Marcadores

Mostrando postagens com marcador Redenção da Serra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Redenção da Serra. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Navegações de cabotagem – a barraca da Fátima de Redenção da Serra e as causas ocasionais como elo entre corpo e alma

(A ideia de divisão entre corpo e alma é velhíssima, mas como ambos podem se articular, se possuem naturezas tão distintas?)

Olá!

Clique aqui para ler mais textos sobre meus bate-e-volta

Sempre temos um lugar onde nós gostamos de ir mais que em outros. Eu gosto muito do Vale do Paraíba, seja na parte da Mantiqueira, seja na banda da Serra do Mar. A coisa aumentou depois que a filha mais nova se mudou para Taubaté, no coração do Vale. Passo muitos dias fazendo pequenos reparos em sua casa, bem velhinha, e do jeito que eu gosto – bom mooquense. Mas a área do Vale é muito extensa e com muita coisa a se fazer, de modo que fica mais difícil estabelecer qual de todos é o local mais frequentado. Mas eu tenho esse lugar. Concluí que todas as vezes que pego a Oswaldo Cruz, não é numa cachoeira, num rio, numa represa, numa montanha, num mirante, numa igreja, numa trilha ou numa casa antiga que eu passo obrigatoriamente, mas em uma mercearia, uma vendinha de beira de estrada, que tem o nome oficial de Santa Terezinha, mas que já está consagrada em meu meio como Barraca da Fátima, que mencionei inclusive em uma das listas de 10 do meu post de comemoração de 10 anos. É sobre este lugar que eu quero falar e filosofar hoje.


Como se pode ver acima, é um dos típicos empórios de beira de estrada do interior deste país que o seo Cabral diz ter encontrado. Um pequeno cômodo com uma cozinha ao fundo, tudo isso à frente da casa da comerciante, que transforma seu lar em ganha-pão. Por lá, uma série de produtos vendidos a miúdo garantem o sustento para a família que se desdobra lá dentro.


Há algumas coisas compradas prontas de fora, para dar incremento às demandas, mas o principal está na manufatura e nos produtos típicos. Afinal, estamos em uma das regiões mais distintas em termos de folclore e cultura popular de todo o estado. Aqui, há requeijão de prato, taiada, cangalhinha, pão com linguiça caseira e tudo o que se pensar de milho e amendoim, muitas das quais feitas aqui mesmo, pelas mãos habilidosas da agora já amiga.


Como eu disse, muita coisa é existente na própria casa da Fátima, como é o caso dos pezinhos de Cambuci, provavelmente a fruta mais simbólica de toda a região. Ela vende as mudas que florescem em seu quintal e o fruto in natura, que pode ser extraído sem prejuízo nas matas e é azedo a vida inteira.

Por sua característica endêmica, é um dos produtos mais consumidos pelos turistas, que dificilmente conseguem encontrar o produto fresco para consumo imediato em outros lugares, principalmente na forma de refresco ou de batida.


Pessoalmente, seu produto mais imperdível, daqueles que a gente fia a palavra sem nenhum medo é a sua pamonha embrulhada na folha de caeté, uma planta da mesma família da bananeira, e que serve também para assar peixes, por exemplo. Dá um tempero único à massa de milho, e é de se desfiar um rosário completo enquanto se a come.


Eu tive um pequeno entrevero com a senhora minha sogra por causa dessa pamonha. Ela deu uma esnobada de leve no produto, dizendo que tinha muito bagaço. Eu retruquei elegantemente, dizendo que essa é a diferença fundamental entre pamonha e curau: pamonha tem bagaço, curau é que é coado. A pamonha que a senhora faz é curau na palha; um excelente curau, diga-se de passagem, mas curau, não pamonha. Ela ficou puta possessa possuída um pouco irritada e disse que eu, moleque da cidade, não sabia nada, nem de curau, nem de pamonha, mas eu não quis tergiversar, de auréola na cabeça; apenas fazer uma observação. Alheia a essas escaramuças, a patroa se diverte no consumo do acepipe.


Na Fátima também tem alguns gatilhos para reminiscências infantis. Doces que costumeiramente dividiam espaço com as baratas naqueles inseguríssimos armários de vidro, como a Maria Caxuxa, eram coisas que eu consumia a rebo enquanto meu pai molhava o bico. Abaixo, uma dessas com um potinho de geleia de Cambuci. Coisas que representam furos na minha dieta restritiva de sacarose.


A venda da Fátima fica não só na beira da estrada, mas também no pé do morro, e a natureza que lhe rodeia é exuberante, como a mata ciliar que guarnece o riachinho que ladeia a terra, todo fechado pela flora exuberante...

... e como as culturas plantadas, que lhe servem de fornecedoras das matérias primas para o comércio, como este pé de amendoim que fica quase que como um monumento.


De resto, algumas curiosidades sazonais, como essa planta chamada pelo insólito e sacana nome de “saco de velho”, que as crianças adoram estourar...


... ou esta planta que não sei o nome (descobri – chama-se “aranto”), mas que é repleta de brotos que parecem enxertos.


A Fátima é uma pessoa muito religiosa. Começando pelo nome de sua vendinha, dedicado à santa padroeira dos jardineiros e precursora do “Pequeno Caminho”, um meio de vida que privilegia a simplicidade para se chegar à santidade, em detrimento das histórias heroicas dos grandes santos e mártires. Tem seus nichos com seus santos de devoção, como Santo Expedito e São Miguel Arcanjo, além da própria Santa Terezinha, e é de participar das festas do Divino, hábito típico desta região. Está sempre dando graças e agradecendo por tudo, inclusive coisas extremamente prosaicas, como as nossas visitas. Pôs a difícil gravidez de sua filha sob a proteção de Nossa Senhora, e fica emocionada todas as vezes que fala disso.

Pode parecer um pouco estranho que alguém atribua a uma divindade tudo aquilo que lhe acontece de bom, porque dá um ar de subvalorização dos próprios méritos, mas essa é uma correlação que nem sempre é verdadeira. Talvez seja possível entender que a pessoa não se põe, ela mesma, em um pedestal, e reconhece suas próprias falhas e limitações. Por esse motivo, compreendo sua posição. A questão Deus é muito importante na vida das pessoas e já conduziu o pensamento da humanidade por muito tempo, e o faz ainda, em certa medida. Entretanto, existiu um momento na história da Filosofia em que houve uma transição da divindade como explicação de tudo para uma causação mais voltada à razão como fenômeno mental independente. Como todo bom e velho período transitivo, havia quem aderisse aos novos ventos e quem resistisse a eles, e havia ainda quem buscasse conciliar tradição e novidade. O francês Nicolas Malebranche é um desses, e vamos falar rapidamente sobre ele.

Na verdade, Malebranche foi o primeiro autor de quem fiz um trabalho mais sério na faculdade. O mestre de História da Filosofia Moderna pediu que escolhêssemos um filósofo do Racionalismo e o situássemos dentro do movimento. Eu, querendo parecer diferentão, fugi dos óbvios Descartes, Espinoza e Leibniz e fui me socorrer do padre que buscava uma alternativa às coisas que, em sua concepção, estavam mal explicadas nas teses gerais do movimento.

Malebranche era um grande admirador de Descartes. O sistema dualista cartesiano, em rápida sinopse, consistia no seguinte: a principal característica de um ser humano é sua substância mental. É por ela que nasce a prova mais substancial de existência, seu famoso cogito: eu penso, eu existo, porque mesmo que puser minha própria existência em dúvida, haverá aquele que duvida – ao menos o pensamento existe. É uma das mais célebres intuições filosóficas, e mesmo que o erro dos sentidos já preconizados desde os filósofos pré-socráticos fosse um fato, poderia haver uma escapatória consistente para a prevalência da razão. Só que é inegável que, por mais que a atividade racional seja possível e conduza ao conhecimento quando banhada pela evidência, as contingências do corpo efetivamente levam às incertezas. Vistas embaçam, ouvidos ensurdecem, narinas entopem. Por esta razão, Descartes separava de maneira bastante distinta estas duas instâncias do sujeito: a res cogitans, composta por todo o equipamento psíquico-cognitivo, e a res extensa, a coisa concreta que gira em torno do sujeito pensante, formada pelo seu próprio corpo, que é a sede dos sentidos. Dessa forma, a res cogitans interage com o cosmos ao seu redor através de sua própria porção de res extensa.

Mas havia uma dúvida que surgia já no nascedouro da noção de dualismo cartesiano. Se a res cogitans (mente) e a res extensa (corpo) são completamente distintos entre si, como se dava a interação entre ambos? Afinal de contas, a mente necessita da via de entrada dos sentidos para absorver informações do mundo, e o corpo precisa receber de alguma forma orientações sobre para onde dirigir sua intencionalidade, ou seja, para saber para onde olhar. Descartes dá uma solução surpreendentemente pobrezinha (nada é perfeito). Para ele, essa articulação se dava por ação da glândula pineal. Este pequeno órgão fica na porção central do cérebro, em uma posição que, simbolicamente, parece estratégica: exatamente entre os dois olhos, mas em posição mais profunda em relação ao rosto. Isso passava a impressão meio mediúnica de uma terceira visão. Essa glândula era conhecida pelas cada vez mais frequentes dissecações de cadáveres, mas ninguém sabia exatamente para que ela servia*. Pela posição privilegiada e incerteza quanto a sua função, Descartes a elegeu como esse ponto de convergência entre res cogitans e res extensa. É o que se chama de asylum ignorantiae, um confortável repouso para questões não resolvidas.

Malebranche se tornou um fãzaço de Descartes, especialmente porque o dualismo res extensa e res cogitans se acomodava perfeitamente à dicotomia cristã do corpo e alma. Mas a historinha da glândula pineal era um espinho na sua garganta, e ele sentiu a necessidade de desenvolver uma tese melhor. O roteiro não é tão curto, mas tentarei ser sintético.

Embora a igreja católica já vivesse os tempos da escolástica de São Tomás de Aquino, Malebranche volta a Santo Agostinho e sua interpretação do platonismo para constituir suas ideias. Já falei muito disso por aqui, mas vamos dar concisão: Platão entendia que existiam duas instâncias da realidade, sendo que uma continha todas as formas perfeitas, e que era acessível unicamente pelo intelecto, e outra que se tratava de reproduções imperfeitas, colocadas no nosso mundo igualmente imperfeito. Tudo o que existe na nossa percepção sensorial é uma cópia de algo que possui sua forma perfeita no universo intelectual. Dessa forma, todos os homens são cópias do homem perfeito existente no mundo das ideias, assim como o coelho perfeito, o cachorro perfeito, o vinho perfeito, e qualquer outra coisa que se colha da realidade. Vamos dar um exemplo. É possível que se pense no círculo perfeito, que é aquele em que não há nenhuma quina, que o grau de giro é sempre idêntico e que todos os seus diâmetros possam ser medidos de maneira exatamente igual, além daqueles coeficientes relacionados a pi (3,1416...) que não trataremos aqui. Vamos pensar em colocá-lo em prática, para ser transposto ao mundo dos sentidos, e começamos com um lápis e papel. À mão livre, o resultado é risível, todo torto e mais parecendo uma ameba qualquer. Lançamos mão de um pires, como fazem as crianças, e resultado melhora, mas não a ponto de plasmar a perfeição, já que as superfícies do artefato possuem rugosidades e defeitos. Passamos a pensar em um compasso… agora vai! Mas há outros problemas. O giro do instrumento tem diferenças de pressão e do balanço aplicado que fazem com que o risco contenha ainda problemas, ainda que mais próximos de um círculo sem defeitos. Partimos para a ignorância e vamos a um laboratório para traçar um círculo como jamais se viu, com o mais fino dos equipamentos. Ainda assim, quando chegarmos ao nível molecular, vamos notar que há imperfeições para brunir. Portanto, ainda que matematicamente seja possível chegar ao círculo perfeito, e a matemática é pura abstração mental, na prática não se consegue fazê-lo, e ele permanece habitando unicamente o mundo das ideias.

O que faz Santo Agostinho? Retoma essa dualidade, retirando de um mundo metafísico as ideias perfeitas e colocando-as na mente de Deus. Deste jeito, as formas perfeitas estão nos intelectos porque os mesmos partilham das ideias divinas. Portanto, tudo o que se pode ver e refletir tem como fiel depositário o intelecto divino, e, como o homem é imperfeito, o mesmo degenera, embora seja uma obrigação do homem de boa vontade buscar ao máximo se aproximar do conhecimento divino.

Sendo assim como falamos acima, o intelecto humano participa do intelecto divino, e é exatamente desta forma que Malebranche responde à aporia cartesiana da imbricação alma-corpo. Descartes imagina a glândula pineal como o eixo de articulação entre corpo e alma porque sente a necessidade de estabelecer um nexo causal entre um que comanda e o outro que age, mas Malebranche diz que essa relação de causa e efeito não faz sentido na absorção do conhecimento. Como as almas tem conexão direta e imediata com Deus, é daí que se dá o processo cognitivo. Quando uma pessoa faz a intuição de qualquer coisa, que nem sempre representa um contato (é possível pensar em uma estrela mesmo em pleno dia, ou em uma temperatura muito quente mesmo no mais denso inverno), a fonte da ideia que brota em sua alma vem do mundo das ideias divinas. Esse relacionamento de corpo e mente, tão caro a Descartes, é desnecessário em Malebranche. A alma é plenamente independente do corpo.

Ora, e como os corpos se movem? Por qual motivo obedecem aos impulsos dos pensamentos? Bem, embora Malebranche não fosse um adepto do aristotelismo, concordava que a realidade tinha causas eficientes. Para quem não lembra o que é isso, é uma das quatro causas, que nada mais são do que o fundamento da realidade. A causa eficiente é aquela que faz um fenômeno acontecer. Dessa forma, quando estou digitando estas mal escritas linhas, sou sua causa eficiente. A causa eficiente do gol é o centroavante, a causa eficiente da casa é o pedreiro, a causa eficiente da cinza é o fogo. Se todo acontecimento tem uma causa eficiente, também os movimentos e ações têm a sua. Se o que conhecemos vem da consciência de Deus, do mundo das ideias divinas, naturalmente a causa eficiente de cada coisa que sabemos é o próprio Deus. Como a interação entre corpo e alma é não eficiente, e como a ação humana é contingencial e finita, plasma a vontade necessária e infinita de Deus, e o que vemos transformado em ato é uma ocasião da manifestação dessa vontade. Cada ação humana vem de uma causa ocasional, ou seja, um momento em que há uma manifestação de Deus. Essa é a grande tese de Malebranche, à qual foi dado o nome de Ocasionalismo. Pensamentos vêm de Deus porque as mentes humanas são partícipes menores da mente divina, e ações também vêm de Deus porque são ocasiões para sua manifestação.

O que eu penso de tudo isso? Bem... Malebranche sem dúvida vai na contracorrente do seu momento histórico, em termos de Filosofia, e, embora não haja dúvidas que seu pensamento guarde interesse, ele tende a se tornar anacrônico mesmo em sua época. Embora ele rejeite a ideia da glândula pineal e ela seja mesmo mais um subterfúgio do que uma explicação com bons fundamentos, o fato é que a causa ocasional é igualmente pobre, e funciona mais na base do deus das lacunas ou do apelo à ignorância do que propriamente como um argumento mais consistente. É o famoso tipo de argumento que subentende uma fé para guarnecer seus fundamentos. De toda forma, é muito bem construído e vale a pena ser conhecido.

É isso. Quando vocês estiverem a caminho de Ubatuba, não deixem de dar uma passada no comecinho da vicinal de Redenção da Serra, para dar uma boa agasalhada no estômago e respirar um pouco de ar puro misturado com perfume de comida. É uma boa ocasião para notar que a vida pode ser boa. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Em primeiro, a obra mais célebre de Malebranche, que sintetizou seu pensamento:

MALEBRANCHE, Nicolas. A Busca da Verdade. São Paulo: Discurso Editorial, 2019.

E depois, a costumeira indicação do lugar a quem me refiro nas navegações:

Mercearia Santa Terezinha (Barraca da Fátima)
Rodovia Major Gabriel Ortiz Monteiro (SP-121), Km 2
(Bem no encontro entre as cidades de Redenção da Serra e Taubaté)
Aproximadamente 150 Km a partir do centro de São Paulo.

*Mais tarde, descobriu se que a pineal é responsável pela liberação de melatonina, o hormônio de regulação das funções do sono.

sexta-feira, 13 de março de 2020

O cesto da gávea de onde observo o mundo – Epílogo: onde continuarei escrevendo minhas histórias?

Olá!


Sabe aquela sensação estranha de coisa incompleta? Tipo quando você vai no estádio ver um jogo que não sai do 0 X 0, ou quando você vai na casa da avó e não come bolinho de chuva? Era mais ou menos o que estava acontecendo com a falta deste texto, que ficou pendente por tempos, desde que concluí os relatos da minha viagem à Vertente Oceânica Norte, nome besuntado de glamour para a região de Paraibuna, São Luiz do Paraitinga e vizinhanças. Gestalt explica? Pode ser, leiam aqui. Tinha deixado este epílogo em stand by, aguardando um retorno ao Núcleo Santa Virgínia, reserva ambiental que fica encravada na Serra do Mar, e que demandaria alguns dias para percorrer algumas de suas longas trilhas. Acontece que eu fui para bem perto de lá nesses últimos dias, e enriqueci esta série com mais quatro textos. Sendo assim, decidi compor este post de fechamento, para tirar esse inútil peso da consciência. Tão logo vá ao Núcleo, farei as inserções necessárias. Esse é o lado bom de ser o patrão das próprias palavras, uma das poucas coisas em que tenho autonomia na vida.

Depois de passar em tanta parte, na maioria das vezes cidades pequenas, com muito pouco a ver com a megalópole paulistana, passei a ficar um pouco mexido nas minhas convicções tipicamente urbanas, e passei a pensar no que eu quererei para daqui a alguns anos, quando certas amarras que ainda me ligam à Terra da Garoa já estiverem suficientemente desatadas.

Vou dar uma ideia do meu estado mental. No último sábado, passei por um lugar em que eu era frequente nos tempos de moleque. A Avenida Renata ligava a Vila Diva à região do cemitério da Vila Formosa, um dos maiores do mundo. Todas as vezes em que um professor pedia um trabalho um pouco mais elaborado, a desmilinguida sala de livros de minha escola não dava conta (leiam a aventura que isso me gerou aqui) e eu acorria para a biblioteca situada naquele logradouro, a menos ruim daquela região. Para quem ia a pé, era um bocado longe, e, para disfarçar a distância, eu ia pelo meio do matagal que encimava os canos da adutora do Rio Claro. De lá, era virar à esquerda na Rua Planeta e pegar a avenida desde o começo. Era um lugar bastante calmo, cheio de casinhas e com um comércio ainda incipiente, de modo a ser um núcleo agregador daquele pedaço da Zona Leste que ainda se assemelhava um pouco às cidades interioranas. Neste sábado passado, muito pelo contrário, fiquei pelo menos meia hora para cruzar seu aproximado quilômetro, coisa que fazia mais rápido na caminhada. Tentei ver o que havia de errado, mas não há nada além de um intenso comércio e uma Avenida Abel Ferreira para conturbar o fluxo, onde antigamente ficava um hoje desaparecido córrego. Das casinhas, meia dúzia ainda resta, e senti uma estranha solidariedade com gente que nunca vi, e que deve pedir prestimosa licença para conseguir sair de casa. É muito estranho alguém que mora no Centro desta nervosa metrópole falar isso, mas… sério. Não sei se eu teria saco de encarar voltar para um bairro e ter uma fila indiana na janela do quarto. Para isso, já estou psicologicamente preparado para o deserto dominical das traseiras do Corpo de Bombeiros, quando mais utilizo transporte individual.

Mas não é só uma questão de impaciência. Talvez, na verdade, essa seja só uma consequência de um tipo de mal-estar que ainda não diagnostiquei com muita precisão. Afinal de contas, por mais que São Paulo seja uma cidade que cansa no trânsito intenso, nas miríades de semáforos, no asfalto lunar, na insegurança das vielas, nas enchentes das baixadas, na indiferença dos concidadãos, ainda é o núcleo para onde o país converge. E aqui há tudo, simplesmente tudo: as melhores escolas, os melhores museus, os melhores médicos, os melhores estádios, os melhores cinemas, as melhores lojas. Esse porre provavelmente tem outra origem, e aventar a hipótese de morar no interior passa por uma análise bem cuidada (e pela transitoriedade do aluguel).

É curiosa a reação das pessoas do interior quando confrontadas com suas convicções. Várias pessoas com as quais conversamos sequenciam as vantagens de se morar no campo. Quando você aprofunda um pouco na história delas, é gente que viveu nas grandes cidades, stress após stress, e foi buscar a paz no mundo rural. Mas há uma galera que, pelo contrário, sonha com as capitais, com suas oportunidades exponencialmente maiores. Reclamam do tédio e da falta de perspectivas, e em geral são jovens que nasceram por lá mesmo. O valor para uns e para outros estão em polos diametralmente opostos. É estranho esse ser chamado homo sapiens, não é mesmo?

Entretanto, veio de um senhorzinho já bem senhorzinho uma das frases que mais me atentou a razão. Estando tomando alguns bons copos de vinho em sua adega, a conversa entabulada levou para a pergunta inevitável a estranhos: De onde vocês são? Ao reportar a localidade, nosso simpático e macróbio interlocutor afirma, com um certo ar de melancolia: “Ah, São Paulo... São Paulo sustenta tudo mesmo”. Não sei se eu deveria ter meu ego insuflado, já que não entendo até onde isso é um elogio e até onde isso reflete o que eu mesmo sou, mas o fato é que acaba por se tratar de mais uma azeitona na salada da minha cabeça. Será que eu vivo no melhor lugar possível? Será que a quantidade de recursos disponíveis suplanta qualquer outro tipo de valor?

Sei não. Tenho sentido cada vez mais vontade de me mandar daqui, embora ainda guarde muita relutância. É claro que um ser eminentemente urbano como eu pode até mesmo desejar uma casa de praia ou de campo, o que poderia suprir esse tipo de carência, só que eu superei de longe qualquer desejo nesses moldes. Haverá que demonstre o contrário, mas cem por cento dos casos que conheço pessoalmente resultam naquele arrependimento sintetizado na frase “há duas alegrias na vida de quem tem sítio: uma quando compra e outra quando vende”. Vale o mesmo para casa de praia. Parando para pensar, a empolgação inicial vai para o inferno no primeiro carnê de IPTU, ou na primeira fiscalização da prefeitura, ou na primeira invasão por meliantes, ou no primeiro reparo que lhe ameaçar a estrutura da casa. Mesmo se nada disso acontecer, o primeiro ano é de visitas a cada quinze dias. No segundo, a cada quinze semanas. No terceiro, já é possível passar batido. Sempre a mesma coisa, mesma coisa, mesma coisa, aditivada por manutenção recorrente e caseiro indolente. Tanta abertura a gastos e desencantos brocham nas pessoas qualquer intenção de manter um recanto do guerreiro. Por isso, mesmo que um dia eu possa, já combinei que não. Quando eu achar por bem, pego minha mochila, alugo um lugar e passo os dias desejados. Concluo que sai ferrenhamente mais barato e menos propenso a dores de cabeça.

Mas às vezes penso mesmo em me mudar para uma dessas pequenas urbes. Várias delas me produzem um encantamento, e de repente me vejo projetado em algumas. Em Areias, por exemplo, vi as casinhas que parecem pequenas por fora, mas que possuem quintais gigantescos nos fundos, onde o insondável Homem-Cueca poderia correr à vontade atrás das galinhas que eu certamente passaria a criar. Já em Monte Alegre do Sul talvez eu resolvesse bancar de pesquisador, montando um pequeno alambique nos fundos de casa para desenvolver a cachaça ideal. Ou então em São Luiz do Paraitinga, onde eu me misturaria a um dos povos mais bem-humorados que já conheci, alugando uma casinha na Vila Rosário para assar pães em um forninho de barro a ser montado, para depois filosofar na praça defronte à igreja ou cantar músicas da década de 80 com a patroa, nas mesas do boteco da Dani ou nos pés da escada do Largo do Teatro, embaixo da noite estrelada.


Pensando menos romanticamente, acho que eu estou tentando procurar novamente a minha turma. Durante estes quase nove anos que escrevo por aqui, já choraminguei um bom tanto pelo decréscimo na circulação de gente na minha casa. Ela trafegou de um polo de intensa movimentação de jovens para um lugar quase que pacato, agravada pela mudança do meu menino mais velho para o interior do Paraná, onde ele tenta a vida. Morreu uma pá de gente importante na minha vida: minha mãe, meu pai, meu padrinho, minha comadre, entre outros. Dei-me conta outro dia que, de todos os nove moradores da minha casa na Vila Ema, só sobrou eu. Só eu tenho ainda guardadas as histórias de um período meio grande da minha família como um todo, e isso me assustou um bocado. No âmbito particular, é uma responsabilidade e tanto ser o custodiante desta parcela do “brasão”. Não faz muito tempo, houve uma reunião de família com parentes distantes, que não víamos há mais de 30 anos. Dos descendentes da Mariuccia, minha nonna, só tinha eu!!! E não por falta de convite, mas de sobreviventes. Bom... Chega de chororô.

Sempre que falamos no social, pensamos na estrutura algo mecanicista na qual os indivíduos se articulam. Mas há uma diferença essencial entre a sociedade e a sociabilidade. A primeira diz respeito exatamente a esse aspecto racional dos agrupamentos de seres humanos, enquanto o segundo vai na via do afeto, no modo mais íntimo como as pessoas se relacionam. Há que se marcar bem a diferença: enquanto na sociedade falamos em indivíduos, na sociabilidade falamos em pessoas. Desta forma, há níveis diferentes de sintonia em que “vibramos as nossas frequências” com relação ao nosso meio social. Eu, por exemplo, vivo em um prédio onde mais da metade dos moradores são senhoras de uma ordem católica muito fechada, com pouquíssimo ânimo para relacionamentos mais profundos. Estão exatamente na margem de lá de onde eu vim, com seus limitadíssimos bons-dias e com-licenças. É um fragmento de sociedade, não há dúvida, mas não é um espaço da sociabilidade.

Se eu busco algum lugar onde há experiências sociais ou compartilhamento de sensações estéticas, certamente não é neste vetusto predinho. Quando meus mortos ainda não arrastavam suas correntes e a moçada não tinha criado asas, esse distanciamento era todo suplantado. Quando todos se foram, eu e aqueles da minha casa caímos no tempo das tribos de Michel Maffesoli. É preciso readequar novamente o indivíduo isolado ao seu aspecto coletivo, e isso só se consegue procurando uma nova tribo.

Não quero aqui dizer que colocarei flores na cabeça e virarei hippie. O conceito de tribo em Maffesoli vai além destes simples agrupamentos em torno de uma causa comum (embora os inclua). Segundo ele, uma tribo é uma fusão comunitária onde ocorre uma desindividualização, uma união do toque, da interação íntima e da união de pontos esparsos em uma única massa. Como é no âmbito dos pequenos grupos que a magia da sociabilidade se desdobra, esse neotribalismo dá uma ideia de como a identidade cultural torna possível uma relação que se fundeie no gosto, uma espécie de “retorno ao dionisíaco”, como estabelece o próprio mestre francês. E onde eu posso buscar um novo coletivo do qual eu possa fazer parte? Onde haja algum elemento onde eu me identifique.

Hoje, seria esse: lugares onde eu, a patroa e as crianças (se possível) possamos estreitar aquele velho clima de vizinhança que, sim, podemos dizer que assemelhados a tribos, considerando as quatro características delas –  a informalidade das solidariedades orgânicas desvinculadas do racionalismo, o sentimento de pertença, um ativismo sem vínculos a manuais e a fluidez do aqui e ali incessável, que vai com as marés, como é a própria vida. Falando rapidamente sobre cada uma dessas características, podemos dizer que

1. A cultura que brota das relações de uma tribo não é formal, como aquela que é descrita pelos planos de aulas das escolas ou que cristalizam as regras da linguagem, apenas para dar alguns exemplos. Esta cultura informal é permeada de uma emotividade que foge do racionalismo interposto pela sociedade mais organizada em ponto maior. Assim, as relações da tribo surgem “de dentro”, mais orgânicas e naturais que aquelas que observamos no distanciamento da sociedade estrutural;

2. Quando partimos da premissa que um nicho social é maior que o indivíduo isolado, devemos assumir que um homem não vive sem determinados elementos que vão além de si próprio, e que obrigatoriamente ele estará em relação permanente, não só com o outro, mas com o território onde habita. Maffesoli fala sobre a proxemia, que é a distância relacional existente entre as pessoas e que, por proximidade, acaba por agrupá-las em tribos distintas. Nossa noção de pertencimento é tão forte que tanto pode nos alinhar organicamente ao grupo quanto nos distanciar dos demais;

3. Como a tribo tem razão de ser endógena, o seu ativismo não é principal característica quando se observa seu papel na sociedade maior. Quando ele existe, possui parâmetros totalmente particulares, como o escapismo hippie ou a negação à autoridade punk, que fogem ao escopo social normalmente reconhecido, com o ativismo político através de eleições ou pressão parlamentar;

4. Grupos conformes são impermanentes, variando de acordo com o sabor das circunstâncias ou com a própria deterioração do tempo. Essa fluidez permite que tribos distintas se toquem e até se absorvam, se cindam e se fundam, de modo indefinível.

É em um lugar em que eu me sinta de novo pertencente que eu quero levar patroinha e os filhos que para lá quiserem ir, e lá manter os registros que faço aqui constantemente, tentando trazer ao plano físico aquilo que mantenho ainda hoje na dimensão virtual com vocês, meus ainda resistentes leitores. Vamos ver no que vai dar e bons ventos a todos!!!

Recomendações:

Vamos para o habitual: as distâncias das cidades da série da capital. Nenhuma delas leva mais de três horas de viagem, o que permite os famosos bate-e-volta. Talvez Cunha fique um pouco forçado, mas não é impossível. Vão até lá.

Jambeiro – 118 Km
Paraibuna – 123 Km
Natividade da Serra – 185 Km
Redenção da Serra – 163 Km
Lagoinha – 191 Km
Cunha – 231 Km
São Luiz do Paraitinga – 173 Km
Santa Branca – 94 Km
Salesópolis – 115 Km
Guararema – 79 Km

E também segue a indicação do livro de Maffesoli, sociólogo ainda vivo, que desenvolveu o hoje tão propalado conceito de tribo urbana.

MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos. O declínio do individualismo nas 
sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense, 1998.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 4ª mirada: Redenção da Serra e a História contida nas catástrofes

Olá!


Continuando nossos relatos de viagem. Após partirmos de Paraibuna, apontamos a proa de nosso pequeno navio terrestre para a cidade de São Luiz do Paraitinga, onde pretendíamos pegar pouso por mais alguns dias. Poderíamos chegar lá por dois caminhos: fazer a mesma passagem de balsa por Natividade da Serra que havíamos feito anteriormente – caminho mais curto; ou voltar à Trabalhadores e pegar a Rodovia Osvaldo Cruz em Taubaté – caminho mais rápido. Optamos pelo segundo, meio que por conta do excesso de poeira na garganta. No caminho, uma placa indicava o desvio para Redenção da Serra. Por que não?


Da mesma forma que Natividade da Serra, esta cidade foi condenada, na década de 70 a ser submergida pela represa de Paraibuna. Porém, ao contrário desta, houve um cantinho de reminiscências: onde se situava a antiga praça central, restaram alguns imóveis.


O mais significativo dentre eles, é, sem dúvida, a antiga igreja matriz, denominada Igreja de Santa Cruz. Não foi absolutamente tranquilo evitar a invasão das águas. Para tanto foi necessário construir um muro de contenção...


... que, visto pelo lado de dentro, tem lá uns dois metros de altura, formando uma espécie de bacia. Em tempos atrás, mesmo essa proteção foi insuficiente, inundando as cercanias de lama.


A igreja, por fora, não está exatamente um brinco, apesar de ser perfeitamente possível contemplar sua arquitetura. Mas, pelo que pude conversar com o pessoal da região, é por dentro que as coisas estão feias. Sendo feita de material delicado (taipa de pilão), a falta de manutenção está fazendo cair grandes placas de reboco e surgir muitas rachaduras. Triste...

O outro remanescente de outrora é um casarão colonial que servia de abrigo para a prefeitura local. Fica bem ao lado da igreja e compunha com ela a peça principal da praça central.


Alguns moradores tem a opinião de que a destruição da cidade velha foi inútil, porque na maior parte do tempo a represa não chega a atingir tal área, o que faz com que alguns cadáveres fiquem expostos.


A foto abaixo é da estação de energia da cidade. É evidente que sua resistência se deu pela estrutura mais robusta. As antigas casas de pau a pique foram todas “derretendo”, uma a uma, até seu completo sumiço.


Novamente: tal como em Natividade da Serra, a vida da cidade é fartamente influenciada pela presença da represa, constituindo-se, inclusive, em seu principal potencial turístico. Os vários braços que interpenetram a cidade são razoavelmente povoados por pescadores e barcos.


Outra atividade importante é o artesanato, sendo que a utilização de palha de milho é bastante frequente. Fomos aos bairros, onde as mulheres colocam a mão na massa para reforçar o orçamento. Estas flores foram obtidas na casa da Edna, que, além de tudo, é também costureira.


Já esta boneca, mais sofisticada, foi conseguida no café da Rita, onde pudemos nos confrontar com outros três produtos típicos da região: o bolinho de chuva assado, a broa de mandioca e a geleia de araçá.


Da mesma forma que sua prima-irmã, a cidade de Redenção da Serra foi transferida para terras mais altas, e, portanto, não tem aquele jeitão de cidade de tropeiros, tão típica do Vale do Paraíba. Haja vista, por exemplo, à nova matriz de Santa Cruz, construída em um estilo totalmente diferente da original.


Uma cidade com uma história muito pouco conhecida, infelizmente. A foto abaixo (medíocre, mas é a única que tirei) é da praça de entrada da cidade, que representa e justifica o nome da cidade: um negro liberto, aludindo ao fato de que, ainda antes da Lei Áurea, Redenção da Serra (então Santa Cruz de Paiolinho) já havia abolido a escravidão em seu território.


Até agora, falei em semelhanças entre Redenção da Serra e Natividade da Serra. Agora, vou falar em uma diferença que percebi intuitivamente. Redenção da Serra teve seu ego muito mais atingido pela descaracterização e pela perda da memória do que Natividade da Serra. Pareceu a mim uma cidade mais cabisbaixa, menos esperançosa de seu futuro. Sua população reduziu muito: eram cerca de 10000 habitantes antes da represa, para os menos de 4000 atuais. Quando conversávamos com os nativenses, víamos certo orgulho em falar sobre sua cidade nova. Já os redencenses quase vão às lágrimas ao lembrar da cidade velha. Tenho uma tese rápida, mas não confirmatória.

Redenção tem em sua igreja matriz e sua prefeitura uma lembrança permanente de seu passado. Uma espécie de espinho na carne, um patrimônio histórico que vai se depreciando na mesma medida em que sua memória vai se esvaindo. Isso machuca o redencense. Na zona urbana de Natividade, nada vemos do passado. Para tê-lo à sua frente, o nativense tem que ir aos bairros afastados. Só que lá não existe uma mera reminiscência quase não funcional do passado. Há uma vida que pulsa completa, uma existência que, apesar da mudança forçada de hábitos, não morreu.

E isso tudo me faz lembrar do fluxo da História e das lições de Filosofia da História, que busca explicar como o mundo varia em sua temporalidade. O filósofo que me vêm à tona é Walter Benjamin. Mas vou dar um pequeno volteio para explicar melhor.

A disciplina denominada Filosofia da História é razoavelmente recente porque, até o Iluminismo, havia uma teoria sobre seu desenvolvimento quase unívoca: ação divina. Seja de modo determinístico, com o destino desenhado pela divindade; seja por um conjunto de regras que fazia o homem, dentro de seu arbítrio, optar pelo ditame divino (sob pena de incorrer em penalizações gravíssimas), a História era entregue pronta aos homens, e não fazia grande sentido tentar encontrar uma lógica pelo qual os fatos históricos se desenrolavam.

Com o progresso da humanidade, em especial com o desenvolvimento científico e tecnológico, cada vez mais a atribuição divina foi perdendo tanto sua consistência quanto sua necessidade. Deus passou a ser prescindível aos homens, e a Filosofia passou a questionar mais e mais se haveria uma linha que conduzia os acontecimentos além do mero acaso, e mais ainda: se havia a possibilidade de se dar alguma espécie de unidade entre os diferentes períodos históricos. Alguns filósofos abordaram meio que lateralmente o tema, até que Hegel dá a atenção merecida ao tema, enxergando um processo dialético na formação da realidade, conforme já pude pincelar neste texto, e que, por isso mesmo, vou repassar muito rapidamente, por amor à coesão deste texto.

Hegel entende que, em tudo o que acontece na vida, os fatos já carregam em si mesmo a própria contradição. Por exemplo: se eu compreendo o conceito de bom, automaticamente já compreendo o sentido de mau, e, entre a bondade absoluta e a maldade absoluta, temos o meio-termo. Se a tese é o bem, que vive em harmonia com o mundo, mas que pouco se protege; e o mal é sua antítese, que é malicioso, mas que se isola da vida em comum, podemos observar que o bom precisa se aproximar do que sua antítese é, para sobreviver, ou seja, precisa aumentar seu grau de desconfiança, suas armaduras, etc. Por outro lado, o mau precisa ser concessivo, estabelecer algumas regras em que sua agressividade não o destrua a si próprio. Ambos se aproximam em síntese, que é uma terceira via. Acontece que esta própria síntese já é uma nova instância dialética, que também contém a contradição de si própria. E daí um novo movimento dialético se faz, ad infinitum. Para Hegel, o mecanismo que faz com que a dialética se mova é ideal, o chamado Espírito, mais conhecido como Geist, no original alemão. Quando diz respeito ao tempo, é o Zeitgeist.

Depois disso, Karl Marx observa as teses de Hegel e concorda em parte com elas. No entanto, ele não compreende que o processo dialético se dê de maneira idealista, mas concreta. Para Marx, as coisas acontecem no mundo e só nele, sem instâncias divinas ou seja lá o que for. É o materialismo histórico dialético, que já tratei neste texto (desculpem se estou sendo repetitivo, mas preciso dar um fio condutor para o que estou redigindo agora). E qual é o elemento deflagrador do processo histórico, se não temos nada metafísico que o dispare? É a luta de classes. Tudo pode ser explicado pela luta de classes: a ética, a política, a arte, a religião e tudo o mais. Se um regime endurece, é por conta da luta de classes; se um artista se destaca ou se obscurece, é por conta da luta de classes. E assim sucessivamente.

A par disso, temos também a tese positivista, mais linear, e que se baseia, em suma, no progresso, como já esmiucei aqui. Os positivistas entendem que, após o término de um estado religioso e dogmático, já não há mais amarras para a evolução da história, tendo como base seus avanços científicos. A técnica permite ao homem obter resultados antes inimagináveis, e que se sabe que evoluirão ainda mais. Mais doenças serão curadas, mais artefatos de guerra permitirão um novo paradigma na conquista, mais aparelhagem deixará a quantidade de mistérios e de usos dos recursos do planeta mais aperfeiçoados. O propulsor da História sempre foi a técnica, mas que se arrastou lentamente por séculos. A aceleração no progresso será sempre exponencial.

Tendo tudo isso agora em mente, poderemos analisar o pensamento de Walter Benjamin, pensador alemão da Escola de Frankfurt. Há, inclusive, certo desconforto em enquadrá-lo como membro desta escola, haja vista algumas discrepâncias fundamentais com o marxismo. No entanto, não vamos discutir esse aspecto neste momento.

Benjamin entende que toda História que chega a ser baixada em registro é aquela contada pelos vencedores. O historiador é quase que compelido a se associar ao vencedor por uma questão de empatia: sobre eles, repousa toda a glória da conquista, com sua visibilidade e quantidade absurda de fontes. E não é só. Todo o contexto cultural gerado após a conquista trata de produzir loas ao seu condutor, ainda que sub-repticiamente. Mas não há como evitar que a História e a cultura tenham dois lados. Os monumentos da cultura são também monumentos da barbárie. Isso porque retratam um status da cultura produzida por um determinado projeto: o projeto de quem venceu, e a história dos vencidos é sempre jogada para baixo do tapete, ficando mofada nas memórias de quem quer mais é jogar fora o passado. Os próprios vencidos concordam com esse fio.

Essa História imiscuída faz com que Benjamin discorde frontalmente da ideia positivista de progresso como impulsionador da História, porque é uma História parcial. Vejamos o que ele diz a respeito:

“Há um quadro de Klee [N. do A.: Paul Klee, pintor alemão surrealista] que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso”.

Para quem não conhece a obra, peguei uma amostra na internet, disponível no endereço http://lounge.obviousmag.org/ruinas/2012/09/angelus-novus.html.


Walter Benjamin, pelo que é possível compreender deste fragmento, vê a História como o produto das catástrofes, produzida pelos vencedores e suportada pelos vencidos. O progresso, diz ele, é um método que permite acumular ruínas sem se aperceber delas. O tempo não é um vazio por onde o progresso percorre e a História não tem uma linearidade – ela é inflexionada pelas catástrofes. Mais ainda: a História precisa esmiuçar não só as versões dos vencedores, fartamente disponíveis, mas também os fatos ocultos daqueles a quem a catástrofe desfavoreceu.

As catástrofes são de fundo meramente natural, como as enchentes, as tempestades e os terremotos? Evidentemente que não. O próprio exemplo de Redenção da Serra é um exemplo de catástrofe. A vida de toda uma comunidade foi transformada a partir da imposição de um governo. Lembremos que a operacionalização da represa de Paraibuna se deu em um momento de regência da ditatura militar. Não foi uma escolha, e sim uma imposição. Hoje em dia, ainda as imposições funcionam, mas sem a mordaça na boca que era imposta em tal época.

Benjamin escreve em um período semelhante, mas ainda pior. Era o momento da ascensão do fascismo, com sua variante mais perniciosa: o nazismo, que lhe atingia mais diretamente, pelo fato de ser judeu. Era justamente no surgimento desta vertente política que Benjamin produz sua desconstrução mais radical do conceito de racionalidade do progresso. Se este é o fio condutor da história, como é possível a existência de um regime baseado na irracionalidade? É porque mais uma vez a realidade dialética se apresenta: o fascismo é o contraponto da racionalidade. Está contido nela, na forma de antítese. Se não é inevitável que o progresso técnico ocorra no fascismo, o mesmo não se pode dizer no plano político-social. É o regresso da barbárie. Neste sentido, o pensamento de Benjamin se prova muito humano, ao não esquecer das pequenas histórias dos vencidos.

Ainda que ninguém tenha morrido fisicamente na invasão das águas em Redenção da Serra, é fato que muito dos significantes se desmancharam nas águas, e isso é de uma violência difícil de conceber. As histórias de seus habitantes foram reescritas de modo a causar necroses em suas almas, complicadas de curar.

Isso tudo não significa que eu não tenha gostado da cidade. É um povo muito receptivo, que nos oferece café pelo simples fato de dizer “bom dia”. E há boa comida, e há muitos peixes, e há como fazer turismo ecológico nas suas novas margens. Gostaria de rever a igreja matriz reformada, e que esse fato significasse uma espécie de nova inflexão para a autoestima do lugar.

Recomendação de leitura:

Recomendo o seguinte livro de Walter Benjamin, que, além de seus pensamentos sobre História, contém muitos outros textos interessantes, que versam sobre arte, religião e etc.

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas. Magia e Técnica. Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 2012.