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sexta-feira, 13 de março de 2020

O cesto da gávea de onde observo o mundo – Epílogo: onde continuarei escrevendo minhas histórias?

Olá!


Sabe aquela sensação estranha de coisa incompleta? Tipo quando você vai no estádio ver um jogo que não sai do 0 X 0, ou quando você vai na casa da avó e não come bolinho de chuva? Era mais ou menos o que estava acontecendo com a falta deste texto, que ficou pendente por tempos, desde que concluí os relatos da minha viagem à Vertente Oceânica Norte, nome besuntado de glamour para a região de Paraibuna, São Luiz do Paraitinga e vizinhanças. Gestalt explica? Pode ser, leiam aqui. Tinha deixado este epílogo em stand by, aguardando um retorno ao Núcleo Santa Virgínia, reserva ambiental que fica encravada na Serra do Mar, e que demandaria alguns dias para percorrer algumas de suas longas trilhas. Acontece que eu fui para bem perto de lá nesses últimos dias, e enriqueci esta série com mais quatro textos. Sendo assim, decidi compor este post de fechamento, para tirar esse inútil peso da consciência. Tão logo vá ao Núcleo, farei as inserções necessárias. Esse é o lado bom de ser o patrão das próprias palavras, uma das poucas coisas em que tenho autonomia na vida.

Depois de passar em tanta parte, na maioria das vezes cidades pequenas, com muito pouco a ver com a megalópole paulistana, passei a ficar um pouco mexido nas minhas convicções tipicamente urbanas, e passei a pensar no que eu quererei para daqui a alguns anos, quando certas amarras que ainda me ligam à Terra da Garoa já estiverem suficientemente desatadas.

Vou dar uma ideia do meu estado mental. No último sábado, passei por um lugar em que eu era frequente nos tempos de moleque. A Avenida Renata ligava a Vila Diva à região do cemitério da Vila Formosa, um dos maiores do mundo. Todas as vezes em que um professor pedia um trabalho um pouco mais elaborado, a desmilinguida sala de livros de minha escola não dava conta (leiam a aventura que isso me gerou aqui) e eu acorria para a biblioteca situada naquele logradouro, a menos ruim daquela região. Para quem ia a pé, era um bocado longe, e, para disfarçar a distância, eu ia pelo meio do matagal que encimava os canos da adutora do Rio Claro. De lá, era virar à esquerda na Rua Planeta e pegar a avenida desde o começo. Era um lugar bastante calmo, cheio de casinhas e com um comércio ainda incipiente, de modo a ser um núcleo agregador daquele pedaço da Zona Leste que ainda se assemelhava um pouco às cidades interioranas. Neste sábado passado, muito pelo contrário, fiquei pelo menos meia hora para cruzar seu aproximado quilômetro, coisa que fazia mais rápido na caminhada. Tentei ver o que havia de errado, mas não há nada além de um intenso comércio e uma Avenida Abel Ferreira para conturbar o fluxo, onde antigamente ficava um hoje desaparecido córrego. Das casinhas, meia dúzia ainda resta, e senti uma estranha solidariedade com gente que nunca vi, e que deve pedir prestimosa licença para conseguir sair de casa. É muito estranho alguém que mora no Centro desta nervosa metrópole falar isso, mas… sério. Não sei se eu teria saco de encarar voltar para um bairro e ter uma fila indiana na janela do quarto. Para isso, já estou psicologicamente preparado para o deserto dominical das traseiras do Corpo de Bombeiros, quando mais utilizo transporte individual.

Mas não é só uma questão de impaciência. Talvez, na verdade, essa seja só uma consequência de um tipo de mal-estar que ainda não diagnostiquei com muita precisão. Afinal de contas, por mais que São Paulo seja uma cidade que cansa no trânsito intenso, nas miríades de semáforos, no asfalto lunar, na insegurança das vielas, nas enchentes das baixadas, na indiferença dos concidadãos, ainda é o núcleo para onde o país converge. E aqui há tudo, simplesmente tudo: as melhores escolas, os melhores museus, os melhores médicos, os melhores estádios, os melhores cinemas, as melhores lojas. Esse porre provavelmente tem outra origem, e aventar a hipótese de morar no interior passa por uma análise bem cuidada (e pela transitoriedade do aluguel).

É curiosa a reação das pessoas do interior quando confrontadas com suas convicções. Várias pessoas com as quais conversamos sequenciam as vantagens de se morar no campo. Quando você aprofunda um pouco na história delas, é gente que viveu nas grandes cidades, stress após stress, e foi buscar a paz no mundo rural. Mas há uma galera que, pelo contrário, sonha com as capitais, com suas oportunidades exponencialmente maiores. Reclamam do tédio e da falta de perspectivas, e em geral são jovens que nasceram por lá mesmo. O valor para uns e para outros estão em polos diametralmente opostos. É estranho esse ser chamado homo sapiens, não é mesmo?

Entretanto, veio de um senhorzinho já bem senhorzinho uma das frases que mais me atentou a razão. Estando tomando alguns bons copos de vinho em sua adega, a conversa entabulada levou para a pergunta inevitável a estranhos: De onde vocês são? Ao reportar a localidade, nosso simpático e macróbio interlocutor afirma, com um certo ar de melancolia: “Ah, São Paulo... São Paulo sustenta tudo mesmo”. Não sei se eu deveria ter meu ego insuflado, já que não entendo até onde isso é um elogio e até onde isso reflete o que eu mesmo sou, mas o fato é que acaba por se tratar de mais uma azeitona na salada da minha cabeça. Será que eu vivo no melhor lugar possível? Será que a quantidade de recursos disponíveis suplanta qualquer outro tipo de valor?

Sei não. Tenho sentido cada vez mais vontade de me mandar daqui, embora ainda guarde muita relutância. É claro que um ser eminentemente urbano como eu pode até mesmo desejar uma casa de praia ou de campo, o que poderia suprir esse tipo de carência, só que eu superei de longe qualquer desejo nesses moldes. Haverá que demonstre o contrário, mas cem por cento dos casos que conheço pessoalmente resultam naquele arrependimento sintetizado na frase “há duas alegrias na vida de quem tem sítio: uma quando compra e outra quando vende”. Vale o mesmo para casa de praia. Parando para pensar, a empolgação inicial vai para o inferno no primeiro carnê de IPTU, ou na primeira fiscalização da prefeitura, ou na primeira invasão por meliantes, ou no primeiro reparo que lhe ameaçar a estrutura da casa. Mesmo se nada disso acontecer, o primeiro ano é de visitas a cada quinze dias. No segundo, a cada quinze semanas. No terceiro, já é possível passar batido. Sempre a mesma coisa, mesma coisa, mesma coisa, aditivada por manutenção recorrente e caseiro indolente. Tanta abertura a gastos e desencantos brocham nas pessoas qualquer intenção de manter um recanto do guerreiro. Por isso, mesmo que um dia eu possa, já combinei que não. Quando eu achar por bem, pego minha mochila, alugo um lugar e passo os dias desejados. Concluo que sai ferrenhamente mais barato e menos propenso a dores de cabeça.

Mas às vezes penso mesmo em me mudar para uma dessas pequenas urbes. Várias delas me produzem um encantamento, e de repente me vejo projetado em algumas. Em Areias, por exemplo, vi as casinhas que parecem pequenas por fora, mas que possuem quintais gigantescos nos fundos, onde o insondável Homem-Cueca poderia correr à vontade atrás das galinhas que eu certamente passaria a criar. Já em Monte Alegre do Sul talvez eu resolvesse bancar de pesquisador, montando um pequeno alambique nos fundos de casa para desenvolver a cachaça ideal. Ou então em São Luiz do Paraitinga, onde eu me misturaria a um dos povos mais bem-humorados que já conheci, alugando uma casinha na Vila Rosário para assar pães em um forninho de barro a ser montado, para depois filosofar na praça defronte à igreja ou cantar músicas da década de 80 com a patroa, nas mesas do boteco da Dani ou nos pés da escada do Largo do Teatro, embaixo da noite estrelada.


Pensando menos romanticamente, acho que eu estou tentando procurar novamente a minha turma. Durante estes quase nove anos que escrevo por aqui, já choraminguei um bom tanto pelo decréscimo na circulação de gente na minha casa. Ela trafegou de um polo de intensa movimentação de jovens para um lugar quase que pacato, agravada pela mudança do meu menino mais velho para o interior do Paraná, onde ele tenta a vida. Morreu uma pá de gente importante na minha vida: minha mãe, meu pai, meu padrinho, minha comadre, entre outros. Dei-me conta outro dia que, de todos os nove moradores da minha casa na Vila Ema, só sobrou eu. Só eu tenho ainda guardadas as histórias de um período meio grande da minha família como um todo, e isso me assustou um bocado. No âmbito particular, é uma responsabilidade e tanto ser o custodiante desta parcela do “brasão”. Não faz muito tempo, houve uma reunião de família com parentes distantes, que não víamos há mais de 30 anos. Dos descendentes da Mariuccia, minha nonna, só tinha eu!!! E não por falta de convite, mas de sobreviventes. Bom... Chega de chororô.

Sempre que falamos no social, pensamos na estrutura algo mecanicista na qual os indivíduos se articulam. Mas há uma diferença essencial entre a sociedade e a sociabilidade. A primeira diz respeito exatamente a esse aspecto racional dos agrupamentos de seres humanos, enquanto o segundo vai na via do afeto, no modo mais íntimo como as pessoas se relacionam. Há que se marcar bem a diferença: enquanto na sociedade falamos em indivíduos, na sociabilidade falamos em pessoas. Desta forma, há níveis diferentes de sintonia em que “vibramos as nossas frequências” com relação ao nosso meio social. Eu, por exemplo, vivo em um prédio onde mais da metade dos moradores são senhoras de uma ordem católica muito fechada, com pouquíssimo ânimo para relacionamentos mais profundos. Estão exatamente na margem de lá de onde eu vim, com seus limitadíssimos bons-dias e com-licenças. É um fragmento de sociedade, não há dúvida, mas não é um espaço da sociabilidade.

Se eu busco algum lugar onde há experiências sociais ou compartilhamento de sensações estéticas, certamente não é neste vetusto predinho. Quando meus mortos ainda não arrastavam suas correntes e a moçada não tinha criado asas, esse distanciamento era todo suplantado. Quando todos se foram, eu e aqueles da minha casa caímos no tempo das tribos de Michel Maffesoli. É preciso readequar novamente o indivíduo isolado ao seu aspecto coletivo, e isso só se consegue procurando uma nova tribo.

Não quero aqui dizer que colocarei flores na cabeça e virarei hippie. O conceito de tribo em Maffesoli vai além destes simples agrupamentos em torno de uma causa comum (embora os inclua). Segundo ele, uma tribo é uma fusão comunitária onde ocorre uma desindividualização, uma união do toque, da interação íntima e da união de pontos esparsos em uma única massa. Como é no âmbito dos pequenos grupos que a magia da sociabilidade se desdobra, esse neotribalismo dá uma ideia de como a identidade cultural torna possível uma relação que se fundeie no gosto, uma espécie de “retorno ao dionisíaco”, como estabelece o próprio mestre francês. E onde eu posso buscar um novo coletivo do qual eu possa fazer parte? Onde haja algum elemento onde eu me identifique.

Hoje, seria esse: lugares onde eu, a patroa e as crianças (se possível) possamos estreitar aquele velho clima de vizinhança que, sim, podemos dizer que assemelhados a tribos, considerando as quatro características delas –  a informalidade das solidariedades orgânicas desvinculadas do racionalismo, o sentimento de pertença, um ativismo sem vínculos a manuais e a fluidez do aqui e ali incessável, que vai com as marés, como é a própria vida. Falando rapidamente sobre cada uma dessas características, podemos dizer que

1. A cultura que brota das relações de uma tribo não é formal, como aquela que é descrita pelos planos de aulas das escolas ou que cristalizam as regras da linguagem, apenas para dar alguns exemplos. Esta cultura informal é permeada de uma emotividade que foge do racionalismo interposto pela sociedade mais organizada em ponto maior. Assim, as relações da tribo surgem “de dentro”, mais orgânicas e naturais que aquelas que observamos no distanciamento da sociedade estrutural;

2. Quando partimos da premissa que um nicho social é maior que o indivíduo isolado, devemos assumir que um homem não vive sem determinados elementos que vão além de si próprio, e que obrigatoriamente ele estará em relação permanente, não só com o outro, mas com o território onde habita. Maffesoli fala sobre a proxemia, que é a distância relacional existente entre as pessoas e que, por proximidade, acaba por agrupá-las em tribos distintas. Nossa noção de pertencimento é tão forte que tanto pode nos alinhar organicamente ao grupo quanto nos distanciar dos demais;

3. Como a tribo tem razão de ser endógena, o seu ativismo não é principal característica quando se observa seu papel na sociedade maior. Quando ele existe, possui parâmetros totalmente particulares, como o escapismo hippie ou a negação à autoridade punk, que fogem ao escopo social normalmente reconhecido, com o ativismo político através de eleições ou pressão parlamentar;

4. Grupos conformes são impermanentes, variando de acordo com o sabor das circunstâncias ou com a própria deterioração do tempo. Essa fluidez permite que tribos distintas se toquem e até se absorvam, se cindam e se fundam, de modo indefinível.

É em um lugar em que eu me sinta de novo pertencente que eu quero levar patroinha e os filhos que para lá quiserem ir, e lá manter os registros que faço aqui constantemente, tentando trazer ao plano físico aquilo que mantenho ainda hoje na dimensão virtual com vocês, meus ainda resistentes leitores. Vamos ver no que vai dar e bons ventos a todos!!!

Recomendações:

Vamos para o habitual: as distâncias das cidades da série da capital. Nenhuma delas leva mais de três horas de viagem, o que permite os famosos bate-e-volta. Talvez Cunha fique um pouco forçado, mas não é impossível. Vão até lá.

Jambeiro – 118 Km
Paraibuna – 123 Km
Natividade da Serra – 185 Km
Redenção da Serra – 163 Km
Lagoinha – 191 Km
Cunha – 231 Km
São Luiz do Paraitinga – 173 Km
Santa Branca – 94 Km
Salesópolis – 115 Km
Guararema – 79 Km

E também segue a indicação do livro de Maffesoli, sociólogo ainda vivo, que desenvolveu o hoje tão propalado conceito de tribo urbana.

MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos. O declínio do individualismo nas 
sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense, 1998.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O cesto da gávea de onde observo o mundo – 1ª mirada: Jambeiro e a oportunidade de discutir bem-estar social

Olá!

Por longos anos, as aflições financeiras tão típicas da minha ocupação ficavam me segurando em São Paulo, cidade cara, mas onde moro. Com isso, peguei o péssimo hábito de vender as férias, para reforçar o parco orçamento e economizar os gordos gastos com viagens. Apenas recentemente descobri que isso é uma sonora bobagem, que boa parte de rebotalhos como hipertensão, diabetes, depressão e tendência ao suicídio são esquecidos quando você respira outros ares. E, mais ainda, é relativamente fácil conseguir viagens baratas, em lugares próximos, dispensando todo o estressante planejamento que lhe causa mais insônias do que se você ficasse sentado no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar.

Para tanto, misturam-se três ingredientes básicos: um capitalíssimo carro, simples que seja, para carregar bagagem e dar mobilidade suficiente; uma espécie de espírito de mochileiro, que lhe permita fazer o roteiro de viagem de acordo com as contingências do momento, achando onde ir, o que comer, que festa comparecer, que paisagem se achegar, em que cama dormir na base de uma médio-oriental língua de veludo; e um estado cheio de coisas legais a cerca de 200 km de seu ponto de origem. É sério. Quando falam de São Paulo (estado) como destino turístico, sempre parece existir uma sombra de inferioridade em relação a outras localidades. Se você pensar nas praias, as do Nordeste são muito melhores. No turismo rural, o Sul é muito mais rico. Se você gosta de pescar, os peixes paulistas parecem girinos perto daqueles do Centro-oeste. Mesmo a capital é cinza, sem graça, carrancuda quando comparada ao Rio de Janeiro, por exemplo.

Tudo isso é engano. Praticamente em todas as cidades de São Paulo você achará alguma coisa de interessante para ver, para fazer, para comer e gente muito dada a contar histórias envolventes, permitindo àquele que tende a construir filosofias em sua cabeça importantes momentos de reflexão, tudo isso sem ter que passar horas e horas comendo pó de estrada, multiplicando estertor, sendo o colecionador que coleciona dor.*

Feito este pequeno prólogo, alcei velas para uma região do Vale do Paraíba chamada Vertente Oceânica Norte, nome pomposo para indicar as cidades da Serra do Mar entre o Litoral Norte e a Via Dutra, começando um pouco além dos limites da região metropolitana e terminando na Serra da Bocaina, fronteiriça ao Vale Perdido, que retratei em meu Diário de Bordo de uma Nau sem Rumo.

Nossa primeira parada foi a pequena cidade de Jambeiro, que tem esse nome, pelo que consegui levantar, em razão de um jambeiro que existia no alto do morro mais visível da região em que nasceu. É aquele caso clássico do referencial: alguém te pergunta onde você vai, e você diz que vai no morro onde tem o jambeiro, até se tornar uma identificação definitiva. Para quem não sabe, o jambeiro dá jambo, que é assim:


Não, eu não tive a felicidade de achar nenhum jambeiro em Jambeiro, porque minha passagem pela cidade foi rápida, pelos motivos que se verão mais adiante. Extraí esta foto do bom blog “A Planta da Vez, da Profª Julceia Camillo, que já deixo recomendado. Nos tempos de eu menino, era possível achar jambeiros na capital, assim como pitanga, pêssego, orvalho, amora, romã, limão e abacate, dentre outras.

Assim como em Estiva Gerbi, a principal atração da cidade é um santuário dedicado a Nossa Senhora Rosa Mística. Mas, enquanto na cidade da Mantiqueira o centro das atenções é a própria imagem da santa (volante, como expliquei então), aqui o complexo todo é o foco de interesse.


São várias capelinhas dedicadas a diversas Nossas Senhoras espalhadas por um morro íngreme à beira da rodovia dos Tamoios, com jardinagem bem cuidada. Há uma trilha que serve como via crucis, um cruzeiro, um prado para missas campais, um importante banheiro para aperreados romeiros e a igreja principal, essas coisas todas dos cristãos. No centro do horto, a padroeira:


Todo esse complexo foi idealizado e construído por um padre japonês, conhecido como padre José, nome adotado para facilitar a comunicação. Sem prejuízo ao respeito às peculiaridades de cada idioma, sabemos que nomes estrangeiros são verdadeiros trava-línguas, e por vezes é melhor facilitar. Até mesmo um nome simples como o meu, com cinco letras de pronúncia indubitável (sem x, h, g, q), paroxítona terminada em ditongo crescente, e, portanto, acentuado, gera intermináveis confusões. Já fui chamado de Dércio, Delso, Delson, Desso, Délcio, Edélcio. Há quem já tenha me chamado de Edson e Sérgio. Portanto, fez bem o falecido padre José, originariamente Shimizu, sobrevivente de Nagazaki e que é muito querido na região por ter sido, por muito tempo, o único abrigador de portadores do HIV, na época em que ainda não existiam os coquetéis. Seus restos mortais também estão presentes no complexo.


Com relação à região central, dá para perceber que se trata da típica cidade de tropeiros, tão comum na região do Vale do Paraíba. A denúncia é feita pela bica na entrada da cidade...


... e pelo Mercado Municipal, antiga e bem conservada construção do século XIX, onde os aventureiros de então faziam seus negócios. Estando em temporada de disputa política, o pessoal das candidaturas teve a infeliz ideia de montar um palco bem à frente do edifício, tapando boa parte de sua estrutura.


Não havia nenhum tipo de agitação no seu interior, o que ajudou na hora de observar o calçamento de pedras, a bica d’água e o canto de jogar conversa fora.


Curiosidade desimportante: a típica igrejona não fica na praça central, mas em uma rua adjacente, no topo de uma colina. Trata-se da Igreja de Nossa Senhora das Dores, matriz local. As fotos estão meio azuladas por conta da inabilidade fotográfica deste que vos escreve.


Como sói acontecer em regiões serranas, as elevações são respeitáveis e propiciam escadarias feitas sob medida para romeiros que querem pagar suas promessas, expondo seus joelhos ao calor e à aspereza dos degraus. Não vi ninguém fazendo isso por aqui, mas tive esse recuerdo assim que avistei a Igreja de São Benedito.


Nas proximidades, existe o Casarão Cultural, construção histórica que abriga boa parte da produção artística da cidade, que possui suas festas tradicionais, como costuma acontecer na região toda.


Anexo ao Casarão Cultural, existe uma típica casa de varas para pouso de tropeiros. Não consegui informações claras sobre sua construção. Pareceu-me uma reprodução, mas vá lá que seja uma restauração (atenção, novo prefeito: material informativo não faz mal a ninguém e custa pouco).


Bem, a igreja não é na praça central, mas o infalível coreto está lá:


Um pouco mais retirado do centro, mais especificamente na estrada da Gabirobeira, um estabelecimento que eu não esperava encontrar em Jambeiro: uma vinícola!


Trata-se da D’Almeida, capitaneada pelo Joaquim e pela Cristina, que oferece os produtos derivados das uvas de altitude Cabernet Sauvignon de várias safras, e que disponibilizará, em breve, uma cervejaria artesanal, em construção. A conferir.


Bom, agora o cerne da coisa toda. No miolinho da cidade, as exigências famélicas me levaram a uma costelinha de carneiro com peixe. Sendo o restaurante também uma pousada, fui assuntar com o dono (Bruno, se bem me lembro) sobre alguns cantos onde pudesse molhar as costas, dourar a barriga branca, pegar umas boas vistas e essas coisas. Sua resposta foi broxante: haveria bons riachos, boas trilhas e boas cascatinhas para indicar, mas o nível de criminalidade não lhe permitia recomendar nada. Justo ele, um comerciante que teria todo interesse do mundo em angariar dois hóspedes. Disse que todos os recantos mais retirados e interessantes estavam repletos de “molequinhos” à espreita de bolsas, celulares e câmeras. E que já havia notícias de coisas piores. Como esse tipo de atração turística eu já vejo todos os dias, acabei dando um ponto final à minha visita.

Mas é preciso abrir o debate. É óbvio que uma situação dessas exige reflexão. Temos o ímpeto inicial de achar que a criminalidade existe por uma predisposição humana para o mal, mas é reducionismo. Precisamos analisar os motivos dos impulsos ao roubo.

Excluídas as notáveis exceções de ordem psíquica, a mente humana costuma navegar com certo conforto entre seus desejos e a possibilidade de alcançá-los, e entre o que é meu e o que é do outro. Digo isso no sentido em que é comum eu aceitar que meu vizinho tenha uma boa casa e um bom carro desde que também eu possa tê-los, ainda que inferiores. O problema é que essa lógica do capital implica em giro intenso, e em posses cada vez mais significativas, de modo ao endeusamento do consumo e à reificação do consumidor. Como você é também um objeto, não é um ser pensante, uma personalidade, uma individualidade. Você é aquilo que você compra.

Só que comprar tem limites óbvios, a publicidade é feroz e ninguém quer ser o que compra quando sua compra é muito pior que a do outro. Mais grave ainda: a dinâmica capitalista, que privilegia quem tem, forma uma camada imensa de seres humanos que escapam do seu núcleo. Os que estão nas bordas, como os mendigos, já estão de tal forma com suas vontades destruídas que só geram incômodo ao sistema pelo o que fedem. Mas nem todo mundo é assim. Tem gente com vontade em dia e impossibilidade de concretizá-la. O caminho principal diz que devemos seguir a linha do trabalho para atingir o mérito de possuir. Quem sabe que não terá as melhores oportunidades porque não tem como seguir essa linha, ainda assim é atingido pela mesma lógica da impulsividade e da vontade transformada em necessidade, e com isso procura a segunda via, que foge ao ditame legal, mas que cumpre o objetivo.

Qual a solução? Tornar a lei mais rígida? Mas as cadeias no Brasil estão cheias... Será que isso sozinho resolve alguma coisa?

Parece um problema do sistema capitalista, mas sua via alternativa mais óbvia, o comunismo, já se provou ineficiente. E isso tem a ver com a natureza humana também. Em primeiro lugar: a necessidade de um Estado forte atiça a tirania em cinco minutos. E depois, como os seres humanos não são iguais, sempre que alguém tiver a possibilidade de se destacar em determinada área, quererá auferir maiores ganhos. É por isso que é tão comum a fuga de atletas de Cuba. O atleta não se evade de lá porque é ameaçado, porque não há liberdade política ou seja lá qual for o motivo. Ele vai embora porque em Cuba não há o conceito de megastar. Ele vai embora para ganhar mais, punto e finito.

Portanto, o componente humano impede qualquer chance de sucesso de um regime comunista. Para qual lado olhar então?

Talvez o melhor a fazer seja humanizar o próprio capitalismo, e isso passa necessariamente por uma distribuição de renda mais equânime. Essa é a tônica dos regimes de bem-estar social, mais conhecidos como welfare state, que causam convulsões nos atuais teóricos do liberalismo, não só pela importância que dá ao Estado na gestão das finanças de um país, mas principalmente pela sua factibilidade. De fato, alguns dos países que adotaram políticas de bem-estar social são exemplos de boa estabilidade social, como é o caso dos escandinavos. E, para compreender como chegaram a tal, é preciso conhecer as ideias de gente como Gunnar Myrdal, economista e sociólogo sueco que desenvolveu a tese da causação circular cumulativa.

O que vem a ser isso? Vou começar pela conclusão: países ricos tendem a ser cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres. Os propugnadores do laissez faire sempre disseram que o mercado livre tem condições de corrigir automaticamente seus desequilíbrios, o que é negado por Myrdal. Por uma contingência histórica qualquer, determinada região consegue um nível de desenvolvimento maior do que a outra. Para que seu desenvolvimento prossiga e aumente, os mecanismos de mercado trarão a tendência de se transferir recursos da região mais pobre. É como se um hipermercado fosse aberto ao lado da bodega do Seo Manuel. Com mais variedade, melhor preço, amplo estacionamento, robusta praça de alimentação, playground para as crianças e seguranças circulando por toda parte, a pequena tasca ficará relegada às moscas e a alguns poucos bêbados fieis. Outrora Seo Manuel vendia, além da uca que corrói o fígado, produtos de mercearia, pão, fatiados, cigarros, fósforos, pilhas de radinho, dropes, balas, aspirina, bolachas a retalho e jogo do bicho. Com exceção deste último, tudo o mais é encontrado em profusão ao lado, a preços mais convidativos, com a vantagem de se poder usar crédito. No boteco do Seo Manuel, tal tema é circunscrito a uma plaqueta empoeirada onde se lê que fiado, só amanhã. Pouco lhe restará a não ser voltar ao Algarve, largando a profissão de vendeiro.

Essa fuga de recursos foi chamada por Myrdal de efeito Backwash, de caráter regressivo. No nosso exemplinho porco, a fuga é de capital, porque o dinheiro que ia para o caixa do português agora passou a tilintar nos cofres do mercadão. Mas poderia ser de mão-de-obra: o rapazinho do balcão e a mocinha do caixa foram ganhar melhor ao lado, dado já terem experiência em seus respectivos misteres e auferirem melhores salários.
O que o Seo Manuel poderia fazer para evitar a derrocada de seu empreendimento? Ter algum tipo de atrativo, algo que escapasse às vantagens do hipermercado. Poderia, por exemplo, fazer sua boa (ótima!) e velha bacalhoada à Gomes de Sá, que teria condições de fazer frente às insossas lanchonetes do megaestabelecimento, e isso é chamado de efeito Spread, o oposto do backwash, algo que pode atrair recursos. E é essa dinâmica que representa a misericordiosa mão do deus-mercado a restabelecer o equilíbrio das coisas, não é mesmo?

Não, não é. A economia do Seo Manuel poderá já estar tão debilitada que ele não poderá nem adquirir a primeira peça de bacalhau, ou comprar uma tão ruim que o efeito seja justamente o inverso: ao invés de atrair, causa repulsa. Agora, ele não é só pobre, mas também endividado. Percebam a ação cíclica e cumulativa do empobrecimento de um lado, e da locupletação do outro. O Spread só pode ser considerado benéfico quando traz melhorias de verdade para outras partes, como seria o caso, por exemplo, de aumentar a base de conhecimento da população local, o que poderá melhorar as coisas inclusive para nosso pobre taberneiro.

O mercado não age sozinho quando há um desequilíbrio grave entre os efeitos descritos. Ou melhor, deixa a maior parte daqueles que não possuem os recursos no ponto do solapamento.  E o resultado é uma concentração absurda de renda.

O que fazer para mitigar (ou ao menos amenizar) os círculos viciosos gerados pelos desequilíbrios entre os backwash e spread effects? Como transferir recursos para regiões mais pobres que, deixadas à própria sorte, tornar-se-ão cada vez mais pobres? A resposta de Myrdal é bastante parecida com a de John Keynes: a ação do Estado.

Sabemos que a Suécia e os demais países nórdicos possuem dois indicadores elevados, via de regra: qualidade de vida e tributação. Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU, o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano (que deriva de índices de renda, escolaridade e expectativa de vida) dos países escandinavos é o seguinte:

Noruega – 0,944
Dinamarca – 0,923
Suécia – 0,907
Islândia – 0,899
Finlândia – 0,883

Não vou tomar vossas paciências explicando como funciona o cálculo do IDH. Basta saber que, quanto mais próximo de 1, melhor está o indicador. Todos estão enquadrados no topo do índice, a categoria denominada “IDH muito alto”. A Finlândia, mais “fraquinha” de todos, está em 24º lugar do mundo. Nada mal.

Vamos observar outro indicador agora. Como podemos saber o quanto de dinheiro é retirado de circulação através de impostos, para ser reinjetado posteriormente, através da aplicação destes recursos? O ideal é observar a carga tributária, representada por um percentual. Este percentual indica o quanto do PIB (Produto Interno Bruto) é onerado por impostos:

Suécia –  42,8%
Noruega – 40,8%
Islândia – 35,5%
Finlândia – 44,0%
Dinamarca – 48,6%

Se comparadas às taxas de Brasil (33,4%) e Estados Unidos (25,4%), podemos perceber o quanto a carga tributária nórdica é elevada, o que gera constantes reclamações de pensadores liberais. Os dados vêm da Heritage Foundation, uma instituição norte-americana que defende liberalismo econômico e conservadorismo moral.

Mas, para dar boa consistência ao que venho expondo, é interessante também observar o efeito destes indicadores no Coeficiente de Gini destes países. Este índice serve para denotar o quão bem distribuída é a renda de um país. O ideal é produzir um número baixo, o que indica uma tendência pequena à desigualdade. E lá nós vamos enxergar um pouco dos efeitos da alta carga tributária sobre a sociedade escandinava: estatisticamente, não há concentração muito alta, com poucas pessoas detendo muito dinheiro. Todos os cinco estão entre os países com melhor distribuição de renda, segundo a CIA –Central Intelligence Agency (sim, a CIA, aquela mesmo):

Suécia –  24,9
Noruega – 26,8
Islândia – 28,0
Finlândia – 26,8
Dinamarca – 24,8

Para fins de comparação, o Coeficiente de Gini dos Estados Unidos é de 45,0. E do Brasil, incríveis 51,9.

Pois muito bem. Diante do discurso hodierno que temos aqui no Brasil, há impostos demais sendo cobrados. É fácil de compreender essa relutância em contribuir. O Estado brasileiro é muito ineficiente, dado o nível de incompetência e corrupção que sempre pautaram nossos governos. É nesse sentido que temos engulhos ao pensar no tanto de impostos que pagamos. Mas não podemos achar que todos os governantes fazem o mesmo, no mundo inteiro. Uma carga tributária elevada significa muitos recursos na mão do Estado, e, se bem geridos, podem atender uma quantidade de população que uma economia liberal não consegue atingir. Quando um governo mantém boas escolas, bom sistema de saúde, boa política de segurança pública, bons investimentos em infraestrutura, tira da população a necessidade de assumir estes gastos todos, com um gigantesco fator de distribuição: essa boa escola, bom hospital, boa polícia e boa infra está disponível à população como um todo, e não apenas para aqueles que podem pagar.

Essa carga tributária alta é que, segundo Myrdal, faz com que o círculo virtuoso da causação circular cumulativa se inverta em círculo virtuoso. Isso porque, com recursos na mão, os governos poderiam intervir diretamente nas áreas de maior carência de recursos, corrigindo as assimetrias regionais e impedindo o agravamento da concentração de renda.

Não há problemas sociais nos países nórdicos? Há. Eles se mantiveram sempre persistentes no welfare state? Não. Não há reclamações sobre os volumosos impostos cobrados da população? Sim, e como. Mas, de uma forma ou de outra, tais políticas levaram à compreensão de que as despesas sociais não são custos, mas investimentos, na medida em que a pobreza dos países onde a política de bem-estar é implementada tende sempre à diminuição.

O sistema político que dá sustentação ao welfare state chama-se social-democracia. Ah, que bom... Basta votarmos no PSDB. Não, nunca. O PSDB não preconiza social-democracia. Seu nome é exatamente isso: apenas um nome. Assim como o PT, o PDT e o PTB não são partidos de trabalhadores, o PP não é progressista, o PSB e o PPS não são socialistas, o PRTB não é renovador e via discorrendo. Essa é nossa dificuldade: não conseguirmos criar identificações partidárias legítimas, mas vamos ter que fazer isso forçosamente, sob pena de continuarmos na bandalha ou cairmos na anarquia não-institucionalizada, e daí para a mão de um messias. Esse é um perigo real.

Espero que Jambeiro consiga resolver os seus problemas. Espero que o prefeito recém-eleito satisfaça os anseios de seus eleitores e também de seus visitantes, como eu. Há um índice de industrialização respeitável na cidade, o que pode ajudar na obtenção de recursos para investir onde é mais necessário. Prometo voltar lá para dar uma olhada onde as coisas estão melhorando. Ou não.

Recomendação de leitura:

Economia é um tema árido por natureza, mas, quando vinculada a um olhar sociológico, sempre se torna mais palatável. Gunnar Myrdal é um autor interessante de se ler por conta desse foco múltiplo.

MYRDAL, Gunnar. Aspectos Políticos da Teoria Econômica. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

* A referência a Raul Seixas no primeiro parágrafo é óbvia, mas esse trechinho do colecionador é de uma trilogia de cançõezinhas de minha lavra, do tempo em que eu ainda sonhava em ter uns caras tocando comigo, e eles são legais e além do mais não querem nem saber – chega, estou muito cheio de referências hoje. Segue uma parte da letra:

Comendo pó de estrada
Multiplicando estertor
Sou o colecionador

Vento da tarde, pernoites em vão
Ao mar lancei minha mansidão
E nas ondas vagam os dias
Que eu pensei serem de calmaria

Saveiros ao longe, sol de verão
Da terra um brilho fosco, cheio de solidão
No sal que se mistura à areia
Um pouco da água que o rancor incendeia

A ilusão torna os passos pesados
Prá a muito custo à marina chegar
Mas está tudo muito além do porto
Muito além de onde a visão pode alcançar

Beira do cais, suor e madeira
Cardumes nos corais, anos da vida inteira
Que na orla traz a febre e o sorriso
E como a maré vem e vai sem aviso

Comendo pó de estrada
Multiplicando estertor
Sou o colecionador

Que coleciona dor