Marcadores

Mostrando postagens com marcador Lagoinha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lagoinha. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 13 de março de 2020

O cesto da gávea de onde observo o mundo – Epílogo: onde continuarei escrevendo minhas histórias?

Olá!


Sabe aquela sensação estranha de coisa incompleta? Tipo quando você vai no estádio ver um jogo que não sai do 0 X 0, ou quando você vai na casa da avó e não come bolinho de chuva? Era mais ou menos o que estava acontecendo com a falta deste texto, que ficou pendente por tempos, desde que concluí os relatos da minha viagem à Vertente Oceânica Norte, nome besuntado de glamour para a região de Paraibuna, São Luiz do Paraitinga e vizinhanças. Gestalt explica? Pode ser, leiam aqui. Tinha deixado este epílogo em stand by, aguardando um retorno ao Núcleo Santa Virgínia, reserva ambiental que fica encravada na Serra do Mar, e que demandaria alguns dias para percorrer algumas de suas longas trilhas. Acontece que eu fui para bem perto de lá nesses últimos dias, e enriqueci esta série com mais quatro textos. Sendo assim, decidi compor este post de fechamento, para tirar esse inútil peso da consciência. Tão logo vá ao Núcleo, farei as inserções necessárias. Esse é o lado bom de ser o patrão das próprias palavras, uma das poucas coisas em que tenho autonomia na vida.

Depois de passar em tanta parte, na maioria das vezes cidades pequenas, com muito pouco a ver com a megalópole paulistana, passei a ficar um pouco mexido nas minhas convicções tipicamente urbanas, e passei a pensar no que eu quererei para daqui a alguns anos, quando certas amarras que ainda me ligam à Terra da Garoa já estiverem suficientemente desatadas.

Vou dar uma ideia do meu estado mental. No último sábado, passei por um lugar em que eu era frequente nos tempos de moleque. A Avenida Renata ligava a Vila Diva à região do cemitério da Vila Formosa, um dos maiores do mundo. Todas as vezes em que um professor pedia um trabalho um pouco mais elaborado, a desmilinguida sala de livros de minha escola não dava conta (leiam a aventura que isso me gerou aqui) e eu acorria para a biblioteca situada naquele logradouro, a menos ruim daquela região. Para quem ia a pé, era um bocado longe, e, para disfarçar a distância, eu ia pelo meio do matagal que encimava os canos da adutora do Rio Claro. De lá, era virar à esquerda na Rua Planeta e pegar a avenida desde o começo. Era um lugar bastante calmo, cheio de casinhas e com um comércio ainda incipiente, de modo a ser um núcleo agregador daquele pedaço da Zona Leste que ainda se assemelhava um pouco às cidades interioranas. Neste sábado passado, muito pelo contrário, fiquei pelo menos meia hora para cruzar seu aproximado quilômetro, coisa que fazia mais rápido na caminhada. Tentei ver o que havia de errado, mas não há nada além de um intenso comércio e uma Avenida Abel Ferreira para conturbar o fluxo, onde antigamente ficava um hoje desaparecido córrego. Das casinhas, meia dúzia ainda resta, e senti uma estranha solidariedade com gente que nunca vi, e que deve pedir prestimosa licença para conseguir sair de casa. É muito estranho alguém que mora no Centro desta nervosa metrópole falar isso, mas… sério. Não sei se eu teria saco de encarar voltar para um bairro e ter uma fila indiana na janela do quarto. Para isso, já estou psicologicamente preparado para o deserto dominical das traseiras do Corpo de Bombeiros, quando mais utilizo transporte individual.

Mas não é só uma questão de impaciência. Talvez, na verdade, essa seja só uma consequência de um tipo de mal-estar que ainda não diagnostiquei com muita precisão. Afinal de contas, por mais que São Paulo seja uma cidade que cansa no trânsito intenso, nas miríades de semáforos, no asfalto lunar, na insegurança das vielas, nas enchentes das baixadas, na indiferença dos concidadãos, ainda é o núcleo para onde o país converge. E aqui há tudo, simplesmente tudo: as melhores escolas, os melhores museus, os melhores médicos, os melhores estádios, os melhores cinemas, as melhores lojas. Esse porre provavelmente tem outra origem, e aventar a hipótese de morar no interior passa por uma análise bem cuidada (e pela transitoriedade do aluguel).

É curiosa a reação das pessoas do interior quando confrontadas com suas convicções. Várias pessoas com as quais conversamos sequenciam as vantagens de se morar no campo. Quando você aprofunda um pouco na história delas, é gente que viveu nas grandes cidades, stress após stress, e foi buscar a paz no mundo rural. Mas há uma galera que, pelo contrário, sonha com as capitais, com suas oportunidades exponencialmente maiores. Reclamam do tédio e da falta de perspectivas, e em geral são jovens que nasceram por lá mesmo. O valor para uns e para outros estão em polos diametralmente opostos. É estranho esse ser chamado homo sapiens, não é mesmo?

Entretanto, veio de um senhorzinho já bem senhorzinho uma das frases que mais me atentou a razão. Estando tomando alguns bons copos de vinho em sua adega, a conversa entabulada levou para a pergunta inevitável a estranhos: De onde vocês são? Ao reportar a localidade, nosso simpático e macróbio interlocutor afirma, com um certo ar de melancolia: “Ah, São Paulo... São Paulo sustenta tudo mesmo”. Não sei se eu deveria ter meu ego insuflado, já que não entendo até onde isso é um elogio e até onde isso reflete o que eu mesmo sou, mas o fato é que acaba por se tratar de mais uma azeitona na salada da minha cabeça. Será que eu vivo no melhor lugar possível? Será que a quantidade de recursos disponíveis suplanta qualquer outro tipo de valor?

Sei não. Tenho sentido cada vez mais vontade de me mandar daqui, embora ainda guarde muita relutância. É claro que um ser eminentemente urbano como eu pode até mesmo desejar uma casa de praia ou de campo, o que poderia suprir esse tipo de carência, só que eu superei de longe qualquer desejo nesses moldes. Haverá que demonstre o contrário, mas cem por cento dos casos que conheço pessoalmente resultam naquele arrependimento sintetizado na frase “há duas alegrias na vida de quem tem sítio: uma quando compra e outra quando vende”. Vale o mesmo para casa de praia. Parando para pensar, a empolgação inicial vai para o inferno no primeiro carnê de IPTU, ou na primeira fiscalização da prefeitura, ou na primeira invasão por meliantes, ou no primeiro reparo que lhe ameaçar a estrutura da casa. Mesmo se nada disso acontecer, o primeiro ano é de visitas a cada quinze dias. No segundo, a cada quinze semanas. No terceiro, já é possível passar batido. Sempre a mesma coisa, mesma coisa, mesma coisa, aditivada por manutenção recorrente e caseiro indolente. Tanta abertura a gastos e desencantos brocham nas pessoas qualquer intenção de manter um recanto do guerreiro. Por isso, mesmo que um dia eu possa, já combinei que não. Quando eu achar por bem, pego minha mochila, alugo um lugar e passo os dias desejados. Concluo que sai ferrenhamente mais barato e menos propenso a dores de cabeça.

Mas às vezes penso mesmo em me mudar para uma dessas pequenas urbes. Várias delas me produzem um encantamento, e de repente me vejo projetado em algumas. Em Areias, por exemplo, vi as casinhas que parecem pequenas por fora, mas que possuem quintais gigantescos nos fundos, onde o insondável Homem-Cueca poderia correr à vontade atrás das galinhas que eu certamente passaria a criar. Já em Monte Alegre do Sul talvez eu resolvesse bancar de pesquisador, montando um pequeno alambique nos fundos de casa para desenvolver a cachaça ideal. Ou então em São Luiz do Paraitinga, onde eu me misturaria a um dos povos mais bem-humorados que já conheci, alugando uma casinha na Vila Rosário para assar pães em um forninho de barro a ser montado, para depois filosofar na praça defronte à igreja ou cantar músicas da década de 80 com a patroa, nas mesas do boteco da Dani ou nos pés da escada do Largo do Teatro, embaixo da noite estrelada.


Pensando menos romanticamente, acho que eu estou tentando procurar novamente a minha turma. Durante estes quase nove anos que escrevo por aqui, já choraminguei um bom tanto pelo decréscimo na circulação de gente na minha casa. Ela trafegou de um polo de intensa movimentação de jovens para um lugar quase que pacato, agravada pela mudança do meu menino mais velho para o interior do Paraná, onde ele tenta a vida. Morreu uma pá de gente importante na minha vida: minha mãe, meu pai, meu padrinho, minha comadre, entre outros. Dei-me conta outro dia que, de todos os nove moradores da minha casa na Vila Ema, só sobrou eu. Só eu tenho ainda guardadas as histórias de um período meio grande da minha família como um todo, e isso me assustou um bocado. No âmbito particular, é uma responsabilidade e tanto ser o custodiante desta parcela do “brasão”. Não faz muito tempo, houve uma reunião de família com parentes distantes, que não víamos há mais de 30 anos. Dos descendentes da Mariuccia, minha nonna, só tinha eu!!! E não por falta de convite, mas de sobreviventes. Bom... Chega de chororô.

Sempre que falamos no social, pensamos na estrutura algo mecanicista na qual os indivíduos se articulam. Mas há uma diferença essencial entre a sociedade e a sociabilidade. A primeira diz respeito exatamente a esse aspecto racional dos agrupamentos de seres humanos, enquanto o segundo vai na via do afeto, no modo mais íntimo como as pessoas se relacionam. Há que se marcar bem a diferença: enquanto na sociedade falamos em indivíduos, na sociabilidade falamos em pessoas. Desta forma, há níveis diferentes de sintonia em que “vibramos as nossas frequências” com relação ao nosso meio social. Eu, por exemplo, vivo em um prédio onde mais da metade dos moradores são senhoras de uma ordem católica muito fechada, com pouquíssimo ânimo para relacionamentos mais profundos. Estão exatamente na margem de lá de onde eu vim, com seus limitadíssimos bons-dias e com-licenças. É um fragmento de sociedade, não há dúvida, mas não é um espaço da sociabilidade.

Se eu busco algum lugar onde há experiências sociais ou compartilhamento de sensações estéticas, certamente não é neste vetusto predinho. Quando meus mortos ainda não arrastavam suas correntes e a moçada não tinha criado asas, esse distanciamento era todo suplantado. Quando todos se foram, eu e aqueles da minha casa caímos no tempo das tribos de Michel Maffesoli. É preciso readequar novamente o indivíduo isolado ao seu aspecto coletivo, e isso só se consegue procurando uma nova tribo.

Não quero aqui dizer que colocarei flores na cabeça e virarei hippie. O conceito de tribo em Maffesoli vai além destes simples agrupamentos em torno de uma causa comum (embora os inclua). Segundo ele, uma tribo é uma fusão comunitária onde ocorre uma desindividualização, uma união do toque, da interação íntima e da união de pontos esparsos em uma única massa. Como é no âmbito dos pequenos grupos que a magia da sociabilidade se desdobra, esse neotribalismo dá uma ideia de como a identidade cultural torna possível uma relação que se fundeie no gosto, uma espécie de “retorno ao dionisíaco”, como estabelece o próprio mestre francês. E onde eu posso buscar um novo coletivo do qual eu possa fazer parte? Onde haja algum elemento onde eu me identifique.

Hoje, seria esse: lugares onde eu, a patroa e as crianças (se possível) possamos estreitar aquele velho clima de vizinhança que, sim, podemos dizer que assemelhados a tribos, considerando as quatro características delas –  a informalidade das solidariedades orgânicas desvinculadas do racionalismo, o sentimento de pertença, um ativismo sem vínculos a manuais e a fluidez do aqui e ali incessável, que vai com as marés, como é a própria vida. Falando rapidamente sobre cada uma dessas características, podemos dizer que

1. A cultura que brota das relações de uma tribo não é formal, como aquela que é descrita pelos planos de aulas das escolas ou que cristalizam as regras da linguagem, apenas para dar alguns exemplos. Esta cultura informal é permeada de uma emotividade que foge do racionalismo interposto pela sociedade mais organizada em ponto maior. Assim, as relações da tribo surgem “de dentro”, mais orgânicas e naturais que aquelas que observamos no distanciamento da sociedade estrutural;

2. Quando partimos da premissa que um nicho social é maior que o indivíduo isolado, devemos assumir que um homem não vive sem determinados elementos que vão além de si próprio, e que obrigatoriamente ele estará em relação permanente, não só com o outro, mas com o território onde habita. Maffesoli fala sobre a proxemia, que é a distância relacional existente entre as pessoas e que, por proximidade, acaba por agrupá-las em tribos distintas. Nossa noção de pertencimento é tão forte que tanto pode nos alinhar organicamente ao grupo quanto nos distanciar dos demais;

3. Como a tribo tem razão de ser endógena, o seu ativismo não é principal característica quando se observa seu papel na sociedade maior. Quando ele existe, possui parâmetros totalmente particulares, como o escapismo hippie ou a negação à autoridade punk, que fogem ao escopo social normalmente reconhecido, com o ativismo político através de eleições ou pressão parlamentar;

4. Grupos conformes são impermanentes, variando de acordo com o sabor das circunstâncias ou com a própria deterioração do tempo. Essa fluidez permite que tribos distintas se toquem e até se absorvam, se cindam e se fundam, de modo indefinível.

É em um lugar em que eu me sinta de novo pertencente que eu quero levar patroinha e os filhos que para lá quiserem ir, e lá manter os registros que faço aqui constantemente, tentando trazer ao plano físico aquilo que mantenho ainda hoje na dimensão virtual com vocês, meus ainda resistentes leitores. Vamos ver no que vai dar e bons ventos a todos!!!

Recomendações:

Vamos para o habitual: as distâncias das cidades da série da capital. Nenhuma delas leva mais de três horas de viagem, o que permite os famosos bate-e-volta. Talvez Cunha fique um pouco forçado, mas não é impossível. Vão até lá.

Jambeiro – 118 Km
Paraibuna – 123 Km
Natividade da Serra – 185 Km
Redenção da Serra – 163 Km
Lagoinha – 191 Km
Cunha – 231 Km
São Luiz do Paraitinga – 173 Km
Santa Branca – 94 Km
Salesópolis – 115 Km
Guararema – 79 Km

E também segue a indicação do livro de Maffesoli, sociólogo ainda vivo, que desenvolveu o hoje tão propalado conceito de tribo urbana.

MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos. O declínio do individualismo nas 
sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense, 1998.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 5ª mirada: Lagoinha e umas viajadas no multiverso

Olá!


Após nossa estadia em Paraibuna (e de nossa passagem por Redenção da Serra), o destino era São Luiz do Paraitinga, cidade célebre por seus carnavais de marchinhas e por seu conjunto arquitetônico. Como ficamos lá por vários dias, vou deixar as suas miradas específicas para o final. No momento, basta dizer que os conselhos de viagem que recebemos do Donizetti, nosso anfitrião, incluíram duas outras cidades: Lagoinha e Cunha, e é sobre essa primeira que falarei agora.


Lagoinha é uma pequeníssima cidade de pouco mais de 4000 habitantes. Diferentemente de Natividade da Serra, Redenção da Serra e São Luiz do Paraitinga, a construção de sua zona urbana se deu no alto de um morro, o que lhe permitiu um bom nível de preservação da arquitetura original. O destaque maior vai para dois edifícios: a igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição...


... igreja construída no mesmo estilo de outras cidades tropeiras, em taipa de pilão, como está exposto em uma janela do reboco...



... e o Mercado Municipal, local de negócios dos tropeiros que iam e voltavam do porto de Ubatuba. Como era comum, procurava-se estabelecer um local com água abundante para o pouso das tropas, e ao redor destes locais a cidade ia sendo paulatinamente erigida. Normalmente, esse local era a borda de um rio, mas, no caso de Lagoinha, a fonte aquática era, como se deve suspeitar, uma lagoa. Ela ficava logo abaixo do prédio do Mercado Municipal (hoje desaparecida). Daí, a sua importância histórica.


Lagoinha, como sói acontecer nas cidades mais antigas do interior, é prenhe em elementos religiosos. Além da igreja matriz, outra importante referência católica é a igreja de São Benedito (se não me engano), localizada no cimo de uma ladeira daquelas de tirar o fôlego só de olhar.


Um olhar bem atento na foto acima, bem como na praça à frente da matriz, permitirá notar bandeiras do Divino Espírito Santo. As festas de Pentecostes (50 dias após a Páscoa), que no Cristianismo representam a vinda do Espírito Santo aos apóstolos, são muito significativas nesta região. É coisa praticamente extinta nas maiores cidades, mas que mobilizam as cidades inteiras deste pedaço, com procissões, missas, cantos, fantasias e comida para santo nenhum botar defeito.


A própria entrada da cidade é guarnecida por um Cristo Redentor, que, não convencionalmente, ergue seus braços aos céus, ao invés de abri-los sobre a cidade.


Outro ponto de interesse é o clássico coreto. Vale lembrar que Lagoinha é sede de uma fanfarra muito conhecida no meio, a Fanfarra Padre Chico, e, pelo que pude apurar, aufere muitos prêmios por onde se apresenta. A conferir.


Por fim, este conjunto de dois bonitos prédios, sendo que o da esquerda abriga a Prefeitura Municipal, e o do da direita, o Centro Pastoral.


Mas a grande vedete da cidade é a Cachoeira Grande. Trata-se de uma queda d’água de aproximadamente 40 metros de altura, que tem um efeito visual muito bonito.


A altura impressiona, mas o fluxo de água não é tão grande. Sua desembocadura forma um pequeno riacho, em continuidade ao rio do Pinhal.


A queda d’água forma uma bacia natural de erosão repleta de pedras e areia. Uma água fria, fria, fria de marré, marré, marré, e que, observada de baixo, forma uma ventania de arrancar os cabelos. Olha o gordinho palhaço atrás da pedra...


A cachoeira fica em uma propriedade particular. Por conta disso, foi construída alguma infraestrutura para dar ainda mais funcionalidade ao lugar, como alguns artigos de segurança e caminhos de pedra...


... uma ponte e uma arquibancada (que, aliás, serviu de cenário, neste dia, para as fotos de casamento de um casal de pombinhos. Lamento muito, mais saímos em muitas de suas fotos)...


... e um deck com vestiário. Além disso, para os dias de maior movimento, é aberta uma lanchonete, e há alguns quiosques grandes para a realização de eventos.


O painel geral é esse aí de baixo. Um recanto agradável, para refrescar o coco e tomar um sol. De fato, uma boa recomendação.


No vão que fica por detrás da queda d’água, passo a ter pensamentos quase que infantis. Eu, do alto de meu metro e setenta e sete, que sou diante de uma força da natureza? Uma estrutura escavada por milhares de anos, que tem mais de vinte vezes o meu tamanho... Uma pedra, pequena que seja, caindo na minha cabeça daquela altura, sela meu destino instantaneamente. Alguns graus que baixe a já gelada temperatura, alguns quilômetros por hora que acelere o vento, para me derrubar na bacia e me afogar... Um tombo que me faça ficar inconsciente... Tudo isso dá a mim a dimensão de minha pequenez.

Mas a cabeça começa a ir mais e mais longe. A Cachoeira Grande, a despeito de seu nome, é um ponto minúsculo mesmo em uma área relativamente pequena. Essa é a visão mais próxima que temos do satélite usado pelo Google Maps:


Mas se afastarmos a visualização do mapa para abranger apenas o contexto do município de Lagoinha, a cachoeira fica quase imperceptível:


Mantendo a lógica, veremos que Lagoinha é um pequeno município pertencente a uma sub-região denominada Alto Paraíba, que por sua vez está inserida no contexto do próspero Vale do Paraíba. Já aí, há uma certa dificuldade em se localizar a cidade. Mas, estendido a todo o estado de São Paulo, o exercício fica verdadeiramente duro. É preciso conhecer bem a região para conseguir identificá-la.

Progredindo com a imaginação, teremos que pensar no estado de São Paulo inserido na região Sudeste e no todo maior, o Brasil, país de dimensões continentais. São Paulo tem aproximadamente 3% da área total do Brasil. Se nesta altura do campeonato, Lagoinha já desapareceu do mapa e a Cachoeira Grande passou a ser uma entidade abstrata, que serei eu enfiado nas pedras atrás do véu de água?

Mas vamos continuar a expansão. O Brasil é parte significativa de um todo maior, chamado América, que contém ainda dois outros megapaíses, o Canadá e os Estados Unidos, além de outros países não tão grandes, mas de extensão respeitável: Argentina, México, Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela. Juntando a América às demais áreas continentais, teremos cerca de 1/3 da superfície do planetinha azul. Terra, planeta água. Quem tem minha idade lembra bem do hino do Guilherme Arantes.

Na ordem de grandeza dos planetas do Sistema Solar, a Terra é o maior dos planetas telúricos, aqueles mais próximos ao Sol, mas que são bolinhas de gude quando comparados aos planetas gasosos, a trupe formada por Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Esse ajuntamento de corpos influenciados pelo Sol é limitado pela heliosfera, a zona do espaço em que nossa estrela consegue realizar alguma atração gravitacional e cujo cálculo é muito difícil de estabelecer com precisão. Mas é suficiente saber que todo esse equipamento está situado no Braço de Órion, uma das espiras da Via Láctea, nossa constelação, e que consiste naquela faixa que poeticamente observamos no céu quando há baixa luminosidade. Esqueçam, crianças, de conseguir ver a Via Láctea nas grandes cidades. A não ser que haja um blecaute geral e duradouro o suficiente.

Para saber que a Terra é azul, foi preciso que um cosmonauta soviético saísse do planeta e nos declarasse suas impressões. Como sabemos que a Via Láctea é espiral, se vivemos dentro dela e não temos como escapar dela? Observando o desenho e a formação de galáxias semelhantes. Quando pensamos a Via Láctea como algo gigantesco, observamos que há incontáveis outras galáxias, sendo que compomos, com nossas vizinhas mais próximas, o chamado Grupo Local, que contém mais de 50 delas.

Mas ainda podemos avançar um pouco mais. Nosso Grupo Local influencia e é influenciado por outros grupos de galáxias, que, reunidos em suas atrações gravitacionais, formam uma área gigantesca, chamada de Superaglomerado de Virgem. A Ciência ainda estuda estruturas ainda maiores, as Muralhas, sendo que a Muralha da Cabeleira, a Muralha Sloan e a de Hércules-Corona Borealis já estão consolidadas.

Olhando lá ao fundo, no entanto, consegue-se ir ainda mais além. Com os telescópios espaciais e de alta resolução, os astrônomos conseguiram captar vestígios de radiação que tendem ao vermelho (ler este texto e mais este para compreender melhor) no fundo do horizonte detectável. Esta radiação cósmica de fundo está nos limites do nosso universo conhecido, e demarcam o pouco que resta de detectável do Big Bang, a violenta expansão inicial que deu origem aos nossos quintais.

A grande pergunta que não quer calar: o que haverá além? Será que nosso universo delimita em definitivo o espaço em que toda a realidade acontece? Ou haverá algo mais?

Vamos com calma a partir de agora, porque vamos discutir o multiverso. E, para isso, já vamos estabelecer o que é fato: não existe uma teoria do multiverso, porque ainda não há elementos que permitam qualquer tipo de evidência. O multiverso é ainda apenas e tão-somente uma hipótese, uma especulação, circunscrita mais à Lógica do que à Ciência, que está ainda no campo da metafísica (o que é natural, como já escrevi aqui), mas que começa a apresentar seus pequenos delineamentos, como aconteceu com o átomo, com a gravidade, com as bactérias e muitas outras coisas que só se tornaram concretas muito tempo depois de sonhadas.

A teoria mais aceita para a origem do universo conhecido é o precitado Big Bang, uma imensa e rapidíssima expansão de energia que se deu a partir de um único e minúsculo ponto, como se fosse (mas não exatamente) uma colossal explosão. Um processo de inflação cósmica (uma espécie de gravidade invertida) fez com que o crescimento inicial do universo tenha se dado de maneira exponencial.  Desde então, tudo vai se expandindo e se afastando, entre si e do ponto central.

Acontece que o processo de inflação é desigual. Há lugares onde ela parece ter cessado, há outros em que ela parece acelerada, e outros ainda onde parece quem nem ainda ocorreu. Isso pode dar a impressão de que há algo externo ao universo que influenciaria seu desenvolvimento. Algo que perturbaria os pontos onde a inflação deveria ocorrer. Mas o que poderia ser, se não há nada detectável?

É aí que nasce a especulação do multiverso. Essas perturbações poderiam ser causadas por elementos externos ao próprio universo, seja por outros big bangs que ocorreriam externamente, seja pela interação que ocorreria um com o outro. Podemos ter um universo orbitando outro universo, como a Terra orbita ao redor do Sol. Tudo é possível, e corroborar ou descartar essa teoria ainda levará tempo.

Se o universo já é impossível de ser pensado por nossas pobres mentes descontínuas, imaginem uma infinidade de outros universos, surgidos de outras explosões, com suas regras físicas próprias. O que seríamos nós, já tão miúdos embaixo de uma cachoeira?

Seríamos nada e seríamos tudo. O que é o universo sem a nossa consciência? O que vale ter uma dimensão inconcebível se eu mesmo não estou aqui, para especular sobre ele? Eu sou parte do universo, assim como todos que vivemos também somos, e ele não é nada sem a intencionalidade que temos ao questioná-lo: quem somos, de onde viemos e para onde vamos?

E então, como em um momento de mágica, vejo-me novamente lúcido com o meu redor. Atravesso a parede de água e vou buscar a minha esposa, para tomar uma bela cerveja desses tipos novos no Brasil, provavelmente uma Porter. De boa na lagoa...

Recomendação de leitura:

Recomendo a leitura do curso de Cosmologia do Observatório Nacional, que contém estes e muitos outros ensinamentos na área da Astronomia:

OBSERVATÓRIO NACIONAL. Cosmologia. Da origem ao fim do universo. Coord. Carlos Henrique Veiga. Rio de Janeiro: ON, 2015.