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sexta-feira, 13 de março de 2020

O cesto da gávea de onde observo o mundo – Epílogo: onde continuarei escrevendo minhas histórias?

Olá!


Sabe aquela sensação estranha de coisa incompleta? Tipo quando você vai no estádio ver um jogo que não sai do 0 X 0, ou quando você vai na casa da avó e não come bolinho de chuva? Era mais ou menos o que estava acontecendo com a falta deste texto, que ficou pendente por tempos, desde que concluí os relatos da minha viagem à Vertente Oceânica Norte, nome besuntado de glamour para a região de Paraibuna, São Luiz do Paraitinga e vizinhanças. Gestalt explica? Pode ser, leiam aqui. Tinha deixado este epílogo em stand by, aguardando um retorno ao Núcleo Santa Virgínia, reserva ambiental que fica encravada na Serra do Mar, e que demandaria alguns dias para percorrer algumas de suas longas trilhas. Acontece que eu fui para bem perto de lá nesses últimos dias, e enriqueci esta série com mais quatro textos. Sendo assim, decidi compor este post de fechamento, para tirar esse inútil peso da consciência. Tão logo vá ao Núcleo, farei as inserções necessárias. Esse é o lado bom de ser o patrão das próprias palavras, uma das poucas coisas em que tenho autonomia na vida.

Depois de passar em tanta parte, na maioria das vezes cidades pequenas, com muito pouco a ver com a megalópole paulistana, passei a ficar um pouco mexido nas minhas convicções tipicamente urbanas, e passei a pensar no que eu quererei para daqui a alguns anos, quando certas amarras que ainda me ligam à Terra da Garoa já estiverem suficientemente desatadas.

Vou dar uma ideia do meu estado mental. No último sábado, passei por um lugar em que eu era frequente nos tempos de moleque. A Avenida Renata ligava a Vila Diva à região do cemitério da Vila Formosa, um dos maiores do mundo. Todas as vezes em que um professor pedia um trabalho um pouco mais elaborado, a desmilinguida sala de livros de minha escola não dava conta (leiam a aventura que isso me gerou aqui) e eu acorria para a biblioteca situada naquele logradouro, a menos ruim daquela região. Para quem ia a pé, era um bocado longe, e, para disfarçar a distância, eu ia pelo meio do matagal que encimava os canos da adutora do Rio Claro. De lá, era virar à esquerda na Rua Planeta e pegar a avenida desde o começo. Era um lugar bastante calmo, cheio de casinhas e com um comércio ainda incipiente, de modo a ser um núcleo agregador daquele pedaço da Zona Leste que ainda se assemelhava um pouco às cidades interioranas. Neste sábado passado, muito pelo contrário, fiquei pelo menos meia hora para cruzar seu aproximado quilômetro, coisa que fazia mais rápido na caminhada. Tentei ver o que havia de errado, mas não há nada além de um intenso comércio e uma Avenida Abel Ferreira para conturbar o fluxo, onde antigamente ficava um hoje desaparecido córrego. Das casinhas, meia dúzia ainda resta, e senti uma estranha solidariedade com gente que nunca vi, e que deve pedir prestimosa licença para conseguir sair de casa. É muito estranho alguém que mora no Centro desta nervosa metrópole falar isso, mas… sério. Não sei se eu teria saco de encarar voltar para um bairro e ter uma fila indiana na janela do quarto. Para isso, já estou psicologicamente preparado para o deserto dominical das traseiras do Corpo de Bombeiros, quando mais utilizo transporte individual.

Mas não é só uma questão de impaciência. Talvez, na verdade, essa seja só uma consequência de um tipo de mal-estar que ainda não diagnostiquei com muita precisão. Afinal de contas, por mais que São Paulo seja uma cidade que cansa no trânsito intenso, nas miríades de semáforos, no asfalto lunar, na insegurança das vielas, nas enchentes das baixadas, na indiferença dos concidadãos, ainda é o núcleo para onde o país converge. E aqui há tudo, simplesmente tudo: as melhores escolas, os melhores museus, os melhores médicos, os melhores estádios, os melhores cinemas, as melhores lojas. Esse porre provavelmente tem outra origem, e aventar a hipótese de morar no interior passa por uma análise bem cuidada (e pela transitoriedade do aluguel).

É curiosa a reação das pessoas do interior quando confrontadas com suas convicções. Várias pessoas com as quais conversamos sequenciam as vantagens de se morar no campo. Quando você aprofunda um pouco na história delas, é gente que viveu nas grandes cidades, stress após stress, e foi buscar a paz no mundo rural. Mas há uma galera que, pelo contrário, sonha com as capitais, com suas oportunidades exponencialmente maiores. Reclamam do tédio e da falta de perspectivas, e em geral são jovens que nasceram por lá mesmo. O valor para uns e para outros estão em polos diametralmente opostos. É estranho esse ser chamado homo sapiens, não é mesmo?

Entretanto, veio de um senhorzinho já bem senhorzinho uma das frases que mais me atentou a razão. Estando tomando alguns bons copos de vinho em sua adega, a conversa entabulada levou para a pergunta inevitável a estranhos: De onde vocês são? Ao reportar a localidade, nosso simpático e macróbio interlocutor afirma, com um certo ar de melancolia: “Ah, São Paulo... São Paulo sustenta tudo mesmo”. Não sei se eu deveria ter meu ego insuflado, já que não entendo até onde isso é um elogio e até onde isso reflete o que eu mesmo sou, mas o fato é que acaba por se tratar de mais uma azeitona na salada da minha cabeça. Será que eu vivo no melhor lugar possível? Será que a quantidade de recursos disponíveis suplanta qualquer outro tipo de valor?

Sei não. Tenho sentido cada vez mais vontade de me mandar daqui, embora ainda guarde muita relutância. É claro que um ser eminentemente urbano como eu pode até mesmo desejar uma casa de praia ou de campo, o que poderia suprir esse tipo de carência, só que eu superei de longe qualquer desejo nesses moldes. Haverá que demonstre o contrário, mas cem por cento dos casos que conheço pessoalmente resultam naquele arrependimento sintetizado na frase “há duas alegrias na vida de quem tem sítio: uma quando compra e outra quando vende”. Vale o mesmo para casa de praia. Parando para pensar, a empolgação inicial vai para o inferno no primeiro carnê de IPTU, ou na primeira fiscalização da prefeitura, ou na primeira invasão por meliantes, ou no primeiro reparo que lhe ameaçar a estrutura da casa. Mesmo se nada disso acontecer, o primeiro ano é de visitas a cada quinze dias. No segundo, a cada quinze semanas. No terceiro, já é possível passar batido. Sempre a mesma coisa, mesma coisa, mesma coisa, aditivada por manutenção recorrente e caseiro indolente. Tanta abertura a gastos e desencantos brocham nas pessoas qualquer intenção de manter um recanto do guerreiro. Por isso, mesmo que um dia eu possa, já combinei que não. Quando eu achar por bem, pego minha mochila, alugo um lugar e passo os dias desejados. Concluo que sai ferrenhamente mais barato e menos propenso a dores de cabeça.

Mas às vezes penso mesmo em me mudar para uma dessas pequenas urbes. Várias delas me produzem um encantamento, e de repente me vejo projetado em algumas. Em Areias, por exemplo, vi as casinhas que parecem pequenas por fora, mas que possuem quintais gigantescos nos fundos, onde o insondável Homem-Cueca poderia correr à vontade atrás das galinhas que eu certamente passaria a criar. Já em Monte Alegre do Sul talvez eu resolvesse bancar de pesquisador, montando um pequeno alambique nos fundos de casa para desenvolver a cachaça ideal. Ou então em São Luiz do Paraitinga, onde eu me misturaria a um dos povos mais bem-humorados que já conheci, alugando uma casinha na Vila Rosário para assar pães em um forninho de barro a ser montado, para depois filosofar na praça defronte à igreja ou cantar músicas da década de 80 com a patroa, nas mesas do boteco da Dani ou nos pés da escada do Largo do Teatro, embaixo da noite estrelada.


Pensando menos romanticamente, acho que eu estou tentando procurar novamente a minha turma. Durante estes quase nove anos que escrevo por aqui, já choraminguei um bom tanto pelo decréscimo na circulação de gente na minha casa. Ela trafegou de um polo de intensa movimentação de jovens para um lugar quase que pacato, agravada pela mudança do meu menino mais velho para o interior do Paraná, onde ele tenta a vida. Morreu uma pá de gente importante na minha vida: minha mãe, meu pai, meu padrinho, minha comadre, entre outros. Dei-me conta outro dia que, de todos os nove moradores da minha casa na Vila Ema, só sobrou eu. Só eu tenho ainda guardadas as histórias de um período meio grande da minha família como um todo, e isso me assustou um bocado. No âmbito particular, é uma responsabilidade e tanto ser o custodiante desta parcela do “brasão”. Não faz muito tempo, houve uma reunião de família com parentes distantes, que não víamos há mais de 30 anos. Dos descendentes da Mariuccia, minha nonna, só tinha eu!!! E não por falta de convite, mas de sobreviventes. Bom... Chega de chororô.

Sempre que falamos no social, pensamos na estrutura algo mecanicista na qual os indivíduos se articulam. Mas há uma diferença essencial entre a sociedade e a sociabilidade. A primeira diz respeito exatamente a esse aspecto racional dos agrupamentos de seres humanos, enquanto o segundo vai na via do afeto, no modo mais íntimo como as pessoas se relacionam. Há que se marcar bem a diferença: enquanto na sociedade falamos em indivíduos, na sociabilidade falamos em pessoas. Desta forma, há níveis diferentes de sintonia em que “vibramos as nossas frequências” com relação ao nosso meio social. Eu, por exemplo, vivo em um prédio onde mais da metade dos moradores são senhoras de uma ordem católica muito fechada, com pouquíssimo ânimo para relacionamentos mais profundos. Estão exatamente na margem de lá de onde eu vim, com seus limitadíssimos bons-dias e com-licenças. É um fragmento de sociedade, não há dúvida, mas não é um espaço da sociabilidade.

Se eu busco algum lugar onde há experiências sociais ou compartilhamento de sensações estéticas, certamente não é neste vetusto predinho. Quando meus mortos ainda não arrastavam suas correntes e a moçada não tinha criado asas, esse distanciamento era todo suplantado. Quando todos se foram, eu e aqueles da minha casa caímos no tempo das tribos de Michel Maffesoli. É preciso readequar novamente o indivíduo isolado ao seu aspecto coletivo, e isso só se consegue procurando uma nova tribo.

Não quero aqui dizer que colocarei flores na cabeça e virarei hippie. O conceito de tribo em Maffesoli vai além destes simples agrupamentos em torno de uma causa comum (embora os inclua). Segundo ele, uma tribo é uma fusão comunitária onde ocorre uma desindividualização, uma união do toque, da interação íntima e da união de pontos esparsos em uma única massa. Como é no âmbito dos pequenos grupos que a magia da sociabilidade se desdobra, esse neotribalismo dá uma ideia de como a identidade cultural torna possível uma relação que se fundeie no gosto, uma espécie de “retorno ao dionisíaco”, como estabelece o próprio mestre francês. E onde eu posso buscar um novo coletivo do qual eu possa fazer parte? Onde haja algum elemento onde eu me identifique.

Hoje, seria esse: lugares onde eu, a patroa e as crianças (se possível) possamos estreitar aquele velho clima de vizinhança que, sim, podemos dizer que assemelhados a tribos, considerando as quatro características delas –  a informalidade das solidariedades orgânicas desvinculadas do racionalismo, o sentimento de pertença, um ativismo sem vínculos a manuais e a fluidez do aqui e ali incessável, que vai com as marés, como é a própria vida. Falando rapidamente sobre cada uma dessas características, podemos dizer que

1. A cultura que brota das relações de uma tribo não é formal, como aquela que é descrita pelos planos de aulas das escolas ou que cristalizam as regras da linguagem, apenas para dar alguns exemplos. Esta cultura informal é permeada de uma emotividade que foge do racionalismo interposto pela sociedade mais organizada em ponto maior. Assim, as relações da tribo surgem “de dentro”, mais orgânicas e naturais que aquelas que observamos no distanciamento da sociedade estrutural;

2. Quando partimos da premissa que um nicho social é maior que o indivíduo isolado, devemos assumir que um homem não vive sem determinados elementos que vão além de si próprio, e que obrigatoriamente ele estará em relação permanente, não só com o outro, mas com o território onde habita. Maffesoli fala sobre a proxemia, que é a distância relacional existente entre as pessoas e que, por proximidade, acaba por agrupá-las em tribos distintas. Nossa noção de pertencimento é tão forte que tanto pode nos alinhar organicamente ao grupo quanto nos distanciar dos demais;

3. Como a tribo tem razão de ser endógena, o seu ativismo não é principal característica quando se observa seu papel na sociedade maior. Quando ele existe, possui parâmetros totalmente particulares, como o escapismo hippie ou a negação à autoridade punk, que fogem ao escopo social normalmente reconhecido, com o ativismo político através de eleições ou pressão parlamentar;

4. Grupos conformes são impermanentes, variando de acordo com o sabor das circunstâncias ou com a própria deterioração do tempo. Essa fluidez permite que tribos distintas se toquem e até se absorvam, se cindam e se fundam, de modo indefinível.

É em um lugar em que eu me sinta de novo pertencente que eu quero levar patroinha e os filhos que para lá quiserem ir, e lá manter os registros que faço aqui constantemente, tentando trazer ao plano físico aquilo que mantenho ainda hoje na dimensão virtual com vocês, meus ainda resistentes leitores. Vamos ver no que vai dar e bons ventos a todos!!!

Recomendações:

Vamos para o habitual: as distâncias das cidades da série da capital. Nenhuma delas leva mais de três horas de viagem, o que permite os famosos bate-e-volta. Talvez Cunha fique um pouco forçado, mas não é impossível. Vão até lá.

Jambeiro – 118 Km
Paraibuna – 123 Km
Natividade da Serra – 185 Km
Redenção da Serra – 163 Km
Lagoinha – 191 Km
Cunha – 231 Km
São Luiz do Paraitinga – 173 Km
Santa Branca – 94 Km
Salesópolis – 115 Km
Guararema – 79 Km

E também segue a indicação do livro de Maffesoli, sociólogo ainda vivo, que desenvolveu o hoje tão propalado conceito de tribo urbana.

MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos. O declínio do individualismo nas 
sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense, 1998.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 9ª mirada: Salesópolis e a metafísica no delicado nascimento do Rio Tietê

Olá!


Nunca ouvi dizer que uma dança da chuva tenha tido efeito reverso. Então não adiantou nada sair se sacudindo com a patroa nas ladeiras de Santa Branca. A sexta-feira amanheceu tão chuvosa quanto tinha sido a noite anterior. Sim, eu sei. Danças são para produzir aguaceiro, e não para estiar. Como eu não acredito em nada disso, deve ser o motivo universal da falta de fé e, sendo assim, o negócio é pegar barro mesmo. Faz parte e não há de perturbar. Há outro calçado na mala.

Este dia estava pleno e absoluto, porque, apesar de perto da Terra da Garoa, sempre há descarga de mala, desembaraço de hotelaria e um certo balouçar indeciso até pegar o rebolado da viagem, o que come importantes horas no cômputo líquido. Com isso, logo após o café bem cedo, apontei meu nariz um pouco mais ao sul, para conhecer a pequena cidade de Salesópolis, o berço do Tietê.


O antigo nome da cidade era São José do Paraitinga, e foi modificado para homenagear o presidente Campos Sales, uma honraria da qual sou comumente contrário. Seu padroeiro é São José, e sua matriz tem o habitual estilo do colonial tardio, com traços neoclássicos.


Toda a igreja é cercada de referências ao santo em questão. Pode parecer estranho hoje em dia, mas São José não era um dos santos mais cultuados no começo da igreja, talvez por seu papel pouco destacado nas páginas bíblicas. Hoje em dia, é muito recordado como padroeiro dos trabalhadores, e do lado de fora podemos ver uma representação da sagrada família com nosso caro em plena labuta.


Não ficamos muito tempo na área urbana, no entanto. No caminho para as nascentes do Tietê, há um restaurante conhecido como Senzala, que vai muito além da propositura gastronômica. Diz-se que é uma área onde uma antiga senzala se quedou abandonada após a abolição da escravatura.


Estando recoberta de mato, foi localizada por um comerciante que tinha uma filha adotiva. Tomou posse do lugar, que não possuía proprietário formalizado, e lá a transformou em sua habitação. 


Atualmente, a família da menina adotiva já está em sua quarta geração, procurando preservar a casa em seus aspectos essenciais, como as paredes de pau a pique e o chão de terra ou de tijolos.


Quem nos narra a história é o atual proprietário do lugar, o João, que mostra com orgulho os diversos móveis, objetos e utensílios ali existentes, como o maquinário manual para produzir farinha de mandioca.


Seguindo adiante na estrada, já bem embrenhado na parte rural, fica localizado o Parque Nascentes do Tietê. O nome não é um romanceamento como se gosta de fazer com os condomínios fechados das beiras de estrada, mas um espelho da realidade: é aqui que nasce o tão judiado rio.


Já quero agradecer ao administrador Daniel, que nos deu valiosas orientações sobre o parque. Para chegar à nascente propriamente dita, há quatro alternativas de caminho, sendo um direto, dois por trilhas curtas e um por trilha mais longa, de cerca de dois quilômetros. Foi por essa que eu fui.


Estava tudo bastante molhado e cheio de formigas, mas foi bom notar como a vegetação, apesar de espessa, é jovem. Não há grandes árvores com grossos troncos, porque a redondeza era destinada a pasto até não muito tempo atrás. Por aqui, o Tietê ainda é um pequeno regato.


O ponto exato de onde surge o rio faz compreender como o equilíbrio natural é delicado. Não fosse a placa demarcatória, dificilmente se saberia que ali nasce um rio que corta o estado de São Paulo praticamente inteiro, com sua inconsueta direção que se afasta do mar.


Há três pontos de onde a água brota. O primeiro é uma rocha fendida por onde escorre um fino filete d'água...


... o segundo é de uma fenda mais rasa, onde foi colocada uma calha de taquara para que a água fique mais visível...


... e o terceiro é um olho d'água, onde o líquido sobe pela areia do fundo do pequeno leito, formando um minúsculo torvelinho.


Como chovia, tudo isso ficava um pouco mais complicado de fotografar. Prova da boa qualidade da água que lá surge é a presença de muitas aranhas d'água e dos pequenos guarus, peixinhos bem pequenos e muito comuns na região. Coloquei uma sinalização na foto para ficar mais visível (aranha em vermelho, guarus em preto). Também tinha bastantes girinos no local.


Daí por diante o curso do rio vai se avolumando aos poucos, ganhando consistência na medida em que outras pequenas minas vão afluindo para ele. A água nesta região é perfeitamente limpa e plenamente potável.


No próprio parque há um memorial que dá informações da cidade de Salesópolis e da criação do parque, com um bom número de painéis explicativos e uma maquete que demonstra o perfil hidrográfico da região.


O mais interessante e chocante são os comparativos entre a coloração das águas do rio Tietê durante seu curso. Na foto, água colhida da nascente e na cidade de São Paulo. Chega a ser desesperador. Menos mal que, de lá para frente, a imundície se disperse, até voltar a ficar limpa pela região central do estado.


Uma pausa para se secar e almoçar, partindo para nova empreita. Desta vez, pegamos a Estrada dos Freires para ir até o Museu da Energia de Salesópolis. Gerenciado pela coordenadora Simone Villegas, e, no dia, auxiliada pela guia Carol, é um espaço muito bonito, todo florido, cheio de bananeiras e goiabeiras, além da tropa de cinco cachorros que elegeram o local como moradia.


É surpreendente, mas a poucos quilômetros daquela pequena nascentezinha de três pontos, o rio Tietê já pega porte suficiente para permitir a construção de uma usina hidrelétrica, ainda que não muito grande.


A usina em si tinha capacidade para abastecer de energia elétrica pequenas cidades da região. É preciso considerar que em 1913, ano de sua fundação, a redondeza era naturalmente muito menos habitada que hoje.


O maquinário é o mesmo desde a inauguração. A usina parou de produzir energia na década de 80, mas está em fase de testes para voltar a operar em tempo constante. Tivemos a sorte de pegar a usina em pleno funcionamento.


Esta tubulação é destinada a trazer a água da represa que fica lá no alto. Para quem não sabe, uma usina hidrelétrica funciona utilizando o efeito da gravidade, com a força da água movendo as pás das turbinas, que, por sua vez, é transformada em energia elétrica pelos geradores vistos na foto anterior.


No passado, a operação da usina demandava um bocado de operários, que, dado o isolamento do empreendimento, habitava por lá mesmo. Algumas das antigas casas ainda estão lá, com o seu estilo bem típico.


Seu uso hoje é outro. Em seu interior e em seu entorno, há uma série de artefatos que demonstram o funcionamento da eletricidade, com a possibilidade de interação dos visitantes, como os geradores a pedal e as limalhas magnetizadas.


Em outra das casinhas, há o assim chamado Espaço Água, que conta o histórico da usina e da cidade de Salesópolis, incluindo informações sobre a mata e a fauna nativa.


Um dos operadores atuais, chamado Elvis, é um entusiasta da observação de aves, e promove, por iniciativa própria, algumas atividades neste sentido. É uma zona onde se encontram quase trezentas espécies, inclusive uma ave em sério risco de extinção, o bicudinho-do-brejo paulista, que virou uma espécie de símbolo do lugar.


Para subir até a represa, é preciso encarar uma escada de 250 degraus. Já encarei até maiores, mas esta foi, de longe, onde eu mais me cansei, pela extrema irregularidade nas dimensões dos degraus.


O topo da escadaria, entretanto, permite uma vista muito bonita do vale, e dá uma grande visão geral do complexo do parque, que tem, como se pode esperar, um grande desnível com relação à base.


Esta é a represa formada pela barragem, em contrastante mansidão com o fluxo frenético da queda d’água.


E este é o escoadouro que faz vazar a água acumulada. É controlada por um sistema de comportas que ora retém água, ora a faz descambar morro abaixo.


Vejam como as coisas se dão em um equilíbrio delicado, que nasce como um filete, mas que toma uma dimensão enorme, que atravessa grandes porções de território, se torna imundo, mas depois se revigora, em um ciclo de renovação e recriação que tenta, a força, se manter. A vida resiste, mesmo nas coisas brutas.

Em mais de um texto (aqui e aqui) me reportei a uma espécie de espiritualidade que escapa da religião, algo como uma integração ao universo que sentimos ao nos defrontar com a imensidão ou a nos perceber como parte da engrenagem cósmica. Há quem perceba nisso uma espécie de equilíbrio natural que tende a trazer as coisas aos seus lugares, há quem veja isso como a obra de um deus criador, que rege todas as coisas com tal poder que nos diminui a condição de moscas. E há quem conjugue as duas coisas. Esse quem é Baruch de Espinoza, de quem falaremos a partir de agora.

Já espanei de leve o assunto aqui, mas entendi que fazia sentido aproveitar o ensejo e aprofundar o estudo. Forçando o trocadilho, Espinoza teve a vida muito espinhosa. Sendo judeu, foi expulso da sinagoga (chérem). Estando em país cristão, a Holanda, foi excomungado. Tudo isso por sua concepção sui generis com relação a Deus. E o começo é a ideia de substância que nosso holandês de pais portugueses tinha. Desde os tempos aristotélicos, a Metafísica olhava para a forma e a matéria que compunham os seres e as chamava de ousía, a base de todos os seres e que ancora cada uma das coisas a uma realidade que lhe é subjacente, que lhes tornam o que elas são. Aristóteles entendia que cada objeto no cosmos tinha sua própria substância, mas Espinoza entendia que essa substância era única e comum a todos os seres, sendo que as diferenças entre os objetos estão apenas no plano do aspecto.

Mas o que seria essa substância que permeia todo o universo e está presente em todas as coisas? Para Espinoza tanto pode ser chamada de Deus ou de natureza. Deus é natureza, e natureza é Deus. É o conceito de causa sui, a substância que é causa de si mesmo e que está em tudo, absolutamente tudo no universo.

Como podemos reconhecer a natureza como causa de si mesma? De uma maneira extremamente simplificada, podemos pensar no seguinte: a cada vez vemos brotar uma planta, surgir um bicho, desaguar um rio. É da natureza que provém a natureza. Mesmo quando chupamos a mais artificial de todas as balas, é de algum elemento natural que lhe foram extraídos os componentes. Equivalendo natureza e Deus, como em Espinoza, podemos afirmar que é a natureza que dá existência à própria natureza, que é a natureza que dá a essência à própria natureza e é a natureza que dá potência à própria natureza. Substitua o nome natureza por Deus e teremos a mesma lógica.

A concepção de Deus em Espinoza, portanto, é muito distinta daquela imaginada por teístas. Deus, ainda que colocado em um trono, é movido pelas mesmas paixões que o homem. Mesmo que os monoteísmos representem, de certa forma, uma evolução da visão quase animista do politeísmo pagão, permanece a visão de Deus como um homem acima dos demais, destacado do mundo assim como um rei se destaca da sociedade. Apenas utilizando como exemplo, é possível ver como o Deus cristão é ciumento (Ex 20, 5), vingativo (Dt 32,35), enternecido (Os 11,8), paciente (1Cor 13, 4), muitas vezes tendo atitudes opostas entre si quando tratando de um mesmo assunto. Enfim, uma divindade humanizada, porém colocada à parte, transcendentemente. Não é difícil de entender isso quando se olha a própria Bíblia. Mas Espinoza também vê Deus nos seres desprovidos de alma, já que ele é um monista de substância. Essa tal de alma não há, enquanto corpo e pensamento são também da mesma substância e parte da mesma natureza e do mesmo Deus.

Eu sou corpo, assim como minha mente é corpo, e as mentes e corpos dos outros fazem parte da mesma natureza que nos une e da qual somos copartícipes. Eu não sou uma substância particular, mas uma individualização que ocorre por conta dos movimentos e do repouso que me são peculiares. Dessa forma, temos o afeto no pensar de Espinoza, que nos modifica e renova, e isso também ocorre quando sou tocado, no corpo e na mente, por toda a delicadeza da vida que se origina e renova. O afeto é movido pela potência de agir, que Espinoza dava o nome de conatus, e que cresce ou diminui na medida em que um corpo consegue ou não manter suas proporções de movimento e repouso. Sim, é como se fosse uma vontade de viver. E essa vontade se espelha também nas coisas, no Rio Tietê que resiste à sua morte ao passar pela metrópole e que deságua na divisa com o Mato Grosso do Sul já totalmente renascido.

Deus não está apartado do mundo. Ele é o próprio mundo, expresso na natureza. Ele não vive na transcendência, como se estivesse nos céus, mas é imanente, está aqui conosco porque nós mesmos somos parte dele. Não somos como Deus, somos Deus. E assim também é tudo o que é de bom e de ruim, tudo o que é de leve e de pesado, tudo o que é de claro e de escuro, sem tirar nem pôr. Daqui, temos o seguinte: quando se refere a Deus, Espinoza é um panteísta; quando o equivale à natureza, torna-se um ateu. É mais ou menos essa uma dupla designação que se atribui a ele.

É claro que uma visão dessas não iria agradar nenhum dos próceres religiosos, ainda mais em uma época que eles gozavam de tanto poder. Um Deus sem personalidade, sem vontade própria, sem intelecto, e, principalmente, sem o bastão do castigo aos que erram, sem um livro de regras na mão, e cujos atributos são simplesmente a eterna necessidade absoluta e a impessoalidade, que tanto se aplica ao bem quanto ao mal... É, não podia dar certo. Espinoza viveu no início do século XVII, momento em que os judeus eram expulsos a torto e a direito dos países cristãos, e apresentar um deus com esse formato fazia com que nem pela origem, nem pelo ideário, Espinoza tivesse vida confortável, terminando seus dias como polidor de lentes.

Essa concepção metafísica de Espinoza, no entanto, representa uma novidade importante para nós, nestes tempos em que a vida da natureza se encontra em uma encruzilhada, onde não sabemos onde a necessidade de desenvolvimento nos levará. Se pensarmos na natureza como um todo que nos doa nossa própria existência, e ainda que a chamemos de Deus, teremos a oportunidade de rever algumas condutas. Será que é justo afrontar com toneladas de lixo e de egoísmo nossa própria divindade?

Bons ventos a todos...

Recomendação de leitura:

É um livro complexo, como complexo é todo o pensamento espinozano. É um daqueles caras que nos coloca em apuros na faculdade, mas, com um pouco de boa vontade, vale a pena conhecer.

ESPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.