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sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (33 – Estatística)

(Números assustam, mas só enquanto não conseguimos encontrar aplicação prática para eles. Vamos falar sobre Estatística, importante para todas as áreas do conhecimento, inclusive Filosofia).

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Toda vez é a mesma pergunta: por que tenho que entregar as estatísticas se o ano ainda não acabou? Talvez a casa onde eu trabalho não seja o único lugar do mundo onde as coisas são assim, mas ainda acho absurdo que tenha que entregar números de um exercício que ainda não fechou, porque o fator chute sempre estará presente. Mas o pessoal de cima quer fazer bonito para os sacerdotes mais de cima ainda e querem entregar números no último dia do ano, como se nossa realidade fosse pitagórica link. Isso já deu rolo, inclusive. Havia previsão de uma entrega que se daria no baixar das cortinas do ano corrente. Por um desses jenesequás da vida, a coisa não deu certo e ficou para o ano seguinte, ocorrência do dia-a-dia. Não seria nada para quebrar a bolsa, mas aconteceu o quiproquó. Qual foi o problema? Nas estatísticas do ano seguinte, constou novamente a entrega do tal módulo, só que lá em janeiro. Alguém mais espertinho se deu conta e veio reclamar a dualidade. Até explicar que isqueiro com canudo não faz lança-chamas, foi um palavrório de dar dó, principalmente se levarmos em conta que estava vetada a exposição da real razão: a pressa na produção dos números, como se isso fosse modificar a realidade.

De fato, e contrariando a premissa contábil, os números aí estão para dar reflexo do mundo ao nosso redor, vitalidade das empresas inclusa, e não aquilo que queiramos/precisemos. Só que um número desencaixado de seu contexto não significa nada, mesmo que digamos que, por exemplo, representem valores monetários. Se eu falo R$ 10.000,00, o que isso significa? Se for um carro, é baratíssimo; se for uma roupa, é muito caro, e se for um salário, é bem razoável. Por esta razão, sempre é importante, para propósitos práticos, que haja bases de comparação e de contextualização. Em resumo, é preciso que os números não vivam sozinhos, mas que convivam com outros, e que esta articulação seja interpretada. Eles traduzem quantidades, qualidades, variações, previsões e muita coisa que é útil para dizer quem somos e o que podemos ser. E isso é uma função da Estatística.


Mas, peraê… este é um blog de Filosofia, e que tipo de relação ela pode extrair da Estatística? É que temos uma ideia preconcebida de que a Estatística é uma mera aplicação matemática, quando, na verdade, temos um espelho da realidade por trás dos números, algo semelhante ao que a Filosofia faz com as palavras.

Claro, a objetividade da Estatística costuma ser muito maior, já que ela trabalha com conceitos muito mais concretos que a linguagem dúbia da Filosofia, mas por ela também se reflete, se especula, se raciocina e se aplica lógica, além de ser uma ferramenta primordial em pesquisas, o que também faz parte do universo filosófico. Vamos aprofundar uns dois palmos.

Uma boa definição para Estatística é a parte da Matemática link que estuda as relações entre fenômenos e números, através de metodologias apropriadas de coleta e interpretação dos dados. Tem origem mais remota no latim status, que significa 'estado', ou seja, o modo no qual determinado objeto se encontra, como ele está, como ficou parado, estático. Dessa forma, a Estatística nasce com o propósito de demonstrar uma fotografia de um determinado momento de um objeto de estudo. Quando o governo solta as revoadas de recenseadores do IBGE pelo Brasil agora, quer, no seu fundamento, levantar estatísticas, um retrato do país em um momento específico, e que pode ser comparado com os censos anteriores.

E por que isso? Porque é preciso estudar a população como ela é, para que sejam desenhadas as políticas públicas de acordo com os anseios e necessidades dos agrupamentos humanos. É preciso medir como são e como eram, para entender a sua evolução ou regressão. Os levantamentos estatísticos, nestes termos, são imprescindíveis para descobrir o que somos como coletividade, e, sim, isso é ontológico, porque descortina a parte visível do nosso corpo social.

A Estatística é daquelas disciplinas que causam arrepios na moçada do ensino médio, embora esteja presente em nosso quotidiano de maneira imperceptível às vezes. É que matemática assusta, eu mesmo fico assustado diante de qualquer chave de raiz. Mas a Estatística é uma das áreas onde mais nós podemos ver a ideia abstrata dos números se tornar concreta. Em tudo é visível a Estatística: quando temos um aplicativo de scout dos jogos de futebol, tão comuns hoje em dia, aquilo é pura estatística - quantos chutes, quantos desarmes, os árbitros que mais dão cartões. Quando alguém está bombando no Ibope, é porque há uma estatística que mede isso. As pesquisas de intenção de voto é mais um exemplo, inclusive o cálculo das tão famosas margens de erro. Exames patológicos são estatísticos, seguros de automóvel são estatísticos, aumentos salariais são estatísticos. Em tudo há Estatística. 

Uma numeração absoluta é uma entidade muito abstrata para nossos pobres cérebros humanos. Isso acontece em várias circunstâncias, seja quando falamos em números muito grandes, seja quando falamos em quantidades de dados muito diversas. Quando um índice fala que setenta por cento da população está insatisfeita com certo governante, temos uma dimensão muito mais palpável - a cada dez pessoas, sete desaprovam o mandatário. Isso está no escopo do que presenciamos habitualmente, é facilmente perceptível. É bem possível que haja dez pessoas ao seu redor neste exato momento, e isso pode te dar uma dimensão bem mais próxima da realidade do que dizer que há um número tal de insatisfeitos.

A Estatística produz resultados que podem ser classificados em dois tipos: descritivos e inferenciais. Vamos lançar mão de uma historinha fictícia que vocês vão entender rapidinho a diferença. Imaginemos um clube qualquer que esteja às vésperas de trocar sua diretoria. Várias chapas são formadas e quebram o pau entre si, como sói acontecer nestes momentos, buscando angariar seus votos daquele jeitinho que tão bem conhecemos em Terra Papagalia. Coincidentemente, esse clube fica perto de casa, e eu acompanho todo o burburinho que cerca o grande evento. Na padaria se discute, no boteco se discute, na banca de jornal se discute e eu vou ouvindo preferências e deméritos. Boa parte daqueles que eu ouço são votantes, e daí consigo perceber uma linha de tendência para a chapa encabeçada pelo candidato Fulano, e isso me permite supor que o tal será o novo presidente da efusiva agremiação. Entretanto, o tal pleito transcorre em um domingo ensolarado, e o resultado sai já a noite, antes do dominical favorito da galera: vitória da chapa de Sicrano, com 57% dos votos.

Vamos lá. Quando eu estava ouvindo as bravatas nos bares e farmácias, registrava na minha cabeça não uma totalidade dos eleitores do conselho, mas parte dela, uma amostra. Sendo assim, era-me possível fazer uma suposição, uma hipótese, uma inferência. Essa inferência não vinha do nada, mas de uma coleta muito superficial que eu mesmo realizava, empiricamente. Por isso, a estatística inferencial é aquela em que, a partir de um grupo amostral, podemos generalizar uma expectativa de resultado para o grupo maior. Por outro lado, a eleição contém a totalidade dos votos, e o resultado final é um espelhamento da vontade de todo aquele grupo, e não há o salto da generalização porque ele já abarca todas as possibilidades. A estatística, neste caso, descreve um fenômeno, sem necessidade de suposições, e é aí que ela é chamada de descritiva.

Este exemplo também serve para diferenciar o conceito de população e de amostra. Quando é possível fazer uma pesquisa que conglomere todo um grupo de interesse, sem deixar nenhuma parcela significativa de lado, temos uma população, que é o objeto calculado na eleição. Se, por outro lado, não é possível inspecionar por completo esse mesmo campo, então temos uma amostra, e a partir dela fazemos a projeção para o todo, o que gera a famosa margem de erro. Isso significa que, quanto maior o n amostral, menor será a chance de que a projeção esteja errada. Isso é o que chamamos de intervalo de confiança, vital em metanálise, que veremos em breve em outro texto que estou preparando. Vou dar um exemplinho bem breve e comum. Imagine que você vai ao seu médico e alega sede excessiva, uma certa fadiga e tenha um evidente sobrepeso. O doutor suspeita que você tenha diabetes. Para se certificar, ele lhe pedirá um exame de sangue. O laboratório colherá uma amostra que, naturalmente, não representará a totalidade do sangue que há em seu corpo, sob pena de que você morra. Entretanto, ele não retirará apenas uma gotícula, pois seria uma amostra muito pequena, o que geraria um intervalo de confiança ruim, porque o sangue não é absolutamente homogêneo. Um frasquinho é suficiente, por conter quantidade o bastante para dar uma margem de erro baixíssima. A margem de erro precisa ser bem calculada, para que não seja tão grande a ponto de inviabilizar a pesquisa, e não tão pequena a ponto de seu resultado não levar a conclusão alguma. Haverá pouca diferença entre a medida do frasquinho e a inspeção total do sangue do seu organismo, a ponto de ser desprezível. É isso que significa aqueles famosos “2% para mais ou para menos” das pesquisas eleitorais. Sendo assim, o intervalo de confiança é a faixa em que uma amostra reflete com precisão a totalidade pesquisada. Quanto menor ele for, mais preciso será seu resultado.

A partir da tipificação estatística, podemos pensar nos seus modelos. Quando analisamos uma população como um todo, nossa análise estatística é determinística, ou seja, a coisa é o que é, sem nenhuma margem de dúvida. Por outro lado, quando analisamos amostras, o resultado obtido é probabilístico. Desta forma, não conseguimos certeza absoluta de um resultado, mas sim o quanto ele é provável. Novamente vamos dar um exemplo de cada. Quando fazemos um experimento científico com o ponto de ebulição de determinados líquidos, perceberemos que, a cada vez que cumprirmos os mesmos conjuntos de fatores, um líquido ferverá sempre na mesma temperatura, não importando quantas vezes se repetir o feito. Isso indica que não há uma probabilidade de ocorrer o fenômeno, mas uma determinação. Com relação à probabilidade, vamos pensar em um problema das grandes cidades: o roubo de veículos. Não é absolutamente certo que você será assaltado quando for dar um rolê no seu possante, mas sabemos que a possibilidade existe. Com base na probabilidade de você ser roubado, as seguradoras fazem complexos cálculos que elevam ou diminuem o valor do prêmio a ser pago. Não há uma determinação no evento roubo, mas uma probabilidade, que pode ser traduzida em índices que embasarão a facada no seu bolso.

Por fim, a Estatística é uma ciência como as outras, que busca seu aprimoramento e aproximação com a verdade através de técnicas cada vez mais apuradas. Um dos índices mais famosos em Sociologia moderna é o IDH - Índice de Desenvolvimento Humano. Ele não é perfeito, porque considera apenas três itens de um conjunto muito maior - saúde, educação e renda, e deixa de lado certos fatores mais pessoais, como a percepção de bem-estar ou da sensação de liberdades democráticas, mas mesmo assim é contundente em dar um retrato da qualidade de vida das populações mensuradas. E é um mecanismo bastante recente. Foi desenvolvido em 1990, e adotado pela ONU nesta mesma época. Dessa forma, com um único numerinho, que varia de 0 a 1, conseguimos situar um país com foco nas pessoas que lá habitam, sem as longas volutas dos índices e quocientes econômicos.

São inúmeras as aplicações da Estatística: a Sociologia mede por ela os índices sociais, a Medicina computa a eficácia de remédios, a Física calcula a probabilidade de colisões espaciais, a Contabilidade verifica as variações patrimoniais, a Economia traduz estatisticamente as valorizações de moedas e assim sucessivamente. A estatística mede variância, probabilidade, posição em uma escala, tendência e dispersão, desde simples médias de notas que te afligem ao fim do ano até milimétricas margens de erro que conduzem foguetes a Marte. Por isso ela é fascinante e assustadora. Bons ventos a todos.

Recomendação de canal:

A UNIVESP possui uma bela playlist que aborda o tema em questão. Para assisti-la, segue o link do primeiro vídeo da série.

https://www.youtube.com/watch?v=FDN6lXBj5Oo

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Tá, só não saquei bem o que é essa tal de (32 - Filologia)

(O que é Filologia? Muito utilizada nos estudos de obras antigas, é uma ferramenta imprescindível no estudo filosófico)

Olá!

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Não é a lei do eterno retorno, mas sim, as coisas que vão e voltam. Tinha fechado esta série, e não pretendia retomá-la, porque tinha lá seu escopo fechado e bem completo, e acrescentar coisas não estava na pauta. Acontece que há momentos em que parece existir um bicho-de-pé fazendo incômodo, e enquanto não nos livramos dele não temos sossego.  Achei que faltavam coisas aqui e resolvi reabrir o catálogo. Vamos, então, para a segunda temporada.

Quando iniciamos os estudos de uma graduação em Filosofia, sempre nos deparamos com as instruções dos mestres nos mandando tomar cuidado com as interpretações de época. Isso acontece pelo óbvio motivo de que começamos pelo começo e vamos buscar coisas lá da Grécia antiga. Como se pode supor, nem os gregos atuais falam da mesma maneira que há três mil anos, e muito pode se fazer de confusões quando não se adotam as prudências de estilo. Ocorre que somente descemos a essas profundezas quando vamos partir para empreitadas mais complexas, como em uma tese de mestrado ou em uma monografia bem feita. É exatamente aí que podemos nos deparar com as inúmeras contradições da linguagem, que pasmem, não são exclusivas do português.

O ideal seria aprender a língua-mãe do autor em tela ou cenário que gostaríamos de estudar, mas primeiro que os cursos são caríssimos e o problema não seria totalmente resolvido, porque, como eu disse, o grego moderno é bem diferente do grego antigo, o latim nem existe mais e via discorrendo. Isso vai dando um pouco da dimensão da complexidade da temática, porque um termo mal interpretado pode, eventualmente, mudar toda a compreensão que temos de uma frase, de uma sentença ou até de um texto todo. Por esta razão, os estudos filosóficos, religiosos, históricos e linguísticos perceberam a necessidade de analisar cuidadosamente o efetivo significado dos termos originários e sua articulação com o texto, o que fez com que nascesse a Filologia.


O próprio termo em si já pode nos trazer uma ideia de sua função. Quando queremos fazer uma tradução da etimologia desta palavra, desmembramos os termos gregos philo e logos. O primeiro significa aquele amor que temos por pessoas e coisas sem a necessidade de uma ligação física, com quem temos uma afinidade. Já o logos é normalmente traduzido como razão, o mecanismo do correto pensamento. Desta forma, Filologia pareceria querer dizer "amor à razão". Ora, mas não é exatamente isso que Filosofia significa?

Aqui, precisamos desdobrar outros significados possíveis para o termo logos. Além de razão, pode significar estudo. Assim sendo, teríamos um significado de “amor aos estudos”. Não parece fazer sentido, porque é genérico demais. Porém, se procurarmos ainda mais um significado, teremos logos como sinônimo de palavra. Amor às palavras? Agora parece que está mais correto, porque é esse o sentido: o filólogo é o estudioso do significado remoto das palavras, que tem tanta afinidade com a literatura que vai buscar suas raízes mais profundas, embora seja importante não confundi-lo com os etimólogos, tema que também tratarei, mas para diferenciar rapidamente, temos que o filólogo busca o sentido dos termos através de sua pesquisa temporal, enquanto o etimólogo se preocupa mais com a sua origem em si.

A Filologia, portanto, estuda as fontes antigas para determinar a melhor formação de um determinado texto que carece de uma compreensão mais completa. É importante porque em todo pensamento utilizamos dados, e quanto mais próximos da realidade eles estiverem, melhor embasadas estarão nossas conclusões. Quando pensamos em origens muito longínquas, sempre maiores serão os desvios semânticos que poderão ser causados.

A necessidade de se estudar a adequação dos textos é bastante antiga. Já na Biblioteca de Alexandria, que existiu entre III aC  e III dC, percebeu-se que os textos do grego Homero tinham muitas divergências entre si, dependendo do copista e da região da Grécia da qual um manuscrito tivesse chegado. Claro, estamos em uma época em que o fator humano influenciava muito mais o trabalho de reprodução do que nos dias de hoje, porque lá ocorriam erros de supressões, de repetições, de inversões de ordem e até mesmo de alterações propositais, então era através da comparação entre estes textos e da consideração de outros fatores contextuais que faziam com que esses primeiros filólogos desenvolvessem suas técnicas. Não bastava pegar dois manuscritos homéricos divergentes e fazer um uni-duni-tê para dizer qual estava mais correto. É preciso trazer subsídios que possam trazer paralelos e apontar para uma melhor opinião sobre o que é mais válido.

O trabalho do filólogo é fundamentalmente de pesquisa e investigação, e ele usa dos mais diferentes artifícios para conseguir dar unidade e uniformidade a um texto. Em Filosofia, para dar um exemplo, temos inúmeros pensadores dos quais só possuímos fragmentos de suas obras, como é o caso dos poemas de Parmênides e Empédocles. Um dos trabalhos dos filólogos está em supor de maneira coerente o que preencheria essas lacunas, especialmente pela remissão a outras fontes.

É preciso lembrar que compilados muito antigos nem sempre estão colocados em ordem cronologicamente correta, o que pode causar dificuldades em compreensão. Um dos casos mais famosos é a organização da obra aristotélica por Andrônico de Rodes, o que, sem querer, acabou denominando a Metafísica. Ele agrupou simplesmente os textos a que tinha acesso por temática, não se preocupando muito em obedecer uma cronologia. Essa questão da datação é um dos grandes problemas para a Filologia.

Vamos fazer uma brincadeira aqui. Vamos fazer de conta que pediremos para um filólogo ordenar os trezentos e tantos textos deste blog, supondo que não existam as datas. Lá pelo meio dos textos, ele vai encontrar um que falará sobre uma apresentação, e concluirá que se trata do início. Depois, procurará por contextos de época, mesmo que sejam discretos, como a informação do término de uma novela. Depois, ele perceberá que há uma série de hiperlinks fazendo referência a outros textos deste mesmo espaço. Se há referência, ela só pode ser feita apontando para uma preexistência. Ou seja, um texto referido é anterior ao texto referente, o que facilitará na ordenação. Ainda procurará por outros sites que apontem para o meu, estes contendo data ou outra dica temporal, e com isso irá construindo a melhor sequência possível.

Um outro exemplo do trabalho filológico, desta vez concreto, vem do texto conhecido como Epístola aos Hebreus, que as igrejas cristãs costumavam atribuir ao apóstolo São Paulo. Entretanto, uma análise mais aprofundada faz com que essa autoria não seja mantida em pé. Isso é feito através de um amplo trabalho filológico, que considera os seguintes pontos: é um documento que não possui formato de carta, como é costumeiro de se ver nas outras epistolas do santo em questão, que utiliza uma saudação aos destinatários e faz um preâmbulo dos temas que serão tratados, além de se identificar claramente, o que não ocorre aqui. Outra questão é estilística: a Epístola aos Hebreus é de uma densidade literária muito mais sofisticada do que a rudeza da escrita típica paulina. Alguns termos usados frequentemente, como Cristo Jesus e Deus Pai estão ausentes em Hebreus, sem contar que certas atribuições teológicas lhe são exclusivas, como o Cristo considerado como sacerdote. Sendo assim, a crítica tende a considerar desconhecido o autor desta carta, ainda que a tradição e alguns elementos secundários possam indicar a autoria de são Paulo. Poder-se-ia considerar que o nosso caro santo pudesse ter multiplicidade estilística? Poder-se-ia, mas é preciso lembrar que nem todo mundo é Fernando Pessoa, e há o ponto da objetividade que precisa ser considerado. Não havendo um forte motivo para a variação estilística, não faz sentido que esta seja aplicada.

Um texto nunca é escrito para si mesmo, a não ser aqueles famosos entitulados "meu querido diário". Isso significa que São Paulo escrevia para a florescente comunidade cristã, que Aristóteles escrevia para os alunos do Liceu e eu escrevo para interessados em Filosofia geral. Como se pode ver até agora, há método no desvendar filológico, que deve ser seguido no máximo da possibilidade. Todos aqueles que buscam estabelecer uma comunicação lançam mão de um determinado código que não lhes é exclusivo, e, portanto, possuem elementos de identificação das chaves de leitura. Isso pauta o trabalho do filólogo, que, grosso modo, possui fases distintas, mas que se entrelaçam para dar forma às suas conclusões.

Como todo trabalho minucioso, um estudo filológico é dividido em fases que, por sua vez, é dividida em etapas. Segundo Bassetto (2001), uma boa metodologia para a análise filológica é assim dividida:

 

1ª fase: crítica textual – este é o momento em que o pesquisador vai buscar reconstituir “fisicamente” o texto, ou seja, juntar todos os elementos disponíveis para se obter um documento o mais próximo possível do original. Tem as seguintes etapas:

Recensio – este é o levantamento dos códices existentes de uma obra. Por códice, podemos entender as diferentes versões da mesma, feitas pelo próprio autor ou por copistas, os seus fragmentos e as remissões que lhe são feitas. São os “caquinhos” que vão reconstituir a obra.

Collatio codicum – estando todas as versões e fragmentos disponíveis, este é o trabalho de comparação feita entre eles para que seja possível obter um manuscrito mais completo. É como se estivéssemos colando as peças do vaso de maneira a deixar a menor quantidade de buracos possível.

Estemática – agora, com o códice remontado à sua frente, o filólogo vai desvendar a sua geneaologia, identificando suas origens possíveis através dos relacionamentos e como ele foi transmitido pelos tempos até chegar na peça que tem à sua frente.

Emendatio – é a última etapa desta fase, quando são realizadas correções necessárias no texto, como erros de cópia, intervenções inapropriadas, máculas e lacunas. É uma etapa decisiva para a qualidade do trabalho, porque contará com o conhecimento e com a intuição do pesquisador que a esteja executando.


2ª fase: crítica histórico-literária – tendo um códice restaurado, estão reunidos os elementos que permitem ao filólogo partir para a fase qualitativa da análise, que visa aclarar os pontos obscuros do texto a partir de elementos circunstantes a ele, ou seja, através do encaixe em contextos.

Autenticidade – o mais óbvio, consiste em verificar a correta autoria do texto. Não se trata apenas de dizer se o autor atribuído é o correto, mas de se determinar se a escrita não se deu por copistas ou por epígonos*.

Datação – aqui, busca-se determinar a data em que a obra foi redigida. Às vezes, isso não é possível de se fazer, e neste caso a tentativa é de ao menos determinar uma época em que se deu a redação do códice.

Fontes – são citações diretas e indiretas feitas à obra, um elemento muito importante para detecção de autenticidade, porque busca encontrar imitações, plágios ou influências legítimas de outros autores no texto. Pesquisando-se fontes, é bastante comum a detecção de obras perdidas, como o Evangelho de Matias em relação ao Novo Testamento.

Circunstâncias – aqui, o filólogo colocará o códice à luz de seu contexto histórico, social, cultural e político, ou seja, tudo o que estava ao redor do texto para a compreensão da mensagem que ele carrega.

Sorte – sim, sorte. Não no sentido de que somos sortudos por achar um texto tão valioso, mas para desvendar o êxito de uma obra: a quantidade de cópias disponíveis, suas versões, a quantidade de referências e remissões que outros autores fazem a ela e assim por diante.

Unidade e integridade – é a verificação se existem adições de textos complementares ou supressão de partes através da pesquisa das fontes ou da falta de coesão textual.

Linguagem – neste ponto, é averiguada a originalidade da linguagem utilizada ou se a mesmo imita outros autores e estilos de época.

Avaliação crítica – Este é o ponto final desta fase, em que o filólogo determinará o valor documental e literário do códice apreciado. O parecer favorável garante o prosseguimento da análise, por conta do interesse acadêmico que é despertado pela reconstituição de obra relevante.


3ª fase: Exegese do pormenor – quando um filólogo conclui seu trabalho, tem diante de si uma peça plena de detalhes e pormenores que são herméticos, mas que necessitam de maior detalhamento para que os leitores possam compreender não somente o texto, mas toda a análise que foi realizada, esclarecendo obscuridades, dúvidas e incoerências. É nesta última fase que o trabalha ganha, formalmente, aquele sem número de notas de rodapé e explicações contextuais, buscando trazer autonomia para quem a ler. Feito essa fase, o códice está pronto para conclusão e edição, seu verdadeiro final feliz.

Diante de todos esses pontos, podemos perceber como é importante a Filologia para o estudo de toda área que necessita de elementos antigos, porque, se assim não fosse, muito mais complicada seria a tarefa de aduzir algum tanto de conhecimento. Já pensou, Filosofia sem Sócrates?

Bons ventos a todos!

Recomendações de leitura:

Utilizei a obra abaixo para dar fundamentos a este texto:

BASSETTO, Bruno Fregni. Elementos de Filologia Românica. São Paulo: Edusp, 2001.

Recomendo também a revista de Filologia e Linguística Portuguesa, editada pela USP e disponível no link abaixo:

https://www.revistas.usp.br/flp

*Epígonos eram muito comuns na Antiguidade Clássica. Geralmente, eram discípulos que escreviam em nome de um mestre, basicamente para lhe granjear o prestígio ou fazer homenagens.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Estado laico: o que ele é e o que ele não é

(Há muitas dúvidas sobre o Estado laico. Dúvidas, não; o que há são enganos. E isso faz com que certos problemas surjam sem que as enfrentemos da maneira que devem).

Olá!

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Depois de um bom tempo, o atual mandatário do poder federal conseguiu cumprir uma de suas promessas: nomear, para o STF, um ministro "terrivelmente evangélico", nas palavras dele. Trata-se de André Mendonça, que foi aprovado com uma certa má vontade pelo Senado, haja vista ao longo chá de cadeira que o mesmo tomou. Desde o dia 07 de julho seu nome já estava indicado, e sua aprovação foi relativamente apertada, mas com comemorações e manifestações em línguas.

Há problemas substanciais na sua indicação e agora nomeação? Não no nome em si, afinal de contas parece a mim que ele possui os predicados necessários para ocupar a vaga: tem mais de 35 anos, notório saber jurídico e reputação ilibada. O grande susto vem no motivador de sua indicação - o tal terrível evangelismo. Isso acrescenta um item ao critério que contraria uma premissa básica da constituição - a laicidade do Estado. Afinal de contas, esse critério, a exigibilidade de um credo específico para ingressar na corte guardiã da carta magna causa um arrepio na espinha que poucas vezes eu tive antes.

O novo ministro prometeu que a Bíblia é para sua vida, e, no STF, o que regerá sua conduta é a Constituição. É bom que o diga, mas, mais importante ainda, é bom que o siga. O outro ministro nomeado pelo atual governo, Nunes Marques, tem tido uma fidelidade canina às posições dos atuais mandatários, o que pode dar uma mostra do que lhes é exigido. A justificativa de que um país com trinta por cento de evangélicos tem agora uma representação próxima a 9 por cento do Supremo é falaciosa. Afinal de contas, as convicções religiosas dos outros dez membros não foram levadas em consideração na hora da escolha, e, mesmo que se declarem católicos, como a maioria da população, sabemos que a prática real dessa religião está muito distante do que dita a igreja em questão.

Mas qual é a razão para o bode todo? Eu já disse lá em cima: não dá para afirmar que um ministro evangélico seja um atentado ou uma ameaça ao Estado laico, mas é um daqueles sinais que não podemos deixar de perceber e de ficar com as orelhas em pé. Afinal de contas, tudo o que não se espera de um ministro do STF é que ele já esteja enviesado no nascedouro. Ora (direis), qual deles não é? Sabemos que todos os mandatários escolhem ministros que lhes convêm, mas eu nunca tinha visto algo tão descaradamente parcial. A laicidade do Estado é uma das maiores garantias de liberdade que nós gozamos nas democracias, e a cara com a qual o processo todo está se desenrolando tem um bom cheiro de feijão queimado.

Só que há um monte de confusões quando uma pessoa qualquer chama a atenção desse detalhe, como estou fazendo agora. Por esta razão, e porque muita gente não sabe exatamente o que significa esse conceito, vou partir para a minha colaboração, respondendo o que ele é e o que ele não é.


Vamos utilizar alto didatismo nesta tarefa, dando passos bastante progressivos. Comecemos com…

O que é Estado?

Este é um daqueles casos em que a pessoas se confundem quando precisam explicar do que se trata, de tão óbvio que parece. Mas é preciso tomar um pouco de cuidado, porque misturamos aqui coisas diferentes, como governo, nação e pátria. Isolando-o dos demais termos, Estado é uma entidade abstrata que representa todo o conjunto organizacional de um determinado país, de forma a organizá-lo administrativamente. Ou seja, uma sociedade, uma vez existente, precisa de alguma forma de organização, onde se estabelecerá a forma com a qual será governada, qual o escopo de suas leis, a maneira com a qual a população participará da vida social, os padrões monetários e assim por diante. Governo é outra coisa. Governo são as pessoas escolhidas para exercer a administração do Estado, seja por meio de eleição, sucessão hereditária, tomada de poder ou outro meio. Nação, por sua vez, designa uma população que se agregou voluntariamente em um determinado território e que possui características comuns, como a língua e a moeda. Por fim, pátria é a ligação afetiva com o lugar onde se nasceu ou se adotou como o espaço por onde se desenvolverá a vida. De todos os termos, é o menos tangível, porque está relacionado a sentimentos.

O que é laicidade?

Já ouviu falar daquela frase “não junta lé com cré”? Ela vem de uma comparação antiga, entre LEigos e CRÉrigos, no dizer popular. Não saber juntar leigos com clérigos significa não saber diferenciá-los, mas a coisa é bem simples. Leigos (ou laicos) são aqueles que não são versados ou iniciados nas religiões, de forma a não serem sacerdotes válidos. A laicidade, portanto, é a qualidade daquilo que está fora do contexto religioso, muito embora o conceito de leigo signifique, em algumas religiões, todos aqueles que são membros não investidos de uma comunidade.

Então, o que é Estado laico?

O Estado laico é aquele em que há uma clara separação entre a organização político-administrativa e a Igreja, de modo que um não interfira no outro. Nem a Igreja ditará regras e normas para o Estado, e nem o Estado especificará como a Igreja deverá exercer seus cultos.

Como surge a ideia de um Estado laico?

Como acontece com as divisões de poderes, o Estado de direito e a participação popular na gestão da coisa pública, a separação entre Estado e Igreja vem da Revolução Francesa. É preciso lembrar que a França pré-revolucionária era dividida entre três estamentos, sendo que o primeiro, circunscrito ao clero, tinha uma fatia de poder tão poderosa quanto a dos membros do segundo, os nobres. Essas duas camadas geralmente aliavam seus interesses para dar as diretrizes aos governos de então, de forma a existir uma intervenção marcante da Igreja sobre o Estado. Isso representava uma conformação do Estado aos moldes de uma Igreja específica, o que excluía qualquer outra (ou mesmo sua ausência) das esferas de poder.

Isso significa que o Estado laico é uma ideia moderna?

Mais ou menos. É bem verdade que a sua consagração veio com o advento da Revolução Francesa e com o expressivo reforço da 1ª emenda da Constituição dos Estados Unidos, mas há vários precursores da filosofia de não misturar Estado e Igreja, um deles até bem conhecido, um tal de Jesus. Ele dizia que deveria se dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus (Mt 22, 21), que seu reino não era deste mundo (Jo 18, 36) e ainda tratava de pagar seus impostos (Mt 17, 24-27). Mas há autores medievais que já defendiam o abandono do poder secular pelos membros do clero. Um deles é Marsílio de Pádua, cuja obra Defensor Pacis (citada mais abaixo), ainda no século XIV, faz entender que a doutrina de “plenitude de poder” dada aos papas era um engano gerador de abusos. Como custodiantes das verdades divinas, os membros do clero deveriam se afastar de objetos de corrupção, dos quais o poder secular dos reinos e impérios eram prenhes. Seu prêmio foi ganhar um selo de herético na testa e com ele conviver pelo resto dos seus dias, mas já fazia notar como o poder eclesiástico fazia mal à sociedade quando interferia no poder secular. Marsílio comparava um reino a um organismo físico, onde cada órgão exerce uma função adequada a ele, e que não se presta a outra coisa além disso. Fora dessa estrutura orgânica, a sociedade não funciona como deveria. Imagine, por exemplo, um fígado no lugar do coração, uma glândula substituindo um músculo. Assim são os clérigos – devem se ocupar das igrejas, e não dos governos.

Quer dizer que Estado laico é igual a Estado ateu?

Não. Esse é um dos maiores enganos a respeito do Estado laico. A laicidade do Estado não significa que nenhuma religião será admitida ao exercício da população, mas que ela terá plena liberdade religiosa, sem que isso constitua nenhum óbice ao exercício de seus direitos. Um Estado ateu seria aquele que proibiria o exercício de qualquer religião, como fizeram alguns governos comunistas no século XX. A confusão se dá porque o Estado laico é uma das poucas bandeiras que são erguidas por ateus e agnósticos em geral.

Então por que os ateus vivem defendendo o Estado laico?

Porque a liberdade religiosa inclui a “opção” de não adotar religião alguma, e que a legislação não penderá para qualquer tipo de crença. Coloco essa palavra entre aspas porque ninguém opta por ser religioso ou não. A coisa acontece, muito simplesmente. Se vocês quiserem saber do meu exemplo, aconselho à leitura deste texto.

Não bastaria que o Estado não fosse teocrático?

Não bastaria. A teocracia é uma forma de governo em que o núcleo do Estado fica sob administração de uma religião, que passa a transmitir seus valores como únicos válidos e vigentes. Entretanto, é possível que um governo leigo traga elementos religiosos para a vida social de toda a população. Isso acontece quando, por exemplo, são invocados motivos de fundo religioso para que um direito seja negado.

Se na cultura de uma população prepondera o elemento religioso, qual a vantagem de se ter um Estado laico?

É bem verdade que todo o ordenamento de uma sociedade acaba sofrendo influência das religiões que a compõe. Ocorre que, uma vez formatado, esse “jeito de ser” se desprende do elemento religioso e vai fazer parte do sentido comum que conduz a população. Vejam como muitos dos mandamentos cristãos fazem parte do corpus legislativo de nosso país: não roubar, não matar, cuidar dos desvalidos e assim por diante. Ocorre que, se você retirar a religião e não colocar nada em seu lugar, hoje em dia esses valores serão mantidos da mesma forma, porque já se encontram arraigados em nosso meio. O mesmo não pode se dizer sobre a questão da castidade. Como diz respeito à individualidade da pessoa, e não do mecanismo social, exigir pureza sexual dos componentes sociais é uma intervenção injustificável. 

E os candidatos afiliados a uma religião? Deveriam ser vetados?

Não a princípio, mas os mesmos não deveriam usar o mote da religião para buscarem ser eleitos. Isso porque, quando alguém vai fazer parte do governo em um Estado laico, não será representante unicamente da camada populacional que o elegeu, mas de toda a população. A lei que um legislador propuser que estiver calcada em sua convicção religiosa atingirá uma parte da população que não compartilha da mesma convicção, podendo até mesmo prejudicá-la. A questão mais óbvia que temos hoje em dia diz respeito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. A proibição deste ato visaria dar satisfação aos eleitores do político religioso meramente no sentido moral, porque os mesmos não adquirirão nenhum benefício, enquanto as pessoas atingidas verão seus direitos sofrerem um retrocesso.

Mas a democracia não é uma ditadura da maioria?

Não, isso é falacioso. E repito: a maioria vota por representantes que devem zelar não somente pelos direitos de seus eleitos, mas da população inteira. A pretensa ditadura da maioria é aplicável à escolha dos representantes em si, e não na ausência de representação para as minorias. Já pensou que bonitinho se a maioria escolhesse representantes que fossem contrários ao direito de propriedade? Você não gostaria de ter seu direito mantido mesmo sendo integrante da minoria dos proprietários?

E todo o aparato religioso já arraigado no dia-a-dia, deve ser extinto?

Aí é que está. Há coisas como feriados e nomes de logradouros que, de fato, ferem o Estado laico, mas sejamos francos: quando você fala que vai a São Paulo está pensando no santo barbudo com uma espada na mão e uma epístola na outra? Não, né? São coisas culturalmente marcadas e que, de certo modo, já perderam o sentido original. A cidade de São Paulo está pouquíssimo vinculada à personagem bíblica São Paulo. Isso significa que, na ordem de prioridades para um Estado legitimamente laico, há coisas que são muito mais importantes. Fere muito mais a laicidade do Estado os cultos realizados nas casas legislativas e nos tribunais, a adoção de ensino religioso específico nas escolas públicas e os contenciosos entre criacionismo e evolucionismo que ameaçam dividir as aulas de Ciências do que um “deus seja louvado” em um dinheiro qualquer. Além disso, também aqui há uma participação do aparato cultural, já que exigir a extinção de feriados importantes como o Natal ou a Páscoa mexem com as tradições sociais. E um feriadinho é sempre bom, não é mesmo?

Dizem que o Estado laico é causa para uma sociedade cada vez mais secular. Laicidade e secularismo são a mesma coisa?

Não. A laicidade é a garantia de que o Estado não interferirá na religiosidade das pessoas, enquanto a secularização diz respeito a um movimento de redução de importância das religiões nos mecanismos sociais. Vou dar um exemplo bem fácil de secularização. Quando eu era pequeno e começava a me sentir com uma pontinha de febre, minha mãe me levava até a casa da dona Luzia benzedeira, que “tirava quebranto”. Hoje, meus filhos darão aos meus netos quinze gotas de paracetamol. Isso é porque o Estado é laico? Não, mas porque o meio científico dispõe de artefatos mais rápidos e seguros do que aqueles movidos pela fé, e, com isso, o mundo vai paulatinamente deslocando funções do meio religioso para outras fontes de conhecimento.

Os defensores do Estado laico parecem sempre voltar seus canhões contra os evangélicos, mais do que contra qualquer outra camada. Por que isso acontece?

Porque estamos no Brasil e aqui o fenômeno evangélico tem algumas características que lhe tornam peculiares: um alto nível de engajamento, uma fé quase cega em seus pastores e uma participação política inexistente em outras religiões. É claro que quem mais aparece mais serve de vidraça. Os evangélicos não têm nenhuma vergonha em se mostrar como tais. E vamos combinar que há certas lideranças extremamente barulhentas, fazendo o fenômeno da grita parecer maior do que verdadeiramente é.

Por que você digitou a palavra Estado com a inicial maiúscula por todo este texto?

São especificidades da língua portuguesa. Quando queremos exprimir este termo como uma instituição, mandam os bons Cegallas e Cerejas que utilizemos a inicial maiúscula. As minúsculas caberão para os casos de divisões territoriais, para dar um exemplo.

Se alguém achar justo que eu tente responder mais alguma dessas perguntas, não se faça de rogado e escreva-a nos comentários. Espero ter sido útil neste momento complicado da nossa existência tupiniquim.

Recomendação de leitura:

Conforme dito na pergunta adequada, segue a indicação da obra de Marsílio de Pádua, que precisou ser mais corajoso do que nós porque laicidade de Estado não era coisa que se conhecesse em sua época, nem de passagem.

MARSÍLIO (de Pádua). O Defensor da Paz. São Paulo: Vozes, 1997.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

O café filosófico do quotidiano – as Ciências Humanas podem ser abarcadas pelo método científico?

(Volta e meia, há uma pequena guerrinha sobre a validade das Humanas como objeto do conhecimento. Pelas suas dificuldades em se amoldar ao método científico, há razão em dizer que elas são “menos” ciências que as naturais?)

Olá!

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Quando eu falo dos meus métodos de passar café, tem gente que me pergunta por que eu não coleciono chaveiros, que são muito mais baratos. Bem, os motivos são dois: 1) eu também coleciono chaveiros e 2) eu não coleciono métodos de extração, apenas gosto de poder variar de vez em quando. É que existe uma gama tão variada de grãos, de torras, de espessuras que só conseguimos chegar ao melhor ponto através de diferentes apetrechos. E eles são muitos mesmo. Por isso, uma boa parte do prazer do café está na pesquisa, e isso inclui ter vários métodos disponíveis, sendo que alguns são mais simples, e outros mais sofisticados. Um deles é a cafeteira de sifão, mais conhecida como globinho.


É uma verdadeira aula de física, que demonstra como funcionam vários princípios da termologia e da dinâmica dos fluídos. Basicamente, são dois balões onde ocorrem processos de convecção e sucção por rarefação de ar (não dá para chamar propriamente de vácuo). Uma lamparina que aquece a água no bolão de baixo é o início do procedimento.


Quando a água está próxima ao ponto de fervura, é encaixado o balão de cima, onde já deverá estar contido o café em ponto de moagem médio.


Assim que chegar ao ponto de fervura, a água subirá pela cânula do recipiente superior e começará a se misturar ao pó. É preciso ter em mente que restará um pouco de água na parte de baixo, por isso a quantidade de pó deverá estar bem adequada ao processo.


Neste momento, é preciso apagar ou retirar a lamparina, para que a parte baixa esfrie e inicie a sucção, que força o líquido a passar pelo filtro embutido no alto da cânula. Aos poucos, o café excessivamente forte que está no alto vai se diluir na água que restou no bojo inferior.


Por fim, é só servir.



Nome do utensílio: cafeteira de sifão (globinho)

Tipo de técnica: percolação por sucção térmica

Dificuldade: Alta

Espessura do pó: Médio

Dinâmica: um processo de fervura no bojo inferior faz com que a água suba por uma cânula a um globo superior, onde está depositado o café. Cessando a fonte de calor, a troca na rarefação do ar fará com que a infusão contida no globo superior seja sugada para o inferior, em um efeito sifão.

Resíduos: Poucos

Temperatura de saída: Muito alta

Nível de ritual: Alto

Não tenho a menor vergonha de dizer que comprei esse aparelho usado, porque era um daqueles negócios de ocasião, e está em estado de novo e funcionando perfeitamente. Dá a impressão de que o ex-dono ganhou de presente e não gosta de café. Afinal de contas, ele custa o olho da cara e era luxo demais pagar o preço que normalmente pedem por ele. Melhor assim: alguém que quer se desfazer da coisa obtém algum trocado de quem a aprecia e se propõe a pagar um preço camarada de verdade.

Como é possível supor pelo meu relato, o processo todo não é exatamente rápido, por isso dá tempo de pensar em um monte de filosofias. A cafeteira globinho é quase um instrumento científico, daqueles de laboratório, que trazem a imagem mental que normalmente fazemos sobre a Ciência. E, diante de mim, vejo todo um experimento que é possível de reproduzir e registrar, como preconiza toda a metodologia científica. Se formos pensar bem, é possível que eu isole variáveis no processo e comece a fazer medições sérias: controle de temperatura, densidade do líquido antes e após a filtragem, pH do composto também antes e depois, pó mais espesso ou mais fino, velocidade da infusão e demais que-tais, exempli gratia. Isso começaria a dar cara de metodologia em uma coisa trivial, e às vezes saber o que essa construção significa pode ser bom para nos posicionarmos.

Diante da torrente irrefreável de baboseiras que a pandemia nos trouxe, eu resolvi contribuir com os meus centavos de conhecimento acerca dos mistérios sobre o que é a Ciência e suas metodologias, e falei sobre a lógica aplicável à pesquisa, aos rigores dos métodos e até mesmo ao controle dos vieses. Entretanto, como eu estava tendo em mente em especial as abobrinhas que se falam sobre remédios e vacinas, acabei deixando uma lacuna importante, que achei conveniente suprir agora: a metodologia aplicada a Ciências Naturais é a mesma que utilizamos para Ciências Humanas?

Não vamos ter, meninas e meninos, como fugir de delinear o que é esse marco divisório. Nós chamamos de Ciências Naturais todas aquelas a quem chamo graciosamente de "ciências de jaleco", majoritariamente feitas em laboratórios e observatórios, mas que também utiliza muito campo, especialmente para a obtenção dos dados que serão analisados. São aquelas que investigam a natureza de modo independente ao que a humanidade lhe interpõe de cultura, e são aquelas que mais nos causam temor nas grades curriculares: Física, Química, Astronomia, Biologia, Medicina e outras mais. Já as Ciências Humanas estudam todos aqueles fenômenos onde o homem põe a mão de alguma forma. Não nos lembramos dos cientistas de jaleco quando pensamos neles, mas nas atuações junto às comunidades humanas. Engloba áreas sociais, como a Sociologia, Antropologia, Psicologia, Direito, Economia e outras áreas de registro, como a Geografia e a História.

Bom. Existe a lenda de que o pessoal das hard sciencies acha que os cientistas de humanas são maconheiros que gostam de abraçar árvores e aplaudir o sol, enquanto no sentido contrário temos raptores do termo, que se fecham em suas torres de marfim e esquecem do restante do mundo. Nada mais do que estereótipos colocados em prática, com o componente alienação sempre em altos teores. Pode até ser que um ou outro tenham lá suas rusgas, e precisamos levar em conta que a aplicabilidade do método científico como vimos até agora realmente dá uma travada quando olhamos para uma sociedade ou uma cultura ao invés de um vírus ou um asteroide.

Vamos ver. Podemos ter várias maneiras de definir o termo Ciência, mas a melhor maneira é dizer que, em um conceito generalizado, trata-se do estudo da realidade. Essa realidade, obviamente, é completamente multifacetada, e embora as diferentes áreas façam suas interlocuções, cada uma delas abrange um grupo de conhecimentos bastante específicos. Comparando a realidade detectável (tchau, metafísica) com uma casinha, podemos perceber que cada um dos cômodos tem suas sutilezas e uma função específica, e também que cada um deles representa um pedaço da realidade total. Assim, temos um cômodo que representa o cosmos e seus componentes, como as galáxias, as constelações, os buracos negros, os pulsares e tudo o mais que exista no espaço sideral, e este cômodo é a Astronomia. Outro cômodo contém as reações entre os diferentes compostos, as mudanças de estado, as combinações e misturas e a forças de interação entre as substâncias, e é o cômodo da Química. Em mais um, há o funcionamento dos corpos, a fisiologia dos órgãos, as funções dos sistemas e temos o cômodo da Medicina, e assim tantos outros da nossa edificação. Todos são campos do conhecimento, disso não resta nenhuma dúvida. Mas há outros ainda, que contém outras características: há um cômodo onde é vista a sociedade, suas relações e seus funcionamentos; há outro onde vemos a cultura dos diferentes povos e como elas se imbricam e transformam, e há ainda outro em que observamos como opera a mente, como ela interage com os organismos e de que maneira reage às variações do ambiente. A sociedade, a cultura e a mente também são partes da construção que chamamos de realidade, alicerçadas pela Filosofia e com as paredes erigidas pela Lógica e pela Matemática.

Sendo assim, tanto as Naturais quanto as Humanas vencem o critério de objeto de estudo, sem nenhum tipo de distinção. A coisa ganha complexidade na medida em que estipulamos métodos de pesquisa que devem ser atendidos para que a área produza trabalhos de natureza científica. Partindo do mais básico, um método precisa conseguir definir o objeto que estuda, explicar o seu funcionamento, fazer predições sobre sua repetição futura, controlar as variáveis que influenciam na sua ocorrência e estabelecer situações em que a hipótese proposta deverá falhar e demonstrá-la como falsa. Vamos usar um exemplo das ciências naturais: a curvatura de um chute na direção do gol.

Vamos começar pela definição: a curvatura de um chute é o desvio de uma linha reta imaginária que liga o ponto de estado de repouso de uma bola até o atingimento de um ponto específico no espaço (no caso, o ângulo superior esquerdo de uma trave - um golaço!). Essa definição é importante porque serve para excluir chutes retos, arremessos laterais e outros possíveis objetos não abrangidos. Ou seja, sabemos exatamente o que estamos estudando.

Em seguida, vem a fase da explicação. Por que um chute foge à intuição de que ele descreveria uma linha reta? Normalmente, dois fatores influenciam na trajetória da bola de forma que a mesma descreva um arco: a sua rotação e a força do vento. Dessa forma, podemos explicar o fenômeno como o resultado da aplicação de uma força em um ponto tal da bola que a faça girar. A bola posta em rotação atrita com as camadas de ar de forma a fazê-las servir de "apoio", como se a bola estivesse rolando em um chão de baixa densidade. Isso faz com que a bola ganhe um ponto de translação imaginário, influenciada ainda pela força e direção do vento.

A boa técnica metodológica dita ainda que as variáveis que influenciam no processo devem ser detectadas e controladas.  A bola teste, por exemplo, deverá ser uma oficial. Ou seja, terá uma medida fixa e não será uma das variáveis. No entanto, ela deve ser experimentada com diferentes pressões e em diferentes tempos de uso. Deverão ser detectados os exatos pontos de impacto de cada um dos chutes, a velocidade e direção do vento deverão ser medidas a cada execução da rotina e, se possível, deverá ser tentada a mesma experiência em uma câmara de vácuo.

Com tudo isso, o método científico deverá proporcionar predições, ou seja, dadas tais e tais condições, o resultado será x ou y. Se eu chutar a bola com a parte externa do pé exatamente a três centímetros de seu centro, com vento na direção leste e velocidade de dez nós, teremos como resultado uma curvatura de quinze graus e ponto de entrada na meta a dois centímetros do travessão e cinco da trave lateral esquerda. Outro golaço.

Por fim, a declaração de falseabilidade, afirmando que se o chute dado em condições de curva com velocidade do vento neutra nunca poderá ser reto. Os resultados sempre serão passíveis de críticas, mas estão de acordo com a metodologia científica atualmente aceita nos meios acadêmicos.

Agora, vamos fazer o mesmo paciente exercício em uma ciência humana. Em minha hipótese, preços baixos de ingresso farão com que um estádio consiga incremento de público. Primeiro, a definição: o preço dos ingressos é um dos fatores principais que influenciam a frequência de público em estádios de futebol.

A explicação é simples: em países com baixa renda e preços de ingressos além do poder aquisitivo, camadas grandes de população terão seu acesso dificultado a eventos que, in extremis, não façam parte dos pacotes de primeiras necessidades. Entretanto, como há um grande apreço pela prática do esporte, existe uma demanda reprimida que poderá ser ativada por dois fatores: o aumento da renda ou a diminuição do preço do ingresso.

Os fatores de controle do experimento deslizam em dois eixos: variar a renda do público em estudo e fazer várias escalas de diminuição do preço do ingresso, fazendo descer da exorbitância a um lucro moderado, depois ao empate custo/benefício e até mesmo à gratuidade. A predição será no seguinte sentido – dado um declínio no preço até X ponto, o incremento na demanda será de Y por cento. Ou coisa parecida. Finalmente, os pontos de falseamento poderão ser os seguintes: a baixa dos preços não refletir aumento na demanda, a elevação da renda não representar aumento na demanda.

Quando observamos a aplicabilidade do método no primeiro exemplo, tudo está de acordo, lembrando que é apenas um exemplo ilustrativo. No segundo, no entanto, vamos encontrar muitos problemas de aplicabilidade. Na fase de definição, está tudo certo, ambas são idênticas. Na explicação também, partindo da premissa que estamos usando o método dedutivo-hipotético, e é essa a premissa a ser testada. O busílis começa a partir do controle. Como vou fazer para variar a renda de uma grande fatia da população e ver o reflexo na aquisição de ingressos? Esse controle somente seria possível com intervenção governamental, que provavelmente  estará mais preocupada com outras políticas públicas do que com a compra de ingressos. Outro caminho seria convencer os clubes a baixar os preços, coisa mais factível, mas, a meu ver, mais indesejada. E daí a aferição fica prejudicada, restando métodos indiretos de coleta de dados, como as entrevistas e surveys. Isso tudo vai afetar diretamente a capacidade de predição, porque a base que precisará ser pesquisada é muito mais ampla, e as variações da população e do momento vivido por aquele agrupamento são compostos por fatores imensamente mais variáveis que aquelas do experimento da bola.

A grande questão é a seguinte: não há, para as Ciências Humanas, como seguir um único paradigma. Se realizarmos um experimento laboratorial de Ciências Naturais em qualquer parte do mundo, ele deverá ter resultados sempre iguais, com raras exceções muito específicas. O exemplo da bola deverá ter os mesmos resultados se forem realizados no Brasil, na Finlândia, na Tanzânia, no Camboja ou nas Ilhas Fiji, porque contém um conjunto limitado de variáveis e que são todas controláveis. Já a experiência dos estádios seria fundamentalmente diferente em cada um desses países, porque os brasileiros gostam de futebol, mas os finlandeses preferem hóquei, os tanzanianos curtem corridas de fundo e assim por diante. Não será possível obter repetibilidade pelo único fato de se mudar de país. As raras exceções que mencionei dizem respeito a especificidades. Em Naturais, por exemplo, não há como realizar experimentos em vulcões no Brasil. Outra questão diz respeito a uma ciência dura, a Meteorologia. Ela tem uma dificuldade preditiva muito grande, porque atende a uma série de sistemas não-lineares que tornam praticamente impossível de manter uma previsão sólida. Basta um ventinho maroto vindo de estibordo para mudar todo um temporal em uma insuficiente brisa de um dia tropical. Por esse motivo, dizemos que as Ciências Naturais são monoparadigmáticas, enquanto as Ciências Humanas são multiparadigmáticas. E o que é esse tal de paradigma?

Paradigma está por trás de tudo o que falei até agora. É uma padronização em que encaixamos um conjunto de procedimentos e que deve guiar as pessoas na busca de um resultado. É como se fosse um modelo: um paradigma de bom jogador é aquele que proporciona a si mesmo o preparo físico mais adequado, com boa técnica de execução de jogadas e ótima consciência tática. O paradigma de pesquisa científica para as Ciências Naturais, que incluem todas as fases que mencionei neste texto, é apropriado para elas, que não necessitam de um segundo, terceiro ou quarto paradigmas, o que é de rigor para as Ciências Humanas. Estas não podem ficar presas a um único paradigma, embora não possa deixar de tê-los. Precisa quantificar dados, estudar casos, coletar bibliografia e fazer muito, mas muito campo para fundamentar suas teses, do contrário... aí sim teremos mero achismo.

Não é ninguém menos do que Karl Popper, o pai da falseabilidade incluída no método científico, que diz que não faz sentido querer atribuir a mesma objetividade das Naturais nas Humanas. Ele diz que o cerne da Ciência é o conhecimento e que o cerne do conhecimento é a problematização, que vem da ignorância, no final das contas. As Humanas atacam problemas da mesma forma que as Naturais, e pelo mesmo propósito: superar a ignorância. Observar um problema social, por exemplo, causa o efeito de se defrontar com uma dissonância com o conhecimento que possuímos. E aí as Humanas seguem, de certa forma, o mesmo curso das Naturais, porque produz soluções abertas à crítica, e que são aceitas enquanto resistir a elas. Isso porque também aqui temos a mesma mágica de qualquer Ciência – ela não deve procurar SER a verdade, mas se APROXIMAR da verdade. A objetividade de toda Ciência reside na objetividade do método crítico, e isso toda Ciência tem, inclusive as Humanas. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Citei  Popper, e este é o livro que a quem me refiro:

POPPER, Karl. Lógica das Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2004.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Pequeno guia das grandes falácias - 63º tomo: a evidência suprimida (cherry picking) e as dificuldades de encontrar o Sócrates histórico

(É um grande problema quando não há fontes fiáveis para contar a vida dos antigos. Até onde Sócrates é aquele que nos narram seus contemporâneos? E mais uma falácia para o Pequeno Guia) 

Olá!

Clique aqui para ver a lista das falácias já publicadas

Depois de meio que me mudar para Taubaté*, comecei a fazer as vezes de agricultor e cuidar de alguns canteiros. Tem couve, alface, hortelã, capim-cidreira, pitaia, uma jabuticabeira e um mamoeiro, coisa pouca porque o terreno não é muito. Cuido deles de maneira orgânica, o que faz com eu tenha um embate jogo limpo com passarinhos: eu sirvo um mamão na casinha deixada para tanto e eles retribuem não atacando as demais frutas. O mesmo não é tão fácil de negociar com as lagartas, e vou aprendendo a fazer os controles sem sujar as plantas com veneno.

Mas meu xodó tem sido os morangueiros, a quem cuido com carinho e que retribuem dando farta produção. Trouxe as mudas de Terra da Garoa, onde já faço um cultivo em vasinhos, mas o pouco espaço não permite grandes safras, embora o sabor das frutas tenha melhorado bastante com o uso de terras boas e adubos adequados. Aqui, a coisa rende muito mais, a ponto de não ter necessitado comprar morangos, nem na feira, nem da quitanda.

Uma boa parte do prazer está em uma pequena vingança. É muito raro conseguir uma venda onde você possa escolher seus morangos, porque eles já estão confinados em bandejinhas. Entende-se: é uma fruta delicada e a manipulação constante dá muito desperdício. Entretanto, a sacanagem é recorrente – por cima, uma camada de primícias motiva a gente a aceitar o preço caro. Quando você abre a barquinha, no entanto, há um broxante desmanchar de frutas, uma geleia involuntária das feiuras que restaram esmagadas. Daqui do canteiro, colho o que quero no tempo certo.

Não é só a questão da desonestidade, mas uma espécie de amostra grátis da nossa pobre realidade tupiniquim. Para fazer bonito ao comércio gordo, você exibe a belezura de suas frutas e esconde as feiosas, as escarradas, as purulentas. Bem, se minha (falecida) vovozinha viesse me visitar, eu bem que optaria pelas melhores frutas na sua salada, mas aí temos o aspecto afetivo. Eu lhe serviria a viçosa ou a imatura? A bonita ou a cagada?


É um processo que ficou célebre com cerejas, mais comuns no hemisfério norte do que por estas verdes plagas. Não se trata de um processo que se faça somente com cerejas, mas com qualquer fruta ou legume que se queira fazer boa impressão. Há, inclusive, alguns gabaritos que tornam possível descartar as frutas menores, já filtrando apenas as peças graúdas. Dessas, ainda são selecionadas as mais vistosas, e olhando uma caixa dessas cerejas, temos a nítida impressão de que aquele pomar só gera frutas maravilhosas, o que, sabemos, não é verdade. A cereja feiosa também faz parte da realidade. 

É mais ou menos o que acontece com a exportação de produtos. As brazilian fruits parecem vindas do paraíso, mas isso só acontece porque é feito um processo rigoroso de seleção dos frutos que povoaram as mesas ianques. Para os residentes de Terra Papagalia restarão os feinhos, ou pagar-se-á com o fígado por produto semelhante, o tal do “tipo exportação”. Com a economia dolarizada, e com a moeda ianque constantemente acima dos cinco reais, certos produtos estão impossíveis de comprar. Coisas do capitalismo. Mas, como nas receitas de marinados, vamos reservar.

Já fiz a experiência com vocês de mentalizar o primeiro filósofo que viesse em suas cabeças. É muito provável que uma grande parte tenha pensado em Sócrates. Não é injusto. O grego em questão é uma espécie de padroeiro laico da filosofia, não porque tenha sido o primeiro a pensar nas coisas através da lógica, mas por ter inaugurado um método e uma postura que fizeram sucesso.

O método é a maiêutica, uma espécie de dialética que busca traçar um itinerário da presunção de sapiência para o reconhecimento da ignorância, e, a partir daí, sair em busca do conhecimento real (o tema merece um texto específico), e a postura é uma recusa em obter fortuna e prestígio através da transmissão do conhecimento, o que o tornou um crítico feroz dos sofistas, que sabiam fazê-lo muito bem.

Sócrates, à moda de antigos líderes religiosos, não legou nada escrito, deixando ao encargo de seus discípulos a tarefa de transcrever seus ensinamentos, assim como Jesus fez posteriormente. Isso traz dois problemas: as narrativas são feitas por entidades não confiáveis e a história do homem retratado fica prejudicada, e não do “mito” construído pela doutrina.

E por que isso? Porque o discípulo não é parte completamente isenta no processo narrativo. É muito difícil separar o que é material próprio de Sócrates e o que saiu da cabeça de seus seguidores. Eu sei que o papel que farei é de advogado do diabo, mas ele é necessário.

Vou começar exercendo uma comparação: por onde conhecemos a vida de Jesus? Pelo relato dos evangelhos, naturalmente. Em tese, foram redigidos por pessoas que estiveram muito próximas de testemunhas oculares de sua vida. O grande problema está na imparcialidade do que cada um desses autores nos conta. Todos aqueles que se propuseram a escrever a vida de Jesus eram devotos, e escreviam com um forte viés de fé. Isso pode servir muito bem para quem igualmente busca sustentação em sua crença, mas para a historiografia é um sufoco e tanto. Com isso, é necessário que se busquem fontes externas ao turbilhão dos fatos, mesmo que sejam igualmente pouco fiáveis, mas que, pelo bojo informativo, possam trazer alguns elementos de confirmação ou refutação.

A crítica histórica normalmente é favorável à existência de um Jesus histórico, ainda que haja pouquíssimos elementos externos, como Flávio Josefo e Cornélio Tácito. Não se busca aqui o Jesus da doutrina, mas o Jesus homem, que tenha vivido e exercido um ministério público, mesmo que sua divindade não tenha sido real. O mesmo acontece com Sócrates. Quase não se discute mais sua existência histórica, só temos dificuldades em estabelecer que Sócrates foi esse. O consenso acadêmico é que há duas fases bem distintas em sua vida, aquela que é mais próxima dos filósofos naturalistas e da nova visão humanista dos sofistas, que é onde se concentram a maior parte de seus detratores, e uma em momento mais maduro, prenhe de ideias que foram aproveitadas por Platão e Xenofonte. E aqui também temos um elemento histórico que suprime a falta de fontes confiáveis tão bem quanto no caso de Jesus: há uma novidade no pensamento. O antes e depois de Sócrates, assim como o antes e depois de Cristo, porque há uma transformação de tal monta no pensamento filosófico que é plenamente compatível com a existência de um pivô em torno do qual girou esta guinada, assim como houve uma reviravolta no pensamento religioso no momento em que Jesus supostamente teve sua vida pública.

De todos os discípulos de Sócrates, o mais abundante de todos é Platão, longe de qualquer dúvida. Ele tomou o mestre como personagem de inúmeros diálogos, que não sabemos ser de audição dos ensinamentos ou se são de lavra própria, usando a imagem socrática para passar uma espécie de certidão sapiencial ou fazer uma homenagem. De uma forma ou de outra, Platão não se preocupou com os aspectos mais históricos, traçando a trajetória ou a personalidade, ficando bem mais atido aos aspectos doutrinários de Sócrates, no que ele foi grande. Platão idealiza no seu mestre o paradigma do sábio, e parecem ser efetivamente reproduções do ideário socrático os seguintes tópicos: a psique como a essência do homem, a areté sendo o próprio conhecimento do homem, a felicidade vinda da própria alma, a razão como ferramenta da não-violência, o autodomínio do prazer e da dor, o método dialético, a assunção da ignorância, dentre outros, em sua maioria temas inéditos ou com nova abordagem, e que guiaram toda a filosofia posterior.

Outro discípulo que deixou registros significativos de Sócrates foi Xenofonte. Como não era homem da Filosofia, este grego se preocupou mais com aspectos práticos dos ensinamentos socráticos. Platão trazia diálogos em que Sócrates discutia os conceitos de coragem e justiça, enquanto Xenofonte nos trazia exemplos da maiêutica referentes ao preparo dos homens para governar. Essa visão mais pragmática era favorável ao conhecimento do Sócrates histórico. Xenofonte traz um Sócrates do dia-a-dia, que dá conselhos úteis para coisas bem menos filosóficas das que Platão nos trouxe, como a alimentação, exercícios físicos e tantas outras coisas. No que ambos se parecem é com o uso da razão: Sócrates sempre desenvolve seus argumentos na forma de longos raciocínios e jogos de perguntas e respostas.

O grande problema comum a Platão e Xenofonte é denunciado pelo próprio nome de duas de suas obras: Apologia de Sócrates. Com um título desses, já nos fica claro que a intenção de ambos era defender as doutrinas e as condutas de seu mestre, o que, no mínimo, já dá alguma mostra de parcialidade. Como bem se sabe, a apologia é um estilo literário de defesa e elogio, bastante utilizado nos textos laudatórios das religiões. É muito provável que nem Platão, nem Xenofonte tenham colocado o que conheciam sobre Sócrates em seus diferentes textos, mas unicamente o que lhes interessava ou fazia sentido no que queria deixar para a posteridade, e, com isso, temos um Sócrates incompleto. Se há algum tipo de acusação, já é preciso também ouvir o lado de lá.

Por  estranho que possa parecer, uma boa fonte para as detrações a Sócrates veio dos comediógrafos, Aristófanes à frente. Em sua peça chamada As Nuvens, ele nos apresenta um Sócrates altamente caricaturizado, com uma atitude muito semelhante à dos sofistas, que arrotavam conhecimento e o vendia a um bom preço. Além disso, em certos momentos o filósofo era colocado como centro do próprio universo que criou: o Pensatório, uma espécie de escola como era comum naquela época. Lá, toda sorte de bobagem era elevada à condição de causa universal. Além disso, o Sócrates de Aristófanes despreza a religião pública, trazendo novas divindades para o panteão de sua instituição.

É óbvio que o trabalho de Aristófanes contém um sem número de argumentos ad hominem e apelos ao ridículo. Devemos sempre lembrar que estamos no campo da comédia, terreno da mofa, do escárnio e do maldizer. Mas também devemos lembrar que, a parte dos exageros típicos, há também uma carga de crítica muito evidente que é peculiar ao humor e ao chiste, de modo que é preciso escavar o angu para verificar se por baixo não há carne. As críticas de Aristófanes, de certa forma, são as mesmas que levaram Sócrates à condenação, o que é um motivador muito mais sério. De fato, como já pudemos ver, Sócrates foi acusado de impiedade e de subverter a juventude, e sua atitude na peça corresponde exatamente à acusação, porque ele proclama as Nuvens como divindades e elabora um sistema que atrai muitos discípulos.

Qual é o verdadeiro Sócrates? O mestre racional de Platão, o homem prático de Xenofonte ou o fanfarrão de Aristófanes? É muito difícil de identificar pelo simples relato, porque acabamos por tomar um partido de cada uma das leituras. Como sempre, a verdade deve estar em um ponto entre os diferentes sujeitos dessa história e seu respectivo objeto, como diria Theodor Adorno. E, para cada versão, o seu autor seleciona o que de melhor convém para o que quer transmitir.

Vamos resgatar a história lá do começo. Sabemos da predisposição que temos em expor o que temos de melhor, e varrer para debaixo do tapete tudo aquilo que não nos interessa mostrar. Isso não acontece somente com histórias ou cerejas, mas com todo argumento que construímos. Da mesma forma que aqueles agricultores que fazem suas frutas passar pelos gabaritos para nos fazer crer que sua terra somente produz os frutos da mais alta excelência, também deixamos de levar em conta muito escolho que faria nossos argumentos serem insuficientes em si mesmos.

Isso é falacioso, e é conhecida por dois nomes. O mais técnico é chamado de evidência suprimida, que ocorre quando sabemos de pontos que invalidam ou enfraquecem nossos argumentos e deixamo-los encostados. O apelido carinhoso é cherry picking, o processo de escolha das cerejas, que aqui são metáforas para a seleção maliciosa dos dados que melhor comprovam nossas hipóteses. É incrivelmente comum em pseudociências ou em defesa religiosa. No primeiro caso, porque todas as variáveis de uma teoria e todas as amostras coletadas precisam ser levadas em consideração em uma pesquisa, não sendo possível descartar injustificadamente aquelas que não concordam com a tese central. No segundo, porque sabemos que há vários itens dos livros sagrados que, embora refutados, são colocados na conta do relativismo, sendo que outros vão para o rol dos argumentos válidos concretamente.

Platão e Xenofonte colhiam suas cerejas relativamente a Sócrates? Parece indubitável que sim, mas o lado de lá, Aristófanes, também o faz. Às vezes acontece de fazermos isso também, nem sempre porque queremos maquiar uma lógica, mas porque não damos atenção devida a fatos que, apesar de não os considerar significativos, existem. Isso é um cuidado que devemos sempre ter. Bons ventos a todos!

Recomendações de leitura:

Já mencionei a Apologia escrita por Platão, mas, como a mencionei aqui, segue novamente a recomendação:

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Porto Alegre: L&PM, 2008.

A obra de Xenofonte tem o longo nome de Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, mas é conhecida pelo seu nome mais curto. Cito esta obra por ser mais completa do que a sua Apologia.

XENOFONTE. Memoráveis. Coimbra: Fundação Calouste Gulbekian, 2009.

Por fim, segue a indicação da peça teatral de Aristófanes, que, aliás, volta e meia é encenada por estas bandas. Fiquem de olho nos teatros de suas cidades.

ARISTÓFANES. As Nuvens. São Paulo: Zahar, 1995.

 

* Como a história é meio longa, coloco-a aqui no fim para não tolher o ritmo do texto. Eu não mudei completamente para Taubaté. Ainda tenho o mesmíssimo apê alugado no centro velho de São Paulo, e estou aproveitando um cômodo da casa da minha filha mais nova como dormitório, escritório e oficina. Por conta do home office, passo mais tempo aqui do que lá, a ponto de adotar este endereço como meu domicílio. Taubaté é muito legal por ser um hub que facilita o acesso a muita terra legal. Quem sabe eu não acabe me fixando por aqui?