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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Sobre labirintite e a falseabilidade como demarcadora das Ciências (ou: um texto mais elaborado sobre Popper)

(Por que a Ciência traz resultados discrepantes entre si? O que faz com que uma atividade possa ser considerada científica?)

Olá!

"Vamos iniciar. Entre na cabine, feche a porta e coloque os fones. Você ouvirá alguns ruídos de frequência que variarão de intensidade e tom. Avise apenas se ficar insuportável".

"Agora, você ouvirá diversos sinais de intensidade diferente, primeiro no ouvido direito, depois no esquerdo. A cada vez que ouvir um destes sinais, aperte o botão do aparelho, mesmo que seja bem baixinho".

"Vamos agora fazer algo semelhante, só que com palavras. Eu direi uma palavra e o senhor a repetirá, a não ser que não a entenda. Não arrisque acertar; se não compreender, simplesmente não responda. Criança… tijolo… papel… (inaudível)... laranja… quadro… (inaudível)... ovelha… Somente monossilábicas agora: cão… giz… luz… mãe… sol… flor… lei. Tudo bem, pode sair da cabine e sentar na poltrona. Vou colar eletrodos em seu rosto”.

"Observe esta barra. O senhor acompanhará as luzes vermelhas que acenderão diversas vezes, às vezes à direita, às vezes à esquerda. Faça isso apenas com os olhos, sem mover a cabeça. Depois, faremos o mesmo para cima e para baixo".

"Neste momento, perceba que há um ponto vermelho na parede. Vou reclinar a poltrona e rotacionar sua cabeça para a direita. Em seguida, vamos voltar para a posição original e o senhor fixará seu olhar naquele ponto, evitando piscar por trinta segundos. Em seguida, faremos a mesma manobra para a esquerda".

"Vou agora fazer estímulos calóricos nos seus labirintos. Primeiro, faremos soprar ar frio em ambos os ouvidos. Depois faremos o mesmo com ar quente. Relate qualquer incômodo que sentir".

"Está concluído. Seu laudo estará disponível em trinta minutos. Passar bem".

Impedanciometria, audiometria tonal e vocal, nistagmo optocinético e pendular e o palavrão vectoeletronistagmografia, mais facilmente chamado de VENG. Essa é a batelada de exames que me passaram para tentar diagnosticar labirintite, que ameaçou me alcançar no episódio que relatei para vocês neste texto.

Peguei esse pacote todo e fui numa especialista em vertigens, que vaticinou: "você tem uma perda auditiva moderada no ouvido esquerdo. E com relação à labirintite, o resultado é inconclusivo. Passar bem".

Apesar da surdez ser o ápice de um processo degenerativo irreversível, é com uma ponta de altivez que recebo o diagnóstico. É como se fosse uma cicatriz de guerra, que mostramos aos nossos netos como prova de nossa coragem. Mas a minha batalha não envolvia fuzis e bazucas, mas guitarras e baterias. Eu já contei minha história musical, então não vou repisar tudo de novo, bastando que os prezados leitores leiam os seguintes textos (se quiserem): um, dois, três e quatro. A banda na qual eu passei mais tempo e produzi mais e melhor foi o Exílio, típico comboio de duas guitarras, baixo e bateria, com os vocais sendo exercidos em revezamento. Embora as ideias pululassem na cabeça e nas mãos, não tínhamos orçamento que prestasse, mas, como nem tudo é desgraça, o guitarrista-base era eletrônico, então conseguíamos fazer renascer velhos equipamentos que os fregueses deixavam de lado. Com isso, tínhamos instrumentos abaixo da crítica, mas os amplificadores e caixas não iam mal.

Formamos uma parede sonora bastante respeitável no auge. Um amplificador a transistor de 500 watts de potência real alimentava um woofer e duas cornetas próprios, que eram bons para baixo e vozes, e mais uma caixa acústica daquelas com base de concreto, pesadíssima, um inferno para carregar. Ela era alimentada por um amplificador valvulado, daqueles que só dão aquele delicioso fuzz típico dos hardões que tanto amávamos quando seu volume está devidamente arregaçado. O resultado é que qualquer passagenzinha de som fazia as paredes tremerem, para nosso gáudio e desespero da vizinhança. Se um artefato de tijolo e cimento é abalado, o que não se fará com as frágeis membranas de um tímpano perfurado já na infância.

Ah, sim, preciso contar essa também. Eu-menino, assim como qualquer guri da minha idade, imitávamos nossos pais no que eles tinham de pior. O meu velho gostava de limpar os ouvidos com o mesmo palito de fósforo com o qual acendia seus cigarros, para impaciência da minha mãe. Um dia resolvi fazer o mesmo, do alto dos meus quatro anos. Sabedor da censura certa, fui limpar meus ouvidos escondido atrás do tanque, só que com um palito de dentes. O resultado foi a perfuração, a correria para o médico e a posterior sova, tão expressiva de uma época.

Portanto, no final das contas, passa pela cabeça da gente aquele orgulho besta de quem tem uma história por trás da moléstia, uma história gloriosa, invejável até, que nos tira do lugar comum e nos dá uma distinção, e não um mero arrependimento de não ter feito exercícios regularmente.

Só que para além da proto-surdez havia a tal labirintite. Não fiquei feliz de não saber a causa exata das minhas tonteiras. Toda a narrativa que abre este texto demorou uns 40 minutos, e embora nem de longe tenha sido o pior exame que eu já fiz, não dá para dizer que virou um programa a ser repetido por prazer. E o que é pior: falta de diagnóstico representa tratamento claudicante, meio que na base da tentativa e erro. Por enquanto, só tenho a recomendação de evitar daqueles fones intra-auriculares e maneirar com volumes altos. Também devo ficar atento com alterações perceptivas com certas comidas e bebidas, e ça tout. Passe bem e volte se piorar.

Mas aqui cabe lembrar que a medicina está no campo da Ciência, e, por conta disso, os médicos, cientistas que são, não têm certezas. Quem tem certezas são curandeiros, pajés e outros ofertadores de curas milagrosas que multiplicam os dólares em programas de tevê. Com o resultado que tão bem conhecemos.

Mas se a Ciência se diz tão rigorosa com provas e experimentos, por que suas conclusões são tão imprecisas, por que seus resultados são tão variáveis, por que o que vale hoje não vale mais amanhã? Já notaram quantas vezes o ovo fazia mal, para depois fazer bem?

Para responder bem a esta pergunta, vou precisar retomar um antigo texto deste espaço (esse aqui) e formulá-lo melhor, com mais detalhes. Ele foi bom, mas todas as vezes que eu o releio, sinto falta de informações que o situam mais precisamente no tempo e na atual maneira de fazer Ciência. Chegou a hora, vamos nessa. Mas calma, não vou reescrever o projeto da roda.


Seria inviável resgatar historicamente toda a história das ideias científicas, porque eu teria que remontar à mais antiga das antiguidades do pensamento. Basta aqui relembrar as ligações do racionalismo com as deduções e do empirismo com as induções. No primeiro caso, temos a primazia do raciocínio na resolução dos desafios científicos. O Racionalismo prega que a Ciência é formulação, obtida a partir de um processo dedutivo que reduz a realidade a enunciados e axiomas capazes de estabelecer uma verdade universal e necessária. O Empirismo, por sua vez, estabelece que a Ciência tem como base a observação dos fatos através de experiências repetidas, produzindo abundante material observacional, porque se impacta pela maior oferta de experimentação, tornando-se mais firme a partir de mais casos analisados, em um processo francamente indutivo.

O grande problema é que ambas as concepções carregavam consigo dificuldades inerentes. O Racionalismo faz com que a Ciência nunca se descole da Metafísica, porque, embora a expressão matemática e a formulação lógica sejam úteis e necessárias, não se pode chegar a resultado algum sem que se olhe para o próprio cosmos. Já o Empirismo sofre de uma doença já detectada pelo próprio David Hume, um dos seus defensores: o problema da indução. Para que esta funcionasse a contento, precisaríamos de um universo estático e com visão da totalidade das coisas; do contrário, sempre poderemos ter um caso particular que divirja da generalização obtida. Uma indução é sempre incompleta.

O que há de comum em ambas as concepções? De uma forma ou de outra, ambas tentam retratar a realidade. Seja pela via da racionalização, seja pela via da observação, ambas buscam representações do cosmos que nos cerca, e entendem que seu objetivo é obtê-lo de maneira precisa.

Entretanto, desde Kant tornou-se consensual que a racionalidade existe, participa do processo cognitivo, mas que não é nada sem os conteúdos empíricos. Dessa forma, toda a Ciência que se praticou daí por diante deu grande ênfase ao processo indutivo, aquele que é extraído da experiência direta. Por esse motivo, a premissa básica da metodologia científica que imperou desde o Positivismo foi a verificabilidade. Proposta científica, portanto, é aquela que pode ser provada.

Isso andou nesses passos até o início do século XX. Eram épocas onde a Filosofia da Ciência era fortemente influenciada por três sendas: o Neopositivismo do Círculo de Viena (Wiener Kreis), a Filosofia Analítica e, um pouco mais tarde, a marxista Escola de Frankfurt. Karl Popper, pai do atual método científico, era contrário às três, embora seja vinculado pelos historiadores da Filosofia à primeira por questões de naturalidade. Dos frankfurtianos, dizia defenderem teorias sem cientificidade. Aos analíticos, reservava a crítica de que não somente as palavras são capazes de sustentar a Filosofia e, principalmente dos Neopositivistas de Viena, entendia que o critério de verificabilidade era insuficiente para tornar a metodologia científica de então algo que verdadeiramente traduzisse as reais possibilidades de conhecimento.

Estes filósofos eram assim chamados porque retomavam o princípio geral do Positivismo, que dizia ser apenas o conhecimento científico aquele verdadeiramente válido. Isso colocava qualquer outra forma de conhecimento, inclusive filosofias ligadas à Metafísica, no plano do pensamento inútil. Estabeleceram um critério para diferenciar as Ciências dos demais campos do conhecimento: Ciência era o conhecimento verificável. Tudo o mais eram conjecturas sem valor de verdade.

Com relação aos princípios científicos em voga, já havia uma série de críticas ao mecanismo indutivo tão caro ao círculo de Viena. Popper relembra do exercício mental do peru indutivista de Bertrand Russell, que usa do sarcasmo para demonstrar a deficiência do método. Ele é mais ou menos assim: imaginem que um jovem peru tenha chegado no começo do ano a uma granja. Ao receber seu alimento, percebe que ele foi dado às nove horas da manhã. Todos os dias a mesma experiência se repetia - nove horas, ração colocada. O acúmulo de repetições por dias e meses fez com que o peru indutivista conseguisse estabelecer uma regra, e que poderia esperar sua quota de alimentação todos os dias no mesmo horário. Pena que ele percebeu isso no dia 24 de dezembro, véspera de quando ele deixaria de ser alimentado para virar alimento.

A ironia de Russell não é gratuita, porque de fato estamos diante de uma base frágil demais se a pretensão é calcar a verdade, como queriam os positivistas lógicos. Basta uma única ocorrência discrepante para que toda uma teoria seja derrubada. Acompanhando esse raciocínio, Popper ensina que a indução simplesmente não existe, ao menos como geradora de certezas. Ele dá dois exemplos que se tornaram clássicos: sempre se poderá dizer que todos os cisnes são brancos, até se encontrar um que seja negro, e também que todas as moléculas de água serão compostas por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio, o que não pode ser uma certeza fechada até que se consiga verificar TODAS as moléculas de água do universo.

Outra crítica dizia respeito à suposta neutralidade do pesquisador. Segundo os vienenses, o cientista deveria se despir de todo juízo prévio antes de realizar suas observações, como na tabula rasa de John Locke. Popper chama essa atitude de observativismo, e dizia que a neutralidade almejada era um mito. A mente de qualquer pessoa não é um papel em branco, mas um quadro-negro, repleto de sinais deixados pelos usos anteriores. Percebem como ficam as lousas apagadas das aulas anteriores? Mesmo sem os riscos de giz, há tantos traços e resíduos que podem mesmo atrapalhar a compreensão da próxima lição que será escrita. Essa metáfora indica que estamos plenos de traços culturais, concepções já absorvidas, informações adquiridas desde o nascimento e, obviamente, preconceitos, em qualquer sentido que se pense. Não há como impedir que toda esse patrimônio preexistente se imbrique com o novo conhecimento pretendido.

Como há toda essa carga cognitiva e cultural já embutida não somente no pesquisador, mas em qualquer ser humano, toda observação nasce não como uma mera atividade, mas como um problema, no seu contexto negativo mesmo: uma perturbação a uma ordem preestabelecida que precisa ser resolvida. Sempre teorizamos as resoluções dos problemas, não há algo como uma mente pura que observa um fenômeno como se fosse uma criança.

Mas então, Popper pensa que a ciência é impossível? Não, apenas que precisa mudar seus próprios paradigmas, o que implica em ajustar sua metodologia e seu objetivo final.

Popper dá a letra de sua filosofia: qualquer quantidade de observações que confirme uma teoria não servirá para prová-la verdadeira, mas uma única observação que a contradiga torná-la-á falsa. Então é isso que um procedimento científico deve procurar - meios de falsificar uma teoria, de provar que ela está errada, e não de confirmá-la.

Como uma experiência de cunho científico nasce de um problema, a sua resolução envolve sempre uma proposta que precisa ser averiguada, uma concatenação lógica de ideias que pressupõe ser uma resposta ou, em uma só palavra, uma hipótese. Hipótese é um termo de origem grega que significa algo como "estar abaixo de uma posição". A hipótese não é uma solução definitiva, mas o nascedouro de uma tese.

Quando um cientista estabelece um objeto de observação, não abrirá mão do processo indutivo. Ele vai utilizá-lo até chegar a um ponto em que o estudo de casos particulares permita estabelecer uma hipótese. É neste ponto, no entanto, que o processo investigativo se estabelecerá. Ele já tem uma premissa universal estabelecida pela hipótese, e seu objetivo será não mais criar uma coleção de casos particulares, prosseguindo assim com o caminho indutivo, mas procurará pontos em que essa sua hipótese será provada falsa. Ele não procurará novos cisnes brancos, mas os cisnes negros. Ele vai combater a própria hipótese, e a cada vez que ela resistir, mais e mais consolidada se tornará. Esse é o seu novo método científico, conhecido como hipotético-dedutivo.

Mas e se a hipótese for falseada? Neste caso, será descartada e uma nova hipótese deverá ser criada. Em casos menos decisivos, no mínimo a hipótese deverá ser corrigida. E isso dá o tom geral na nova Ciência: ela precisa ter a pretensão da verdade, bem como a consciência de sua inatingibilidade, de seu caráter provisório, de sua incerteza. Uma hipótese nunca é provada – o que ocorre é que uma experiência que a coloque a prova pode confirmá-la ou refutá-la. Se a confirma, pode fortalecê-la, mas jamais dar-lhe estatuto de verdade definitiva. Isso acontece porque há uma assimetria lógica entre a verificabilidade e o falseamento. É tipo assim: enquanto o time da verificação vai fazendo gols, ele vai ganhando o jogo; assim que o time da falsificação faz o seu primeiro tento, já ganha o jogo, mesmo que esteja 25 a 1. Para um time, o objetivo é fazer o máximo de gols possível e não tomar nenhum; para o outro, é só fazer unzinho, uma espécie de morte súbita.

Esse é o motivo pelo qual muda-se a demarcação da Ciência. Uma teoria somente pode ganhar o estatuto de científica quando receber o selo de falseabilidade. É um processo que garante claramente o alcance da ciência, bem como onde ela não pode chegar. Não tenta retratar a realidade como queriam tanto racionalistas quanto empiristas, mas aproximar-se dela, o mais possível e pelo maior tempo que der, mas sempre sujeita a ser revista no dia seguinte. O conhecimento gerado por ela não é verdade absoluta, mas verossímil. Nunca teremos teorias definitivas, mas precisamos desafiá-las. É por isso que conhecimentos metafísicos e religiosos costumam se dar mal com o princípio da falseabilidade. Quem prova Deus? Quem demonstra os anjos e as almas? Todas as vezes em que se tentar achar pontos de falseabilidade para teorias envolvendo disposições metafísicas, falhar-se-á. Mas ainda aqui há um certo respeito pela parte de Popper. Pior para ele são as pseudociências (mencionadas aqui), que se travestem de carapaça científica sem o serem. Ele coloca nesse balaio o Historicismo de Marx, a Psicanálise de Freud e a Psicologia Individual de Adler, porque sempre que são mostradas falsas, encontram modos de tergiversar. A Revolução Proletária não ocorreu porque ainda os camponeses e operários estão na alienação, os processos psíquicos sempre são passíveis de ser explicados pela neurose e pela sublimação, e o sentimento de inferioridade possui uma plástica que permite adaptá-lo a qualquer circunstância. As coisas que são apresentadas como contraprovas a essas teorias são todas absorvidas pela sua maleabilidade, como se fossem mistérios divinos. Tudo isso impossibilita pontos de falseamento. E gera inimigos.

Sendo assim, se não há resultado definitivo para meus exames de labirintite, nada mais me resta a não ser se conformar ou procurar outros especialistas que possam se pronunciar no assunto, como um neurologista, por exemplo. Não adianta esperar por um espírito que venha me rastrear os males da alma. Não no âmbito da Ciência.

É claro que, apesar de todo consenso que atingiu nas academias científicas de todo o mundo, as teorias de Popper não são imunes às críticas. Alguns outros filósofos da Ciência, como Paul Feyerabend e Thomas Kuhn, já teceram outras teorias para explicar como pode se dar o desenvolvimento da Ciência. Além disso, as Ciências Humanas tem dificuldades em apresentar pontos de falseabilidade, não porque eles sejam impossíveis, mas porque são difíceis de atingir, como eu já havia dito neste texto. E há uma última questão: qual é o ponto de falseabilidade da teoria da falseabilidade? Onde ela pode ser provada errada?

Para este último ponto, a resposta é simples. Por mais que envolva diretamente a Ciência e seus métodos, trata-se de uma questão filosófica, e não científica. Ela tem um nascedouro especulativo, propõe-se a tratar do fenômeno em sua essência e é todo coberto pela lógica, sem que se precise provar nada a seu respeito. É por isso que Filosofia e Ciência não são a mesma coisa e precisam ter escopos distintos. E há quem diga que a Filosofia não sirva para nada... Bons ventos a todos!

Recomendações de leitura:

Impossível não fazer novamente remissão à magnum opus de Popper:

POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 1993.

Mas também é possível adicionar outras leituras, como a coletânea de artigos que segue abaixo:

POPPER, Karl. O Mito do Contexto. Em Defesa da Ciência e da Racionalidade. Coimbra: Edições 70, 2016.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

O café filosófico do quotidiano – as Ciências Humanas podem ser abarcadas pelo método científico?

(Volta e meia, há uma pequena guerrinha sobre a validade das Humanas como objeto do conhecimento. Pelas suas dificuldades em se amoldar ao método científico, há razão em dizer que elas são “menos” ciências que as naturais?)

Olá!

Clique aqui para ler mais cafezinhos de minha lavra

Quando eu falo dos meus métodos de passar café, tem gente que me pergunta por que eu não coleciono chaveiros, que são muito mais baratos. Bem, os motivos são dois: 1) eu também coleciono chaveiros e 2) eu não coleciono métodos de extração, apenas gosto de poder variar de vez em quando. É que existe uma gama tão variada de grãos, de torras, de espessuras que só conseguimos chegar ao melhor ponto através de diferentes apetrechos. E eles são muitos mesmo. Por isso, uma boa parte do prazer do café está na pesquisa, e isso inclui ter vários métodos disponíveis, sendo que alguns são mais simples, e outros mais sofisticados. Um deles é a cafeteira de sifão, mais conhecida como globinho.


É uma verdadeira aula de física, que demonstra como funcionam vários princípios da termologia e da dinâmica dos fluídos. Basicamente, são dois balões onde ocorrem processos de convecção e sucção por rarefação de ar (não dá para chamar propriamente de vácuo). Uma lamparina que aquece a água no bolão de baixo é o início do procedimento.


Quando a água está próxima ao ponto de fervura, é encaixado o balão de cima, onde já deverá estar contido o café em ponto de moagem médio.


Assim que chegar ao ponto de fervura, a água subirá pela cânula do recipiente superior e começará a se misturar ao pó. É preciso ter em mente que restará um pouco de água na parte de baixo, por isso a quantidade de pó deverá estar bem adequada ao processo.


Neste momento, é preciso apagar ou retirar a lamparina, para que a parte baixa esfrie e inicie a sucção, que força o líquido a passar pelo filtro embutido no alto da cânula. Aos poucos, o café excessivamente forte que está no alto vai se diluir na água que restou no bojo inferior.


Por fim, é só servir.



Nome do utensílio: cafeteira de sifão (globinho)

Tipo de técnica: percolação por sucção térmica

Dificuldade: Alta

Espessura do pó: Médio

Dinâmica: um processo de fervura no bojo inferior faz com que a água suba por uma cânula a um globo superior, onde está depositado o café. Cessando a fonte de calor, a troca na rarefação do ar fará com que a infusão contida no globo superior seja sugada para o inferior, em um efeito sifão.

Resíduos: Poucos

Temperatura de saída: Muito alta

Nível de ritual: Alto

Não tenho a menor vergonha de dizer que comprei esse aparelho usado, porque era um daqueles negócios de ocasião, e está em estado de novo e funcionando perfeitamente. Dá a impressão de que o ex-dono ganhou de presente e não gosta de café. Afinal de contas, ele custa o olho da cara e era luxo demais pagar o preço que normalmente pedem por ele. Melhor assim: alguém que quer se desfazer da coisa obtém algum trocado de quem a aprecia e se propõe a pagar um preço camarada de verdade.

Como é possível supor pelo meu relato, o processo todo não é exatamente rápido, por isso dá tempo de pensar em um monte de filosofias. A cafeteira globinho é quase um instrumento científico, daqueles de laboratório, que trazem a imagem mental que normalmente fazemos sobre a Ciência. E, diante de mim, vejo todo um experimento que é possível de reproduzir e registrar, como preconiza toda a metodologia científica. Se formos pensar bem, é possível que eu isole variáveis no processo e comece a fazer medições sérias: controle de temperatura, densidade do líquido antes e após a filtragem, pH do composto também antes e depois, pó mais espesso ou mais fino, velocidade da infusão e demais que-tais, exempli gratia. Isso começaria a dar cara de metodologia em uma coisa trivial, e às vezes saber o que essa construção significa pode ser bom para nos posicionarmos.

Diante da torrente irrefreável de baboseiras que a pandemia nos trouxe, eu resolvi contribuir com os meus centavos de conhecimento acerca dos mistérios sobre o que é a Ciência e suas metodologias, e falei sobre a lógica aplicável à pesquisa, aos rigores dos métodos e até mesmo ao controle dos vieses. Entretanto, como eu estava tendo em mente em especial as abobrinhas que se falam sobre remédios e vacinas, acabei deixando uma lacuna importante, que achei conveniente suprir agora: a metodologia aplicada a Ciências Naturais é a mesma que utilizamos para Ciências Humanas?

Não vamos ter, meninas e meninos, como fugir de delinear o que é esse marco divisório. Nós chamamos de Ciências Naturais todas aquelas a quem chamo graciosamente de "ciências de jaleco", majoritariamente feitas em laboratórios e observatórios, mas que também utiliza muito campo, especialmente para a obtenção dos dados que serão analisados. São aquelas que investigam a natureza de modo independente ao que a humanidade lhe interpõe de cultura, e são aquelas que mais nos causam temor nas grades curriculares: Física, Química, Astronomia, Biologia, Medicina e outras mais. Já as Ciências Humanas estudam todos aqueles fenômenos onde o homem põe a mão de alguma forma. Não nos lembramos dos cientistas de jaleco quando pensamos neles, mas nas atuações junto às comunidades humanas. Engloba áreas sociais, como a Sociologia, Antropologia, Psicologia, Direito, Economia e outras áreas de registro, como a Geografia e a História.

Bom. Existe a lenda de que o pessoal das hard sciencies acha que os cientistas de humanas são maconheiros que gostam de abraçar árvores e aplaudir o sol, enquanto no sentido contrário temos raptores do termo, que se fecham em suas torres de marfim e esquecem do restante do mundo. Nada mais do que estereótipos colocados em prática, com o componente alienação sempre em altos teores. Pode até ser que um ou outro tenham lá suas rusgas, e precisamos levar em conta que a aplicabilidade do método científico como vimos até agora realmente dá uma travada quando olhamos para uma sociedade ou uma cultura ao invés de um vírus ou um asteroide.

Vamos ver. Podemos ter várias maneiras de definir o termo Ciência, mas a melhor maneira é dizer que, em um conceito generalizado, trata-se do estudo da realidade. Essa realidade, obviamente, é completamente multifacetada, e embora as diferentes áreas façam suas interlocuções, cada uma delas abrange um grupo de conhecimentos bastante específicos. Comparando a realidade detectável (tchau, metafísica) com uma casinha, podemos perceber que cada um dos cômodos tem suas sutilezas e uma função específica, e também que cada um deles representa um pedaço da realidade total. Assim, temos um cômodo que representa o cosmos e seus componentes, como as galáxias, as constelações, os buracos negros, os pulsares e tudo o mais que exista no espaço sideral, e este cômodo é a Astronomia. Outro cômodo contém as reações entre os diferentes compostos, as mudanças de estado, as combinações e misturas e a forças de interação entre as substâncias, e é o cômodo da Química. Em mais um, há o funcionamento dos corpos, a fisiologia dos órgãos, as funções dos sistemas e temos o cômodo da Medicina, e assim tantos outros da nossa edificação. Todos são campos do conhecimento, disso não resta nenhuma dúvida. Mas há outros ainda, que contém outras características: há um cômodo onde é vista a sociedade, suas relações e seus funcionamentos; há outro onde vemos a cultura dos diferentes povos e como elas se imbricam e transformam, e há ainda outro em que observamos como opera a mente, como ela interage com os organismos e de que maneira reage às variações do ambiente. A sociedade, a cultura e a mente também são partes da construção que chamamos de realidade, alicerçadas pela Filosofia e com as paredes erigidas pela Lógica e pela Matemática.

Sendo assim, tanto as Naturais quanto as Humanas vencem o critério de objeto de estudo, sem nenhum tipo de distinção. A coisa ganha complexidade na medida em que estipulamos métodos de pesquisa que devem ser atendidos para que a área produza trabalhos de natureza científica. Partindo do mais básico, um método precisa conseguir definir o objeto que estuda, explicar o seu funcionamento, fazer predições sobre sua repetição futura, controlar as variáveis que influenciam na sua ocorrência e estabelecer situações em que a hipótese proposta deverá falhar e demonstrá-la como falsa. Vamos usar um exemplo das ciências naturais: a curvatura de um chute na direção do gol.

Vamos começar pela definição: a curvatura de um chute é o desvio de uma linha reta imaginária que liga o ponto de estado de repouso de uma bola até o atingimento de um ponto específico no espaço (no caso, o ângulo superior esquerdo de uma trave - um golaço!). Essa definição é importante porque serve para excluir chutes retos, arremessos laterais e outros possíveis objetos não abrangidos. Ou seja, sabemos exatamente o que estamos estudando.

Em seguida, vem a fase da explicação. Por que um chute foge à intuição de que ele descreveria uma linha reta? Normalmente, dois fatores influenciam na trajetória da bola de forma que a mesma descreva um arco: a sua rotação e a força do vento. Dessa forma, podemos explicar o fenômeno como o resultado da aplicação de uma força em um ponto tal da bola que a faça girar. A bola posta em rotação atrita com as camadas de ar de forma a fazê-las servir de "apoio", como se a bola estivesse rolando em um chão de baixa densidade. Isso faz com que a bola ganhe um ponto de translação imaginário, influenciada ainda pela força e direção do vento.

A boa técnica metodológica dita ainda que as variáveis que influenciam no processo devem ser detectadas e controladas.  A bola teste, por exemplo, deverá ser uma oficial. Ou seja, terá uma medida fixa e não será uma das variáveis. No entanto, ela deve ser experimentada com diferentes pressões e em diferentes tempos de uso. Deverão ser detectados os exatos pontos de impacto de cada um dos chutes, a velocidade e direção do vento deverão ser medidas a cada execução da rotina e, se possível, deverá ser tentada a mesma experiência em uma câmara de vácuo.

Com tudo isso, o método científico deverá proporcionar predições, ou seja, dadas tais e tais condições, o resultado será x ou y. Se eu chutar a bola com a parte externa do pé exatamente a três centímetros de seu centro, com vento na direção leste e velocidade de dez nós, teremos como resultado uma curvatura de quinze graus e ponto de entrada na meta a dois centímetros do travessão e cinco da trave lateral esquerda. Outro golaço.

Por fim, a declaração de falseabilidade, afirmando que se o chute dado em condições de curva com velocidade do vento neutra nunca poderá ser reto. Os resultados sempre serão passíveis de críticas, mas estão de acordo com a metodologia científica atualmente aceita nos meios acadêmicos.

Agora, vamos fazer o mesmo paciente exercício em uma ciência humana. Em minha hipótese, preços baixos de ingresso farão com que um estádio consiga incremento de público. Primeiro, a definição: o preço dos ingressos é um dos fatores principais que influenciam a frequência de público em estádios de futebol.

A explicação é simples: em países com baixa renda e preços de ingressos além do poder aquisitivo, camadas grandes de população terão seu acesso dificultado a eventos que, in extremis, não façam parte dos pacotes de primeiras necessidades. Entretanto, como há um grande apreço pela prática do esporte, existe uma demanda reprimida que poderá ser ativada por dois fatores: o aumento da renda ou a diminuição do preço do ingresso.

Os fatores de controle do experimento deslizam em dois eixos: variar a renda do público em estudo e fazer várias escalas de diminuição do preço do ingresso, fazendo descer da exorbitância a um lucro moderado, depois ao empate custo/benefício e até mesmo à gratuidade. A predição será no seguinte sentido – dado um declínio no preço até X ponto, o incremento na demanda será de Y por cento. Ou coisa parecida. Finalmente, os pontos de falseamento poderão ser os seguintes: a baixa dos preços não refletir aumento na demanda, a elevação da renda não representar aumento na demanda.

Quando observamos a aplicabilidade do método no primeiro exemplo, tudo está de acordo, lembrando que é apenas um exemplo ilustrativo. No segundo, no entanto, vamos encontrar muitos problemas de aplicabilidade. Na fase de definição, está tudo certo, ambas são idênticas. Na explicação também, partindo da premissa que estamos usando o método dedutivo-hipotético, e é essa a premissa a ser testada. O busílis começa a partir do controle. Como vou fazer para variar a renda de uma grande fatia da população e ver o reflexo na aquisição de ingressos? Esse controle somente seria possível com intervenção governamental, que provavelmente  estará mais preocupada com outras políticas públicas do que com a compra de ingressos. Outro caminho seria convencer os clubes a baixar os preços, coisa mais factível, mas, a meu ver, mais indesejada. E daí a aferição fica prejudicada, restando métodos indiretos de coleta de dados, como as entrevistas e surveys. Isso tudo vai afetar diretamente a capacidade de predição, porque a base que precisará ser pesquisada é muito mais ampla, e as variações da população e do momento vivido por aquele agrupamento são compostos por fatores imensamente mais variáveis que aquelas do experimento da bola.

A grande questão é a seguinte: não há, para as Ciências Humanas, como seguir um único paradigma. Se realizarmos um experimento laboratorial de Ciências Naturais em qualquer parte do mundo, ele deverá ter resultados sempre iguais, com raras exceções muito específicas. O exemplo da bola deverá ter os mesmos resultados se forem realizados no Brasil, na Finlândia, na Tanzânia, no Camboja ou nas Ilhas Fiji, porque contém um conjunto limitado de variáveis e que são todas controláveis. Já a experiência dos estádios seria fundamentalmente diferente em cada um desses países, porque os brasileiros gostam de futebol, mas os finlandeses preferem hóquei, os tanzanianos curtem corridas de fundo e assim por diante. Não será possível obter repetibilidade pelo único fato de se mudar de país. As raras exceções que mencionei dizem respeito a especificidades. Em Naturais, por exemplo, não há como realizar experimentos em vulcões no Brasil. Outra questão diz respeito a uma ciência dura, a Meteorologia. Ela tem uma dificuldade preditiva muito grande, porque atende a uma série de sistemas não-lineares que tornam praticamente impossível de manter uma previsão sólida. Basta um ventinho maroto vindo de estibordo para mudar todo um temporal em uma insuficiente brisa de um dia tropical. Por esse motivo, dizemos que as Ciências Naturais são monoparadigmáticas, enquanto as Ciências Humanas são multiparadigmáticas. E o que é esse tal de paradigma?

Paradigma está por trás de tudo o que falei até agora. É uma padronização em que encaixamos um conjunto de procedimentos e que deve guiar as pessoas na busca de um resultado. É como se fosse um modelo: um paradigma de bom jogador é aquele que proporciona a si mesmo o preparo físico mais adequado, com boa técnica de execução de jogadas e ótima consciência tática. O paradigma de pesquisa científica para as Ciências Naturais, que incluem todas as fases que mencionei neste texto, é apropriado para elas, que não necessitam de um segundo, terceiro ou quarto paradigmas, o que é de rigor para as Ciências Humanas. Estas não podem ficar presas a um único paradigma, embora não possa deixar de tê-los. Precisa quantificar dados, estudar casos, coletar bibliografia e fazer muito, mas muito campo para fundamentar suas teses, do contrário... aí sim teremos mero achismo.

Não é ninguém menos do que Karl Popper, o pai da falseabilidade incluída no método científico, que diz que não faz sentido querer atribuir a mesma objetividade das Naturais nas Humanas. Ele diz que o cerne da Ciência é o conhecimento e que o cerne do conhecimento é a problematização, que vem da ignorância, no final das contas. As Humanas atacam problemas da mesma forma que as Naturais, e pelo mesmo propósito: superar a ignorância. Observar um problema social, por exemplo, causa o efeito de se defrontar com uma dissonância com o conhecimento que possuímos. E aí as Humanas seguem, de certa forma, o mesmo curso das Naturais, porque produz soluções abertas à crítica, e que são aceitas enquanto resistir a elas. Isso porque também aqui temos a mesma mágica de qualquer Ciência – ela não deve procurar SER a verdade, mas se APROXIMAR da verdade. A objetividade de toda Ciência reside na objetividade do método crítico, e isso toda Ciência tem, inclusive as Humanas. Bons ventos a todos!

Recomendação de leitura:

Citei  Popper, e este é o livro que a quem me refiro:

POPPER, Karl. Lógica das Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2004.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Sobre o dogmatismo na ciência e a falsificação como seu remédio

Olá!

Há pouco tempo atrás, publiquei um texto que versava sobre a loucura (vide). Seu mote principal foi a questão da impossibilidade de defini-la, já que não temos como fechar um paradigma absoluto sobre o que é a razão. Se não defino o modelo, não tenho como identificar os pontos contraditórios para estabelecer um oposto seu. O problema é que acabei por bater um bom tanto na Ciência, por conta de sua postura arrogante de detentora exclusiva do conhecimento. Não é bem assim, mas tenho lá minhas razões.

Para esclarecer um pouco melhor a minha posição e lançar novas pimentas neste caldo, vou dar uma de Professor Pasquale e convocar o músico Chico Teixeira para nos ajudar a pensar melhor no busílis. A música chama-se “Mochileira”, e é de autoria de Geraldo Roca. Vamos prestar atenção no pequeno trecho grifado:


Moça, deixe que eu ligue meu olhar em você
Você é mesmo uma cigana bonita

Refrão:
Mochileira, deite comigo essa noite
E conte alguma boa e velha história
De umas noites de mágica em Machu Pitchu
E os dias dourados na Califórnia

O encanto se foi, mas você diz acreditar
No bem, na revolução, no amor,
No pé na estrada, no zen
Sua vida é um trem indo embora
Trens, estradas, cidades
Que a mim já não empolgam, meu bem
A minha alma adoece
No Rio ou no Nepal
O meu mal, nenhuma certeza
O seu mal é certeza total

Dança, mochileira, que eu toco a guitarra
Dança, mochileira, e aquece a minha alma

Refrão

Você tem o dom de viver em qualquer lugar
Mesmo quando o medo vem
Uma noite nos Andes é fria
Mas o frio, ele é fácil de espantar
Os Deuses sabem que a estrada ainda é uma farra
E depois o trovão não assusta
Alguém com essa marra de ser
Do tipo de cigarra que canta na chuva

Refrão


Aqui aproveito para abrir parênteses. Trata-se de uma música rural (não dá prá chamar de sertanejo – infelizmente hoje isso é sinônimo de... deixa prá lá) muito bem construída, como pode ser ouvido neste link (gravação bem mais ou menos). É sobre isso que afirmei neste post, onde digo que a obra de arte pode ser reconhecida como tal se ela basta a si mesma, ou seja, se ela por si só tem o condão de fazer pensar, de causar admiração, etc. A má arte (termo contraditório...) suscita debates outros que são externos a ela. Leiam lá para entender.


Bem, vamos ao assunto. O trecho grifado diz “... o meu mal, nenhuma certeza; o seu mal é a certeza total”. O eu-lírico se depara com as dúvidas existenciais de seu interior, enquanto nossa mochileira é a personificação da impulsividade. Há um conflito entre a impossibilidade de aceitação passiva e a confiança ilimitada. É o velhíssimo debate entre ceticismo e dogmatismo, uma das bases da disciplina filosófica conhecida como “Teoria do conhecimento”.

Ambos têm visões opostas com relação à possibilidade da cognição. Para um, a verdade existe e é absoluta. Pode ser conhecida, geralmente sob guia de uma autoridade. Já o ceticismo coloca o indivíduo em dúvida permanente, ocasionando uma incerteza com relação à verdade.

A ciência inicialmente se apega ao ceticismo, que tem necessidades empíricas para satisfazer suas hipóteses. De forma sistemática, isso nasce com Francis Bacon, que estabeleceu uma metodologia completa para as observações científicas, o Novum Organum, com as devidas limitações da época. Fica estabelecido que apenas um conjunto amplo de investigações pode dar fundamento a uma conclusão. Divagações dedutivas são um bom exercício lógico, mas não passam disso. Afinal, uma dedução nada mais é do que o reconhecimento de uma implicação já existente nos sujeitos envolvidos. É aquela velha historinha do silogismo: Todos os homens são mortais – Sócrates é homem – Sócrates é mortal. Ou seja, nenhuma novidade, apenas constatações.

Para fins de ciência, utilizar-se-ia a formulação de hipóteses e a sua comprovação através de raciocínio indutivo. Este nasce da observação da repetição dos fenômenos, em uma relação de causa e efeito. Quanto mais se observa o deslindar de um fato, maior é a quantidade de informações que provam a conclusão que a investigação acaba por levar a cabo.

Acontece que a indução tem um grave problema, já detectado por David Hume. Ao contrário do que acontece na dedução, não há necessidade lógica de que as premissas em uma indução sejam sempre verdadeiras para que a conclusão também seja verdadeira. Seus argumentos podem ser fortes ou fracos, nunca válidos ou inválidos. O exemplo de Hume é baseado no nascimento de cada dia. Por experiência, somos induzidos a concluir que toda manhã um belo sol estará a nos iluminar, sendo o propulsor de toda a alegria humana, abismada a contemplar as flores colorindo os voluptuosos campos, os gráceis pássaros a construir seus ninhos e a água que se esparrama em suas margens como se fosse um informe lençol a cobrir de benesses nossos horizontes. Só que nada há de ilógico em que nada disso ocorra e que o sol se apague para sempre. Uma só vez que a regra se quebre, e a indução, juntamente com suas leis, teses, axiomas, corolários e princípios, vão todos juntos, de braços dados, para o vinagre balsâmico com um ramo de alecrim.

O que fazer então, se a dedução não acrescenta nada de novo a um fato e a indução nunca fornece conhecimento seguro? Impossibilita-se a ciência e pronto?

Uma proposta bastante interessante é colocada pelo filósofo austríaco Karl Popper. É o que ele chamou de falsificacionismo ou falseabilidade. Através desta teoria, ele procura fazer com que o rio da ciência corra em um leito seguro, principalmente porque relativamente indefinido. Popper preconiza que não existem comprovações científicas, mas teorias não refutadas.

Em primeiro lugar, Popper estabelece que o critério de falseabilidade é o divisor de águas entre aquilo que pode e que não pode ser classificado como ciência. Para ele, tese científica é aquela que PODE ser falseada, ou seja, refutada. Todas as outras constatações, que não podem ser contraditas empiricamente, estão fora do alcance científico, são de outras áreas do conhecimento. Exemplos: a afirmação de que os anjos rodeiam todos os ambientes pertencem à religião, e não à ciência, já que não são passíveis de serem mensurados empiricamente; o mesmo vale para a observação metafísica de que o ser é externo ao indivíduo, à constatação estética de que a arte é expressão do belo. Como não podem receber oposição por meio de experimentação, pertencem a campos de conhecimento distintos da ciência. Também as tautologias não podem ser encaradas como científicas. Uma afirmação do tipo “O dia ficará claro enquanto não escurecer” é obviamente não científica, porque é uma assertiva que não tem possibilidade de ser falsa. De cara, portanto, Popper já coloca a ciência em seu devido eixo, justamente colocando-a em constante desafio: o de que as teses deverão resistir a oposições.

Podemos afirmar que Popper é um cético? De certa forma sim, mas sua proposta, no entanto, não deve ser tomada em um sentido radical como faz Hume e os céticos pós-clássicos, como Sexto Empírico, que defende a epoché, suspensão do julgamento pela impossibilidade de se conhecer a verdade. Popper pensa que a ciência se torna dogmática ao crer indistintamente em seus princípios, fugindo de uma de suas principais características, que é a investigação permanente. Ele imagina o seguinte: as teorias nada mais são que conjecturas, que podem ser desfeitas a qualquer tempo. Isso não mata a teoria, mas faz com que ela seja revista e ajustada. Na verdade, ele pretende que as teorias científicas se renovem continuamente.

Mas por que as teorias científicas devem ser passíveis de revisão permanente? Porque elas buscam atingir uma universalidade impossível. O homem não possui técnica e alcance suficiente para chegar aos “limites” do universo, para verificar se suas experiências produzirão resultados consistentes em qualquer tempo e em qualquer lugar. Mas a cada vez que se avança, a cada vez em que for possível verificar a aplicabilidade das leis científicas em novas condições, a teoria pode ser derrubada. Na maioria das vezes, isso não a invalida, mas a modifica, e, no limite, a aperfeiçoa.

Neste sentido, Popper assina um libelo contra a “preguiça” na ciência, que não pode ser refém de uma atitude que, levada a extremos, transforma as teorias científicas em dogmas, tão ao contrário do que o próprio espírito da ciência requer. A ciência ganha status semelhante ao religioso ao dogmatizar-se, lembrando que esta última tem a escusa de se caracterizar pelo reconhecimento da autoridade que dita a verdade.

Por fim, não tenho rigorosamente nada contra a ciência. Só penso que é necessário ao próprio espírito científico reconhecer os limites de sua atuação, sem arrogar a si mesmo o estatuto de proprietário exclusivo da verdade, o que ele não é nem deveria pretender ser.


Recomendações:

Falei muito rapidamente sobre o pensamento de Karl Popper. Ele é beeeeeeeeeeem mais detalhado e interessante. Recomendo a seguinte obra para melhor conhecer seus pensamentos sobre o problema da indução e a falseabilidade.

POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 1993.


Mencionei a metodologia científica de Francis Bacon. É meio chatinho de ler, principalmente a segunda parte, que descreve os métodos de pesquisas, mas historicamente é um documento importantíssimo, porque marcou a transição entre os períodos medieval e moderno, com uma guinada muito significativa na linhagem dos pensamentos então praticados. A primeira parte, aliás, contém uma interessantíssima teoria acerca dos ídolos. Vale o esforço.

BACON, Francis. Novum organum: Verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. São Paulo: Nova Cultural, 1999.


Por fim, o CD do Chico Teixeira. Ótimo violonista, filho do consagrada Renato Teixeira. Este é o padrão de música sertaneja que eu aprecio. Recomendo a audição para que se saiba que as coisas podem ser muito boas, independente do rótulo que possuam.

TEIXEIRA, Chico. Mais que um viajante. São Paulo: Microservice, 2011. 01 mídia (CD).