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quarta-feira, 13 de maio de 2026

O café filosófico do quotidiano – onde está e o que é o Nada?

(O contato aprofundado com o Japão tem trazido mais do que Jaspions e Jiraiyas)

Nesse sistema, cada coisa é ela mesma em não ser ela mesma, e não é ela mesma em ser ela mesma. Seu ser é ilusão em sua verdade e verdade em sua ilusão. Isso pode soar estranho na primeira vez que se ouve, mas, na verdade, nos permite, pela primeira vez, conceber uma força em virtude da qual todas as coisas são reunidas e trazidas em relação umas com as outras, uma força que, desde os tempos antigos, tem sido chamada de ‘natureza’”.

Kenji Nishitani

Olá!

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Esta história começa com um fato triste. Não se trata de nenhuma catástrofe que tenha ceifado vidas ou modificado destinos, mas de um método de extração de café transformado em cacos.

A coisa foi mais ou menos assim: Curitiba é quase tão boa quanto São Paulo no quesito cafeterias. Enquanto meu filho mais velho ainda morava lá, sempre procurávamos alguma casa diferente para provar os produtos e ganhar repertório. Em uma delas, no saguão de um hotel, pedimos nossos cafés e fomos nos sentar para esperar, até sermos sobressaltados pelo ruído de porcelana caindo no chão. E lá estava a mocinha desesperada com a meleca toda no balcão. Em um impulso, fiquei de pé e fui ajudar com o inútil recolhimento de um grande pedaço que havia saltado sobre o balcão. Quando o peguei, pensei comigo: que método é esse? Era um falecido Origami.

Trata-se de um utensílio muito semelhante ao brasileiro Koar, e segue aproximadamente o mesmo princípio geral: diminuir o contato do filtro com o porta-filtro, através da distribuição de ranhuras que permitem a livre passagem de ar. Porém, aqui as ranhuras têm arestas pontiagudas, enquanto o Koar as tem arredondadas.

Outro diferencial é um maior orifício na base, se comparado aos porta-filtros V60, da Hario. Como o objetivo do método é proporcionar uma passagem rápida da água, esta característica faz com que haja uma retenção menor. O controle deve ser feito através da moagem.

O material de confecção é nobre, sendo composto por porcelana recoberta de resina, com todo o charme que remete às dobraduras de papel tão caras aos japoneses. Há uma explicação para a aplicação da resina, além do efeito estético: a porcelana pura contém muita porosidade, o que provocaria uma retenção indevida de óleos e outros resíduos, com a dupla desvantagem de “roubar” componentes e mantê-las em oxidação, prejudicando o resultado final. 




Nome do utensílio: Origami

Tipo de técnica: percolação em porcelana resinada

Dificuldade: Baixa

Espessura do pó: Média

Dinâmica: O porta-filtro deve ser inserido em um suporte do tipo mancebo ou anel de madeira (não vem com o produto) e receber um filtro cônico. Após o habitual bloomig, realizar os despejos necessários conforme a receita escolhida. 

Resíduos: Baixos

Temperatura de saída: Média

Nível de ritual: Médio

O acidente foi infeliz, mas me trouxe uma série de reminiscências infantis. Eu tinha uma tia-avó chamada Antônia, espanhola de Cartagena, que tinha duas habilidades muito especiais. Ela era daquelas pessoas que contavam histórias com todo um colorido, que seduzia sua audiência, em especial as crianças. Seu sotaque fortemente marcado ajudava muito na tarefa, porque trazia uma certa aura de mistério, como uma pessoa que vinha de longe (vinha mesmo) e trazia um espírito cigano, de quem tinha visto muita coisa em seus vários anos de vida. E ela era pródiga em fazer dobraduras, que, muitas vezes, juntava às histórias que contava. Ela não apenas ensinava, mas construía todo um enredo através do ato. E não eram barquinhos ou aviõezinhos o que ela confeccionava, mas homens de ternos, cavalos que puxavam carruagens, personagens da commedia dell’arte, e com ela vinham os soturnos negociantes de metais preciosos, os cavalos que transportavam o sol e o Polichinelo falastrão espalhando segredos pela aldeia toda. Um espetáculo. É sério. Era a contação de histórias eleva a nível de bel’arte.

Muito pouco eu aprendi, tanto das histórias, quanto das dobraduras. Talvez o mais diferente sejam os barquinhos de capota, pouca coisa diversa daqueles que colocamos nas bacias de nossos bebês (ainda se usa colocar barquinho de papel nas bacias dos bebês?). Mas uma coisa é certa. O termo origami, tão caro à cultura japonesa e que hoje está no nosso léxico, era absolutamente incomum. Aliás, quando eu era criança, a cultura japonesa ainda era algo muito distante do nosso dia-a-dia. Sushis eram inexistentes fora da Liberdade. Animes e mangás eram raridades restritas aos Ultramens da vida, e muitos dos desenhos que passavam na TV nem davam noção direta de sua procedência nipônica (hentais também não eram populares, para gáudio de Carlos Zéfiro - entendedores entenderão). Tínhamos algumas ocupações mais presas a estereótipos do que a realidade permitiria deduzir: quitandas, tinturarias e “pasterarias” eram clássicas ocupações de japoneses e seus nisseis, sanseis e sucedâneos. Além, evidentemente, dos primeiros lugares em concursos e vestibulares. Mas ainda restava uma visão de colônia mais fechada, de cultura substancialmente própria, como se fosse impensável um japonês bicheiro ou cabulador.

Hoje em dia, a cultura japonesa abriu asas em terras tupiniquins, e encontramos tudo isso que falei em profusão, incluindo rodízios impensáveis outrora, bandejinhas bentô, refrigerantes que explodem na boca, lojas de quinquilharias e, claro, hentais.

O resultado é que não temos mais aquele ar exótico e fechado, embora seja ainda uma cultura inequívoca por suas características próprias. É até óbvio, já que usam língua que nem são de nosso tronco linguístico, tem religiosidade que foge do modelo abraâmico, são bem mais uniformes fenotipicamente e, com isso, não conseguimos ter a mesma proximidade que temos com os demais latino-americanos, por exemplo. Mas o mundo interligado nos permitiu ter um contato muito mais rico com seus valores e manifestações.

Mas não é só da cultura popular que encontramos cada vez mais intersecções com influências orientais, mas no próprio meio intelectual. Os japoneses têm a fama da sabedoria, muito por conta do modo reflexivo com os quais conduzem seus hábitos, religiões e doutrinas, dando um aspecto racional que nem sempre está presente nas tertúlias ocidentais, tidas como passionais e sanguíneas, menos dada a introspecção.

É a partir do século XX que veremos as duas frentes culturais se imbricando, com a abertura das ideias ocidentais penetrando no Japão, e, no caminho inverso, uma melhor compreensão dos fenômenos intelectuais japoneses cada vez mais se apresentando no dito pensamento ocidental. Esse ponto de contato se dá principalmente através da Escola de Kyoto, que funciona como uma espécie de porta de entrada para os filósofos europeus, especialmente alemães, como Kant, Hegel, Schopenhauer, Heidegger e Nietzsche.

Estava com vontade de escrever um texto mais genérico sobre essa escola, mas vou deixar para um segundo momento. Vou falar agora de um exemplo bem marcado de como ambos os modelos de pensamento se imiscuíram a partir desse momento, o que se deu com uma obra que tenho acompanhado nos últimos tempos.

O intelectual Keiji Nishitani faz uma conciliação interessante entre o conceito de niilismo e noções que atravessam a religião oriental, em especial a ideia de vacuidade do budismo.

O momento histórico de onde surgem seus pensamentos tem muito a ver com o fracasso das expectativas surgidas a partir do Iluminismo europeu. Sucessivamente, as tradições, as religiões e mesmo a razão se mostraram frustrantes para fornecer sentido à existência humana. A primeira representa a perpetuação dos estados de coisas que conduzem ao vazio, a segunda demonstrou com o tempo não trazer respostas e a terceira, ao fim e ao cabo, demonstrou que a confiança na ciência e na tecnologia levam ao seu efeito oposto: as guerras hoje podiam, pela primeira vez na história, levar todo o planeta à destruição. Nesse contexto, o niilismo floresce e se consolida: a vida é um grande absurdo em que nada faz sentido. Essa é uma afirmação muito recorrente no existencialismo, especialmente em Camus.

A condição do absurdo é desconfortável. Ninguém se agrada de não ver sentido na sua existência, de não ter qualquer tipo de suporte para sustentar suas motivações, e isso acaba tendo uma solução ilusória: o mundo moderno, fortemente baseado no individualismo, busca cada vez mais se esconder do nada, através da posse contínua e da sensação de uma vida incrível vendida pelas propagandas. O sentido da vida é a compra de passaportes contra o nada. As civilizações do hedonismo são construídas para fugir no niilismo.

Um dos exemplos mais simples está na atual incapacidade de se ver sem um celular na mão (estou digitando este texto em um celular). Com este aparelho, comunicamo-nos com o mundo todo instantaneamente, em um piscar de olhos. É um fenômeno contemporâneo? Nem tanto. Antes dele, havia a televisão, os toca-discos, os walkmen, os rádios… artifícios para desviar o pensamento de nós mesmos. Não são ruins por si mesmos, mas são ferramentas para criar uma cortina entre uma realidade no mínimo desconfortável e uma dimensão feita sob medida para nos mantermos iludidos.

Esse é o grande erro de toda uma sociedade, no parecer de Nishitani. O niilismo não é uma crise do mundo, mas a crise de um ego que busca evitar o vazio, quando, na verdade, deveria explorá-lo.

Toda a fonte de desespero que o humano enfrenta ao se deparar com suas incertezas está baseada no fato de que esse vazio não é absoluto, mas relativo: trata-se de um nada em relação com o próprio ego. As coisas não estão boas para mim, a falta de perspectiva é com relação ao meu futuro, é a minha vida que não avança. Sempre que se coloca algum tipo de problema ou dificuldade, o ponto de referência sou eu mesmo.

Ocorre que, utilizando o princípio de sunyata (vacuidade) do Budismo, Nishitani apresenta a solução ao niilismo de maneira próxima à de Nietzsche. O nada absoluto ocorre quando se consegue despir do próprio eu para se chegar à realidade em si mesma. O nada absoluto é semelhante a entrar em um espaço vazio onde tudo está por ser construído, em um autêntico despejo de criatividade para quem chega a esse estágio. O mundo vai além do ego.

O nada absoluto é uma tela vazia onde você pintará com suas próprias tintas. No dizer de Nishitani, é quando você caminha em uma estrada e perde a noção de destino e, ao olhar para trás, também já não enxerga a origem. No de Nitezsche, é quando se atira no abismo.

De uma forma ou de outra, é possível reconhecer como Nishitani acaba por se aproximar de noções dos fundamentos do próximo conhecimento. Se pensarmos na estética transcendental de Kant, lembraremos que a base mais profunda da relação cognitiva está naquilo que temos de inato: as noções de tempo e de espaço, que acabam por constituir o substrato por onde os conteúdos empíricos são colhidos do mundo. Ao se remover todo esse pacote inserido pelo mundo exterior, ainda assim continuamos a ter o fundamento, agora na forma de nada. Tempo e espaço são os elementos por onde tudo existe, não só na forma concreta, mas da possibilidade.

Portanto, Nishitani vê a vacuidade como um retorno ao inato, ao mais basilar de todos os mecanismos de apreensão do universo para que o ego daquele que se defronta com a angústia possa ter para si a realidade purificada e repleta de possibilidade de transformação. É ao se defrontar com o Ser das coisas que percebemos como elas estão interconectadas e relacionadas para formar a natureza como ela é, em cada um de seus componentes, e que somos parte desse todo, e não apenas nós mesmos. O mundo moderno, impulsionado pelo mercado, tenta nos conduzir para o lado oposto, do individualismo, mas é justo no nada que reencontramos tudo.

Este é o sentido mais autêntico de religião. Não se trata de uma necessidade de reencontro com um ser divino, porque a palavra em si significa “religar”. Mas religar com quê? Com a base que nos constitui, com o reconhecimento de que o universo transita sobre esse nada autêntico. É aqui que se constrói a vida e o sentido, inclusive nos pedaços que se partem ao chão. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Ser mais conhecido no ocidente não significa ter obras traduzidas para o português. É muito difícil achá-las, mas tem sempre um espanhol ou italiano para quebrar nosso galho.

NISHITANI, Kenji. La Religión y La Nada. Madrid: Siruela, 1999.



domingo, 3 de maio de 2026

Consciência do corpo é prova de sua participação na racionalidade (Pequeno guia das grandes falácias – 78º tomo: a incredulidade pessoal)

(O corpo não está fora da relação de conhecimento)

Gostaria de uni-las [N. do A.: a arte e a natureza]. A arte é uma apercepção pessoal. Coloco esta apercepção na sensação e peço à inteligência transformá-la em obra”.

Cézanne apud Merleau-Ponty

Olá!

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Aconteceu. Demorou, mas aconteceu. O médico olhou, olhou e olhou os números nos meus exames e franziu o cenho. Olhava para mim e olhava para os números, para as curvas, para os mapas. Olhava para mim e para a anamnese na tela do computador, com o histórico familiar denunciando a genética desprivilegiada. Por fim, olha para mim e entrecruza os dedos sobre a escrivaninha, proclamando a sentença: você tem duas escolhas – incluir atividades físicas na sua rotina ou já fazer as encomendas típicas de um enfarte. Nem preciso dizer quais são. 


A coisa toda se deu em exames de rotina, o que já tira a agudeza de algum evento bem demarcado, como uma dor no peito ou desmaio. Diante de ultimato tão convincente, eis que eu cumpri, finalmente, uma ordem médica e um desejo antigo da patroa, e me inscrevi na academia. Não se trata de nada filosófico ou científico, como sói acontecer com admiradores de Platão, mas físico mesmo, para dar um pouco mais de sustentação na maquininha. Nada muito aeróbico no começo, porque é preciso primeiro que o coração vá se fortalecendo, então vamos de musculação e de Pilates. Dizem que este último é coisa para senhorinhas, e de fato a chiacchera come solta, reforçando o estereótipo, mas me deixa ainda mais moído que o primeiro, porque seus aparelhos de nomes malucos fazem esticar e suster o próprio peso na maioria das atividades, o que me faz ter consciência de que minha barriguinha não é só uma ode ao ócio, mas à flacidez dos músculos. Incluindo o cardíaco.

Os exercícios especificamente de Pilates são estranhos. Como é de se esperar, há poucos homens fazendo suas torções, enquanto as mulheres se desenrolam em ginásticas que se assemelham a acrobacias, com muitas piruetas nas barras e pranchas, além de técnicas que lembram yoga e balé. Com isso, há um certo ar feminino que nosso preconceito nos faz olhar de bico torto para uma atividade que nada tem a ver com o sexo e a sexualidade do contribuinte. Prometo dar uma boa estudada na história da técnica para trazer a vocês o que ela pode sustentar de filosofia.

Fato é que todos os médicos com os quais conversei após começar a treinar o corpo acudiram com beneméritos à atitude. A verdade é que nós vamos deixando nosso físico para trás à medida que os aperreios da vida nos distanciam de coisas que reputamos como secundárias. Ou, melhor dizendo, que vamos colocando na caixinha de secundárias, porque, na realidade, secundárias elas nunca foram. É claro que passei apertos que simplesmente me impediam de sonhar com o custeio de uma academia, e o tempo disponível era utilizado para trabalhar, e trabalhar, e trabalhar, sempre na esperança de receber um trocado a mais para limpar a longa lista de desafios financeiros. Com isso, veio o costume pela lei do menor esforço e o engordamento, a dificuldade cada vez maior de fazer trabalhos duros e, nessa roda-viva do círculo vicioso, as ateromatoses, as pressões altas, as palpitações e ela, sempre ela, a diabetes mellitus.

Refazer tudo o que ficou para trás é duro e, principalmente, limitado. É muito pouco provável que eu atinja um nível minimamente parecido ao que eu tinha com vinte anos, por força dos abusos e do envelhecimento, mas é preciso tentar, e é isso que eu estou fazendo agora.

Tudo é muito doloroso, até mesmo simples agachamentos, porque meu corpo é um bocado pesado, então nos primeiros dias tudo o que eu fazia era tentar levar as séries até o final. Com o decorrer do tempo e do esforço, as coisas foram melhorando um pouco, a ponto de se poder colocar atenção em outras coisas, como a exata parte do corpo que é ativada nos movimentos. Alguns dos exercícios têm me provocado reações contraditórias. Como a única atividade mínima que eu fazia era andar, esperava que as pernas me doessem menos, o exato oposto do que me ocorre, com autênticos frangalhos pós-treino. Já os braços têm se mostrado resistentes e rijos, justo onde eu esperava dores e mais dores. Por ora, algum incômodo e é só. Isso se dá porque os exercícios físicos causam microlesões e suas consequentes inflamações, que, ao regenerarem-se, acabam por causar o fortalecimento do músculo. Nos exercícios mais pesados, há ainda o acúmulo de ácido lático, que causa aquela sensação impossível de queimação, que não é agradável, mas que também é esperada.

O que eu tenho achado de mais filosófico nesses primeiros meses de treino é a consciência de corpo, de como não a temos até sentir cada uma das fibras sendo repuxadas por aparelhos e exercícios. De fato, nas pausas suadas entre um exercício e outro, repuxo as molas da parede girando os pulsos, e percebendo como cada uma das posições retesa um músculo diferente. Mão virada para baixo ativa o músculo X; virada para cima, mexe com o músculo Y e, para os lados, outro ainda. Você lentamente vai percebendo como cada puxada afeta uma parte diferente do corpo e praticamente consegue desenhá-lo mentalmente. Essa consciência também é treinada na medida em que os instrutores berram suas correções: “mantém o abdômen contraído”, “apruma a coluna”, “abre o peito”, “sinta suas escápulas, escápulas, escápulas, escápulas…” em um longo eco que parece mesclar algo de sonho com uma palavra da moda, ou como se entrássemos em uma caverna na busca da pequena ninfa Eco. No meu tempo de rapaz, dizíamos: omoplata. Numa dessas viradas de nomenclatura, a coisa virou escápula e precisei reaprender tudo isso, menos quando caí do muro empinando pipa e quebrei a dita cuja, seja omoplata ou escápula. Foram dois meses de gesso com o braço esquerdo cruzado sobre o peito. Dizem que tive sorte por não ser o direito, que me consumiria muito tempo de aula. Não sei se concordei com isso na época.

Entretanto, independentemente do meu posicionamento pessoal, o fato é que essa consciência de corpo era praticamente uma lenda tanto dentro do âmbito filosófico, quanto do científico. Se por um lado a consciência parte de um sujeito, ela precisa do caminho dúbio dos sentidos para ser trazida “para dentro”; por outro, a roupagem pessoal de cada uma das consciências deturpa o objeto analisado de como ele efetivamente é.

Estamos em um momento em que está bem estabelecida a divisão entre filosofia e ciência com relação ao quesito “homem” na relação do conhecimento. O principal fundamento da fenomenologia e sua grande novidade está no papel da consciência de quem observa os fenômenos, ou seja, as ocorrências reais que se desenrolam no universo. Sem uma consciência, nada se registra e o ato cognitivo, evidentemente, não acontece. Portanto, a primazia do conhecimento, nesse sentido, está no sujeito, na razão que processa a realidade, e esse é um parecer filosófico.

Já a ciência se baseia na oportunidade empírica de se observar os fenômenos e deles tirar conclusões sobre suas causas e suas consequências. Ao contrário do que pensa a filosofia, não há processos cognitivos sem um fenômeno a ser observado, dando a precedência ao objeto nessa relação: uma consciência nada observa se nada acontece.

Sendo assim, o corpo seria um mero suporte por onde corre a consciência, sem nenhuma função além de “segurar” a mente que capta o exterior. Ocorre que há um preconceito metafísico nessa dicotomia. Onde fica o corpo nessa história toda? Por que nos esquecemos de que a entrada de toda e qualquer sensação se dá por via dele?

É uma questão muito simples. Não há erro em atribuir importância para a razão. É efetivamente por ela que se dá sentido ao conhecimento que se adquire. Mas acontece que a mente pura não existe – ela reside em um corpo como um de seus componentes e não alguma coisa à parte. É tão influenciada por ele, quanto o influencia.

Eu já citei Merleau-Ponty por aqui e vou fazê-lo novamente, por sua abordagem original com relação à participação dos corpos na matriz do conhecimento. A principal crítica do mestre francês se dirige ao pensamento racionalista de Descartes, mas ele detecta que vem desde Platão um certo menosprezo pelo corpo, quando pensamos que é nele que residem os sentidos. O padroeiro grego dizia com todas as letras que o mundo dos sentidos, o mundo corpóreo, era eivado de erros, justamente porque eles eram facilmente enganados por toda sorte de defeito. E é exatamente sob esse signo que o fenomenólogo em tela cria um de seus grandes exemplos de importância da corporeidade.

Platão despreza a arte. Ele o faz porque, para ele, todas as coisas do mundo sensível são meras reproduções imperfeitas dos objetos existentes no racional mundo das ideias. Dessa forma, qualquer paisagem que se possa visualizar nada mais é do que a paisagem obtida através do intelecto na perfeição matemática e geométrica das formulações, e que é plasmada para as formas imperfeitas verificáveis na natureza e com os distúrbios dos sentidos. Ao se reproduzir a paisagem em tela, nada mais se faz do que aumentar o nível de discrepância entre o objeto intelectual e o objeto sensível: uma cópia da cópia. Descartes sacramenta a divisão através da dualidade res cogitans - res extensa, sendo que o corpo é colocado no âmbito da matéria como uma pedra ou um pau qualquer, jogados no caminho. E Ponty se opõe vertiginosamente a essa posição. Para ele, corpo e mente são simbiontes que têm cada um a sua função própria no processo de absorver o mundo. De fato, as reações corporais advindas de qualquer processo de interação com o ambiente são prova de que tal interação é influente no caminho cognitivo, nosso modo pessoal de dar suporte à consciência. Eu sinto raiva, e meus níveis de adrenalina e cortisol são de uma determinada maneira; sinto alegria, e os mesmos hormônios se dosam de maneira diferente. São instâncias corpóreas que influenciam decisivamente na maneira com a qual eu desenvolvo minha percepção, provando que o corpo importa, e muito. Dependendo do meu estado emocional, vejo as coisas de maneiras diferentes.

Em contraposição a Platão, Merleau-Ponty entende que a mão do artista reproduz exatamente aquilo que está na relação entre a mente e o corpo, ou seja, a realidade que a mente do pintor processa ao se defrontar com a paisagem é traduzida pelos seus dedos no trabalho na tela. A obra do pintor é a tradução da consciência que não está além do corpo, e que é traduzida por ele. Como exemplo, ele tenta criar uma relação entre a visão e a reprodução da realidade realizada por Paul Cézanne, pintor pós-impressionista francês que traz uma absoluta originalidade na sua obra.

O grande distintivo da obra de Cézanne é a distorção de perspectivas, levada a cabo pela simplificação das formas. Para um olhar mais descuidado, pode parecer uma falha de técnica, uma inabilidade no trato com os pincéis, mas a existência de obras mais convencionais desfaz essa impressão e nos trazem a pergunta: por que ele está pintando dessa forma?

A questão é a seguinte: se olhamos para um círculo obliquamente, vemos uma elipse. Sabemos se tratar de um círculo, e nossa mente se encarrega de corrigir essa percepção, mas o fato concreto, efetivo e real é que vemos uma elipse, que varia de forma dependendo do ângulo que a captamos. Vejam a obra abaixo, chamada “natureza morta: jarra e frutas em uma mesa” (disponível em https://paul-cezanne.org/Still-Life-Jug-And-Fruits-On-A-Table.html):


Notem que as formas não são precisas como se esperaria de uma reprodução fiel. Há várias referências à esfericidade das frutas, aos pontos de fuga da linha do horizonte e aos paralelismos congruentes, que são todos imprecisos, da mesma forma que é imprecisa nossa sensibilidade voltada para o mundo. O objetivo de Cézanne não é reproduzir os objetos como eles são, mas como ele os percebe.  

Cézanne tinha uma dúvida. Será que sua vocação não era uma mera falsidade, e que sua obra peculiar não era advinda de alguma moléstia visual? Será que todo o seu talento não é originado de um mero acidente da vida? 

Merleau-Ponty entende que a dúvida nada mais é que a confusão para uma ideia que vai além do mero alcance imediato. O que Cézanne faz é deixar aflorar sua percepção, e, a partir dela, traduzir o que seus sentidos apreendem da maneira mais brusca, mais pura. Não se trata de uma obra puramente racional, em que a mente se encarrega de corrigir as distorções dos sentidos, mas com os objetos sendo traduzidos da maneira exata com a qual são apreendidos, nas suas formas mais elementares. É a tradução perfeita de como o corpo, o intermédio dos sentidos, é parte integrante da relação da consciência com o mundo.

Essa questão da distorção, sendo traduzida para nossa vida presente, demonstra como a intuição inicial passa por processos de correção em nossa mente, mas ocorre de pararem no ponto da opinião, e de se ficar sem querer que haja continuidade no mecanismo racional. O problema, muitas vezes, é que nós mesmos não acreditamos muito nas recomendações mais abalizadas, por um simples motivo de… nada. Posição pessoal, em resumo. Muitas vezes influenciadas por opiniões arraigadas, fincadas em convicções apoiadas nas nuvens.

Eu mesmo tinha um exemplo de conduta. Desde 1999 foram iniciadas campanhas de vacina contra a gripe no Brasil. Quando o acesso foi franqueado para a população ampla, fui lá tomar minha dose, ofertada pela prefeitura. Eu passei muito mal, com os piores sintomas possíveis: febre alta, corpo mole, coriza e dor de cabeça. Eu pensei comigo mesmo ter tomado uma vacina PARA gripe, e não CONTRA. Desde então, parei por completo de tomar a dita cuja. Só após a crise da pandemia, convencido pelo conhecimento maior acerca das vacinas e já com a explicação médica de que eu não tinha uma espécie de restrição, mas apenas o efeito de receber uma carga viral muito alta e de cepas variadas, que eu voltei a receber as mesmas.

É aí que colidem conhecimento e opinião. Por mais que uma coincida com a outra, a última tem um estatuto de verdade ainda menor que a primeira. Como assim? Todo conhecimento é o conhecimento que temos no momento atual, podendo ser modificado na medida em que se aprofunda um estudo sobre o tema em questão. Já a opinião é composta mais por carga cultural e convicção pessoal, que, justamente por isso, são mais nossas, e as amamos mais.

Não é incomum que alguém diga que “para mim”, tal coisa é verdadeira ou falsa baseada meramente em convicções. E isso é evidentemente falacioso. A falácia da incredulidade pessoal se baseia na assertiva de que minha opinião é tão válida quanto qualquer teoria científica. Há milhões de cientistas que compõem uma academia (agora no sentido de conhecimento) que guarda tudo o que se pesquisou nos observatórios, laboratórios e nos campos, e uma opinião baseada em qualquer tipo de achismo não tem o mesmo valor. O fato de que eu não acreditei em uma teoria científica não a torna inválida, simplesmente isso. As vacinas continuam a funcionar mesmo que eu creia em algum maluco que diz que há chips sendo injetados em mim.

A incredulidade pessoal dispersa o foco do argumento porque traz um confronto entre realidade cognoscível e mensurável e opinião, uma espécie de lalalalá das crianças frente a qualquer coisa que ela não goste ou não queira ouvir, e, sendo assim infantil, é também irrelevante para um debate levado à sério. 

E entre falácias, pintores em dúvida e gordos na academia vamos entrelaçando nossas realidades com a percepção que temos dela, seja em nossos corpos, seja em nossas mentes. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

A Dúvida de Cézanne é um artigo publicado inicialmente na revista da universidade onde Merleau-Ponty lecionava, e que foi parar em diversas coletâneas. Segue uma indicação:

MERLEAU-PONTY, Maurice. A Dúvida de Cézanne. In Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980.



segunda-feira, 24 de junho de 2024

Navegações de cabotagem – a Loja do Burro de Taubaté e a metáfora para além da figura de retórica

(Não é preciso se incomodar com palavras que parecem ofensas. Às vezes, elas são grandes elogios)

“… ao dizer que a própria palavra ‘metáfora’ é metafórica, na medida em que é emprestada a outra ordem que não a linguagem, antecipamo-nos à teoria posterior; supomos com ela que: 1) a metáfora é um empréstimo; 2) que o sentido emprestado opõe-se ao sentido próprio; 3) que se recorre a metáforas para preencher um vazio semântico; 4) que a palavra emprestada toma o lugar da palavra própria ausente se esta existe”.

Paul Ricoeur

Olá!

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Quantas estrelas precisam brilhar para sua glória? Depende da constelação que você orbita. O futuro a Deus pertence e, portanto, não pertence a ninguém. Por isso, não dá para saber onde estaremos daqui a quinze, vinte ou cinquenta anos. É aquela velha história: dizem que quem nasce para lagartixa nunca chega a jacaré, mas não é assim que funciona. Pequenos progressos são, ainda assim, progressos. É sempre possível que um momento atual reflita um ponto de inflexão, de onde as coisas pegarão a ladeira para cima. Mal comparando, estamos em ano olímpico. É claro que o Brasil-sil-sil não tem como competir com os grandões, como China e Estados Unidos, mas, se chegar às mesmas vinte e uma medalhas da última olimpíada, não podemos dizer que terá feito feio. São duas coisas. Por aqui, as coisas andam lentas mesmo, como bem sabemos. E, ainda assim, em 76 ganhávamos duas medalhinhas de bronze no mesmo evento, o que já dava motivos para comemorar. Portanto, é preciso colocar em ponto de relatividade onde estamos, de onde viemos e para onde vamos.

Faço todo esse périplo que vagueia entre o lirismo barato e a filosofia de porta de boteco para dizer que, em Taubaté, há um time tradicional de mesmo nome, representado pelas cores da bandeira da cidade, como sói acontecer. Comparado com os times da capital, é bastante modesto, estando fora da primeira divisão paulista há exatos 40 anos, mas, falando da região do Vale do Paraíba, só tem alguma concorrência na cidade ao lado, São José dos Campos, bem maior. Mas sua torcida comparece, e é bem representada também no futebol feminino. Eu vim conhecer um estabelecimento misto, pequeno, mas muito interessante, que deveria estar entre os principais pontos turísticos da cidade. É a loja do Burro, mascote do Esporte Clube Taubaté.

Trata-se de uma mascote inusitada, já que se diferencia definitivamente dos infinitos leões e galos que povoam o imaginário futebolístico. Se destacou tanto que o próprio Maurício de Souza eternizou sua versão, em homenagem ao centenário da equipe, em 2014. Mas não é uma origem meramente jocosa, que tenha nascido de uma ofensa (como o porco do Palmeiras). Taubaté é terra de tropeiros, aqueles viajantes que se internalizavam no país para levar víveres e trazer minérios das Minas Gerais. Sua grande ferramenta de trabalho estava nos burros, mais fortes e resistentes do que os cavalos, além de se acomodar melhor nos terrenos íngremes das Serras do Mar e da Mantiqueira, precisamente no entremeio onde a cidade se localiza. Mas há uma história galhofeira, sim, que envolve o bicho: a escalação de um jogador irregular fez com que o time perdesse os pontos onde aplicou uma goleada.

A parte da loja é o que se espera: diferentes artigos relacionados ao esporte em si, como camisas, calções, mochilas, abrigos, bombetas e meiões.

Há também outros itens, igualmente ligados ao clube, mas menos relacionados ao futebol em si mesmo, com uma variedade até inesperada para uma equipe do interior. São carteiras, chaveiros e até uma razoável cerveja.

A parte mais legal, entretanto, é mesmo o museu. Achei uma solução inteligente, porque deixa a história da instituição mais exposta a um público maior, ao invés de somente ficar restrita àqueles que vão ao estádio. Desta forma, o visitante pode conhecer e se afeiçoar mais a ela, além de ter subsídios sobre a própria cidade.

Que não se espere uma sala de troféus como a do trio de ferro da Capital, ou mesmo da Vila Belmiro, mas o time tem suas conquistas importantes, inclusive nos primórdios do futebol paulista, quando, aos cinco anos de existência, levou o Campeonato Paulista do Interior de 1919.

Outro registro importante é o conjunto que fala sobre o título da divisão de acesso de 1979, que contém o próprio troféu, notícias de jornais locais e a camisa do goleiro Wagner Gão, um dos poucos jogadores do Taubaté da época de quem eu tenho lembrança, além do quarto-zagueiro Bothu.


Além do Burrinho da Central, há outra caricatura, em homenagem ao ex-presidente Joaquim de Morais Filho. Ele ficou célebre ao ter seu nome atribuído ao estádio do clube, que ficou conhecido como Joaquinzão, com capacidade para quase 10000 torcedores.

Do lado de fora da loja/museu, um conjunto de painéis conta toda a história do EC Taubaté, contando “causos” e curiosidades.

Não houve esquadrões de renome e projeção nacional, mas alguns bons jogadores surgiram e passaram por estes gramados, especialmente o bicampeão mundial Zito e o centroavante Edmar, que, mais tarde, passou por Palmeiras, Corinthians e seleção brasileira.


Aliás, as visitas dos grandes sempre foram uma atração para toda a cidade, sendo que o maior público da história do Joaquinzão foi uma refrega com o Corinthians, com mais que o dobro da capacidade atual ocupando as arquibancadas. Vejam um cartaz anunciando uma partida contra o São Paulo.


O Taubaté também teve seus dirigentes folclóricos, e isso está exposto no pequeno acervo. Um exemplo é o Dr. João Rachou, que não admitia jogadores que não eram ambidestros no time. Pobre saci.

Por fim, para quem reclama que times como Juventus de Turim ou Atléticos Paranaense e Goianiense tenham mudado de distintivos, vejam por quantos o EC Taubaté passou.


Como vocês que me acompanham sabem, eu sou um apreciador do futebol mais miúdo, aquele que se joga fora da tevê e da exposição maciça. Por isso, não poderia deixar de voltar meu olhar para este clube, especialmente estando por aqui a menina mais nova há mais de três anos. Três anos, três camisas que estão no meu acervo.

Retomando a questão do burro. Os mascotes são muito importantes na vida de uma torcida, porque eles representam uma totalidade, uma espécie de espírito conjunto de um agrupamento humano como um todo, na mesma senda por onde andam os totens. Eles agregam na sua representação todas as virtudes que as pessoas que lhe compõem têm como preciosas. Por esse motivo, alguns mascotes são mais esperados e recorrentes que os outros. O leão é quase óbvio, porque representa a força, a majestade, a imponência e demais que-tais. Por esse motivo, é adotado por um sem-fim de agremiações, mesmo que seja um bicho que não está em nossa fauna, como Sport, Vitória, Bragantino, Inter de Limeira, Remo, Avaí, Fortaleza, Mirassol, Portuguesa (que abandonou uma mascote muito mais interessante, a dançarina de vira Severa) e um monte de outros. Já o galo é representante da valentia e da entrega à luta, e é adotado por Atlético-MG, Paulista de Jundiaí, Ituano, Goiânia, CRB, Treze, Operário-MS e mais outros, na sua versão galinácea ou da campina. A adoção do burrinho é, portanto, um tanto polêmica, porque é inevitável que a principal característica que ele evoca é a… burrice! A assimilação é tão poderosa que você não diz que o leão e leão ou que o galo é galo, mas você diz que o burro é burro. Você tem o Diogo Cão, o Borba Gato, o Carlos Roberto Gallo, o Leão Lobo, o Osvaldo Aranha e até o Cipriano Barata, só que eu nunca ouvi falar de um Antônio Burro, ou um José Asno, seu sinônimo. Portanto, é um bicho que virou sinônimo de ofensa, punto e finito. Mas as coisas não são como aparentam, e a discussão sobre as metáforas são muito mais profundas, o que tornam o Burro da Central um dos mascotes mais criativos e ousados do Brasil. Vamos ver.

Nós não assumimos um mascote pensando em fazer uma assunção direta deles, mas do seu pedaço simbólico. Isso é óbvio até. Eu não vou me vestir de galo ou viver como um leão, mas vou aproveitar o que eles carregam consigo de virtudes representativas. Nós temos aspectos práticos das palavras e, da mesma forma, aspectos simbólicos, fazendo da mesma forma que nos atos e representações da vida. É, nesse sentido, que temos as metáforas.

Ensinam-nos nas escolas que a metáfora é uma figura de linguagem em que substituímos um termo referencialmente direto por outro, indireto, através de um ponto de contato em que ambos coincidem. Isso está correto, mas há uma análise filosófica que vai muito mais profundamente.

Principiando pelo princípio, o que é uma metáfora? A palavra metáfora quer dizer, em grego, algo como “carregar para além”. Neste caso, o que é carregado para além? O sentido da palavra ou frase onde ela é aplicada. Seu uso, notadamente, é poético ou didático. Daí, já podemos perceber sua utilidade.

O burro, por exemplo. Trata-se de uma inverdade dizer que o burro é burro. Na acepção da palavra, aquilo que tratamos por burrice é, na verdade, o estado de ignorância. Provavelmente isso nasceu entre dois fatores: o fato de que o animal aceita cargas pesadas no lombo em troca de um pouco de alimento, ou de sua proverbial teimosia. A segunda, contraditoriamente, por muitas vezes é a defesa que o bicho tem para a primeira, ou seja, empacar é uma forma de não admitir que seu trabalho lhe seja pesado demais. Ou seja, ser tolo não é um atributo real do burro, mas uma característica que lhe foi consagrada, ainda que de maneira injusta.

De toda forma, justa ou injustamente, o burro carrega a pecha de lhe faltar a inteligência. E isso acaba sendo absorvido e atribuído para outras ocasiões onde essa mesma característica se apresenta. Sendo assim, quando queremos dizer que um sujeito qualquer é atoleimado e teimoso, pegamos emprestados esses tópicos do pobre asinino e aplicamos ao indigitado, nesse ponto de contato semântico.

Podemos notar que o tolo e o burro possuem traços semânticos comuns. Pela visão que temos consagrada, ambos são tardos no pensamento, ambos têm resistência em agir, ambos não medem as consequências de suas ações. Desta intersecção, nasce o uso comum: fulano é burro.

Isso pode ser aplicado em inúmeros exemplos: flores e mulheres compactuam beleza, cristais e crianças compactuam fragilidade, cobras e fofoqueiros compactuam o veneno, e assim por diante. Por vezes, isso ajuda muito a trazer aspectos conhecidos a elementos desconhecidos, ou a fazer exemplos. Quando eu digo que “o Oriente Médio é um barril de pólvora”, não estou querendo dizer que ele é feito de madeira e com um explosivo dentro, mas que um elemento conhecido, que causa grande estrago e que pode explodir com facilidade, sintetiza um lugar que não conhecemos, com equilíbrio político e militar frágil. Essa é a grande força retórica da metáfora.

Como eu disse, está nos manuais da língua esse uso como figura de retórica, que é o mais evidente e que deve, de fato, ser uma preocupação educacional. Mas o espírito filosófico exige um pouco mais e é por isso que podemos imaginar que esse uso semântico só é possível porque existe um fenômeno ontológico em curso todas as vezes em que elaboramos uma metáfora.

Podemos perceber que o exercício metafórico se dá em um plano do equívoco. Não no sentido de se enganar, como pareceria, mas de se estabelecer uma semântica dúbia, que pode carregar mais de um sentido possível. O sentido lato de uma palavra, uma vez escoado seu aspecto meramente concreto, deixa restar seus aspectos profundos, divididos. Um sentido é uma junção de sentidos, e, uma vez devidamente distinguidos, temos um verdadeiro cardápio de significações, que podem ter seus lugares intercambiados.

É como um camaleão que se traveste da cor de fundo onde está localizado. Nós somos capazes de mimetizar significados da mesma forma que o fazemos quando colocamos uma daquelas camisas de recruta, todas manchadas de camuflagem, com a diferença de que não queremos nos fazer ocultos, mas de modificar semanticamente um sentido estrito em algo mais extenso. E isso só é possível porque as coisas têm essências que podem ser mimetizadas. Mimesis é imitação, e, por esse motivo, podemos falar no tal plano do equívoco. Desta forma, a poética e a didática da metáfora ganham um fundo mais especulativo, mais filosófico na acepção da palavra, porque permite entrever um modo de acesso à ontologia dos objetivos envolvidos.

O lado ontológico de um objeto é como o sumo de uma fruta espremida até o bagaço. É a essência de um ser e, como tal, a sua “verdade”. Se pensarmos em termos gramaticais, todos os dados ontológicos de um objeto são suas predicações. Já na ontologia, o que vemos são características gerais que fazem que o Ser seja o que ele é. Exemplo bobo: um burrinho pode ter o pelo de qualquer cor, até mesmo o imaginário azul do Taubaté, mas um dos fatos que o distingue é a existência de pelos. Se eu disser que é alguém é “um burro de tão peludo”, teremos uma metáfora torta, mas ainda assim válida. E é essa a essência que fornece matéria-prima para a formação das metáforas. Não adianta eu trabalhar com metáforas que não são ontológicas, que não dizem respeito ao ser de um objeto, porque teremos um erro ou uma falsificação.

O efeito mimético diz respeito a isso. Uma mimese é um “roubo” de características de um objeto por outro, que só é possível porque duas concessões são feitas: a ambiguidade dos termos e a transgressão categorial que a mesma possibilita. Em miúdos, isso significa que a existência de termos essenciais que possam ser intercambiados possibilita que uma característica seja tomada pela outra. Nossa, nem eu me entendi. Vamos para o exemplo então.

Se eu digo, camonianamente, que o amor é fogo que arde sem se ver, devo assumir que, entre o amor e o fogo há uma ontologia em comum: uma espécie de sofrimento intenso. Ela é ambígua, porque, enquanto esse sentimento é desejável no amor, no fogo ele é físico, e dor de fato. Com essa equivocidade, temos uma mudança de categoria - no sentido lato, o ardor do fogo é ruim, mas no amor ele “aquece”, consome. Por outro lado, o amor não tem características físicas, então como pode arder? É que ele produz sensações psíquicas confusas - por vezes é uma escravidão que prende ao amado de tal forma que parece sufocar, e, nesse sentido, é indissociável da dor, seu habitual oposto.

Sendo assim, porque existe a ambiguidade, é possível mudar a categoria do termo, transferindo, nesse exemplo, uma característica intrinsecamente sensorial para outra completamente abstrata, independente dos sentidos físicos. E isso nos dá a dimensão de como o plano ontológico é complexo, como não se trata de um mero elenco de características gerais de um objeto qualquer. Se esse intercâmbio não é possível, não estamos descendo a esse nível.

Percebem que a metáfora, dessa forma, se torna mais adequada para expressar do que qualquer descrição científica? Isso ocorre porque transferimos algo do âmbito concreto para uma conceituação que não tem equivalente no sensório, e por isso a metáfora é mais que uma mera figura de linguagem, e vai muito além de uma simples força expressiva.

E é exatamente nisso que o burro é mais legal do que qualquer leão. Ele conta história, ele demonstra força e ele é do Taubaté, sua metáfora perfeita quando vista pelo lado certo. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Tomei muita base no escrito abaixo para basear as ideias que expressei neste texto:

RICOEUR, Paul. A Metáfora Viva. São Paulo: Loyola, 2000

 

E a loja do Burro fica dentro de um shopping, no seguinte endereço:

Loja e museu do burro

Av. Dom Pedro I, 7181

Jardim Baronesa

Taubaté/SP

A aproximadamente 135 Km do centro de São Paulo

 

*Acabei de ganhar mais uma, desta vez como presente de aniversário. É a camisa com a qual o Taubaté disputou a mais recente série A2 do Campeonato Paulista.



quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Pelo caminho das cinzas de um morto, a transição do Ser para o Outro

(O que a angústia de ter nas mãos uma moderna urna funerária pode nos fazer refletir? Talvez que tenhamos responsabilidades que não conhecemos direto)

Olá!

Tudo é bem recente. Estava em Taubaté fazendo pizza frita quando as mensagens começaram a chegar. “Vocês vêm hoje? Vocês vêm amanhã? Quando vocês voltam?” Essas eram as mensagens do senhor meu sogro no último fim de semana, em uma insistência que não é costumeira. “Tá tudo bem aí? Aconteceu alguma coisa?” foram as respostas da patroa, já ressabiada, conhecendo seus pais como a palma da mão. De toda forma, não era causa de urgência, do contrário teríamos uma ligação. Sendo assim, ficamos em compasso de espera. O mistério foi sanado na terça. A senhora minha sogra ligou chorando para a patroa, com um derramamento que lhe é característico até quando o gato do vizinho é atropelado, o que torna difícil mensurar a gravidade do caso. O rosto da patroa foi desanuviando à medida que ouvia a pantomina da mãe, até virar um sorrisinho jocoso, o que já me prenunciou mais uma da genitora. É preciso aqui descrever com cuidado e detalhe a ocorrência para que possamos seguir no nosso assunto.

O pai da minha sogra morreu há 24 anos. Foi sepultado em uma campa da família de uma das noras, em um cemitério de Santo André, o que livrou uma parte dos pesados custos do féretro. Eles não se davam lá muito bem, mas, no momento do aperto, um pouco de solidariedade não vai mal (e a economia dos cobres faz sepultar junto certos desconfortos). Acontece que a tal nora mudou para outra cidade, e perdeu todos os vínculos com a antiga moradia, vizinhos, convênios, pedicure e etc. Dessa forma, a manutenção do jazigo passou a ser um gasto inútil, já que todo mundo lá dentro já estava reduzido a ossos. Avisou à irmandade da sogrona que iria se desfazer da sua quota de campo santo e pediu para que providenciassem sua exumação, caso se incomodassem com a remessa dos restos mortais para o cruzeiro. Como essa patota é toda cheia de dedos e superstições, resolveram resgatar o “papai” e mandar cremar o calcário. O resultado foi uma urninha parecida com uma caixa de badulaques, que custou bons vinténs para os seis filhos sobreviventes. A questão se tornou que fim dar ao papai em pó, e aí começa a encrenca.

A senhora minha sogra é uma personalidade dúbia. Quando se trata de conviver com o sogrão e com a patroinha, ela é cascuda. Irrita-se com facilidade, com coisas graves como fazer barulho ao comer ou sentar torto na cadeira. Já com os irmãos é de uma indulgência que ultrapassa a barreira da subserviência, submetendo-se a absurdos que chegam a ser desumanos. Digo isso porque os cinco irmãos que não são minha sogra deliberaram, sem consulta, que o encargo das cinzas deveria ser exatamente dela, pelo fato de ser a primogênita.

É uma escolha de Sofia? Não me parece, mas não ME parece. Para os outros, como minha sogra, pode parecer. No meu caso, restos mortais nada mais são que isso: restos. De minha vontade, eu doaria meu corpo morto para pesquisa, ser útil em alguma coisa depois da morte. Contudo, compreendo que isso pode ser muito doloroso para os meus filhos, então eu deixo a critério deles o que fazer, desde me mumificar e colocar em um sarcófago até enterrar na várzea dentro de um saco preto. Só que a sogra sacraliza as cinzas do papai, e buscou até uma história de que ele queria ser enterrado junto com a esposa. Eu acho que é uma falsa memória, mas, se for verdade, é muito estranho. A vida comum dos dois não era nada modelar. Não que vivessem às turras e aos berros, mas, pior ainda, era um casal de absoluta indiferença. Quando estava prestes a morrer, a velha teve sua perna torada, por conta de uma trombose. O papai não teve nenhum remorso em colocar ela para dormir em outro cômodo, porque afirmava que ela passou a se mexer muito e fazer barulho no quarto. Sendo assim, não me parece crível essa vontade de permanência na eternidade (salvo algum peso na consciência).

Os irmãozinhos queridos não diligenciaram a tarefa por respeito à primogenitura da minha sogra. Fizeram-no para não gastar ainda mais, já que a exumação e cremação não saíram de graça. E, como eu disse, o que seria no máximo uma tarefa desagradável virou um dramalhão mexicano. Jogue no mar, solte no vento, leve para Minas que nasceu ou Paraná em se casou, enterre em um jardim… a cada conselho, um choro e uma oposição. Eu discretamente fingi ir ao banheiro, deixando o encargo para a patroa. O que ela quer é enterrar as cinzas no túmulo da velha, mas não há nem a certeza de que este ainda existe. Diante de toda essa incerteza, aliada ao gasto do enterro que os irmãos não compartilharão, a minha sogra está plena de angústia. É como se fosse uma segunda morte do pai, reservada apenas para ela. Sentiram o tamanho da encrenca? Quando a conversa se encerrar, eu volto aqui e cadastro a solução dada, para não lhes deixar pontas soltas*.

Eu não posso pensar só com a minha cabeça. As fronteiras da morte são muito embaçadas, e nunca é claro onde o confronto diário que temos com ela é aceitável ou não, pelo simples fato de sermos todos muito diferentes uns dos outros, e, embora eu possa parecer mais irônico do que deveria em um texto como esse, eu procuro respeitar o que é a dor de cada um. Ela não é consensual nem entre os leigos, nem entre os doutos. E vou mostrar como posições antagônicas podem ser elegantes, ambas.

No começo do século XX, entrou em voga, no âmbito filosófico, uma corrente chamada de Fenomenologia. Ela foi criada pelo tcheco Edmund Husserl e dizia, em seus mais básicos fundamentos, que toda realidade é apresentada para uma consciência. Isso tinha um significado imediato: se cada um tem sua própria consciência, cada um tem sua própria maneira de absorver o mundo que lhe cerca. Isso se dá porque não somos robozinhos com um processador padrão – todos recebemos educações diferentes, de culturas diferentes, repassadas por pessoas diferentes, nascidas em épocas diferentes. Dessa forma, qualquer objeto que observemos vem revestido por várias camadas de cultura, que se apresentam a nós antes do objeto que recobrem, sendo que a primeira e mais fundamental de todas é a própria linguagem. Pense numa vela, por exemplo. Ela é, fundamentalmente, um artefato para iluminar. Alguém a verá meramente nesse sentido, uma peça para substituir a lâmpada quando não houver força. Há outro sentido prático, o de aquecer. Quem precisa esterilizar pequenos objetos, já verá nela outro sentido. Pode fugir de seu uso pragmático e partir para um uso simbólico, ritualístico, como acontece em inúmeras religiões. Pode ser ainda um objeto estético, e, nesse escopo, tanto pode enfeitar e perfumar um cômodo, quanto ser um adereço de dança. Pode mudar de sentido pelo seu material ou sua cor, pelo tamanho da sua chama, pela época do ano em que seu sentido concreto ou metafísico é invocado. Tudo isso pode ser extraído de uma vela e vai depender de um sem-fim de fatores, e cada um verá essa vela de acordo com as circunstâncias que moldaram sua consciência. Quando o filósofo vai analisar essa vela pelo método fenomenológico, procura retirar qualquer conhecimento anterior que se tenha sobre ela, removendo todas as capas de cultura e preconcepções, para evitar a contaminação do processo cognitivo. Isso é fácil? Não é, mas é necessário esse esforço para que se chegue ao âmago de uma essência. Isso é o que é chamado em Filosofia de redução eidética, ou seja, a remoção de qualquer ideia (eidos) enviesada que tenhamos sobre um determinado assunto ou objeto.

Martin Heidegger tornou-se adepto da Fenomenologia, e utilizou-a não para analisar um objeto qualquer, mas a essência do Ser por excelência, o próprio humano, e suas relações com o universo. Eu já falei sobre essa sua tese do humano como Ser, neste texto. Portanto, vou só dar uma rápida repassada: o ser humano, enquanto visto como essência, tem uma permanente relação com seu meio, mas que se mantém em destaque peculiar: é um homem presente, que está no mundo e que se pergunta sobre sua essência - o ser-aí (dasein). Esse dasein vive para si, para o mundo e para os outros, mas toda essa relação desemboca em seu propósito último, a morte. Desta forma, o dasein e todos os demais aspectos do ser são, na verdade, o ser-para-a-morte, caracterizado pela angústia. É porque a existência do dasein assemelha-se a uma estrada cujo fim é um muro. Parafraseando Toquinho, e ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está. Pior ainda: há um muro no ponto de fuga do horizonte, e saberemos que em algum momento chegaremos nele, mas não sabemos com exatidão quando. Não sabemos de nada que está para lá deste muro chamado morte, e por isso temos aquela permanente angústia que caracteriza o ser humano, e que foi dissecado com tanta propriedade pelo Existencialismo.

Pelo que podemos notar, o dasein heideggeriano é um primado do indivíduo. A pessoa que pergunta sobre sua própria essência está delimitada por si mesmo, já que eu não tenho como acessar a consciência de outros seres. Como somente é dele que se pode depreender uma consciência autônoma e conhecida, não é possível extrair de outra parte um ponto de vista, que permanecerá sempre em si mesmo. E como será com a morte? O ser humano não pode projetar coisa alguma, por estar dentro de si, assim como só sabemos que o planetinha é azul porque um dia nós saímos dele. Não é possível colocar a morte diante de nós para que possamos encará-la?

O filósofo lituano Emmanuel Levinas, a quem tenho acompanhado com recente interesse, oferece uma resposta. Ao contrário do olhar ontológico de Husserl e Heidegger (e, por extensão, de todos os adeptos da Fenomenologia), Levinas extrai do indivíduo a centralidade filosófica e a transpõe para o Outro, digitado em letra maiúscula para que se dê a ele noção de sua importância, estabelecendo uma ética da alteridade. Há a percepção de que toda a Filosofia, ao se ocupar do Ser como entidades ontológicas (vistas como essências), aponta sempre para a totalização e para a uniformidade, ou seja, para coisas eternamente iguais a si mesmas, invariáveis. Um ser humano, visto dessa forma, não cumpre com aquilo que temos em nosso convívio, não explica as variações, não justificam a diversidade. Vejam: não se trata de negar uma raiz ontológica para o homem, mas unicamente de se enganar no viés de análise. Quando olhamos para a humanidade através da ótica ética, todas as diferenças se justificam. É no outro que está muita explicação para nós mesmos.

A principal representação da alteridade que Levinas utiliza é o rosto. Não se trata aqui meramente do aspecto físico facial de uma pessoa, mas o distintivo de uma presença sobre a qual eu tenho uma responsabilidade. E não se trata aqui de uma responsabilidade alla Pequeno Príncipe apenas (“tu te torna eternamente responsável por aquilo que tu cativas”), mas um reconhecimento de um significado sem contexto e sem preconceitos a cada um que se olhe. Não importa de onde vem, para onde vai, como se chama, de que cor é, a qual etnia pertence, o Outro é um elemento de revelação de mim mesmo e da própria realidade em si.

O rosto, portanto, é o elemento de identificação de outro humano, e sem importar sua beleza já carrega uma predisposição ética que é dada desde a sistematização moral judaica, contida nos mandamentos: não matarás. Isso porque o rosto expressa a vida - só o vivo ri, chora, geme, teme, enoja-se, enraivece-se, assusta-se. É com o rosto do Outro que nos relacionamos e responsabilizamos. O rosto é a expressão de que existe um indivíduo fora de nós, com o qual devemos reconhecer a titularidade de direitos e de existência. Ao reconhecer a responsabilidade que temos sobre o Outro, reconhecemos a responsabilidade que temos para com a humanidade inteira.

Quando vai à morte, o rosto se transforma em máscara. Já não é mais uma expressão de vida, porque a máscara não é rosto, é apenas uma simulação que ainda traz uma expressão, agora fixa, agora eterna. O rosto morto possibilita a nós tornar possível algo que não conseguimos testemunhar em nós mesmos. É o sair de si que era impossível para o dasein heideggeriano.

E como isso acontece? Pelas medidas das reações que temos diante de um caixão, por exemplo. Lá, o universo de emoções que vivemos se dá pela medida da responsabilidade que tínhamos por aquela vida que se esvaiu. A cada vez que vivemos essa experiência, e Levinas, sendo judeu em plena ascensão do nazismo, a teve em profusão, retomamos uma relação ética: o que eu poderia ter feito para manter a vida desse rosto que se torna máscara, ainda que eu nunca o tivesse visto antes? É nessa morte que eu mesmo posso projetar para fora de mim o que será esse além-muro do ser-para-a-morte heideggeriano.

Em resumo: enquanto Heidegger se preocupa com o ser humano que se caracteriza pela permanente angústia diante da morte, Levinas resgata o Outro como elemento com o qual o ser humano obtém uma experiência ética concreta diante da morte, ao reconhecer o espelho que é a morte do Outro para a sua própria morte. Pode não ser divertido, mas é interessante. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Ainda estou estudando este filósofo, e ele é muito interessante, e deverei voltar a ele. Esta é sua magnum opus: 

LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito. Coimbra: Edições 70, 2008.

* Bem, o túmulo da mãe não existe mais. Foi tragado pela correria de sepulturas da pandemia e sua ossada, dizem, foi parar na vala comum do cruzeiro. Sendo assim, a senhora minha sogra localizou mais ou menos onde ficava a sepultura e enterrou as cinzas do papai ao pé da árvore mais próxima. Nem foi tão trabalhoso assim.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Sobre os quatro elementos, seu dinamismo e overdose de incensos

(Com certeza você já ouviu falar sobre os quatro elementos. Mesmo que dois deles sejam uma coisa só, o fato é que o imaginário sobre estes não é novidade, e boa filosofia já foi construída sobre essa ideia)

Olá!

Eu tinha uma chefe que gostava de incensos. Até aí, nada de mais. Eu mesmo gosto de incensos, principalmente aqueles que tem cheiro de… incenso! Acontece que, como sabemos, a utilização dessas pequenas varetas tem todo um aspecto místico, e a superiora intuiu, ou previu, ou (mais provavelmente) ouviu de alguém que deveria manter um desses artefatos aceso por cem por cento do tempo do expediente. E lá vem sândalo, mirra, almíscar, jasmim, patchouli, citronela, cravo, pinho, alfazema, âmbar, mel silvestre e qualquer outra maconha que você puder imaginar. Como eu disse, não tenho problemas com incensos, mas ter nove horas seguidas de fumacinha nas narinas chega a fazer mal, não só em um mero enjoo, mas a causar sintomas respiratórios, como tosse e pigarro. A chefa era visitada frequentemente por um rapaz que lhe trazia novidades que chegavam "diretamente" da Índia e cercanias. A coisa pretejou de vez quando ele trouxe um produto que prometia quarenta e cinco minutos de queima sem tirar de dentro, o que me revirou o estômago só de ouvir falar. Eu precisava fazer alguma coisa, porém sem riscos para a vida funcional.

Isso já faz muito tempo. Nessa época, minha ainda não defunta mãe era metida lá com suas brujerías, cercada de cristais, mandalas e - vejam só - incensos. À minha descrição, ela disse que esse uso não somente é errado, como também é egoísta e perigoso. Errado porque a quantidade de incenso não influencia na limpeza do ambiente (em termos metafísicos, porque em termos atmosféricos o ar fica é bem sujo). Egoísta porque qualquer ação esotérica precisa levar em conta as pessoas que te rodeiam, e perigoso porque muito incenso não limpa somente energias ruins, mas toda e qualquer energia, gerando o efeito oposto ao que se desejaria. Ela perguntou se eu não me sentia mais enfraquecido, no que eu respondo que não, me sentia mais irritado, isso sim. Ela deixou para lá a parte consultiva diante de dromedário tão recalcitrante e passou à proposta de resolução.

"A questão não é de confrontar a chefe, mas de educá-la", disse a sortilégica genitora. "Vamos preparar um presente para ela, tão bonito que vai seduzi-la e ensiná-la a lidar com os elementos. Vai fazer bem para ela e para todo mundo ao redor".

Meu pai era daqueles peões típicos, que diziam que chefes nasceram para ser odiados. Eu nunca cheguei a tanto, mas aprendi parte da lição, e me incomodava esse negócio de bajular os superiores, especialmente dando presentinhos. Mas fui convencido porque a causa era nobre e o conjunto era realmente bonito: um bowl de vidro assemelhado a um aquário, com o fundo recoberto de pedras. Essa tigela era para ser preenchida com a água mais pura possível, e ainda havia o acompanhamento de uma pequena vela flutuante em uma barquinha, um vidrinho de essência suave e uma caixinha de incensos. Mas a principal arma era um pequeno livretinho, feito de papel sulfite e impresso em jato de tinta. Era a descrição do uso de toda a parafernália.

A ideia era mais ou menos a seguinte: o conjunto tinha em si os quatro elementos do cosmos: terra, água, fogo e ar. A terra era representada pelas pedras, a água pela água (puxa!), o fogo pela velinha e o ar pelo incenso. Em cada dia da semana, um dos elementos deveria ser ativado. Para ativar o elemento terra, retirava-se uma pedra e pingava-se uma gota de essência sobre ela. Para ativar a água, uma gota de essência também. No caso do fogo, encaixava-se a velinha no barquinho flutuante e deixava-se acesa, até acabar. Para o ar, queimava-se o incenso. Na sexta-feira, todos os elementos eram ativados juntos, todos eles APENAS UMA VEZ por dia. Ou seja, acabou a vela, acabou o ritual, idem para o incenso. Aproveitei um dos raros momentos em que não tinha ninguém na sala e entreguei a feitiçaria toda, explicando que todas as instruções estavam no folheto.

A consequência é que a chefa gostou tanto que resolveu levar tudo para casa, ao invés de deixar no trabalho, evidenciando a miséria do meu fracasso. Mas, seja porque estendeu as instruções do conjunto à sua prática diária, seja porque leu meu apelo nas entrelinhas, fato é que a coisa acabou por funcionar, já que ela paulatinamente foi reduzindo a quantidade de palitos queimados, a ponto de não causar mais transtornos (e aborrecer seu traf… mascate de produtos hindus).

Essa questão dos quatro elementos não é nada nova nem única. Está na estruturação dos signos do zodíaco, na medicina antroposófica, nas artes e mesmo o conceito de quintessência depende deles. Também a Filosofia se serve do tema para dar polimento às suas ideias. Vamos dar uma olhada.

Uma das principais correntes da filosofia antiga era a dos eleatas, Parmênides à frente. Tinham esse nome por conta de sua concentração na escola de Eleia, onde discutiam a imobilidade do Ser. Eles diziam que o Ser era permanentemente o mesmo, sem tirar nem por. Diziam isso em contraste com o devir de Heráclito, que via como principal característica da realidade o eterno movimento, um fluxo contínuo onde cada coisa do universo rumava para o seu próprio oposto.

Embora o pensamento eleático fosse muito bem desenvolvido, o fato é que dele resultava uma aporia: se o Ser é sempre apenas um, como poderia ser explicado o fato de que todos os objetos do cosmos surgem e desaparecem, nascem e morrem? Outra coisa: se o Ser é um só para sempre, imutável, não sujeito a transformações, igual a si mesmo, que não pode não-ser, como podem ser a mesma coisa o frio e o quente, o claro e o escuro, o novo e o velho? Para onde vão as coisas que fenecem? De onde vem as coisas que aparecem? É absolutamente impossível que vão e venham do vazio, que é o não-ser por excelência, e, portanto, de onde vem e para onde vão?

Embora respostas monistas anteriores, como a água de Tales e o ar de Anaxímenes, e até mesmo o sofisticado apeiron de Anaximandro pudessem dar uma justificativa ao dilema, o fato é que pareciam insuficientes, porque os elementos únicos que eram dados como arché não poderiam ser contrários a si mesmos. Como dizer, por exemplo, que o ar não é ar? Se o ar é pedra, então rumou para seu contrário, como diria Heráclito, e não Parmênides.

A resposta de Empédocles, da cidade de Agrigento (hoje situada na Sicília, mas então pertencente à Magna Grécia), é a primeira que leva em consideração a dificuldade eleática. De fato, Empédocles concordava com tudo o que Parmênides e sua claque diziam a respeito do Ser: ele é e não pode não ser. A resposta dada tem um belo nome em grego: rizomata, ou raiz, na última flor do Lácio. Segundo ele, o nascer e o desaparecer seriam o resultado do agregar e do desagregar das raízes em determinadas proporções. Essa substância que surge seria a reunião de raízes que estariam disponíveis no universo, enquanto o desaparecimento dessa mesma substância seria o retorno desses elementos aos seus estágios originários.

Teríamos então uma explicação para um mundo em aparente devir, consistente nas inúmeras formas de combinação das raízes, mas que é sempre o mesmo porque, uma vez isoladas, estas seriam eternamente iguais a si mesmas, imutáveis e perenes. Portanto, o Ser residiria na rizomata, e não em cada uma das coisas individualmente que vemos ao nosso redor.

Tá, mas quais seriam essas tais de raízes? Seriam exatamente os quatro elementos tão conhecidos no esoterismo e na poesia: terra, fogo, ar e água, que parecem, no campo da intuição, ter um grupo de propriedades distintas que caracterizariam fortemente cada um deles. Esses componentes consistem na grande novidade de Empédocles: suas qualidades são inalteráveis e cada uma das raízes, individualmente, não são objeto de transformação.

Nota-se aqui uma transformação na concepção de arché que originalmente procurava por um elemento distinto que compusesse o substrato da natureza. Os monistas eram assim chamados porque criam em uma única substância originária, que não precisava de nenhum processo em especial para sua agregação. Só que esse é um processo de transformação, inadmissível para as teses parmenidesianas. Quando Empédocles propõe a rizomata, faz nascer o pluralismo e possibilita que as próprias transformações sejam ilusórias, já que as raízes isoladas não mudam, apenas as proporções que as mesmas geram. Dessa forma, substâncias quentes sempre conterão o elemento fogo em maior quantidade, as frias terão a água, e daí para frente. Além disso, o estado do objeto também evidencia a proporção: sólidos contém primazia da terra, líquidos da água, gasosos do ar e plasmáticos do fogo. Hoje nós sabemos que o plasma como estado da matéria nada mais é que parte do estado gasoso, mas precisamos tomar cuidado para não sermos anacrônicos.

A própria lenda sobre a morte de Empédocles tem um certo sabor da teoria por ele estabelecida. Dizia-se que nosso filósofo, muito ativo politicamente e com ares místicos de milagreiro, à medida que envelhecia, sentia cada vez menos vigor, como se dele se desprendessem aos poucos os elementos que lhe seriam constitutivos. Certa feita, em um dos cultos do qual era sacerdote, resolveu subir ao alto do Etna, um dos vulcões mais famosos da história e ainda hoje ativo, para acelerar seu processo de retorno ao Ser, ou seja, às quatro raízes, atirando-se na cratera do acidente geográfico. Não se faz a mínima ideia de que isso seja verdade, mas carrega um narrar simbólico muito expressivo, porque lá temos um dos exemplos mais visíveis do que seriam os quatro elementos em franca atividade ao mesmo tempo: a terra derretida na forma de lava, o fogo expresso pelo calor, a água que surge através das fumarolas e o ar que evola como fumaça.

Entretanto, há ainda uma dificuldade que precisava ser superada pela dinâmica pluralista de Empédocles. Quando falamos nos monistas, podemos contar com o benefício da unicidade de sua substância – água mais água continua sendo água. Mas uma rizomata tem natureza diferente de outra, e é preciso que se responda a uma pergunta: qual é a “cola” que mantêm os elementos unidos?

Dei uma rápida espanadinha no assunto aqui, mas vamos detalhar. Em primeiro lugar, é preciso entender que Empédocles via física e misticismo como aspectos de uma mesma unidade. As suas raízes não são elementos passivos, que se deixam levar pelo tempo, mas são substâncias divinas. Sendo assim, e de acordo com a concepção órfica, o universo é um todo onde a menor de suas partes tem influência sobre o restante do cosmos. Para explicar a questão do agregar e desagregar, Empédocles lança mão de um conceito de forças cósmicas, que receberão os nomes de philía e neikos, respectivamente “amor” e “ódio” em grego, sendo que também os termos “amizade” e “contenda” são utilizados. É possível que nosso herói tenha observado que o relacionamento pessoal agia de forma semelhante à crença de que tudo se atrai ou repele, e pegou emprestado esses nomes para designar essas formas de energia divinizadas.

Ocorre que as dosagens de philía e neikos variavam de acordo com o momento temporal em que se vivia. Ao se ter um instante de preponderância da philía, víamos o surgimento de um determinado elemento e, pelo contrário, seu desaparecimento se dava pela ação do neikos. Só que essa atividade nunca se dava em momentos extremos. Quando a prevalência da philía chegava ao seu auge, todos os elementos se reuniam em tal unidade que formavam uma única massa absolutamente compacta, semelhante a uma esfera, onde qualquer ponto é equidistante do centro. Pelo contrário, quando a predominância se dava no campo do neikos, a desagregação era total, de modo a nada existir a não ser as raízes totalmente separadas. Todo o cosmos existente está entre estes dois extremos, já que da compactação absoluta da philía nada escapa, assim como da separação absoluta do neikos nada se constitui. E, percebe-se, toda a realidade se dá em ciclos, que variam de acordo com a geração e a corrupção.

Essa conformidade de fenômenos ainda vai dar um aspecto cognitivo aos pensares de Empédocles. Ele imagina uma lei de semelhança (que nada tem a ver com o ideário da homeopatia) onde as porções de cada elemento existentes em nossos corpos conseguem reconhecer o elemento correspondente nos objetos, ou seja, com o tanto de terra que temos em nós, reconhecemos o que há de terra no objeto que observamos. Isso se dá na forma de eflúvios: os sentidos reconhecem essa espécie de emanação impalpável que é desprendida de cada corpo e faz uma conexão através do mesmo elemento contido no próprio organismo. Assim, quando olhamos para uma vareta de incenso, são os receptores do elemento ar que percebem os aromas, os de fogo que sentem a ponta quente e assim por diante.

Empédocles, dessa forma, cria uma filosofia de fundo materialista, mesmo que com um misticismo subjacente, e vai dar a primeira base para que Lêucipo e Demócrito cheguem ao atomismo, já completamente esvaziado de elementos divinos e bem mais próximo do que nossa moderna Ciência conseguiu concluir.

E era isso. Quando houver alguma discussão que envolva o papo dos quatro elementos, saibam que não é de hoje que ele nasceu, e que há maneiras bastante sérias de pensar sobre o assunto, mesmo que estejam superadas hoje em dia. E fica a dica do truque do papelzinho dobrado para quando vocês correrem o risco de intoxicação por excesso de esoterismo. Bons ventos a todos!

Recomendações:

De Empédocles, somente temos fragmentos de seus poemas De Natura e Carme Lustral. Dessa forma, mais uma vez apelei para a famosa coleção Os Pensadores:

SOUZA, José Cavalcante (org.). Os Pré-socráticos. Col. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

E vou recomendar aqui uma coisa insólita – um incenso! Trata-se do Olibanum Eritreia, que é vendido em grãos pela empresa brasileira Milagros. Sim, é uma reminiscência dos meus tempos de Catolicismo, mas é um aroma bastante suave e agradável, que, queimado em pequenas quantidades sobre um braseiro, perfuma o ambiente com um certo exotismo.