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terça-feira, 5 de julho de 2022

O café filosófico do quotidiano - A transformação é a grande permanência universal

(Depois de tanto Parmênides, é hora de falar de Heráclito)

Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu a um segundo, tudo muda o tempo todo no mundo

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Quem sou eu prá dizer que não vou mais voltar a um assunto…

Já apresentei toda sorte de métodos de extração de café aqui para vocês, e a lista segue crescendo. Quem me acompanha de perto já percebeu que, embora o maior intuito dessa série seja filosofar, há um claro sentido técnico também, menos na tentativa de ensinar alguém a função de barista (que eu não tenho), mais em colaborar no desenvolvimento da ideia que resultou no corpo principal do texto. Por esse motivo, sempre tem um pouco de didatismo aqui também, não se assustem.

Ainda que não seja uma divisão absolutamente canônica, temos em maioria dos métodos divididos em dois grupos: os cafés coados e os infundidos, em sua maioria prensados. Cada um tem suas virtudes e seus defeitos. Coar café geralmente dá um líquido mais límpido e menos cheio de resíduos, enquanto prensar mantém mais óleos e dá melhor corpo. Haveria de ter alguém que procurasse juntar o melhor dos dois mundos, e o resultado de uma das melhores tentativas resultou no Aeropress.


O processo de extração deste método consiste em aproveitar um grande êmbolo que abriga o pó moído e água suficiente para quatro xícaras padrão (daquelas de 50 ml). Como é possível antever, garante-se uma certa pressão com essa mecânica, o que dá uma certa aceleração no processo de infusão, que não fica tão longo quanto em uma prensa francesa.


O segredo do duplo método está no elemento vazado acoplado ao êmbolo, onde se encaixa um filtro de papel circular, finíssimo.


Para realizar a extração, tem-se então que realizar a pressão no pistão contra o filtro, de modo a vazar o café diretamente no decanter, o que dá um resultado que combina bom corpo e zero resíduos.


Nome do utensílio: Aeropress

Tipo de técnica: Misto (coado sob pressão)

Dificuldade: média

Espessura do pó: a critério. No entanto, o mais típico é adotar uma moagem que vai da média para a fina.

Dinâmica: Coloca-se o pó em um recipiente em forma de seringa, onde o mesmo ficará sob infusão por alguns minutos. Ao término do tempo, instala-se um filtro no aparelho e pressiona-se um embolo suavemente em um decanter.

Resíduos: nenhum

Temperatura de saída: média

Nível de ritual: alto


Todo o cuidado dos fabricantes não se dá somente por conta das frescuras de gente metida a connoisseur, como este escriba que vos rascunha. Todos esses pesos e medidas vão tentar encontrar uma coisa muito difícil e muito desejada: a padronização. Mas como conseguir que algo seja igual se sabemos que nada se mantém, como nos diz Lulu na epígrafe?

Embora digamos que prefiramos ser metamorfoses ambulantes, como ensinaria Raul, o fato é que temos em nós uma espécie de sintomas de permanência, e isso faz parte de nossa humanidade. É bem simples de fazer um exercício mental, e vou dar um exemplo que pode ser rememorado por qualquer um, com suas experiências próprias. Quando eu era menino de até meus treze anos, minha avó paterna fazia viagens semestrais ao norte do Paraná, mais especificamente a uma pequena urbe chamada Tapira, onde morava seu pai, com um irmão seu. Ela se propunha a custear a viagem de um dos netos mais velhos, e fazia um rodízio entre eles, eu incluso. A cidade era verdadeiramente pequena, e, como meus parentes moravam na zona rural, era preciso sincronizar bem o ônibus, que partia uma única vez ao dia. Se perdêssemos, só na base da carona. O caminho até lá era chão batido até um patrimônio chamado Gleba Quatro, de onde haviam mais quatro quilômetros de caminhada no areião, três deles desafortunadamente em aclive.

(Meninas e meninos, tudo isso pode lhes parecer muito estranho nestes tempos de zap e outros comunicadores instantâneos. Mas o fato é que mesmo telefones fixos eram raros. Meus tios não eram pobres a ponto de não ter uma carroça que nos buscasse. O problema era essencialmente conseguir se comunicar com eles, porque não existiam cabos para ter telefone. Tudo o que estava disponível eram cartas, que eram despachadas para caixas postais que eram verificadas semanalmente. Não dava para combinar com um mínimo de precisão por correspondência os horários de chegada – qualquer intercorrência que atrasasse a chegada faria com que os parentes ficassem como bobos esperando).

Adiantemos o ponteiro para 2020, cerca de quarenta anos depois. Tapira é uma cidade que, com um pouco de boa vontade, fica na rota de Cascavel, essa sim uma cidade de porte razoável, onde meu menino mais velho morou por três anos. Todas as minhas lembranças daquele lugarejo são hoje efetivamente parte do passado. A estrada de terra, a mercearia de beira de estrada, a igrejinha do Alto Café, as três ruas da “cidade” que agora são dez... Embora não tenha surgido uma grande metrópole no lugar, o fato é que não há nada reconhecível dos tempos em que eu vinha para cá, nem mesmo o armazém que fazia as vezes de rodoviária. 

O que eu queria? Que nada tivesse evoluído? Não, apenas tenho em mim a sensação de permanência que todos têm, representada pela memória e pela expectativa que ela se torne concreta novamente à nossa frente.

São Inúmeros os exemplos: vamos na casa de nossas avós esperando comer uma macarronada tão saborosa quanto sempre, vamos na Javari querendo ver um JuveNal tão aguerrido quanto o último, vamos viajar para Marmelópolis e queremos achar uma pasta de marmelo tão boa quanto a de quatro anos atrás, vamos para Itamonte e tememos congelar na água gelada do Escorrega, mas a macarronada está com um molho mais ácido, o JuveNal foi bem mais chocho, a pasta de marmelo está mais aguada e o Escorrega não estava tão frio, a ponto de não avermelhar a pele. Nós temos consciência da alternância dos fenômenos. Sabemos que tudo varia, tudo muda, mas esperamos, aí inconscientemente, achar tudo como antes, em um sentimento de estabilidade que não existe. 

É desse fluido que é feita a realidade, e por isso achamos tão complicado compreender a verdadeira natureza das coisas. Parece existir algo que é sempre igual na realidade, por mais que nos pareçam diferentes. Como conseguimos afirmar que um chihuahua e um rottweiler são cães, se até mesmo mecanicamente é difícil imaginar que eles cruzem? Mas o fato é que chamamos os dois de cachorro, por mais diferentes que sejam. Parece que ambos têm a mesma semente, e floriram absolutamente cada um para um lado.

Para onde vai a velha percepção parmenidesiana? Como podemos concluir que nada se move, que tudo é sempre igual a si mesmo, que tudo é o uno, que tudo não passa de uma armadilha lógica que não encontra eco em nada do que nos circunda? Poderíamos pensar nos ciclos, como os dias que sempre nascem, os anos que sempre se encerram, a flora que sempre brota, a chuva que sempre cai, mas a chuva de ontem não foi a chuva de anteontem. Não foi a água do mesmo mar que evaporou, não foi a mesma terra que ela molhou, não foi o mesmo tempo que ela levou. Nessas urbanescências dos tempos modernos, nem são os mesmos compostos químicos que recobrem os carros e os coloca a enferrujar.

A verdade parece bipolar como os acometidos pelo mal psíquico de mesmo nome. Sempre que pensamos na afirmação de algo, já surge de pronto sua negação, como se fossem pontos de parâmetros. Sabemos que algo é quente porque sabemos o que é o frio, que o vazio se contrapõe ao cheio, o leve ao pesado (apesar de Kundera), o novo ao velho. Ou seja, há uma eterna alternância entre extremos, como se uma estranha imantação quisesse atrair um fenômeno que está do lado de lá. Parece que estou falando de política, mas não só. Até porque entre um extremo e outro há toda uma miríade de nuances, e o mundo se desenrola entre elas.

Bom… então o que verdadeiramente é a verdade? Uma constância com aparência de alternância ou uma transformação travestida de permanência? Esse é o debate que atribuem a Parmênides versus Heráclito, em mais um desses trânsitos entre extremos que mencionei no parágrafo anterior. Mas essa é uma definição superficial. Para quem começa a estudar agora, pode ser didático, mas meia hora de leitura é suficiente para fazer notar que ambas, mais do que serem opostas, são complementares.

Já cansei de falar de Parmênides neste espaço, dele e de seus Blue Caps, então entendo que fiquei em débito com seu antípoda de Éfeso, que é colocado no âmbito dos primeiros ontologistas, sem deixar de ser um naturalista.

É a ele que se atribui o panta rei, uma das mais famosas assertivas de toda a Filosofia. Tudo flui, e não se banha duas vezes no mesmo rio, porque nem nós somos os mesmos, nem o rio, mesmo que o banho seja daqui a cinco minutos. Heráclito é o filósofo da mudança, da transformação e do devir. Ele vivia em um tempo onde os primeiros pensadores ainda buscavam a arché, o princípio originário de todo o cosmos, e ele mesmo trouxe sua proposta, só que seguindo uma rota um tanto alternativa.

De fato, a busca pela arché supunha que no substrato da realidade estivesse um elemento constante, e as mudanças de características de cada um comprovam um dinamismo universal que girava em torno de seus diferentes estados. Só relembrando um exemplo, Tales via que a água era o meio físico pelo qual todas as coisas se constituíam. Dela, se obtém facilmente os três estados da matéria, ela surge nas cavernas escuras, brota das pedras, surge dos poços, poreja dos corpos, evapora para os céus e retorna para a terra. Embora tome qualquer aspecto, volta sempre para sua forma fundamental. A água que é gelo também é vapor, é solvente universal, é item de sobrevivência e morte, é rio.

É exatamente esse rio que Heráclito olha para deduzir que a arché é mais do que algo físico. Todas as vezes em que olhamos para nós mesmos, que seja de um segundo para o outro, já temos alguma coisa de diferente. Ao digitar essa frase, já tive que colher algo de minha memória e que se transformou em escrita. Releio e já tenho essa impressão regravada, mais presente do que antes. É como cada passo que dou dentro do rio. Cada metro cúbico, cada balde, cada gota e cada molécula já são outras. mesmo que uma delas volte a passar, será companhia de bilhões outras que nunca correram esse curso, e assim é com tudo no cosmos.

Não se trata de não imaginar que não exista um fundamento comum em tudo o que existe. É isso o que constitui a arché heraclítica do universo: o eterno devir, a permanente transformação. Já não é um substrato físico, mas ontológico. É natural do próprio ser estar em contínua mudança, de ir para lá e para cá, se transmutando em Ser e não-Ser, ad aeternum

Heráclito chama o elemento de sua arché de fogo, mais pelo plano simbólico do que constitutivo. A explicação é simples, bastando perguntar a qualquer químico qual é a aplicação mais frequente para efetuar combinações entre elementos: o aquecimento. O fogo, quando pensamos em transformações, é o elemento mais representativo, ainda mais porque ele faz nascer substâncias novas e a elas calcina, dando-lhes fim. O fogo nunca é imóvel, como é a água congelada, a terra sem ventos ou o ar engarrafado. O fogo surge e desaparece sempre dando sua presença – nada onde há fogo permanece igual, nem ao menos em sua aparência.

Sendo da maneira que diz Heráclito, deveríamos perceber o universo como caos contínuo, mas isso não acontece. Notamos ordenações e ciclos, a ponto de possibilitar a Ciência como o ofício das predições. Ocorre que da luta dos contrários nasce uma harmonia detectável unicamente pela razão. De fato, sabemos que o jovem de hoje é o velho de amanhã. Sabemos que o café quente esfriará, e sabemos que as águas que nos banham, ainda que não sejam as mesmas, estão no lugar contínuo a quem chamamos de rio. Desta forma, a presença do logos, a capacidade humana de se diferenciar dos animais, a herança divina da qual falava Heráclito e seus contemporâneos, é a chave da interpretação do universo… o logos dá a ordem no meio da "bagunça".

Se Parmênides diz que o Ser (a essência) é o fundamento de tudo, Heráclito diz que o devir é exatamente este Ser, essa essência. A permanência e imutabilidade deste Ser do universo está exatamente nisso: em sua permanente e imutável dinâmica.

Com isso tudo, neste texto que enchi de paráfrases e referências, podemos concluir que há mudanças e permanências, sendo que a principal das estabilidades é na ausência delas, e daí vem uma clave ética muito importante, semelhante à que já ouvimos vinda da década de 80:

Faça tudo o que você estiver fazendo como se fosse a última vez, porque efetivamente é. Bons ventos a todos!!!

Recomendação de leitura:

Heráclito compôs mais um dentre tantos De Natura típicos de sua época, do qual restou certa quantidade de fragmentos, que podem ser encontrados no livro abaixo:

HERÁCLITO. Fragmentos Contextualizados. Trad. Alexandre Costa. São Paulo: Odysseus, 2021.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 7ª mirada (2ª parte): São Luiz do Paraitinga - A Cultura e a dúvida: Como viver sentindo a passagem do tempo?

Olá!


O que faz uma cidade ser única? Em São Paulo, por exemplo, a oferta gastronômica e as alternativas acadêmicas, terra de trabalho e correria. Em Santos, as praias. No Circuito das Águas, ora, as águas. Em Ibitinga, os bordados; e assim sucessivamente. São Luiz do Paraitinga tem sua identidade marcada pela inesgotável festividade de seus habitantes.




São Luiz do Paraitinga tem na sua matriz cultural a sua principal característica. Não há praticamente nenhum mês no seu calendário cultural que não abranja algum tipo de festividade, e as marcas dessa febre estão espalhadas por todo o espaço público. A cidade inteira parece um grande trabalho de tear, com urdidura e trama coloridas, começando pelas casinhas que cortam toda a zona urbana.



Outro exemplo é esta escadaria, que é mais um desafio ao término de uma íngreme ladeira, que lhe dá aspecto de uma colcha de retalhos, tão típica da região toda.



Ao chegar mais próximo, um grafite dá mais uma dimensão ao colorido: a teatralidade.



Das incontáveis ladeiras, há muitas referências a um passado que nem é tão remoto assim. Exemplos são os painéis de azulejos do Largo do Teatro (do qual falarei já, já) e da Ladeira das Mercês, que desemboca na capela de mesmo nome. A ladeira retratada, que é o acesso à igreja do Rosário, é praticamente igual ainda hoje.



Festa, música e comida tem uma porosidade entre si. Como tal, é muito difícil de se pensar em uma sem as outras (vide este texto). Por isso mesmo, Paraitinga tem uma curiosidade: não há um, mas DOIS coretos na cidade de 12000 habitantes, sendo um na praça da matriz e outra no calçadão contíguo.



As atividades econômicas da região, além da típica agropecuária, tem muito a ver com o dia-a-dia das próprias pessoas. Nada de grandes indústrias. Há destilarias, como a Mato Dentro, que produz uma cachaça forte, forte, forte de marré, marré, marré, e que ostenta uma série de premiações, situada no interior de uma fazendinha.



Já na praça da matriz, o reforço da vocação etílica, representada por uma adega simbolizada pelo retrato do Pimba, que, curiosamente, é a cara do meu sogrão quando jovem. Atendidos pelo Amauri, ficamos sabendo que o Pimba em questão não é o dono do alambique, mas seu pai (se bem me lembro). A fábrica fica perto, no município de Taubaté. Há cachaça para todos os gostos – branquinha, amarelinha, no carvalho, na umburana, no amendoim, na canela, com frutas e etc.



Há também uma pequena fábrica de farinha de milho, daquelas grossas, que fica no mesmo conjunto do hotel onde ficamos hospedados. A visita à produção é franqueada, de modo que se possa desvendar o mistério dos flocos. Uma moenda tritura o milho, que é filtrado por um túnel poroso. Este fubá é levado a uma chapa circular quentíssima, onde é floculada e ensacada. Bom para saber.



Agora, a comida... Tudo o que é servido aqui é abundante. É preciso certa parcimônia nos pedidos, porque há necessidade de valentia para encarar os “fogados” e costelinhas com quirera, dentro outros. Este abaixo é um dos pratinhos servidos no Barão:



Desculpem-me, mas aqui vou fazer propaganda franca e aberta, e juro que sem remuneração. Um dos melhores lugares que passei em SLP foi um barzinho chamado “Mai será o Binidito?”, colado ao rio Paraitinga e ao Mercado Municipal. Este é o seu distintivo:



É um lugar que junta uma pegada cinematográfica (as paredes são forradas com referências aos filmes rodados na cidade) com produção literária local – e que se pode confortavelmente ler em uma poltrona centenária – e com comida de comer rezando. Aqui, tivemos a felicidade de pegar, de graça, uma jam-session do músico Moreno Overá com um rapaz recém-formado na Europa, de nome Guilherme.



Aqui, a criatividade e a tradição são reunidas no bolinho de arroz com “fogado” (com cachacinha amarelada)...



... e nas diferentes opções de pastel de angu, preparados com requeijão de prato, carne seca, carne moída. A Dani, a Thais e o Pipoca escavam, não sei de onde, cervejas artesanais surpreendentes, como a já recomendada Biéres de la Madona, as cervejas do Gordo e a Lilith. Estão nas vésperas de produzir sua própria cerveja, o que aguardamos com certa apreensão.



Vamos partir para os principais eventos da cidade, aqueles que a deixaram famosa. Há, evidentemente, a festa junina e algumas festividades que homenageiam os cidadãos famosos, além da festa do Saci, uma espécie de alternativa ao Halloween, mas as que “pegam” mesmo são o Divino e o Carnaval. Vamos dissecá-los um pouco.

A festa do Divino Espírito Santo é oriunda da rememoração do dia de Pentecostes, solenidade católica em que se evoca a vinda do Espírito Santo, da mesma maneira em que é relatado pelo livro dos Atos dos Apóstolos: em uma noite cinquenta dias após a Páscoa, um forte ruído assombra os discípulos de Jesus. Era o Espírito Santo, que lhes vinha em algo semelhante a uma pomba. Por esse motivo, o pássaro cosmopolita é a sua representação mais comum.



A comemoração litúrgica é uma missa quase igual a todas as outras, o que fez com que a festa do Divino praticamente se extinguisse dos grandes centros urbanos. Mas a cultura popular a transforma em uma festividade gigante, especialmente no banquete coletivo. Em SLP, o prato principal é o mesmíssimo “fogado” mencionado anteriormente – carne de segunda que passa a madrugada inteira sendo cozida com temperos e legumes, para estar desfiando no momento do consumo. Além disso, há várias procissões que começam longe, e que vão se aproximando e agregando gente por onde passa. Como em todas as outras cidades da região, aqui também a bandeira do Divino é ponto central da festa, sendo instalada em altos mastros, como esse que se encontrava deitado por ocasião de nossa visita.



Testemunha de toda essa movimentação é Neca Junqueira, artesã da lojinha Tatu Him, que nos contou histórias e mais histórias de inundações e celebrações. Sua loja/casa é a do meio, verdinha. Fica quase que nas escadarias da igreja do Rosário.



Quando visitamos sua loja, havia um pequeno aglomerado de crianças nas tais escadarias. Aos poucos, foram chegando alguns jovens, trazendo uns instrumentos musicais. Todos eles saíam de uma casa situada no chamado Largo do Teatro, que citei agora pouco.



Desta mesma casa, emergem dois bonecões. Um senhor de barba e cartola e uma mulher com cabelos amarelados, ambos vestidos de retalhos de chita. Trata-se da representação de Juca Teles e Nhá Fabiana, representação máxima do Carnaval de marchinhas, o segundo evento ao qual gostaria de me referir.



A Neca nos contou o que estava havendo. Eram as crianças e seus instrutores que, ainda em setembro, já se preparavam para a chegada do reinado de Momo, ensaiando o seu desfile. Diferentemente de outras localidades, aqui não é o samba o fundo musical do Carnaval, mas as assim chamadas marchinhas. E os bonecões são uma espécie de abre-alas dos blocos que tomam as ruas da cidade.



Por esse motivo, os bonecões estão espalhados pela cidade inteira, seja nas ruas...



... seja nos prédios públicos, como o Instituto Elpídio dos Santos...



... seja até mesmo no interior dos comércios.



Mas, como já citei no primeiro texto sobre essa cidade, o Carnaval já foi mal visto por aqui. Rapidamente revisando: o italiano Monsenhor Ignacio Gioia foi nomeado pároco local no início do século XX. Impressionado com a importância dada à festa carnavalesca, onde, segundo se dizia, as moças vinham tomar as cinzas no início da quaresma ainda com os corpos repletos de confetes, baixou proibição a todo cristão da cidade de tomar parte desta perdição, no seu dizer. Dizia coisas como o surgimento de rabos e chifres naqueles que desobedecessem, bem como profetizou a inundação da cidade até os tetos da igreja, caso a sem-vergonhice prosseguisse. Há quem diga que sim, há quem diga que não, mas o fato é que enchentes nunca foram propriamente novidades por aqui.

O padre se foi, mas a imprecação permaneceu ecoando. O caso meio que ficou no plano do folclore, até que uma reportagem da rede globo, no começo da década de 80, foi “cavucar” as memórias das pessoas. O resultado da matéria, exibido em rede nacional, foi tomado como ofensivo pelos luizenses, dado o seu tom jocoso, tipo como se os habitantes ainda tivessem medo de se nascerem chifres em suas cabeças e rabos em seus traseiros. Esse foi o estopim para que o Carnaval de marchinhas voltasse a eclodir, com toda a sua força. Ano após ano, mais e mais blocos iriam se constituindo: Barbosa, Casarão, Lençol, Lobisomem, Bebebum, e muitos outros. O mais famoso deles: Juca Teles.



É uma referência ao agitador cultural Benedito de Souza Pinto, que era famoso até a década de 60 por conta de suas manifestações populares, como a Malhação de Judas. Ele adotou o pseudônimo exatamente por conta da transgressão à “moral e bons costumes”, ainda mais pelo fato de ser funcionário do judiciário. Mas ele carregava consigo a alma festeira adormecida naquelas pessoas, e a recriação do Carnaval luizense foi resgatar esta figura que levou praticamente sozinho o que restava dos velhos tempos.



Em todos os estandartes dos blocos, além dos dísticos habituais, como as máscaras teatrais e o megafone de lata, há uma intrigante pergunta: “Como viver sentindo a passagem do tempo?”. Muito interessante ver um questionamento tão profundo em algo voltado à frivolidade, o que é prova de preconceito meu.

Há dificuldade até mesmo em interpretar certeiramente o verdadeiro sentido da pergunta. Será que tem o âmbito de manifestar uma vontade (algo como: “Quero sentir a passagem do tempo. Como fazê-lo?”) ou uma angústia (“Como conseguir viver mesmo sentindo a passagem do tempo”)? Isso porque o tempo é um tema complexo demais, e vou tentar responder ao desafio jucateliano ao meu modo.

Bem, a primeira coisa necessária é tentar entender o que é o tempo, e já aqui a barca naufraga. Muita gente boa tentou fazê-lo, inclusive da maneira que expus neste espaço, aqui e aqui. Em resumo: Santo Agostinho dá uma resposta universal. Se ninguém me perguntar o que é o tempo, eu sei o que é; se alguém perguntar, eu já não sei. Ou seja, o tempo é inefável; foge da razão e está no campo subjetivo da intuição. Cada um tem sua própria percepção de tempo, como bem disse Bergson. Leiam os dois posts que indiquei. São breves e deixam as coisas bem claras.

Mas não precisamos nos reter apenas a estes dois pensamentos. Se pensarmos o tempo nos termos da Física, veremos que os estudos da relatividade de Einstein levaram à fusão dos conceitos de espaço e tempo, algo muito-muito-muito complexo, e que, aqui, abordaremos apenas o essencial necessário para desenvolvê-lo. O contínuo espaço-tempo é algo como um sistema de coordenadas quadridimensional. Neste sistema estão incluídas as facilmente perceptíveis dimensões espaciais (altura, largura e profundidade) e é adicionada a variável do tempo, um eixo através do qual as demais dimensões trafegam. Cada ponto neste sistema é um evento, ou seja, algo que ocorre em momento e local específico. Ocorre que todo esse sistema depende de um referencial para ser aplicado. Afinal, algo tem distância em relação a algo; algo tem duração em relação a algo, ok? Digamos que uma pessoa parada observa um avião. Para ela, o avião está em movimento. Para quem está dentro do avião, o referencial muda: estão parados, e quem se apresenta em movimento é a pessoa da terra firme, que se afasta rapidamente. Se observarmos tudo isso de fora do planeta, perceberemos outro fenômeno – nem um, nem outro estão parados. Ambos se movem com o giro da Terra, e esta gira em torno do Sol, que gira com o braço da galáxia, e assim por diante. A cada novo referencial, temos um novo eixo do tempo no sistema, e este contínuo é percebido de maneira diferente, por menor que seja tal diferença.

Pudemos notar que, mesmo na Física, a percepção de tempo não tem uniformidade, porque depende de referenciais. Em nossa imprecisa consciência, a questão se agrava. Perceber a passagem do tempo significa sentir seu fluxo, e isso significa perceber a movimentação entre o futuro que se espera, o passado que se rememora e o presente que acontece. Ou seja, o tempo se realiza no presente. A aporia maior está em limitar o que é este estranho personagem.

Vamos vasculhar alguns dados do pensamento histórico. Zenon de Cítio, o principal dos estoicos (vide aqui), parecia um cara brincalhão, dado a fazer joguinhos de paradoxos, como aquele em que dizia que um arqueiro, ao disparar sua flecha, jamais a veria chegar ao seu alvo. Isso porque, antes de chegar ao seu destino, a flecha precisaria percorrer metade de seu trajeto, e, antes disso, a metade da metade, e a metade da metade da metade, e così via. Como cada percurso poderia ser dividido em dois, teríamos uma divisibilidade infinita. Ou seja, o movimento nada mais seria do que uma ilusão. Coube a Marcos Cínico* resolver essa parada de um jeito muito fácil e prático, apesar de dolorido. Correndo, dá de cara com a parede, em um extremo do empirismo. Deve ter doído, mas lhe autorizou a ridicularizar a posição de Zenon, que, na real, deveria estar troçando da galera**.

Mas a divisibilidade infinita era um grande problema para que fosse possível estabelecer o que é o presente. Qual seria o seu “tamanho”? Encarando esse enigma, David Hume afirmou que a divisibilidade infinita não pode ser aplicada ao tempo. Há uma espécie de “átomo” do tempo que é o mínimo necessário para configurar um momento, um intervalo mínimo que permite a percepção da temporalidade. Enfim, a quantidade mínima necessária para que percebamos que algo ocorreu. Ora, mas não podemos ter a metade de um momento, ou até menos que isso? Sim, podemos; o diabo é que a percepção não está nas próprias coisas, mas no sujeito. O tempo não é nada sem o sujeito que o percebe. Notem então que há uma dissonância entre o tempo que acontece no cosmos e o tempo que conseguimos sentir. Notem mais ainda:  que um evento físico que ocorre no universo jamais é o mesmo que é produzido psicologicamente. Em Hume temos o belíssimo exemplo do instrumento de sopro e o instrumento de corda. Ele fala que aquilo que sentimos (e aqui insiro a sensação de temporalidade) não é como uma flauta, que cessa sua sonoridade assim que se para de soprar. Antes disso, assemelha-se a uma lira, cuja corda permanece em vibração após ser tangida, produzindo uma sensação sonora que se alonga até seu completo sumiço. O tempo cósmico, portanto, tem a exata medida de seus eventos, enquanto o tempo subjetivo, o tempo que verdadeiramente importa, este dura muito mais que o próprio evento, porque o sujeito tem algo chamado afeto***, algo próprio ao ser humano. Há uma assimetria entre o fenômeno ocorrido e as suas consequências, e o tempo dos afetos é mais duradouro do que o tempo de articulação com o mundo.

Pensemos no seguinte, para ficar mais claro. Um rapaz faz uma proposta indecorosa a uma moça qualquer. Como resposta, voa um belo tapa na sua cara, daqueles dados com as costas das mãos. O tempo físico do ato dura centésimos de segundo – o exato momento do encontro da mão da indignada moça ao rosto do indigitado canalha. Mas o tempo da dor, da decepção pelo fracasso do sacripanta, da revolta pelo acinte da menina, tudo isso dura muito mais, e causa muito mais efeitos do que o mero ato físico.

Diante disso, chego à conclusão de que o tempo, para ser sentido, nada mais é necessário do que perceber seu fluxo através daquilo que nos afeta. Cada pequeno ato que ocorre ao nosso redor é mais um ponto que se fixa no sistema de coordenadas de nossa vida, e que se transforma em referenciais. Por cada um deles mediremos memórias do passado e expectativas do futuro.

Eterno fluxo... Heráclito, o mestre do devir! Nunca tomamos banho no mesmo rio (mesmo – ou principalmente – que seja o Paraitinga). Nós não seremos mais os mesmos, nem o rio será o mesmo, ainda que daqui a um minuto, ou um momento indivisível. O tempo nada mais é do que a sucessão de nossas mudanças, o nosso próprio fluxo ininterrupto.

O tempo é indissociável da filosofia de Heráclito. Enquanto os demais pré-socráticos discutiam qual seria o elemento primordial que comporia os seres (vide), Heráclito institui a doutrina do panta rhei. Tudo flui, o próprio fluxo é o Ser, porque nada persiste em si mesmo imutável, no polo oposto do que Parmênides pensava. Ele usa a imagem do banho no rio para dar o exemplo mais clássico do fluxo eterno, mas é no fogo que ele vê em sua frente o grande elemento de transformação, e o adota como arché, talvez mais simbolicamente do que como elemento concreto.

E por mais que Parmênides possa estar correto em afirmar que há uma essência nos seres que os fazem ser imutáveis, o fato é que isso nos foge aos sentidos. O mundo sensível, aquele que nos afeta, é um continuum em que se entrelaçam o tempo instantâneo dos acontecimentos com o fluxo ininterrupto com o qual somos afetados pelos mesmos. Essa é, para mim, a mais bela maneira de sentir a passagem do tempo.

Recomendações de leitura:

Hume não é propriamente um filósofo fácil, nem de ler, nem de engolir. Isso porque seu ceticismo é praticamente absoluto, o que beira a uma completa ausência de confiança em qualquer coisa que seja. Mas ele, na verdade, é muito sagaz. Vale a leitura.

HUME, David. Investigação sobre o Entendimento Humano. São Paulo: Unesp, 1999.

O livro abaixo é um guia completo sobre o desenvolvimento do Carnaval luizense. Imperdível, apesar de, lamentavelmente, não ter sido editado por nenhuma editora de renome.

SILVA, Degiovani Lopes; VIEIRA, Maria Alice F. do Amaral. São Luiz do Paraitinga sem Rabo e sem Chifre. A Evolução do Carnaval das Marchinhas na Terra de Juca Teles do Sertão das Cotias. São Paulo: Edição do Autor, 2012.

* A escola cínica não tem nada a ver com o cinismo da maneira que utilizamos hoje. Os cínicos filosofavam por uma vida simples, como a de um cão (kynos – cão em grego), onde apenas as necessidades mais essenciais deveriam ser satisfeitas. Certamente terei boas oportunidades de falar melhor sobre eles.

** E estava mesmo: Zenon apenas demonstrava como a matemática não consegue dar conta de toda a realidade.

*** Lembrando que afeto, em Filosofia, significa não só amor que temos por outras pessoas, mas algo capaz de nos produzir qualquer mudança.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Sobre nossos elementos primordiais e a evolução do pensamento filosófico rumo à Ciência

Olá!

É inevitável. A curiosidade infantil sempre leva à pergunta clássica sobre o nascimento dos bebês. Como a cegonha requereu aposentadoria e os repolhos estão estéreis após os pesticidas, a explicação dada aos pimpolhos tem que ser cada vez mais calcadas na realidade. Mas, como bem sabemos, explicar todo o ciclo que leva à gravidez e ao nascimento dá um trabalho imenso para quem ainda não tem um aporte muito significativo de conhecimentos. E então entram em cena aquelas pantomimas que falam sobre como o-papai-começou-a-namorar-a-mamãe-e-então-eles-se-casaram-depois-o-papai-plantou-uma-sementinha-dentro-da-mamãe-que-cresceu-cresceu-cresceu-até-ficar-tão-grande-que-não-cabia-mais-na-barriga-da-mamãe-e-por-isso-precisou-sair-o-papai-levou-a-mamãe-para-o-hospital-e-então-o-médico-puxou-você-para-fora-e-você-nasceu, ou seja, uma bela série de malabarismos didáticos.

Mas não é só isso que desperta a insaciável curiosidade dos nossos queridos fedelhos. A própria humanidade, em sua infância, carregava consigo o ônus de não saber de onde veio, do que eram feitas todas as coisas, porque existiam igualdades e diferenças, entre outras aporias.

Como eu já disse em outros momentos, o homem tinha dois focos nos quais poderiam lançar suas especulações: no universo que o rodeava ou em forças superiores, que eram desconhecidas dele. Esta era a saída mitológica, e a primeira era o que, mais tarde, chamaríamos de Física.

Claro que a mitologia tem mais facilidades. Sua principal arma é a tradição oral, aquelas histórias que se contam de pais para filhos, de patriarcas para aldeães, de sacerdotes para crentes, e assim por diante. Não há o rigor da observação empírica, mas um acúmulo de histórias que buscam, em última instância, uma resposta para a agonia da dúvida. Este tipo de narrativa sobre a origem do universo é o que conhecemos em Filosofia como cosmogonia.

Mas o método mitológico tem seus problemas e dificuldades inerentes. Para que uma explicação minimamente razoável oriunda da mitologia pudesse ser produzida, era preciso não explicar somente a origem do cosmos, já que esta era a parte fácil de explicar – os deuses deram origem a tudo o que existe. Para tanto, era necessário retroceder ainda mais. Era preciso, de alguma forma, narrar a origem dos deuses, que chamamos de Teogonias (theos=deus + gonos=origem). Elas eram muitas, a maioria transmitida oralmente, mas algumas delas se tornaram especialmente célebres, como aquelas escritas por Homero e Hesíodo, que chegaram aos nossos dias. Transcrevo abaixo um pequeno trecho da Teogonia de Hesíodo, descrevendo como todos os deuses brotam do caos, também este devidamente deificado.

Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também
Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,
dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado,
e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,
e Eros: o mais belo entre Deuses imortais,
solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos
ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.

Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.
Terra primeiro pariu igual a si mesma
Céu constelado, para cercá-la toda ao redor
e ser aos Deuses venturosos sede irresvalável sempre.

Pariu altas Montanhas, belos abrigos das Deusas
ninfas que moram nas montanhas frondosas.
E pariu a infecunda planície impetuosa de ondas
o Mar, sem o desejoso amor. Depois pariu
do coito com Céu: Oceano de fundos remoinhos
e Coios e Crios e Hipérion e Jápeto
e Teia e Réia e Têmis e Memória
e Febe de áurea coroa e Tétis amorosa.

E após com ótimas armas Crono de curvo pensar,
filho o mais terrível: detestou o florescente pai.
Pariu ainda os Ciclopes de soberbo coração:
Trovão, Relâmpago e Arges de violento ânimo
que a Zeus deram o trovão e forjaram o raio.

Eles no mais eram comparáveis aos Deuses,
único olho bem no meio repousava na fronte.
Ciclopes denominava-os o nome, porque neles
circular olho sozinho repousava na fronte.

Vigor, violência e engenho possuíam na ação.
Outros ainda da Terra e do Céu nasceram,
três filhos enormes, violentos, não nomeáveis.
Cotos, Briareu e Giges, assombrosos filhos.

Deles, eram cem braços que saltavam dos ombros,
improximáveis; cabeças de cada um cinqüenta
brotavam dos ombros, sobre os grossos membros.
Vigor sem limite, poderoso na enorme forma...

Podemos perceber, portanto, que a criação do mundo é dependente da criação dos deuses. Evidentemente, as descrições dos mitos de criação sempre contém mais poesia do que propriamente história. O mito teogônico de Hesíodo é apenas um exemplo, assemelhado com tantos outros, oriundos de tantas outras culturas.

Ocorre que, mesmo com tanta riqueza criativa na construção deste mito, chegou um momento em que o grego antigo olhou para o universo que o rodeava e percebeu que o observável não era a ação destes deuses, mas os próprios fenômenos em si. Não havia um contato direto com as suas divindades, apesar da atribuição de todos os acontecimentos à vontade de um dos deuses. Mesmo não se desvinculando por completo das explicações transcendentes, o grego começou a procurar no próprio universo a sua origem e os seus princípios comuns. Deste modo, a Cosmogonia migrava para a Cosmologia. Não se queria mais entender apenas a origem das coisas, mas entender as coisas em si mesmas, e a partir de si mesmas. Em suma, querem se ver de frente ao real palpável, e não apenas ao suposto.

Mas haveria a possibilidade de se alcançar o real palpável? Talvez não, haja vista às limitações tecnológicas da época, mas desde então se notou que os poucos elementos disponíveis possuíam uma harmonia e uma regularidade que podiam ser vistos como indicativos de uma regra geral. E a partir daí inicia-se a busca por um elemento primordial, presente em tudo o que existe, que justificasse a origem e a composição de cada coisa que há no universo: a arché. E isso tudo se utilizando da melhor ferramenta disponível ao homem: o seu próprio raciocínio, tendo a lógica por estrutura.



Como volta e meia eu volto à questão da arché, achei por bem elaborar um texto onde eu pudesse explanar todas as teorias encontradas no período anterior a Sócrates. Em primeiro lugar, porque é muito interessante verificar como a humanidade sempre procurou saídas inteligentes para suas dúvidas. E depois para que todos nós possamos perceber como o pensamento humano evolui, partindo de teses mais simples, agregando conhecimento e tornando-as mais e mais complexas e plausíveis. Vamos nessa (com paciência, porque o texto ficou longo).

Tales e a água

Tudo começa com Tales, mas já falei dele em duas oportunidades, aqui e aqui, e não o farei de novo, porque senão vão achar que sou tiete. Ou chato de galochas. Portanto, leiam os dois links em questão. Para fins didáticos, vou apenas esclarecer que a arché, para Tales de Mileto, era a água.

De qualquer forma, pincelada rápida: Tales, pela primeira vez registrada, olha para a natureza  para investigar sua própria gênese e dá primazia aos gregos naquilo que concebemos como Filosofia no ocidente. A originalidade dos gregos está na eleição de um objeto a ser estudado, na formação de um conceito e na utilização de um método, ainda que possamos chamá-los de primitivos.

Anaximandro e o apeiron

A segunda proposta introduz pela primeira vez um elemento que não poderia ser percebido a olhos nus. Entra em cena Anaximandro, na mesma cidade grega (hoje turca) de Mileto onde surgiu Tales. Sua proposta supõe que a água, elemento imaginado por Tales, já é uma derivação de algo ainda mais primitivo. A água, por mais elástica que possa ser, e por mais que possa navegar por diversos estados, ainda assim assume uma forma. Ou melhor, é compelida a ter uma forma, ainda que seja a de uma etérea névoa, um transparente e quase invisível vapor.

O princípio fundamental deveria ser outro. Algo que pudesse permear o universo inteiro e adotar qualquer forma, com base nas condições existentes nos diferentes ambientes por onde ele passasse. Algo que pudesse ser encontrado além das fronteiras do nosso conhecimento, já que os elementos existentes no planeta Terra não poderiam representar a totalidade daqueles que estão espalhados por todo o cosmos. Algo que pudesse conter em si todas as oposições dos estados observáveis na natureza, como o quente-frio, mole-duro, seco-úmido, compacto-poroso.

Esse elemento não seria propriamente uma substância, mas teria a capacidade de se transformar em qualquer uma, justamente por sua indefinição de matéria e forma. Era a massa generativa de tudo o que existe. Tudo surge a partir deste mesmo elemento, que – novamente – por sua indefinição, e também por sua infinitude, pode moldar absolutamente qualquer coisa.

Anaximandro chama esse elemento primordial de apeiron, originado da fusão das palavras gregas a (sem) e péiron (limite). Mais tarde, alguns autores identificaram o apeiron com o éter, uma espécie de quinto elemento imperceptível diretamente pelos sentidos, mas esta é uma outra história.

Anaxímenes e o ar

Anaxímenes é outro filósofo da cidade de Mileto que se debruça sobre a questão da arché. Ao que parece, ele acha a proposta de apeiron de Anaximandro radical demais, e até mesmo fantasiosa. Essa crítica de Anaxímenes é compreensível, principalmente quando lembramos que o princípio primeiro da Filosofia era se afastar do substrato mitológico, que a tese de Anaximandro volta a se aproximar, ao atribuir à arché um aspecto infinito e indeterminado. Para ele, já há um elemento que consegue se espraiar para todo o universo, até mesmo onde se crê que ele não exista: é o ar.

De fato, o ar pode se tornar tão rarefeito que acaba por se tornar indetectável, e somos induzidos a acreditar que há vácuo, mas não; o ar está lá presente. Além disso, o ar pode ser percebido, ainda que invisível, pela ação dos ventos, quando se torna uma percepção táctil. Mas, e se o ar estiver parado? É ainda assim possível percebê-lo, pelo aumento ou diminuição da temperatura.

É no processo de rarefação e condensação que o ar forma tudo o que existe. No pensar de Anaxímenes, ao se rarefazer, o ar se aquece e forma o fogo; ao se condensar, esfria e forma a água; aumentando a densidade, teremos a terra e demais elementos sólidos. Em Anaxímenes, portanto, temos pela primeira vez uma dinâmica dos elementos para reger a formação das coisas.

Xenófanes e a terra

Depois disso, temos Xenófanes de Cólofon, que acredita que o elemento fundamental é a terra. A base para seu raciocínio é a inversão da conclusão de Anaxímenes. Não é o ar que se torna mais denso, mas a terra que se torna mais dispersa. É a terra, ao se rarefazer, que forma a água, que, por sua vez, se torna cada vez mais difusa para formar a atmosfera.

Mas por que a rarefação da terra, e não o adensamento do ar? Xenófanes observa que a primazia do elemento sólido se dá pelo fato de que é um meio onde encontramos uma diversidade muito maior de substâncias. É da terra que brotam os vegetais e para onde voltam os animais depois de mortos, e para onde escoa a água da chuva. Mesmo os oceanos, que são muito maiores do que a porção emersa do planeta, têm em seu fundo a mesma terra, ou seja, é o elemento sólido que suporta o meio líquido.

Mas Xenófanes também encontrou outra base importante para sua teoria: a presença de conchas e esqueletos em escavações. Ele não enxergava a formação de seres em pleno ar, mas, ao encontrar esses vestígios de seres ao se aprofundar na terra, podia interpretar que lá eles se encontravam em formação ou em desfazimento.

Heráclito e o fogo

Como não poderia deixar de ser, haveria alguém para determinar o fogo como arché. E esse alguém foi Heráclito, da cidade de Éfeso.

Este cara tem bastante importância para a Filosofia, porque foi um dos primeiros pensadores a abordar a questão da dicotomia entre permanência e mutabilidade das coisas. Heráclito era mobilista, ou seja, sua metafísica previa que todo o universo está em constante devir. Sua frase mais famosa: “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”, significando que nem o rio nem quem se banha é o mesmo em dois momentos distintos – a água do rio já passou, a pessoa que nele entra já envelheceu, mesmo que só poucos instantes.

Heráclito aperfeiçoa o dinamismo elementar de Anaxímenes, já que sua arché, o fogo, é o elemento essencial não só corpóreo, mas também simbólico da constante transformação universal. O fogo é real palpável quando faz o sólido derreter, o líquido evaporar e o gás evolar pelo infinito. E é simbólico quando brota pequeno, cresce ao ser alimentado e fica pleno até sua força ser minorada, até produzir pouco calor e luz, e até se extinguir, deixando como marca de sua existência apenas os rastros no ambiente por onde viveu.

Pitágoras e o número

Percebam como, pouco a pouco, os filósofos vão tornando suas teses sobre a arché mais e mais sofisticadas, incluindo elementos que não representavam unicamente o cosmos material, rumando para especulações metafísicas. Isso se torna mais perceptível em nossa próxima estação, a cidade de Samos, onde encontraremos um dos mais seminais matemáticos de todos os tempos: Pitágoras.

Devo agora, por uma questão de honestidade intelectual, confessar minha autêntica ojeriza por essa área tão importante do conhecimento, basilar para qualquer ciência que se queira praticar. E reconheço nisso um defeito meu, até mesmo porque admito plenamente o seu valor. E, com isso, reconheço em Pitágoras um gênio. Com pouquíssimos dados à sua disposição, formulou vários teoremas, sendo que o célebre “o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos” recebeu seu nome e é um dos postulados básicos da trigonometria. É um dos mais antigos teoremas matemáticos conhecidos.

Pitágoras e seus discípulos tinham o hábito de observar atentamente o mundo prosaico que os rodeava e encontrar correlações que permitissem reduzir os fenômenos a expressões matemáticas. Observavam trajetórias, impactos, pesos e tudo o mais que estivesse à disposição. E, evidentemente, acabaram encontrando muitas dessas correlações. Perceberam que o universo funcionava de maneira harmônica, e dessa harmonia emergiam os cálculos que a explicavam. E concluíram que o número era a essência de todas as coisas.

É óbvio que Pitágoras não achava que ao picar uma coisa qualquer em mil pedacinhos, apareceria, luminoso, o número 1. Ou que de um belo algarismo instalado no centro de um jardim, brotaria, perfumada e espinhuda, uma roseira-branca. Ou ainda que, uma vez aquecido, esse mesmo algarismo purgasse água e depois desaparecesse, transformado em ar. Pitágoras enxerga na harmonia matemática, na articulação calculável e nas engrenagens naturais a essência de todas as coisas, sem criar, para tanto, um elemento físico.

Essa abordagem será de grande valia para que a questão seja vista de maneira cada vez mais científica, desembocando em uma conclusão surpreendente que veremos mais adiante.

Empédocles e as raízes

A próxima concepção é de Empédocles, da cidade de Agrigento, atualmente na Sicília, mas que fazia parte da Magna Grécia à época. Ele traz duas grandes novidades. A primeira, mais evidente e menos importante (como veremos), é a teorização de que a arché não é composta de um único elemento, conforme imaginavam seus antecessores. Pelo contrário, tudo era composto pelos quatro elementos básicos conhecidos – terra, água, ar e fogo. Eles iam misturados em todos os objetos, em diferentes proporções, e a preponderância de um deles dava a característica geral da substância, que eram bastante óbvias: se o elemento era mais rígido, havia uma maior quantidade de terra; se era líquido, o maioral era a água, e via discorrendo. Deu a esses princípios fundamentais o nome de raízes.

A segunda novidade prenunciava as leis de atração e repulsão, muito embora Empédocles atribuísse uma espécie de “valor ético” a seres inanimados. É que nosso profético filósofo sacou que, a partir de quatro raízes, era possível obter infinitas composições, que possibilitariam a obtenção de todos os materiais do universo e a constituição de novos. E o que faria com que estas diferentes raízes se combinassem e se dissolvessem?
Bem, Empédocles propõe uma solução inusitada. Assim como no relacionamento entre os seres vivos, havia entre as raízes forças de atração e repulsão equivalentes ao amor (eros) e ao ódio (neikós). O amor é a força agregadora e atrativa. Faz com que os elementos se aglutinem, ao inverso do que ocorre com o ódio, que separa e fragmenta. Pode parecer esquisito, mas sabemos hoje que, sem os princípios de atração e repulsa, é impossível compreender bobagens como magnetismo, estrutura atômica e gravidade.
Anaxágoras e as homeomerias
Depois vamos visitar Anaxágoras, da hoje turca cidade de Clazômenas, que também traz uma grande novidade. Ele rejeita a multiplicidade de elementos preconizada por Empédocles. Para ele, a multiplicidade existe, mas encerrada em um único elemento, que contém todos os outros. São as homeomerias, que vamos investigar agora.
Anaxágoras observa o seguinte: sem que seja necessário agregar nada, uma pequena semente já contém em si a árvore inteira. Idem com um homem. Um pequeno embrião vai se tornar um homem adulto, talvez um forte guerreiro, talvez um gordo comerciante.
Ou seja, os seres não surgem do nada, como mágica. Seguem um processo de divisão que torna sobejas algumas características e inibidas outras. Isso não se aplica unicamente aos seres vivos, mas aos brutos também. Portanto, a arché seria alguma coisa que se assemelha a uma semente, chamada por Anaxágoras de spérmata (o termo homeomeria consagrou-se por conta da afinidade de Aristóteles com esta tese, e significa alguma coisa semelhante a “partes qualitativamente iguais”). O elemento seminal conteria em si mesmo a totalidade da tipificação da matéria universal, se diferenciando umas das outras pelas partes que seriam ativadas, divididas daquelas que permaneceriam inertes. As frases-mote: “tudo está em tudo” e “em cada coisa há parte de cada coisa”.
Mas havia um princípio cósmico transcendente que explicava o que fazia uma homeomeria se transformar em uma determinada coisa, e não em outra qualquer. Anaxágoras enxergava outro princípio fundamental, que determinava qual de cada componente da homeomeria prevaleceria sobre os demais. Ele não se desvencilha de atribuir a este princípio ordenador uma certa divindade. Era o nous.
A característica divinizante do nous era que essa inteligência ordenadora estava apartada das coisas, sendo sua integradora, mas não integrante. É ela que fez o universo girar e que reconheceu as necessidades de aglutinação e separação dos seus fundamentos, sendo externa a eles, para que pudesse se dar conta da harmonia do seu funcionamento.
Demócrito e o átomo (Pobre Lêucipo, todo mundo esquece-se dele)
E assim chegamos à nossa estação final. Vamos falar de Lêucipo de Mileto e de seu discípulo mais ilustre, Demócrito de Abdera. Com eles, teremos a primeira tentativa de explicar o universo de maneira puramente mecanicista, sem nenhum tipo de intervenção de divindades ou entidades metafísicas.
Desde muito tempo, o homem percebeu que os objetos de seu ambiente podiam ser reduzidos a partes cada vez menores. Uma rocha pode ser fragmentada até se transformar em areia, e que dos seus grãos poderia ser obtida uma divisão ainda maior, o que somente não era possível conseguir por causa de falta de meios. Mas é fato que essa redução era possível, até o limite da percepção.
Qual era o limite desta divisão? Até onde era possível chegar sem que a matéria se descaracterizasse? Demócrito imaginou que, quando esse limite fosse atingido, não mais haveria como tornar a matéria ainda menor. Este limite de divisibilidade da matéria era o átomo. Essa palavra grega é composta pelas partículas a (sem) e tomos (divisão).
A grande modificação em relação às raízes de Empédocles e à homeomeria de Anaxágoras era que, agora, as partículas que compõem o universo são indiferenciáveis entre si. Um átomo de água não é diferente de outro átomo de água, e nada há nele além do elemento que representa. Claro que o conceito de molécula era ainda inalcançável, mas Demócrito previu que eles teriam combinações possíveis entre si. Isso porque nosso risonho amigo pensava que o número de tipos de átomos era bastante pequeno, se comparado com o total de elementos perceptíveis no cosmos. O que fazia com que suas características fossem distintas era uma descoberta ainda mais surpreendente: os átomos tinham espaçamentos entre si, que não era preenchido por absolutamente nada. Era o vácuo.
Como não havia nenhum princípio ordenador nas teses de Lêucipo e Demócrito, tudo era formado ocasionalmente. É meramente o encontro mecânico dos átomos que produzia a ordem do universo.
Então vamos ver:
1. O mundo é composto por minúsculas partículas espalhadas por toda a parte;
2. Os átomos possuem movimento;
3. Os átomos existentes são poucos, mas suas combinações são infinitas;
4. O espaço entre os átomos é preenchido de vácuo;
5. Nada mais há do que átomos e vácuo;
6. Todas as coisas se diferenciam por conta do arranjo e disposição dos átomos que as compõem;
7. Os átomos são indivisíveis. Claro que Demócrito não previu que o átomo era particionado, ele não tinha nenhum recurso para isso, mas é preciso lembrar que não essencialmente erro nessa assertiva. Um átomo somente pode ser dividido, pelo que se conhece hoje, por fusão ou fissão, o que o destrói.
Lembrando que a construção deste conceito nasceu unicamente pela via filosófica, dá para perceber o quanto esse modelo estava correto. Pena que os maiores nomes da Filosofia Antiga, Platão e Aristóteles, não compraram essa ideia. O mesmo se aplica à Filosofia Medieval, que já dava por suficiente a explicação teológica da origem do cosmos. Por conta disso, a ideia do átomo ficou adormecida por muitos séculos, até que os alquimistas, atraídos pela possibilidade de transmutar um elemento em outro, voltaram a investigar as teses que previam a unicidade dos materiais. Mas só deslanchou mesmo com John Dalton, no século XIX. Lêucipo e Demócrito mataram a charada.
Parmênides e o Ser
È finito? Sim, mas eu ainda gostaria de fazer uma observação sobre Parmênides, o pai da permanência, do Ser infinito e imutável. Ele não discorreu fundamentalmente sobre uma arché, mas o filósofo da ciência Karl Popper percebeu que as características atribuídas ao Ser, como a redução imutável à essência daquilo que existe, e a impossibilidade de atribuir qualitativos àquilo que não existe, ou seja, da imutabilidade do Ser, em clara oposição ao mobilismo de Heráclito, faz com que vejamos uma mesma intenção, agora metafísica, de explicar a origem e a causa do universo.
O Ser é o que é, sentença estranha. Mas isso quer dizer que, livre de todos os fenômenos e aparências, que fazem com que ele seja colocado como algo mutável aos nossos olhos, não teremos nada do que o Ser não é. E, com isso, atingimos sua essência e, de certa forma, sua arché.
Não há dúvidas de que voltarei com mais rigor a este tema em especial, mas não queria deixar passar batido. O mais importante de todo esse caminho que tracei é perceber o rumo que a Filosofia tomou, e a percepção de como o conhecimento é colaborativo. Um pensador não jogou fora o conhecimento obtido por outro apenas por não concordar com ele. Pelo contrário, o pensamento de um deu base ao outro, mesmo que por oposição. E o exemplo da arché demonstra como se transita da Filosofia para a Ciência. A primeira especula até que a segunda acha. Esse é o mundo do pensamento.
Chega! Já tá muito longo. Obrigado pela paciência.

Recomendação de leitura:

Todo manual de Filosofia que se preze fala sobre a questão da arché. Por isso, vou preferir indicar a versão completa do texto de Hesíodo mencionado no começo do post. É meio pesadinho, mas não deixa de ser interessante, em especial porque é um testemunho do sistema que buscava dar sentido ao mundo antes que partíssemos para a aventura do conhecimento racional.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. São Paulo: Iluminuras, 1991