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sexta-feira, 13 de março de 2020

O cesto da gávea de onde observo o mundo – Epílogo: onde continuarei escrevendo minhas histórias?

Olá!


Sabe aquela sensação estranha de coisa incompleta? Tipo quando você vai no estádio ver um jogo que não sai do 0 X 0, ou quando você vai na casa da avó e não come bolinho de chuva? Era mais ou menos o que estava acontecendo com a falta deste texto, que ficou pendente por tempos, desde que concluí os relatos da minha viagem à Vertente Oceânica Norte, nome besuntado de glamour para a região de Paraibuna, São Luiz do Paraitinga e vizinhanças. Gestalt explica? Pode ser, leiam aqui. Tinha deixado este epílogo em stand by, aguardando um retorno ao Núcleo Santa Virgínia, reserva ambiental que fica encravada na Serra do Mar, e que demandaria alguns dias para percorrer algumas de suas longas trilhas. Acontece que eu fui para bem perto de lá nesses últimos dias, e enriqueci esta série com mais quatro textos. Sendo assim, decidi compor este post de fechamento, para tirar esse inútil peso da consciência. Tão logo vá ao Núcleo, farei as inserções necessárias. Esse é o lado bom de ser o patrão das próprias palavras, uma das poucas coisas em que tenho autonomia na vida.

Depois de passar em tanta parte, na maioria das vezes cidades pequenas, com muito pouco a ver com a megalópole paulistana, passei a ficar um pouco mexido nas minhas convicções tipicamente urbanas, e passei a pensar no que eu quererei para daqui a alguns anos, quando certas amarras que ainda me ligam à Terra da Garoa já estiverem suficientemente desatadas.

Vou dar uma ideia do meu estado mental. No último sábado, passei por um lugar em que eu era frequente nos tempos de moleque. A Avenida Renata ligava a Vila Diva à região do cemitério da Vila Formosa, um dos maiores do mundo. Todas as vezes em que um professor pedia um trabalho um pouco mais elaborado, a desmilinguida sala de livros de minha escola não dava conta (leiam a aventura que isso me gerou aqui) e eu acorria para a biblioteca situada naquele logradouro, a menos ruim daquela região. Para quem ia a pé, era um bocado longe, e, para disfarçar a distância, eu ia pelo meio do matagal que encimava os canos da adutora do Rio Claro. De lá, era virar à esquerda na Rua Planeta e pegar a avenida desde o começo. Era um lugar bastante calmo, cheio de casinhas e com um comércio ainda incipiente, de modo a ser um núcleo agregador daquele pedaço da Zona Leste que ainda se assemelhava um pouco às cidades interioranas. Neste sábado passado, muito pelo contrário, fiquei pelo menos meia hora para cruzar seu aproximado quilômetro, coisa que fazia mais rápido na caminhada. Tentei ver o que havia de errado, mas não há nada além de um intenso comércio e uma Avenida Abel Ferreira para conturbar o fluxo, onde antigamente ficava um hoje desaparecido córrego. Das casinhas, meia dúzia ainda resta, e senti uma estranha solidariedade com gente que nunca vi, e que deve pedir prestimosa licença para conseguir sair de casa. É muito estranho alguém que mora no Centro desta nervosa metrópole falar isso, mas… sério. Não sei se eu teria saco de encarar voltar para um bairro e ter uma fila indiana na janela do quarto. Para isso, já estou psicologicamente preparado para o deserto dominical das traseiras do Corpo de Bombeiros, quando mais utilizo transporte individual.

Mas não é só uma questão de impaciência. Talvez, na verdade, essa seja só uma consequência de um tipo de mal-estar que ainda não diagnostiquei com muita precisão. Afinal de contas, por mais que São Paulo seja uma cidade que cansa no trânsito intenso, nas miríades de semáforos, no asfalto lunar, na insegurança das vielas, nas enchentes das baixadas, na indiferença dos concidadãos, ainda é o núcleo para onde o país converge. E aqui há tudo, simplesmente tudo: as melhores escolas, os melhores museus, os melhores médicos, os melhores estádios, os melhores cinemas, as melhores lojas. Esse porre provavelmente tem outra origem, e aventar a hipótese de morar no interior passa por uma análise bem cuidada (e pela transitoriedade do aluguel).

É curiosa a reação das pessoas do interior quando confrontadas com suas convicções. Várias pessoas com as quais conversamos sequenciam as vantagens de se morar no campo. Quando você aprofunda um pouco na história delas, é gente que viveu nas grandes cidades, stress após stress, e foi buscar a paz no mundo rural. Mas há uma galera que, pelo contrário, sonha com as capitais, com suas oportunidades exponencialmente maiores. Reclamam do tédio e da falta de perspectivas, e em geral são jovens que nasceram por lá mesmo. O valor para uns e para outros estão em polos diametralmente opostos. É estranho esse ser chamado homo sapiens, não é mesmo?

Entretanto, veio de um senhorzinho já bem senhorzinho uma das frases que mais me atentou a razão. Estando tomando alguns bons copos de vinho em sua adega, a conversa entabulada levou para a pergunta inevitável a estranhos: De onde vocês são? Ao reportar a localidade, nosso simpático e macróbio interlocutor afirma, com um certo ar de melancolia: “Ah, São Paulo... São Paulo sustenta tudo mesmo”. Não sei se eu deveria ter meu ego insuflado, já que não entendo até onde isso é um elogio e até onde isso reflete o que eu mesmo sou, mas o fato é que acaba por se tratar de mais uma azeitona na salada da minha cabeça. Será que eu vivo no melhor lugar possível? Será que a quantidade de recursos disponíveis suplanta qualquer outro tipo de valor?

Sei não. Tenho sentido cada vez mais vontade de me mandar daqui, embora ainda guarde muita relutância. É claro que um ser eminentemente urbano como eu pode até mesmo desejar uma casa de praia ou de campo, o que poderia suprir esse tipo de carência, só que eu superei de longe qualquer desejo nesses moldes. Haverá que demonstre o contrário, mas cem por cento dos casos que conheço pessoalmente resultam naquele arrependimento sintetizado na frase “há duas alegrias na vida de quem tem sítio: uma quando compra e outra quando vende”. Vale o mesmo para casa de praia. Parando para pensar, a empolgação inicial vai para o inferno no primeiro carnê de IPTU, ou na primeira fiscalização da prefeitura, ou na primeira invasão por meliantes, ou no primeiro reparo que lhe ameaçar a estrutura da casa. Mesmo se nada disso acontecer, o primeiro ano é de visitas a cada quinze dias. No segundo, a cada quinze semanas. No terceiro, já é possível passar batido. Sempre a mesma coisa, mesma coisa, mesma coisa, aditivada por manutenção recorrente e caseiro indolente. Tanta abertura a gastos e desencantos brocham nas pessoas qualquer intenção de manter um recanto do guerreiro. Por isso, mesmo que um dia eu possa, já combinei que não. Quando eu achar por bem, pego minha mochila, alugo um lugar e passo os dias desejados. Concluo que sai ferrenhamente mais barato e menos propenso a dores de cabeça.

Mas às vezes penso mesmo em me mudar para uma dessas pequenas urbes. Várias delas me produzem um encantamento, e de repente me vejo projetado em algumas. Em Areias, por exemplo, vi as casinhas que parecem pequenas por fora, mas que possuem quintais gigantescos nos fundos, onde o insondável Homem-Cueca poderia correr à vontade atrás das galinhas que eu certamente passaria a criar. Já em Monte Alegre do Sul talvez eu resolvesse bancar de pesquisador, montando um pequeno alambique nos fundos de casa para desenvolver a cachaça ideal. Ou então em São Luiz do Paraitinga, onde eu me misturaria a um dos povos mais bem-humorados que já conheci, alugando uma casinha na Vila Rosário para assar pães em um forninho de barro a ser montado, para depois filosofar na praça defronte à igreja ou cantar músicas da década de 80 com a patroa, nas mesas do boteco da Dani ou nos pés da escada do Largo do Teatro, embaixo da noite estrelada.


Pensando menos romanticamente, acho que eu estou tentando procurar novamente a minha turma. Durante estes quase nove anos que escrevo por aqui, já choraminguei um bom tanto pelo decréscimo na circulação de gente na minha casa. Ela trafegou de um polo de intensa movimentação de jovens para um lugar quase que pacato, agravada pela mudança do meu menino mais velho para o interior do Paraná, onde ele tenta a vida. Morreu uma pá de gente importante na minha vida: minha mãe, meu pai, meu padrinho, minha comadre, entre outros. Dei-me conta outro dia que, de todos os nove moradores da minha casa na Vila Ema, só sobrou eu. Só eu tenho ainda guardadas as histórias de um período meio grande da minha família como um todo, e isso me assustou um bocado. No âmbito particular, é uma responsabilidade e tanto ser o custodiante desta parcela do “brasão”. Não faz muito tempo, houve uma reunião de família com parentes distantes, que não víamos há mais de 30 anos. Dos descendentes da Mariuccia, minha nonna, só tinha eu!!! E não por falta de convite, mas de sobreviventes. Bom... Chega de chororô.

Sempre que falamos no social, pensamos na estrutura algo mecanicista na qual os indivíduos se articulam. Mas há uma diferença essencial entre a sociedade e a sociabilidade. A primeira diz respeito exatamente a esse aspecto racional dos agrupamentos de seres humanos, enquanto o segundo vai na via do afeto, no modo mais íntimo como as pessoas se relacionam. Há que se marcar bem a diferença: enquanto na sociedade falamos em indivíduos, na sociabilidade falamos em pessoas. Desta forma, há níveis diferentes de sintonia em que “vibramos as nossas frequências” com relação ao nosso meio social. Eu, por exemplo, vivo em um prédio onde mais da metade dos moradores são senhoras de uma ordem católica muito fechada, com pouquíssimo ânimo para relacionamentos mais profundos. Estão exatamente na margem de lá de onde eu vim, com seus limitadíssimos bons-dias e com-licenças. É um fragmento de sociedade, não há dúvida, mas não é um espaço da sociabilidade.

Se eu busco algum lugar onde há experiências sociais ou compartilhamento de sensações estéticas, certamente não é neste vetusto predinho. Quando meus mortos ainda não arrastavam suas correntes e a moçada não tinha criado asas, esse distanciamento era todo suplantado. Quando todos se foram, eu e aqueles da minha casa caímos no tempo das tribos de Michel Maffesoli. É preciso readequar novamente o indivíduo isolado ao seu aspecto coletivo, e isso só se consegue procurando uma nova tribo.

Não quero aqui dizer que colocarei flores na cabeça e virarei hippie. O conceito de tribo em Maffesoli vai além destes simples agrupamentos em torno de uma causa comum (embora os inclua). Segundo ele, uma tribo é uma fusão comunitária onde ocorre uma desindividualização, uma união do toque, da interação íntima e da união de pontos esparsos em uma única massa. Como é no âmbito dos pequenos grupos que a magia da sociabilidade se desdobra, esse neotribalismo dá uma ideia de como a identidade cultural torna possível uma relação que se fundeie no gosto, uma espécie de “retorno ao dionisíaco”, como estabelece o próprio mestre francês. E onde eu posso buscar um novo coletivo do qual eu possa fazer parte? Onde haja algum elemento onde eu me identifique.

Hoje, seria esse: lugares onde eu, a patroa e as crianças (se possível) possamos estreitar aquele velho clima de vizinhança que, sim, podemos dizer que assemelhados a tribos, considerando as quatro características delas –  a informalidade das solidariedades orgânicas desvinculadas do racionalismo, o sentimento de pertença, um ativismo sem vínculos a manuais e a fluidez do aqui e ali incessável, que vai com as marés, como é a própria vida. Falando rapidamente sobre cada uma dessas características, podemos dizer que

1. A cultura que brota das relações de uma tribo não é formal, como aquela que é descrita pelos planos de aulas das escolas ou que cristalizam as regras da linguagem, apenas para dar alguns exemplos. Esta cultura informal é permeada de uma emotividade que foge do racionalismo interposto pela sociedade mais organizada em ponto maior. Assim, as relações da tribo surgem “de dentro”, mais orgânicas e naturais que aquelas que observamos no distanciamento da sociedade estrutural;

2. Quando partimos da premissa que um nicho social é maior que o indivíduo isolado, devemos assumir que um homem não vive sem determinados elementos que vão além de si próprio, e que obrigatoriamente ele estará em relação permanente, não só com o outro, mas com o território onde habita. Maffesoli fala sobre a proxemia, que é a distância relacional existente entre as pessoas e que, por proximidade, acaba por agrupá-las em tribos distintas. Nossa noção de pertencimento é tão forte que tanto pode nos alinhar organicamente ao grupo quanto nos distanciar dos demais;

3. Como a tribo tem razão de ser endógena, o seu ativismo não é principal característica quando se observa seu papel na sociedade maior. Quando ele existe, possui parâmetros totalmente particulares, como o escapismo hippie ou a negação à autoridade punk, que fogem ao escopo social normalmente reconhecido, com o ativismo político através de eleições ou pressão parlamentar;

4. Grupos conformes são impermanentes, variando de acordo com o sabor das circunstâncias ou com a própria deterioração do tempo. Essa fluidez permite que tribos distintas se toquem e até se absorvam, se cindam e se fundam, de modo indefinível.

É em um lugar em que eu me sinta de novo pertencente que eu quero levar patroinha e os filhos que para lá quiserem ir, e lá manter os registros que faço aqui constantemente, tentando trazer ao plano físico aquilo que mantenho ainda hoje na dimensão virtual com vocês, meus ainda resistentes leitores. Vamos ver no que vai dar e bons ventos a todos!!!

Recomendações:

Vamos para o habitual: as distâncias das cidades da série da capital. Nenhuma delas leva mais de três horas de viagem, o que permite os famosos bate-e-volta. Talvez Cunha fique um pouco forçado, mas não é impossível. Vão até lá.

Jambeiro – 118 Km
Paraibuna – 123 Km
Natividade da Serra – 185 Km
Redenção da Serra – 163 Km
Lagoinha – 191 Km
Cunha – 231 Km
São Luiz do Paraitinga – 173 Km
Santa Branca – 94 Km
Salesópolis – 115 Km
Guararema – 79 Km

E também segue a indicação do livro de Maffesoli, sociólogo ainda vivo, que desenvolveu o hoje tão propalado conceito de tribo urbana.

MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos. O declínio do individualismo nas 
sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense, 1998.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 8ª mirada: Santa Branca e o desespero de quem filosofa no cárcere

Olá!


Neste último mês de janeiro completei 30 anos de casado com a patroa. Isso não só representa um bocado de tempo, mas também um número redondo, daqueles que gostamos de anunciar para cima e para baixo com o elegante nome de efeméride. Vejam que ninguém festeja com estrépito seus 29 ou 31 anos, mas os 30 são especiais. Já falei de raspão sobre este tema em outro post, e não ficarei o remoendo, bastando isso para dizer que a coisa teve caráter comemorativo um pouco mais extenso, e nada melhor do que uma viagenzinha para fazê-lo.

Daí entra a segunda parte. Uma viagem de três dias não pode ser para longínquas paragens, a não ser que o que se queira seja andar de carro. Inicialmente, pensei em retornar a uma das muitas cidades que já havia visitado anteriormente, mas cheguei à conclusão de que estender os limites de algumas regiões era uma boa ideia. Desta forma, optei por retornar à Vertente Oceânica Norte, subir novamente no cesto da gávea e acrescer a ela três cidades da área chamada de Alto Tietê, sendo a primeira a pequena urbe de Santa Branca. É por lá que começaremos nossas histórias.


Santa Branca tem o epíteto de Cidade Presépio. Para entender essa designação, é preciso saber como é um presépio napolitano. Quando pensamos em um artefato destes, relembramos da cena cristã no nascimento de Jesus em um estábulo, ladeado por Maria e José, e assessorado por burricos e boizinhos. Normalmente, esse é o limite suficiente para compreensão de seu significado. No entanto, os italianos da cidade de Nápoles criaram o costume de inserir a representação da natividade em um contexto citadino, com a inclusão de ruas e de trabalhos de seu dia-a-dia, para demonstrar que a presença de Jesus está no centro de suas vidas quotidianamente. Como tudo em Santa Branca é bem pequeno e há muito casario antigo, a cidade passa a impressão de ser, toda ela, um presépio napolitano. Boa sacada.


Bem no centro do “presépio”, fica a igreja matriz, dedicada à própria santa. Parece óbvio, mas há cidades com nome de um santo cuja matriz é dedicada a outro, em estranho paradoxo. É comum receber a visita dos peregrinos que trafegam pela Rota da Luz, uma malha de caminhos destinados à romaria para a cidade de Aparecida.


Sua construção foi feita aos poucos, como é tão comum acontecer. Inicialmente era uma pequena capela em taipa de pilão construída por volta de 1830. Foi sendo sucessivamente ampliada, até chegar ao seu formato final no final do século XIX. Ela orna a praça Ajudante Braga, um benemérito que botou um bom dinheiro na igreja.


Este cidadão, um fazendeiro de nome José Ferreira Braga, dá nome também ao prédio que abriga a Câmara Municipal, uma construção interessante de taipa de pilão, térrea na frente da praça e assobrada nas ruas laterais, acompanhando o desenho do aclive, com aquelas janelas em arco típicas do começo do século XX.


No lado oposto, em uma casa bem mais modesta, fica situada a Secretaria de Cultura e Turismo da cidade. Fiquei muito bem impressionado com o atendimento do pessoal, e gostaria de deixar registrado. Aqui, pudemos ver como a cidade se identifica com seu epônimo.


Apesar de já ser final de janeiro, lá estava instalado todo um presépio mecanizado, por obra do artista local Sarkis Alwan, que incluía desde a manjedoura com a sagrada família até uma procissão da folia de reis móvel, tocada por uma corrente de bicicleta. Eu o deixaria instalado permanentemente.


O presépio ocupa a sala toda, com o espírito “napuletano” que eu mencionei logo acima, e traz ocupações típicas da região, como a cozinheira de doces, os currais, os monjolos, os ferreiros, os marceneiros, os tropeiros e as rodas d’água.


Fora esses, há muitos outros prédios antigos distribuídos por toda a cidade, especialmente na região central. É que Santa Branca entra exatamente no mesmo contexto das demais cidades de fluxo dos tropeiros que traziam e levavam produtos e minérios da orla portuária para as minas que ficavam além da Serra da Mantiqueira.


Como sói acontecer, essas rotas de tropeiros possuíam mercados onde se realizavam negócios paralelos ao transporte, porque, afinal de contas, já naquela época era preciso comer. Santa Branca ainda tem o seu e está bem preservado, embora seja a reconstrução de 1920.


Além da oferta dos produtos agrícolas da região, há uma boa quantidade de mudas de plantas, sendo que figueiras e pés de abacaxi estão em alta no momento. O Jeca na entrada é uma espécie de homenagem ao comediante Mazzaropi, que andou fazendo suas filmagens por aqui.


Uma das atividades que vem ganhando certo incremento na cidade é o artesanato. Prova isso o fato de que a principal iniciativa neste sentido vem do âmbito privado, com um estabelecimento chamado “Casa da Arte”, que busca agregar os pequenos artesãos em um núcleo que facilite seu comércio.


Quem nos conta essa história é a Samira, a menina que estava lá não só atendendo os clientes, mas também acompanhando os trabalhos de arte-educação que também são oferecidos no local. De longe, o principal produto dos artesãos locais são os bonecos de pano, feitos de feltro e barbante.


Outra especialidade do pequeno município é a cachaça, a quem chamam genericamente de “santa branquinha”. Diz-se que, quando os alambiqueiros viajavam para São Paulo a fim de vender sua marvada, a mesma recebia este apelido por conta de sua origem. Há controvérsias, mas não importa. A pinga é forte toda a vida.


Foi na Casa da Arte que pegamos uma boa dica para o almoço. Já fora do centro urbano, há uma fazenda de estilo antigo que sedia o Engenho Velho, um verdadeiro espaço multiuso rural. O principal é o restaurante, que oferece comida caipira por quilo, nos espaços internos e no alpendre. Boa, por sinal.


Sempre lembrando que não faço elogios em troca de grana, porque meu blog é menos frequentado que jogos de terça-feira, mas porque realmente gostei do que vi/ouvi/comi. Há uma sala que contém um museu de objetos antigos, daqueles que explicam as manufaturas das fazendas e que tem objetos da prática diária.


Nos fundos do Engenho, há um morro onde um canal recolhe a água de uma nascente e que a distribui por toda a propriedade, sendo que um dos ramais desemboca em uma roda d’água, que era um dos poucos meios possíveis para obter energia em tempos pretéritos. A ação da água fazia girar a roda, que fica ligada a um gerador.


Para fazer o quilo no dopo pranzo, há uma trilha ao lado da roda, que leva ao alto do morro do engenho, em uma mata repleta de carrapichos, e que conduz a um lago que fica pela parte de trás da fazenda. Como eu tenho uma nuvenzinha nas costas, estava chovendo e bem escorregadio. Mas lasque-se. Fui assim mesmo.


Santa Branca faz parte da mesorregião conhecida como Vale do Paraíba, nome este derivado do Rio Paraíba do Sul, primordial para a vida da região. Às suas margens, bem na entrada da cidade, uma discreta obra guarda importantes informações históricas. Quem vem pela ponte de concreto, precisa descer do carro para olhar ao rio e ver uma antiga ponte metálica sustentada em dois pilares, já sem tablado e com seus acessos bloqueados e cobertos de mato. O que há de interessante nela é o fato de que foi projetada e construída pelo escritor Euclides da Cunha, que concluía a revisão de sua obra-prima, Os Sertões, enquanto tocava o projeto em 1902.


Um pouco mais acima, há a represa de Santa Branca, barrada pela usina hidrelétrica de mesmo nome. Nela, há uma série de reentrâncias que facilitam muito a vida de quem gosta de pescar. Em uma delas, conhecida como Toca do Leitão, ficam muitos barcos que usamos para navegar pelas mansas águas, ao lado de um bar onde dá para comer peixe fresco.


Devidamente forrados, restava a mim e à patroa suprir os latões com chopp, sem dois pastel, mas com calabresas enroladas na batata, uma especialidade da casa Choppi. Ficamos lá relembrando de coisas boas do passado, como pede a ocasião, para depois sair dançando na chuva em busca do hotel.


Voltemos rapidamente ao plano religioso, porque este será o mote do atual escriba. Mais do que em outros lugares, os santa-branquenses são muito ciosos da padroeira que os nomina. Se pensarmos em São Paulo, por exemplo, pouca gente sabe que a data de 25 de janeiro, fundação da cidade, coincide não com o nascimento do santo, ou com sua morte, mas com aquela atribuída à sua conversão. São Paulo é bem pouco cultuado em São Paulo. Não é o que ocorre aqui.


Há muitas representações de Santa Branca espalhadas pela municipalidade toda, incluindo não só nomes de comércios e estabelecimentos públicos, mas imagens concretas ou estilizadas, sempre mais ou menos com a mesma iconografia: a jovem ajoelhada, de mãos postas e com uma grossa corrente pendurada no pescoço.


Essa menina vivia na Cesareia, região onde hoje é a Palestina, na época em que o xará imperador Décio estabeleceu um dos éditos que, de quando em vez, obrigava os praticantes de outras religiões a prestar culto às divindades romanas. Isso tudo se deu por volta do ano 250.


Diz o Martirológio Romano que, como outros mártires, a pequena Albina (seu nome de batismo) resistiu a muitas torturas para fazer com que sua fé fosse abalada. Foi lançada na prisão, onde manteve sua atitude orante, o que deu origem à sua imagem mais conhecida. Foi por fim decapitada e teve seu corpo colocado em uma barca, que, lançada a esmo, foi aportar na cidade de Scauri, onde seus restos mortais estão até hoje, no altar da catedral de Gaeta.


Uma guria tão jovem ser morta apenas pelo fato de que professa uma fé diferente do que entendem ser correto os poderosos de plantão não é só uma crueldade e uma covardia, mas uma reação inesperada de um organismo que, prioritariamente, quer sobreviver. E então podemos parar para pensar no drama da expectativa do martírio. Já fiz minhas observações sobre este tema em um texto que se centrou em Giordano Bruno, mas a coisa aqui é outra. No começo do Cristianismo, os mártires proliferaram aos borbotões, sempre pelos motivos mais abjetos, como a simples defesa do direito ao culto. Ainda que a própria Igreja Católica reconheça o caráter mítico das narrativas sobre os mártires mais antigos, o fato é que sempre são apresentados como exemplo de abnegação e de fé, e são reverenciados por todo o mundo. São Jorge, São Sebastião, Santa Bárbara, Santa Luzia (com seu cavalinho comendo capim) ... Todos eles dão um recado universal, que suplanta a mera fé cristã – são heróis das causas, e admirados até mesmo por nós, incréus. Mas toda a sua força não os afasta da angústia da morte iminente. Ponho-me no lugar da pequena menina Branca, colocada diante de um verdugo, e eu abjuraria em cinco minutos (ou menos). Mas a minha régua é muito diferente dessa hoje em dia, por isso é preciso cuidado na análise.

Não temos muitos registros além daquilo que sua devoção nos conta, e a ossada no pé do altar da igreja em Scauri é atestada apenas por uma tradição, o que coloca um bocado de dúvidas sobre sua veracidade. No entanto, a crítica é favorável tanto à sua existência quanto às circunstâncias mais gerais de sua prisão e martírio, o que legitima seu drama. Entretanto, ainda que fosse interessante, não temos nenhum relato pessoal recolhido para melhor compreender esse motor além da generalidade mais óbvia, a fé que movia os mártires. Não nesse caso específico, pelo menos. Porque temos uma história muito boa e com certa semelhança para contar, e, desgraçadamente, de um filósofo. Trata-se de Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius, ou, mais simplesmente, Boécio. Com um roteiro bastante semelhante aos mártires cristãos em geral, nosso romano enfrentou o martírio por ter sido considerado um traidor do declinante Império Romano, em uma acusação reputada como injusta. Ficou um longo tempo no cárcere, onde escreveu sua principal obra, A Consolação da Filosofia, na qual enfrentou dois problemas extremamente delicados: a teodiceia e o livre-arbítrio. Vamos a eles.

Em sua obra, Boécio adota a personalização da Filosofia como se esta fosse uma deusa, e estabelece com ela uma estrutura de diálogo fortemente influenciada pela retórica platônica, onde ele se insere em uma posição de aprendiz enquanto a mulher que surge à sua frente possui o altivo aspecto da sabedoria. O livro se desenrola em um velejar que vai da poesia para a prosa, sendo a primeira síntese e conclusão dos desenvolvimentos da segunda, dando-lhe um ar muito sofisticado. Para além do tom lamentoso, Boécio quer compreender o que é o bem e o mal e como Deus, sendo o sumo Bem, permite que os justos sofram. É isso que chamamos de Teodiceia, um estudo que foi nomeado muito mais tarde pelo alemão Leibniz, mas que vem sendo aplicado há muito tempo já, sendo uma disciplina de estudos nas faculdades de Filosofia ainda hoje, em especial nas confessionais.

Teodiceia é um termo grego que significa “justiça de Deus”, e nada mais é do que uma tentativa de entender o problema do mal. Ora, direis, essa é uma questão válida unicamente para adeptos de religiões que tem um deus benevolente como ente supremo, no que concordarei. Mas é preciso pensar em dois aspectos. O primeiro é que a existência de uma divindade nestes moldes é filosoficamente aceitável, e o segundo é que Boécio é um mestre da Lógica, como já explanei neste texto, e o modo como seus argumentos são construídos são uma pérola da Filosofia.

Como eu já disse, Boécio se sentia injustiçado na prisão, e certamente tinha poucas esperanças de um desfecho diferente da morte. O questionamento dos motivos pelos quais não era protegido do mal que sofria era inevitável. A musa filosófica criada para seu diálogo, preliminarmente, recorda ao infeliz que, dado ao caráter transgressivo das ideias, o filósofo está sempre em risco, bastando o exemplo da morte de Sócrates para ilustrar. Mas o problema específico do mal está no engano de seus benefícios. O mau, quando pratica o mal, busca exatamente a mesma coisa que o bom: a felicidade. Por exemplo, se eu extorquir o público que atendo, busco vantagens materiais que podem me proporcionar tudo aquilo que eu desejo. Entretanto, há o risco e eu o conheço: ora de punição, ora de vingança, ora de desprezo. Uma aura de angústia perpassa a alma daquele que busca a felicidade através da prática do mal, sem contar o castigo que certamente virá, seja pela mão dos outros homens ainda nesta vida, seja pela justiça divina, no pós morte.

Isso não invalida a observação de que os bons sofrem. No entanto, dada a limitação do alcance da compreensão da humanidade, não se percebe o substrato que permeia a realidade, que é a providência. Boécio entende que o mundo, mutável por natureza, se movimenta através das formas distintivas imutáveis da consciência divina. A razão de Deus é o constructo pelo qual o destino se estrutura. Dessa forma, as coisas são exatamente como devem ser, ainda que a mente humana seja incapaz de percebê-las assim. E essa é a origem primordial da prática do mal mencionada a pouco. Os homens praticam o mal aos outros e a si mesmos sem essa percepção.

Sendo as coisas desse jeito, com a providência regendo os destinos do mundo, é necessário entender que as sinas individuais e coletivas estão escritas e que o livre-arbítrio não passa de uma ilusão. A resposta que Boécio oferece para este desafio tem base na diferença entre o tempo humano e o tempo divino. Como homens, vivemos em um transcurso que nos faz ter um passado, um presente e um futuro, e intuitivamente tentamos atribuir esta mesma lógica ao tempo de Deus. Entretanto, se admitirmos que Deus possui o atributo da onipresença, não devemos supor que essa totalidade está apenas no plano espacial, ou seja, de que ele esteja presente em todos os lugares ao mesmo tempo, mas que também esteja presente em todos os tempos simultaneamente. Essa diferença existe porque o conceito de finitude, tão cristalizado na única certeza humana da morte, não pode ser aplicado a quem é eterno. Deus, sendo também onisciente, tem conhecimento simultâneo de todos os fatos e fenômenos, já ocorridos ou por ocorrer, porque essa é uma dimensão nossa. Esse "antes", "agora" e "depois" não faz sentido algum a quem tem tudo posto a todo tempo. O único tempo em Deus é o presente.

Entretanto, o fato de que Deus seja presciente não significa que a providência torne o destino fixo, apenas que ele saiba o que cada um fará de acordo com o que lhe for dado. A grande conclusão de Boécio é um conformismo. Devemos aceitar o destino porque não está ao nosso alcance intervir nele com nossos parcos meios, restando-nos a certeza de uma justiça divina para os desequilíbrios causados pelo mal, como ele e a pequena Santa Branca precisaram enfrentar.

O pensamento de Boécio é daqueles com os quais podemos concordar zero por cento, mas que é absolutamente admirável pela alta qualidade da lógica aplicada e à agudeza dos argumentos, embora, na forma platônica com que é utilizado, careça de originalidade (o que, sejamos francos, não é uma necessidade absoluta). Mas, substancialmente, o texto de Boécio nos mostra como a razão tem, também ela, uma espécie de instinto de sobrevivência, no sentido de não se abater pelo desespero. É preciso lembrar que Boécio escreveu sua obra não somente aprisionado, mas também nos intervalos das torturas, o que justificaria qualquer outro tipo de revolta. Entretanto, ele escreve uma obra humana, calcada na esperança de que seu sofrimento não seja uma mera contingência, mas algo que pode ser explicado racionalmente.

Da noite passada dançando na chuva, com o som do sambinha de boteco se distanciando cada vez mais, ficamos entregues ao nosso destino comum, eu e a patroa, e relembramos nossa passagem diante da estátua de Santa Branca. Meio bêbados, porém ainda conscientes, apenas libertados de nossa timidez, tivemos vontade de perguntar à jovenzinha se valeu a pena tanto sacrifício. Pelo menos ela tem uma história linda para contar. Bons ventos a todos e até a próxima mirada.

Recomendação de leitura:

Vai para a magnum opus de Boécio, que deu base para este texto. Uma prova de que a produção medieval não é só Teologia, mesmo quando tangencia com o tema.

BOÉCIO. A Consolação da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2012.