Marcadores

Mostrando postagens com marcador Demócrito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Demócrito. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O café filosófico do quotidiano – o clinamen nos inspira a pensar sobre arbítrio e criatividade

(Um pequeno desvio pode explicar uma gigantesca mudança?)

“Não há nenhum lugar onde os corpos, quando estão reunidos, possam, perdida a força do peso, ficar imóveis no vazio, nem, por outro lado, aquilo que é vazio deve suster alguma coisa, mas, pelo contrário, como exige a sua natureza, apressar-se a dar-lhe passagem”

Lucrécio

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Depois de tanto tempo indo e vindo, é natural que a gente fique meio cansado. Ainda que seja perto, um lugar aonde vamos muito acaba se tornando cansativo. Não o local em si, mas sua rota. Eu tenho um piloto automático tão acionado no caminho Ayrton Senna - Carvalho Pinto (antiga Trabalhadores) que nem reparo mais nos morros, nas plantações, nas casinhas, nas vacas, nos postes de luz, somente na faixa de asfalto que parece mais e mais infinita, a ponto de causar um certo “barato”, onde a alma parece abandonar o corpo e flanar por aí, enquanto a pobre massa física vai girando o volante para lá e para cá ao sabor da habitualidade, o que é perigoso.  Redundar em distração a 120 km/h não é exatamente o que mais querem os legisladores de trânsito, nem os mantenedores da saúde pública. Afinal de contas, o corpo que está presente ao volante precisa da alma* para lhe dar vigilância e atenção. Por isso, e como já falei por aqui, resolvi alugar uma casinha em Taubaté, ainda que não seja para ficar lá cem por cento do tempo. Afinal de contas, a modernidade permite trabalho remoto, mas o chefe não, e isso me obriga a manter a base SP, para ficar em formato híbrido.

Alugar uma casa significa estruturá-la, o que não é muito módico. Sorte que o espólio da Dona Madalena me disponibilizou um monte de móveis e utensílios, e isso possibilitou economizar uma grana e viabilizar a empreitada. Geladeira, fogão, armários, cômodas… tudo isso e outras coisas mais permitiram a este escriba alugar a casa e não dormir no chão, nem comer comida fria. Não fosse isso, na verdade, e eu não conseguiria aluguel algum. É casa pequena, parece um trenzinho, mas, para mim, está de ótimo tamanho.

Mas é óbvio que a macróbia defunta não tinha um kit mudança pronto, e, para complementar, precisei comprar um monte de miudezas. Uma das mais óbvias era um método para o santo cafezinho de toda manhã, do qual não abro mão. Para isso, juntei o leve ar interiorano do campo com a praticidade da cidade e comprei um método misto, manufaturado pela Fabrikafé, uma empresa pernambucana que atua com baristas para produzir objetos ecologicamente sensatos: coadores de pano que se assentam em porta-filtros de mercado.

São produzidos com tecido do tipo saco de farinha, em algodão grosso. Eles vêm em vários modelos, e eu comprei um cônico e um trapezoidal, para encaixar nos porta-filtros V60 e Melitta, respectivamente.

Aqui a ideia é dupla: a primeira é de dar um certo ar de nostalgia, para que os coadores de pano modernizados possam relembrar as velhas “calcinhas” que nossas avós usavam para escoar café nas manhãs agitadas e nos domingões modorrentos. A outra é mais ecológica. Ao utilizar um coador reaproveitável, economiza-se muito papel que seria descartado imediatamente após o uso nos métodos mais costumeiros.

Depois de alguns dias de uso, e usando as recomendações de limpeza, consegui concluir que, de fato, funciona muito parecido com as velhas mariquinhas, dando aquele saborzinho de nostalgia. O segredo é o enxágue pós uso e o escaldamento no momento da extração.




Nome do utensílio: Coador de pano adaptável

Tipo de técnica: percolação

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média/fina

Dinâmica: Como outros métodos de percolação com filtro. É importante fazer a higienização adequada do artefato.  

Resíduos: Baixos

Temperatura de saída: Média/alta

Nível de ritual: Médio

Muitas vezes o que temos de mais esperto a fazer é exatamente a juntada de características fortes, para sair lá na frente com um objeto melhor. Isso não se restringe a coisas, mas também a ideias, incluindo o combate entre elas. E isso também pode ter uma coloração de nostalgia, onde ideias há muito esquecidas retornam com força, demonstrando como a racionalidade é poderosa.

Claro que não me refiro a pensamentos estapafúrdios, como terraplanismos e geocentrismos, mas a questões que pareciam aposentadas, que são reavivadas pelas descobertas científicas mais recentes, e voltam à discussão na academia, para depois cair nas discussões de boteco. Algumas dessas conversas são milenares, e pareciam que fariam unicamente parte dos compêndios históricos. Um bom exemplo é a questão da não-linearidade dos eventos, coisa que já se discutiu há um bocado de tempo, mas que hoje é rediscutida em eventos que parecem trazer metafísica para o mundo palpável, como o efeito borboleta e outros. É assim que funciona a ciência. E a filosofia também.

Bom, vamos lá. A ideia de atomismo nasceu a partir do pensamento de Lêucipo e seu aluno mais famoso Demócrito, que descreveram a hipótese da formação do universo a partir das interações entre as partículas fundamentais da matéria, os átomos, e o vazio, espaço onde absolutamente nada existia. Anteriormente, na pesquisa racional para a descoberta de um princípio geral da formação do universo e do que se mantinha no seu substrato, sempre tínhamos alguma espécie de vetor físico definido, como água, ar, terra, fogo e da combinação de todos eles, ou de elementos menos figurativos e mais abstratos e moldáveis, como o ápeiron e as homeomerias, ou até mesmo matemáticos, a tal da arché. No entanto, em consórcio com todos eles, havia alguma espécie de moção metafísica, como a ação divina ou impulso volitivo, porque se entendia que era necessária alguma forma de impulso para a coisa funcionar. Faltava a aposta em um fundamento puramente material, e é nisso que reside o atomismo, já que não há nada que gire o universo a não ser ele mesmo.

O que seria então esse tal de átomo? Seriam partículas mínimas puramente materiais e a combinação entre elas, de modo que cada uma delas fosse indivisível. É uma ideia parcialmente intuitiva, já que podemos partir um bolo em pedaços cada vez menores, inclusive no âmbito micrométrico, até o ponto em que essa divisão se torne impossível, e essa seria um “átomo” de bolo. Sempre lembrando que Demócrito anteviu que a tipagem de átomos era bastante limitada, e a imensidão de substâncias se dava pela combinação entre eles, o que poderíamos atualizar para as moléculas.

Mas como se dava o processo de construção dos corpos? Os atomistas entendiam que, observada a existência da gravidade, os átomos caíam no vazio em queda livre, até que um acabasse colidindo com o outro, porque os mais pesados terminariam encontrando os mais leves pelo caminho, o que poderia causar uma agregação (do tipo enganche) e isso ocasionaria sucessivas formações maiores, desde poeirinhas até planetas.

A estruturação dessa ideia parecia poderosa, mas Aristóteles resolveu jogar água nesse chope. Em primeiro lugar, ele não concordava que havia alguma coisa trafegando no vazio, porque não existia vazio. Aquilo que assim parecia, na verdade, era algum dos quatro elementos em estado desvanecido, mas não em algo rigorosamente sem nada, como o vácuo absoluto. E segundo, ainda que assim fosse, pelo funcionamento da própria racionalidade, Aristóteles concluiu acertadamente que, não havendo nenhum material a interpor resistência, não havia por que uma partícula mais pesada cair mais rapidamente do que uma mais leve. Estando em caminhos rigorosamente verticais e paralelos, jamais uma partícula atingiria outra, e o fenômeno da agregação atômica nunca se daria, e essa explicação sobre o funcionamento do universo era furada. Outra coisa: uma perspectiva puramente material desafiava a tese teleológica aristotélica. Dentre as famosas quatro causas, uma era a causa final, um motivo para que todas as coisas existam. No universo puramente material de Demócrito, não haveria propósitos, nem causas, nem finalidades, e isso contradizia o pensamento aristotélico que, como demonstrei, não gostou nada dessa explicação. 

É neste contexto que aparece o romano Lucrécio. Fundado no Epicurismo, e observados os inúmeros fenômenos do acaso que ocorrem incessantemente no mundo e no universo, teorizou que, sem nenhum tipo de determinação, ocorriam minúsculos desvios na trajetória de certos átomos, o que levaria à colisão pensada por Demócrito. Seria essa, e não o peso dos átomos, a responsável pelas colisões que realizaram as agregações necessárias à construção dos corpos. É daí que surge o termo clinamen, ou inclinação, em latim.

Aparentemente, temos aqui um argumento ad hoc dos mais clássicos: se não tem explicação, eu arrumo uma. Mas também Lucrécio não tira sua hipótese do nada. O princípio geral da ideia é que, caso a teoria dos atomistas estivesse completamente correta, teríamos um mundo determinístico, completamente previsível e imutável. Mas não é o que temos na prática. Nem somente as coisas mudam ao menor sabor de variáveis, bem como também as próprias linhas de pensamento não seguem um caminho reto. Como os materialistas dos átomos achavam que tudo era composto por estes, também os pensamentos e abstrações seriam, e isso vai incluir livre arbítrio e criatividade. Vamos cuidar dessa questão.

Quando falamos em arbítrio, automaticamente pensamos em julgamentos e escolhas. Isso pode incluir opções simples, como resolver a janta, ou decisões delicadas, como planejar a economia de um país, o que, naturalmente, implica em uma série de consequências, algumas mensuráveis, outras nem tanto, outras ainda absolutamente imprevisíveis. O que temos de certo é que o arbítrio é uma decisão diante de uma questão. Ele tem uma anterioridade: nosso conhecimento, nossas condições psicológicas, nossas necessidades materiais. Uma vez colocados diante de uma questão, todas essas condições são fatores que vão influenciar nas escolhas. A discussão é se todos esses fatores são capazes de fixar uma escolha - se aquilo que eu optar poderia ser de outra forma ou se eu de fato opto livremente. Se entendermos que há determinação na escolha, ou seja, ela está escrita nas estrelas, então não há que se falar em liberdade. Mas, se ela houver, o que faz o desvio das condições que, em tese, faria algo ser decidido como foi? O que é essa vontade própria que contraria o curso natural dos acontecimentos?

Outra questão: um mundo determinístico pressupõe uma ordenação muito menos mutável que a que enxergamos ao nosso redor. A teoria da evolução, por exemplo, preconiza que as espécies surgem através de descendência com modificação. Isso não quer dizer que um pelo dia nascerá um humano com asas, mas com sutilíssimas, porém vantajosas mudanças com relação aos seus ascendentes. Um membro minimamente mais flexível, um osso um pouquinho mais resistente, um olho que enxergue em níveis de luminosidade um trisco mais baixos podem trazer vantagens que, oferecidos no atacado, parecem de pouca monta, mas no varejo fazem toda a diferença. A própria palavra mutação carrega consigo uma aura de desvantagem, resultando em perdas, não em ganhos. Quando eles ocorrem, são esse pequeno desvio, essa minúscula inclinação que tornam a sobrevivência ligeiramente mais apta.

Mais uma coisa ainda. Como se explica a criatividade? Artistas traçam um mundo que não veem, que vai além do alcance do mero ato empírico. Sim, é perfeitamente possível reproduzir situações em uma tela ou uma pedra, mas, mesmo estas, são frutos de abstrações, e da sensação inicial surge algo novo, modificado com relação à natureza, criado. Se não houver alguma forma de desvio, não há como surgir o novo, porque só teremos a eterna reprodução daquilo que já tínhamos antes, e de novo, de novo, de novo. 

O clinamen de Lucrécio, portanto, surge como contraponto à tendência cada vez maior de se estabelecer um determinismo tão marcante que parece impossibilitar o livre arbítrio. Se um pequeníssimo desvio é capaz de gerar novos mundos, novas espécies, fazer furacões através de movimentos de asa de uma borboleta, então não parece ser plausível que não seja possível optar sem chance de que a escolha fosse outra.

Em resumo, a grande questão se transforma no seguinte: se o universo é determinístico, por que raios ele varia de modo imprevisível? Talvez nosso grande problema seja a dificuldade de enxergar processos, e, quando os enxergamos, pensemos neles como estruturas lineares, que seguem roteiros invariáveis e caminhem em uma só direção, ainda que tremendamente complexos. Pode até ser que os deterministas estejam certos, e por detrás do liame irresolvível dos fatos tenhamos eventos que são como são e não poderiam ser de outra forma, mas não é assim que a realidade se apresenta a nós, e essa linearidade se mostra inconsistente. Saltos quânticos, mutações e outros desvios são percebidos como acaso de difícil encadeamento lógico, ainda que haja uma ordem em seu substrato.

Duas observações finais, para além do próprio assunto em si. Notamos como a mente é uma ferramenta poderosa, que, mesmo sem possuir instrumentos técnicos, consegue dispor os fatos de maneira lógica a ponto de se aproximar muito da realidade em si mesma de maneira muito sofisticada. Demócrito, Leucipo, Aristóteles e Lucrécio, para ficar apenas nos citados neste texto, falaram sobre coisas difíceis com grande percentual de acerto. Não são risíveis suas deduções. Levaram a lógica ao esplendor por se tratar da única ferramenta disponível para compreender o mundo naquela época, e é invejável o modo como conseguiram ao menos tangenciar coisas que hoje a ciência explica com sofisticadíssimos equipamentos.

Mais ainda: isso tudo demonstra como o pensamento científico deixou de andar desde os sofistas até mais ou menos o tempo dos Bacons, Roger e, especialmente, Francis, quando novamente se passou a olhar para o universo em si com um espírito de descoberta. Sabe-se lá como estaríamos hoje sem esta interrupção milenar. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Lucrécio faz parte daquela leva de pensadores romanos que trouxe a base grega ao centro decisório do mundo de então. Seus escritos são curtinhos e rápidos de ler.

LUCRÉCIO. Da Natureza das Coisas. Lisboa: Relógio d’Água, 2015.

 

*Antes que algum chato me pergunte, “alma”, aqui, tem o sentido de consciência.


quarta-feira, 21 de julho de 2021

O café filosófico do quotidiano – a importância do vazio no pensamento de Demócrito

(Estamos sempre muito atentos às coisas que existem e que podemos tocar. Mas e a inexistência? Como o vazio possui importância no pensamento filosófico)

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Corridos, os dias de mudança. É bem verdade que já faz dois meses que a filha mais nova se mandou para Taubaté, mas ela conseguiu um bom valor no aluguel porque a casa é meio antiga. Isso não é um problema em si, porque eu já morei em casas velhas, e, a bem dizer da verdade, tenho saudades delas, principalmente dos quintais. Acontece que o presente quintal estava mais esburacado do que o aceitável, e embora o custo para reformá-lo não seja exorbitante, dá um trabalho dos infernos. Se fosse só isso, estava bom. Mas há também um fundo com terra que a indigitada queria transformar em horta e galinheiro, e aí sim eu comecei a trabalhar que nem maluco. Mas ok.

Essa trabalheira toda não deixa de ter seu viés prazenteiro, já que o tédio da pandemia não tem dado folga, e ter coisas inauditas para fazer é altamente positivo para a saúde física e mental. Entretanto, estar fora de casa me trás uma subtração: meus métodos de preparo de café. Enquanto as coisas não vão definitivamente para seus lugares na casa nova, não temos muito como sofisticar o preparo. Observando a falta que faz o líquido, a patroa comprou umas garrafinhas de café pronto que, se por um lado não podem ser chamadas de café em um sentido estrito, por outro dão vazão aos meus sentidos progressistas, e me proponho a tomá-lo de alma aberta.

O resultado não é ruim. Tomado geladinho, o sabor não passa vergonha, embora esteja a milhas de um café percolado ou prensado. Vamos ponderar: eles não têm os mesmos propósitos. De fato, quem quer um café clássico, não vai procurar uma garrafinha dessas, mas quem precisa de um pouco de cafeína e refrescância, tende a ficar bem satisfeito. Vou passar as especificações só para não perder o padrão.

Nome do “utensílio”: cold brew

Tipo de técnica: comprado pronto

Dificuldade: nula

Espessura do pó: Não se aplica

Dinâmica: café engarrafado para ser tomado gelado.

Resíduos: nenhum, por se tratar de um produto industrializado.

Temperatura de saída: Baixa

Nível de ritual: nulo

Junto ao terreno, há uma escadinha que toma o muro de fora a fora, como se fosse uma arquibancada. Em determinado momento, fiquei lá sentado, tomando mais uma garrafinha dessas enquanto bolava minhas obras de arte. Via o grande vazio aberto para montagem das peças ao mesmo tempo em que o líquido chegava ao fim. Como naqueles desenhos animados, meti o olho dentro da garrafa e a chacoalhava para ver se não saía mais nada, mas de lá só vinha o ar, o nada, o vazio...

Usamos a palavra vazio mais em seu sentido metafórico do que propriamente físico. Como é uma alegoria para um lugar onde não há nada, representa muito bem a vida que vai perdendo suas perspectivas. Eu tenho vivido momentos assim, como já tinha prefigurado neste texto, cujas previsões todas se confirmaram, incluindo a saída dos dois filhos de casa. Estou lidando com a situação, e vêm mesmo momentos de vazio. Como exemplo, eu estava dando um tapa na louça, e sobrou a caneca que a menina mais moça usava para pegar água na talha. Ia pô-la na cantoneira, mas ficaria lá, inútil, como um troféu para a solidão. Então a coloquei dentro do armário, fácil de pegar, para quando ela quiser me visitar.

Mas, apesar do clima choroso que eu já botei na escrita, não é sobre esse tipo de vazio que eu queria falar, porque não foi disso que me lembrei quando olhei o interior vazio da garrafinha de café. Pensei que aquele tipo de vazio é ilusório, porque há bilhões e bilhões de moléculas lá dentro, devidamente invisíveis, como os resíduos das essências do café, algum microorganismo que pulou da minha boca e, principalmente, ar.

Uma das dificuldades que eu tinha quando era criança era pensar em um vazio absoluto. Realmente é muito estranho quando pensamos em um grande espaço sem nada como representação do vazio, mas logo nos tocamos de que lá há coisas. Por exemplo: quando estamos deitados quietos em um quarto, podemos olhar para o escuro e imaginá-lo equivalente a um espaço vuoto. Entretanto, basta uma pequena nesga de luz para observarmos milhares e milhares de partículas em suspensão no ar. Poeira, fuligem, pólen e outros pequenos resíduos quebram o encanto da sensação de ausência. Guardem essa informação.

Se eu tenho essa sensação, é normal que muitas pessoas também a tenham tido na nossa história de bípedes pernaltas e implumes. Os filósofos da primeira turma, conhecidos como pré-socráticos, tinham como intento comum descobrir a arché, e, para discriminá-los, redigi um texto que reputo bem completo. Mas, em acréscimo, posso dizer que havia uma busca não só no que estava no substrato da existência, mas também no que não estava – ser e não-ser, respectivamente. 

Todos os filósofos da physis, ou seja aqueles que buscavam a natureza do universo, de uma forma ou de outra coligam seu elemento primordial a alguma instância metafísica. Alguns deles, como o ápeiron de Anaximandro, o número de Pitágoras ou as homeomerias de Anaxágoras são puramente fundamentados em essências, que ganham formas de acordo com o "papel" que devem exercer no cosmos, enquanto os elementos físicos como a água de Tales ou o ar de Anaxímenes adotam suas formas pela ação de algo que está além da matéria. Outro exemplo são os quatro elementos de Empédocles que, apesar de materiais, têm suas mesclas governadas por amor e ódio, como se fossem seres que possuem sentimentos. Alguns diziam que as coisas todas estavam plenas de deuses, e isso era a anima que fazia com que elas assumissem formas e funções. Mas havia o lado de lá, ou seja, os intervalos que existiam entre os seres. Uma boa parte dos pensadores imaginava que tudo o que não é ser é não-ser. Outros diziam que isso é impossível. É com Demócrito que nasce essa noção de que os espaços onde não há nada de aparente seja correspondente à impressão: lá não há nada mesmo, nem deuses, nem plasma, nem éter, nem qualquer coisa que não seja o puro espaço. Vamos nos debruçar sobre essa questão.

Em primeiro lugar, vamos estabelecer uma padronização pedagógica. Sempre que eu falar em Demócrito, assuma-se que também estou falando em Lêucipo, seu mestre, tendo em vista que é muito difícil discernir o que vem de um e o que vem de outro, sendo certo unicamente que este último precedeu a relação de ambos. Como o filósofo risonho é mais conhecido, sendo bastante citado inclusive por seus contemporâneos, vamos didaticamente utilizar o seu nome, sem qualquer desprezo ao seu mentor, combinado?

Há uma série de enganos com relação a Demócrito. Era um pré-socrático sem realmente o ser, porque foi contemporâneo do célebre ateniense*. Tratou de inúmeros aspectos que foram além da sua tese cosmológica, com muitas predisposições éticas, que, no final, deram-lhe a fama de filósofo que ri, muito embora esse seu riso esteja longe de ser o reflexo de um temperamento, mas algo mais sardônico, zombeteiro, quase de maldizer, que vinha de sua maneira peculiar de encarar a miséria humana. Como, no entanto, meu objetivo aqui é falar do seu materialismo, não vou chegar a suas questões éticas.

Lembram da ideação do quarto vazio? Pois é, foi exatamente assim que ocorreu a Demócrito a noção dos átomos, partículas ínfimas que compõem tudo o que existe. Daquele turbilhão de partículas soltas no ar, Demócrito compreendeu que a matéria fica solta nos espaços vazios e que é a sua condensação que constrói tudo o que existe. O resto, que poderia ser preenchido por divindades, por uma substância indetectável, por uma quintessência, na verdade é composto de nada. Ou algo é a descontinuidade corpórea, ou a continuidade incorpórea. O cosmos é feito de átomos e vazio, nada mais. Nem mesmo instâncias metafísicas.

Toda a matéria que nos rodeia é composta de átomos. Elas surgiram pela agregação destas ínfimas partículas, e, quando desaparecem, é porque os átomos se pulverizaram e voltaram a ficar livres pelo vazio, quando voltarão a se colidir com outros átomos. Se eles não possuem afinidade entre si, simplesmente vai cada um para um lado; se possuem, vão se aglomeram e se chocar com outros semelhantes, até recompor novamente a matéria. Tudo no cosmos é cíclico.

Mas como é essa coisa de concluir que a arché era o átomo? É meio simples até. Pegue-se qualquer coisa, um fiapo de grama do campinho ao lado de sua casa, por exemplo. É possível facilmente parti-lo em dois, sem que a tal grama deixe de ser o que ela é materialmente. Prosseguimos partindo a pobre planta, até o limite do que nossas mãos são capazes de fazer. Daí por diante, cumprirá a um instrumento cortante de precisão prosseguir a secção, e daí partir para um corte a lazer, quando já teremos pedacinhos imperceptíveis de matéria, mas ainda assim grama, mesmo que precisemos de um microscópio para observá-los. Daí por diante, a divisão ainda pode prosseguir, no mundo do intelecto.

Essa divisão, apesar de matematicamente poder ser continuada, tem fim. É que há um determinado ponto em que um desmanchamento mais completo inviabiliza a reagregação das substâncias, tornando-as indistinguíveis do vazio, de tão diluídas que se tornariam pelo espaço. Esse ponto em que a matéria se torna indivisível é o que Demócrito chamou de átomo.

Uma curiosidade no pensamento atomista é que, apesar de não acreditar em instâncias metafísicas, eles criam em almas, que seriam tão compostas de matéria quanto qualquer outra substância. A alma aqui não se trata do sinônimo de espírito tão frequente nas religiões, mas na forma mais etérea da matéria, que teria o propósito de conter as atividades mentais e o caráter dos indivíduos, que, assim como todo o resto do corpo, desvaneceria com a morte.

O mais interessante é que a ideia de Demócrito concilia as duas escolas metafísicas da antiguidade anterior aos clássicos. Em rápidas linhas, tínhamos o confronto entre o devir de Heráclito e a permanência dos eleatas, Parmênides à frente. O primeiro dizia que a realidade é um eterno transformar, em constante movimento e consequente mudança, o panta rhei dos banhos que nunca são tomados no mesmo rio. Por outro lado, os parmenidianos diziam que todo movimento é meramente ilusório, e que o Ser se caracterizava justamente por sua imobilidade, por ser eternamente igual a si mesmo. Sendo assim, o turbilhão atômico que se desenrola no vazio, e que faz com que as partículas se encontrem e se condensem aleatoriamente representa o devir heraclitiano. Da outra parte, apesar de sua quase imperceptível pequenez, cada átomo é, em si mesmo, o Ser-uno, porque é eternamente igual.

Dessa forma, Demócrito concordava com a afirmativa eleática de que as transformações eram ilusórias, e que a aparência que o mundo transparece aos nossos olhos deriva unicamente desse eterno juntar e espalhar dos átomos. É em cada uma dessas partículas que está a eternidade e a imutabilidade, ou seja, o ser, a essência, a arché. O não-ser transparece no vazio, o espaço por onde o movimento e o devir se realiza. Desta forma, Demócrito concorda com Parmênides porque cada um dos átomos é eterno e imutável, e que tudo o que existe nasce de uma preexistência e encerra com uma desagregação de átomos que, individualmente, mantém a mesmíssima essência que tinham antes e sempre. Isso tudo, porém, sem inviabilizar Heráclito, que tem no vazio o campo para o devir.

Claro que a teoria atômica de Demócrito, criada puramente através de poucas observações empíricas e fortemente baseada em atividade intelectual, não era perfeitamente conciliável com as modernas hipóteses químicas, que dividem os átomos em partículas ainda menores, acomodadas em diversas camadas formadas pelos níveis de energia. Embora tenha introduzido o acaso na discussão da natureza da realidade, ele achava, por exemplo, que os átomos não se agrupavam de maneira absolutamente randômica, sendo que sua forma favorecia imensamente essa ligação. Eu poderia fazer algum tipo de contorcionismo para dizer que as quantidades de elétrons das camadas mais exteriores poderiam representar os “ganchos” que fariam as partículas encontrar suas afinidades, mas isso é coisa de quem quer acomodar mitologias com realidade, e não farei isso. Sua capacidade de predição já é admirável o suficiente, sem a necessidade desse tipo de coisa.

E isso porque há muitos acertos. De fato, tudo é feito de átomos, que se agregam e separam, sendo que o átomo que hoje forma um ser humano estará amanhã em um pedaço de carvão, e depois em uma calça de tergal. Eles são poucos, e suas combinações é que resultam em substâncias. Não são exatamente indivisíveis, como já descobriu a química moderna, mas a separação de seus elementos representa a sua destruição, guardando um sentido de indivisibilidade. E entre eles há só o vazio. A matéria não existe sem o vazio e ele é fundamental e inegável, indisputável e sempre presente, como diante de nós quando vemos toda a nossa vida ficando para trás, enquanto o mundo prossegue seu giro.

Bons ventos a todos!!!

Recomendação de leitura:

Nada restou dos escritos de Demócrito a não ser alguns poucos fragmentos. De Lêucipo, nem o cheirinho. Neste caso, o melhor a fazer é se socorrer de coletâneas dos pensamentos, como na ótima obra mencionada abaixo:

SOUZA, José Cavalcante (org.). Os Pré-socráticos. Col. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

* Há uma justificativa para enquadrar Demócrito como pré-socrático: o tema que o tornou célebre nos livros didáticos tem mais a ver com a fase dos antecessores de Sócrates do que propriamente como característica final de sua filosofia. Ele costuma ser enquadrado assim justamente por uma acomodação didática, e não temporal.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Sobre nossos elementos primordiais e a evolução do pensamento filosófico rumo à Ciência

Olá!

É inevitável. A curiosidade infantil sempre leva à pergunta clássica sobre o nascimento dos bebês. Como a cegonha requereu aposentadoria e os repolhos estão estéreis após os pesticidas, a explicação dada aos pimpolhos tem que ser cada vez mais calcadas na realidade. Mas, como bem sabemos, explicar todo o ciclo que leva à gravidez e ao nascimento dá um trabalho imenso para quem ainda não tem um aporte muito significativo de conhecimentos. E então entram em cena aquelas pantomimas que falam sobre como o-papai-começou-a-namorar-a-mamãe-e-então-eles-se-casaram-depois-o-papai-plantou-uma-sementinha-dentro-da-mamãe-que-cresceu-cresceu-cresceu-até-ficar-tão-grande-que-não-cabia-mais-na-barriga-da-mamãe-e-por-isso-precisou-sair-o-papai-levou-a-mamãe-para-o-hospital-e-então-o-médico-puxou-você-para-fora-e-você-nasceu, ou seja, uma bela série de malabarismos didáticos.

Mas não é só isso que desperta a insaciável curiosidade dos nossos queridos fedelhos. A própria humanidade, em sua infância, carregava consigo o ônus de não saber de onde veio, do que eram feitas todas as coisas, porque existiam igualdades e diferenças, entre outras aporias.

Como eu já disse em outros momentos, o homem tinha dois focos nos quais poderiam lançar suas especulações: no universo que o rodeava ou em forças superiores, que eram desconhecidas dele. Esta era a saída mitológica, e a primeira era o que, mais tarde, chamaríamos de Física.

Claro que a mitologia tem mais facilidades. Sua principal arma é a tradição oral, aquelas histórias que se contam de pais para filhos, de patriarcas para aldeães, de sacerdotes para crentes, e assim por diante. Não há o rigor da observação empírica, mas um acúmulo de histórias que buscam, em última instância, uma resposta para a agonia da dúvida. Este tipo de narrativa sobre a origem do universo é o que conhecemos em Filosofia como cosmogonia.

Mas o método mitológico tem seus problemas e dificuldades inerentes. Para que uma explicação minimamente razoável oriunda da mitologia pudesse ser produzida, era preciso não explicar somente a origem do cosmos, já que esta era a parte fácil de explicar – os deuses deram origem a tudo o que existe. Para tanto, era necessário retroceder ainda mais. Era preciso, de alguma forma, narrar a origem dos deuses, que chamamos de Teogonias (theos=deus + gonos=origem). Elas eram muitas, a maioria transmitida oralmente, mas algumas delas se tornaram especialmente célebres, como aquelas escritas por Homero e Hesíodo, que chegaram aos nossos dias. Transcrevo abaixo um pequeno trecho da Teogonia de Hesíodo, descrevendo como todos os deuses brotam do caos, também este devidamente deificado.

Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também
Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,
dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado,
e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,
e Eros: o mais belo entre Deuses imortais,
solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos
ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.

Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.
Terra primeiro pariu igual a si mesma
Céu constelado, para cercá-la toda ao redor
e ser aos Deuses venturosos sede irresvalável sempre.

Pariu altas Montanhas, belos abrigos das Deusas
ninfas que moram nas montanhas frondosas.
E pariu a infecunda planície impetuosa de ondas
o Mar, sem o desejoso amor. Depois pariu
do coito com Céu: Oceano de fundos remoinhos
e Coios e Crios e Hipérion e Jápeto
e Teia e Réia e Têmis e Memória
e Febe de áurea coroa e Tétis amorosa.

E após com ótimas armas Crono de curvo pensar,
filho o mais terrível: detestou o florescente pai.
Pariu ainda os Ciclopes de soberbo coração:
Trovão, Relâmpago e Arges de violento ânimo
que a Zeus deram o trovão e forjaram o raio.

Eles no mais eram comparáveis aos Deuses,
único olho bem no meio repousava na fronte.
Ciclopes denominava-os o nome, porque neles
circular olho sozinho repousava na fronte.

Vigor, violência e engenho possuíam na ação.
Outros ainda da Terra e do Céu nasceram,
três filhos enormes, violentos, não nomeáveis.
Cotos, Briareu e Giges, assombrosos filhos.

Deles, eram cem braços que saltavam dos ombros,
improximáveis; cabeças de cada um cinqüenta
brotavam dos ombros, sobre os grossos membros.
Vigor sem limite, poderoso na enorme forma...

Podemos perceber, portanto, que a criação do mundo é dependente da criação dos deuses. Evidentemente, as descrições dos mitos de criação sempre contém mais poesia do que propriamente história. O mito teogônico de Hesíodo é apenas um exemplo, assemelhado com tantos outros, oriundos de tantas outras culturas.

Ocorre que, mesmo com tanta riqueza criativa na construção deste mito, chegou um momento em que o grego antigo olhou para o universo que o rodeava e percebeu que o observável não era a ação destes deuses, mas os próprios fenômenos em si. Não havia um contato direto com as suas divindades, apesar da atribuição de todos os acontecimentos à vontade de um dos deuses. Mesmo não se desvinculando por completo das explicações transcendentes, o grego começou a procurar no próprio universo a sua origem e os seus princípios comuns. Deste modo, a Cosmogonia migrava para a Cosmologia. Não se queria mais entender apenas a origem das coisas, mas entender as coisas em si mesmas, e a partir de si mesmas. Em suma, querem se ver de frente ao real palpável, e não apenas ao suposto.

Mas haveria a possibilidade de se alcançar o real palpável? Talvez não, haja vista às limitações tecnológicas da época, mas desde então se notou que os poucos elementos disponíveis possuíam uma harmonia e uma regularidade que podiam ser vistos como indicativos de uma regra geral. E a partir daí inicia-se a busca por um elemento primordial, presente em tudo o que existe, que justificasse a origem e a composição de cada coisa que há no universo: a arché. E isso tudo se utilizando da melhor ferramenta disponível ao homem: o seu próprio raciocínio, tendo a lógica por estrutura.



Como volta e meia eu volto à questão da arché, achei por bem elaborar um texto onde eu pudesse explanar todas as teorias encontradas no período anterior a Sócrates. Em primeiro lugar, porque é muito interessante verificar como a humanidade sempre procurou saídas inteligentes para suas dúvidas. E depois para que todos nós possamos perceber como o pensamento humano evolui, partindo de teses mais simples, agregando conhecimento e tornando-as mais e mais complexas e plausíveis. Vamos nessa (com paciência, porque o texto ficou longo).

Tales e a água

Tudo começa com Tales, mas já falei dele em duas oportunidades, aqui e aqui, e não o farei de novo, porque senão vão achar que sou tiete. Ou chato de galochas. Portanto, leiam os dois links em questão. Para fins didáticos, vou apenas esclarecer que a arché, para Tales de Mileto, era a água.

De qualquer forma, pincelada rápida: Tales, pela primeira vez registrada, olha para a natureza  para investigar sua própria gênese e dá primazia aos gregos naquilo que concebemos como Filosofia no ocidente. A originalidade dos gregos está na eleição de um objeto a ser estudado, na formação de um conceito e na utilização de um método, ainda que possamos chamá-los de primitivos.

Anaximandro e o apeiron

A segunda proposta introduz pela primeira vez um elemento que não poderia ser percebido a olhos nus. Entra em cena Anaximandro, na mesma cidade grega (hoje turca) de Mileto onde surgiu Tales. Sua proposta supõe que a água, elemento imaginado por Tales, já é uma derivação de algo ainda mais primitivo. A água, por mais elástica que possa ser, e por mais que possa navegar por diversos estados, ainda assim assume uma forma. Ou melhor, é compelida a ter uma forma, ainda que seja a de uma etérea névoa, um transparente e quase invisível vapor.

O princípio fundamental deveria ser outro. Algo que pudesse permear o universo inteiro e adotar qualquer forma, com base nas condições existentes nos diferentes ambientes por onde ele passasse. Algo que pudesse ser encontrado além das fronteiras do nosso conhecimento, já que os elementos existentes no planeta Terra não poderiam representar a totalidade daqueles que estão espalhados por todo o cosmos. Algo que pudesse conter em si todas as oposições dos estados observáveis na natureza, como o quente-frio, mole-duro, seco-úmido, compacto-poroso.

Esse elemento não seria propriamente uma substância, mas teria a capacidade de se transformar em qualquer uma, justamente por sua indefinição de matéria e forma. Era a massa generativa de tudo o que existe. Tudo surge a partir deste mesmo elemento, que – novamente – por sua indefinição, e também por sua infinitude, pode moldar absolutamente qualquer coisa.

Anaximandro chama esse elemento primordial de apeiron, originado da fusão das palavras gregas a (sem) e péiron (limite). Mais tarde, alguns autores identificaram o apeiron com o éter, uma espécie de quinto elemento imperceptível diretamente pelos sentidos, mas esta é uma outra história.

Anaxímenes e o ar

Anaxímenes é outro filósofo da cidade de Mileto que se debruça sobre a questão da arché. Ao que parece, ele acha a proposta de apeiron de Anaximandro radical demais, e até mesmo fantasiosa. Essa crítica de Anaxímenes é compreensível, principalmente quando lembramos que o princípio primeiro da Filosofia era se afastar do substrato mitológico, que a tese de Anaximandro volta a se aproximar, ao atribuir à arché um aspecto infinito e indeterminado. Para ele, já há um elemento que consegue se espraiar para todo o universo, até mesmo onde se crê que ele não exista: é o ar.

De fato, o ar pode se tornar tão rarefeito que acaba por se tornar indetectável, e somos induzidos a acreditar que há vácuo, mas não; o ar está lá presente. Além disso, o ar pode ser percebido, ainda que invisível, pela ação dos ventos, quando se torna uma percepção táctil. Mas, e se o ar estiver parado? É ainda assim possível percebê-lo, pelo aumento ou diminuição da temperatura.

É no processo de rarefação e condensação que o ar forma tudo o que existe. No pensar de Anaxímenes, ao se rarefazer, o ar se aquece e forma o fogo; ao se condensar, esfria e forma a água; aumentando a densidade, teremos a terra e demais elementos sólidos. Em Anaxímenes, portanto, temos pela primeira vez uma dinâmica dos elementos para reger a formação das coisas.

Xenófanes e a terra

Depois disso, temos Xenófanes de Cólofon, que acredita que o elemento fundamental é a terra. A base para seu raciocínio é a inversão da conclusão de Anaxímenes. Não é o ar que se torna mais denso, mas a terra que se torna mais dispersa. É a terra, ao se rarefazer, que forma a água, que, por sua vez, se torna cada vez mais difusa para formar a atmosfera.

Mas por que a rarefação da terra, e não o adensamento do ar? Xenófanes observa que a primazia do elemento sólido se dá pelo fato de que é um meio onde encontramos uma diversidade muito maior de substâncias. É da terra que brotam os vegetais e para onde voltam os animais depois de mortos, e para onde escoa a água da chuva. Mesmo os oceanos, que são muito maiores do que a porção emersa do planeta, têm em seu fundo a mesma terra, ou seja, é o elemento sólido que suporta o meio líquido.

Mas Xenófanes também encontrou outra base importante para sua teoria: a presença de conchas e esqueletos em escavações. Ele não enxergava a formação de seres em pleno ar, mas, ao encontrar esses vestígios de seres ao se aprofundar na terra, podia interpretar que lá eles se encontravam em formação ou em desfazimento.

Heráclito e o fogo

Como não poderia deixar de ser, haveria alguém para determinar o fogo como arché. E esse alguém foi Heráclito, da cidade de Éfeso.

Este cara tem bastante importância para a Filosofia, porque foi um dos primeiros pensadores a abordar a questão da dicotomia entre permanência e mutabilidade das coisas. Heráclito era mobilista, ou seja, sua metafísica previa que todo o universo está em constante devir. Sua frase mais famosa: “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”, significando que nem o rio nem quem se banha é o mesmo em dois momentos distintos – a água do rio já passou, a pessoa que nele entra já envelheceu, mesmo que só poucos instantes.

Heráclito aperfeiçoa o dinamismo elementar de Anaxímenes, já que sua arché, o fogo, é o elemento essencial não só corpóreo, mas também simbólico da constante transformação universal. O fogo é real palpável quando faz o sólido derreter, o líquido evaporar e o gás evolar pelo infinito. E é simbólico quando brota pequeno, cresce ao ser alimentado e fica pleno até sua força ser minorada, até produzir pouco calor e luz, e até se extinguir, deixando como marca de sua existência apenas os rastros no ambiente por onde viveu.

Pitágoras e o número

Percebam como, pouco a pouco, os filósofos vão tornando suas teses sobre a arché mais e mais sofisticadas, incluindo elementos que não representavam unicamente o cosmos material, rumando para especulações metafísicas. Isso se torna mais perceptível em nossa próxima estação, a cidade de Samos, onde encontraremos um dos mais seminais matemáticos de todos os tempos: Pitágoras.

Devo agora, por uma questão de honestidade intelectual, confessar minha autêntica ojeriza por essa área tão importante do conhecimento, basilar para qualquer ciência que se queira praticar. E reconheço nisso um defeito meu, até mesmo porque admito plenamente o seu valor. E, com isso, reconheço em Pitágoras um gênio. Com pouquíssimos dados à sua disposição, formulou vários teoremas, sendo que o célebre “o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos” recebeu seu nome e é um dos postulados básicos da trigonometria. É um dos mais antigos teoremas matemáticos conhecidos.

Pitágoras e seus discípulos tinham o hábito de observar atentamente o mundo prosaico que os rodeava e encontrar correlações que permitissem reduzir os fenômenos a expressões matemáticas. Observavam trajetórias, impactos, pesos e tudo o mais que estivesse à disposição. E, evidentemente, acabaram encontrando muitas dessas correlações. Perceberam que o universo funcionava de maneira harmônica, e dessa harmonia emergiam os cálculos que a explicavam. E concluíram que o número era a essência de todas as coisas.

É óbvio que Pitágoras não achava que ao picar uma coisa qualquer em mil pedacinhos, apareceria, luminoso, o número 1. Ou que de um belo algarismo instalado no centro de um jardim, brotaria, perfumada e espinhuda, uma roseira-branca. Ou ainda que, uma vez aquecido, esse mesmo algarismo purgasse água e depois desaparecesse, transformado em ar. Pitágoras enxerga na harmonia matemática, na articulação calculável e nas engrenagens naturais a essência de todas as coisas, sem criar, para tanto, um elemento físico.

Essa abordagem será de grande valia para que a questão seja vista de maneira cada vez mais científica, desembocando em uma conclusão surpreendente que veremos mais adiante.

Empédocles e as raízes

A próxima concepção é de Empédocles, da cidade de Agrigento, atualmente na Sicília, mas que fazia parte da Magna Grécia à época. Ele traz duas grandes novidades. A primeira, mais evidente e menos importante (como veremos), é a teorização de que a arché não é composta de um único elemento, conforme imaginavam seus antecessores. Pelo contrário, tudo era composto pelos quatro elementos básicos conhecidos – terra, água, ar e fogo. Eles iam misturados em todos os objetos, em diferentes proporções, e a preponderância de um deles dava a característica geral da substância, que eram bastante óbvias: se o elemento era mais rígido, havia uma maior quantidade de terra; se era líquido, o maioral era a água, e via discorrendo. Deu a esses princípios fundamentais o nome de raízes.

A segunda novidade prenunciava as leis de atração e repulsão, muito embora Empédocles atribuísse uma espécie de “valor ético” a seres inanimados. É que nosso profético filósofo sacou que, a partir de quatro raízes, era possível obter infinitas composições, que possibilitariam a obtenção de todos os materiais do universo e a constituição de novos. E o que faria com que estas diferentes raízes se combinassem e se dissolvessem?
Bem, Empédocles propõe uma solução inusitada. Assim como no relacionamento entre os seres vivos, havia entre as raízes forças de atração e repulsão equivalentes ao amor (eros) e ao ódio (neikós). O amor é a força agregadora e atrativa. Faz com que os elementos se aglutinem, ao inverso do que ocorre com o ódio, que separa e fragmenta. Pode parecer esquisito, mas sabemos hoje que, sem os princípios de atração e repulsa, é impossível compreender bobagens como magnetismo, estrutura atômica e gravidade.
Anaxágoras e as homeomerias
Depois vamos visitar Anaxágoras, da hoje turca cidade de Clazômenas, que também traz uma grande novidade. Ele rejeita a multiplicidade de elementos preconizada por Empédocles. Para ele, a multiplicidade existe, mas encerrada em um único elemento, que contém todos os outros. São as homeomerias, que vamos investigar agora.
Anaxágoras observa o seguinte: sem que seja necessário agregar nada, uma pequena semente já contém em si a árvore inteira. Idem com um homem. Um pequeno embrião vai se tornar um homem adulto, talvez um forte guerreiro, talvez um gordo comerciante.
Ou seja, os seres não surgem do nada, como mágica. Seguem um processo de divisão que torna sobejas algumas características e inibidas outras. Isso não se aplica unicamente aos seres vivos, mas aos brutos também. Portanto, a arché seria alguma coisa que se assemelha a uma semente, chamada por Anaxágoras de spérmata (o termo homeomeria consagrou-se por conta da afinidade de Aristóteles com esta tese, e significa alguma coisa semelhante a “partes qualitativamente iguais”). O elemento seminal conteria em si mesmo a totalidade da tipificação da matéria universal, se diferenciando umas das outras pelas partes que seriam ativadas, divididas daquelas que permaneceriam inertes. As frases-mote: “tudo está em tudo” e “em cada coisa há parte de cada coisa”.
Mas havia um princípio cósmico transcendente que explicava o que fazia uma homeomeria se transformar em uma determinada coisa, e não em outra qualquer. Anaxágoras enxergava outro princípio fundamental, que determinava qual de cada componente da homeomeria prevaleceria sobre os demais. Ele não se desvencilha de atribuir a este princípio ordenador uma certa divindade. Era o nous.
A característica divinizante do nous era que essa inteligência ordenadora estava apartada das coisas, sendo sua integradora, mas não integrante. É ela que fez o universo girar e que reconheceu as necessidades de aglutinação e separação dos seus fundamentos, sendo externa a eles, para que pudesse se dar conta da harmonia do seu funcionamento.
Demócrito e o átomo (Pobre Lêucipo, todo mundo esquece-se dele)
E assim chegamos à nossa estação final. Vamos falar de Lêucipo de Mileto e de seu discípulo mais ilustre, Demócrito de Abdera. Com eles, teremos a primeira tentativa de explicar o universo de maneira puramente mecanicista, sem nenhum tipo de intervenção de divindades ou entidades metafísicas.
Desde muito tempo, o homem percebeu que os objetos de seu ambiente podiam ser reduzidos a partes cada vez menores. Uma rocha pode ser fragmentada até se transformar em areia, e que dos seus grãos poderia ser obtida uma divisão ainda maior, o que somente não era possível conseguir por causa de falta de meios. Mas é fato que essa redução era possível, até o limite da percepção.
Qual era o limite desta divisão? Até onde era possível chegar sem que a matéria se descaracterizasse? Demócrito imaginou que, quando esse limite fosse atingido, não mais haveria como tornar a matéria ainda menor. Este limite de divisibilidade da matéria era o átomo. Essa palavra grega é composta pelas partículas a (sem) e tomos (divisão).
A grande modificação em relação às raízes de Empédocles e à homeomeria de Anaxágoras era que, agora, as partículas que compõem o universo são indiferenciáveis entre si. Um átomo de água não é diferente de outro átomo de água, e nada há nele além do elemento que representa. Claro que o conceito de molécula era ainda inalcançável, mas Demócrito previu que eles teriam combinações possíveis entre si. Isso porque nosso risonho amigo pensava que o número de tipos de átomos era bastante pequeno, se comparado com o total de elementos perceptíveis no cosmos. O que fazia com que suas características fossem distintas era uma descoberta ainda mais surpreendente: os átomos tinham espaçamentos entre si, que não era preenchido por absolutamente nada. Era o vácuo.
Como não havia nenhum princípio ordenador nas teses de Lêucipo e Demócrito, tudo era formado ocasionalmente. É meramente o encontro mecânico dos átomos que produzia a ordem do universo.
Então vamos ver:
1. O mundo é composto por minúsculas partículas espalhadas por toda a parte;
2. Os átomos possuem movimento;
3. Os átomos existentes são poucos, mas suas combinações são infinitas;
4. O espaço entre os átomos é preenchido de vácuo;
5. Nada mais há do que átomos e vácuo;
6. Todas as coisas se diferenciam por conta do arranjo e disposição dos átomos que as compõem;
7. Os átomos são indivisíveis. Claro que Demócrito não previu que o átomo era particionado, ele não tinha nenhum recurso para isso, mas é preciso lembrar que não essencialmente erro nessa assertiva. Um átomo somente pode ser dividido, pelo que se conhece hoje, por fusão ou fissão, o que o destrói.
Lembrando que a construção deste conceito nasceu unicamente pela via filosófica, dá para perceber o quanto esse modelo estava correto. Pena que os maiores nomes da Filosofia Antiga, Platão e Aristóteles, não compraram essa ideia. O mesmo se aplica à Filosofia Medieval, que já dava por suficiente a explicação teológica da origem do cosmos. Por conta disso, a ideia do átomo ficou adormecida por muitos séculos, até que os alquimistas, atraídos pela possibilidade de transmutar um elemento em outro, voltaram a investigar as teses que previam a unicidade dos materiais. Mas só deslanchou mesmo com John Dalton, no século XIX. Lêucipo e Demócrito mataram a charada.
Parmênides e o Ser
È finito? Sim, mas eu ainda gostaria de fazer uma observação sobre Parmênides, o pai da permanência, do Ser infinito e imutável. Ele não discorreu fundamentalmente sobre uma arché, mas o filósofo da ciência Karl Popper percebeu que as características atribuídas ao Ser, como a redução imutável à essência daquilo que existe, e a impossibilidade de atribuir qualitativos àquilo que não existe, ou seja, da imutabilidade do Ser, em clara oposição ao mobilismo de Heráclito, faz com que vejamos uma mesma intenção, agora metafísica, de explicar a origem e a causa do universo.
O Ser é o que é, sentença estranha. Mas isso quer dizer que, livre de todos os fenômenos e aparências, que fazem com que ele seja colocado como algo mutável aos nossos olhos, não teremos nada do que o Ser não é. E, com isso, atingimos sua essência e, de certa forma, sua arché.
Não há dúvidas de que voltarei com mais rigor a este tema em especial, mas não queria deixar passar batido. O mais importante de todo esse caminho que tracei é perceber o rumo que a Filosofia tomou, e a percepção de como o conhecimento é colaborativo. Um pensador não jogou fora o conhecimento obtido por outro apenas por não concordar com ele. Pelo contrário, o pensamento de um deu base ao outro, mesmo que por oposição. E o exemplo da arché demonstra como se transita da Filosofia para a Ciência. A primeira especula até que a segunda acha. Esse é o mundo do pensamento.
Chega! Já tá muito longo. Obrigado pela paciência.

Recomendação de leitura:

Todo manual de Filosofia que se preze fala sobre a questão da arché. Por isso, vou preferir indicar a versão completa do texto de Hesíodo mencionado no começo do post. É meio pesadinho, mas não deixa de ser interessante, em especial porque é um testemunho do sistema que buscava dar sentido ao mundo antes que partíssemos para a aventura do conhecimento racional.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. São Paulo: Iluminuras, 1991