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sexta-feira, 13 de março de 2020

O cesto da gávea de onde observo o mundo – Epílogo: onde continuarei escrevendo minhas histórias?

Olá!


Sabe aquela sensação estranha de coisa incompleta? Tipo quando você vai no estádio ver um jogo que não sai do 0 X 0, ou quando você vai na casa da avó e não come bolinho de chuva? Era mais ou menos o que estava acontecendo com a falta deste texto, que ficou pendente por tempos, desde que concluí os relatos da minha viagem à Vertente Oceânica Norte, nome besuntado de glamour para a região de Paraibuna, São Luiz do Paraitinga e vizinhanças. Gestalt explica? Pode ser, leiam aqui. Tinha deixado este epílogo em stand by, aguardando um retorno ao Núcleo Santa Virgínia, reserva ambiental que fica encravada na Serra do Mar, e que demandaria alguns dias para percorrer algumas de suas longas trilhas. Acontece que eu fui para bem perto de lá nesses últimos dias, e enriqueci esta série com mais quatro textos. Sendo assim, decidi compor este post de fechamento, para tirar esse inútil peso da consciência. Tão logo vá ao Núcleo, farei as inserções necessárias. Esse é o lado bom de ser o patrão das próprias palavras, uma das poucas coisas em que tenho autonomia na vida.

Depois de passar em tanta parte, na maioria das vezes cidades pequenas, com muito pouco a ver com a megalópole paulistana, passei a ficar um pouco mexido nas minhas convicções tipicamente urbanas, e passei a pensar no que eu quererei para daqui a alguns anos, quando certas amarras que ainda me ligam à Terra da Garoa já estiverem suficientemente desatadas.

Vou dar uma ideia do meu estado mental. No último sábado, passei por um lugar em que eu era frequente nos tempos de moleque. A Avenida Renata ligava a Vila Diva à região do cemitério da Vila Formosa, um dos maiores do mundo. Todas as vezes em que um professor pedia um trabalho um pouco mais elaborado, a desmilinguida sala de livros de minha escola não dava conta (leiam a aventura que isso me gerou aqui) e eu acorria para a biblioteca situada naquele logradouro, a menos ruim daquela região. Para quem ia a pé, era um bocado longe, e, para disfarçar a distância, eu ia pelo meio do matagal que encimava os canos da adutora do Rio Claro. De lá, era virar à esquerda na Rua Planeta e pegar a avenida desde o começo. Era um lugar bastante calmo, cheio de casinhas e com um comércio ainda incipiente, de modo a ser um núcleo agregador daquele pedaço da Zona Leste que ainda se assemelhava um pouco às cidades interioranas. Neste sábado passado, muito pelo contrário, fiquei pelo menos meia hora para cruzar seu aproximado quilômetro, coisa que fazia mais rápido na caminhada. Tentei ver o que havia de errado, mas não há nada além de um intenso comércio e uma Avenida Abel Ferreira para conturbar o fluxo, onde antigamente ficava um hoje desaparecido córrego. Das casinhas, meia dúzia ainda resta, e senti uma estranha solidariedade com gente que nunca vi, e que deve pedir prestimosa licença para conseguir sair de casa. É muito estranho alguém que mora no Centro desta nervosa metrópole falar isso, mas… sério. Não sei se eu teria saco de encarar voltar para um bairro e ter uma fila indiana na janela do quarto. Para isso, já estou psicologicamente preparado para o deserto dominical das traseiras do Corpo de Bombeiros, quando mais utilizo transporte individual.

Mas não é só uma questão de impaciência. Talvez, na verdade, essa seja só uma consequência de um tipo de mal-estar que ainda não diagnostiquei com muita precisão. Afinal de contas, por mais que São Paulo seja uma cidade que cansa no trânsito intenso, nas miríades de semáforos, no asfalto lunar, na insegurança das vielas, nas enchentes das baixadas, na indiferença dos concidadãos, ainda é o núcleo para onde o país converge. E aqui há tudo, simplesmente tudo: as melhores escolas, os melhores museus, os melhores médicos, os melhores estádios, os melhores cinemas, as melhores lojas. Esse porre provavelmente tem outra origem, e aventar a hipótese de morar no interior passa por uma análise bem cuidada (e pela transitoriedade do aluguel).

É curiosa a reação das pessoas do interior quando confrontadas com suas convicções. Várias pessoas com as quais conversamos sequenciam as vantagens de se morar no campo. Quando você aprofunda um pouco na história delas, é gente que viveu nas grandes cidades, stress após stress, e foi buscar a paz no mundo rural. Mas há uma galera que, pelo contrário, sonha com as capitais, com suas oportunidades exponencialmente maiores. Reclamam do tédio e da falta de perspectivas, e em geral são jovens que nasceram por lá mesmo. O valor para uns e para outros estão em polos diametralmente opostos. É estranho esse ser chamado homo sapiens, não é mesmo?

Entretanto, veio de um senhorzinho já bem senhorzinho uma das frases que mais me atentou a razão. Estando tomando alguns bons copos de vinho em sua adega, a conversa entabulada levou para a pergunta inevitável a estranhos: De onde vocês são? Ao reportar a localidade, nosso simpático e macróbio interlocutor afirma, com um certo ar de melancolia: “Ah, São Paulo... São Paulo sustenta tudo mesmo”. Não sei se eu deveria ter meu ego insuflado, já que não entendo até onde isso é um elogio e até onde isso reflete o que eu mesmo sou, mas o fato é que acaba por se tratar de mais uma azeitona na salada da minha cabeça. Será que eu vivo no melhor lugar possível? Será que a quantidade de recursos disponíveis suplanta qualquer outro tipo de valor?

Sei não. Tenho sentido cada vez mais vontade de me mandar daqui, embora ainda guarde muita relutância. É claro que um ser eminentemente urbano como eu pode até mesmo desejar uma casa de praia ou de campo, o que poderia suprir esse tipo de carência, só que eu superei de longe qualquer desejo nesses moldes. Haverá que demonstre o contrário, mas cem por cento dos casos que conheço pessoalmente resultam naquele arrependimento sintetizado na frase “há duas alegrias na vida de quem tem sítio: uma quando compra e outra quando vende”. Vale o mesmo para casa de praia. Parando para pensar, a empolgação inicial vai para o inferno no primeiro carnê de IPTU, ou na primeira fiscalização da prefeitura, ou na primeira invasão por meliantes, ou no primeiro reparo que lhe ameaçar a estrutura da casa. Mesmo se nada disso acontecer, o primeiro ano é de visitas a cada quinze dias. No segundo, a cada quinze semanas. No terceiro, já é possível passar batido. Sempre a mesma coisa, mesma coisa, mesma coisa, aditivada por manutenção recorrente e caseiro indolente. Tanta abertura a gastos e desencantos brocham nas pessoas qualquer intenção de manter um recanto do guerreiro. Por isso, mesmo que um dia eu possa, já combinei que não. Quando eu achar por bem, pego minha mochila, alugo um lugar e passo os dias desejados. Concluo que sai ferrenhamente mais barato e menos propenso a dores de cabeça.

Mas às vezes penso mesmo em me mudar para uma dessas pequenas urbes. Várias delas me produzem um encantamento, e de repente me vejo projetado em algumas. Em Areias, por exemplo, vi as casinhas que parecem pequenas por fora, mas que possuem quintais gigantescos nos fundos, onde o insondável Homem-Cueca poderia correr à vontade atrás das galinhas que eu certamente passaria a criar. Já em Monte Alegre do Sul talvez eu resolvesse bancar de pesquisador, montando um pequeno alambique nos fundos de casa para desenvolver a cachaça ideal. Ou então em São Luiz do Paraitinga, onde eu me misturaria a um dos povos mais bem-humorados que já conheci, alugando uma casinha na Vila Rosário para assar pães em um forninho de barro a ser montado, para depois filosofar na praça defronte à igreja ou cantar músicas da década de 80 com a patroa, nas mesas do boteco da Dani ou nos pés da escada do Largo do Teatro, embaixo da noite estrelada.


Pensando menos romanticamente, acho que eu estou tentando procurar novamente a minha turma. Durante estes quase nove anos que escrevo por aqui, já choraminguei um bom tanto pelo decréscimo na circulação de gente na minha casa. Ela trafegou de um polo de intensa movimentação de jovens para um lugar quase que pacato, agravada pela mudança do meu menino mais velho para o interior do Paraná, onde ele tenta a vida. Morreu uma pá de gente importante na minha vida: minha mãe, meu pai, meu padrinho, minha comadre, entre outros. Dei-me conta outro dia que, de todos os nove moradores da minha casa na Vila Ema, só sobrou eu. Só eu tenho ainda guardadas as histórias de um período meio grande da minha família como um todo, e isso me assustou um bocado. No âmbito particular, é uma responsabilidade e tanto ser o custodiante desta parcela do “brasão”. Não faz muito tempo, houve uma reunião de família com parentes distantes, que não víamos há mais de 30 anos. Dos descendentes da Mariuccia, minha nonna, só tinha eu!!! E não por falta de convite, mas de sobreviventes. Bom... Chega de chororô.

Sempre que falamos no social, pensamos na estrutura algo mecanicista na qual os indivíduos se articulam. Mas há uma diferença essencial entre a sociedade e a sociabilidade. A primeira diz respeito exatamente a esse aspecto racional dos agrupamentos de seres humanos, enquanto o segundo vai na via do afeto, no modo mais íntimo como as pessoas se relacionam. Há que se marcar bem a diferença: enquanto na sociedade falamos em indivíduos, na sociabilidade falamos em pessoas. Desta forma, há níveis diferentes de sintonia em que “vibramos as nossas frequências” com relação ao nosso meio social. Eu, por exemplo, vivo em um prédio onde mais da metade dos moradores são senhoras de uma ordem católica muito fechada, com pouquíssimo ânimo para relacionamentos mais profundos. Estão exatamente na margem de lá de onde eu vim, com seus limitadíssimos bons-dias e com-licenças. É um fragmento de sociedade, não há dúvida, mas não é um espaço da sociabilidade.

Se eu busco algum lugar onde há experiências sociais ou compartilhamento de sensações estéticas, certamente não é neste vetusto predinho. Quando meus mortos ainda não arrastavam suas correntes e a moçada não tinha criado asas, esse distanciamento era todo suplantado. Quando todos se foram, eu e aqueles da minha casa caímos no tempo das tribos de Michel Maffesoli. É preciso readequar novamente o indivíduo isolado ao seu aspecto coletivo, e isso só se consegue procurando uma nova tribo.

Não quero aqui dizer que colocarei flores na cabeça e virarei hippie. O conceito de tribo em Maffesoli vai além destes simples agrupamentos em torno de uma causa comum (embora os inclua). Segundo ele, uma tribo é uma fusão comunitária onde ocorre uma desindividualização, uma união do toque, da interação íntima e da união de pontos esparsos em uma única massa. Como é no âmbito dos pequenos grupos que a magia da sociabilidade se desdobra, esse neotribalismo dá uma ideia de como a identidade cultural torna possível uma relação que se fundeie no gosto, uma espécie de “retorno ao dionisíaco”, como estabelece o próprio mestre francês. E onde eu posso buscar um novo coletivo do qual eu possa fazer parte? Onde haja algum elemento onde eu me identifique.

Hoje, seria esse: lugares onde eu, a patroa e as crianças (se possível) possamos estreitar aquele velho clima de vizinhança que, sim, podemos dizer que assemelhados a tribos, considerando as quatro características delas –  a informalidade das solidariedades orgânicas desvinculadas do racionalismo, o sentimento de pertença, um ativismo sem vínculos a manuais e a fluidez do aqui e ali incessável, que vai com as marés, como é a própria vida. Falando rapidamente sobre cada uma dessas características, podemos dizer que

1. A cultura que brota das relações de uma tribo não é formal, como aquela que é descrita pelos planos de aulas das escolas ou que cristalizam as regras da linguagem, apenas para dar alguns exemplos. Esta cultura informal é permeada de uma emotividade que foge do racionalismo interposto pela sociedade mais organizada em ponto maior. Assim, as relações da tribo surgem “de dentro”, mais orgânicas e naturais que aquelas que observamos no distanciamento da sociedade estrutural;

2. Quando partimos da premissa que um nicho social é maior que o indivíduo isolado, devemos assumir que um homem não vive sem determinados elementos que vão além de si próprio, e que obrigatoriamente ele estará em relação permanente, não só com o outro, mas com o território onde habita. Maffesoli fala sobre a proxemia, que é a distância relacional existente entre as pessoas e que, por proximidade, acaba por agrupá-las em tribos distintas. Nossa noção de pertencimento é tão forte que tanto pode nos alinhar organicamente ao grupo quanto nos distanciar dos demais;

3. Como a tribo tem razão de ser endógena, o seu ativismo não é principal característica quando se observa seu papel na sociedade maior. Quando ele existe, possui parâmetros totalmente particulares, como o escapismo hippie ou a negação à autoridade punk, que fogem ao escopo social normalmente reconhecido, com o ativismo político através de eleições ou pressão parlamentar;

4. Grupos conformes são impermanentes, variando de acordo com o sabor das circunstâncias ou com a própria deterioração do tempo. Essa fluidez permite que tribos distintas se toquem e até se absorvam, se cindam e se fundam, de modo indefinível.

É em um lugar em que eu me sinta de novo pertencente que eu quero levar patroinha e os filhos que para lá quiserem ir, e lá manter os registros que faço aqui constantemente, tentando trazer ao plano físico aquilo que mantenho ainda hoje na dimensão virtual com vocês, meus ainda resistentes leitores. Vamos ver no que vai dar e bons ventos a todos!!!

Recomendações:

Vamos para o habitual: as distâncias das cidades da série da capital. Nenhuma delas leva mais de três horas de viagem, o que permite os famosos bate-e-volta. Talvez Cunha fique um pouco forçado, mas não é impossível. Vão até lá.

Jambeiro – 118 Km
Paraibuna – 123 Km
Natividade da Serra – 185 Km
Redenção da Serra – 163 Km
Lagoinha – 191 Km
Cunha – 231 Km
São Luiz do Paraitinga – 173 Km
Santa Branca – 94 Km
Salesópolis – 115 Km
Guararema – 79 Km

E também segue a indicação do livro de Maffesoli, sociólogo ainda vivo, que desenvolveu o hoje tão propalado conceito de tribo urbana.

MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos. O declínio do individualismo nas 
sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense, 1998.

quarta-feira, 4 de março de 2020

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 10ª mirada (2ª parte): o distrito de Luís Carlos evocando os princípios e leis da Gestalt

Olá!


Eu não poderia falar de Guararema e omitir a sua linha de ferro. Somente achei que tinha coisas demais para falar em um só texto. Por isso, entendi por bem quebrar a tarefa em duas e, calmamente, focar-me mais especificamente em temas bem distintos. Isso corrige meu defeito da prolixidade e encurta um pouco a conversa nestes tempos de aversão a textos longos. Desta forma, vamos nos afastar do centro da terra do pau d’alho e caminhar até o distrito de Luís Carlos, que existe justamente em função do trem.


Eu já andei de maria-fumaça em Jaguariúna, já conheci a linha de Passa Quatro e a de São Lourenço, sem esquecer do Memorial do Imigrante de São Paulo, e talvez eu fizesse o mesmo por aqui. Acontece que cheguei muito em cima da hora para comprar as passagens, pelo simples e óbvio motivo de que estava andando por aqui e por ali. Quando fui à bilheteria, já estava tudo esgotado. Passons, vamos fazer de carro o trajeto. Com relação à estação de Guararema, tem a mesma carinha de século XIX de tantas outras que já vi por aí. Ela funcionou durante o período de 1876 até a década de 70, quando a decadência da Central do Brasil a tornou inútil.


Ele somente voltou a operar em 2015, desta vez como trem turístico, ligando o Centro de Guararema ao distrito de Luís Carlos, distantes nove quilômetros um do outro, e que desde 1914 procurava levar imigrantes para aquela região então desprovida de habitantes.


Seu nome deriva de Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros, que, à época da inauguração, era chefe do segundo distrito da Estrada de Ferro Central do Brasil e foi um dos grandes entusiastas da construção desta estação.


É uma vila autenticamente cinematográfica, e foi utilizada por muitos diretores que precisavam criar uma ambientação que retomasse os princípios do século passado, em especial os tempos da chegada dos imigrantes às terras ainda pouco exploradas.


Uma homenagem a eles é feita por meio da área lateral da estação, chamada de Pátio dos Imigrantes. Vi lá nomes italianos, portugueses, espanhóis, alemães, árabes, ingleses e franceses, representativos dos trabalhadores da ferrovia e dos primeiros habitantes da pequena aldeia.


A reoperacionalização da estação levou à reforma não somente do prédio em si, mas de todo o entorno, com o antigo calçamento a macadame sendo completamente trocado e com um forte viés comercial, já que os trilhos trazem boa parte dos turistas que frequentam o Centro de Guararema.


No dia em que eu estava por lá, não vi a Velha Senhora, a locomotiva a vapor que é a vedete da linha. Talvez uma parte do trajeto seja feito com máquina a óleo, que não deixa de ser bastante antiga. Trata-se, no caso, de uma A. Gonigan australiana, de 1978.


A composição é menor que a de Jaguariúna, sendo utilizados três vagões de madeira, todos adaptados para necessidades de acesso. Antigamente, não se pensava muito nessas questões.


Por dentro, o perfil dos vagões é aquele menos popular, com bancos estofados e bastante espaço entre eles. Na inevitável comparação com Jaguariúna, lá os vagões não são de primeira classe, com bancos de madeira nua e mais apertadinhos. Aqui, portanto, temos mais conforto e menos reflexo histórico.


A principal diferença que temos aqui são os vagões caboose, que têm espaços abertos na terminação das composições, permitindo uma experiência diferenciada de viagem ao livre.


Pena que não deu tempo de pegar o trem, mas fica para outra. Até mesmo porque a própria vila é um espetáculo à parte. Absolutamente representativa no início do século XX, dá mostra completa do talento dos muratori italianos, os pedreiros detalhistas da simplicidade.


Um dos imóveis maiores é destinado a ser um espaço expositivo, onde, mais uma vez, o engenheiro Luís Carlos recebe reverência.


Ali, além das exposições transitórias (em minha passagem, havia uma série de reproduções de pinturas conhecidas por alunos da região), há também mostras permanentes com artigos da ferrovia, como esse belo painel de relógios de estação.


O outro prédio grande é utilizado como um receptivo turístico, onde se pode obter mapas da região e da cidade.


Entre os dois prédios, há uma viela que é dedicada a Elias Cecin Zoghbi, um imigrante libanês que foi um dos pioneiros do bairro. No final da ruela, há um grande painel com o desenho da Velha Senhora, uma locomotiva Baldwin de 1927.


No centro da pequena praça central, temos uma pequena capela dedicada a São Lourenço, padroeiro do local. É um dos tantos santos mártires que a igreja católica cultua, com uma curiosidade que já relatei neste texto: ele morreu queimado, mas, ao contrário da costumeira exposição direta ao fogo, aqui tivemos um santo "grelhado". Por isso, sua imagem costuma vir acompanhada de uma grade de churrasqueira.


De resto, toda a área é ocupada por restaurantes, bares e comércio de artesanatos.


A ordenação das casinhas deu meio que uma bugada na minha cabeça. Elas são dispostas de maneira tão bem encaixada entre si que em nada lembram o padrão Bombaim que costumamos ver em Terra da Garoa, onde cada um faz as coisas ao seu modo. Parece mais coisa de Piet Mondrian, o profeta do concretismo geométrico. Dei umas opiniões aqui.


É que eu tenho uma sensação de complementaridade tão forte ao ver as casinhas que a sua proximidade parece estender sua linha ao infinito, como se o ritmo das paredes fosse o mesmo dos trilhos: perdem-se nos confins do horizonte.


É claro que isso não é possível de obter com fotos, mas dá a impressão de que eu buscava uma sensação de totalidade que desse sentido ao contexto da vila. Resolvi o problema com a imagem disposta em um livro.


Isso tudo é loucura? Não. Isso tudo é Gestalt. Vamos falar sobre isso.

A psicologia da Gestalt surge em um momento de profunda divisão entre os adeptos da psicanálise, que exploram o inconsciente, e os behavioristas, cujo grande foco é o comportamento. Sua proposta é dirigida para a maneira como percebemos o mundo e de que maneira isso influencia nosso aprendizado.

A brincadeira toda começa com um insight interessante, quando Max Wertheimer, psicólogo tcheco, em uma viagem de trem, observou o semáforo de sinalização de uma estação que era composto por duas lâmpadas. Entretanto, como cada uma delas acendia e apagava em um momento específico, a impressão que passava era que a mesma luz rolava de um lado para o outro, como se fosse apenas uma. Isso o inspirou a realizar experiências com percepções sensoriais para dar base ao entendimento de como adquirimos elementos do mundo exterior. Em colaboração com Wolfgang Köhler e Kurt Koffka, elaborou um teste com base na alternância de pontos luminosos. Era muito simples: dois círculos instalados em uma superfície plana podiam ser acendidos e apagados, sem que ambos pudessem estar ligados ao mesmo tempo. Se estes pontos eram acesos com uma diferença muito grande de tempo, percebia-se claramente se tratar de dois elementos distintos, com uma transição muito evidente. Por outro lado, se alternância era muito rápida, a percepção era a de que havia dois círculos acesos ao mesmo tempo. Quando se chegava a uma determinada velocidade de alternância, a coisa acontecia – tínhamos a sensação de que o círculo se movimentava, ora para a esquerda, ora para a direita. Ao contrário do que pode parecer a princípio, não se trata de uma mera ilusão de ótica, mas de uma característica da percepção. É o que estes psicólogos denominaram de movimento aparente, produzido por aquilo que foi denominado como fenômeno phi.

Essa experiência por si só é bem interessante, mas, no fundo, levou apenas à constatação de que a percepção precisava ser estudada em sua estrutura, muito além do mecanicismo dos behavioristas ou da quase-metafísica dos freudianos. Nascia assim uma psicologia preocupada com as formas e modo como os objetos se apresentavam aos sentidos do homem que ganhou o nome de gestalt. Essa palavrinha alemã pode ser traduzida como totalidade ou estrutura, mas a melhor expressão possível, no meu entender, se dá com o termo configuração. Isso porque o fenômeno da gestalt se dá através da maneira com a qual os componentes de uma determinada sensação se relacionam entre si, de modo a haver uma configuração que faça o cérebro trabalhar de determinada maneira. Em outras palavras, aos olhos de quem vê, cada conjunto de elementos se constitui em uma gestalt, uma configuração. E essa “conversa” entre elementos é regida por princípios e leis que derivam de nossa atividade cerebral.

Dificilmente uma estrutura está desacompanhada em uma percepção. Uma gestalt é, primordialmente, uma configuração do todo perceptivo que normalmente é composta por outras gestalten*. Vamos para o exemplo. Este é um símbolo bastante conhecido para quem é do mundo do futebol:


Quando a observamos, estamos despreocupados com suas partes. Vemos o todo e resgatamos em nossa memória o seu significado. Entretanto, quando olhamos a imagem analiticamente, podemos perceber como ela é composta por partes, que, isoladamente, mantém algum tipo de sentido.


Ou seja, uma gestalt é um conjunto de gestalten, que podem ser focadas pormenorizadamente de modo a demonstrar como uma configuração apresenta sentido novo ao se relacionar com o espectro maior do todo. Vejam que, a partir de agora, teremos uma gestalt que, isolada do conjunto anterior, tem o significado de bandeira de São Paulo.


O processo de decomposição pode ser levado até o momento em que não haja mais sentido nos elementos remanescentes, ou que tenhamos uma gestalt composta por um único item, como podemos ver abaixo, no mapinha do Brasil já isolado, que ainda guarda seu significado próprio.


O que Wertheimer e colegas notaram é que o efeito phi nada mais era do que uma gestalt. É uma configuração tal que nosso cérebro percebe como movimento algo que, na verdade, é estático. Nada mais do que uma maneira com a qual a mente adquire informações do mundo exterior a partir da relação intrínseca entre os elementos que o compõe. Por esse motivo, sempre que estudamos a psicologia da forma, comete-se o equívoco de sermos bombardeados com ilusões de ótica. Isso não é um erro em si, mas uma visão meio limitada da realidade do que é o fenômeno perceptivo. Mas, por fim e por tudo, por que as coisas acontecem desse jeito?

A resposta está no isomorfismo psiconeural. O processo de aquisição dos sentidos se dá através de nossos órgãos destinados para tal, mas eles, por si só, apenas levam os estímulos ao cérebro. Cabe a este fazer as interpretações que, como é comum em uma espécie que vive do simbólico, podem não ser o sentido estrito do que observamos. É como o distintivo citado anteriormente, que não tem concreção alguma por si só, sendo uma espécie de “catado” de objetos se não houver um processo de construção de significado. As configurações que são apresentadas possuem uma forma de correspondência cerebral e é assim que a nossa massa cinzenta interpreta o que está sendo apreendido pelos sentidos. Trocando em miúdos, o cérebro “encaixa” o conteúdo dos sentidos em um conteúdo da consciência e com isso constrói a representação – há uma correspondência entre a configuração física e a lógica mental. Por isso o termo isomorfismo: “estrutura igual” em grego. E é através do aprendizado que aumentamos nosso acervo mental, dando mais possibilidades de correspondência com fenômenos do mundo exterior. Por isso a psicologia da gestalt é tão importante para a Pedagogia.

Essa é a hipótese fisiológica da coisa que, evidentemente, não é fácil de provar. Mais simples são as constatações fenomenológicas, que demonstram ter a Gestalt uma série de leis e princípios que são maciçamente utilizadas no âmbito da educação e, principalmente, da publicidade. Vou fazer o meu trabalho e trazer os principais itens, desde já lembrando que já foram descritos mais de cem. Como este não é um tratado, vou falar sobre um punhado deles, aqueles mais óbvios.

Princípio da pregnância – Alemães gostam de criar termos e isso nos dificulta a tradução, mas nós vamos sempre tentar. Pregnância é uma expressão que nos indica uma tendência a termos mais facilidade em reconhecer preferencialmente figuras bem estruturadas. Em outras palavras, o cérebro tende a interpretar com mais facilidade elementos visuais que nos são colocados com simplicidade e pouco paradoxo. Vamos fazer uma comparação:


Temos aqui os escudos dos dois principais times gaúchos da atualidade: Internacional e Grêmio. Percebam que, independentemente do valor estético de cada um deles, é extremamente mais simples ler o conteúdo do segundo do que do primeiro. Nele, está escrito “Grêmio” e acabou, sem deixar nenhum tipo de dúvida: é uma gestalt com alta pregnância. Com relação ao Inter, a elegância no entrelaçamento das iniciais faz com a pregnância abaixe, já que não é possível bater o olho e identificar a sequência das letras, e até mesmo o reconhecimento destas é mais complexo, por exemplo. Neste caso, temos um caso de baixa pregnância.

Princípio da super-soma – este é um dos fundamentos mais básicos de todos da teoria da gestalt. Ele indica que o todo não pode ser conhecido simplesmente pela observação de suas partes, já que há uma questão decisiva: a configuração destas partes faz com que se varie o significado do todo. Assim sendo, a soma das partes não significa o todo. O todo é algo diferente da soma das partes, é uma realidade própria. Vejam o seguinte exemplo: temos o distintivo do São Paulo, conhecido por sua simplicidade:


Apesar de não ter uma quantidade imensa de elementos, ainda assim possui partes próprias que podem ser visualizadas individualmente.


Se reunirmos novamente todos esses componentes de maneira aleatória, é evidente que não teremos o escudo do São Paulo, a não ser que respeitemos toda a configuração que o caracterize.


Nosso conhecimento prévio pode até fazer com que percebamos se tratar de um distintivo, mas que certamente não é o do clube que representava originalmente. Desta forma, podemos notar que há algo que vai além da soma das partes para garantir um determinado significado.

Princípio da segregação figura-fundo – quando observamos a totalidade de um estímulo sensório, percebemos que alguns elementos se destacam mais do que outros, pelas mais diferentes razões: centralidade de posição, nível de contraste entre os componentes, colorações mais fortes ou mais fracas, movimento, texturas e muitas outras. Essa capacidade de isolar e evidenciar certos objetos em detrimento de outros é o que se chama de segregação figura-fundo. Figura, no caso, é o elemento de identificação mais forte, enquanto fundo é todo o horizonte que cerca a figura.

Não é tão fácil quanto parece estabelecer qual elemento exercerá a função de figura e qual será seu fundo. Cores berrantes tendem a chamar mais atenção dos sentidos, mas nem sempre isso é verdadeiro. Vejam, por exemplo, o escudo do Lille, clube francês da cidade homônima:


Ele é todo composto por cores fortes, mas é nítido que acabam por formar o fundo, ainda que a figura seja de uma cor normalmente neutra, o branco. Do cão mascote do clube, somente temos a silhueta monocromática. Isso demonstra como a forma, por vezes, prepondera na percepção em relação a outros fatores.

Princípio da tendência à estruturação – pelo que falamos até agora, podemos ter a impressão de que as gestalten somente estimulam o cérebro estaticamente, ou seja, que todas as correspondências isomórficas já estão prontas lá, só esperando ser acionadas. A questão é que os nossos neurônios não são passivos desse jeito, e estão sempre em busca da melhor configuração possível, de forma a compreender uma estrutura como algo inteligível. E dá-lhe correr para aproximar, unir, assemelhar e agrupar os elementos perceptivos de uma forma. Observemos uma das camisas mais bonitas do futebol brasileiro, a do Cruzeiro (peguei a imagem no Mercado Livre):


A dinâmica aqui é muito simples: a camisa azul escuro representa o céu noturno onde a constelação do Cruzeiro do Sul, à guisa de distintivo, tem destaque absoluto. Só que nós conseguimos fazer essa interpretação justamente por termos a propensão a estruturar nossas observações, como fazemos com as estrelas neste caso. Não são simplesmente astros soltos, mas agrupamentos por proximidade e semelhança que, inclusive, remetem a uma estruturação que não está explícita – a forma de cruz que empresta o nome à constelação.

Princípio da constância perceptiva – se estamos falando em elementos que são percebidos pela mente sempre da melhor maneira possível, é possível deduzir que os gabaritos isomórficos saberão se defender de certas variações que, mesmo mudando a configuração apresentada, representam o mesmo objeto. Só com um exemplo para ficar mais compreensível. Vejam a foto das camisas do São Caetano abaixo:


Elas são irmãs gêmeas, compradas no mesmo dia e local, a porta do estádio Anacleto Campanella. Tanto eu como você podemos facilmente perceber isso, mas, se olharmos apenas e tão somente a foto, oticamente poderíamos achar que uma tem a metade do tamanho da outra. Entretanto, este princípio nos diz que saberemos compensar esse tipo de diferença, e que o objeto é o mesmo. Isso vale para quando vemos alguém se afastando, ou algum objeto de ponta-cabeça – apesar da configuração diferente, nossa percepção sobre o elemento é constante.

Princípio da transponibilidade – é a primazia da forma com relação aos demais elementos, e o fato de que esta independe do material com o qual é feita. Essa relação de dominância permite que estabeleçamos o que é prioritário em uma gestalt – uma casa é uma casa, seja de madeira, de pedra, de alvenaria, grande, pequena, longínqua, próxima e etc. Vamos de exemplo:


Estes dois distintivos tem uma diferença fundamental na composição de cores. Na camisa de São Jorge, vemos o escudo original do Corinthians, com sua configuração habitual. Na homenagem a Ayrton Senna, temos o mesmo escudo totalmente dourado. A materialidade da cor não importa. É a forma do escudo que nos identifica se tratar do símbolo maior do clube em tela.

Princípio da unidade – embora seja importante compreender que uma gestalt é constituída por gestalten menores, também precisamos entender que há uma quantidade mínima de elementos necessária para que possamos compreender um objeto como tal, distinto dos demais. Isso é o que denominamos de unidade. Vamos pegar como exemplo uma camisa do simpático Nacional, repleta de anúncios:


Compreendo a necessidade de produzir meios para a sobrevivência, mas esse monte de anúncios enfeia a camisa à beça. Notem, no entanto, que cada um dos elementos é distinguível dos demais por conta da lei da unidade, que reconhece cada um deles isoladamente nesse oceano publicitário, incluindo o quase perdido distintivo tricolor. E a própria camisa pode ser reconhecida como uma unidade em si, apesar de tantos elementos diferentes que a compõe.

Lei da unificação – tem a ver com a harmonia na distribuição dos elementos de uma percepção, em contraposição a arranjos pouco confortáveis. É derivada dos princípios da pregnância e da unidade, e pode ser bem exemplificada por conjuntos simétricos e com balanceamento bem construídos das formas e cores. Caso do distintivo do Botafogo:


Eu não sou botafoguense, mas esse escudo tem tudo de bom. É simples, com linhas bem definidas, poucos penduricalhos, perfeita simetria lateral, cores firmemente contrastantes com fácil segregação de figura-fundo e proporções corretamente arranjadas, de modo a lembrar, de fato, um escudo de guerra.

Lei da proximidade – elementos próximos em uma estrutura tendem a se agrupar em nossa percepção, ao invés de serem vistos como objetos dispersos. Vamos analisar o novo escudo da Juventus de Turim:


É fácil de notar como há dois traços recurvos pretos na forma de jota formando a figura. No fundo, há um terceiro jota meio que escondido entre ambos, na cor branca. Os três se unem para formar a percepção. Além disso, o conjunto parece formar um escudo, usando a lei do fechamento, que veremos já, já.

Lei da semelhança – objetos com características semelhantes entre si tendem a se agrupar no plano perceptivo. É uma tendência nossa fazer categorizações, de modo a enxergar os membros distintos como sendo mais próximos do que podem efetivamente ser. Apelarei para o distintivo do equatoriano Emelec.

Temos aqui dois pontos de semelhança a serem considerados. As vinte e quatro estrelas na barra superior de fato são semelhantes, o que reforça a percepção de agrupamentos, mas as letras bicolores são contrastantes com relação à cor, dando uma sensação de segregação, que só é vencida pela forma. Mas há algo a agrupá-las: a linha de corte imaginária agrupa as metades superiores e inferiores pela cor do conjunto, e não pelas letras individuais. Portanto, a semelhança pode se dar por uma gama relativamente grande de fatores.

Lei do fechamento – se tem alguma coisa que causa um incômodo em nossa mente é a sensação de incompletude. Procuramos desesperadamente dar sentido a formas que insinuam alguma coisa, ainda que falte algo para completá-la, em um processo um tanto semelhante ao que acontece com a pareidolia. Essa é a tendência ao fechamento de formas abertas tão utilizada na publicidade e, pasmem, em escudos de times de futebol! Vejam o do Ajax da Holanda:


A rigor, temos alguns meros rabiscos pretos dentro de um círculo vermelho. Embora sejam traçados que simplesmente insinuam uma forma, nossa mente vai procurar completá-los de modo a formar o barrete, o rosto barbudo e os ombros do guerreiro mitológico grego que doou seu nome ao clube de Amsterdam.

Lei da continuidade – outra tendência de nossa mente é tentar prever os movimentos que uma determinada forma pode ter. Interrupções bruscas prejudicam a fluidez e parecem tornar mais difíceis as compreensões de uma forma. A sucessão de elementos, ainda que sofra descontinuidades, traz consigo uma propensão em torná-los contínuos, e aí eu posso enquadrar meu bug com os predinhos do distrito. Além disso, alongamentos de partes fazem sugerir uma rota dos movimentos, como no símbolo do Red Bull Leipzig:


Percebam os riscos laterais nos tourinhos. Eles dão a impressão do movimento circular de um salto para o ataque, além de sugerir uma certa velocidade no encontrão futuro. Percebam que os movimentos propendentes à circularidade são mais pregnantes do que angulaturas muito agudas. De fato, quando viramos uma esquina, mesmo que a trajetória tenha a forma de um cotovelo, não mudamos de direção simplesmente virando o corpo, como se fôssemos robozinhos. Há uma certa gradualidade na linha imaginária que produzimos que demonstram uma naturalidade nos movimentos arredondados.

Lei do caráter de participação – Uma parte dentro de um todo tem características definidas pelo seu contexto. Nem sempre uma parte terá a mesma participação em diferentes gestalten, como o raio que significa mau tempo em sentido estrito, mas pode representar ódio em um sentido figurado. Além disso, um eventual mau posicionamento de um único elemento não desvirtua o sentido geral do todo. Olhem com atenção esse antigo escudo do Bragantino:


Apesar da troca das letras do nome, não há nenhum tipo de dúvida com relação ao que ele representa. Conseguimos interpretar perfeitamente o que está escrito, sem a necessidade rigorosa de ter tudo no seu lugar. Além disso, nossa pressa faz com que tendamos a produzir uma “leitura dinâmica” artificial, o que é uma armadilha em provas de lógica ou de português.

Ufa! Que texto gigantesco, mas acho que valeu a pena. A vila do seo Luís Carlos, engenheiro, funcionário da companhia ferroviária, traz não só uma revisita ao passado, mas a possibilidade de compreender um pouco melhor o modo como observamos o mundo ao nosso redor. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

A Gestalt tem sido mais bem considerada pela Publicidade do que pela Psicologia. Não sei se isso não é um equívoco, mas em Pedagogia é vital. Na minha faculdade, eu estudei através desse livro:

KÖHLER, Wolfgang. Psicologia da Gestalt. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.

* plural de gestalt

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 10ª mirada (1ª parte): Guararema e as mimetizações do desejo

Olá!


Não me incomodo com a chuva, mas... chega, né? Depois de dois dias amassando barro com pneus e sapatos, o dia de ir embora amanheceu com bom sol. Seria apenas mais uma ironia do destino, mas o fato é que ainda havia o dia inteirinho para flanar por aí, então não há nada a lamentar, muito pelo contrário. Malas, café, contas e rua. Despedimo-nos de Santa Branca rumo a oeste, por uma estrada secundária que nos levou para Guararema, a terra das orquídeas (embora não tenhamos ido atrás de nenhuma)


Cheia de atrativos naturais e culturais, Guararema é incrivelmente perto da Pauliceia Desvairada, pertencendo mesmo à região metropolitana, embora sua relativa calma não faça transparecer essa condição. Faz parte do cinturão verde metropolitano, e destaca-se o rio Paraíba do Sul, que corta a cidade em seu centro, limpo como não estamos habituados a ver. O Recanto do Américo, mais conhecido como Pau d’Alho, é um dos símbolos da cidade, já que seu nome veio exatamente desta espécie, e há um exemplar de duzentos anos em destaque bem na orla do rio.


Dizem que em dias de intensa umidade é possível sentir o cheiro de alho que esta árvore exala. Não senti nada, talvez pelos anos de tabagismo. A patroa tem um faro mais fino e uma ojeriza proverbial pela amarilidácea, e não deu sinais de náuseas, o que confirma a ausência. É uma praça composta por decks de onde podem ser acessadas algumas das ilhas fluviais que povoam o leito. Uma das pontes é do tipo pênsil, com o tablado sustentado por cabos.


Como eu disse, estamos ao lado de um rio de porte bastante razoável, mas que não se encontra morto, como sói acontecer nas proximidades das grandes urbes. Isso favorece a pesca e o uso do curso como lazer. Como o povo adora jogar comida para os peixes, eles sempre estão lá em profusão.


Outro acesso à margem se dá pelo pátio do Zé da Bala e pela travessa Dona Victória. O primeiro era um farmacêutico habituado a distribuir balas para as crianças, enquanto a mulher era sua esposa. Trata-se de uma plataforma de madeira que ladeia a borda do rio, e que leva ao...


... Centro Artesanal Dona Nenê, que reúne uma série de artesãos da região. As especialidades são artigos de bambu, barbante, tecelagem, madeira e materiais recicláveis.


A principal ilha fluvial, no entanto, é a Ilha Grande, que foi transformada em parque nos idos da década de 2000. Seu acesso se dá por trás da igreja matriz, através de outra obra de arte significativa, uma ponte em arco metálica com tablado de madeira.


Ao lado desta entrada, há um monumento em formato de fonte com a figura de alguns peixes. Imagino que sejam guarus. O homenageado é o próprio rio Paraíba do Sul, central no interesse de Guararema.


O parque é todo bem cuidado, uma espécie de Ibirapuera local, onde há cerca de meio quilômetro de trilhas e uma série de espaços de convivência. É um bom exemplo de frescor nos dias quentes, seja pela arborização, seja pela cercania do rio. Há ainda o NEA – Núcleo de Educação Ambiental, um espaço para palestras que fica bem no meio da ilha.


Recebemos umas boas dicas de almoço. Uma delas, saindo um pouco do centro, fica dentro do Parque da Pedra Montada, que fica em uma região repleta de plantações de eucaliptos, mas que, dada a grande quantidade de pedras, foi reservado um pequeno recorte para a preservação das formações rochosas. É um terreno com um grande desnível, onde há uma estrutura totalmente em madeira para abrigar administração, comes e bebes.


O parque tem esse nome por causa de um conjunto de duas pedras em sobreposição, sem qualquer aparato que as sustente. A pedra de cima parece que vai escorregar a qualquer instante, mas a dupla é estável, embora a cerca que lhe protege denuncie a intenção de alguns visitantes de lhe subirem nas costas.


Indo mais ao alto, há uma outra formação que, esta sim, dá para subir. É a Pedra do Tubarão, que realmente lembra o peixe. O pessoal da foto, simpaticamente, não se importou com a reprodução, e até brincou um bocado com a gente.


Foi aí que buscamos nosso almoço, um prato de traíra com arroz e legumes, guarnecidos com batata e creme verde. É caro, mas o ambiente é muito legal e a comida é verdadeiramente boa. Estando ainda em clima de bodas, valeu a pena.


Depois de fazer o quilo, fomos até o bairro da Lagoa Nova para conhecer o estabelecimento do meu xará, o Alambique do Décio. Na verdade, o homônimo já morreu, e o negócio é conduzido pelo filho Degmar. É uma longa linhagem de alambiqueiros, que produz sua aguardente desde 1905.


Meu pai, também Décio, já conhecia o lugar e me trouxe uma canequinha de lá. Como eu me apresentei e comprovei o nome, ganhei uma garrafinha da amarelinha de graça! Hoje, o estabelecimento cresceu bastante, e inclui pesqueiro e restaurante.


De lá fomos para o distrito de Luís Carlos, mas é tema para o próximo texto, sob pena de ficar longo demais o atual. Chegamos no centro novamente bem no finzinho da tarde, a tempo de ir ao Mirante do Gerbásio, que foi um prefeito de Guararema.


É o ponto mais alto da cidade, e tem uma bela vista para todo o núcleo urbano e para as montanhas, além de dar oportunidade ao pôr do sol.


Ficamos lá até a natureza acabar de se exibir. Depois disso, fomos ao bar que fica próximo ao parapeito norte para tomar uns líquidos...


... que, aliás, é esse aí da foto. Logo após o ocaso, o local fica substancialmente mais vazio.


No topo, uma coleção dos principais símbolos da cidade: as pontes, as igrejas, a pedra montada, o trem e sua fumaça no formato tortuoso do rio Paraíba do Sul.


Como vou tratar de um tema específico, dei uma quebrada no aspecto temporal e vou falar agora das igrejas históricas existentes na cidade, que fui pontuando durante todo o transcorrer do dia. A primeira delas é a matriz, dedicada a São Benedito, a mais central e próxima do rio de todas elas.


Outra delas é bem mais antiga, e fica na Freguesia da Escada. A informação no frontão é que foi construída em 1652. No entanto, este é o ano da primeira capela. A que tem formato atual é de 1732 e se chama Nossa Senhora da Escada. Fica em uma praça típica dos arraiais da época do desbravamento. Pelo fato de estar afastada da via pública, é muito silenciosa e tranquila, associada a uma arquitetura bem representativa da época imperial...


… em um viés diferente daquele que nos acostumamos a ver nos centros das cidades. Ao contrário do rebuscamento do estilo barroco, temos aqui uma igreja espartana, com pouca decoração e muita solidez nas paredes de taipa de pilão. Tudo lá prima pelo simples e rústico.


Talvez a coisa mais insólita dessa igreja seja a imagem de São Longuinho, uma espécie de padroeiro dos objetos perdidos, para quem se prometem três pulinhos no encontro da peça. Sua discrepância entre popularidade e frequência nos nichos de santos se dá pela extrema imprecisão de suas fontes históricas. Conta-se que era o soldado que furou o lado do corpo de Jesus na crucificação (Jo 19, 34), e que se converteu ao ser molhado pelo sangue e pela água. Sua melhor fonte é a Legenda Áurea, coletânea da vida de mártires já há muito considerada apócrifa pela Igreja Católica. Daí, o fato de ser melhor reconhecido pela crença popular do que pelos cânones oficiais, como acontece com São Jorge.


Na outra ponta da cidade, no alto de um outeiro, fica a capela de Nossa Senhora d'Ajuda, em estilo bastante semelhante à anterior e ainda mais antiga, de 1682. É daquelas igrejas que possuíam um cemitério aos fundos, que era utilizado para enterrar escravos.


Para chegar à capela, é preciso vencer uma escadaria de 80 degraus. Em seu interior, há uma imagem de Nossa Senhora d'Ajuda que, segundo se conta, veio de Portugal em uma das caravelas da frota do descobrimento. O fato é que a data de sua confecção é incerta, sendo cediço ser muito antiga.


É uma igreja que encontrou muitos problemas até a dona Cidinha, sua zeladora, se propor a construir uma casinha nas proximidades, para não só lhe dar manutenção, mas principalmente para vigiá-la. É que, até o começo dos anos 2000, era um patrimônio histórico em ruínas, completamente abandonado, sendo utilizado principalmente como ponto de venda de drogas, com tudo o que isso traz junto: prostituição, violência física, escambo de objetos roubados, pichação das paredes, quebra das portas e janelas e così via. A própria imagem histórica foi recolhida antes que fosse extraviada.


Por mais que compreendamos o drama da drogadição, por mais que saibamos que o sentimento religioso não é um impeditivo para o cometimento de crimes, e por mais que tenhamos consciência do menosprezo governamental à questão do patrimônio histórico, o fato é que o desencontro que existe entre um lugar de culto e a prática de violência é chocante, até mesmo para quem não é vinculado à religião. Ainda que não seja uma regra absoluta, as diferentes religiões não costumam dar manifestos que fujam do pacifismo*. Então, mais do que um misticismo, a reverência à coisa sagrada é algo a ser esperado de qualquer um. A um religioso da própria fé, por motivos óbvios; de outras, pela mutualidade esperada no respeito; e de um ateu, pelo simples fato de que as consciências deveriam ser livres, e que se alguém pensa diferente, isso não é um motivo para que seu espaço não seja mantido incólume. Isso tudo sem pensar no aspecto histórico.

É evidente que nosso modelo social permite esse tipo de fenômeno, porque está em seu substrato uma lógica de exclusão que favorece o vilipêndio às coisas caras a quem mora na parte de cima do sobrado, mas, quando se pensa na religião como um lenitivo e um refúgio, também ao rés-do-chão deveria interessar o cuidado com o templo. E isso tudo torna as respostas difíceis. Mas podemos sempre tentar.

Começando pelo começo, vou relembrar de mais um episódio da vida deste escriba. Eu já falei outrora que comecei minha então incipiente vida acadêmica numa escolinha de paróquia. De lá, eu trago uma das lembranças mais remotas que tenho com clareza na memória, e que coincide com a de muitas outras crianças: o primeiro dia de aula. Eu, na verdade, nutria grande expectativa em ir para a escola, porque eu aprendi a ler muito novinho. Então era com orgulho que, vestido com o fardamento quadriculado em azul e branco, encaminhei-me à sala designada, ladeado pela minha mãe até a porta. Tudo estava tranquilo, e eu nem pensei no fato de que ficaria sozinho, quando o primeiro petiz mais agarrado à genitora iniciou o coral das lamentações, que se espraiou unanimemente por todo o recinto como aqueles caminhos de rato que fazemos desmanchando bombinhas, incluindo este que vos narra. A Pedagogia mais moderna recomenda cuidado nestes momentos, com uma transição leve e menos traumática, mas a coisa era mais cascuda naqueles tempos inóspitos, e a solução era a espera da professora Amélia por uma redução no tamanho da onda, amparando os mais exaltados. Lembro que ainda por mais uns três dias eu e outros ainda chorávamos no portão de entrada, até que, belo dia, resolvi por mim mesmo: “Chega de choro”. Se eu queria de fato ir para a escola, como a maioria de meus pequenos colegas, por qual motivo aquela tristeza toda se desdobrava?

A resposta está na palavrinha mimese. É um tema muito vasto na Psicologia, na Sociologia e, óbvio, na Filosofia, tanto que já tratei várias vezes do tema aqui no blog (sobre selvageria, sobre memes, sobre lixeiras e sobre rapport), e que vamos utilizar novamente. É assim: eu dou uma coçadinha, você dá uma coçadinha. Eu dou uma tossidinha, você dá uma tossidinha. Eu dou uma bocejada, você dá uma bocejada, e logo todo mundo ao nosso redor boceja também. Esse é o princípio geral que as risadas mecânicas das comédias tentam despertar: por imitação, induzem o público a rir no momento “certo”. Mais ainda: se eu digo que estou com dor nas costas, meio que automaticamente você dá uma conferida se está tudo em ordem em sua espinha, ou se eu olho assustado para determinada direção, você fará a mesma coisa, tudo isso inconscientemente. O homem aprendeu a imitar, porque isso lhe ajudou a evoluir, pelo simples fato de sermos seres sociais. Aquele choro das crianças nada mais é do que isso. A quebra da normalidade puxa a fila das reações, mesmo que não haja motivo algum para isso.

Pois muito bem. O filósofo francês René Girard entende que o processo de mimese é intrínseco ao ser humano e é tão poderoso que funciona inclusive em pontos mais escamoteados da realidade. Fundamentalmente, ela atua na lógica do desejo.

Quando pensamos no desejo, sempre imaginamos uma relação dual: há um ser que deseja e um objeto que é desejado. Assim, de uma forma ou de outra, uma entidade externa, o objeto, provoca em um sujeito um afeto de expectativa na obtenção ou alcance, e ça tout. No entanto, aparentemente procurarmos um referencial para os nossos desejos, porque estamos permanentemente inseguros com relação ao que queremos. Sendo assim, a relação com o desejo não é dupla, mas triangular. Entre o sujeito e o objeto do desejo, há um tertius que serve de paradigma para a relação. Nosso desejo é, portanto, terceirizado e dominado pelo Outro. Isso demonstra uma ausência de autonomia com relação aos nossos objetos de desejo – há sempre um terceiro intermediando a formatação daquilo que queremos. Isso tudo é muito fácil de enxergar. Artistas de TV e influenciadores digitais ditam moda. Jogadores de futebol e funkeiros ostentam riquezas em cada simples ato. Tornam-se ideais porque são o modelo máximo de nosso meio social. É o que Girard chama de desejo mimético.

Uma relação destas não pode deixar de ser conflituosa. É evidente que nem sempre esse Outro vai se tornar um peso. Cito como exemplo este meu texto, onde reconheço uma série de influências na minha escrita. É perfeitamente possível afirmar que, ao reproduzir um modelo reconhecível de escrita, eu tenha concretizado o desejo de escrever pela régua de meus influenciadores. Se eu queria aplicar a fluidez de Flavio Gomes ou a imbricação formal/coloquial de Sérgio Porto, não é aceitável admitir que eu desejei algo do estilo deles? Entretanto, essa é uma exceção. Em geral, o modelo não é visto como um referencial isento, mas como um rival, e todo o contato que se tem com ele é marcado pelo ressentimento. Isso tudo porque temos apenas um objeto que é disputado pelo sujeito e pelo modelo, com primazia do segundo. Confuso? Vamos lá. Torço para um time qualquer e há um objetivo nisso: projetar as vitórias que a vida me nega. Só que os títulos não vêm – as taças se encaminham para outra sala de troféus. O meu desejo é alimentado pelas conquistas do meu adversário. À merda com futebol bonito, com tradição, com revelações, com categorias menores. O que eu quero é exatamente o que o Outro tem, e vou me debater com ele pelo butim do desejo mútuo. Só que o dono dos títulos, hoje, é ele, e a inveja parte de mim para ele, e não o contrário. É isso.

Agora pensemos por analogia em nossa sociedade de consumo, movida a desejo. Já se viu onde vamos parar, né? Publicidade massiva, grande penetração dos meios de comunicação e uma certa democratização no acesso à informação são os temperos que fazem com que o motor do impulso consumista gire a altas rotações, em espiral progressiva. O órgão cutucado é exatamente o do desejo e, por mais que não se faça transparecer, muito daquilo que se é posto é inatingível. As agências de viagens mostram fotos da velha Europa ou do Caribe. Quantos de nós podemos adquiri-las? As concessionárias exibem carrões movidos a pensamento. Quem pode comprar? Celulares são renovados nas vitrines a cada dia. Quem aguenta o ritmo? O pior é que tem quem. Poucos, mas têm. Esses são os Outros de camadas inteiras da população. Enquanto a coisa está só no âmbito da inveja, vida que segue, apesar do desconforto. O problema é quando o imperativo suplanta os limitadores sociais e o Outro vira inimigo, e o objeto de desejo se converte em objeto de disputa, e nos becos escuros explode a violência. O carro inatingível, o celular incomparável e o tênis de malaco é conseguido pelo roubo, pela ameaça, pela morte. Dessa forma, temos que a mimetização dos desejos sai da chave da admiração para cair na infinitamente mais perigosa perspectiva da posse a qualquer custo, porque carrega consigo uma boa dose de vingança.

Mas o Outro não fica parado. Ao se estabelecer o ciclo da violência, inverte-se o giro da roda. É preciso encontrar o agora inimigo que está no outro polo para se desejar ardentemente a sua aniquilação. Claro que, quando pensamos em duas pessoas envolvidas, é mais fácil de se saber contra quem voltar o foco. No entanto, quando pensamos em um organismo social, o ódio pode se voltar contra um segmento inteiro. De qualquer forma, o ato da vingança é uma inadequação a uma resolução racional e pacífica, de forma a se constituírem bodes expiatórios. O mais clássico deles é o povo judeu vítima do holocausto. Quando a Alemanha se viu destruída pela Primeira Guerra e assolada pelas duras cláusulas do Tratado de Versalhes, tratou de buscar alternativas onde elas eram as piores possíveis. Os nazistas apresentavam os judeus como bode expiatório perfeito: um povo de fora, possuidor de bens e dinheiro, recluso em seus costumes. Seu aniquilamento representaria a redenção dos alemães castiços. Sabemos bem onde tudo isso foi parar.

Quando o imperativo do consumo atinge nossas classes mais pobres, encontra-a fragilizada. É claro – o desejo se torna inatingível, mas visto pela ótica do Outro, ou seja, da classe privilegiada, ganha um rival objetivo. Seu caminho é pela via do crime, algo que, no final das contas, foi imposto por essa mesma classe, que domina as ações políticas. No entanto, quando essa mesma classe reage, olha para os pobres como um todo criminalizado, e o bode expiatório é justamente aquele pobre que não tem sua defesa. O crime se organiza e se encastela, mas o pobre é eleito, como um todo, como o bode expiatório de toda essa relação. Para o criminoso, o pobre é um refém; para a elite financeira, uma usina produtora de bandidos.

No fim, Girard apresenta o bode expiatório como uma solução para o conflito dos desejos, mas vamos tratar disso com mais cuidado em outro momento, porque vai envolver muita coisa, inclusive religião. Por ora, basta entendermos que o vilipêndio da Capela d’Ajuda se deu, nesta perspectiva, não só pelos fatores técnicos (construção abandonada em local escondido), mas por uma questão de métrica dos valores de duas classes colocadas em oposição – o sagrado abandonado por uma tem proveito pragmático por outra, ainda mais porque há uma lógica mimética nisso. É um espaço que ambas querem, mas que lhes é inconciliável o compartilhamento. E que se dane a história, porque não é em todo lugar que haverá uma dona Cidinha para quebrar a corrente do conflito.

De resto, meus caros conterrâneos paulistanos, já tornando menos amarga minha fala, Guararema é daqueles lugares onde é possível passar um domingão inteiro de boa, sem a pressa do retorno dos lugares distantes. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Girard não é simples, mas faz uma coisa saudável: fala sobre Psicologia fora do âmbito científico, mas no filosófico, porque justamente não pretende tratados científicos, e sim com escopo aberto, que inclua especulação e religião.

GIRARD, René. A Violência e o Sagrado. São Paulo: Paz e Terra, 2008.
  
* Marchas para Jesus com dedinhos simulando arminhas contradizem o que estou dizendo? Sem dúvida, mas em Filosofia tentamos aplicar a lógica a todo o custo, o que nem sempre é conseguido em sociedades exóticas como a nossa.