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sexta-feira, 13 de março de 2020

O cesto da gávea de onde observo o mundo – Epílogo: onde continuarei escrevendo minhas histórias?

Olá!


Sabe aquela sensação estranha de coisa incompleta? Tipo quando você vai no estádio ver um jogo que não sai do 0 X 0, ou quando você vai na casa da avó e não come bolinho de chuva? Era mais ou menos o que estava acontecendo com a falta deste texto, que ficou pendente por tempos, desde que concluí os relatos da minha viagem à Vertente Oceânica Norte, nome besuntado de glamour para a região de Paraibuna, São Luiz do Paraitinga e vizinhanças. Gestalt explica? Pode ser, leiam aqui. Tinha deixado este epílogo em stand by, aguardando um retorno ao Núcleo Santa Virgínia, reserva ambiental que fica encravada na Serra do Mar, e que demandaria alguns dias para percorrer algumas de suas longas trilhas. Acontece que eu fui para bem perto de lá nesses últimos dias, e enriqueci esta série com mais quatro textos. Sendo assim, decidi compor este post de fechamento, para tirar esse inútil peso da consciência. Tão logo vá ao Núcleo, farei as inserções necessárias. Esse é o lado bom de ser o patrão das próprias palavras, uma das poucas coisas em que tenho autonomia na vida.

Depois de passar em tanta parte, na maioria das vezes cidades pequenas, com muito pouco a ver com a megalópole paulistana, passei a ficar um pouco mexido nas minhas convicções tipicamente urbanas, e passei a pensar no que eu quererei para daqui a alguns anos, quando certas amarras que ainda me ligam à Terra da Garoa já estiverem suficientemente desatadas.

Vou dar uma ideia do meu estado mental. No último sábado, passei por um lugar em que eu era frequente nos tempos de moleque. A Avenida Renata ligava a Vila Diva à região do cemitério da Vila Formosa, um dos maiores do mundo. Todas as vezes em que um professor pedia um trabalho um pouco mais elaborado, a desmilinguida sala de livros de minha escola não dava conta (leiam a aventura que isso me gerou aqui) e eu acorria para a biblioteca situada naquele logradouro, a menos ruim daquela região. Para quem ia a pé, era um bocado longe, e, para disfarçar a distância, eu ia pelo meio do matagal que encimava os canos da adutora do Rio Claro. De lá, era virar à esquerda na Rua Planeta e pegar a avenida desde o começo. Era um lugar bastante calmo, cheio de casinhas e com um comércio ainda incipiente, de modo a ser um núcleo agregador daquele pedaço da Zona Leste que ainda se assemelhava um pouco às cidades interioranas. Neste sábado passado, muito pelo contrário, fiquei pelo menos meia hora para cruzar seu aproximado quilômetro, coisa que fazia mais rápido na caminhada. Tentei ver o que havia de errado, mas não há nada além de um intenso comércio e uma Avenida Abel Ferreira para conturbar o fluxo, onde antigamente ficava um hoje desaparecido córrego. Das casinhas, meia dúzia ainda resta, e senti uma estranha solidariedade com gente que nunca vi, e que deve pedir prestimosa licença para conseguir sair de casa. É muito estranho alguém que mora no Centro desta nervosa metrópole falar isso, mas… sério. Não sei se eu teria saco de encarar voltar para um bairro e ter uma fila indiana na janela do quarto. Para isso, já estou psicologicamente preparado para o deserto dominical das traseiras do Corpo de Bombeiros, quando mais utilizo transporte individual.

Mas não é só uma questão de impaciência. Talvez, na verdade, essa seja só uma consequência de um tipo de mal-estar que ainda não diagnostiquei com muita precisão. Afinal de contas, por mais que São Paulo seja uma cidade que cansa no trânsito intenso, nas miríades de semáforos, no asfalto lunar, na insegurança das vielas, nas enchentes das baixadas, na indiferença dos concidadãos, ainda é o núcleo para onde o país converge. E aqui há tudo, simplesmente tudo: as melhores escolas, os melhores museus, os melhores médicos, os melhores estádios, os melhores cinemas, as melhores lojas. Esse porre provavelmente tem outra origem, e aventar a hipótese de morar no interior passa por uma análise bem cuidada (e pela transitoriedade do aluguel).

É curiosa a reação das pessoas do interior quando confrontadas com suas convicções. Várias pessoas com as quais conversamos sequenciam as vantagens de se morar no campo. Quando você aprofunda um pouco na história delas, é gente que viveu nas grandes cidades, stress após stress, e foi buscar a paz no mundo rural. Mas há uma galera que, pelo contrário, sonha com as capitais, com suas oportunidades exponencialmente maiores. Reclamam do tédio e da falta de perspectivas, e em geral são jovens que nasceram por lá mesmo. O valor para uns e para outros estão em polos diametralmente opostos. É estranho esse ser chamado homo sapiens, não é mesmo?

Entretanto, veio de um senhorzinho já bem senhorzinho uma das frases que mais me atentou a razão. Estando tomando alguns bons copos de vinho em sua adega, a conversa entabulada levou para a pergunta inevitável a estranhos: De onde vocês são? Ao reportar a localidade, nosso simpático e macróbio interlocutor afirma, com um certo ar de melancolia: “Ah, São Paulo... São Paulo sustenta tudo mesmo”. Não sei se eu deveria ter meu ego insuflado, já que não entendo até onde isso é um elogio e até onde isso reflete o que eu mesmo sou, mas o fato é que acaba por se tratar de mais uma azeitona na salada da minha cabeça. Será que eu vivo no melhor lugar possível? Será que a quantidade de recursos disponíveis suplanta qualquer outro tipo de valor?

Sei não. Tenho sentido cada vez mais vontade de me mandar daqui, embora ainda guarde muita relutância. É claro que um ser eminentemente urbano como eu pode até mesmo desejar uma casa de praia ou de campo, o que poderia suprir esse tipo de carência, só que eu superei de longe qualquer desejo nesses moldes. Haverá que demonstre o contrário, mas cem por cento dos casos que conheço pessoalmente resultam naquele arrependimento sintetizado na frase “há duas alegrias na vida de quem tem sítio: uma quando compra e outra quando vende”. Vale o mesmo para casa de praia. Parando para pensar, a empolgação inicial vai para o inferno no primeiro carnê de IPTU, ou na primeira fiscalização da prefeitura, ou na primeira invasão por meliantes, ou no primeiro reparo que lhe ameaçar a estrutura da casa. Mesmo se nada disso acontecer, o primeiro ano é de visitas a cada quinze dias. No segundo, a cada quinze semanas. No terceiro, já é possível passar batido. Sempre a mesma coisa, mesma coisa, mesma coisa, aditivada por manutenção recorrente e caseiro indolente. Tanta abertura a gastos e desencantos brocham nas pessoas qualquer intenção de manter um recanto do guerreiro. Por isso, mesmo que um dia eu possa, já combinei que não. Quando eu achar por bem, pego minha mochila, alugo um lugar e passo os dias desejados. Concluo que sai ferrenhamente mais barato e menos propenso a dores de cabeça.

Mas às vezes penso mesmo em me mudar para uma dessas pequenas urbes. Várias delas me produzem um encantamento, e de repente me vejo projetado em algumas. Em Areias, por exemplo, vi as casinhas que parecem pequenas por fora, mas que possuem quintais gigantescos nos fundos, onde o insondável Homem-Cueca poderia correr à vontade atrás das galinhas que eu certamente passaria a criar. Já em Monte Alegre do Sul talvez eu resolvesse bancar de pesquisador, montando um pequeno alambique nos fundos de casa para desenvolver a cachaça ideal. Ou então em São Luiz do Paraitinga, onde eu me misturaria a um dos povos mais bem-humorados que já conheci, alugando uma casinha na Vila Rosário para assar pães em um forninho de barro a ser montado, para depois filosofar na praça defronte à igreja ou cantar músicas da década de 80 com a patroa, nas mesas do boteco da Dani ou nos pés da escada do Largo do Teatro, embaixo da noite estrelada.


Pensando menos romanticamente, acho que eu estou tentando procurar novamente a minha turma. Durante estes quase nove anos que escrevo por aqui, já choraminguei um bom tanto pelo decréscimo na circulação de gente na minha casa. Ela trafegou de um polo de intensa movimentação de jovens para um lugar quase que pacato, agravada pela mudança do meu menino mais velho para o interior do Paraná, onde ele tenta a vida. Morreu uma pá de gente importante na minha vida: minha mãe, meu pai, meu padrinho, minha comadre, entre outros. Dei-me conta outro dia que, de todos os nove moradores da minha casa na Vila Ema, só sobrou eu. Só eu tenho ainda guardadas as histórias de um período meio grande da minha família como um todo, e isso me assustou um bocado. No âmbito particular, é uma responsabilidade e tanto ser o custodiante desta parcela do “brasão”. Não faz muito tempo, houve uma reunião de família com parentes distantes, que não víamos há mais de 30 anos. Dos descendentes da Mariuccia, minha nonna, só tinha eu!!! E não por falta de convite, mas de sobreviventes. Bom... Chega de chororô.

Sempre que falamos no social, pensamos na estrutura algo mecanicista na qual os indivíduos se articulam. Mas há uma diferença essencial entre a sociedade e a sociabilidade. A primeira diz respeito exatamente a esse aspecto racional dos agrupamentos de seres humanos, enquanto o segundo vai na via do afeto, no modo mais íntimo como as pessoas se relacionam. Há que se marcar bem a diferença: enquanto na sociedade falamos em indivíduos, na sociabilidade falamos em pessoas. Desta forma, há níveis diferentes de sintonia em que “vibramos as nossas frequências” com relação ao nosso meio social. Eu, por exemplo, vivo em um prédio onde mais da metade dos moradores são senhoras de uma ordem católica muito fechada, com pouquíssimo ânimo para relacionamentos mais profundos. Estão exatamente na margem de lá de onde eu vim, com seus limitadíssimos bons-dias e com-licenças. É um fragmento de sociedade, não há dúvida, mas não é um espaço da sociabilidade.

Se eu busco algum lugar onde há experiências sociais ou compartilhamento de sensações estéticas, certamente não é neste vetusto predinho. Quando meus mortos ainda não arrastavam suas correntes e a moçada não tinha criado asas, esse distanciamento era todo suplantado. Quando todos se foram, eu e aqueles da minha casa caímos no tempo das tribos de Michel Maffesoli. É preciso readequar novamente o indivíduo isolado ao seu aspecto coletivo, e isso só se consegue procurando uma nova tribo.

Não quero aqui dizer que colocarei flores na cabeça e virarei hippie. O conceito de tribo em Maffesoli vai além destes simples agrupamentos em torno de uma causa comum (embora os inclua). Segundo ele, uma tribo é uma fusão comunitária onde ocorre uma desindividualização, uma união do toque, da interação íntima e da união de pontos esparsos em uma única massa. Como é no âmbito dos pequenos grupos que a magia da sociabilidade se desdobra, esse neotribalismo dá uma ideia de como a identidade cultural torna possível uma relação que se fundeie no gosto, uma espécie de “retorno ao dionisíaco”, como estabelece o próprio mestre francês. E onde eu posso buscar um novo coletivo do qual eu possa fazer parte? Onde haja algum elemento onde eu me identifique.

Hoje, seria esse: lugares onde eu, a patroa e as crianças (se possível) possamos estreitar aquele velho clima de vizinhança que, sim, podemos dizer que assemelhados a tribos, considerando as quatro características delas –  a informalidade das solidariedades orgânicas desvinculadas do racionalismo, o sentimento de pertença, um ativismo sem vínculos a manuais e a fluidez do aqui e ali incessável, que vai com as marés, como é a própria vida. Falando rapidamente sobre cada uma dessas características, podemos dizer que

1. A cultura que brota das relações de uma tribo não é formal, como aquela que é descrita pelos planos de aulas das escolas ou que cristalizam as regras da linguagem, apenas para dar alguns exemplos. Esta cultura informal é permeada de uma emotividade que foge do racionalismo interposto pela sociedade mais organizada em ponto maior. Assim, as relações da tribo surgem “de dentro”, mais orgânicas e naturais que aquelas que observamos no distanciamento da sociedade estrutural;

2. Quando partimos da premissa que um nicho social é maior que o indivíduo isolado, devemos assumir que um homem não vive sem determinados elementos que vão além de si próprio, e que obrigatoriamente ele estará em relação permanente, não só com o outro, mas com o território onde habita. Maffesoli fala sobre a proxemia, que é a distância relacional existente entre as pessoas e que, por proximidade, acaba por agrupá-las em tribos distintas. Nossa noção de pertencimento é tão forte que tanto pode nos alinhar organicamente ao grupo quanto nos distanciar dos demais;

3. Como a tribo tem razão de ser endógena, o seu ativismo não é principal característica quando se observa seu papel na sociedade maior. Quando ele existe, possui parâmetros totalmente particulares, como o escapismo hippie ou a negação à autoridade punk, que fogem ao escopo social normalmente reconhecido, com o ativismo político através de eleições ou pressão parlamentar;

4. Grupos conformes são impermanentes, variando de acordo com o sabor das circunstâncias ou com a própria deterioração do tempo. Essa fluidez permite que tribos distintas se toquem e até se absorvam, se cindam e se fundam, de modo indefinível.

É em um lugar em que eu me sinta de novo pertencente que eu quero levar patroinha e os filhos que para lá quiserem ir, e lá manter os registros que faço aqui constantemente, tentando trazer ao plano físico aquilo que mantenho ainda hoje na dimensão virtual com vocês, meus ainda resistentes leitores. Vamos ver no que vai dar e bons ventos a todos!!!

Recomendações:

Vamos para o habitual: as distâncias das cidades da série da capital. Nenhuma delas leva mais de três horas de viagem, o que permite os famosos bate-e-volta. Talvez Cunha fique um pouco forçado, mas não é impossível. Vão até lá.

Jambeiro – 118 Km
Paraibuna – 123 Km
Natividade da Serra – 185 Km
Redenção da Serra – 163 Km
Lagoinha – 191 Km
Cunha – 231 Km
São Luiz do Paraitinga – 173 Km
Santa Branca – 94 Km
Salesópolis – 115 Km
Guararema – 79 Km

E também segue a indicação do livro de Maffesoli, sociólogo ainda vivo, que desenvolveu o hoje tão propalado conceito de tribo urbana.

MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos. O declínio do individualismo nas 
sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense, 1998.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Navegações de cabotagem – O Soca Paçoca de São Luiz do Paraitinga e os momentos em que tradição é diferente de conservadorismo

Olá!


A vida é um eterno devir, já dizia nosso bom e velho Heráclito. Ainda que Parmênides não concordasse muito, o fato é que aqui não tratamos de Metafísica, mas de quotidiano mesmo. E este não para, como o tal rio no qual não nos banhamos duas vezes, seja porque ele não é mais o mesmo, seja porque nós não o sejamos. Digo tudo isso porque, hoje em dia, e dados todos os turbilhões pelos quais minha vida passou no recém findo decênio*, minhas redes de amizades ficaram muito mais restritas ao pessoal que conheço e mantenho contato em cidades do interior do que na capital da brava gente paulista. São coisas da vida e resisto estoicamente à melancolia, fazendo justamente o que? Visitas in loco a essa galera. É o que fiz no último inverno, na virada de agosto para setembro, quando fui mais uma vez a São Luiz do Paraitinga, terra que já visitei mais de dez vezes desde a primeira vez que lá fui, no contexto da série do cesto da gávea de onde observo o mundo, lá pelos idos de setembro/2016. Meio que me empolguei com a cidade, tanto que tomei a inédita e ainda irrepetida atitude de dedicar três textos à dita cuja (legíveis aqui, aqui e aqui). Fomos à loja nova da Neca, costureira e agitadora cultural que mora na Vila do Rosário, mas que finalmente se convenceu a descer o morro e transferir seus artesanatos para o miolo onde as coisas acontecem. Antes de ir até a casa da Dani, a Neca perguntou se a gente tinha vindo para a festa. Festa? Que festa?

São Luiz do Paraitinga não passa duas semanas sem ter algum tipo de evento, seja ligado ao folclore, seja ligado à religiosidade, seja ligado à história, seja por pura farra. Portanto, é muito difícil dar com as costas por aqui e não pegar algum tipo de agito em andamento. No caso, estávamos no meio da temporada de inverno, e a festa em questão tinha o curioso nome de Soca Paçoca.



O festival é extremamente simples. Os sitiantes de todas as partes do município se juntam na praça da Matriz com amendoim e outros ingredientes para que as pessoas aprendam a fazer paçoca, um dos doces mais populares da culinária brasileira, dada sua simplicidade e baixo custo. Porém, ao contrário das paçoquinhas Amor e Paçoquita, feitas em maquinário moderno, aqui a coisa se desenrola no método tradicional, ou seja, no pilão.



E o que é um pilão, além de uma marca de café, meus jovens? É um artefato de madeira escavado em uma única peça, que dá ao pedaço de tronco o formato aproximado de um cálice. Deve ser feito com uma árvore suficientemente seca e cuja madeira não interfira no sabor dos alimentos que serão processados em seu interior.



Sua função é produzir a moagem de alimentos, preponderantemente grãos. Esse trabalho é feito através de uma haste contendo uma ponta arredondada, chamada de mão. O material desta haste precisa ser mais duro do que o do pilão, para que tudo se dê como manda o figurino.



Esse labor é chamado de “soca”, pelo óbvio motivo de que os grãos são socados na cuba do pilão até ser reduzidos a pó. Não serve só para moer amendoim, mas para separar cascas de arroz, limpar grãos de café e qualquer outro trabalho que dependa de golpes sucessivos.



Mas, como estamos falando de paçoca, o Soca Paçoca se restringe ao amendoim e demais ingredientes. Os próprios produtores rurais se encarregam de trazê-los para a festa, com o apoio do pessoal que se voluntaria para fazer as medidas e distribuições.



A soca produz um ruído ritmado característico, que não pode ser muito rápido para não cansar, nem muito lento para não render. Quando há pilões maiores, a soca pode ser feita por mais pessoas de uma só vez, e, neste caso, o sincronismo é de rigor. É aí que a coisa começa a ficar mais interessante. Ao som das pancadas, temos um fundo rítmico com o qual os antigos colonos podiam entoar canções para acompanhar a lida, como já era comum com as lavadeiras e outros ofícios cadenciados e monótonos.



No caso do produto doce, os ingredientes são muito simples: amendoim, açúcar mascavo (de preferência) e farinha de milho. É bater, bater e bater até que o próprio óleo do amendoim se encarregue de fazer a liga, dando uma consistência mínima para o granulado.



Já a paçoca salgada, feita com carne, é um pouco mais trabalhosa. Além do amendoim e da farinha de milho, é colocada carne já temperada e cozida na mistura, além das pimentas usuais para quando os antepassados queriam dar uma disfarçada no sabor já meio “passado” da carne guardada por dias. Era uma maneira de se defender dos recursos escassos de outrora. O preparo também é mais longo, e o resultado final é semelhante a uma farofa.



Tudo é muito saboroso, e, novamente ao contrário das Paçoquitas, não se tratava de uma guloseima infantil, mas de uma alimentação consumida como desjejum ou almoço. Por isso, o seu acompanhamento mais célebre era café passado em coador de pano, que também é preparado aos litros durante a festa.



Como eu disse, conforme o pessoal vai pegando compasso, a soca perfaz um fundo percussivo, e os violeiros o utilizam para compor seu som. O grupo Orgulho Caipira já realiza essa tarefa no Soca Paçoca há anos, quando comandam as festividades e reproduzem antigas canções de ofício, além de sucessos bem conhecidos da música de raiz.



À medida que o pessoal da cidade vai chegando, e os turistas vão se reunindo a eles, a praça vai ficando cheia, e já não há pilões livres (na verdade, já há filas neles). Ninguém se aborrece: a dinâmica da festa é que a galera comece naturalmente a dançar neste momento. Algumas das danças são bem típicas, como o sabão e o catira.



Mas o que há de pano de fundo nessa festa? É que São Luiz do Paraitinga é uma cidade que foi fundada por tropeiros, os responsáveis pelo transporte entre os portos e as regiões das minas, situadas no atual estado de Minas Gerais, através do conjunto de caminhos e ramais conhecido como Estrada Real. Tudo isso era feito no lombo de burros, o bicho mais forte e adaptado ao terreno acidentado que caracterizava o trajeto.



Em tempos em que não existiam geladeiras, era necessário obter alimentos que combinassem alto valor nutritivo, boa capacidade de conservação, facilidade possível no preparo e, claro, um mínimo de sabor aprazível. Tudo isso podia ser conseguido com as simpáticas paçocas, tanto a doce quanto a salgada.



Sua origem é indígena, cujo nome remete justamente ao seu modo de preparo. Há uma variação bastante grande por todo o país, sendo que em algumas regiões é utilizada a farinha de mandioca, ou compactada em forma de barras e rolhas, quando é necessária uma compressão maior. Todas as paçocas produzidas no evento são do tipo pulverizada, daquelas que são vendidas em saquinhos, e distribuída livremente para os comilões.



No final das contas, podemos lançar olhares diferentes sobre este divertido evento. Para quem passa de passagem, é pura gulodice de um povo que adora uma festa. Para quem entende haver ali uma manifestação cultural um pouco menos rasa, já é possível entender que temos um pouco da história daquele povoado sendo contada, mas esse é um alheamento que impede de ver um pouco de nossos próprios traços sendo descritos ali. Afinal de contas, em toda a região do Vale do Paraíba podemos encontrar inúmeros referenciais que remetem à época em que o costado das mulas era o principal meio de transporte de mercadorias, que incluem os mercados, os marcos, os aguadouros e tantas outras peças, e são aproveitados casarios para se constituir museus, e os logradouros e estabelecimentos relembram esta época, e acabamos por esquecer que nós mesmos, paulistanos da garoa, somos também habitantes de uma terra de tropeiros. Infelizmente, sobraram pouquíssimos testemunhos físicos desta época, e que não são suficientes para formar contextos que satisfaçam a memória. Na Ladeira da Memória resta uma figueira e um painel de azulejos que representam a atividade de coleta de água que ocorria poucos metros abaixo; havia inúmeros tanques, como no Bixiga, no atual Largo do Paissandu e no Cambuci. Aliás, a Rua dos Lavapés tem esse nome não por uma homenagem à solenidade católica, mas porque era ali o local onde os tropeiros vindos de Santos podiam se acomodar e lavar seus pés antes de entrar no trecho urbano da Capital. A construção melhor conservada que marca a presença tropeira é o antigo Matadouro Municipal, que hoje abriga a Cinemateca Brasileira. É tudo tão pouco e tão disperso que é preciso procurar com uma lupa para achar, e, pior ainda, sem nenhuma possibilidade de criar um conjunto sem muita pesquisa e esforço mental.

Marcas do progresso, é possível pensar. Progresso desordenado, certamente, e com uma boa possibilidade de cometer o bisonho erro de achar que São Luiz do Paraitinga e outras são cidades que pararam no tempo: se por um lado mantém boa dose de suas tradições, por outro estão em um estágio anterior de desenvolvimento. Essa foi a roupagem que os primeiros antropólogos deram ao fenômeno da cultura, uma espécie de Teoria da Evolução aplicada ao modus vivendi dos diferentes povos. Dessa forma, olhamos com estranheza para cidades onde a vida é menos corrida e com menos recursos, traduzidos em toda aquela galera mandando braço no amendoim como se aquele modelo cultural fosse menos avançado do que nossa paçoca industrial*. Eles estariam, por esta via de pensamento, em um estágio anterior ao nosso, e seriam uma espécie de “registro fóssil” do que viria a ser tornar uma grande cidade.

O erro neste pensamento é o uso incorreto do termo “evolução”. Mesmo na teoria biológica, ele é inapropriado, porque um organismo que não possuir pressões ambientais para passar pelo filtro da seleção natural tenderá a se manter o mesmo, ad aeternum. Por conseguinte, as culturas se modificam de acordo com as pressões que sofrem, sem possuir uma escala hierárquica que diz qual é mais primitiva e qual é mais avançada. Por isso, falar em evolução no sentido de melhora é uma impropriedade. Comparar culturas é válido apenas quando não adotamos uma delas como parâmetro de superioridade.

Nós, paulistanos, fomos tão tropeiros quanto os luizenses, mas houve um momento tal em que o mundo girou e o café bifurcou o destino de ambas as cidades. E as condições materiais de cada uma estabeleceu o que elas são hoje. Desta forma, há valores diferentes em jogo. O paulistano médio, por exemplo, não gosta do Carnaval*** que o luizense adora. Só os católicos paulistanos mais carolas dão bola para a solenidade do Pentecostes, enquanto em Paraitinga a cidade inteira se mobiliza, se bobear até mesmo os não-católicos. A régua da cultura não é uma só – é múltipla, na proporção de uma para cada nicho de povo.

É o que ensina a antropologia do Relativismo Cultural, que nasceu especialmente de Franz Boas, um estudioso alemão que emigrou para os Estados Unidos no final do século XIX. Após participar de uma expedição entre os esquimós do norte do Canadá, convenceu-se de que não fazia sentido estudar as culturas sentado em um escritório, a meio de cafezinhos e cigarros. Somente com contato seria possível obter definições importantes. Uma delas é central na obra de Boas: não existe o conceito de raça. Se há raça, ela é humana. E, para isso, a ideia de evolução cultural é totalmente desprovida de sentido. Isso porque o mundo se apresenta a cada uma das sociedades de maneira diferente, e cada uma delas trata de arrumar uma solução para cada problema. Vejam que as dificuldades, apesar de serem as mais variadas possíveis, costumam ser assemelhadas entre diferentes regiões. Todos precisam de alimento, de refúgio, de território, de reprodução, de organização política e assim sucessivamente. Mas o modo como cada uma das etnias vai trafegar por essas necessidades é que dá especificidade para suas culturas. Por exemplo: obtida a alimentação, é preciso encontrar meios para preservá-la pelo maior tempo possível. A salga é uma dessas maneiras, mas é muito mais fácil de obter para povos litorâneos e ilhéus; outra é o resfriamento, mas como falar disso para povos equatoriais? É mais típica em regiões árticas. Os povos tropicais podem utilizar a desidratação, mais eficiente neste pedaço do globo. Salgar, gelar ou secar não possuem uma hierarquia de importância, porque resolvem eficientemente o mesmo problema da conservação de comida, e assim é também com todos os demais componentes intrínsecos a cada etnia, por isso não se pode dizer que uma cultura é mais avançada que a outra, porque cada uma delas usou o meio material que tinha à mão e conseguiu solucionar uma questão. Por esse exemplo simples, que pode ser estendido a qualquer outro aspecto onde a cultura aja, percebemos que é incongruente especular qual das etnias está em um ponto mais avançado que as outras. Ninguém quer que o luizense continue a preparar sua paçoca nos pilões, sem utilizar de tecnologia, mas que nunca perca de vista o quanto ela simboliza de importante na sua formação como povo. O paulistano perdeu muito disso na imensidão da metrópole impessoal. Desta forma, a tradição da forma que é demonstrada na praça da matriz de SLP não é uma questão de conservadorismo, de elementos imutáveis que, por uma razão ou por outra, faz com nos achemos melhores do que os outros, mas a exibição de um componente de nossa história, que é sempre atual, que é sempre renovada, e que explica o que somos hoje. A tradição só é conservadora quando nos prende ao passado, quando nos impede de avançar como seres humanos.

Boas, da forma que pudemos observar, prefigura duas nuances que serão vitais para as correntes da Antropologia que lhe seguirão. Ao sair dos gabinetes para tomar contato direto com determinada cultura, antecedeu a etnografia que caracterizou o Funcionalismo de Malinovski; ao detectar que os diferentes povos possuem as mesmas necessidades e desenvolvem soluções com as mecânicas que tem ao seu dispor, iniciou o pensamento que iria desembocar no Estruturalismo de Levi-Strauss, que defendia a existência de uma estrutura comum a todas as sociedades. Com isso, e pensando ainda mais na abolição do conceito de raça, não podemos deixar de considerá-lo um grande precursor do pensamento antropológico contemporâneo.

Quanto a mim, dei uma forrada básica no estômago, inclusive com um lote especial sem açúcar. Bons ventos a todos!

Recomendações:

Para quem curte a cultura vista do lado de dentro, Franz Boas é um autor muito respeitável, e, embora já não esteja na crista da onda, é imprescindível para entender para onde caminhou essa Ciência. Não se entende a Antropologia sem Boas, assim como não se entende o presente sem a tradição.

BOAS, Franz. A Mente do Ser Humano Primitivo. São Paulo: Vozes, 2011

E tem o Soca Paçoca. Acompanhem pelo site da Prefeitura de São Luiz do Paraitinga. Geralmente acontece durante o inverno.

* Vamos tomar cuidado com as confusões. A década atual se iniciou em 2011 e só vai terminar em 2020. Quando falamos em anos 70, por exemplo, estamos falando de um período de dez anos (decênio) que começa pelo ano que os denominam e terminam quando essa denominação acaba. Em miúdos, começa em 1970 e termina em 1979.

** Queria lembrar que estou apenas usando a força do exemplo. Eu sei que há paçocas industriais em SLP.

*** É bem verdade que o Carnaval de rua tem crescido bastante nos últimos tempos em SP. No entanto, é um fenômeno que vem meio na carga das ações da Prefeitura, e precisamos ver quanto tempo levará para que tal movimento se torne legitimamente espontâneo. Ainda há muita cagação de regra censura no imaginário quatrocentão.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 7ª mirada (3ª parte): São Luiz do Paraitinga - A Religião e a religiosidade - o distrito de Catuçaba

Olá!


Conforme eu disse quando comecei a falar sobre São Luiz do Paraitinga, não iria cair na tentação de acabar logo com as miradas desta cesta da gávea, e que trabalharia com mais partes. O distrito de Catuçaba merece sua atenção especial, mesmo pertencendo à municipalidade logo atrás mencionada, o que farei a partir de agora.


Catuçaba tem a estrutura típica de uma pequena cidade do interior: um pequeno núcleo urbano rodeado por imensidões de verde, principalmente plantações e pastagens. Temos aqui uma série de estradinhas de terra que conduzem para algumas fazendas históricas, e para inúmeras cachoeirinhas. Acho que a mais conhecida de todas é da do seu Renô (não sei como se escreve, vou manter um espelho da dicção), que lhe empresta o nome.


Trata-se de uma queda relativamente pequena, de uns 30 metros, e que tem um leito bastante acidentado, o que exige algum tipo de cuidado com crianças...


...porque dá muita tentação em pegar um dos seus veios laterais e fazer de tobogã...


... e desaguar de bunda no remanso final, todo fundeado de areia.


O principal rio da região é o Ribeirão do Chapéu, do qual as águas do seu Renô fazem parte. A água aqui não é tão gelada, o que colabora com as atividades contemplativas, um lugar muito calmo. Tendo o formato de um vale, a impressão que se tem é de um certo isolamento, mesmo ficando a poucos metros da entrada do sítio.


Rápido registro para quem gosta de futebol. A região é inundada por quero-queros (queros-queros? Queros-quero? Os quero-quero? Os quero-queros?), o pássaro tão típico dos nossos campos, que sempre arriscam suas penas durante as partidas do esporte bretão.


Mas quem é o tal do seu Renô? É o dono dessas paragens, um senhor de 90 e poucos anos que, por si só, já é uma atração. Ele não cobra nada pela visitação, apenas pede que os frequentadores colaborem com o comércio local, o que parece justo. Ele mesmo tem um bar anexo à sua casa, no alto da colina que ladeia a cachoeira.


Tirei uma foto dessa homenagem que está pendurada em uma das paredes do boteco, que serve uma cachaça forte, que a patroa defendeu com maestria e desenvoltura. Ele mesmo serviu pessoalmente a gente, com azeitonas e amendoins, e sentou para nos contar umas histórias.


Seu Renô é um dos principais agitadores culturais da região, mantenedor de tradições (como a folia de Reis e a Cavalhada) que não fecha os olhos para a modernidade. Pode parecer incrível, mas, no dia da nossa visita, estava sendo preparado um palco para um pequeno festival, que tinha como principal atração o músico conhecido como Ventania, além de uma banda do distrito e da cantora luizense Patrícia Guimarães...


Para quem não conhece, Ventania é uma espécie de miscigenação da estética bicho-grilo de Raul Seixas com o conteúdo lisérgico de Marcelo D2. Pessoas da cidade, como a Neca Junqueira ou a Thais do Binidito, juram de pé junto que o seu Renô não sabe exatamente quem é Ventania. No entanto...

Com relação à comunidade citadina, que se formou ao redor da antiga estrada que levava a Cunha e Paraty, é um aglomerado em que habitam cerca de 800 pessoas, em área cercada por montanhas. Como tal, há escadas com todo tipo de degraus.


Apesar do conteúdo histórico das edificações, não há nada com tanto destaque quanto ao centro da sede. São casas simples, muitas relativamente novas, com calçamento recente, e com umas jardineiras em construção. Possui um comércio bastante incipiente, na base do um de cada tipo: uma padaria, um restaurante, um açougue, um mercadinho, um boteco (mais de um, é bem verdade).


O destaque vai para o complexo composto pela igreja de São Pedro, de onde se conta que vários combatentes da Revolução de 32 ficaram escondidos por ocasião das batalhas. Aqui, muitos dos pracinhas deixaram seus registros rabiscados nas paredes.


No adro, fica também o prédio do velório da localidade...


... porque, logo atrás da igreja, fica o cemitério do distrito. Em suma, quase todo o dispositivo religioso fica concentrado num só lugar.


Na ladeira de pedras à frente do adro da igreja, duas curiosidades: uma capelinha de pedras em homenagem a Nossa Senhora Aparecida...


... e o posto da primeira linha telefônica instalada em Catuçaba, que aconteceu em dezembro de 1981. Vão-se 35 anos de sua instalação, mas isso mostra uma defasagem de mais de 100 anos em relação à primeira linha do estado de São Paulo (132 anos) e do Brasil (139 anos). Nestes tempos de celulares múltiplos, imaginem o que era não existir nem um telefone público...


Finalmente, no alto do outeiro e ao lado da igreja, fica a casa e fábrica Senza Rivale, que produz artigos religiosos em tecido de todo tipo. Trata-se de uma casinha com uma oficina anexa, construída no pavimento superior. A entrada da fábrica é a sala de estar da família. E o recepcionista/campainha é um cachorrinho felpudo.


Sob o comando do seu Valdemar e família, são feitas roupas de alta qualidade para atender as demandas dos cultos católicos, que, como se bem sabe, é bastante complexo em suas necessidades litúrgicas.


São aplicações de filigranas a mão, bordados, pinturas de pincel finíssimo, feitos em estolas, toalhas, casulas, conjuntos de altar e tudo o mais. Conheci muitas oficinas de costura, mas essa aqui prima pelo detalhe.


Foi inevitável o afloramento de reminiscências da infância, de quando minha mãe costureira se debruçava sobre sua máquina de costura madrugadas adentro, ocupando a sala e a cozinha à guisa de oficina. Mesas de comer eram tábuas de corte, cadeiras eram cabideiros, mesmo a tevê era estante para armazenar fazendas. Ela utilizava uma máquina praticamente idêntica a essa primeira.


Outras coisas era preciso fazer fora, como o trabalho de tinturaria. Minha mãe não tinha o pesado e escaldante ferro a vapor, para delinear todos os vincos com perfeição.


Pela oficina há ainda muitos acessórios que tantas vezes corri atrás, alguns difíceis de achar, como essa carretilha de marcar molde, além de giz, lápis, agulhas, carretéis de todas as linhas, vieses, forro, entretela, zíper, etiqueta, botão, aplicação de ilhós, cadarço, passador de elástico, lantejoulas, colchetes, rebites, fitilhos, etc e etc.


A oficina no seu Valdemar e a cachoeira do seu Renó são dois locais para o exercício de uma mesma característica humana: a religiosidade. Mas apenas um é lugar de religião. Vamos entender isso, desde já combinando que religiosidade e espiritualidade serão tratadas aqui como sinônimos.

A melhor exemplificação que já ouvi de religiosidade até hoje veio de um padre, o frei Anacleto Gapski. Em um de seus sermões, ele dizia algo mais ou menos assim:

“Os antigos gregos olhavam para o céu e viam nas estrelas as aventuras e desventuras de seus deuses e heróis. Viam as coisas que lhes alegravam e lhes afligiam. Viam arte, história, origens e destinos. Viam cães, ursas, dragões, cisnes, pavões... Viam a natureza e a obra humana. Hoje nós olhamos para o céu e – pobres de nós – não vemos nada a não ser pontos brilhantes espalhados por todos os lados. Isso quando a luz artificial das cidades nos permite vê-las. Os gregos tinham uma espiritualidade que nós perdemos”.

Percebam como esse discurso é crivado de uma religiosidade desligada da religião – que, no caso do frei Anacleto, frade franciscano, é a cristã. Percebam como pode ser aplicado em uma igreja, em uma sinagoga, em uma mesquita, em um terreiro, em um centro, em qualquer templo, e até mesmo fora deles. O mesmo se dá, em mais um exemplo, a alguns escritos próprios de determinadas religiões. Sabemos que São Paulo era mais rigoroso que o próprio Jesus na prescrição de regras à sua comunidade, e que, de certa forma e por isso mesmo, acabou moldando muito do Cristianismo subsequente. No entanto, quando observamos o capítulo 13 da primeira carta aos Coríntios, mais conhecido como Hino ao Amor (celebrizado na música Monte Castelo, do Legião Urbana- “Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria”), notamos que seu alcance é universal, aplicável praticamente a toda e qualquer religião, e mesmo fora delas. É tanto um texto da religião, quanto da espiritualidade, porque não é preciso ser cristão e nem mesmo religioso para sentir um certo enlevo ao ouvir essas palavras, como quem ouve uma música, embriaga-se com um perfume, admira o céu estrelado ou contempla uma cachoeira e se banha em suas águas.

A religiosidade é uma espécie de intuição sobre algo que transcende os sentidos humanos. Talvez o nascimento desse sentimento seja algo semelhante ao seguinte: o homem tem a dimensão de si próprio e do ambiente que o circunda. Neste ambiente, ele enxerga coisas cada vez maiores e cada vez mais distantes. Observa raios e relâmpagos nos céus, ouve trovões, vê as fases da lua, as marés que sobem. Tudo isso implica em uma normalidade de suas relações com o mundo. Mas eis que, numa noite especialmente clara, ele vê uma esfera pouco a pouco tapar a lua. Muito tempo depois, vê o sol ser obscurecido em pleno dia, de forma a haver uma inversão com a noite por alguns minutos. Em outro momento, há um gigante que singra o céu noturno, com sua impressionante e tenebrosa cauda. Vê as águas dos mares ficarem avermelhadas, quase sanguíneas. Hoje nós sabemos que isso são eclipses da lua e do sol, um cometa e proliferação de algas, mas o homem primevo não tinha instrumentos ou saberes para detectá-los. Ainda assim, sentimo-nos tocados ao presenciar esses fenômenos. O homem se sente parte de um todo, mas não conhece esse todo, que lhe suplanta a capacidade de observar. Essa totalidade, ele crê, é aquilo que está imanentemente na natureza somado àquilo que a transcende, um campo inatingível pelos sentidos, mas que pode dar algum sentido e explicação aos fenômenos que lhe escapam, o sobrenatural. Crer no sobrenatural faz com que o homem se previna: fugir de raios, esconder-se do sol a pino, não dar bobeira com certos animais, todos esses fatores ligados a deidades subjacentes. Biologicamente, faz todo o sentido que estas atitudes auxiliem na sobrevivência.

Dá para notar que a religiosidade atua no nível do indivíduo. Cada pessoa que se sentir um componente universal ao se refrescar nas águas de uma cachoeira o fará de modo pessoal. As intuições estarão aguçadas: uns sentirão seu corpo se esvair nas águas, outros vão perceber a alma sendo lentamente lavada de suas idiossincrasias, e muita gente simplesmente se sentirá molhada apenas. Esse tipo de coisa é muito válido para quem tem algum tipo de sentimento de integração, mas é muito mais complexo unificar essa percepção comunitariamente. Esse é um dos pontos que faz nascer a religião.

A religião é a institucionalização de uma forma determinada de exercer a religiosidade. Já não é aqui o indivíduo que rege a intuição, mas a figura do sacerdote que aparece para representar a comunidade através do rito. Esse rito não é espontâneo: toda religião possui uma liturgia própria, um conjunto de regras estabelecido pela tradição ou pela hierarquia (ou, mais raramente, pelo consenso). Ou seja, uma religião regida pela liberdade de suas regras tem dificuldade em se estabelecer como tal. Quanto mais sistematizada, melhor a distribuição das normas. O rito católico, por exemplo, é mais uniforme que os das religiões de matriz africana, pelo fato de todas as suas prescrições serem baixadas em estatutos escritos, por autoridades reconhecidas como tal. O mesmo ocorre com o Judaísmo e o Islamismo, outras religiões de livros. Atenção: não estamos falando nem de capacidade de portar verdade, nem de que uma está mais certa do que a outra, nem de que as prescrições de normas no rito são boas ou ruins, ok? É apenas um dado e um exemplo.

O espectro da religiosidade é imensamente mais amplo que o da religião, começando pelo fato de ser inerente à espécie humana. Em praticamente 100% dos povos e etnias existe uma narrativa de criação. Ao que eu sei, apenas um determinado povo amazônico, os pirahãs, não a desenvolveu, por algum motivo difícil de detectar. Mas tanto religiosidade quanto religião podem produzir um efeito que chamamos de catarse. É um termo oriundo da tragédia grega (da qual falei neste texto), que dá epílogo ao seguinte processo: entre a essência do nosso ser e a nossa efetiva existência existe um nível de descompasso. Isso é produzido por paixões, vícios, traumas ou doenças que desnaturam o ser. A catarse representa a supressão da causa do descompasso e da reaproximação entre a natureza do ser e sua existência no mundo. Isso pode ser uma cura, a purgação de um pecado, o perdão de uma culpa, etc. O efeito catártico da religiosidade pode ser o sentimento de se “lavar a alma” na cachoeira do seu Renô ou de se observar o longo processo da produção de uma peça sacra na casa do seu Valdemar.

Notem que tudo isso escapa a uma sistematização das religiões e até mesmo de um deus. Como diria Jung, a religiosidade é uma construção arquetípica (vide este texto), que já nasce com o ser humano, ou seja, há uma estrutura mental preparada para a percepção de uma ideia de sobrenaturalidade, independentemente de ela existir de fato ou não. Ela pode funcionar como um elemento real ou como uma ilusão de ótica, por exemplo.

Se a religiosidade existe arquetipicamente no homem, por que existem ateus? É uma pergunta aparentemente difícil, mas de resposta simples. Da mesma forma que a religiosidade, há o instinto de sobrevivência, que é muito mais vívido e forte. Para provar isso, basta pensar que ele trabalha a nível de reações instintivas – mesmo que não adiante nada, tentamos nos defender do piano que cai (vide este texto). O que faz o suicida? Suplanta esse instinto. O ateu faz a mesma coisa: suplanta sua religiosidade e deixa o arquétipo vazio. Ele continuará com a estrutura psíquica, só que preenchida de nada, porque a cada vez que a sensação de supernaturalidade lhe avançar, ele ligará seus dispositivos racionais para anestesiá-la.

Mas, como diz o filósofo francês André Comte-Sponville em seu interessante livro “O Espírito do Ateísmo”, mesmo os ateus acabam, por conta das disciplinas sociais e de uma moral construída sobre uma tradição religiosa, vivendo sob o manto de alguma religiosidade. Isso acontece porque, por exemplo, a religião – através da crença em uma entidade superior de vontade manifesta – organiza uma unidade social, que seria muito mais difícil de obter pelo convencimento da pura racionalidade. Exemplo: qualquer ateu concorda que é bom não matar, seja pela suposta manifestação de uma entidade divina, seja pelo acordo mútuo entre os homens.

Chegamos, portanto, à conclusão de que não há uma espiritualidade coletiva sem o delineamento de um mínimo de regras, sob pena de não se obter homogeneidade no culto – e assim não haver a tal coletividade!!! Esse é o start de uma religião. Se a religiosidade é uma predisposição natural, a religião é puramente cultural, o que não denota, como vimos até agora, nenhum tipo de incompatibilidade. O ponto de choque ocorre quando a religião se imiscui no plano da vida pessoal. Neste ponto, é muito difícil que não haja uma dissociação entre religião e religiosidade. Vamos ver isso.

A psicanalista alemã Karen Horney, que atuou principalmente nos Estados Unidos, foi uma adepta de Freud, mas que contestou vários de seus princípios. O mais expressivo deles é a constatação de que a psicanálise freudiana tinha um viés sexista, no sentido de que a atribuição de crises de histeria e outras moléstias eram dadas às mulheres em razão de seu gênero, biologicamente falando. Ela destacava que as diferenças na análise para ambos os sexos deveriam se dar por conta do ambiente social e cultural, porque as normatividades se davam diferentemente para cada um dos sexos. Hoje, isso parece evidente, mas percebam que, na ocasião, parecia natural.

Horney investigou profundamente a figura do “eu”. Percebeu que a personalidade é uma verdadeira coletânea que inclui desejo, escolhas, responsabilidade, sentido de identidade, lugar no mundo e confiança na própria potência. Esses componentes formam aquilo que é chamado de self. Por outro lado, as pressões sociais, em especial a aprovação ou desaprovação dos outros com relação às disposições do self, constitui a formação de outro eu, o eu-ideal. Este eu-ideal passa então a ser um objeto persecutório do self, que busca se adaptar a essa projeção a qualquer custo. Isso acontece porque, segundo Horney, alguns ambientes são “tóxicos”, ou seja, geram dependência. É exatamente o que acontece com o meio social em que vivemos. Estamos tão habituados a nos deparar com uma relação de interdependência com os demais membros de nosso meio que tendemos a considerar sua opinião como boa e preciosa, na exata medida em que esta opinião esteja mais firmemente arraigada no senso comum, e não na racionalidade. Temos então a dependência de captar essa opinião para nos adaptarmos a ela, e daí a “toxicidade” do ambiente fica explicada. Basta que pensemos na famosa ditadura da magreza para que percebamos a dissonância entre os gordinhos que somos e os magrinhos que querem que sejamos. A angústia do desalinhamento do eu-real com o eu-ideal é, inclusive, a principal fonte de nossas neuroses.

Já discutimos que a espiritualidade é espontânea e a religião é normativa. Neste caso, a espiritualidade está no campo do eu-real, enquanto a religião prescreve a regra, dizendo o que é o eu-ideal. Se esta regra foge do espaço celebrativo e vai para as escolhas pessoais, foge também da catarse e vai ajudar na formação do eu-ideal, com a pressão subsequente no indivíduo.

Haverá quem diga: as coisas têm que ser assim mesmo. Outros dirão: é uma toxicidade. Eu não sei. Da minha parte, compreendo ambas, mas tendo a concordar com a segunda.
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Normalmente, concluo meus relatos de viagem com um epílogo. Desta vez, deixarei em aberto, pois já programei (ao contrário do que costumo fazer) uma semana em que me dedicarei exclusivamente ao Núcleo Santa Virgínia, tanto em SLP quanto em Natividade da Serra. Quando encerrar esse tour, tratarei, aí sim, de coligir todas as impressões em um único texto. Até lá e bons ventos a todos!

Recomendações de leitura:

Como eu já disse, Karen Horney traz uma inédita visão feminina sobre a psicanálise. Muito embora a psicologia moderna tenha superado boa parte de suas teses, seu entendimento social é muito interessante de se ler.

HORNEY, Karen. A Personalidade Neurótica de Nosso Tempo. Rio de Janeiro: Difel, 1983.

Comte-Sponville é um filósofo parisiense ainda ativo, herdeiro da tradição existencialista, uma referência importante na nova Filosofia. Seu livro não é um libelo raivoso contra a religião, mas uma análise das contradições de um mundo onde a mesma já espalhou suas raízes de tal forma a poucas relações serem desassociáveis de seu substrato.

SPONVILLE, André Comte. O Espírito do Ateísmo. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Finalmente, o livro abaixo traz pouco texto e muita foto das festas do Divino Espírito Santo em SLP, o que o torna um material indispensável para conhecer sua dimensão à distância.


VIEIRA, Nana. O Divino em Festa: São Luiz do Paraitinga. São Paulo: Terra Virgem, 2008.