento imperceptível diretamente pelos sentidos, mas esta é uma outra história.

Anaxímenes e o ar

Anaxímenes é outro filósofo da cidade de Mileto que se debruça sobre a questão da arché. Ao que parece, ele acha a proposta de apeiron de Anaximandro radical demais, e até mesmo fantasiosa. Essa crítica de Anaxímenes é compreensível, principalmente quando lembramos que o princípio primeiro da Filosofia era se afastar do substrato mitológico, que a tese de Anaximandro volta a se aproximar, ao atribuir à arché um aspecto infinito e indeterminado. Para ele, já há um elemento que consegue se espraiar para todo o universo, até mesmo onde se crê que ele não exista: é o ar.

De fato, o ar pode se tornar tão rarefeito que acaba por se tornar indetectável, e somos induzidos a acreditar que há vácuo, mas não; o ar está lá presente. Além disso, o ar pode ser percebido, ainda que invisível, pela ação dos ventos, quando se torna uma percepção táctil. Mas, e se o ar estiver parado? É ainda assim possível percebê-lo, pelo aumento ou diminuição da temperatura.

É no processo de rarefação e condensação que o ar forma tudo o que existe. No pensar de Anaxímenes, ao se rarefazer, o ar se aquece e forma o fogo; ao se condensar, esfria e forma a água; aumentando a densidade, teremos a terra e demais elementos sólidos. Em Anaxímenes, portanto, temos pela primeira vez uma dinâmica dos elementos para reger a formação das coisas.

Xenófanes e a terra

Depois disso, temos Xenófanes de Cólofon, que acredita que o elemento fundamental é a terra. A base para seu raciocínio é a inversão da conclusão de Anaxímenes. Não é o ar que se torna mais denso, mas a terra que se torna mais dispersa. É a terra, ao se rarefazer, que forma a água, que, por sua vez, se torna cada vez mais difusa para formar a atmosfera.

Mas por que a rarefação da terra, e não o adensamento do ar? Xenófanes observa que a primazia do elemento sólido se dá pelo fato de que é um meio onde encontramos uma diversidade muito maior de substâncias. É da terra que brotam os vegetais e para onde voltam os animais depois de mortos, e para onde escoa a água da chuva. Mesmo os oceanos, que são muito maiores do que a porção emersa do planeta, têm em seu fundo a mesma terra, ou seja, é o elemento sólido que suporta o meio líquido.

Mas Xenófanes também encontrou outra base importante para sua teoria: a presença de conchas e esqueletos em escavações. Ele não enxergava a formação de seres em pleno ar, mas, ao encontrar esses vestígios de seres ao se aprofundar na terra, podia interpretar que lá eles se encontravam em formação ou em desfazimento.

Heráclito e o fogo

Como não poderia deixar de ser, haveria alguém para determinar o fogo como arché. E esse alguém foi Heráclito, da cidade de Éfeso.

Este cara tem bastante importância para a Filosofia, porque foi um dos primeiros pensadores a abordar a questão da dicotomia entre permanência e mutabilidade das coisas. Heráclito era mobilista, ou seja, sua metafísica previa que todo o universo está em constante devir. Sua frase mais famosa: “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”, significando que nem o rio nem quem se banha é o mesmo em dois momentos distintos – a água do rio já passou, a pessoa que nele entra já envelheceu, mesmo que só poucos instantes.

Heráclito aperfeiçoa o dinamismo elementar de Anaxímenes, já que sua arché, o fogo, é o elemento essencial não só corpóreo, mas também simbólico da constante transformação universal. O fogo é real palpável quando faz o sólido derreter, o líquido evaporar e o gás evolar pelo infinito. E é simbólico quando brota pequeno, cresce ao ser alimentado e fica pleno até sua força ser minorada, até produzir pouco calor e luz, e até se extinguir, deixando como marca de sua existência apenas os rastros no ambiente por onde viveu.

Pitágoras e o número

Percebam como, pouco a pouco, os filósofos vão tornando suas teses sobre a arché mais e mais sofisticadas, incluindo elementos que não representavam unicamente o cosmos material, rumando para especulações metafísicas. Isso se torna mais perceptível em nossa próxima estação, a cidade de Samos, onde encontraremos um dos mais seminais matemáticos de todos os tempos: Pitágoras.

Devo agora, por uma questão de honestidade intelectual, confessar minha autêntica ojeriza por essa área tão importante do conhecimento, basilar para qualquer ciência que se queira praticar. E reconheço nisso um defeito meu, até mesmo porque admito plenamente o seu valor. E, com isso, reconheço em Pitágoras um gênio. Com pouquíssimos dados à sua disposição, formulou vários teoremas, sendo que o célebre “o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos” recebeu seu nome e é um dos postulados básicos da trigonometria. É um dos mais antigos teoremas matemáticos conhecidos.

Pitágoras e seus discípulos tinham o hábito de observar atentamente o mundo prosaico que os rodeava e encontrar correlações que permitissem reduzir os fenômenos a expressões matemáticas. Observavam trajetórias, impactos, pesos e tudo o mais que estivesse à disposição. E, evidentemente, acabaram encontrando muitas dessas correlações. Perceberam que o universo funcionava de maneira harmônica, e dessa harmonia emergiam os cálculos que a explicavam. E concluíram que o número era a essência de todas as coisas.

É óbvio que Pitágoras não achava que ao picar uma coisa qualquer em mil pedacinhos, apareceria, luminoso, o número 1. Ou que de um belo algarismo instalado no centro de um jardim, brotaria, perfumada e espinhuda, uma roseira-branca. Ou ainda que, uma vez aquecido, esse mesmo algarismo purgasse água e depois desaparecesse, transformado em ar. Pitágoras enxerga na harmonia matemática, na articulação calculável e nas engrenagens naturais a essência de todas as coisas, sem criar, para tanto, um elemento físico.

Essa abordagem será de grande valia para que a questão seja vista de maneira cada vez mais científica, desembocando em uma conclusão surpreendente que veremos mais adiante.

Empédocles e as raízes

A próxima concepção é de Empédocles, da cidade de Agrigento, atualmente na Sicília, mas que fazia parte da Magna Grécia à época. Ele traz duas grandes novidades. A primeira, mais evidente e menos importante (como veremos), é a teorização de que a arché não é composta de um único elemento, conforme imaginavam seus antecessores. Pelo contrário, tudo era composto pelos quatro elementos básicos conhecidos – terra, água, ar e fogo. Eles iam misturados em todos os objetos, em diferentes proporções, e a preponderância de um deles dava a característica geral da substância, que eram bastante óbvias: se o elemento era mais rígido, havia uma maior quantidade de terra; se era líquido, o maioral era a água, e via discorrendo. Deu a esses princípios fundamentais o nome de raízes.

A segunda novidade prenunciava as leis de atração e repulsão, muito embora Empédocles atribuísse uma espécie de “valor ético” a seres inanimados. É que nosso profético filósofo sacou que, a partir de quatro raízes, era possível obter infinitas composições, que possibilitariam a obtenção de todos os materiais do universo e a constituição de novos. E o que faria com que estas diferentes raízes se combinassem e se dissolvessem?
Bem, Empédocles propõe uma solução inusitada. Assim como no relacionamento entre os seres vivos, havia entre as raízes forças de atração e repulsão equivalentes ao amor (eros) e ao ódio (neikós). O amor é a força agregadora e atrativa. Faz com que os elementos se aglutinem, ao inverso do que ocorre com o ódio, que separa e fragmenta. Pode parecer esquisito, mas sabemos hoje que, sem os princípios de atração e repulsa, é impossível compreender bobagens como magnetismo, estrutura atômica e gravidade.
Anaxágoras e as homeomerias
Depois vamos visitar Anaxágoras, da hoje turca cidade de Clazômenas, que também traz uma grande novidade. Ele rejeita a multiplicidade de elementos preconizada por Empédocles. Para ele, a multiplicidade existe, mas encerrada em um único elemento, que contém todos os outros. São as homeomerias, que vamos investigar agora.
Anaxágoras observa o seguinte: sem que seja necessário agregar nada, uma pequena semente já contém em si a árvore inteira. Idem com um homem. Um pequeno embrião vai se tornar um homem adulto, talvez um forte guerreiro, talvez um gordo comerciante.
Ou seja, os seres não surgem do nada, como mágica. Seguem um processo de divisão que torna sobejas algumas características e inibidas outras. Isso não se aplica unicamente aos seres vivos, mas aos brutos também. Portanto, a arché seria alguma coisa que se assemelha a uma semente, chamada por Anaxágoras de spérmata (o termo homeomeria consagrou-se por conta da afinidade de Aristóteles com esta tese, e significa alguma coisa semelhante a “partes qualitativamente iguais”). O elemento seminal conteria em si mesmo a totalidade da tipificação da matéria universal, se diferenciando umas das outras pelas partes que seriam ativadas, divididas daquelas que permaneceriam inertes. As frases-mote: “tudo está em tudo” e “em cada coisa há parte de cada coisa”.
Mas havia um princípio cósmico transcendente que explicava o que fazia uma homeomeria se transformar em uma determinada coisa, e não em outra qualquer. Anaxágoras enxergava outro princípio fundamental, que determinava qual de cada componente da homeomeria prevaleceria sobre os demais. Ele não se desvencilha de atribuir a este princípio ordenador uma certa divindade. Era o nous.
A característica divinizante do nous era que essa inteligência ordenadora estava apartada das coisas, sendo sua integradora, mas não integrante. É ela que fez o universo girar e que reconheceu as necessidades de aglutinação e separação dos seus fundamentos, sendo externa a eles, para que pudesse se dar conta da harmonia do seu funcionamento.
Demócrito e o átomo (Pobre Lêucipo, todo mundo esquece-se dele)
E assim chegamos à nossa estação final. Vamos falar de Lêucipo de Mileto e de seu discípulo mais ilustre, Demócrito de Abdera. Com eles, teremos a primeira tentativa de explicar o universo de maneira puramente mecanicista, sem nenhum tipo de intervenção de divindades ou entidades metafísicas.
Desde muito tempo, o homem percebeu que os objetos de seu ambiente podiam ser reduzidos a partes cada vez menores. Uma rocha pode ser fragmentada até se transformar em areia, e que dos seus grãos poderia ser obtida uma divisão ainda maior, o que somente não era possível conseguir por causa de falta de meios. Mas é fato que essa redução era possível, até o limite da percepção.
Qual era o limite desta divisão? Até onde era possível chegar sem que a matéria se descaracterizasse? Demócrito imaginou que, quando esse limite fosse atingido, não mais haveria como tornar a matéria ainda menor. Este limite de divisibilidade da matéria era o átomo. Essa palavra grega é composta pelas partículas a (sem) e tomos (divisão).
A grande modificação em relação às raízes de Empédocles e à homeomeria de Anaxágoras era que, agora, as partículas que compõem o universo são indiferenciáveis entre si. Um átomo de água não é diferente de outro átomo de água, e nada há nele além do elemento que representa. Claro que o conceito de molécula era ainda inalcançável, mas Demócrito previu que eles teriam combinações possíveis entre si. Isso porque nosso risonho amigo pensava que o número de tipos de átomos era bastante pequeno, se comparado com o total de elementos perceptíveis no cosmos. O que fazia com que suas características fossem distintas era uma descoberta ainda mais surpreendente: os átomos tinham espaçamentos entre si, que não era preenchido por absolutamente nada. Era o vácuo.
Como não havia nenhum princípio ordenador nas teses de Lêucipo e Demócrito, tudo era formado ocasionalmente. É meramente o encontro mecânico dos átomos que produzia a ordem do universo.
Então vamos ver:
1. O mundo é composto por minúsculas partículas espalhadas por toda a parte;
2. Os átomos possuem movimento;
3. Os átomos existentes são poucos, mas suas combinações são infinitas;
4. O espaço entre os átomos é preenchido de vácuo;
5. Nada mais há do que átomos e vácuo;
6. Todas as coisas se diferenciam por conta do arranjo e disposição dos átomos que as compõem;
7. Os átomos são indivisíveis. Claro que Demócrito não previu que o átomo era particionado, ele não tinha nenhum recurso para isso, mas é preciso lembrar que não essencialmente erro nessa assertiva. Um átomo somente pode ser dividido, pelo que se conhece hoje, por fusão ou fissão, o que o destrói.
Lembrando que a construção deste conceito nasceu unicamente pela via filosófica, dá para perceber o quanto esse modelo estava correto. Pena que os maiores nomes da Filosofia Antiga, Platão e Aristóteles, não compraram essa ideia. O mesmo se aplica à Filosofia Medieval, que já dava por suficiente a explicação teológica da origem do cosmos. Por conta disso, a ideia do átomo ficou adormecida por muitos séculos, até que os alquimistas, atraídos pela possibilidade de transmutar um elemento em outro, voltaram a investigar as teses que previam a unicidade dos materiais. Mas só deslanchou mesmo com John Dalton, no século XIX. Lêucipo e Demócrito mataram a charada.
Parmênides e o Ser
È finito? Sim, mas eu ainda gostaria de fazer uma observação sobre Parmênides, o pai da permanência, do Ser infinito e imutável. Ele não discorreu fundamentalmente sobre uma arché, mas o filósofo da ciência Karl Popper percebeu que as características atribuídas ao Ser, como a redução imutável à essência daquilo que existe, e a impossibilidade de atribuir qualitativos àquilo que não existe, ou seja, da imutabilidade do Ser, em clara oposição ao mobilismo de Heráclito, faz com que vejamos uma mesma intenção, agora metafísica, de explicar a origem e a causa do universo.
O Ser é o que é, sentença estranha. Mas isso quer dizer que, livre de todos os fenômenos e aparências, que fazem com que ele seja colocado como algo mutável aos nossos olhos, não teremos nada do que o Ser não é. E, com isso, atingimos sua essência e, de certa forma, sua arché.
Não há dúvidas de que voltarei com mais rigor a este tema em especial, mas não queria deixar passar batido. O mais importante de todo esse caminho que tracei é perceber o rumo que a Filosofia tomou, e a percepção de como o conhecimento é colaborativo. Um pensador não jogou fora o conhecimento obtido por outro apenas por não concordar com ele. Pelo contrário, o pensamento de um deu base ao outro, mesmo que por oposição. E o exemplo da arché demonstra como se transita da Filosofia para a Ciência. A primeira especula até que a segunda acha. Esse é o mundo do pensamento.
Chega! Já tá muito longo. Obrigado pela paciência.

Recomendação de leitura:

Todo manual de Filosofia que se preze fala sobre a questão da arché. Por isso, vou preferir indicar a versão completa do texto de Hesíodo mencionado no começo do post. É meio pesadinho, mas não deixa de ser interessante, em especial porque é um testemunho do sistema que buscava dar sentido ao mundo antes que partíssemos para a aventura do conhecimento racional.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. São Paulo: Iluminuras, 1991