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terça-feira, 18 de abril de 2023

Pequeno guia das grandes falácias – 67º tomo: a falácia naturalista

(Sermos quem somos nos dá atributos morais inevitáveis ou isso é uma falácia?)

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

Eu crio passarinhos desde que eu me conheço por gente. Não é exagero: fiz um mapeamento mnemônico e não consegui recordar qual foi o primeiro canário que um dos meus parentes me botou para cuidar. Aliás, nem lembro bem se foi um canário, mas creio que sim. Muitos dos meus tios tinham diversos, e é provável que eu tenha enchido o saco de um deles até que me dessem um. Também pode ser que a brincadeira tenha começado em casa mesmo, já que minha mãe costumava pegar aqueles que vinham parar no quintal. Isso se deu também com pássaros-pretos, o que seria uma boa encrenca hoje em dia com o Ibama. Mas, na época, nem se pensava nisso. Hoje em dia, só passarinhos legalizados.

Eu tenho essa atividade até hoje, mesmo morando em apartamento. A rotina é mais ou menos sempre a mesma: supervisionar a água, limpar os bebedouros, soprar o alpiste, trocar o papel, eventualmente dar alguma vitamina e manter o viveiro higienizado. Como recompensa, é ouvir o canto matinal como despertador, e "bater um papo" com os bichinhos enquanto eu preparo o café.

Já há algum tempo, contudo, eu estou deixando o costume de lado. Não os coloquei mais para cruzar, e isso, paulatinamente, fez com que sobrassem apenas dois no momento em que escrevo este texto. Já me livrei de alguns viveiros, inclusive, e não farei reposições. O principal deles, do quarto grande, já está vazio, pronto para ganhar nova destinação (inclusive descarte).

Quando ambos voarem em definitivo, vou rolar as portas e me aposentar da atividade. Isso tudo porque eu tenho ficado muito pouco em casa, e o que era um hobby virou uma preocupação a mais. Se eu ficar mais de quatro dias fora, já preciso arrumar alguma parafernália que permita manter água e comida. Isso não é bom, porque estes não devem ficar velhos, perdem qualidade – imagine que você vá beber uma água parada há uma semana. Eis que acho mais honesto com os penosos não os ter do que os ter inadequadamente.

Os passarinhos são uma marca quase registrada minha. Nesses tempos de home office, eles ficavam competindo com minha fala nas reuniões virtuais, o que faz os outros sempre perguntar por eles até hoje, especialmente quando eu estava trabalhando fora.

Mas sempre houve quem não gostasse. Passarinho na gaiola sempre plasmou um homem num presídio, um cerceamento da liberdade. Não exatamente um condenado por crime, mas aprisionado à própria vida. Além disso, os canários na gaiola são apreensões particulares de puro egoísmo, o encarceramento de uma vida para um gáudio privado. Tendo cada vez mais a concordar, embora seja possível fazer duas colocações: se o bicho aceita passivamente sua privação de liberdade, é porque instintivamente ele vê alguma vantagem na coisa. E há uma dose reforçada de cinismo em quem condena o engaiolamento de pássaros, mas tem cães em apartamentos minúsculos. Por trás disso tudo, há a afirmação da liberdade como boa em si mesma. E aí a coisa pega, ao menos para dois grandes filósofos: David Hume e George Edward Moore, mais conhecido como G. E. Moore.

A discussão aqui não será se a liberdade é ou não uma coisa boa, porque eu contei toda essa história apenas para constituir um exemplo. Substitua qualquer coisa que possa receber um juízo de valor como definitório e teremos o mesmíssimo efeito: bondade, amor, justiça. A questão aqui é tomar uma definição deontológica onde só cabem definições ontológicas. Confuso?

Vamos lá. Resumidamente, a Ontologia é a área da Filosofia que cuida do Ser em si mesmo: suas características e definições, que diferencia o que cada objeto no universo tem de essencial e o torna único (defino mais criteriosamente o tema neste texto). Já a Deontologia é uma espécie de estudo sobre deveres e obrigações, especialmente no seu sentido ético. Quando eu digo que uma coisa é pequena, eu estou fazendo uma afirmação ontológica, porque eu estou supondo métricas e observações que podem estabelecer comparações e grandezas. Já quando eu digo que essa mesma coisa é boa, já aí é preciso estabelecer juízos. Bom para quê? Bom para quem? Bom em que medida? Quando digo que algo é bom, subentendo um valor que vai além do aspecto de verdade, porque é difícil estabelecer o que é bom através de réguas.

David Hume é um filósofo escocês do século XVIII, cujo cerne filosófico está no ceticismo e no empirismo radical. Quando defrontado com questões como aquelas que mencionei acima, ele manifestaria o desconforto típico de quem enxerga uma assimetria entre aquilo que pode ser constatado pela experiência e o que deriva de normatizações que não podem ser inferidas inequivocamente.

Portanto, há, no entendimento de Hume, uma confusão entre os significados de SER e DEVER SER. Qual é o grande problema que ocorre neste caso? É que Hume, um dos mais eméritos empiristas que se tem notícia, a ponto de exercer um ceticismo quase absoluto, entende que há uma mudança significativa enquanto você estabelece uma definição para a coisa e para quando são descritas regras para a coisa. A deontologia não é descritiva, mas normativa, caindo-se, por conseguinte, no aforismo popular: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

O que Hume afirma, categoricamente, é que não se pode deduzir o que as coisas deveriam ser a partir do que elas são, porque isso fere a factualidade exigida pelo processo empírico. Por exemplo, quando eu afirmo que o Carnaval ocorre em função da festa de Páscoa*, eu estou fazendo uma afirmação definitória, que diz respeito à sua essência – ontológica, portanto. Já se eu afirmo que o Carnaval é licencioso, cabe aqui, subrepticiamente, uma afirmação de caráter moral, mais difícil de ser demonstrada empiricamente. Isso acontece porque entra aqui a questão dos valores. O que é licencioso, por exemplo? Vai depender do momento histórico e da cultura de quem faz a afirmação. Mulheres que usam calças, por exemplo, já foi um exemplo disso, tanto no tempo, quanto em lugares com determinadas culturas. Essa separação entre o que está no campo da definição e o que está na área do dever ficou conhecido como Guilhotina de Hume.

A verve crítica de Hume, embora muito respeitada, nunca foi suficiente para modificar a opinião de quem enxergava a existência de verdades morais objetivas. Embora não formassem uma massa uniforme, esses pensadores buscavam salvaguardar uma ética dada pronta, o que vai ao encontro das posições religiosas, em que uma divindade decreta normas racionais, o que constituía consequências obrigatórias de um determinado fato. Por conta disso, o filósofo ético inglês G. E. Moore repropôs a guilhotina de Hume, desta vez na forma de falácia.

Qual é a linha de pensamento de Moore? Certos pensadores éticos entendem que os valores morais são uma propriedade das coisas da mesma forma que ocorre com propriedades físicas. Uma coisa sempre será boa ou ruim, certa ou errada, justa ou injusta, independentemente do juízo que se fizer dela. Portanto, o valor moral é um dos itens da essência de um fato ou fenômeno qualquer, faz parte de sua natureza.

Para demonstrar a falaciosidade destas proposições, Moore apresenta o problema em termos lógicos e linguísticos. De fato, quando uma definição é ontológica, podemos observar que, mesmo revestida de sofisticação, o predicado resultante já está contigo no próprio sujeito. Um exemplo extremamente simples: um ser vivo é um não-morto. Simples, óbvio, irrefutável e sem acrescentar nada à definição que já está contida na próprio sujeito, cumpre com exatidão o atributo de definir o que um ser vivo é. Não serve para nada? Não serve, mas é uma questão fechada: não resta espaço para juízos.

Mas a coisa fica esquisita quando se tenta definir qualidades. Há uma confusão linguística gerada a partir do verbo de ligação “ser” onde o “é” acaba tendo seu uso confundido. Moore utilizou várias assertivas do filósofo ético Herbert Spencer para explicar seu ponto. Spencer, por exemplo, dizia que uma boa conduta é uma conduta mais evoluída. Podemos acrescentar qualquer outra definição: que é uma conduta determinada por deus, ou uma conduta que ocasione prazer, ou um menor prejuízo para o maior número de pessoas. Notem como aqui não temos como considerar essas assertivas, nenhuma delas, como uma questão fechada. Boa conduta não é sinônimo de nada disso, porque as definições de evolução, divindade, prazer e prejuízo não estão coligadas inequivocamente à de bem; não só porque são discutíveis esses conceitos, mas por uma questão linguística mesmo. Eis que a Guilhotina de Hume é retomada, a partir de Moore, na forma de argumento da questão em aberto.

Agora nós podemos falar do Pequeno Guia. Moore dá ao formato de argumento que entende que valores morais têm força ontológica o nome de falácia naturalista

Pratica-se uma falácia dessa categoria sempre que se considere “natural” que exista alguma definição ética ou moral em função de um objeto, seja coisa, fenômeno ou indivíduo qualquer, ser o que é. Definições escapam à normatização, que somente ocorrem por intermédio de uma cultura ou consciência. Uma bola permaneceria redonda (critério ontológico e mensurável) ainda que não houvesse um único ser vivo no universo. Ela somente seria divertida existindo os mesmos, num critério deontológico e aberto. Eu gosto de futebol, o dona Madalena do terceiro andar detesta.

Mas parece difícil encontrar uso corriqueiro da falácia naturalista, talvez você pense, meu bissexto leitor, minha ocasional leitora. Não é, não. Pense nas inúmeras vezes em que já se encaixa uma qualidade "definidora" que vá além da definição, e isso é uma daquelas velhas geratrizes de preconceitos. Muitos são os exemplos: homossexuais são aqueles que tendem a se relacionar com pessoas do mesmo sexo, e essa é uma definição fechada. Qualquer outra tentativa de se atribuir valores à definição terá um fundo moral, e isso escapa da essência, caindo em um dever ser que está em quem o profere, e não na definição em si. Um ateu é um descrente em deidades, e ponto. Não é alguém sem ética, nem que não está disposto a seguir regras, nem indiferente a sentimentos alheios. Um ateu PODE ser tudo isso, ou não, isso não muda sua definição. Um negro é alguém que tem maior pigmentação na pele. Um estrangeiro é alguém que veio de fora do país. Um idoso é alguém acima de certa idade. São todas simplificações, mas explicam bem o ponto. Qualquer julgamento moral que busque dar características intrínsecas a um indivíduo qualquer recai na falácia naturalista. E é isso.

Só um cuidado a ser tomado. Há outro tipo de falácia que pode ser confundida com essa, por conta do nome que leva. Mas vou tratar dela no próximo texto. Fiquem atentos e bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Vai para o principal livro do filósofo que detestava seus nomes cristãos: George Edward:

MOORE, George E. Principia Ethica. São Paulo: Ícone, 1998.

*O Carnaval ocorre na semana em que se inicia a Quaresma, que, por sua vez, é calculada para ocorrer quarenta dias antes do início da Semana Santa, que, por sua vez, começa no domingo anterior à Pascoa, que, por sua vez e finalmente, é calculada para o primeiro domingo posterior à primeira lua cheia posterior ao equinócio de primavera no hemisfério norte. Ufa! 

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Sobre o problema da indução e a tangência com o ceticismo de Hume

(“Faça isso e acontecerá aquilo” é uma lógica que nos parece tão natural que nem questionamos se essa regra é real).

Olá!

“É o costume do pito que entorta o beiço", dizia um dos vizinhos dos meus avós, que não fumava cachimbo. Aplicava-se este dito a pessoas com manias reiteradas, que acabava por marcá-las e até apelidá-las. Acontece que todos nós temos nossos costumes, que acabam por ficar automatizados. Eu tenho vários, e um deles é o de encher a talha todos os dias de manhã, para não faltar água filtrada durante o dia. Aqui cabe uma rápida explicação.

Eu tenho uma daquelas talhas de barro, comuníssimas. Esse tipo de artefato normalmente é enchido com um jarro, pegando água do sistema público diretamente da torneira. Minha talha fica em uma cantoneira, deixando-a bem acima do nível da pia. Como era uma chatice ter que subir no banquinho para encher o utensílio, bolei um esqueminha que consiste em uma torneirinha secundária, de onde sai uma fina mangueira diretamente no reservatório, entrando através de um orifício que eu fiz na tampa com arame quente. Dessa forma, consigo encher o filtro sem a necessidade do sobe-e-desce. O sistema não é perfeito, porque não consigo ver o nível em que a água se encontra, e por vezes ela transborda, mas, com a prática, peguei uma noção de tempo que se demonstra suficiente para suprir a necessidade diária. Logo depois do café, abro o registro da talha e vou abrir a janela dos passarinhos, ajeitando as plantas que ficam na varanda. No retorno, já posso fechar a torneirinha. Esse é o tempo certo que mencionei logo atrás.

Tudo muito bonito, mas já aconteceu de haver grandes transbordamentos, fazendo perder o serviço da louça escorrida que fica logo abaixo, e assemelhando a pia a um dos tantos bairros que se alagam nesta metrópole da solidão. Em uma dessas manhãs, eu percorri todo o trajeto que mencionei para vocês, mas já ao chegar de volta à sala foi possível ouvir o ruído de uma miniatura de cachoeira. A patroa diz que é desleixo, e eu fico encafifado: por que funciona todo santo dia, mas há momentos em que a lógica falha?


É através de uma cena tão quotidiana como esta que tivemos um dos maiores desafios ao racionalismo cartesiano, com um forte reforço no empirismo e quase beirando o ceticismo. É uma questão tão importante que eu nem sei como ficou de fora até hoje no meu espaço. Antes, porém, seria importante se dar conta das propostas do tal racionalismo, que podem ser lidas neste texto, e do embate que o mesmo teve com o empirismo*. Falei muitas vezes sobre isso, mas podem tomar conhecimento aqui. Isso feito, vamos falar sobre as ideias de David Hume.

Hume foi um filósofo escocês, bastante precoce, mas que demorou um pouco a emplacar notoriedade. É considerado o empirista que mais radicalmente carregou seu projeto epistemológico, a ponto de quase retomar o antigo ceticismo pirrônico, que entendia ser impossível conhecer.

Mas vamos passo a passo. Os empiristas seguiam a linha geral da tabula rasa, expressão latina que significa algo como “papel em branco”. Essa é uma metáfora que indica que todos os operandos para o funcionamento da razão humana são obtidos de fora, ou seja, dos objetos aos quais somos apresentados. Não há, segundo eles, nenhuma coisa que venha a priori, como tanto defendiam os racionalistas. Portanto, todo o conhecimento é obtido a partir da experiência e por intermédio dos nossos sentidos, que são a ponte entre nossa razão e o mundo.  É necessária uma experiência** para que tenhamos em nós conteúdo cognitivo novo, e vem daí o nome da corrente (empeiria=experiência em grego).

Mas como essa coleta de informações vinda do ambiente e de outros sujeitos é processada em nossas mentes? Enfim, como as percepções absorvidas pelos sentidos ganham estatuto de conhecimento? Segundo Hume, os dados obtidos do meio externo ficam gravados na forma de impressões e de ideias. As impressões são os meios primários com os quais nosso cérebro é atingido, e se dá pelo contato direto com o objeto da cognição. Por exemplo, digamos que eu tenha uma bola de futebol em minhas mãos. Percebo nela uma série de características simples: suas cores, seu peso, sua esfericidade, seu material. Nenhuma delas representa uma bola isoladamente, mas é necessário que todos esses componentes de impressões simples estejam lá para que eu tenha uma impressão complexa: o objeto bola. Enquanto a tenho comigo, ela imprime uma forte percepção em minha mente, já que todos os meus sentidos estão atuando para recolher informações sobre ela. A impressão, portanto, é extremamente vívida, presente e correspondente ao real.

O que acontecerá, entretanto, se eu pegar essa mesma bola e jogá-la em um canto do quintal, afastando-a dos meus sentidos? Bem, ainda assim eu serei capaz de articular mentalmente com o objeto, só que agora na forma de ideia. Ocorrerá que o objeto ficará cada vez menos nítido, empalidecido, mas com uma vantagem em relação à impressão. Imaginemos um técnico que vê seu time jogando uma partida sofrível. Os lances, passes e tática estão ali em campo, visíveis, e estão sendo escritos na sua mente na forma de impressão. A partir do momento em que nosso pobre treinador começa a imaginar formas de corrigir o posicionamento de sua equipe, ele não está mais coletando dados da realidade presente, mas utilizando informações vindas de suas experiências anteriores, até que consiga pensar em formas de transpô-las para as quatro linhas. Essa é a vantagem das ideias: como o objeto não estará mais tomando toda a minha atenção, terei mais facilidade para articulá-lo com outras ideias, no que resultará em nosso processo de abstração. Com a impressão, temos o que sentimos; com a ideia, o que pensamos.

Segundo o empirismo, o inatismo é impossível, e ele é imprescindível para a lógica racionalista. Hume explica como o inatismo é falacioso por conta dos mecanismos de associações que produzimos em nossas mentes. Entidades abstratas são reconhecidas por conta de conhecimentos preexistentes vindos dos sentidos. Um deus, por exemplo, é uma continuação dos homens que são efetivamente conhecidos: através da ideia de humanidade, maximizam-se seus valores e temos o deus infinitamente misericordioso. Através do domínio da natureza que o próprio homem tem, chega-se à onipotência divina, e assim sucessivamente. Aliás, falando em infinito, outra concepção abstrata tida como inata, é através do aprendizado dos tempos cada vez maiores e dos espaços cada vez mais distantes, que se associam uns aos outros, que se chega à ideia abstrata de infinitude. Ou seja, mesmo o mais abstrato dos devaneios não é feito por criação exclusiva da mente humana. Antes disso, é com elementos já existentes nas ideias que a abstração se cria.

Apesar deste golpe no racionalismo, Hume também chuta a canela do próprio empirismo, e o faz de maneira dolorida. Segundo ele, a mente opera através de três processos de associação de ideias: semelhança, contiguidade e causação. O primeiro é dado pelo óbvio mecanismo de remissão de uma coisa para a outra. Uma bola de futebol se assemelha a uma de basquete, que se assemelha a uma de vôlei e assim por diante. Até mesmo algum esporte não inventado, que esteja somente em minha imaginação, pode ter uma bola envolvida se eu associá-la a este ambiente por semelhança. Já a contiguidade se forma pelo reconhecimento de que as coisas andam habitualmente juntas. Seguindo o exemplo do futebol, uma bola já faz pressupor campo, jogadores, torcida, árbitro, partida, campeonato e via discorrendo. Por fim, o processo de causação é a clássica relação de causa e efeito, onde tudo o que acontece é consequência de um fenômeno que lhes deu origem. O chute é a causa do gol, o gol é a consequência do chute; a falta é a consequência da jogada violenta, a jogada violenta é a causa da falta, seguindo ad nauseam por quantos exemplos se queiram. Acontece que o processo empírico se serve profusamente das associações de causação, e é aí que está todo o problema. Tenham um pouco de paciência que a gente já chega lá.

Hume entende que há dois gêneros de objetos que são processados em nossos cérebros. Temos relações de ideias, que são desdobramentos de pensamentos inferidos unicamente pelo próprio raciocínio, e que ficam circunscritos à definição de conceitos lógicos e matemáticos. Não se trata dos mesmos pensamentos inatos que Hume tanto combate, mas de derivações daquelas ideias que já perderam o vínculo com a concretude que lhes originou. Aqui ficam os conceitos, os entes matemáticos, os desenvolvimentos lógicos formais, as descrições geométricas e tantas outras relações que se assemelham muito aos juízos apriorísticos kantianos. É uma relação de ideias, por exemplo, afirmar que duas retas paralelas são aquelas que não possuem nenhum ponto em comum, ou que um cubo é um sólido de seis faces, ou ainda que a décima potência de 2 é igual a 1024. As relações de ideias são baseadas no princípio da não-contradição, o que significa que uma inversão lógica a torna completamente inválida. Não é possível afirmar que um círculo é quadrado, ou que eu vou e não vou ao jogo de futebol ao mesmo tempo.

O outro gênero são os dados de fatos. São estes que são colhidos diretamente da experiência, iniciando como uma impressão e posteriormente indo para o campo das ideias. São exatamente eles que retratam o ato empírico, e é por eles que disparamos as associações de ideias. Ou seja, não há aqui nada que seja apriorístico, porque só conseguimos atinar qualquer fenômeno a partir do seu acontecimento. Quando eu usei o exemplo da bola para falar sobre a aquisição de uma impressão, era um dado de fato que eu tinha em minhas mãos. Então eu poderia fazer um sem-número de associações a partir daquele objeto: a similaridade com qualquer outra bola e a contiguidade do seu uso em um campo ou quadra. Naturalmente, eu também podia fazer associações de causa e efeito com ela. A bola é consequência do couro, que é consequência do boi, que é consequência da grama, que é consequência da terra e qualquer outro tipo de bobagem meramente ilustrativo. Enfim, o princípio da causalidade diz que qualquer objeto ou fenômeno tem uma causa que lhe dê origem. Só que é aí que tem uma pegadinha. Para demonstrar isso, vamos ao exemplo do próprio Hume.

Vamos imaginar uma mesa de bilhar onde estão duas bolas colocadas livremente, sem que nenhuma delas esteja encostada nos limites do móvel. Quando você der a tacada de uma na direção da outra, o que esperará? Ora, que o choque impulsione a bola que estiver parada. Isso acontece porque vemos isso acontecer uma vez, duas vezes, três vezes, todas as vezes em que se repetir o movimento. Acontece que ver o choque entre duas bolas de bilhar é um dado de fato, e aqui o princípio da não-contradição é inaplicável. Ao contrário de afirmar que um triângulo tem dois lados, não há nenhuma espécie de contradição lógica em dizer que uma bola não se moverá com o impacto da outra. Isso pode se dar por qualquer motivo: que uma das bolas seja imprevisivelmente pesada, que esteja imantada na mesa, que possua uma trava sob ela, não importa. Não há nada que assegure a repetição da causa e do efeito.

Mas por que diabos vemos as coisas se repetirem? Por que o sol nasce todos os dias e se põe todas as noites? Porque as coisas caem quando as soltamos no ar? É que nós possuímos um esquema mental que está preparado para a habitualidade. A repetição dos fenômenos faz com que tomemos por verdade lógica uma determinada sequência de causa e consequência que, in extremis, não existe. Isso porque os dados de fatos não precisam seguir o princípio da não-contradição. O sol nasce todos os dias, mas é possível dizer que ele não nascerá sem que se caia em uma contradição. Diga-o a alguém que esteja na noite de seis meses dos polos ou no lado escuro da lua. Também não há contradição em dizer que algo não vai cair por ação da gravidade, bastando estar no espaço sideral. E, por fim, um dia o sol vai se apagar, e o efeito da gravidade pode ter uma condição tal em que seja anulado de uma hora para outra, quem pode dizer?

O fato, para Hume, é que o hábito ilude. Nós não nos damos conta de que a repetição dos fenômenos não é uma questão de conhecimento, mas de crença. Nós não sabemos que algo vai acontecer em consequência de uma causa, mas cremos que vai acontecer. Isso arremessa de cabeça a indução para a Metafísica, porque não é possível inferir necessidade*** a priori. Se fosse, por qual motivo precisaríamos observar empiricamente o resultado de uma ação? A causa e efeito retirados de uma relação lógica se tornam algo como uma fé, que não está no escopo do empírico. As relações de ideias estão a salvo disso tudo, porque definições não são derivadas de causação, e estão submetidas ao princípio da não-contradição, como eu disse anteriormente.

E por que isso é um grande problema? Porque toda a Ciência se baseia em indução. Os antigos silogismos aristotélicos eram muito elegantes, mas se prestavam a inferir logicamente as coisas que já possuíam predicação em si mesmas, enquanto o que trazia novidades de fato eram os encadeamentos indutivos, que buscavam exatamente a repetição dos fenômenos para trazer cada vez mais força aos seus argumentos. O problema da indução levantado por Hume nos faz questionar se de fato a Ciência é capaz de produzir conhecimento, já que se baseia na observação de fenômenos que, reduzidos a inferências, não tem poderio lógico de se sustentar.

O desconforto, mais uma vez, vem do desconhecimento sobre a maneira com a qual a Ciência se apoia na observação dos fenômenos para obter seu combustível. Os cientistas sabem disso, e trabalham no sentido de uma aproximação com a verdade, e não com a verdade em si, que é coisa difícil de atingir. É por isso que os métodos buscam cada vez maior aperfeiçoamento, e o critério da falseabilidade é a melhor prova de que a indução pode ser trabalhada de forma mais inteligente, e mesmo o método popperiano já foi levado mais além, de modo que os corolários de uma teoria sejam atacados antes do seu cerne. Além disso, o próprio Hume afirmava que as relações de causa e efeito podiam não ser logicamente consistentes, mas eram úteis. Embora a indução seja contingente, ela fornece graus competentes de probabilidade quando levantada com rigor. Isso porque o objetivo de Hume não é imobilizar o processo de busca do conhecimento, como fariam os antigos céticos, mas o de descortinar qualquer procedimento que não fosse baseado na realidade e nas verdadeiras possibilidades cognitivas.

Evidentemente, as propostas de Hume são desafiadoras, mas ele mesmo diria que não são definitivas. Pouco tempo depois, Kant faria a genial conciliação entre as duas correntes, descrevendo o que é apriorístico e o que é empírico na cognição, e dando um limite muito mais preciso da participação da consciência individual nessas relações, mas ele mesmo atribui a Hume seu despertar do sono dogmático, o que por si só já é um elogio de inflar o balão. Espero que tenha ficado bem claro. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Hume é altamente crítico neste seu tratado, e é uma das obras mais pedidas nas faculdades de Filosofia. Para quem se interessa pelo tema, é um prato cheio.

HUME, David. Tratado da Natureza Humana. São Paulo: Unesp, 2009.


* Para quem estiver com preguiça de ler os links: o racionalismo entende que a razão é prioritária no desenvolvimento do conhecimento, porque certas relações cognitivas já vêm de fábrica no ser humano. Já o empirismo acha que todo o conhecimento é externo ao contribuinte, sendo adquirido através dos sentidos e, aí sim, processado pela mente.

** Não no sentido propriamente científico, como as experiências realizadas em laboratório, mas na vivência dos fenômenos que nos cercam.

*** Em Filosofia, necessário é aquilo que é de uma forma e não poderia ser de outra.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O cesto da gávea de onde observo o mundo - 7ª mirada (2ª parte): São Luiz do Paraitinga - A Cultura e a dúvida: Como viver sentindo a passagem do tempo?

Olá!


O que faz uma cidade ser única? Em São Paulo, por exemplo, a oferta gastronômica e as alternativas acadêmicas, terra de trabalho e correria. Em Santos, as praias. No Circuito das Águas, ora, as águas. Em Ibitinga, os bordados; e assim sucessivamente. São Luiz do Paraitinga tem sua identidade marcada pela inesgotável festividade de seus habitantes.




São Luiz do Paraitinga tem na sua matriz cultural a sua principal característica. Não há praticamente nenhum mês no seu calendário cultural que não abranja algum tipo de festividade, e as marcas dessa febre estão espalhadas por todo o espaço público. A cidade inteira parece um grande trabalho de tear, com urdidura e trama coloridas, começando pelas casinhas que cortam toda a zona urbana.



Outro exemplo é esta escadaria, que é mais um desafio ao término de uma íngreme ladeira, que lhe dá aspecto de uma colcha de retalhos, tão típica da região toda.



Ao chegar mais próximo, um grafite dá mais uma dimensão ao colorido: a teatralidade.



Das incontáveis ladeiras, há muitas referências a um passado que nem é tão remoto assim. Exemplos são os painéis de azulejos do Largo do Teatro (do qual falarei já, já) e da Ladeira das Mercês, que desemboca na capela de mesmo nome. A ladeira retratada, que é o acesso à igreja do Rosário, é praticamente igual ainda hoje.



Festa, música e comida tem uma porosidade entre si. Como tal, é muito difícil de se pensar em uma sem as outras (vide este texto). Por isso mesmo, Paraitinga tem uma curiosidade: não há um, mas DOIS coretos na cidade de 12000 habitantes, sendo um na praça da matriz e outra no calçadão contíguo.



As atividades econômicas da região, além da típica agropecuária, tem muito a ver com o dia-a-dia das próprias pessoas. Nada de grandes indústrias. Há destilarias, como a Mato Dentro, que produz uma cachaça forte, forte, forte de marré, marré, marré, e que ostenta uma série de premiações, situada no interior de uma fazendinha.



Já na praça da matriz, o reforço da vocação etílica, representada por uma adega simbolizada pelo retrato do Pimba, que, curiosamente, é a cara do meu sogrão quando jovem. Atendidos pelo Amauri, ficamos sabendo que o Pimba em questão não é o dono do alambique, mas seu pai (se bem me lembro). A fábrica fica perto, no município de Taubaté. Há cachaça para todos os gostos – branquinha, amarelinha, no carvalho, na umburana, no amendoim, na canela, com frutas e etc.



Há também uma pequena fábrica de farinha de milho, daquelas grossas, que fica no mesmo conjunto do hotel onde ficamos hospedados. A visita à produção é franqueada, de modo que se possa desvendar o mistério dos flocos. Uma moenda tritura o milho, que é filtrado por um túnel poroso. Este fubá é levado a uma chapa circular quentíssima, onde é floculada e ensacada. Bom para saber.



Agora, a comida... Tudo o que é servido aqui é abundante. É preciso certa parcimônia nos pedidos, porque há necessidade de valentia para encarar os “fogados” e costelinhas com quirera, dentro outros. Este abaixo é um dos pratinhos servidos no Barão:



Desculpem-me, mas aqui vou fazer propaganda franca e aberta, e juro que sem remuneração. Um dos melhores lugares que passei em SLP foi um barzinho chamado “Mai será o Binidito?”, colado ao rio Paraitinga e ao Mercado Municipal. Este é o seu distintivo:



É um lugar que junta uma pegada cinematográfica (as paredes são forradas com referências aos filmes rodados na cidade) com produção literária local – e que se pode confortavelmente ler em uma poltrona centenária – e com comida de comer rezando. Aqui, tivemos a felicidade de pegar, de graça, uma jam-session do músico Moreno Overá com um rapaz recém-formado na Europa, de nome Guilherme.



Aqui, a criatividade e a tradição são reunidas no bolinho de arroz com “fogado” (com cachacinha amarelada)...



... e nas diferentes opções de pastel de angu, preparados com requeijão de prato, carne seca, carne moída. A Dani, a Thais e o Pipoca escavam, não sei de onde, cervejas artesanais surpreendentes, como a já recomendada Biéres de la Madona, as cervejas do Gordo e a Lilith. Estão nas vésperas de produzir sua própria cerveja, o que aguardamos com certa apreensão.



Vamos partir para os principais eventos da cidade, aqueles que a deixaram famosa. Há, evidentemente, a festa junina e algumas festividades que homenageiam os cidadãos famosos, além da festa do Saci, uma espécie de alternativa ao Halloween, mas as que “pegam” mesmo são o Divino e o Carnaval. Vamos dissecá-los um pouco.

A festa do Divino Espírito Santo é oriunda da rememoração do dia de Pentecostes, solenidade católica em que se evoca a vinda do Espírito Santo, da mesma maneira em que é relatado pelo livro dos Atos dos Apóstolos: em uma noite cinquenta dias após a Páscoa, um forte ruído assombra os discípulos de Jesus. Era o Espírito Santo, que lhes vinha em algo semelhante a uma pomba. Por esse motivo, o pássaro cosmopolita é a sua representação mais comum.



A comemoração litúrgica é uma missa quase igual a todas as outras, o que fez com que a festa do Divino praticamente se extinguisse dos grandes centros urbanos. Mas a cultura popular a transforma em uma festividade gigante, especialmente no banquete coletivo. Em SLP, o prato principal é o mesmíssimo “fogado” mencionado anteriormente – carne de segunda que passa a madrugada inteira sendo cozida com temperos e legumes, para estar desfiando no momento do consumo. Além disso, há várias procissões que começam longe, e que vão se aproximando e agregando gente por onde passa. Como em todas as outras cidades da região, aqui também a bandeira do Divino é ponto central da festa, sendo instalada em altos mastros, como esse que se encontrava deitado por ocasião de nossa visita.



Testemunha de toda essa movimentação é Neca Junqueira, artesã da lojinha Tatu Him, que nos contou histórias e mais histórias de inundações e celebrações. Sua loja/casa é a do meio, verdinha. Fica quase que nas escadarias da igreja do Rosário.



Quando visitamos sua loja, havia um pequeno aglomerado de crianças nas tais escadarias. Aos poucos, foram chegando alguns jovens, trazendo uns instrumentos musicais. Todos eles saíam de uma casa situada no chamado Largo do Teatro, que citei agora pouco.



Desta mesma casa, emergem dois bonecões. Um senhor de barba e cartola e uma mulher com cabelos amarelados, ambos vestidos de retalhos de chita. Trata-se da representação de Juca Teles e Nhá Fabiana, representação máxima do Carnaval de marchinhas, o segundo evento ao qual gostaria de me referir.



A Neca nos contou o que estava havendo. Eram as crianças e seus instrutores que, ainda em setembro, já se preparavam para a chegada do reinado de Momo, ensaiando o seu desfile. Diferentemente de outras localidades, aqui não é o samba o fundo musical do Carnaval, mas as assim chamadas marchinhas. E os bonecões são uma espécie de abre-alas dos blocos que tomam as ruas da cidade.



Por esse motivo, os bonecões estão espalhados pela cidade inteira, seja nas ruas...



... seja nos prédios públicos, como o Instituto Elpídio dos Santos...



... seja até mesmo no interior dos comércios.



Mas, como já citei no primeiro texto sobre essa cidade, o Carnaval já foi mal visto por aqui. Rapidamente revisando: o italiano Monsenhor Ignacio Gioia foi nomeado pároco local no início do século XX. Impressionado com a importância dada à festa carnavalesca, onde, segundo se dizia, as moças vinham tomar as cinzas no início da quaresma ainda com os corpos repletos de confetes, baixou proibição a todo cristão da cidade de tomar parte desta perdição, no seu dizer. Dizia coisas como o surgimento de rabos e chifres naqueles que desobedecessem, bem como profetizou a inundação da cidade até os tetos da igreja, caso a sem-vergonhice prosseguisse. Há quem diga que sim, há quem diga que não, mas o fato é que enchentes nunca foram propriamente novidades por aqui.

O padre se foi, mas a imprecação permaneceu ecoando. O caso meio que ficou no plano do folclore, até que uma reportagem da rede globo, no começo da década de 80, foi “cavucar” as memórias das pessoas. O resultado da matéria, exibido em rede nacional, foi tomado como ofensivo pelos luizenses, dado o seu tom jocoso, tipo como se os habitantes ainda tivessem medo de se nascerem chifres em suas cabeças e rabos em seus traseiros. Esse foi o estopim para que o Carnaval de marchinhas voltasse a eclodir, com toda a sua força. Ano após ano, mais e mais blocos iriam se constituindo: Barbosa, Casarão, Lençol, Lobisomem, Bebebum, e muitos outros. O mais famoso deles: Juca Teles.



É uma referência ao agitador cultural Benedito de Souza Pinto, que era famoso até a década de 60 por conta de suas manifestações populares, como a Malhação de Judas. Ele adotou o pseudônimo exatamente por conta da transgressão à “moral e bons costumes”, ainda mais pelo fato de ser funcionário do judiciário. Mas ele carregava consigo a alma festeira adormecida naquelas pessoas, e a recriação do Carnaval luizense foi resgatar esta figura que levou praticamente sozinho o que restava dos velhos tempos.



Em todos os estandartes dos blocos, além dos dísticos habituais, como as máscaras teatrais e o megafone de lata, há uma intrigante pergunta: “Como viver sentindo a passagem do tempo?”. Muito interessante ver um questionamento tão profundo em algo voltado à frivolidade, o que é prova de preconceito meu.

Há dificuldade até mesmo em interpretar certeiramente o verdadeiro sentido da pergunta. Será que tem o âmbito de manifestar uma vontade (algo como: “Quero sentir a passagem do tempo. Como fazê-lo?”) ou uma angústia (“Como conseguir viver mesmo sentindo a passagem do tempo”)? Isso porque o tempo é um tema complexo demais, e vou tentar responder ao desafio jucateliano ao meu modo.

Bem, a primeira coisa necessária é tentar entender o que é o tempo, e já aqui a barca naufraga. Muita gente boa tentou fazê-lo, inclusive da maneira que expus neste espaço, aqui e aqui. Em resumo: Santo Agostinho dá uma resposta universal. Se ninguém me perguntar o que é o tempo, eu sei o que é; se alguém perguntar, eu já não sei. Ou seja, o tempo é inefável; foge da razão e está no campo subjetivo da intuição. Cada um tem sua própria percepção de tempo, como bem disse Bergson. Leiam os dois posts que indiquei. São breves e deixam as coisas bem claras.

Mas não precisamos nos reter apenas a estes dois pensamentos. Se pensarmos o tempo nos termos da Física, veremos que os estudos da relatividade de Einstein levaram à fusão dos conceitos de espaço e tempo, algo muito-muito-muito complexo, e que, aqui, abordaremos apenas o essencial necessário para desenvolvê-lo. O contínuo espaço-tempo é algo como um sistema de coordenadas quadridimensional. Neste sistema estão incluídas as facilmente perceptíveis dimensões espaciais (altura, largura e profundidade) e é adicionada a variável do tempo, um eixo através do qual as demais dimensões trafegam. Cada ponto neste sistema é um evento, ou seja, algo que ocorre em momento e local específico. Ocorre que todo esse sistema depende de um referencial para ser aplicado. Afinal, algo tem distância em relação a algo; algo tem duração em relação a algo, ok? Digamos que uma pessoa parada observa um avião. Para ela, o avião está em movimento. Para quem está dentro do avião, o referencial muda: estão parados, e quem se apresenta em movimento é a pessoa da terra firme, que se afasta rapidamente. Se observarmos tudo isso de fora do planeta, perceberemos outro fenômeno – nem um, nem outro estão parados. Ambos se movem com o giro da Terra, e esta gira em torno do Sol, que gira com o braço da galáxia, e assim por diante. A cada novo referencial, temos um novo eixo do tempo no sistema, e este contínuo é percebido de maneira diferente, por menor que seja tal diferença.

Pudemos notar que, mesmo na Física, a percepção de tempo não tem uniformidade, porque depende de referenciais. Em nossa imprecisa consciência, a questão se agrava. Perceber a passagem do tempo significa sentir seu fluxo, e isso significa perceber a movimentação entre o futuro que se espera, o passado que se rememora e o presente que acontece. Ou seja, o tempo se realiza no presente. A aporia maior está em limitar o que é este estranho personagem.

Vamos vasculhar alguns dados do pensamento histórico. Zenon de Cítio, o principal dos estoicos (vide aqui), parecia um cara brincalhão, dado a fazer joguinhos de paradoxos, como aquele em que dizia que um arqueiro, ao disparar sua flecha, jamais a veria chegar ao seu alvo. Isso porque, antes de chegar ao seu destino, a flecha precisaria percorrer metade de seu trajeto, e, antes disso, a metade da metade, e a metade da metade da metade, e così via. Como cada percurso poderia ser dividido em dois, teríamos uma divisibilidade infinita. Ou seja, o movimento nada mais seria do que uma ilusão. Coube a Marcos Cínico* resolver essa parada de um jeito muito fácil e prático, apesar de dolorido. Correndo, dá de cara com a parede, em um extremo do empirismo. Deve ter doído, mas lhe autorizou a ridicularizar a posição de Zenon, que, na real, deveria estar troçando da galera**.

Mas a divisibilidade infinita era um grande problema para que fosse possível estabelecer o que é o presente. Qual seria o seu “tamanho”? Encarando esse enigma, David Hume afirmou que a divisibilidade infinita não pode ser aplicada ao tempo. Há uma espécie de “átomo” do tempo que é o mínimo necessário para configurar um momento, um intervalo mínimo que permite a percepção da temporalidade. Enfim, a quantidade mínima necessária para que percebamos que algo ocorreu. Ora, mas não podemos ter a metade de um momento, ou até menos que isso? Sim, podemos; o diabo é que a percepção não está nas próprias coisas, mas no sujeito. O tempo não é nada sem o sujeito que o percebe. Notem então que há uma dissonância entre o tempo que acontece no cosmos e o tempo que conseguimos sentir. Notem mais ainda:  que um evento físico que ocorre no universo jamais é o mesmo que é produzido psicologicamente. Em Hume temos o belíssimo exemplo do instrumento de sopro e o instrumento de corda. Ele fala que aquilo que sentimos (e aqui insiro a sensação de temporalidade) não é como uma flauta, que cessa sua sonoridade assim que se para de soprar. Antes disso, assemelha-se a uma lira, cuja corda permanece em vibração após ser tangida, produzindo uma sensação sonora que se alonga até seu completo sumiço. O tempo cósmico, portanto, tem a exata medida de seus eventos, enquanto o tempo subjetivo, o tempo que verdadeiramente importa, este dura muito mais que o próprio evento, porque o sujeito tem algo chamado afeto***, algo próprio ao ser humano. Há uma assimetria entre o fenômeno ocorrido e as suas consequências, e o tempo dos afetos é mais duradouro do que o tempo de articulação com o mundo.

Pensemos no seguinte, para ficar mais claro. Um rapaz faz uma proposta indecorosa a uma moça qualquer. Como resposta, voa um belo tapa na sua cara, daqueles dados com as costas das mãos. O tempo físico do ato dura centésimos de segundo – o exato momento do encontro da mão da indignada moça ao rosto do indigitado canalha. Mas o tempo da dor, da decepção pelo fracasso do sacripanta, da revolta pelo acinte da menina, tudo isso dura muito mais, e causa muito mais efeitos do que o mero ato físico.

Diante disso, chego à conclusão de que o tempo, para ser sentido, nada mais é necessário do que perceber seu fluxo através daquilo que nos afeta. Cada pequeno ato que ocorre ao nosso redor é mais um ponto que se fixa no sistema de coordenadas de nossa vida, e que se transforma em referenciais. Por cada um deles mediremos memórias do passado e expectativas do futuro.

Eterno fluxo... Heráclito, o mestre do devir! Nunca tomamos banho no mesmo rio (mesmo – ou principalmente – que seja o Paraitinga). Nós não seremos mais os mesmos, nem o rio será o mesmo, ainda que daqui a um minuto, ou um momento indivisível. O tempo nada mais é do que a sucessão de nossas mudanças, o nosso próprio fluxo ininterrupto.

O tempo é indissociável da filosofia de Heráclito. Enquanto os demais pré-socráticos discutiam qual seria o elemento primordial que comporia os seres (vide), Heráclito institui a doutrina do panta rhei. Tudo flui, o próprio fluxo é o Ser, porque nada persiste em si mesmo imutável, no polo oposto do que Parmênides pensava. Ele usa a imagem do banho no rio para dar o exemplo mais clássico do fluxo eterno, mas é no fogo que ele vê em sua frente o grande elemento de transformação, e o adota como arché, talvez mais simbolicamente do que como elemento concreto.

E por mais que Parmênides possa estar correto em afirmar que há uma essência nos seres que os fazem ser imutáveis, o fato é que isso nos foge aos sentidos. O mundo sensível, aquele que nos afeta, é um continuum em que se entrelaçam o tempo instantâneo dos acontecimentos com o fluxo ininterrupto com o qual somos afetados pelos mesmos. Essa é, para mim, a mais bela maneira de sentir a passagem do tempo.

Recomendações de leitura:

Hume não é propriamente um filósofo fácil, nem de ler, nem de engolir. Isso porque seu ceticismo é praticamente absoluto, o que beira a uma completa ausência de confiança em qualquer coisa que seja. Mas ele, na verdade, é muito sagaz. Vale a leitura.

HUME, David. Investigação sobre o Entendimento Humano. São Paulo: Unesp, 1999.

O livro abaixo é um guia completo sobre o desenvolvimento do Carnaval luizense. Imperdível, apesar de, lamentavelmente, não ter sido editado por nenhuma editora de renome.

SILVA, Degiovani Lopes; VIEIRA, Maria Alice F. do Amaral. São Luiz do Paraitinga sem Rabo e sem Chifre. A Evolução do Carnaval das Marchinhas na Terra de Juca Teles do Sertão das Cotias. São Paulo: Edição do Autor, 2012.

* A escola cínica não tem nada a ver com o cinismo da maneira que utilizamos hoje. Os cínicos filosofavam por uma vida simples, como a de um cão (kynos – cão em grego), onde apenas as necessidades mais essenciais deveriam ser satisfeitas. Certamente terei boas oportunidades de falar melhor sobre eles.

** E estava mesmo: Zenon apenas demonstrava como a matemática não consegue dar conta de toda a realidade.

*** Lembrando que afeto, em Filosofia, significa não só amor que temos por outras pessoas, mas algo capaz de nos produzir qualquer mudança.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sobre a angústia

Olá!

Em um dos meus escritos anteriores (este), mencionei que duas coisas são inevitáveis em nossas vidas: a morte e a angústia. Senti necessidade de falar um pouco melhor sobre isso, especialmente sobre a última. Então vamos lá.

A angústia é inevitável em qualquer ser humano, porque é inerente à espécie. A cada momento convivemos com a incerteza sobre o futuro. Claro, este é imprevisível, por mais que tentemos desenhá-lo. Das divisões do tempo, é a única intangível, porque o passado reside na memória e o presente pode ser compreendido como uma sucessão praticamente infinita de acontecimentos, como se fosse um rosário de "agoras". E quanto ao futuro? Passarei para a próxima conta? E como esta será? Maior, menor, mais próxima, mais distante? Essa incerteza produz em nosso equipamento psicológico um misto de medo pelo desconhecido e tristeza por nossa impossibilidade de intervenção. Todo sentimento vem acompanhado pela angústia, até mesmo a alegria. Não temos certeza alguma em sua continuidade.


O filósofo francês Jean Paul Sartre, em sua obra O ser e o nada, faz uma investigação interessantíssima sobre a questão. Falando muuuuuuuuuito superficialmente, para ele, a angústia humana está vinculada à sua liberdade. Não parece estranho? Sua mais famosa frase é justamente "o homem está condenado a ser livre".

Segundo a filosofia existencialista, o homem não tem "liberdade de", mas "liberdade para". Que liberdade é essa? Ora, a liberdade para fazer escolhas.

Aparentemente, este tipo de liberdade é ótimo, e realmente o é, porque isso significa que o homem tem a possibilidade de guiar sua conduta, mas é exatamente aí que a angústia entra em ação. O homem escolhe porque tem a obrigação de fazer escolhas, e com isso carrega todo o peso da responsabilidade por elas. E sabe, também, que o menor ato praticado hoje trará reflexos pelo restante de sua existência.

Cada escolha representa um custo de oportunidade que pode jamais ser revertido. Se eu ofendo uma pessoa, por exemplo, não consigo dimensionar todo o alcance que terá esta minha ação. Poderei causar uma reação intempestiva, ocasionar uma vingança, forçar uma mágoa inesperada, ou até mesmo uma indiferença que me tornará perplexo. Da escolha que eu tomo, não tenho certeza alguma quanto aos seus efeitos. E o que é pior: não há nem mesmo como me recusar a escolher, já que a omissão é, por si só, uma escolha, com tantas consequências quanto as de uma decisão tomada.

É este o mecanismo que opera nos idosos quando eles sentem-se próximos da morte, ou pior: já aqui as contingências reduzem seus campos de escolha, e a angústia se amplifica. O mesmo se dá com os doentes, com os encarcerados, com os miseráveis. Mas isso não significa que o jovem, o saudável, o liberto e o rico não se angustiem, também. Como eu disse anteriormente, há o risco permanente de perda, e esta é a usina que produz a tristeza.

Se a vida é uma permanente angústia, e esta só é encerrada em plena certeza com a morte, por que continuamos achando que vale a pena viver? A ferramenta para continuarmos sobrevivendo chama-se fé.

Não me refiro aqui meramente à fé das religiões. Vários filósofos já discutiram a questão e chegaram à conclusão que, antes de ser um mero conforto, a religião sistematizada é um limitador da ação humana, não apenas no sentido moral, mas intelectivo, ao tentar guiar o pensamento aos seus ditames e regras. Meu foco, no caso, é um pouco diferente.

Crendo-se ou não em um Deus sistematizado, o fato é que sempre temos algo em que acreditamos, algo que está fora de nós, algo que nos transcende. Os ateus costumam dizer que só crêem naquilo que pode ser comprovado, que a religião é um simples lenitivo a quem não suporta a própria dor. Pois bem, que assim seja. Mas esses mesmos ateus acreditam que um novo dia surgirá a cada manhã, e que de uma forma ou de outra a vida vai continuar. Essa crença baseia-se em que? Em uma habitualidade que, segundo David Hume, é derrubada com um único ato que a contraponha. Basta que o sol não nasça para que bilhões de anos de experiência sejam jogados na lata de lixo.

Mas a crença de que o novo dia amanhecerá permanece, porque a ciência surge da hipótese, e esta não é palpável até que seja provada. Desta forma, transcende ela da própria realidade, da mesma forma que o futuro. Este é uma hipótese, está fora de qualquer campo empírico. Temos fé no futuro, ainda que não o vejamos.

Qual é, então, o nome do seu Deus? Jeová, Allah, ciência, futuro? De toda forma, nosso sustento vem da fé em algo que transcende a nós, algo impalpável, algo intangível, e se cremos na transcendência, não podemos nos considerar ateus ou, pelo menos, desprovidos de espiritualidade. Só os suicidas o são de fato e, mesmo assim, a perda da fé se dá por puro desespero. A ferramenta é a mesma, mudamos apenas o nome e a forma.


Recomendação de leitura:

O pensamento de Sartre é muito complexo, mas que vale a pena ser conhecido. Sua principal obra é:

SARTRE, Jean Paul. O ser e o nada. São Paulo: Vozes, 2005.