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segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (40 - Historiografia)

(A História é uma ciência humana, e, como tal, precisa de métodos par fazer seu trabalho direitinho)

“Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não para”

Cazuza

Olá!

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Contei bastante coisa da minha vida para vocês aqui neste espaço, porque esse é o mote do meu blog. É evidente que não acontecem coisas interessantes todo santo dia, então eu busco muita coisa do meu passado para ilustrar um tema que eu queira desenvolver. Ou, vice-versa, uma sessão de rememorações traz inspirações filosóficas. Como é possível supor, essas lembranças não são cem por cento precisas, pela via das distorções esperadas pelo tempo passado, e não têm o rigor científico esperado por quem quer a realidade ipsis litteris. As coisas são assim, a vida é essa. O que vamos fazer?

Essa é a mesma base que tem a tradição oral: lembranças que são passadas de pais para filhos e que vão ganhando incrementos ou decrementos na medida em que um conta para o outro. Eu tenho histórias dos meus avós que foram contadas para os meus pais e que eu transmiti para meus filhos, que, se houverem, também as repassarão para os meus netos. Se confrontadas as primeiras com as últimas, pode ocorrer de termos uma variação tão fantástica que seriam irreconhecíveis. Talvez só tenham um quê de intenção original. Quem conta um conto aumenta um ponto, é o dito popular.

Tudo seria diferente se o nonno tivesse pegado uma pena e escrito suas aventuras e desventuras. Bastaria, assim sendo, apresentar a missiva aos descendentes e evitar as discrepâncias. Perderíamos em saborização? Certamente, mas teríamos uma precisão maior. Desde que o vetusto parente mantivesse um mínimo de proximidade com os fatos.

E isso mostra que o problema persiste. A escrita do vovô garante uma persistência do relato, mas não sua veracidade (ou mesmo sua verossimilhança), e, sendo assim, percebemos bem de leve o grande problema da História como Ciência. Eu posso medir a potência de um raio, a velocidade de um fluxo sanguíneo, a distância entre astros, a potência de um veneno, a profundidade de uma fossa marítima. E a verdade de um fato?

Sim, gregos e romanos já destoavam no que eles consideravam verdade. Os primeiros gostavam do objeto no olho, mensurável e observável em sua aletheia, enquanto os últimos preferiam a coerência do relato, o encadeamento bem-feito e crível na sua veritas. Essas concepções são diferentes, e as ciências naturais se beneficiam da observação possível dos objetos presentes, enquanto a História não tem como prescindir da força do relato, seja direto ou não, porque seu material não está em cima de nossa mesa.

Já falei neste espaço sobre as diferenças entre Ciências naturais e Ciências humanas, e o fiz com o intuito de esclarecer como é possível estabelecer critérios para que consigamos reconhecer a cientificidade dessas áreas de conhecimento. Nesse bojo, está a História, que precisou construir todo um método para conduzir suas pesquisas e ganhar estatuto de estudo científico. Um método apropriado para sua realidade que, por muitas vezes, precisa lançar mão de expedientes colaterais à observação direta dos fenômenos, especialmente quando eles são exíguos. Esta metodologia recebe o nome de Historiografia.

Primeiro, vamos fixar a diferença: a História é a atividade humana que pretende investigar o passado para estabelecer correlações entre este e o presente. Já a Historiografia são os meios materiais com os quais se levam a cabo esses estudos. Ou seja, a Historiografia é uma ferramenta da História para produzir resultados minimamente confiáveis.

Normalmente, ciências exatas não dão margem a erros, e ganham um nível de especificidade difícil de desviar. Solva dez gramas de bicarbonato de sódio em 20 ml de vinagre e veja a espuma se formar. Aplique 20 bar de pressão em uma bexiga com a espessura de 1 micrômetro e veja ela explodir. Aumente a temperatura de 100 ml de água a 100 graus centígrados por 15 minutos e perceba que o recipiente ficará vazio. É A+B=C, sem furo. Se houver, procure uma condição para a falha, e certamente você encontrará um motivador (ou terá em mãos uma falsificação da teoria).

Nada disso é possível em História, que não é uma ciência experimental. Se não estamos falando de ocorrências recentes, que possuem diversos suportes para manter fidedignidade aos relatos, contamos com elementos muito difusos que são facilmente postos em dúvida. Se formos parar para pensar, meios de registro são invenções recentes. Internet existe há a 50 anos, imagens em filme existem desde o finalzinho do século XIX, os primeiros áudios são de um pouco antes, a imprensa foi inventada no século XVI e, mesmo a escrita, tem alguma coisa próxima de cinco mil anos, bem pouco para uma espécie que existe há mais de 300.000. Então registros precisos como as ciências exatas exigem são impossíveis.

Então vamos colocar a viola no saco e nos conformar com a impossibilidade da História? Não. O que é preciso é estabelecer métodos que permitam reconhecer a estrutura mais verossímil possível sobre as realidades passadas, especialmente as mais remotas.

Em primeiro lugar, é preciso estabelecer que as fontes históricas não se limitam aos registros escritos, mas a tudo que possa dizer sobre uma determinada época, e, nesse sentido, a Arqueologia é uma auxiliar de mão cheia. Desde as antiquíssimas pinturas rupestres das grutas de Maltravieso, os registros da ação humana são elementos que são considerados vitais para a tentativa de descrever modos de vida e fatos quotidianos.

Os registros, quanto mais longínquos se vão no tempo, mais fragmentados se apresentam. A alegoria do quebra-cabeças é perfeita para a montagem do painel histórico, e muitos dos claros são suprimidos com suposições que vão sendo corroboradas através de elementos externos à própria sequência de fatos. Frequentemente, é preciso adotar uma postura de lateralidade, ou seja, de olhar para os lados em busca de dados confirmatórios indiretos. Como é comum termos poucos elementos para dar guarida à veracidade dos relatos obtidos, é preciso que se olhe ao redor do contexto para obter elementos que ajudem a explicar, confirmar ou refutar o que se diz. Se eu olhar para a historinha do nonno, é de bom tom (por amor à veracidade) validar as afirmações, como a existência de histórias parecidas, de outras fontes que indiquem ser possível o fato descrito, se faz sentido a temporalidade informada ou se isso tudo somente comprova a criatividade do macróbio progenitor. Sendo assim, é preciso estabelecer critérios que orientem a pesquisa historiográfica para além do fato diretamente descrito.

Um desses critérios, talvez o principal deles, é o de múltipla atestação. Para cada vez em que encontramos um relato sobre um determinado acontecimento, dizemos que possuímos uma atestação, ou seja, uma afirmação sobre um fato que tem a intenção de corresponder à realidade. Contar uma piada ou cantar uma música, por exemplo, não são atestações, porque, a princípio, não há aí uma intenção em ser verdadeiro. Quanto mais gente fala sobre um fato, mais provável é que o mesmo tenha ocorrido. Ainda mais: tendo várias atestações distintas, é possível filtrar as que possuem maior quantidade de indicações. Sendo assim, havendo um relato dissidente em meio a dez outros convergentes, é muito mais provável que o multiplamente atestado seja o real. Sendo assim, essa é a linha que será primariamente pesquisada, por ser mais provável. A não ser… 

A não ser que sejam observados outros critérios, o que demonstra a complexidade que há em estabelecer uma metodologia historiográfica. Um deles é o curioso embaraço. Ele diz que, entre versões dissonantes, a que causaria maior constrangimento a quem a profere tende a ser a verdadeira. Isso é fácil de explicar: quando teu time tem uma derrota acachapante, daquelas traulitadas históricas, normalmente você dirá que a culpa é do juiz mal intencionado, enquanto teu coleguinha mais sensato dirá, mui simplesmente, que o time jogou mal. Qual das duas é mais embaraçosa? A segunda, evidentemente. Temos a tendência de procurar culpados externos quando sofremos decepções, ou a atribuir heroísmos em atos corriqueiros, e nossa análise fica enviesada, como prova a psicologia com o efeito ator-observador. Sendo assim, se confessamos uma condição embaraçosa, dificilmente será porque estamos mentindo (conscientemente ou não). É a velha questão da história contada pelos vencedores.

O critério da dissimilaridade é razoavelmente parecido com o do constrangimento. Ele reza que uma afirmação é tanto mais digna de confiabilidade, quanto mais estiver afastada de uma prática comum. Trocando em miúdos: se algum fato histórico está em dessemelhança com uma tradição anterior ou posterior, ou seja, é “diferentão”, tem mais chances de ser real. Isso acontece porque é mais esperado que um fato dissonante esteja mais de acordo com as tradições em voga, justamente para corroborá-las. É em cima deste critério que surgiu o lectio difficilior potior, termo latino que significa “a leitura mais difícil é a mais forte”, um princípio da crítica textual que entende ser o texto de compreensão mais difícil aquele que tem maiores chances de ser o mais correto, justamente porque os escribas teriam a tendência de adaptar os textos à sua realidade, ao seu tempo e ao seu espaço físico, de modo que, na concorrência entre os textos, o mais “estranho” tende a ter a menor carga cultural daqueles que os transcreveram, e, consequentemente, menos modificado.

Só que há também o critério da coerência. Mesmo que haja indicativos de dissimilaridade ou de constrangimento, as narrativas precisam seguir alguma lógica para ganharem o selo de verossímeis. Não basta um texto ser antigo: ele não pode ser contraditório, precisa ser semanticamente interpretável e precisa estabelecer relações lógicas entre as ideias que exprime. A questão é que nem sempre a coerência é facilmente visível. Digamos, por exemplo, que as casas de um determinado local foram inundadas após uma chuva muito forte. A priori, é um fato que pode ser facilmente aceito. Entretanto, o histórico de inundações daquele lugar somente se iniciou após a construção de uma represa. Neste caso, relatos de inundações anteriores a essa construção são incoerentes, mesmo sendo um caso que, na atualidade, seja perfeitamente factível. Portanto, questões de coerência são uma condição primária para a boa aceitação de uma fonte.

Outro ponto importante é o critério de linguagem e ambiente, que trazem boas balizas para consolidar entendimentos. Por exemplo: uma expressão que nasceu no Brasil em meados da década de 80 é o tal “da lata”. Sua origem foi a curiosíssima história do pesqueiro Solana Star, que fazia uma carga ilegal de cannabis da Austrália para os Estados Unidos. Quando estava no Atlântico Sul, o navio precisou de reparos e, para isso, aproximou-se da costa brasileira. Ao perceber a aproximação da guarda costeira, a tripulação se livrou da carga danada, desovando 22 toneladas de latas repletas de maconha no mar. A Marinha somente conseguiu recuperar três e meia dessas toneladas, o que significa que a maior parte ficou boiando no oceano, até que as correntes marítimas as levassem para o litoral de São Paulo e Rio de Janeiro. Como era produto de primeira linha, muito diferente dos talos de chuchu que se vendiam nos carrinhos de pipoca, a expressão “da lata” era sinônimo de produto bom: tênis da lata, música da lata, comida da lata. Como esses fatos todos ocorreram entre 1987 e 1988 (o “verão da lata”), essa expressão linguística só tem sentido se ocorrida nesse período ou, no máximo, a posteriori. Nenhum fato pode ser considerado anterior se calçando nessa expressão. Mesma coisa com tópicos relacionados aos locais onde se conseguem as informações, que forma o ambiente onde uma história é narrada. Percebam que não se falam em corvos nas mitologias tupi-guarani, porque esse interessante bicho não faz parte da fauna brasileira. Ambientações corretamente definidas em um texto ajudam a enquadrá-lo como mais confiável, porque muitas vezes os usos e costumes de um determinado local são os poucos elementos que temos para referendar o que está sendo dito.

Notem como todos esses critérios são como “esquentadores de palpites”, e não como certificadores da verdade. Eles são indicativos de que uma assertiva é mais crível, ou, melhor ainda, que é menos provável do que outras, mas não asseguram a veracidade de modo incontestável. Por exemplo: Sócrates tem três atestações robustas: a de Platão, a de Xenofonte e a de Aristófanes. Os três trazem visões substancialmente diferentes sobre a mesma pessoa. Em Platão, Sócrates é mais filosófico; em Xenofonte, mais prático e, em Aristófanes, um parlapatão. Essa dissonância, ao contrário do que pode parecer a princípio, é benéfica para a pesquisa histórica, porque dá mostras de um indivíduo multifacetado e que desperta diferentes sentimentos, como sói acontecer com nós mesmos. Mas comprova em definitivo a existência socrática? Não, mesmo que sejam evidências muito boas. O contrário ocorre com os evangelhos, por exemplo. A cadeia de semelhanças existentes entre os três sinóticos, ao contrário de anunciar uma unicidade, denuncia compartilhamento de fontes, embora todos eles possuam material próprio. Ou seja, embora haja três fontes, há a hipótese de que elas sejam apenas uma, até porque o Evangelho de São João é muito mais teológico do que histórico.

Reconhecidas as dificuldades desta metodologia, é necessário reconhecer como seu espírito é legitimamente científico, primeiro por buscar caminhos onde eles parecem não existir, e principalmente por reconhecer sua falibilidade. Quer mais científico que isso? Bons ventos a todos!

Recomendação de canal:

Um lugar e tanto para aprender como funcionam os métodos historiográficos é o canal do professor Jonathan Matthies, especializado em antiguidades religiosas, e que sempre evidencia as dificuldades e as soluções para interpretar textos que são naturalmente cercados de polêmicas. Vale maratonar.

https://www.youtube.com/@Jonathan14734

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

De volta às águas e trilhos que ficaram para trás – 8º lugar: Itanhandu e o mundo real como base da História

(Como são explicadas as mudanças do mundo? É preciso olhar para fora ou está tudo aqui dentro mesmo?)

“Não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina sua consciência”

Marx

Olá!

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Quando vim para as Terras Altas da Mantiqueira pela primeira vez, meu fluxo incluiu alguns vai-e-vem. De Passa-Quatro para Itamonte, de Itamonte para Passa-Quatro, e depois de novo e de novo. Não vou ficar explicando essas idas e vindas, sendo suficiente saber que, entre ambas, tinha uma cidade com uma bela fábrica na beira da estrada, e que eu pensava em entrar, sem nunca o fazer. Com o espírito de resgate deste novo périplo, chegou a hora. Vamos conhecer Itanhandu.

O curioso nome da cidade significa “ema de pedra” em tupi-guarani, embora haja outras interpretações possíveis no site da prefeitura (aqui). De toda forma, está correlacionado à bacia hidrográfica à qual a cidade pertence, em especial ao quase onipresente Rio Verde. Esse fato não passou desapercebido na praça central da cidade, onde vemos a ema que abre este texto.

Itanhandu está naquele pedaço mineiro que foi parte do teatro de combates da Revolução Constitucionalista. Para um paulista como eu, é um tanto estranho perceber como há vanglória em um evento de desunião de um país, mas, vá lá que seja, faz parte da história e precisamos compreendê-lo bem.

A igreja matriz é dedicada, mais uma vez, a Nossa Senhora da Conceição. Essa santa é popular no Brasil por derivação direta da devoção dos portugueses, mas, de lá, a questão parece um tanto difusa, não se apegando a um evento tão direto quanto a contada aparição da Santa na Cova de Iria, em Fátima.

Dentro da igreja, relembramos de dois santos praticamente endêmicos desta redondeza: a Nhá Chica (leiam este texto para saber mais)...

… e o Padre Vítor, famoso por ser o primeiro escravo a ganhar os galardões da beatitude.

Estamos em uma cidade que fazia parte do traçado da antiga rede mineira de ferrovias, que causa saudades em tanta gente (leia mais aqui), e a cidade ainda mantém em boas condições a sua estação. O que está em más condições é a qualidade da minha foto.

Na ponte que cruza o Rio Verde, há um pequeno memorial. Este rio, que repeti tantas vezes nessa jornada, tem em Itanhandu as suas nascentes, e a parte rural tem boas trilhas e cachoeiras, especialmente a do Vô Delfim, a mais popular delas.

Mas e a tal fábrica? É uma empresa de laticínios, que produz tudo o que o leite pode dar, em um esquema muito diferente daqueles que são desenvolvidos pelos pequenos produtores.

Enquanto nos pequenos sítios a produção se fecha em um ou dois produtos, no máximo, aqui o que impera é a variedade, sendo que toda a região vende esses produtos, menos românticos, mas mais em conta.

Nos hotéis, por exemplo, é uma presença quase obrigatória a sua manteiguinha, vendida em pequenos tabletes, para uma refeição única. Até mesmo uma cachacinha se acha por lá.

São todos produtos bons, e, embora seja uma indústria, dá aquele arzinho de campo que seduz a gente. Só que, em uma terra conhecida pelos artigos artesanais, feitos por produtores que receberam seus conhecimentos dos pais e que não sabem se os passarão para os filhos, é um pouco estranha a presença de uma fábrica desse tamanho, uma coisa quase contraditória. Mas é desse material que a realidade é feita, de idas e vindas em que não notamos o que está no meio do caminho, e nem o que está por trás das coisas. Talvez devêssemos dar mais atenção a esses detalhes, porque eles dizem muito e explicam tudo.

Se vocês prestarem bem atenção, para além da poesia das coisas que eu falei, há uma proposta para lançar o olhar para a realidade que vai além do mero senso comum, ainda que de forma muito rudimentar. É um método, uma maneira predefinida para se atingir um objetivo. Quando combinamos esse olhar com a análise social, não há como não pensar na metodologia de Karl Marx. Ora, ora, não saia do texto agora, nem sinta raiva, porque eu não sou marxista e não há como excluir sua importância para a filosofia. Mas todas as vezes que eu vou falar deste pensador preciso fazer um rápido disclaimer, para não atiçar a raiva de cabeças mais suscetíveis. Apenas tente compreender de maneira neutra como funciona sua proposta, e, depois, concorde ou discorde. Vamos tentar?

Quando um aluno de universidade ou pós-graduação está para concluir seu curso, ele precisa passar pelo crivo do horrífico TCC, com seu terrível orientador e sua amedrontadora banca. Normalmente, é preciso declarar a metodologia aplicada nos trabalhos, o que é típico para quase todos os cursos: pesquisa de campo, revisão bibliográfica, experimento laboratorial e assim por diante. Nos trabalhos de filosofia, é necessária uma declaração adicional, que é a abordagem de pesquisa filosófica. São várias, sendo que as mais comuns são a fenomenologia, a hermenêutica, o positivismo e as dialéticas, sendo que aqui o caminho se bifurca: há a via hegeliana ou a abordagem marxista, o materialismo histórico-dialético. É sobre esse último que eu vou me debruçar.

Normalmente, os manuais de filosofia costumam destrinchar esse termo para fazer a explicação, mas há um probleminha. A sequência que o nome da metodologia tem fica um pouco invertida, no meu humilde entender. Seria melhor se falássemos em uma dialética material-histórica. Isso porque o fluxo dialético é o seu grande fundamento.

Quando nós observamos qualquer fenômeno em nossa vida, temos a tendência em recortar átomos de tempo, como se aquilo que temos diante dos nossos olhos fosse um retrato que se bastasse em si mesmo. Como exemplo, vou falar de algo que vi agora pouco, ao cair da noite. Da janela do meu quarto, olho para a esquerda e vejo uns cinco ou seis meninos correndo atrás de uma bola. Há a mãe de um deles em vigilância, enquanto dedilha seu celular perto da porta do bar da esquina. Ah, conheço-a; é a manicure do meu prédio sem metafísica*. Os meninos são seus filhos, além do menino da peruana que vende quinquilharias no Brás e os do cachorro louco do segundo andar. Fico observando os passes ainda meio destrambelhados e os gritos intensos, que se multiplicam ao vazar o goleiro (que usa chinelos à guisa de luvas) e atingir em cheio as barulhentas portas de ferro das lojas de essências, causando estrépito e alvoroço, incluindo do cachorro de um deles.

Olhando assim, parece que temos nada mais, nada menos, que nosso prosaico quotidiano, sem grandes novidades no front. Mas um olhar um pouco mais acurado vai fazer com que levantemos inúmeras questões. Por que aqueles meninos estão brincando na rua, e não em uma quadra, ou clube? Por que é necessário ter uma mãe vigiando a brincadeira dos meninos? Até mesmo pode-se perguntar por que o menino no gol está com os chinelos nas mãos, ao invés de luvas. Todos esses questionamentos desnudam as relações de causalidade que levaram àquele momento que observo, tornando claro que houve um sem-número de componentes que a fizeram ficar como é. Não há nada na realidade que não entre em uma relação de anterioridade:  as coisas são como são porque uma série de fatores antes desembocaram nelas. Em suma: a realidade é processo, e o momento nada mais é do que um estrato desse processo.

Mas agora olhemos com mais cuidado para a tola cena em si. Esse cantinho do centro de São Paulo foi apelidado carinhosamente de Faixa de Gaza. Esse nome se dá pelo “pega prá capar” que acontece entre “noias” e polícia, ou, às vezes entre eles mesmos em sua eterna briga pelas pedras. De que processo esse estágio atual faz parte? Da degradação do centro de São Paulo, que, embora completamente estruturado, não atrai habitantes definitivos; dos erros das políticas públicas, que não soube dar destinação a grandes áreas que perderam seu uso, com o mais clássico de todos sendo a antiga Rodoviária da Luz; do aumento do tráfico e da adição de novas drogas, bem mais viciantes e problemáticas, como o crack e o recente k9; da indefinição de políticas de habitação popular; do desinteresse pela parte dos proprietários de imóveis em dar manutenção adequada aos seus bens, e, como esses, muitos outros fatores. Cada um deles, uma vez isolados, também estão inseridos em uma rede de causas e consequências que tem seus próprios fluxos, e a análise tende ao infinito, como se pode perceber.

Por outro lado, a cena em si demonstra uma tranquilidade prosaica, uma certa estabilidade. Mas ela carrega em si mesma todas as condições para ocorrer desequilíbrios. A mãe se obriga a estar lá pela insegurança da Faixa de Gaza, que a usam pela ausência de espaços públicos mais adequados, ou pela impossibilidade de pagar por uma quadra fechada. Mesmo o menino com mãos de chinelo demonstra a falta de condições materiais de ter uma luva, e não apenas o sonho inocente de ser um goleiro de renome. Toda disposição situacional é prenhe de contradições, e aqui vamos encontrar as instâncias dialéticas.

Neste ponto, as teorias de Marx e Engels mostram sua dependência com relação à dialética hegeliana. Já nela, detecta-se a realidade que carrega suas próprias contradições, e como é o trânsito entre elas que movimenta o mundo. Como sabemos, os marxistas têm fortes críticas ao capitalismo, e, de fato, podemos detectar algumas de suas ambiguidades com facilidade. Um dos seus pilares, por exemplo, é a livre concorrência, que determina que as empresas e pessoas poderão utilizar livremente os recursos que desejarem para exercerem suas atividades e conseguirem comerciar, desde que respeitados os limites da lei. Esses limites são óbvios: não se deve escravizar trabalhadores, não se deve explorar atividades ilícitas, e assim sucessivamente. Entretanto, a livre concorrência tem uma doença interna: um dos players pode crescer a tal ponto de se tornar monopolista no mercado. Não há nenhum crime sendo cometido, a não ser o próprio exercício da livre concorrência. Por exemplo, se um empresário tem fôlego financeiro para baixar seus preços a ponto de extinguir a concorrência, não estará descumprindo regras do próprio sistema. Idem quando as empresas de determinado setor se associam para impedir que os preços de seus produtos não baixem além de um certo limite. Para impedir que esses fenômenos ocorram, criam-se leis antidumping, antitruste e assim por diante. Esses nomes em inglês denunciam que não se trata de eventos do nosso capitalismo tupiniquim, mas do centro nervoso do capitalismo mundial, Estados Unidos à frente. Leis são antítese da liberdade econômica, mas que precisam existir para garanti-la. Percebem a contradição?

Isso não é uma exclusividade do capitalismo, mas de todo e qualquer sistema que se observe, porque a estrutura dialética está na medula da realidade. A questão que divide Marx e Engels de Hegel está no fato de que, para este último, a mola propulsora da realidade é o Espírito, uma espécie de fusão entre razão e natureza, que tem um certo caráter metafísico, já que sua definição, como se pode ver, não exclui alguma forma de idealização. No marxismo, esse impulso é outro, baseado no real concreto. Não se trata da exclusão pura e simples de instâncias metafísicas, mas da conscientização de que, independentemente delas, as coisas se desenrolam no mundo palpável, imanente, concreto, material. É na materialidade que se escreve a história e se dão os conflitos dialéticos. Sendo assim, o motor da história somente poderia se dar no plano do material, e Marx e Engels entendem que é o desequilíbrio entre as classes sociais este impulsionador. Patrícios e plebeus, suseranos e vassalos, brâmanes e sudras, esparciatas e hilotas, burgueses e proletários sempre vivem em um estado de tensão, porque há uma permanente diferença entre as condições materiais de cada uma dessas classes: quem tem privilégios, quer mantê-los; quem não os têm, quer obtê-los. Como em todas as sociedades há esse desnível e esse confronto, tudo o que acontece na esfera social se deve, de uma forma ou de outra, a esse fermento.

Perceberam como não há nada de metafísico, espiritual ou idealizado na proposta marxista? Como a análise deve se dar no plano material, com a realidade concreta exposta aos olhos? Eis porque a dialética de Marx e Engels é chamada de materialista, independentemente da existência ou não de qualquer instância transcendental.

Estando as coisas nesse ponto, vamos perceber uma guinada de volta ao pensamento hegeliano. Embora Hegel baseie sua ideia de progresso no idealismo e nas representações, o fato é que ele não exclui a historicidade dos fatos. Mais ainda: ele disserta firmemente sobre o modo como a própria razão é histórica, ou seja, sensível à transformação da realidade e ela mesma sujeita a mudanças no tempo. Entretanto, no campo do marxismo teremos um reposicionamento da consciência, que corresponde a momentos históricos determinados, ou seja, adaptados ao seu próprio tempo. A consciência é entrelaçada com a própria história: a maneira como ela enxerga o mundo está condicionada ao modo como foi historicamente inscrita nas mentes. Metafísica, religião e ética possuem seus valores em razão da variação dos conflitos sociais, se tivermos em vista que a característica fundante das sociedades é a necessidade da interação com a natureza através do trabalho.

É óbvio que, como qualquer outra metodologia, também aqui temos calcanhares de Aquiles. No caso, o materialismo torna boba qualquer pesquisa metafísica, objeto que efetivamente faz parte da filosofia. Talvez a práxis que fundeia o marxismo faça com que não haja muito sentido, mas objetos intangíveis não podem ser proibidos de ser pesquisados. Outra questão é que colocar a régua da luta de classes como único motor da história por vezes faz um efeito de turbilhão, ao invés de espiral dialética, partindo da premissa de todos os aspectos que podem afetar qualquer situação social do mundo, que, pelo princípio de causa e consequência podem chegar ab ovo. Por fim, o materialismo histórico-dialético exige muita habilidade para não se cair em situações forçadas, em antíteses que não existem e em sínteses absurdas. Um marxista empedernido que quer usar a metodologia sem bagagem suficiente pode produzir textos risíveis, totalmente desvinculados da realidade que persegue. E não é isso que se espera de uma boa análise.

Pois bem. Dialeticamente, abasteci minha mochila térmica de objetos materialmente industrializados enquanto vivo propagando as benesses da manufatura artesanal, e venho aqui para contar historicamente meus volteios para vocês. Bons ventos a todos, porque amanhã é dia de ir embora.

Recomendação de leitura:

Marx e Engels tratam de sua metodologia em várias obras. Vou recomendar justamente aquela de onde extraí a epígrafe.

MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. São Paulo: Expressão Popular, 2008 

* Entendedores entenderão

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Navegações de cabotagem – o Museu de História Natural de Atibaia e os humanos como síntese da História

Olá!


(Enquanto escrevo este texto, tenho nos ouvidos o álbum “Of Natural History”, da banda vanguardista Sleepytime Gorilla Museum. Pura maluquice sonora, misturando muita teatralidade com construções musicais insólitas. Seus componentes são multi-instrumentistas que tocam qualquer tipo de coisa – desde instrumentos muito antigos até objetos encontrados em casa, à moda de Hermeto Paschoal. Não é para qualquer um, mas vale a pena conhecer. Dados de recomendação lá embaixo).

Pouco antes da eclosão desta inaudita pandemia que já nos grassa e desgraça há cerca de seis meses, ou melhor, quando ainda tínhamos a expectativa de que 2020 seria um ano como outro qualquer, dei um pulinho aqui e outro ali para ajudar a filha caçula na sua missão de prestar concursos públicos. A indigitada descendente estuda na área de humanas e, como bem sabemos sem nenhum demérito, o destino-base desta formação é atuar na Educação. Sendo assim, às vezes é melhor procurar alguma coisa pelo interior próximo, enquanto não se consegue nada de muito proveitoso em Pauliceia Desvairada.

Vou reabrir a série das Navegações de Cabotagem e, como eu já disse, os quatro textos que se seguirão descrevem fatos que ocorreram todos antes da segunda quinzena de março. Por esta razão, não serão vistas luvas, máscaras ou escudos faciais nas pessoas, assim como não havia de se falar em imprudência ou negligência. Os quatro quilos que eu ganhei desde então são prova de meu bom comportamento epidêmico, embora não o seja no plano estético e lipídico.

Neste episódio, vou para a cidade de Atibaia. Ela não fica longe de SP/SP, algo como 70 km, o que dá para cobrir em cerca de uma hora, e fica na mesma região bragantina que relatei em minha série Para lá da serra que eu vejo na janela, de quem recomendo a leitura. Precisei levantar bem cedo, porque a prova da garota era às 08:00, mas o domingão estava um bocado agradável, naquele meio termo entre céu claro e brisa fresca, e fui procurar o que fazer ao ar livre. Atibaia por si só já é uma cidade linda, mas fiquei sabendo da existência de um parque com coisas legais, então me mandei para lá.


O nome do tal parque é Edmundo Zanoni. Este cidadão foi prefeito da cidade na década de 60 do século passado.  Há tempos atrás, aqui ficava localizado um clube de campo que pertencia à municipalidade, mas que, com fins de democratizar o seu acesso, foi aberto para o público em geral. Tem um relevo em declive, acompanhando o desenho do morro que lhe guarnece. Em seus vários canteiros, há uma bela profusão de flores.


O projeto de paisagística é bastante delicado, em uma área relativamente ampla (cerca de 40 mil m²), e para os moradores dos meios urbanos tem novidades pouco conhecidas, que possuem um fundo estético que explica bem a diferença entre arte e natureza: a beleza está nas duas, mas não são a mesma coisa.


A cidade de Atibaia historicamente faz parte do circuito que foi colonizado por populações nipônicas, como acontece no contexto do Cinturão Verde da metrópole da garoa. Por conta disso, é razoavelmente comum encontrar referências a essa cultura, incluindo um Jardim Japonês no parque, com sua inconfundível carpa, uma espécie de peixe-símbolo da longevidade e fertilidade.


Uma tradição daqui, trazida justamente pelos orientais, é a festa de morangos e flores, realizada todo ano na entrada da primavera. Vi que desta vez não vai ter. Paciência. Com o dia em franca ascensão da temperatura, fui com a patroa matar saudades dos pedalinhos no lago do parque.


Há uma torre de pedra fazendo as vezes de farol na ilhota acessível  por ponte. Fiquei sabendo que toda a área fica enfeitada de cima a baixo por ocasião da festa citada. Nas fotos que vi, fica lindo de verdade.


Para além das sutilezas do sol nascente, há também uma casa de artesanatos, estes expostos de forma permanente, para a apreciação de quem curte um chaveiro. Os carros-chefes são os vasos pintados à mão e os artigos que remetem à própria cidade: morangos, corujas e a Pedra Grande, monumento natural localizado na parte rural.


O parque ainda é sede do Instituto Pró-Carnívoros, uma daquelas entidades que martela em cima de ferro frio para defender uma causa que tem pouca visibilidade. É uma ONG cujo objetivo é a proposta de estratégias para a manutenção da vida dos carnívoros nativos a longo prazo.


Mas vamos ao tema que pretendo abordar com mais detalhe. No miolo do parque, existe um Museu de História Natural cujo nome homenageia o professor Antonio Pérgola, dito Toninho, cuja grande especialidade era a taxidermia, um conjunto de técnicas destinado a preservar, o mais proximamente possível, a forma dos animais quando ainda eram vivos.


Estruturalmente, o espaço é composto por painéis, gaveteiros e dioramas, uma espécie de armário envidraçado em que as peças podem ser dispostas de maneira a reproduzir um certo ambiente. No nosso caso, o ambiente a ser retratado é o habitat das espécies que compõem a região, de modo que os bichos não sejam simplesmente expostos, mas que formem um contexto compreensível.


É preciso elucidar o que é um museu de história natural. Da mesma forma que acontece com as universidades (como já escrevi aqui e aqui), há muita confusão com relação ao seu propósito. A um primeiro olhar, imagina-se que seja um lugar onde as crianças podem ver um monte de bichinhos empalhados, e nada mais que isso. Idem ocorre com os jardins botânicos, que pensamos parecer um imenso jardim, cheio de plantinhas. Não, o que temos nesses espaços são coleções, que possuem um sentido científico que vai além do mero entretenimento.


Claro que não há nada de mau em simplesmente se distrair. E também é claro que a quantidade de recursos disponíveis vai influenciar muito até onde os administradores podem chegar. Museus como os de Viena ou de Nova York têm coleções imensas e caríssimas, que são expandidas através de um círculo de empréstimos entre essas instituições de grande porte. Mas, mesmo em lugares menores, o propósito é basicamente o mesmo: confluir história e natureza para que seja possível compreender como a vida se desenrola no planetinha azul. Por isso, os acervos dos museus de história natural se deslocam em dois eixos: um vertical e diacrônico, em que se procura entender como surgiram as diferentes espécies, e que são sintetizados por ossadas milenares e fósseis...


... e num eixo horizontal e sincrônico, que busca evidenciar como as espécies de determinados locais estão espalhadas pelo espaço geográfico, desde sua origem mais remota, como é o processo de fecundação representados pelos ovos...


... passando pelos primeiros desenvolvimentos do novo ser, que, em condições normais, são pouco visíveis para nós, como pode ser observado através dos embriões e fetos...


 ... passando pelos animais em suas formas adultas...


... até chegar aos seus despojos mortais, onde podemos aprender um pouco mais sobre sua morfologia óssea. Neste caso, a linha do tempo somente é percorrida pelo tempo de vida das espécies atuais, e não no longo tempo histórico das espécies pré-históricas.


Por conta da expectativa da formação de contextos, um museu destes não se limita apenas às espécies animais, mas faz considerações de ordem territorial, podendo lançar mão de amostras da vegetação e dos aspectos minerais também.


O resumo da ópera é: essa modalidade de instituição visa fundir história, biologia e geografia para que seu usuário tenha ferramentas para entender como funciona a interação entre seres e meio físico, que tanto pode ser o do próprio local...


... como de terras mais distantes...


... ou agrupamentos de animais com similaridades, para que se comparem elementos evolutivos...


... ou amostras de elementos isolados, geralmente excêntricas ou em risco de extinção, no que os museus prestam mais de um tipo de serviço.


Enfim, museus são espaços de estudo. E, neste caso específico, o plano temporal tem muito mais importância do que parece em um primeiro olhar. Às vezes não nos damos conta de como a História é tão presente em nossas vidas, e só quando nos deparamos com alguma coisa que nos obriga a nos situarmos no tempo é que passamos a reconhecer nosso lugar na História.
Entretanto, o que somos quando observados no tempo? Segundo Benedetto Croce, filósofo italiano que viveu na virada do século XIX para o XX, somos um processo em curso. Vamos entender melhor essa proposta, e se concordamos ou não com ela.

Croce imagina um conceito de historicismo absoluto, fortemente calcado no Idealismo hegeliano e em seu Geist, mas não vou abordá-lo aqui, para não o tornar aborrecido (leia um pouco melhor sobre isso neste texto). Isso equivale a dizer que qualquer juízo que se faça acerca de tudo, seja algo físico como uma pedra ou abstrato como a própria Filosofia, não pode ser colocado fora da História, e, de certa forma, equivaler-se a ela. Isso acontece porque, por mais que algo possa parecer fortemente preso em um determinado momento distante, absolutamente tudo está ligado pelos liames do tecido histórico, e o momento atual nada mais é do que uma fotografia de um processo em curso permanente. Dessa forma, toda História é História Contemporânea, porque nada é como é sem que tenha sido o que foi.

(Isso me lembrou duma situação que ocorreu quando eu ainda tentava ganhar o mundo com minhas bandas e minhas músicas. Trata-se de uma música chamada Filhos do Passado, que reescrevo agora com um pequeno realce.

Gira o mundo, grande mundo
Ordem e progresso ou poço sem fundo
Um grande fato da nossa história
Ou apenas mais uma escória

Sinas mil do meu Brasil
É tudo belo ou é tudo hostil
Maior derrota ou menor vitória
Longa tragédia ou fútil gloria

Se hoje somos o que somos
Foi porque fomos o que fomos
O bem e o mal foram consumados
Na vida dos filhos do passado

Acorda e vive, grande cidade
Diz a mentira ou a verdade
Seu presente é vil ou é sagrado
Não sabe o futuro ou não lembra o passado

Esse trechinho fazia parte do refrão. Era um rock no estilo hard setentista, apesar de estarmos extemporaneamente na década de 80. Não tínhamos grana, mas tínhamos uma caixa acústica com o alto-falante rasgado, e a usávamos quando queríamos – rá rá rá – simular um Marshall com as válvulas sobrecarregadas. É... Não tinha como dar certo. Mas o ponto é outro – a parte destacada parecia-me ingênua demais, mas era exatamente o que eu queria dizer e se desenvolvia bem harmonicamente. Relendo o presente filósofo, pergunto-me se eu não era croceano antes mesmo de conhecê-lo. Sim, eu sei que é só uma coincidência, mas notem como, de maneira quase infantil, eu consigo exemplificar a tese de nosso caro abruzês).

Segundo pensava Croce, por mais remotos que fossem os fatos passados, eles continuavam reverberando seus efeitos até os dias presentes. Ele utiliza o exemplo do bode expiatório para explicar isso. Se alguma pessoa, seja por princípio religioso, seja por comiseração humana, seja por mero arrependimento, aplica a si mesmo um rito de expiação, ela reproduzirá, ainda que inconscientemente, toda a estrutura estabelecida por um rito das tribos judaicas milenares e de outros povos primitivos, com práticas semelhantes. Dessa forma, todo esse amálgama de passado é tornado presente no momento em que alguém repete o ato, como já faziam os antepassados.

Dessa forma, toda pessoa carrega consigo uma espécie de coletânea de documentos de juízo histórico, que lhe foi imputada por irradiação dos conhecimentos da espécie humana, transmitidas e integradas através dos tempos, e que nos fazem efeito modificador de caráter quando nos defrontamos a um objeto do passado. Reconhecemos um bichinho exposto em um armário e deste confronto com a História contida em nós reagimos particularmente e damos carga novamente a esta mesma História. Um homem é o universo inteiro no sentido histórico. Somos, todos nós, um compêndio de História universal.

Sendo assim, quando estamos em um museu de história natural, não estamos apenas presenciando um pacote de elementos antigos, mas estamos diante de nós mesmos. Cada reação, que se desdobra em curiosidade em conhecer, ou em aflição pela fragilidade, ou em admiração pelo trabalho detalhado, ou até mesmo em indiferença, é uma pequena parte da nossa característica de sermos humanos, que nos foi transmitida através de nossa inserção na História. Não somos humanos sem nossa história. Não é legal isso?

Recomendações:

Começo pela obra de Croce voltada à Filosofia da História. Ele é muito mais amplo do que esse livro, e posso voltar a ele mais vezes, conforme for conveniente.

CROCE, Benedetto. A História como Pensamento e Ação. Rio de Janeiro: Zahar, 1962.

Vai também a recomendação de visita ao Parque Edmundo Zanoni e seu respectivo museu, ainda mais quando a chatíssima pandemia atual permitir. Este é seu endereço:

Parque Edmundo Zanoni
Avenida Horácio Netto, 1030
Vila Loanda
Atibaia/SP
Aproximadamente 70 Km a partir do centro de São Paulo

terça-feira, 19 de junho de 2018

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (12 – Filosofia da História)

Olá!


Gostamos de histórias. Gostamos de contá-las e de ouvi-las, principalmente quando o narrador coloca toda a sua vivacidade a serviço do colorido na exposição dos fatos, sejam eles verídicos ou nem tanto, como os “causos” do pessoal do interior ou as pantomimas de avós e de madrinhas. Eu tinha uma tia que era especialmente hábil neste mister, a tia Antônia, espanhola de nascimento, e que contava coisas de além-mar com tal destreza que a audiência mal piscava durante as sessões. É evidente que, ainda que a base seja real, muitos dos detalhes mais barrocos vinham do âmbito do legendário e do mítico. Como diria Camus, “a verdade, como a luz, cega. A mentira, ao contrário, é um belo crepúsculo que valoriza cada objeto”. É claro que se trata de um rigor excessivo para quem deseja apenas apreciar um bom conto nos dias frios em que falta energia elétrica, mas é necessário crer que o existencialista franco-argelino (de quem já falei neste espaço) estivesse se referindo unicamente à verdade como correspondência ao mundo que nos cerca, e não com vieses artísticos da oratória de bons velhinhos. E é nessa toada que precisamos olhar para a Filosofia da História, o estudo crítico de como é construída a rememoração de nossos tempos.


Uma das perguntas iniciais que fazemos quando olhamos filosoficamente para a História fatalmente se dirige aos seus propósitos. Para que serve estudar a História? É uma pergunta que pode obter resposta um tanto pragmática, já que poderíamos ter o condão de dar uma resposta tão sentimental quanto inútil: muita gente acha relevante que saibamos de onde viemos e como fomos formados, mas também tem muita gente que pensa que isso não quer dizer muita coisa. O que passou, passou. Não é verdade.

Vamos aproveitar a Tia Antônia. Ela nos dizia que, quando chegou ao Brasil, era costume dos trabalhadores da indústria têxtil, na sua maioria estrangeiros, passear pela cidade nas horas livres, a fim de conhecê-la um pouco melhor. Um dos lugares mais bonitos era o bairro dos Campos Elíseos, nome chupado do Champs-Élysées francês, que, por sua vez, já tinha sido importado da mitologia grega, o lugar de honra para onde os homens virtuosos eram encaminhados após sua morte, uma espécie de paraíso. Região absolutamente central*, era um bairro tomado pelos casarões dos antigos barões do café, com destaque para a sede do governo do Estado (hoje abrigando o SEBRAE) e para o Liceu Coração de Jesus. De lá, a vetusta parenta nos contava que, pelos largos passeios, era possível observar a elite com sua criadagem, os poucos automotores disponíveis, o cheiro das azaleias nos jardins, os guardas civis que ladeavam os prédios oficiais. Contava também das moçoilas de vestidos rendados e ancas de arame, que soltavam seus lenços para chamar a atenção de afetados príncipes encantados, mas aqui já começa o blá-blá-blá. Era, enfim, um local de enlevo, propício aos sonhos de gente que vinha de tão longe e que tinha tão pouco.

Transpondo a mesma região para os nossos dias, quem passa desavisadamente pela sua via principal, a avenida Rio Branco, provavelmente terá uma sensação de que ainda temos um bairro ao menos razoável, mas é nas travessas que a coisa acontece. E tudo se deu por conta da vizinha Luz. Acompanhem o raciocínio.

A Luz era um bairro quase tão bom quanto os Campos Elíseos. Menos luxuoso, mas bem equipado com a famosa estação, o jardim, a pinacoteca, não havia muito do que reclamar. Um belo dia, aparece o colosso do mau planejamento público: a Rodoviária. A princípio, a ideia não parecia de todo ruim. Construída entre as estações de trem da Luz e Júlio Prestes, teria por objetivo ser um ponto focal para a interligação entre os meios de transportes. Acontece que colocar a única rodoviária do maior aglomerado urbano da América Latina bem no centro da cidade foi uma enorme estupidez. O trânsito se tornou insuportável já no começo de seu funcionamento, e as antigas residências foram substituídas por rede hoteleira miúda, destinada principalmente para pernoites. Além disso, expandiu-se a quantidade de bares, restaurantes e pequeno comércio principalmente para dar suporte aos passageiros que faziam uso do terminal, mudando completamente o perfil ocupacional da região.

Toda ideia de jerico acaba mal, como bem sabemos. A Rodoviária da Luz durou joviais 21 anos, por motivos que deveriam ser óbvios, mas que só foram sentidos na prática após o bairro e seu entorno serem desfigurados. E aí temos a emenda pior do que o soneto. A sua desativação foi feita de maneira atabalhoada e com ainda menos planejamento que sua construção. O terminal simplesmente foi transferido para a Marginal Tietê, e toda a estrutura comercial que lá se estabeleceu foi abandonada à própria sorte, sem que houvesse a substituição por outro modelo urbano. O resultado foi a falência de inúmeros estabelecimentos, a transformação de outros em puteiros, com o abandono dos imóveis e sua ocupação pelo tráfico de drogas. Com o advento do crack, a partir da primeira década do século XXI a região teve um aumento absurdo de usuários, no que ficou conhecido como Cracolândia, uma verdadeira 25 de Março do narcotráfico. Sua “capital” é a rua Helvétia, ligação direta entre a estação Júlio Prestes e o antigo Palácio dos Campos Elíseos. A Tia Antônia certamente não reconheceria mais sua região de passeio, que hoje nos dá a mais clara ideia do que seria um apocalipse zumbi. Talvez, se fosse muito atenta, perceberia aqui e ali uns vestígios das antigas residências, e ficaria estupefata. Mesmo que suas histórias não fossem de príncipes, mas de demônios, dificilmente conseguiria chegar ao nível do que a realidade se transformou.

É para isso que serve a História: para que entendamos o que deu certo e o que deu errado. Este é seu objetivo prático. Mas a Filosofia a olha mais profundamente do que isso. Seria possível existir alguma forma de lógica nos rumos dos acontecimentos? A História tem um fio condutor? Estamos fadados a nunca termos uma antevisão do futuro ou condenados a repetições eternas?

Há algumas concepções de História que a veem como uma longa sequência de fatos sucessivos, inéditos e irrepetíveis, que apontam linearmente para o futuro, como se fosse um vetor. O Positivismo, por exemplo, vê o rumo da humanidade como um caminho que parte da visão supersticiosa da Religião, baseada quase que exclusivamente em mitos e lendas, para a noção positiva, que coloca no lugar dos altares a primazia da Ciência, desprovida de misticismo e de visões fugidias ao metódico e ao sistemático.

Outras concepções enxergam a História como a repetição indefinida de ciclos, como estabelece a alegoria do eterno retorno de Nietszche, muito embora os ciclos sejam entendidos não em seu sentido estrito, mas em sua estrutura. Para tanto, basta que se pense na sucessão dos dias e dos anos. Em si, eles são ciclos infinitos – eternamente o Sol nasce e se põe, a lua e as estrelas surgem no céu e lá ficam até um novo despontar; o tempo esfria, as noites ficam mais longas, até que lentamente os dias comecem a aquecer progressivamente, quando chegará o ápice do verão, e volta a temperatura a se amainar, as folhas a cair e novamente, e novamente, e novamente... Essa estrutura cíclica dá a intuição de que tudo é circular, ainda que os fatos em si, vistos isoladamente, sejam inéditos. Ciclos de guerra e paz, de miséria e prosperidade, de avanço e estabilidade parecem pavimentar a rota por onde a História caminha.

Temos ainda um terceiro ponto de vista de desenvolvimento histórico, que é o vai-e-vem do movimento dialético. Cada fato na realidade carrega consigo sua própria contradição e ruma para ela, até chegar ao ponto de síntese, que elabora um novo fato na realidade, com uma nova contradição e assim sucessivamente. Se a História é a narrativa da realidade, também nela se plasma essa mesma estrutura. Desta forma, a mecânica dialética, tanto hegeliana quanto marxista, é linear e cíclica ao mesmo tempo, porque trabalha com acontecimentos irrecitáveis que se guiam sempre no mesmo delineamento sucessivo.

Pensamos até agora no desenho que a História percorre, mas, para que isso aconteça, já é preciso que ela não seja algo estanque. O que faz com que a História se mova? No final das contas, há algum propósito em estarmos aqui, deixando nossos passos nas areias das ampulhetas? Somos seres teleológicos?

Há um confronto mais ou menos moderno na própria concepção de História a partir do momento em que marcos como o Renascimento e o Iluminismo reforçam a posição humanista de independência com relação às divindades. Até então, a noção de “motor da História” sequer existia, porque ela não fazia sentido. Os fatos se sucediam através da concreção da vontade divina, que era interpretada por filósofos e teólogos, mas extremamente simples: um plano divino, que caberia desvendar, sem grandes possibilidades de contestação. Mas a coisa muda de figura com o advento do novo humanismo. Como já vimos, Hegel percebe a linha histórica como um movimento dialético, ainda transcendental, mas já não propriamente divino, o que não é mais o bastante para explicar como ela se desloca. A percepção dialética é a posteriori; o que vem antes? Aprioristicamente, o mestre alemão entende que a humanidade possui um “espírito”, que, diferentemente da ideia de uma deidade, não é algo físico ou transcendental, mas uma espécie de predisposição em se ser o que se é, com variações de acordo com o espaço (volksgeist) e com o tempo (zeitgeist). O exemplo que eu mais uso é o seguinte: o Geist é como se fosse um ethos, ainda que não seja exatamente a mesma coisa. O brasileiro é o rei do jeitinho: dadas suas limitações patrimoniais, improvisa com gatos e gambiarras, tem uma língua de veludo de dar inveja e toda agenda já embute quinze minutos de atraso. Esse é o “jeitão” do brasileiro, uma espécie de espírito coletivo, é seu volksgeist. Também temos aquilo que chamamos de “tempos bicudos”: contingências climáticas, estados de tensão bélica e outras coisas conduzem a uma condição generalizada de prevenção, de restrição e de pessimismo, que vão se espelhar nas artes, na religião, na filosofia, nas vontades e nas atitudes das pessoas. Esse é o zeitgeist, o espírito do tempo, dinâmico, influenciador do e influenciado pelo volksgeist. Essa variação no tempo e no espaço tende a procurar uma estabilidade, onde os espíritos nacionais se unifiquem. É o que Hegel chama de Espírito Absoluto, a razão concreta, uma espécie de estágio final das transformações históricas, onde não haverá motivos para a busca de uma nova síntese. Esse Geist é que “puxa” a História.

Como eu já falei anteriormente, Karl Marx vê o movimento dialético hegeliano como correto no sentido de processo histórico, mas discorda frontalmente com seu motor. Nada de espírito disso ou daquilo, o que temos é o cosmos em que vivemos e que podemos experienciar. O que toca as transições entre tese e antítese está nas condições materiais com as quais a humanidade convive, e é a guerra pelo poder, sintetizada na luta de classes, que faz a roda da História girar. Vejamos.

Marx não acredita em transcendências, Geist incluso. Para ele, todo o espectro de uma sociedade pode ser dividido em classes, que são definidas de acordo com o seu acesso a meios materiais. Esse alcance definiria todas as características dessas classes: como se alimentam, como se educam, como pensam, como vivem. Enquanto permeados por uma ideologia dominante, as classes de uma sociedade se mantêm mais ou menos estáveis, até que a consciência coletiva de um determinado estrato se vê incomodada com a disparidade de acesso com a qual se vive, e passa a lutar contra a classe dominante. Notem como já aí é possível enxergar a estrutura dialética da realidade. Segundo Marx, toda a História pode ser explicada a partir da perspectiva da luta de classes. A insatisfação gera o conflito, que descamba para o confronto, que pode ou não gerar uma nova classe dominante, com novas classes oprimidas, que novamente gerarão conflitos, e via discorrendo. Ainda que do conflito não brote uma nova classe, a situação mantida também preserva a realidade e a sua contradição: continua havendo quem domine e quem é submetido. Diferentemente do Espírito Absoluto, para Marx a estabilização histórica viria com a implantação do Comunismo, que teria por objetivo a extinção das classes sociais e o consequente “desligamento” do motor de transformações históricas.

Tudo isso dá uma certa impressão de “destino”, que os pensadores contemporâneos costumam rejeitar. Por outro lado, há linhas de pensamento que afirmam existir um propósito para que a História seja como ela é. A Filosofia Medieval, por exemplo, afirma aos quatro ventos que a teleologia humana se explica em Deus, unidade de força universal, inclusive histórica. Também na metafísica aristotélica é possível visionar teleologia, ao compor na descrição das essências a causa final, inerente a todos os seres. O problema está em uma visão mecanicista, que obriga a causa e desvia a observação. Pensadores hodiernos entendem que a História deve ser estudada sob o prisma científico, com metodologia própria, ou seja, o fato deve ser analisado pelo que dele pode ser observado, sem que se tente buscar um objetivo para além deles. Evidentemente, há coisas que são criadas para determinados propósitos, mas, ao imputar finalidade ao próprio processo histórico, faz-se um exercício mais de adivinhação do que propriamente de previsão. Este se desenrola empiricamente: quando se juntar A com B, ter-se-á C, e pronto.

Por fim, há a questão do recorte dos tempos históricos, que se inicia pelo registro, que não é determinado somente, mas principalmente pela escrita. As eras são estabelecidas por marcos, o que é bom didaticamente, mas que costuma distorcer a visão que temos dos processos de transformação. Além disso, as divisões históricas são absolutamente eurocêntricas, mas fazer o quê? É a cultura dominante até hoje, e não cabe discuti-la neste momento (ainda que seja discutível e que possamos fazê-lo em alguma hora adequada).

A tradição dos marcos históricos, apesar das críticas, tem sua razão de ser. De fato, são compostos por situações onde tanto os acontecimentos anteriores se desenrolaram para construí-las quanto os posteriores foram moldados decisivamente por eles. Por exemplo: a tomada de Constantinopla pelos turcos, marco inaugural da Idade Moderna, não aconteceu como um meteoro que cai durante a noite. Há vários fatores concorrentes, como o enfraquecimento do Império Bizantino, os desencontros causados pelo cisma da Igreja Católica e as progressivas conquistas das invasões otomanas. Mas a importância do marco se dá pelas suas consequências. Visto isoladamente, seria uma tomada de um território entre outras, mas é a partir dela que se iniciam as Grandes Navegações, que, a princípio, objetivavam dar acesso à Ásia por vias marítimas, contornando o bloqueio da passagem terrestre. Caso não ocorresse esse evento, é impossível saber quanto tempo levaria para se saber da existência da América.

A essa tendência de viés positivista, a principal oposição se deu através da École des Annales, movimento de historiadores franceses do século XX que se propôs a rever essa concepção compartimentada, unida por sucessão de fatos como uma fieira e as contas de um rosário, onde a única diferença está no tamanho de algumas delas, e passam a encarar o tempo histórico como a urdidura de um tecido. Para tanto, desenvolvem a ideia de extensão dos tempos. Um fato participa tanto do breve tempo de um momento específico, quanto do tempo médio que forma um contexto, quanto do tempo longo que impulsiona o mundo a uma determinada direção, o que lhe dá uma certa tridimensionalidade. Além disso, os Annales cuidam de aproximar a visão histórica de um momento específico à sua devida conjuntura. Como vimos neste texto, é um descuido frequente levar valores atuais para a visualização de acontecimentos pretéritos, o que faz com que a sua descrição se distorça e a historiografia deixe de cumprir seu papel.

No fundo, no fundo, a Filosofia da História, assim como a Filosofia da Ciência, é uma derivação da Epistemologia, a área da Filosofia que estuda a possibilidade de conhecermos com segurança (se isso possível for). Ficamos por aqui porque já andamos muito. Bons ventos a todos.

Recomendação:

A História como narrativa é algo sensacional, tanto que eu tinha grandes dúvidas sobre cursar Filosofia ou História, mas o que vem pelo pano de fundo é algo realmente meio árido. Para tirar algumas dúvidas, sugiro o canal e o blog do Icles Rodrigues, o Leitura ObrigaHistória.

https://leituraobrigahistoria.wordpress.com/

https://www.youtube.com/channel/UCtMjnvODdK1Gwy8psW3dzrg

* Eu moro a 100 metros do marco zero de São Paulo. Se eu for a pé até os Campos Elíseos, demoro algo em torno de 20 minutos.